sábado, 17 de janeiro de 2026

.: Entrevista: Samir Murad leva o passado ao limite do palco


Em cartaz na Arena B3, o solo de Samir Murad confronta imigração, memória e saúde mental sem concessões. Foto: divulgação

Samir Murad entra em cena sozinho e não pede empatia antecipada. Em “O Cachorro Que Se Recusou a Morrer”, em cartaz no Teatro da Arena B3, neste final de semana, dias 17 e 18 de janeiro, com sessões às 14h30 e 17h00, o ator não transforma a própria história em confissão nem usa a memória como ornamento. O que se vê é um trabalho de risco: lidar com imigração, herança familiar, saúde mental e pertencimento sem o conforto da explicação fácil ou da catarse fabricada. 

Entre humor seco e drama frontal, Murad constrói um solo que recusa tanto a reverência quanto a autopiedade. Em entrevista exclusiva para o portal Resenhando.com, ele fala sobre caos criativo, genealogia, urgência, dublagem, corpo, e sobre por que o teatro ainda é o lugar onde certas histórias podem ser ditas sem se tornarem espetáculos de si mesmas.

Resenhando.com - Ao transformar lembranças familiares em cena, você sente que está organizando o passado ou aceitando, finalmente, o seu caos? O que o teatro permite fazer que a memória, sozinha, não dá conta?
Samir Murad - Creio que a aceitação do caos provocado pelas lembranças, é fundamental para um verdadeiro processo criativo, principalmente quando se lida com as memórias reais de uma vida. No caso desse trabalho onde sou criador da escritura literária e cênica, a memória se potencializa. Como sou essencialmente um ator, essa memória se torna carne e osso ou seja, quando escrevo, aquele texto já tem um endereço certo: a Cena. E sim. Creio que o Teatro mais do que qualquer outro veículo, possibilita esse recurso de dividir a palavra e o ato que é intimo, com uma infinidade de outros universos pessoais


Resenhando.com - O espetáculo fala de imigração e pertencimento, mas também de saúde mental. Há algo de adoecido na própria ideia de “origem”, quando ela passa a nos definir demais?

Samir Murad - Acho que qualquer definição que rotule ou categorize o ser-humano pode incorrer em erros graves. Tipo “eu sou assim porque sou de origem tal...”, sem a possibilidade de ressignificação da própria origem”. Estamos em um momento que se fala muito de questões que procuram ligar as pessoas e povos às suas origens ancestrais, tendo o sangue e a terra como principais referências e penso que, esse resgate de identidade,faz sentido nos tempos atuais e eu mesmo faço isso nesse trabalho. Quando vemos segmentos étnicos como índios, negros, só para citar dois, se embebedando e se drogando para aguentar o desvio forçado que tiveram de suas origens, aí sim podemos ver a doença mental se instalando. Quando falo de uma irmã que teve um surto esquizofrênico que, por uma sensibilidade mal direcionada, não suportou a “ barra” de uma criação excessivamente pesada, acho que estou falando de muitas famílias que tem um doente mental em casa e muitas vezes nem sabem ou não dão a devida atenção. Assim não acho a ideia de busca da “origem” em si, adoecida. Qualquer busca verdadeira envolve uma abertura de visão ou uma reflexão sobre o objeto no qual se debruça e isso a meu ver já é válido.


Resenhando.com - O humor aparece no espetáculo quase como um desvio estratégico. Você ri para sobreviver às histórias que conta ou para impedir que elas se tornem insuportavelmente solenes?

Samir Murad - Gostei do quase. Na verdade, eu não usaria um desvio estratégico somente para não cansar o espectador ou pesar demais a mão. A minha sobrevivência se dá no ato de decidir fazer Teatro para poder fazer esse trabalho com todas as suas assumidas variações de humor, inclusive com uma absoluta solenidade em algumas passagens. Mas por incrível que pareça, há muito humor em algumas situações que narro e meu pai mesmo, era um contador de histórias muito engraçado, com uma picardia que se estende a outros membros de minha família. Naturalmente não estou falando de um humor fácil ou apelativo mas de uma forma de perceber a Vida, ligeiramente colorida pela ironia ou também de uma seriedade excessiva que acaba ficando cômica. Além disso eu queria alguns traços de humor , embora não me ache propriamente um comediante, para prestar homenagem a personagens de minha infância como Chaplin e Ronald Golias e me permiti esse exercício.


Resenhando.com - Filho de imigrantes libaneses, você carrega uma herança cultural muito marcada. Em que momento essa herança deixou de ser um legado e passou a ser uma cobrança?
Samir Murad - Pode-se dizer que a cobrança estava nas entrelinhas, em relação à aspectos morais, relacionais e de conduta, principalmente durante a minha infância. Como eu fui temporão, já peguei uma pai mais velho e cansado que acho, afrouxou um pouco a corda. Havia uma preocupação até maior dos irmãos para que eu seguisse alguma carreira rentosa de preferência ligada ao comércio que é uma tradição libanesa. A adolescência para variar foi bem difícil. Quando já no vestibular decidi ser artista e que fique claro, meu pai nunca me impediu disso, acho que transformei meu legado dramático em Teatro e pude pensar e sentir minha história através das lentes da Arte


Resenhando.com - A encenação aposta em projeções, trilha original e uma atuação descrita como visceral. O corpo, para você, ainda é um território confiável para contar histórias — ou também é um campo de conflito?
Samir Murad - Acho que o corpo é o principal instrumento para um ator. Confiável numa medida pessoal em que cada ator o valoriza e também é um campo de conflitos. A meu ver esses conflitos são extremamente poderosos e criativos e quanto mais controle você tem do seu corpo mais você pode experimentar um descontrole e contar uma história de diferentes maneiras. Para mim o conflito subjaz na existência do ator e na sua necessidade de estar em cena. Esse é o grande conflito: “por que eu tenho que entrar em cena e contar uma história? Como posso fazer isso da melhor forma possível?” Olha aí o conflito.


Resenhando.com - Depois de décadas atuando, dublando, ensinando e dirigindo, você retorna a um trabalho profundamente autobiográfico. Isso é um gesto de coragem tardia ou de urgência absoluta?

Samir Murad - Aí que está. Eu não retornei. Eu continuei. Esse trabalho é o coroamento de uma quadrilogia que se iniciou em 2000 com meu primeiro solo. Todos esses trabalhos solos falam de genealogia, pertencimento, ancestralidade e saúde mental entre outros temas comuns. Sem eles O Cachorro... não existiria. O ineditismo desse, é que me debrucei sobre minhas próprias lembranças , mas todos os outros trazem elementos que mesclam as trajetórias das personagens com elementos da minha história. Todos são afinados com minha pesquisa que tem Antonin Artaud como principal referência ética e estética. Acho que a coragem tardia veio na verdade com meu primeiro solo que aliás, só tornou-se um solo por uma sequência de coincidências e que foi o trabalho que mais deu certo em minha vida, um divisor de águas. Ele nasceu com uma urgência absoluta assim como os outros, inclusive esse último. Acho que essa urgência eu trago comigo, ainda e que acredito seja uma mistura do espirito artaudiano que me habita com o desespero árabe e que se estende as outras atividades que você cita na pergunta. Podem rir.


Resenhando.com - A dublagem ocupou mais de 20 anos da sua vida. Que vozes alheias ficaram em você - e quais delas precisaram ser silenciadas para que essa voz autoral emergisse?

Samir Murad - Não percebo dessa forma excludente, de precisar silenciar vozes para que voz autoral emerja. Essa voz existe desde que escrevia músicas e poemas na adolescência e foi aparecendo como uma extensão de meu trabalho de ator, quando comecei a escrever meus textos. A dublagem surgiu como um veículo a mais para ampliar minhas possibilidades de atuação. Já fiz teatro, televisão e dublagem ao mesmo tempo e tudo tinha a sua importância, a sua própria voz. Sempre procurei imprimir em qualquer veículo, um alinhamento artístico coerente com o que me constitui. Hoje me dedico cada vez mais às minhas construções autorais, que me dão maior autonomia sobre o processo, mas a possibilidade de participar de projetos alheios será sempre bem-vinda. As vozes da dublagem assim como os personagens de novelas e peças que fiz e que não faço mais, hibernam em um cantinho aconchegado do meu coração.


Resenhando.com - O espetáculo se constrói como um encontro íntimo com o público. Você teme que essa intimidade seja confundida com exposição, ou acredita que o teatro ainda é o último lugar possível para esse risco?

Samir Murad - Acho que você já respondeu. Sim, o Teatro ocupa esse lugar para mim, seja atuando em uma peça de minha autoria ou não. A intimidade do ator em cena em um solo só será confundida com exposição se ele e(ou) a encenação assim o desejar e aí ao meu ver o fenômeno teatral não acontece e tanto faz ser um solo ou não. Em "O Cachorro..." eu estou só em cena e falo um texto escrito por mim sobre a minha família. Isso por si só poderia constituir-seem uma obra com tintas excessivamente auto referentes. O fato é que existem muitos espetáculos que seguem essa linha ou seja, não existe nada de inédito no meu trabalho desse ponto de vista. Acredito que o diferencial esteja em como as formas e conteúdos apresentados por cada um desses espetáculos chega até o querido espectador de Teatro.


Resenhando.com - Em um país que frequentemente romantiza a imigração e ignora os traumas desse ato, que tipo de desconforto você espera provocar em quem assiste?

Samir Murad - O espetáculo tem algumas divisões como digamos, uma pequena sinfonia e os momentos mais dramáticos compõem apenas uma parte dele. Por isso chamo a peça de drama bem humorado. Nas temporadas que fizemos o que percebi, é que há um envolvimento maior do espectador nas partes mais dramáticas. Não sei muito bem porque mas atribuo isso à empatia provocada pelas situações talvez comuns a muitos, como já ouvi de espectadores ao vivo e em depoimentos gravados. O riso, a farsa divertem e afastam, o drama aproxima. Acho que é isso. O fato é que o drama da imigração é um problema atual e mundial e algumas imagens realmente podem tocar o coração do espectador. O desconforto que pode surgir, advém da crueza das situações que são denunciadas onde o imigrante é visto sem véus, como uma pessoa que teve que abandonar sua terra natal para tentar a vida numa terra desconhecida. Isso por si só já e cruel.


Resenhando.com - Depois de transformar memórias familiares em cena, o que sobra quando as luzes se apagam: alívio, esgotamento ou a sensação de que ainda há histórias que se recusam a descansar?
Samir Murad - Linda pergunta. Olha, há uma sensação muito grande de missão cumprida. Um esgotamento gostoso. Boa parte desses textos foram retirados de uma autobiografia que comecei a escrever e foram adaptados para o Teatro. Essa outra obra, aí sim literária, naturalmente traz muitas outras histórias entrelaçadas como essa e se propõem um dia a virar um livro. Então claro, essas histórias se recusam a descansar e sem dúvida existe uma urgência em termina-las. No entanto, o cansaço da vida tem me ensinado a não correr mas a viver caminhando junto com a Arte. Muito obrigado por essa linda entrevista. Espero todos lá!


Ficha técnica
Espetáculo "O Cachorro Que Se Recusou A Morrer"

Criação, texto e atuação: Samir Murad
Direção: Delson Antunes e Samir Murad
Cenografia: José Dias
Figurino e Adereços: Karlla de Luca
Desenho de Luz: Thales Coutinho
Trilha Sonora: André Poyart e Samir Murad
Direção de Movimento: Samir Murad
Videocenário: Mayara Ferreira
Assistente de Direção: Gedivan de Albuquerque
Programação Visual: Fernando Alax
Fotos: Fernando Valle
Direção de produção: Fernando Alax
Produção executiva: Wagner Uchoa
Operação audiovisual: Marco Agrippa
Operação de luz: Chico Hashi
Realização: Cia Teatral Cambaleei, mas não caí... 


Serviço
"O Cachorro Que Se Recusou A Morrer"

Dias 17 e 18 de janeiro, sábado e domingo, sessões às 14h30 e 17h00
Arena B3 - Centro Histórico de São Paulo
Duração: 70 minutos
Classificação: L=livre
Ingressos: https://bileto.sympla.com.br/event/114363/d/355043/s/2395277?

 
Sobre a B3

A B3, a bolsa do Brasil, tem o compromisso de apoiar a democratização do acesso à cultura, por meio de parcerias e patrocínios que facilitem o acesso da sociedade a esses espaços. Em 2023, a bolsa do Brasil apoiou 25 projetos, e possibilitou que mais de 95 mil pessoas acessassem os 7 museus patrocinados por meio do oferecimento também de dias de gratuidade. Dentre as instituições apoiadas estão o MASP, a Pinacoteca de São Paulo, o MIS, o Museu Judaico e MUB3, na capital paulista, o Instituto Inhotim, localizado em Minas Gerais, e o Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. Além das gratuidades, a bolsa do Brasil patrocina ainda uma série de iniciativas culturais, como musicais, eventos e exposições.


Sobre a Aventura

Fundada em 2008, e liderada por Aniela Jordan, diretora artística e produção e geral, Luiz Calainho, diretor de marketing e negócios, e por Giulia Jordan, diretora geral de venues, a Aventura é referência na produção de espetáculos de altíssima qualidade, que tornou o mercado de teatro musical um dos principais segmentos da economia criativa no Brasil. A empresa se estabeleceu como uma grande aliada da multiplicidade artística, fundamental para o desenvolvimento social, econômico e cultural. A sua missão é transformar grandes ideias em realidade, criando fortes conexões entre marcas e projetos. São mais de 40 produções, de espetáculos inéditos e de versões da Broadway, como “Elis, a musical”, “A Noviça Rebelde”, “Sete”, “O Mágico de Oz”, “SamBRA”, “Chacrinha, o musical”, “Romeu & Julieta, ao som de Marisa Monte”, “Merlin e Arthur, um sonho de liberdade” e o infantil “Zaquim”. Em 2022, a produtora inovou com o primeiro musical em formato de série do país, o “Vozes Negras – A Força do Canto Feminino”, e com o musical “Seu Neyla”, apresentado em dois palcos com o uso da internet para criar uma experiência diferenciada no espectador, além de estrear uma parceria com a Disney - Pixar com o espetáculo “Pixar in Concert”. Com o objetivo de democratizar o acesso à cultura, criou a Cia Stone de Teatro, projeto de teatro itinerante no interior do Brasil e é a responsável pela produção da Cia de Ballet Dallal Achcar. Ao todo, foram mais de 3,8 mil apresentações e cerca de 4,5 milhões de espectadores, mais de 16 mil empregos diretos e indiretos gerados, números que não param de crescer. 

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