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quarta-feira, 13 de maio de 2026

.: Crítica: "Charuto de Mel" é fuga de aprisionamento feminino nos anos 90

"Charuto de Mel" pode ser assistido no site e aplicativo Reserva IMOVISION

Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em maio de 2026


O longa dramático focado em comportamento"Charuto de Mel"dirigido por Kamir Aïnouz, mergulha na naturalização imposta pelo patriarcado, o que, fatalmente, esbarra na falta de liberdade sexual. Assim, os dilemas da jovem Selma (Zoé Adjani), crescem tal qual uma bola de neve, uma vez que ela está numa família argelina tradicional que vive na França dos anos 90. Rebelde para transgredir algumas normas impostas, Selma, metade argelina e outra metade francesa, luta pela liberdade, o que acaba refletindo no modo de a obediente mãe (Amira Casar) tomar decisões, inclusive.

Disponível no site e aplicativo Reserva IMOVISION, a produção de 2020 exibida no Festival de Veneza e na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, permeia tabus de sexualidade e regras patriarcais quando a paixão juvenil entra em pauta. É ao se apaixonar pelo também estudante Julien que brota em Selma a necessidade de transgressão, o que ganha contornos notáveis aos pais.

Na tentativa de encaminhar a filha para um possível casamento com um conhecido e de família endinheirada, os pais a jogam para experimentar o pior de uma vida feminina. Contudo, Selma mantém em silêncio as dores de ser mulher, enquanto amadurece e busca independência. Focando no amadurecimento e comportamento, sem floreios e encantamentos, no excelente  "Charuto de Mel", a história de vida Selma revela aproximação, em certos pontos, com a de qualquer outra mulher. Imperdível!


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A equipe do Resenhando.com acompanha os filmes por meio da plataforma de streaming Reserva Imovision, dedicada ao cinema independente e autoral. Para acessar o catálogo completo, conferir novidades e realizar sua assinatura, o aplicativo da plataforma ou o visite o site oficial neste link. A Reserva Imovision reúne filmes e séries cuidadosamente selecionados, ampliando o acesso a obras que valorizam a diversidade cultural, a reflexão e experiências cinematográficas diferenciadas.

"Charuto de Mel" (Cigare au miel). Gênero: DramaDireção: Kamir Aïnouz. Roteiro: Kamir AïnouzDuração: 1h 40 minutos. Classificação Indicativa: 16 anos (Violência, Conteúdo Sexual, Drogas Lícitas). Distribuição: Imovision. Elenco: Zoé Adjani (Selma)Amira CasarLyès SalemLouis PeresIdir Chender. Sinopse:  história narra a trajetória de Selma, uma jovem argelina de 17 anos que, ao se apaixonar e explorar sua sexualidade, enfrenta as rígidas regras patriarcais de sua família e o crescente fundamentalismo em seu país, buscando sua liberdade.

Trailer de "Charuto de Mel"



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segunda-feira, 11 de maio de 2026

.: "As Centenárias" em nova versão com Juliana Linhares e Laila Garin no teatro


Espetáculo com texto de Newton Moreno fica em cartaz no Sesc Bom Retiro, de 14 de maio a 14 de junho, com direção de Luiz Carlos Vasconcelos e trilha inédita de Chico César. Foto: Andrea Nestrea 

Quase duas décadas depois de marcar o teatro brasileiro com as interpretações de Marieta Severo e Andréa Beltrão, a peça "As Centenárias", de Newton Moreno, acaba de ganhar uma nova montagem, com estreia em abril, no Rio de Janeiro. O espetáculo dirigido por Luiz Carlos Vasconcelos tem, agora, sua temporada de estreia paulistana no Sesc Bom Retiro, de 14 de maio a 14 de junho. Desta vez, a peça, em versão musical inédita, é protagonizada por Juliana Linhares e Laila Garin, que revisitam a obra a partir de uma perspectiva contemporânea, sem perder a força da tradição que consagrou o texto. O elenco conta ainda com o ator Leandro Castilho, que interpreta mais de seis personagens na montagem.

A nova encenação aprofunda a relação da dramaturgia com a cultura popular ao incorporar 16 canções originais que passam a conduzir a narrativa, compostas por Chico César, que também assina a direção musical, ao lado de Elísio Freitas.  A trama acompanha duas mulheres centenárias que percorrem o sertão realizando rituais de despedida - uma história que equilibra humor e emoção ao retratar a força das tradições, da oralidade e da ancestralidade nordestina. 

Para Laila Garin, assumir uma personagem marcada na história do teatro brasileiro é também um processo de reinvenção. “É muito doido tirar do papel essas personagens muito inspiradas, pela montagem de Aderbal Freire Filho, com Marieta Severo e Andréa Beltrão. Inclusive, fui pedir a bênção de Marieta Severo para encarnar Dona Socorro e ela me deu essa bênção, graças a Deus. E agora nos ensaios estamos descobrindo o nosso caminho, qual é a cara dessa montagem”, afirma a atriz, que destaca o processo de construção da personagem como uma jornada de descobertas.

Juliana Linhares ressalta que a nova leitura nasce do encontro entre teatro, música e identidade regional. “Eu já tinha vontade de fazer algum projeto com a Laila há muito tempo, e um dia surgiu a ideia: e se a gente fizesse ‘As Centenárias’? Com duas atrizes nordestinas e cantando. Como o carpir está ligado ao canto, pensei que as canções poderiam surgir desse choro. A música para mim é um motor dessa montagem”, comenta.

Leandro Castilho, que interpreta mais de seis personagens na trama, relata as dificuldades desse tipo de atuação. “É sempre um desafio porque cada peça tem uma linguagem diferente. A transição entre eles é uma coisa que não dá nem para pensar muito. Nesse espetáculo, eu estou no processo de desenhar cada personagem, porque trabalho muito a partir do corpo. O corpo sugere uma voz, que sugere um trejeito, e assim vou criando esse desenho desse personagem, esse contorno. Mas agora, estou no momento de dar uma suavizada nesses contornos todos, trazer um pouco mais para mim”.

Responsável pela trilha inédita, Chico César explica que o processo de composição partiu diretamente da dramaturgia de Newton Moreno. “Eu recebi o texto do Newton Moreno já com indicações de lugar onde ele queria as canções, já com letra. No geral, respeitei aquilo, alterei uma coisa ou outra. O texto é muito bonito, muito forte. Acho que trazer essa voz da mulher brasileira com essência nordestina é uma alegria para mim”, diz o compositor.

À frente da direção, Luiz Carlos Vasconcelos reforça a importância do acesso à cultura. “Para que mais brasileiros consumam teatro, é fundamental investir em políticas públicas.  Ninguém gosta do que não conhece. É fundamental que, desde a escola, as crianças tenham acesso à arte, ao teatro e ao cinema, e sejam estimuladas a assistir. Assim, podem desenvolver esse interesse e ter a possibilidade de escolha. É necessário incentivar esse contato desde cedo e facilitar a circulação das obras: que o poder público, federal, estadual e municipal, promova espetáculos, festivais e mostras. Só assim as pessoas terão mais acesso e poderão consumir arte, teatro e cinema”.  

O autor, Newton Moreno, destaca que se interessou pela adaptação musical da obra assim que a ideia lhe foi sugerida. “É importante considerar que as carpideiras realizam uma base relevante de seu trabalho por meio de cantos, rezas, ladainhas. Há uma demanda musical muito forte na orquestração do luto”.  


Apresentado por: 
Lei Rouanet | Bradesco Seguros
Correalização:
Ágapa – Criação e Produção Cultural | Sarau – Cultura Brasileira 
Realização:
Sesc | Ministério da Cultura | Governo do Brasil
Ficha Técnica
Texto e letras: Newton Moreno
Letras e músicas: Chico César
Uma encenação de Luiz Carlos Vasconcelos
Direção Musical e Arranjos: Elísio Freitas
Direção de Movimento e Assistente de Direção: Vanessa Garcia
Direção Geral e Produção artística: Andréa Alves
Diretora de Projetos: Leila Maria Moreno
Com: Laila Garin e Juliana Linhares
Ator convidado: Leandro Castilho
Desenho de som: Gabriel D’Angelo
Iluminadora: Elisa Tandeta
Cenógrafa: Aurora Campos
Figurinistas: Kika Lopes e Heloisa Stockler
Visagista: Mona Magalhães
Coordenadora de produção: Hannah Jacques
Produção Executiva: Matheus Castro
Projeto gráfico: Beto Martins
Assessoria de Imprensa: Pombo Correio Assessoria de Comunicação
Sinopse
A peça acompanha duas carpideiras profissionais do sertão nordestino – que, ao longo da narrativa, encontram muitos personagens e expõem suas histórias, amores perdidos, fragilidades e tensões.

Serviço
Temporada: 14 de maio a 14 de junho (exceto nos dias 23 e 24 de maio)
De quinta a sábado, às 20h00, e aos domingos, às 18h00 – exceto dias 23, 24 de maio e 13 de junho.
*Sessões extras dias 5, 12 e 13 de junho, às 15h00.
Sesc Bom Retiro - Alameda Nothmann, 185 - Campos Elíseos, São Paulo
Ingressos:  R$60 (inteira), R$30 (meia-entrada) e R$18 (credencial plena).

Vendas on-line em sescsp.org.br ou presencialmente na bilheteria de qualquer unidade do Sesc São Paulo. 

Classificação: 12 anos
Duração: 110 minutos
Capacidade: 291 lugares.
Acessibilidade: Teatro acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida. 

Sessão com Acessibilidade: 
6 de junho - Audiodescrição.
7 de junho - Libras.  
Estacionamento do Sesc Bom Retiro (vagas limitadas)
O estacionamento do Sesc oferece espaço para pessoas com deficiência, além de bicicletário. A capacidade do estacionamento é limitada. Os valores são cobrados igualmente para carros e motos. Entrada: Alameda Cleveland, 529.
Valores: R$ 8,00 a primeira hora e R$ 3,00 por hora adicional (Credencial Plena). R$ 17,00 a primeira hora e R$ 4,00 por hora adicional (Outros). Valores para o público de espetáculos: R$ 11,00 (Credencial Plena). R$ 21,00 (outros). 
Horários: terça a sexta-feira: 9h00 às 20h00. Sábado: 10h00 às 20h00. Domingo: 10h00 às 18h00. 
Importante: em dias de evento à noite no teatro, o estacionamento funciona até o término da apresentação.
Transporte gratuito
O Sesc Bom Retiro oferece transporte gratuito circular partindo da Estação da Luz. O embarque e desembarque ocorrem na saída CPTM/José Paulino/Praça da Luz.
Consulte os horários disponíveis de acordo com a programação no link http://tinyurl.com/3drft9v8

domingo, 10 de maio de 2026

.: Mariana Salomão Carrara fala sobre linguagem, Justiça e desconforto


Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com. Foto: Instagram da escritora

O processo começa como tantos outros: um prazo estourado, uma cobrança formal, a necessidade de responder a instâncias superiores. Mas, no caso de "Cláudia Vera Feliz Natal", novo romance de Mariana Salomão Carrara publicada pela Editora Todavia, a resposta não se limita ao que se espera de um juiz. O que deveria caber em linhas técnicas se alonga, hesita, é contaminado por memórias, desconfortos, e uma intimidade que não costuma despachar nada. Aos poucos, a defesa vira outra coisa.

Autora dos premiados romances "Não Fossem as Sílabas do Sábado" e " Árvore Mais Sozinha do Mundo", Mariana Salomão Carrara desta vez parte de um ambiente em que cada palavra carrega peso institucional para acompanhar um personagem que já não consegue sustentar a distância entre a função e a vida. As comarcas se sucedem, os vínculos rareiam, e o que se acumula não é só trabalho. Há um cansaço difícil de nomear, uma espécie de desencontro persistente com os outros, com o lugar, consigo próprio.

Sem recorrer a qualquer ideia de bastidor pitoresco, o livro circula por situações em que o cotidiano do Judiciário se aproxima do absurdo. E é nesse deslocamento que a narrativa encontra ritmo: quando o protocolo continua de pé, mas já não dá conta.

Nesta entrevista exclusiva ao portal Resenhando.com, a escritora comenta o humor que atravessa o texto, a solidão que não se resolve com autoridade e o que acontece quando a linguagem, mesmo treinada para decidir, começa a falhar. Compre "Cláudia Vera Feliz Natal", o novo romance de Mariana Salomão Carrara,  neste link.

Resenhando.com - Em "Cláudia Vera Feliz Natal", você transforma um documento burocrático em matéria literária. Em que momento a linguagem jurídica deixou de ser apenas forma e passou a ser, para você, também personagem?
Mariana Salomão Carrara - Desde o início minha ideia foi trazer humor a partir do ruído entre a formalidade dos vernáculos ou construções do narrador e o jorro emocional que se inicia a partir da acusação de que se defende. Conforme os dias passam e ele segue redigindo o documento, mais ele se confessa e revela sua intimidade e grandes angústias pessoais e profissionais ao órgão corregedor, o que chega a relaxar a linguagem, mas sem perder sua referência às liturgias jurídicas. O próprio narrador satiriza o “juridiquês” mais clichê, replicando os jargões costumeiros das peças advocatícias para narrar o modo como se referem a ele. Então se pode dizer que toda essa linguagem é também personagem desse livro. É dobrada e flexibilizada conforme a emoção do narrador, e quando a lei não dá conta de promover Justiça, a linguagem jurídica está lá para escancarar a ironia do seu encastelamento.

Resenhando.com - Seu jovem juiz tenta justificar a própria lentidão, mas parece, no fundo, incapaz de dar conta do que vive. Escrever esse romance foi, de algum modo, investigar o fracasso da linguagem como ferramenta de controle?
Mariana Salomão Carrara - Não sei se a linguagem de fato fracassa como ferramenta de controle. A linguagem jurídica é autorreferente e deixa o leigo alijado do saber que ela expõe. Faz com que o cidadão não compreenda, por exemplo, a sua sentença. Há inclusive uma cena em que o réu questiona, por uma frase que consta de sua condenação, se será “lançado ao rol dos culpados”. Embora muitas vezes automatizada e apartada da vida prática, essa linguagem não necessariamente falha em controlar, mas pode falhar em promover a justiça.  

Resenhando.com - Há um humor incômodo que atravessa o livro, uma espécie de riso que denuncia e constrange. O que a interessa mais: expor o ridículo do sistema ou revelar a fragilidade humana por trás dele?
Mariana Salomão Carrara - Não é possível separar as duas coisas, a sensação de ridículo que acompanha o livro ao mesmo tempo expõe as debilidades do sistema e a fragilidade humana, não somente dos atores da justiça, às vezes perdidos em seus rituais, ou impotentes diante da falha da própria nação em garantir direitos, mas também a fragilidade do cidadão que tem a sua vida decidida num processo.

Resenhando.com - No romance "A Árvore Mais Sozinha do Mundo", você constrói a narrativa a partir de objetos que observam. Já no novo romance, temos um sujeito que tenta se explicar. O que muda quando a narração deixa de observar e passa a se defender?
Mariana Salomão Carrara - Na "Árvore Mais Sozinha do Mundo", os objetos narram o que observam, mas também e principalmente o que sentem a partir disso, o que sentem sobre a família e a dor que supõem nos humanos. Nisso, também se defendem ou se culpam por seus defeitos – a toxidade da árvore, a inadequação da roupa de segurança, o a incapacidade da caminhonete rural de correr o suficiente para a urgência do parto. Defender-se e culpar-se são elementos da narração em primeira pessoa, e neste novo livro ganham também a dimensão jurídica da defesa e da culpa, com suas implicações. E é o susto de ter que se defender formalmente de algo que era na verdade um bom exercício do seu ofício que dá o gatilho para toda o relato e digressões sobre a carreira, o ato decisório e a imensa solidão do narrador.

Resenhando.com - O juiz de "Cláudia Vera Feliz Natal" tem poder sobre o destino alheio, mas não consegue sustentar vínculos pessoais. A solidão, no seu livro, é uma consequência do cargo ou uma condição anterior a ele?
Mariana Salomão Carrara - O narrador traz em si algumas dificuldades de vínculo e intimidade que podemos atribuir genericamente aos homens e, também, aos profissionais do Direito, estes perdidos entre os tratamentos formais, disputas de poder e tradições consagradas. Mas também é um sujeito peculiar, que tem muito boas intenções, mas dificuldade de alcançar propriamente o outro, vincular-se inteiramente aos novos personagens da sua vida – e não parece ter deixado muitas pessoas para trás, em São Paulo. Sua solidão é involuntária, agravada pelo deslocamento e pela sensação de ser um estrangeiro nas pequenas comarcas, mas sua inabilidade social e íntima é bastante particular sua. Tem alguma dificuldade em se conectar com as próprias emoções e faz o que pode para compreender a dos outros.

Resenhando.com - Você revisita pequenas comarcas do interior do Mato Grosso, mas evita qualquer exotização. Como equilibrar o olhar crítico sem transformar esses espaços em caricatura, algo que o próprio livro parece ironizar?
Mariana Salomão Carrara - Eu gostei da ideia de que a escolha das comarcas do livro tenha sido fruto do acaso, assim como a trajetória do narrador e de tantos profissionais aprovados em concursos em diversos estados, lotados na cidade que calhou no momento da aprovação. Eu quis descobrir junto com o juiz como seria a vida dali em diante. Um colega defensor passou a me contar em detalhes sua experiência, trazendo não só pequenos ou grandes casos e relatos do dia-a-dia profissional, mas principalmente sua sensação ao viver o deslocamento geográfico, começar uma carreira longe de sua cidade, deixar uma grande metrópole para fazer parte do sistema de justiça de uma comarca pequena, em que os atores do judiciário acabam sendo figuras conhecidas pela população, com certa notoriedade e ao mesmo tempo em perene estranhamento alienígena, com suas roupas e vernáculos solenes, e completa falta de vínculos e raízes naquele estado. Coletei depoimentos de pessoas que atuaram na burocracia de fóruns de cidades pequenas de todo o Brasil, bem como juízes, promotores, procuradores e defensores que passaram por comarcas muito pequenas ao longo de suas carreiras, inclusive, mas não somente, no Mato Grosso. A ideia foi partir dessas três cidades, com a peculiaridade de seus nomes, mas para representar algo que vai além de especificidades locais, e abordar uma realidade nacional, existente em interiores de muitos estados brasileiros, e focar na experiência desses agentes da Justiça deslocados de seus universos para lugares distantes de suas casas e com características difíceis de apreender rapidamente na atuação profissional. Então, não se trata, diferentemente do "Árvore Mais Sozinha do Mundo", de um retrato da vida naquelas cidades, mas do olhar solitário desse juiz, que acaba isolado também por alguma empáfia, própria talvez do status e da relação das capitais com as áreas ditas provincianas. O olhar crítico não recai especificamente sobre as cidades nomeadas, mas sobre o sistema jurídico em comarcas pequenas, desigualdades sociais e injustiças regionais e nacionais, sendo que a visão mais caricatural é a do olhar do narrador, que precisa de todo esse percurso narrando sua trajetória nessa peça de defesa para construir uma nova relação com o seu entorno.

Resenhando.com - Há uma recorrência de personagens femininas fortes e tensionadas em sua obra, enquanto aqui o foco recai sobre um homem em crise. O que a interessou nesse deslocamento de perspectiva?
Mariana Salomão Carrara - Embora seja narrado por um homem, é também uma outra forma de falar das mulheres. O olhar dele sobre o seu relacionamento é uma forma de imaginarmos o que na verdade ela poderia estar vivenciando com ele. Os casos jurídicos, principalmente o caso que o levou à total indecisão, é sobre maternidade e vínculos entre mulheres, e ele vem a partir da debilidade do juiz da própria letra da lei para compreender a situação. Então, o deslocamento de perspectiva traz novo ângulo para os mesmos temas, e traz também a possibiidade de passear pela amizade masculina, a dificuldade de intimidade entre amigos homens, e a solidão de um homem que quer ser uma boa pessoa, já sabe os caminhos éticos inclusive para o feminismo, mas se perde totalmente ao colocá-los em prática nas relações pessoais.

Resenhando.com - Sua escrita é frequentemente descrita como inventiva, mas também profundamente ancorada no real. Até que ponto a experimentação formal, para você, é um risco, e até que ponto é uma necessidade ética?
Mariana Salomão Carrara - Só consigo escrever escrevendo, ou seja, não sou capaz de desenhar em abstrato um enredo, uma frase, um planejamento de linguagem. Então, a inventividade vai me surpreender no ato da escrita, e conduzirá, a partir das palavras, o estilo da obra e a voz narrativa. Então, posso dizer que não há cálculo possível para mim, se haverá experimentações, riscos, reiterações. O que posso dizer é que, como leitora, o que me agrada é que o conteúdo traga uma visão de mundo interessante, e chegue elevado por um profundo prazer estético, que normalmente está ligado à habilidade com a linguagem, seja inventiva ou somente muito bem articulada literariamente. 


Resenhando.com - Depois de conquistar reconhecimento com obras como "A Árvore Mais Sozinha do Mundo", o que ainda a desestabiliza na escrita? Em outras palavras: o que você ainda não sabe fazer e, talvez, escreva justamente para descobrir?
Mariana Salomão Carrara - O que a vida de escritora mais me revela é o poder da literatura e a força dos leitores sobre o livro. Descubro com os leitores mais lados do que eu mesma escrevi.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

.: Crítica: "O Drama" é a potencialização de possibilidades paranoicas

Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora e criadora do Resenhando.com

Em abril de 2026


"O Drama" protagonizado por Zendaya (franquias atuais de "Homem-Aranha" e "Duna") e Robert Pattinson ("Batman" e saga "Crepúsculo"), na pele de Emma Harwood e Charlie Thompson, respectivamente, leva para telona Cineflix Cinemas de Santos toda a ebulição de sentimentos de um casal prestes a contrair matrimônio enquanto ainda tem que definir o cardápio servido na cerimônia, assim como os passos de dança para abrir o salão da festa. 

Justamente durante a escolha dos pratos que segredos pipocam à mesa e passam a serem potencializados ao longo de 1 hora e 45 minutos de produção. Num momento de descontração, ao lado do casal Rachel (Alana Haim, de "Licorice Pizza" e "Uma Batalha Após a Outra") e Mike (Mamoudou Athie, de "Elementos" e "Tipos de Gentileza"), Charlie e Emma embarcam num jogo de confissões que acabam revelando segredos que estavam mantidos a sete chaves.

Sendo Emma a última a fazer a revelação de um plano do passado juvenil, enquanto ainda era estudante, justificando a perda de audição de um dos ouvidos, a madrinha Rachel com uma interpretação da possibilidade do que poderia ter ocorrido, força tudo a ganhar gigantescas proporções. De modo espantoso, a revelação ganha tantos desdobramentos que acaba respingando em todos os convidados, uma vez que a problemática cresce tal qual uma bola de neve.

Diante do excesso de paranoia geradora de cenários possíveis, a trama do romance "O Drama" é construída. Ora fazendo rir, ora surpreendendo com tanta invencionice, assim como garante adrenalina, mas também emociona (com direito a tirar algumas lágrimas dos mais sensíveis e emotivos). O longa dirigido e roteirizado pelo norueguês Kristoffer Borgli ("O Homem dos Sonhos") consegue ser inovador e irreverente mesclando drama psicológico com momentos cômicos e honestos sobre relacionamentos modernos. Filme imperdível!


A equipe Resenhando.com assiste aos filmes em Santos, no primeiro andar do Miramar ShoppingPara acompanhar as novidades da Cineflix mais perto de você, acesse a programação completa da sua cidade no app ou site a partir deste link. No litoral de São Paulo, as estreias dos filmes acontecem no Cineflix Santos, que fica no Miramar Shopping, à rua Euclides da Cunha, 21, no Gonzaga. Consulta de programação e compra de ingressos neste link: https://vendaonline.cineflix.com.br/cinema/SAN

"O Drama" (The Drama). Gênero: Comédia, Drama, RomanceDireção e Roteiro: Kristoffer BorgliDuração: 1h 50 minutos. Distribuição: Diamond Films. Elenco: Zendaya, Robert Pattinson, Alana Haim, Mamoudou Athie, Zoë Winters. Sinopse: A trama acompanha um casal (Zendaya e Robert Pattinson) nos preparativos finais para o seu casamento. A relação é abalada quando revelações inesperadas e segredos inimagináveis vêm à tona, forçando-os a questionar o quanto realmente conhecem um ao outro e o futuro da união.

Trailer de "O Drama"




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sexta-feira, 10 de abril de 2026

.: Tudo sobre "Quem Ama Cuida", a próxima novela das nove


"Quem Ama Cuida" tem uma história de amor e justiça sobre a força de recomeçar. Na imagem, Adriana (Leticia Colin), protagonista da novela. Foto: Globo/ Manoella Mello


Em "Quem Ama Cuida", Walcyr Carrasco e Claudia Souto apresentam uma novela contemporânea, que nasce em meio ao caos de uma São Paulo devastada por uma grande enchente e acompanha a transformação de Adriana (Leticia Colin), uma mulher que, diante de perdas irreparáveis e tragédias, descobre a força de recomeçar, movida por sede de justiça. Uma jornada que combina amizade, conflitos familiares, amor impossível, mistério e a busca por reparação e vingança, ao mostrar as consequências do encontro de Adriana (Leticia Colin) e Arthur (Antonio Fagundes).

Quando um casamento inesperado desencadeia um crime que muda o destino de todos, a obra mergulha em uma história de superação, segredos e revelações, conduzida pelo olhar sensível da diretora artística Amora Mautner, em um melodrama clássico, repleto de emoção e surpresa. No elenco, estão outros nomes consagrados como Tony Ramos, Chay Suede, Isabel Teixeira, Alexandre Borges, Flávia Alessandra, Mariana Ximenes, Dan Stulbach, Deborah Evelyn, Tata Werneck, Agatha Moreira, Belize Pombal, Isabela Garcia, Breno Ferreira, entre muitos outros. 

O ponto de partida da trama se dá em um dia que Adriana nunca esquecerá: após ser demitida da clínica onde trabalhava como fisioterapeuta, uma enchente destrói sua casa, leva seu marido, Carlos (Jesuíta Barbosa), arrastado pelas águas e acaba com tudo que havia conquistado. Ainda sem entender como seguir, Adriana vai parar em um abrigo, onde cruza pela primeira vez o caminho de Pedro (Chay Suede), advogado idealista, sensível às desigualdades do mundo. Ele fica impressionado com a força dessa mulher, em meio a tanto sofrimento. O encontro é rápido, intenso e deixa marcas em ambos.

O tempo passa, e Adriana consegue um emprego na casa de Arthur Brandão (Antonio Fagundes), poderoso empresário do ramo de joias, solitário, endurecido pelas ausências e pela frieza da própria família, especialmente dos irmãos Pilar (Isabel Teixeira), Ulisses (Alexandre Borges) e da cunhada Silvana (Belize Pombal), viúva do seu irmão Belmiro. O relacionamento entre patrão e funcionária começa em confronto, mas, pouco a pouco, se transforma em uma ligação de confiança e amizade genuína. Arthur encontra em Adriana uma companhia leal, e ela começa a enxergar, por trás da aspereza, um homem carente de cuidado. 

Esse vínculo provoca um gesto radical. Para impedir que a família, ambiciosa, herde sua fortuna, Arthur pede Adriana em casamento - não por paixão, mas como um pacto de amizade, proteção e gratidão. Dividida entre o orgulho e a urgência de mudar de vida pelo bem da sua família, Adriana aceita o acordo, mesmo com o avô Otoniel (Tony Ramos) se opondo à decisão e sem imaginar o tamanho do problema que está por vir. Enquanto isso, Pedro (Chay Suede), afilhado de Arthur e filho do advogado Ademir (Dan Stulbach), vê seu mundo ruir. 

A mulher que nunca esqueceu desde o primeiro encontro está prestes a se casar com seu padrinho. O sentimento reprimido se transforma em dor, desconfiança e conflito moral. Tudo se intensifica quando, na noite do casamento de Adriana e Arthur, o noivo é assassinado misteriosamente. Adriana, herdeira e última pessoa a estar com ele, torna-se a principal suspeita. Condenada por um crime que não cometeu, ela, desta vez, perde a liberdade, o nome e o futuro que sonhou.

Seis anos se passam, ela sai da cadeia após a condicional, e, ainda assim, não perde o essencial: a vontade de lutar pela vida, pelo seu amor e a de fazer justiça. Em "Quem Ama Cuida", cada reviravolta revela que a verdadeira força nasce no limite, porque, para Adriana, cuidar é também enfrentar o impossível e mudar o próprio destino. “Adriana não é uma mocinha frágil, mas uma mulher empoderada, capaz de enfrentar a vida por ela mesma e pelos seus. A novela tem uma grande história de amor entre Adriana e Pedro, e um grande mistério, pois teremos um ‘quem matou?’”, destaca Walcyr Carrasco. “Ela é uma mulher do povo, que lutou muito por tudo que conquistou. Ela tem a cura nas mãos, não só pela profissão, mas porque ela cuida mesmo, abraça, acolhe, está sempre fazendo um carinho para alguém. E uma grande injustiça atravessa a vida dessa mulher, pois, além de tirar a liberdade dela, a afasta de seu grande amor, o Pedro”, complementa Claudia Souto. 

Na condução dessa história, está esse trio criativo que é referência na dramaturgia. Parceira de Walcyr em muitos projetos, Claudia Souto celebra sua estreia em uma novela das nove ao lado do autor que tanto a inspirou: “Walcyr é um mestre para mim. Fiquei emocionada quando nos falamos pela primeira vez após o convite, porque é um reencontro com uma pessoa que eu amo. Sempre vi as novelas dele, e ele comentava sobre as minhas também. Agora temos essa parceria reeditada”.

A diretora artística Amora Mautner encara mais uma jornada ao lado de Walcyr Carrasco e estreia a dobradinha com Claudia Souto, apostando nos elementos que estão por trás dos grandes títulos da dramaturgia para conduzir a trama. “O público vai se envolver com todas as armações que as famílias podem enfrentar quando o assunto é herança, e isso é só o início da história. Temos um clássico melodrama, com ideias muito originais, o DNA de Walcyr Carrasco, agora também com as ‘tintas’ da maravilhosa Claudia Souto trazendo a sua experiência, sempre tão importante. Tudo isso com um elenco de nomes consagrados. Vem mais novelão por aí”, celebra Amora. 

"Quem Ama Cuida" é criada e escrita por Walcyr Carrasco e Claudia Souto, com colaboração de Wendell Bendelack, Martha Mendonça, Julia Laks e Bruno Segadilha. A novela tem direção artística de Amora Mautner, direção geral de Caetano Caruso e direção de Alexandre Macedo, Nathalia Ribas, Augusto Lana, Fábio Rodrigo e Rodrigo Oliveira. A produção é de Mauricio Quaresma e Isabel Ribeiro, a produção executiva, de Lucas Zardo e a direção de dramaturgia, de José Luiz Villamarim. 

domingo, 5 de abril de 2026

.: Bruna Martiolli rejeita a leitura superficial e reafirma força da literatura


Bruna Martiolli revisita a própria formação como leitora, atravessa perdas e questiona o papel da literatura em um tempo que acelera tudo — inclusive a leitura. Imagem a partir de uma foto do acervo pessoal da autora, modificada por IA

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com.

É tempo de morangos e a conversa com Bruna Martiolli começa antes da primeira pergunta. Passa por estantes, algoritmos e histórias que não cabem em qualquer postagem. Entre uma lembrança de infância e outra, aparecem "A Hora da Estrela", Clarice Lispector, Elena Ferrante, José Saramago, Lygia Fagundes Telles, Eça de Queiroz e Lima Barreto como presença contínua na vida de quem aprendeu cedo a ler o mundo pelos livros e, mais tarde, a desconfiar deles também.

Escritora, podcaster, professora e doutoranda, acompanhada por centenas de milhares de leitores nas redes sociais, ela estreia com o livro "É Tempo de Morangos - Reflexões Sobre Livros", publicado pela Editora Intrínseca, sem organizar a própria trajetória em linha reta. As memórias aparecem acompanhadas de leituras, mudanças de rota e perdas que ainda não se acomodaram. Bruna prefere ficar numa literatura que desestabiliza, erra junto, volta atrás e continua insistindo. Em entrevista exclusiva ao portal Resenhando.com, ela retoma esse percurso em primeira pessoa, entre livros, escolhas e aquilo que ficou pelo caminho. Compre o livro "É Tempo de Morangos", de Bruna Martiolli, neste link.

Resenhando.com - Você foi uma criança que brincava de dar aulas para suas bonecas. Em sua trajetória, os livros se tornaram não só companheiros, mas guias. Como você enxerga esse movimento de infância para a maturidade literária?
Bruna Martiolli - Sinto que esse movimento foi menos uma ruptura e mais um desdobramento natural, já existia ali um desejo muito genuíno de entender o mundo, as relações, as pessoas sobretudo. Os livros entraram nesse cenário quase como aliados silenciosos. Na vida adulta a leitura deixou de ser apenas uma atividade prazerosa e passou a ser uma ferramenta de investigação. 


O que aconteceu entre esses dois momentos para que a leitura se transformasse em uma ferramenta tão poderosa para você?
Bruna Martiolli - Eu comecei a ler para compreender as pessoas, os conflitos, os silêncios e as contradições, inclusive as minhas. No fundo, acho que não sou muito diferente daquela criança que ensinava as suas bonecas, a diferença é que hoje entendo que, antes de ensinar, estou sempre aprendendo a ler o mundo.


Resenhando.com - O título do seu livro, "É Tempo de Morangos", evoca um tempo mais doce e nostálgico. Mas, ao mesmo tempo, a literatura que você aborda traz à tona reflexões profundas e dolorosas. Qual é a relação entre esses dois tempos na sua obra? 
Bruna Martiolli - O título vem da última frase da “A Hora da Estrela” da Clarice, não posso explicar abertamente pois seria o maior spoiler sobre a Macabéa (protagonista do livro), mas, eu vejo esses dois tempos não como opostos, mas como camadas que coexistem. Existe ali uma nostalgia, sim, mas é mais um convite a lembrar que a vida é feita de instantes, fases, ciclos, mas que ela acaba e  por isso é preciso viver os morangos, viver cada fase. Porque viver e, principalmente, olhar com atenção para a vida inevitavelmente nos coloca diante das complexidades, das dores, das ausências, das perguntas que não têm resposta fácil. 

O que significa para você “morar” entre os morangos e as complexidades da vida?
Bruna Martiolli - “Morar” entre os morangos e as complexidades é, para mim, um exercício de equilíbrio e de honestidade. É entender que a doçura não anula a dor, e que a dor também não invalida a beleza. Eu não acredito em uma literatura que romantiza a vida a ponto de apagá-la, mas também não me interessa uma escrita que se fixa apenas no peso das coisas. O que me move é justamente esse "entrelugar" da Clarice, há sensibilidade suficiente para perceber o que é leve, mas também coragem para sustentar o que é difícil. Acho que os morangos me devolveram à vida, me ensinaram a aceitar que posso estar vivendo um momento bonito enquanto ainda carrego algo que dói. Eu amei o lançamento do livro no Rio e em São Paulo, principalmente por ter conseguido estar o máximo possível com as pessoas que amo. Mas ainda assim existe uma sensação de incompletude: a ausência da minha avó ali também doeu e é essa a vida que vou ter pra sempre.


Resenhando.com - Você fala da importância da literatura em momentos de desamparo, como foi no seu caso. Em tempos de crise, como o que todos estão vivendo, a literatura pode ser a cura ou só um paliativo? 
Bruna Martiolli - Eu não sei se a literatura pode ser chamada de cura, e talvez a Martha Nussbaum me ajude a sustentar isso. Quando ela fala da importância das emoções na vida ética, ela não está dizendo que a arte resolve a dor, mas que ela nos educa sensivelmente para lidar com ela. A literatura, não elimina o sofrimento, mas amplia a nossa capacidade de compreendê-lo, de nomeá-lo, de reconhecê-lo no outro.


Qual é o papel da ficção no enfrentamento das nossas angústias contemporâneas?
Bruna Martiolli - A ficção, muitas vezes, abre espaço para vozes que foram historicamente silenciadas e, ao fazer isso, desloca o nosso olhar. Em tempos de crise, isso é fundamental, porque nos tira de uma experiência isolada da dor e nos coloca em relação. Então talvez a literatura não seja cura no sentido de apagar a angústia, nem apenas um paliativo que anestesia. Ela é uma forma de resistência num mundo que frequentemente simplifica, acelera e silencia o ser humano. A ficção nos obriga a demorar, a escutar, a sustentar ambiguidades,  e isso muda a forma como habitamos e sentimos a vida. No meu caso, foi exatamente isso: a literatura não me salvou da dor, mas me deu condições de não me perder completamente dentro dela.


Resenhando.com - Clarice Lispector e Elena Ferrante foram influências marcantes na sua vida. Mas, se você pudesse resgatar um autor que considera fundamental para a sua formação literária e que talvez não tenha sido mencionado em suas reflexões, quem seria?
Bruna Martiolli - Tem um nome muito fundamental e que nem sempre aparece quando falo das minhas influências, eu diria Lima Barreto. A escrita dele tem uma urgência crítica, quase incômoda, que desmonta ilusões sobre o nosso país, sobre as nossas instituições e sobre a própria ideia de progresso. No "Triste Fim de Policarpo Quaresma" ele expõe o abismo entre o ideal e a realidade brasileira com uma ironia que ainda hoje é perturbadora. Lima me ensinou a encarar a estrutura  histórica, racial e política que molda as nossas experiências.


Resenhando.com - Você traz uma relação íntima com a literatura de língua portuguesa, mas também abre espaço para reflexões sobre como ela pode estar sendo negligenciada, principalmente pelos jovens que consomem literatura através de plataformas como o BookTok. Qual é o risco que se corre ao não valorizar mais a literatura nacional em favor de tendências globais e rápidas?
Bruna Martiolli - Eu me baseio nisso pelo olhar sensível que Alfredo Bosi tinha para a literatura como forma de consciência histórica e digo que o risco é profundamente cultural. Quando a literatura de língua portuguesa passa a ser deixada de lado em favor de tendências globais rápidas, como as que circulam no BookTok, a gente não está só trocando um tipo de leitura por outro. A gente está, aos poucos, enfraquecendo a nossa própria capacidade de nos reconhecer enquanto sujeitos históricos, sociais e afetivos num país que fala a língua portuguesa. Bosi sempre defendeu que a literatura é uma forma de memória viva. Ela não é só entretenimento: ela carrega conflitos, linguagem, identidade, modos de ver o mundo. Quando o jovem leitor deixa de acessar autores nacionais, ele perde contato com experiências que dialogam diretamente com a realidade dele, seja ela urbana, periférica, rural, atravessada por desigualdades ou por afetos muito específicos do nosso contexto. O problema das tendências globais e rápidas não está necessariamente na sua existência, mas na lógica de consumo que as sustenta. Inclusive, eu também as leio e, gostando ou não, formo minhas próprias opiniões. São leituras frequentemente mediadas por algoritmos, por modas passageiras e por uma estética da velocidade que não favorece a profundidade. Isso acaba formando um leitor que consome mais do que elabora, que atravessa os textos sem, de fato, ser transformado por eles. E é aí que reside o maior risco: a formação de uma relação superficial com a leitura. Sem o contato com obras mais densas da literatura nacional, o leitor pode perder a oportunidade de desenvolver um olhar crítico mais refinado sobre as próprias vivências, além de uma sensibilidade mais complexa para a linguagem e para a realidade. Valorizar a literatura de língua portuguesa, dos nove países que falam a língua portuguesa, não é um gesto de resistência vazia ou de nacionalismo simplista porque “tô a fim”. É, na verdade, um modo de preservar a nossa capacidade de pensar a partir de nós mesmos. Porque, no fim, quando a gente abandona essas vozes, a gente também corre o risco de se tornar estrangeiro dentro da própria cultura.


Resenhando.com - Na sua obra, há uma relação direta entre livros e transformações de vida, como no caso da sua mudança para Portugal. Quais livros você recomenda para quem está passando por uma transição significativa, seja pessoal ou profissional?
Bruna Martiolli - Um livro que eu destacaria, sem dúvida, é "Sodade", da Ana da Cunha. É uma obra muito recente, mas que já nasce com essa força de tocar em algo muito íntimo: a sensação de ausência, de deslocamento, de viver entre lugares. O que me atravessa ali é a maneira como a saudade deixa de ser só um sentimento e vira quase uma estrutura de vida. Para quem está em transição, esse livro não oferece respostas fáceis, e isso é essencial, mas legitima o desconforto, a ambivalência, a incompletude. E, talvez trazendo mais para perto da nossa tradição, eu lembraria de "Dois Irmãos", do Milton Hatoum, que toca em questões de origem, memória e pertencimento dentro de um contexto marcado por heranças migratórias. É um livro que fala muito sobre como carregamos nossos lugares dentro da gente, mesmo quando tudo muda ao redor.


Resenhando.com - Você menciona como a "Tetralogia Napolitana" de Elena Ferrante se tornou dolorosa após o esmorecimento de uma grande amizade. A literatura tem o poder de refletir as vivências, mas até que ponto a ficção é uma extensão da realidade ou um escape dela? 
Bruna Martiolli - Eu acho que a literatura nunca é só uma coisa ou outra, ela não é puramente espelho, nem puramente fuga. Quando li a "Tetralogia Napolitana", não foi nada confortável, abandonei a cadeira na faculdade e fugi mesmo, não era momento. A ficção, pra mim, funciona como uma espécie de lente que me faz ver melhor e vendo melhor reorganiza o que já existe dentro da gente. Às vezes ela amplia, às vezes distorce, às vezes ilumina coisas que estavam ali, quietas, esperando uma linguagem. 


Resenhando.com - Você já se deparou com momentos em que a literatura também a traiu, revelando mais do que você gostaria?
Bruna Martiolli - Sim, já senti que a literatura me traiu. Mas não no sentido de enganar, no sentido de expor. De colocar em palavras algo que eu ainda não tinha coragem de formular. É como se o texto dissesse: “olha, é isso aqui que você tá sentindo”, antes de estar pronta pra admitir. E aí não tem mais como fingir que não viu. Respondendo melhor: a vida trai mais do que a literatura, prefiro ela.


Resenhando.com - A literatura sempre teve papel central na sua vida, mas você também compartilha esse amor com uma grande audiência através das redes sociais e seu podcast "É Tempo de Morangos". Como você equilibra a pressão da visibilidade pública com a intimidade da sua escrita, que é, em essência, tão pessoal?
Bruna Martiolli - Eu sou filha única e vivo uma solidão que, apesar de boa, às vezes até assusta. A internet, pra mim, nunca foi sobre números, sempre foi sobre pessoas que, infelizmente, eu nunca esbarrei na vida. Tive poucas amigas que gostavam de ler, e acho que virei professora muito por essa necessidade de continuar falando sobre livros, de não deixar essa conversa morrer. Eu devo muito a eles: a vida que levo hoje, bem vivida, gostosa, calma, passa diretamente pela literatura. E eu nunca pensei “vou postar sobre livros nas redes sociais”. Eu falo de literatura onde eu estiver, na internet ou fora dela. Não existe uma separação tão rígida pra mim. Quando paro pra pensar no número de ouvintes, fico triste. Não quero saber quantas pessoas estão ali, isso é uma grande ilusão da nossa geração, o que me importa é ouvir essas pessoas. É por isso que gosto tanto dos comentários: é ali que descubro o que gostam, onde moram, vejo suas fotos, seus cabelos, suas famílias. As pessoas. Eu gosto de livros, mas gosto muito de gente. E a internet é só o que me aproxima delas. No fundo, não acho que o que eu digo seja pessoal. Pessoal, pra mim, é quem ouve, quem escolhe me dar um pedaço do próprio tempo de vida.


Resenhando.com - Se a literatura fosse uma pessoa, como você a descreveria em termos de identidade? Ela seria amiga, amante ou uma figura de autoridade?
Bruna Martiolli - A literatura é a formiga e ao mesmo tempo a cigarra. É o gato de Cheshire e a Alice, a literatura é a dúvida. É amiga e, ao mesmo tempo, é uma figura de autoridade. É uma pessoa, mas é aquela ideia do Fernando Pessoa de que em um cabem mil. 


Resenhando.com - Você defende a ideia de que a boa literatura não precisa agradar à primeira vista. No entanto, as redes sociais e plataformas como o BookTok são movidas por emoções rápidas e “recompensas instantâneas”. Como é possível reconstruir um espaço literário que valorize o tempo de amadurecimento, sem se perder nas urgências da era digital?
Bruna Martiolli - Eu não acho que seja uma questão de disputar com a lógica das redes, porque a literatura nunca funcionou no tempo da pressa, e talvez nem deva tentar funcionar. O que dá pra fazer é criar pequenos desvios dentro desse fluxo. As redes sociais, operam muito pela reação imediata, pelo entusiasmo rápido, pela necessidade de sentir algo agora e isso não é necessariamente um problema, é só uma linguagem diferente. O risco está quando a gente começa a confundir intensidade com profundidade, como se o impacto imediato fosse o único critério de valor. Mas, reconstruir um espaço literário mais paciente, pra mim, passa por insistir em outras formas de presença. Falar de um livro que não “funcionou” de primeira, revisitar uma leitura depois de um tempo, admitir silêncios, dúvidas, mudanças de opinião. Mostrar que a experiência literária também é feita de demora, de estranhamento, de algo que vai se abrindo aos poucos. E, principalmente, confiar que existe gente disposta a isso. Porque existe. Nem todo mundo está buscando recompensa instantânea o tempo todo, muitas pessoas só não encontram com frequência espaços que legitimem esse outro ritmo. Acho que não se trata de desacelerar a internet inteira, o que seria impossível, mas de sustentar, dentro dela, um outro tempo. Um tempo em que o livro não precisa agradar de imediato para permanecer porque ele pode incomodar, escapar, e ainda assim continuar trabalhando em quem lê.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

.: Crítica: "Nuremberg" estuda mente de nazista orgulhoso de carnificina

Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora e criadora do Resenhando.com

Em abril de 2026


O drama histórico "Nuremberg", com direção e roteiro de James Vanderbilt (conhecido por escrever "Zodíaco" e "O Espetacular Homem-Aranha"), leva o público a entender um pouco da mente de nazistas, principalmente, o sucessor de Hitler, o veterano da Primeira Guerra Mundial Hermann Wilhelm Göring, militar alemão, político e líder do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, o nazista número 2 da Alemanha, assim como seus ardorosos seguidores.

Num momento fim de guerra, Hermann (Russel Crowe, "O Exorcista do Papa") se entrega em Radstadt, na Áustria, perto de Salzburg, no dia 7 de maio de 1945, estando no carro com motorista, esposa e filha. Ardiloso, procura as forças americanas na tentativa de evitar a captura pelos soviéticos. Após a rendição ser considerada incondicional para a Alemanha, ele é detido. Contudo, nesse processo, um médico entra em cena, o psiquiatra Douglas Kelley (Rami Malek, "Bohemian Rhapsody") quem tenta interpretar a mente do nazista, antes de ser levado a julgamento internacional em Nuremberg.

No entanto, é sabido que quem brinca com fogo acorda queimado. Portanto, num contato direto com os admiradores do nazismo e, claro, com Hermann, Douglas é fisgado tal qual um inocente a ponto de ser manipulado. Embora comece a amolecer quando conhece Edda, filha de Hermann. Assim, vai além de seu estudo de buscar e identificação de um "traço biológico ou psicológico" único que explicasse o mal nazista, para desvendar algo que distinguisse os criminosos do resto da humanidade.

Douglas acaba tomado pela ideia de que diante dele há um ser humano, ainda que tenha praticado imensurável crueldade impiedosa do nazista Hitler. Enquanto o julgamento é o ápice da trama, não somente pelo confronto de representantes internacionais com Hermann, mas por ainda conseguir entregar revelações, atribuindo mais humanidade ao enredo e facilitando a reflexão a respeito de que aquele que pratica o mal nunca se vê como errado e abusivo. Vale a pena tal aula de humanidade na telona Cineflix Cinemas de Santos!


A equipe Resenhando.com assiste aos filmes em Santos, no primeiro andar do Miramar ShoppingPara acompanhar as novidades da Cineflix mais perto de você, acesse a programação completa da sua cidade no app ou site a partir deste link. No litoral de São Paulo, as estreias dos filmes acontecem no Cineflix Santos, que fica no Miramar Shopping, à rua Euclides da Cunha, 21, no Gonzaga. Consulta de programação e compra de ingressos neste link: https://vendaonline.cineflix.com.br/cinema/SAN


"Nuremberg"(Nuremberg). Gênero: Drama, guerra, thrillerDireção e Roteiro: James Vanderbilt. Duração: 2h 28min. Distribuição: Diamond Films Brasil. Elenco: Rami Malek (Douglas Kelley) Russell Crowe (Hermann Göring) Michael Shannon (Robert H. Jackson) Leo Woodall Richard E. Grant. Sinopse: Situado em 1945, logo após a Segunda Guerra Mundial, o filme acompanha o psiquiatra do exército dos EUA, Douglas Kelley, com a missão de avaliar a sanidade de 22 oficiais nazistas, incluindo Hermann Göring, o braço direito de Hitler, enquanto o promotor Robert H. Jackson tenta garantir condenações por crimes contra a humanidade

Trailer de "Nuremberg"



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