quinta-feira, 4 de junho de 2026

.: "A Cronologia da Água" mergulha na dor e na redenção de Lidia Yuknavitch


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Em sua aguardada estreia na direção de longas-metragens, Kristen Stewart escolheu o caminho mais íngreme e corajoso ao adaptar a autobiografia de Lidia Yuknavitch em "A Cronologia da Água", que estreia no Cine Arte Posto 4, o cinema da orla de Santos, no litoral de São Paulo. Longe da maquiagem que costuma pasteurizar as cinebiografias de Hollywood, o espectador é arremessado em uma narrativa fragmentada, incômoda e esteticamente provocativa. 

Exibido na prestigiada seção Un Certain Regard do Festival de Cannes, o longa-metragem impactou a Riviera Francesa, de onde saiu consagrado por uma arrebatadora ovação de pé com mais de seis minutos de aplausos contínuos. É um cartão de visitas cinematográfico que posiciona Stewart não mais como a estrela infantojuvenil da saga "Crepúsculo" ou a atriz cultuada da atualidade, mas como uma realizadora destemida.

A trama esmiúça a trajetória sinuosa de Lidia, interpretada com uma entrega física e psicológica devastadora por Imogen Poots. Desde a juventude, a protagonista busca na natação e na literatura os únicos refúgios possíveis contra um ambiente doméstico asfixiante, dominado pelos abusos físicos e sexuais sistemáticos perpetrados pelo próprio pai, Mike, papel defendido pelo ator Michael Epp, sob o olhar tragicamente omisso de uma mãe alcoólatra. 

Quando a piscina deixa de ser um santuário e as aspirações olímpicas desmoronam, Lidia mergulha em uma espiral destrutiva de excessos, drogas, relacionamentos voláteis e perdas irreparáveis, incluindo o trauma de um parto natimorto. A redenção não surge por meio de milagres sentimentais, mas pela fricção com a arte, impulsionada pelo convívio acadêmico com o escritor Ken Kesey, interpretado pelo veterano Jim Belushi, e por experiências terapêuticas heterodoxas ligadas ao universo do BDSM.

A imprensa internacional especializada rapidamente rotulou a produção como um dos grandes acontecimentos cinematográficos recentes. Críticos da revista Variety elogiaram a paixão poética com que a jornada de abuso e redenção é conduzida, enquanto periódicos independentes destacaram a recusa deliberada do roteiro em enquadrar a protagonista no estereótipo limitante da vítima idealizada. 

Para alcançar essa atmosfera de intimidade documental, Stewart e o diretor de fotografia Corey C. Waters tomaram a decisão artística de rodar o filme inteiramente em película de 16mm, utilizando a proporção de tela 1,66:1. Essa escolha técnica confere às imagens uma textura granulada, orgânica e nostálgica, perfeitamente alinhada à névoa das memórias fragmentadas da escritora. O longa arrebatou prêmios importantes nos festivais de Deauville e Savannah, além de render a Kristen Stewart o Prêmio Maverick no IndieWire Honors, consolidando sua transição triunfal para os bastidores da sétima arte.


Ficha técnica
“A Cronologia da Água” | “The Chronology of Water” (título original)
Gênero: drama psicológico, biográfico. Duração: 128 minutos. Classificação indicativa: não recomendado para menores de 18 anos. Ano de produção: 2025. Idioma: inglês. Direção: Kristen Stewart. Roteiro: Kristen Stewart e Andy Mingo (baseado no livro de memórias de Lidia Yuknavitch). Elenco: Imogen Poots, Thora Birch, Susannah Flood, Tom Sturridge, Kim Gordon, Michael Epp, Earl Cave, Esmé Creed-Miles, Jim Belushi, Charlie Carrick. Cenas pós-créditos: não.


Cine Arte Posto 4
Av. Vicente de Carvalho, sem número - Gonzaga - Santos/SP (Posto 4, ao lado do Canal 3)
Em cartaz até dia 10 de junho
Sessões (horário especial): 15h00, 17h30 e 20h00
Funcionamento: terça a domingo (fechado às segundas-feiras)
Ingressos a R$ 3,00 (inteira) e R$ 1,50 (meia-entrada). Pagamento somente em dinheiro, temporariamente.
Telefone: (13) 3286-0297 

.: Coleção Argumentos em três livros que debatem futebol, ética e fake news


Publicada pela Ação Editora, a Coleção Argumentos reúne três livros com linguagem simples e direta, pensados para leitores que têm afã por ideias audaciosas e transformadoras. Ou, como  escreveu o escritor uruguaio Eduardo Galeano, “este mundo infame está grávido de outro possível”. “O Outro Lado do Jogo”, de Adriano Freixo, “Ética e Cidadania”, de Herbert de Souza, o Betinho, e Carla Rodrigues, e “Eles Não Querem que Você Saiba - Armadilhas da Desinformação”, de Sylvia Moretzsonhn chegam às livrarias neste mês de maio pela Ação Editora, um braço cultural da Ação da Cidadania, e trazem um convite à transformação, pois ideias movem o mundo.

 Em uma sociedade contemporânea em que as conversas estão, muitas vezes, fragmentadas e superficiais, os volumes da coleção têm assuntos distintos, mas com um fio condutor em comum:  análises claras, acessíveis e consistentes sobre questões atuais, como temas sociais, culturais, políticos e tecnológicos, oferecendo ferramentas para interpretar o mundo com mais lucidez. 

A coleção parte da ideia de que compreender é o primeiro passo para agir. Ao apresentar ideias, contextos e diferentes perspectivas, a Coleção Argumentos incentiva a reflexão crítica, o questionamento de narrativas prontas e a construção de um ponto de vista próprio. São leituras de formato ágil, mas profundas no conteúdo, capazes de ampliar repertório e estimular posições conscientes diante dos desafios do presente. Compre os livros da Coleção Argumentos neste link.


O Outro Lado do Jogo", de Adriano Freixo
"O Outro Lado do Jogo", de Adriano Freixo, é uma obra que prova que o futebol nunca foi apenas um jogo. O livro propõe uma leitura crítica para além do espetáculo esportivo, analisando-o como fenômeno político, social e cultural. Num ano da Copa do Mundo Fifa, em que os olhos do mundo todo, em particular a paixão brasileira pelo futebol e por nossa seleção, estarão voltados para o futebol nos meses de junho e julho, este livro já chega com a bola toda. A obra articula história, relações internacionais e ciência política para revelar os vínculos entre futebol, poder, identidades nacionais e disputas simbólicas, adotando uma abordagem analítica pouco explorada no mercado editorial de livros sobre esporte.

No livro, se descobre como o futebol se tornou uma das maiores ferramentas de influência do mundo moderno. Regimes autoritários, a rivalidade Brasil x Argentina e o impacto simbólico do 7 a 1: a bola sempre esteve no centro de projetos de poder, nacionalismos e estratégias de geopolítica. “Apesar de, volta e meia, jornalistas, dirigentes esportivos, comentadores de redes sociais e mesmo atletas afirmarem que esporte e política não devem se misturar, [...] a capacidade dos esportes de massa de agregar os indivíduos em torno de uma ideia ou causa foi e continua a ser um elemento fundamental na arena política”, escreve Adriano de Freitas na apresentação do livro.

 Adriano de Freixo possui sólida trajetória acadêmica, com formação, mestrado e doutorado em História, atuação como professor e coordenador de programas de pós-graduação na UFF, além de produção consistente sobre política, história e relações internacionais. Essa credencial confere robustez intelectual e legitimidade à análise proposta. Compre o livro "O Outro Lado do Jogo" neste link.


"Ética e Cidadania", de Herbert de Souza e Carla Rodrigues
Em uma conversa franca, humana e profundamente atual, Herbert de Souza, o Betinho, convida o leitor a retomar as rédeas da história. Esta obra nasceu no coração do movimento que mudou a cara do Brasil nos anos 1990. Enquanto a Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida mobilizava o país de ponta a ponta, ele refletia, nestas páginas, sobre o fim da apatia social como o primeiro passo para uma democracia de verdade.

Esta reedição do livro chega num momento em que o Brasil e o mundo estão efervescentes de conflitos sobre ética e política entranhados na vida de todos. Este é o livro ideal para quem deseja transformar solidariedade em ação política. O sociólogo Betinho convida à ação e à retomada da responsabilidade coletiva, mostrando que o fim da apatia é essencial para uma democracia real.

Betinho descomplica conceitos que muitas vezes parecem distantes, mostrando que a ética não é apenas um ideal, mas o alicerce da política e da convivência social. Ele nos lembra que a política vai muito além das urnas, acontecendo na mesa de jantar, na escola e na forma como escolhemos não ignorar a fome do vizinho. “Ética e Cidadania” é um chamado para quem deseja transformar solidariedade em ação política e acredita que organização popular e compromisso ético podem enfrentar as injustiças históricas do nosso povo. Um livro para quem tem fome de mudança e pressa de viver. “Não existe democracia sem liberdade, igualdade, participação, solidariedade e diversidade, que é reconhecer e admitir as diferenças, saber que se pode ser igual ao outro, mas distinto” – Herbert de Souza, o Betinho. Compre o livro "Ética e Cidadania" neste link.


“Eles Não Querem que Você Saiba - Armadilhas da Desinformação”, de Sylvia Moretzsonhn 
“A mentira constante não serve apenas para enganar – seu verdadeiro propósito é destruir a própria noção de verdade. Quando um povo já não consegue distinguir entre o real e o falso, também perde a capacidade de discernir entre o bem e o mal. E um povo assim, desarmado do pensamento crítico, torna-se presa fácil para qualquer poder que deseje controlá-lo”, diz o texto de Hannah Arendt que integra o prefácio da nova obra de Sylvia Moretzsohn.

Atualmente, estamos sob um verdadeiro "tiroteio" de desinformação. Em uma era dominada por algoritmos de redes sociais, avanços da Inteligência Artificial e a velocidade frenética do jornalismo em tempo real, distinguir o fato da manipulação tornou-se um desafio cotidiano. Neste livro, a jornalista e pesquisadora, voz fundamental na crítica de mídia brasileira, oferece as ferramentas necessárias para romper essa barreira. A obra aplica os fundamentos da análise do discurso para ensinar o leitor a ler nas entrelinhas das notícias, revelando os interesses e as intenções que muitas vezes permanecem ocultos por trás das matérias jornalísticas.

“Eles Não Querem que Você Saiba - Armadilhas da Desinformação”  ajuda a navegar em um universo dominado por fake news, um espaço onde informação e manipulação se entrelaçam. É uma leitura essencial para qualquer pessoa que deseje compreender como identidade e poder se confrontam no campo da informação. "Vivemos no contexto que se convencionou chamar de “pós-verdade” – a rigor, uma radicalização do relativismo pós-moderno que ganhou força décadas atrás – em que as crenças prevalecem sobre as evidências", diz a autora.

 Sylvia Moretzsohn é referência nacional em ética no jornalismo, com trajetória consolidada como pesquisadora, professora universitária da Universidade Federal Fluminense e autora de obras fundamentais sobre crítica de mídia, como “Jornalismo em Tempo Real: O Fetiche da Velocidade”  e “Pensando contra os fatos: jornalismo e cotidiano - Do Senso Comum ao Senso Crítico”. Compre o livro "Eles Não Querem que Você Saiba - Armadilhas da Desinformação" neste link.

.: "Vicentina Pede Desculpas", novo filme de Gabriel Martins, diretor de "Marte 1"


Rejane Faria aparece como a protagonista Vicentina em imagem inédita da produção, uma parceria entre Netflix e Filmes de Plástico. Foto: Denise dos Santos / Netflix

A Netflix divulgou a primeira imagem de Rejane Faria como Vicentina no filme "Vicentina Pede Desculpas", com direção e roteiro de Gabriel Martins, diretor de "Marte Um". A colaboração com a produtora Filmes de Plástico marca mais uma parceria da Netflix com importantes vozes do cinema independente brasileiro.  Na trama, a protagonista precisa lidar com a tragédia que se segue à morte de seu filho Wesley em um acidente de ônibus do qual ele era o motorista. 

À medida em que a investigação se desenrola, evidências sugerem que a ação de Wesley possa ter sido uma tentativa de suicídio, e Vicentina então embarca em uma jornada para procurar as famílias das vítimas e pedir desculpas, enquanto lida com as próprias dores e incertezas. “'Vicentina Pede Desculpas' fala sobre uma mulher tentando seguir em frente depois de uma tragédia íntima. A Rejane trouxe uma verdade forte para essa personagem, e equilibrou de forma delicada todas as nuances dessa mulher: alguém atravessado por uma dor impossível, mas que ainda tenta encontrar alguma forma de seguir em frente e de se reconciliar consigo mesma. É um filme sobre luto, humanidade e sobre continuar caminhando mesmo quando tudo parece desabar”, afirmou o diretor Gabriel Martins.

Com produção da Filmes de Plástico, reconhecida internacionalmente por seu olhar autoral e por obras premiadas em alguns dos principais festivais de cinema do mundo, o filme conta ainda com Maíra Azevedo, Renato Novaes, Karine Teles, Giovanna Heliodoro, Thalma de Freitas e Grace Passô no elenco. 


Sobre "Vicentina Pede Desculpas"
Em uma manhã ensolarada em Belo Horizonte, um ônibus lotado segue para o centro da cidade. Ao cruzar um viaduto, o veículo repentinamente desvia, sai da pista e cai na avenida abaixo. Um passageiro fica gravemente ferido, enquanto todos os outros - incluindo Wesley, o motorista - morrem. A tragédia domina os noticiários de televisão e as manchetes dos jornais em todo o país. As câmeras de segurança do ônibus e da via registram o momento do acidente e, após a análise das imagens, começam a circular especulações de que o motorista poderia ter agido intencionalmente, num aparente suicídio. Vicentina, uma professora aposentada de 75 anos e mãe de Wesley, fica devastada com a tragédia e sem saber como seguir em frente. Ela decide procurar as famílias das vítimas e pedir desculpas. O caminho à sua frente se mostra difícil, e as respostas que Vicentina tanto busca nem sempre são as que ela encontra.


Ficha técnica
Direção: Gabriel Martins
História Original: Gabriel Martins
Roteiro: Gabriel Martins
Trilha Sonora: Tiganá Santana
Fotografia: Leonardo Feliciano
Edição: Gabriel Martins, Thiago Ricarte
Som: Tiago Bello (Edição e Mixagem); Gustavo Fioravante (Gravação)
Design de Produção: Rimenna Procópio
Figurino: Diana Moreira
Efeitos Especiais: Rodrigo Jinks, Marcelo Cabral, Cajamanga, Quanta
Produtora: Filmes de Plástico
Elenco: Rejane Faria (Vicentina); Maíra Azevedo (Joana); Renato Novaes (Wesley/Bruno); Giovanni Venturini (Fred); Giovanna Heliodoro (Gisele); Grace Passô (Isabel); Marisa Revert (Vera); Fernanda Vianna (Marta); Clébia Sousa (Solange); Fábio Leal (Victor); Docy Moreira (Marluce); Carlos Francisco (Antônio); Thalma de Freitas (Cleide); Flavio Bauraqui (Luiz); Bárbara Colen (Amélia); apresentando Miguelzinho do Cavaco (Ele Mesmo) 

quarta-feira, 3 de junho de 2026

.: "Delicatessen" é banquete surrealista de Jean-Pierre Jeunet e Marc Caro


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

O cinema francês sempre carregou a fama de flertar com o existencialismo e a filosofia profunda, muitas vezes esquecendo o poder do puro absurdo. Quando estreou nos cinemas franceses, em abril de 1991, "Delicatessen", que agora volta em cartaz na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, implodiu essa solenidade europeia com a precisão de um cutelo bem afiado. Dirigido pela dupla estreante Jean-Pierre Jeunet e Marc Caro, o longa-metragem injetou um humor revigorante e uma estética visual arrebatadora no cenário internacional, conquistando rapidamente o status de cult definitivo. 

Sob a assinatura estética inspirada na fotografia monocromática de Brassaï e no lirismo caótico de Terry Gilliam - que inclusive apadrinhou o lançamento da obra na América do Norte -, o filme transforma a escassez absoluta em uma experiência cinematográfica de fartura sensorial. A trama se estabelece em um edifício dilapidado, imerso em uma França pós-apocalíptica de tons amarelados e cinzentos, onde a comida se tornou o bem mais precioso e os grãos de cereais funcionam como moeda de troca oficial. 

No térreo desse microcosmo social, opera um açougue comandado por Clapet, um senhorio brutal interpretado com maestria sádica por Jean-Claude Dreyfus. Para manter o negócio abastecido e os inquilinos devidamente alimentados, Clapet adota uma estratégia de recrutamento peculiar: publica anúncios de emprego para atrair trabalhadores desavisados, que logo se transformam na matéria-prima das iguarias vendidas no balcão. O equilíbrio dessa engrenagem macabra é colocado à prova quando Louison, um ex-palhaço de circo desempregado vivido pelo expressivo Dominique Pinon, aceita a vaga de zelador e desperta o afeto de Julie, a doce filha do açougueiro, interpretada por Marie-Laure Dougnac.

Os bastidores da produção revelam que o cerne desta sátira canibal nasceu de vivências bastante cotidianas e curiosas do próprio Jean-Pierre Jeunet. Em 1988, durante as férias nos Estados Unidos, o cineasta se deparou com uma culinária de hotel tão insossa e peculiar que brincou com a ideia de que os pratos seriam feitos de carne humana. O estalo definitivo, contudo, ocorreu quando morava no andar superior de um açougue em Paris; todas as manhãs, por volta das sete horas, o som rítmico do cutelo batendo contra o balcão ecoava em seu quarto, inspirando a criação do ritmado e claustrofóbico universo do prédio. 

Toda essa bagagem cultural e o amor por referências que vão da melancolia fotográfica de Robert Doisneau às peripécias físicas de Buster Keaton e Tex Avery foram condensados em sequências antológicas, como a sinfonia cômica que une o ranger das molas de uma cama a uma colagem de sons cotidianos do edifício. Embora uma parcela da crítica norte-americana da época tenha demonstrado certa resistência ao clímax cataclísmico e molhado do terceiro ato, o consenso crítico foi amplamente favorável, rendendo ao filme uma aceitação duradoura de 90% no agregador Rotten Tomatoes.

Para além do entretenimento excêntrico, analistas contemporâneos enxergam na obra uma alegoria ácida sobre o movimento de resistência na Europa ocupada e as dinâmicas de sobrevivência social. A consagração na temporada de premiações confirmou o talento da dupla de realizadores: "Delicatessen" arrebatou quatro prêmios César - incluindo Melhor Estreia e Melhor Roteiro Original, escrito em parceria com Gilles Adrien -, além do prêmio de Melhor Direção no Festival de Sitges e o prestigiado Prêmio de Ouro no Festival Internacional de Cinema de Tóquio. É uma iguaria cinematográfica indispensável que abriu as portas do mundo para que Jeunet, dez anos mais tarde, fizesse história com o solar "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain".


Ficha técnica
“Delicatessen”
Gênero: comédia, ficção científica, fantasia. Duração: 99 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 1991. Idioma: francês. Direção: Jean-Pierre Jeunet e Marc Caro. Roteiro: Gilles Adrien, Jean-Pierre Jeunet e Marc Caro. Elenco: Dominique Pinon, Marie-Laure Dougnac, Jean-Claude Dreyfus, Karin Viard, Ticky Holgado, Rufus, Howard Vernon, Chick Ortega. Distribuição no Brasil: Flashstar Home Video / Continental Home Vídeo (lançamentos históricos em home video). Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte


Assine o Belas Artes À La Carte, o streaming de quem leva cinema a sério
A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.

.: MIS SP promove curso “100 Anos de Marilyn Monroe”


Andy Warhol. Marilyn Monroe. 1967

O Museu da Imagem e do Som de São Paulo abre as portas para uma imersão profunda na trajetória da maior lenda de Hollywood. Celebrando o centenário de nascimento da atriz e cantora estadunidense, nascida em 1º de junho de 1926, o curso presencial “100 Anos de Marilyn Monroe” propõe um debate essencial sobre o verdadeiro legado de Marilyn Monroe, subvertendo o rótulo de mero símbolo estético para focar na genialidade técnica da atriz e no impacto cultural que ela consolidou ao longo do século 20. 

Uma das grandes curiosidades que cercam a carreira da estrela, frequentemente debatida por pesquisadores e pela imprensa especializada, é o controle rigoroso que ela tentava exercer sobre a própria narrativa artística, chegando a fundar a sua própria produtora para fugir dos papéis estereotipados que os grandes estúdios tentavam lhe impor. O programa educativo foi estruturado para analisar essa evolução passo a passo. As aulas mergulham na filmografia de Marilyn desde a sua estreia em papéis de destaque, como no musical “Mentira Salvadora” (1948), passando pelo prestigiado clássico policial “O Segredo das Joias” (1950), dirigido por John Huston, até alcançar o crepúsculo de sua carreira no denso “Os Desajustados” (1961), longa roteirizado por seu então marido, o dramaturgo Arthur Miller. 

Além do cinema, as aulas investigam o trabalho dos fotógrafos responsáveis por imortalizar a sua imagem, como Bert Stern e Allan Grant, e a força de sua iconografia na pop art de Andy Warhol e na música pop contemporânea, explicitada no videoclipe “Material Girl”, em que Madonna recria a famosa cena de “Os Homens Preferem as Loiras” (1953). A investigação acadêmica também joga luz sobre a obsessão contemporânea em decifrar a vida privada da artista por meio de produções biográficas. 

O curso analisa criticamente obras recentes e consagradas, como o drama “Sete Dias com Marilyn” (2011), de Simon Curtis, a controversa cinebiografia “Blonde” (2022), de Andrew Dominik, e o documentário "O Mistério de Marilyn Monroe: Gravações Inéditas" (2022), dirigido por Emma Cooper. Os encontros presenciais acontecem nos dias 2, 9, 11 e 16 de junho, sempre às terças e quintas-feiras, das 19h00 às 21h30. O investimento é de R$ 200, e as inscrições podem ser feitas diretamente no site oficial do MIS.

Marilyn Monroe no streaming
A atriz Marilyn Monroe completaria 100 anos no dia 1.° de junho de 2026. Mais de seis décadas depois de sua morte, aos 36 anos, ela continua sendo a figura feminina mais reconhecida da história do cinema. Para celebrar o centenário da atriz, a plataforma Belas Artes À La Carte destaca uma coletânea especial com alguns dos filmes mais importantes da sua carreira: "O Segredo das Joias" (1950), de John Huston; "A Malvada" (1950), de Joseph L. Mankiewicz; "Conflito à Noite" (1952), de Fritz Lang; "Como Agarrar um Milionário" (1953), de Jean Negulesco; "Os Homens Preferem as Loiras" (1953), de Howard Hawks; e "O Pecado Mora ao Lado" (1955), de Billy Wilder. 

É uma boa chance de revisitar uma atriz que, durante muito tempo, acabou reduzida apenas à própria imagem. No fim das contas, Marilyn acabou se tornando tão eterna quanto os diamantes que ostentou em uma de suas performances mais icônicas Antes de virar estrela mundial, ela passou anos tentando conseguir espaço em papéis pequenos e produções em que quase sempre aparecia dentro do mesmo tipo de personagem. Aos poucos, porém, começou a chamar atenção pelo talento para a comédia, pela presença em cena e pelo carisma que tinha diante das câmeras. 

Foi a partir daí que ela passou a trabalhar com alguns dos diretores mais importantes do cinema, como John Huston, Joseph L. Mankiewicz, Fritz Lang, Billy Wilder e Howard Hawks. Com o tempo, vieram personagens mais interessantes e também o reconhecimento da indústria. Em 1960, Marilyn venceu o Globo de Ouro de Melhor Atriz em Comédia ou Musical por "Quanto Mais Quente Melhor", prêmio que ajudou a reforçar algo que muita gente já via nas telas: ela era uma atriz muito mais versátil do que os estúdios costumavam admitir. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.


Serviço
Curso presencial “100 Anos de Marilyn Monroe” |
R$ 200,00 | 2, 9, 11 e 16 de junho, das 19h00 às 21h30, terças e quintas. Mais informações: https://mis-sp.org.br/evento/100-anos-de-marilyn-monroe/. MIS SP - Avenida Europa, 158 - Jd. Europa - São Paulo. A programação é uma realização do Ministério da Cultura, Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas de São Paulo, e MIS, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, ProAC e Promac. O MIS tem patrocínio institucional da Livelo, Vivo, Goldman Sachs, Ituran e Goodstorage e apoio institucional das empresas Delboni, EAÍ?! Marketing, Unisys, Volkswagen Caminhões e Ônibus, Unipar, Campari, Colégio Albert Sabin, PWC, Telium, Kaspersky, Gabriel e Play Audiovisual.

.: O fantasma da autocrítica ganha voz e traço em "Todo Mundo Ama Jeanne"


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

O cinema francês sempre teve uma aptidão singular para extrair graça do desespero, e a diretora Céline Devaux abraça essa tradição com uma ousadia visual refrescante. Em cartaz estreia na plataforma de streaming Reserva Imovision, a comédia "Todo Mundo Ama Jeanne" equilibra as dores do luto e do fracasso financeiro sob uma ótica inesperadamente leve. O longa-metragem acompanha Jeanne, interpretada por Blanche Gardin, uma empresária do ramo ecológico que vê seu projeto revolucionário de despoluição marinha afundar sob os olhares do público. Falida, cheia de dívidas e assombrada pelo recente suicídio da mãe, ela se vê obrigada a viajar para Lisboa com o objetivo de vender o apartamento da família.

A viagem ganha contornos de humor absurdo logo no aeroporto, quando Jeanne é abordada por Jean, papel de Laurent Lafitte. O sujeito é um antigo colega de escola de quem ela não guarda a menor lembrança, mas que se revela uma figura inconveniente, invasiva e dotada de uma excentricidade irresistível. Em solo português, a protagonista ainda precisa lidar com a reaparição de um antigo namorado, vivido por Nuno Lopes, enquanto tenta encontrar forças para arrumar o imóvel repleto de memórias dolorosas. A grande sacada da diretora, que estreia longas-metragens com esse filme, é dar vida aos pensamentos intrusivos de Jeanne por meio de pequenas inserções em animação. Um fantasminha cabeludo, desenhado e dublado pela própria cineasta, surge na tela para verbalizar as inseguranças e as autocríticas mais cruéis da personagem.

A inspiração para o roteiro nasceu de observações reais de Céline Devaux durante suas viagens a Portugal em meados de 2010, no auge da crise econômica europeia, quando viu amigos se desfazendo de patrimônios devido à inflação sufocante. A diretora revelou à imprensa que decidiu colocar na tela os seus maiores temores em relação ao futuro do planeta e ao luto, transformando temas densos em algo deliberadamente estranho e divertido. Outro ponto que chama a atenção na estrutura narrativa é a inversão do clássico arquétipo cinematográfico conhecido como Manic Pixie Dream Girl - aquela personagem feminina excêntrica que surge apenas para salvar o protagonista masculino de sua apatia. Laurent Lafitte assume esse papel de agente do caos terapêutico, usando a falta de noção para empurrar Jeanne de volta à vida.

Exibido originalmente na prestigiada Semana da Crítica do Festival de Cannes, o filme chama a atenção pela inventividade, embora divida opiniões quanto ao ritmo. Para parte da crítica especializada, o contraste entre o marasmo apático da atuação de Blanche Gardin e a vivacidade das animações cria um desequilíbrio na tela, fazendo com que o longa por vezes flerte com a superfície dos problemas que propõe debater. Ainda assim, a produção se destaca como um exercício criativo de empatia, no qual os coadjuvantes de peso, como a veterana atriz suíça Marthe Keller no papel da mãe falecida, garantem sustentação a uma comédia dramática que passa longe de ser convencional.


Ficha Técnica
“Todo Mundo Ama Jeanne” | "Tout le Monde Aime Jeanne" (título original) | "Toda a gente gosta de Jeanne" (em Portugal)
Gênero: comédia, drama, romance. Duração: 95 minutos.Classificação indicativa: Não recomendado para menores de 14 anos Ano de produção: 2022 (lançamento no Brasil em 2024). Idioma: francês (com trechos em português). Direção e roteiro: Céline Devaux. Elenco: Blanche Gardin, Laurent Lafitte, Nuno Lopes, Marthe Keller, Maxence Tual. Distribuição no Brasil: Imovision. Cenas pós-créditos: não.

 nesta quinta-feira, dia 21 de maio, como uma obra rara que ultrapassa o objeto imediato - a gastronomia - para tocar em algo mais profundo: a ética do trabalho, a obsessão pela excelência e o peso silencioso da herança. Dirigido e roteirizado por David Gelb, o filme acompanha o cotidiano de Jiro Ono, mestre octogenário que transformou um balcão de dez lugares escondido em uma estação de metrô de Tóquio em um dos restaurantes mais reverenciados do mundo, agraciado com três estrelas do guia Michelin.


Gelb inicialmente concebeu o projeto como um panorama mais amplo sobre diferentes sushimen, algo que ele próprio definiu como um “Planeta Sushi”, em referência à estética grandiosa das produções da BBC. O encontro com Jiro, no entanto, deslocou o eixo do filme: não havia mais interesse em diversidade de estilos, mas na singularidade de um homem que, aos 85 anos, ainda repetia os mesmos gestos com a precisão de quem persegue um ideal inalcançável. 

A decisão deu ao documentário uma espinha narrativa mais íntima, centrada também na relação com o filho mais velho, Yoshikazu, destinado a herdar não apenas o restaurante Sukiyabashi Jiro, mas o fardo de corresponder a um padrão quase inatingível. O filme constrói sua força na repetição - tanto temática quanto estética. A trilha sonora, que inclui composições de Philip Glass, Tchaikovsky e Max Richter, ecoa a rotina do protagonista: ciclos que se reiteram, mas nunca são idênticos. Há, nisso, uma espécie de metáfora sonora para o próprio conceito de aperfeiçoamento contínuo que orienta Jiro. 

A câmera de Gelb, por sua vez, privilegia closes e movimentos lentos, quase reverenciais, que transformam o preparo do sushi em um ritual de minúcias. Não se trata apenas de comida, mas de um processo que começa na escolha rigorosa dos fornecedores - muitos dos quais se orgulham de servir exclusivamente ao restaurante - e culmina em um gesto aparentemente simples: servir.

Entre as curiosidades reveladas, uma chama atenção pela precisão quase científica do método: o sushi ideal deve equilibrar temperaturas distintas - o arroz ligeiramente aquecido à temperatura corporal e o peixe em temperatura ambiente. Pequenos detalhes como esse ajudam a compreender por que a excelência, aqui, não é um discurso, mas uma prática obsessiva. O próprio Jiro sintetiza essa filosofia em uma frase que atravessa o filme: “Eu faço a mesma coisa repetidamente, melhorando pouco a pouco”

A recepção crítica internacional confirma o impacto da obra. Com 99% de aprovação no Rotten Tomatoes e avaliações majoritariamente favoráveis no Metacritic, o documentário foi celebrado não apenas como um retrato gastronômico, mas como uma reflexão sobre disciplina e propósito. O crítico Roger Ebert, em uma de suas últimas análises marcantes, descreveu o filme como um estudo quase enigmático de um homem cuja vida parece inteiramente consumida por sua arte - uma devoção que levanta questões incômodas sobre sacrifício, realização e limites pessoais.

Exibido inicialmente no Festival de Tribeca em 2011, “Jiro Sonha com Sushi” também encontrou um público mais amplo ao ser disponibilizado em plataformas de streaming, consolidando-se como um dos documentários gastronômicos mais influentes da última década. Ainda que se passe em um espaço minúsculo - um restaurante sem luxo aparente e com poucos assentos --, o filme expande as fronteiras para discutir algo universal: o que significa dedicar uma vida inteira a fazer uma única coisa, e fazê-la melhor do que qualquer outro.


Ficha técnica
“O Sushi dos Sonhos de Jiro” | “Jiro Dreams of Sushi” (título original)
Gênero: Documentário. Duração: 82 min. Classificação indicativa: Livre. Ano de produção: 2011. Idioma: Japonês. Direção: David Gelb. Roteiro: David Gelb. Elenco: Jiro Ono, Yoshikazu Ono, Masuhiro Yamamoto. Distribuição no Brasil: (varia por relançamento/exibição). Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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A equipe do Resenhando.com acompanha os filmes por meio da plataforma de streaming Reserva Imovision, dedicada ao cinema independente e autoral. Para acessar o catálogo completo, conferir novidades e realizar sua assinatura, o aplicativo da plataforma ou o visite o site oficial neste link. A Reserva Imovision reúne filmes e séries cuidadosamente selecionados, ampliando o acesso a obras que valorizam a diversidade cultural, a reflexão e experiências cinematográficas diferenciadas. 
Você pode assinar a plataforma de streaming Reserva Imovision neste link.

terça-feira, 2 de junho de 2026

.: MIS SP celebra centenário de Marilyn Monroe com exposição, mostra e curso


Além da série fotográfica “Marilyn: a última entrevista”, em cartaz pelo Maio Fotografia no MIS 2026, Museu realiza a Mostra Marilyn Monroe 100 anos e oferece um curso sobre o tema. Na imagem, cena do filme "O Rio das Almas Perdidas", que será exibido na Mostra Marilyn Monroe 100 Anos. Foto: divulgação

No dia 1º de junho de 2026, foi celebrado o centenário da atriz e cantora Marilyn Monroe. De símbolo de beleza a ícone incontornável da cultura pop do século 20, Marilyn entrou para a história mundial de forma definitiva. Para registrar seus cem anos de nascimento e abrir diálogo com a sociedade sobre seu papel de atriz, o MIS, que inaugurou, em maio, a exposição “Marilyn: a Última Rntrevista”, pelo projeto Maio Fotografia no MIS 2026, realiza, no mês de junho, uma mostra de filmes e oferece um curso sobre a artista. Além disso, no fim do mês, o Museu ainda realiza uma edição especial do Doc.MIS com a exibição do documentário “Marilyn Monroe: o Fim dos Dias”.


Marilyn Monroe no streaming
A atriz Marilyn Monroe completaria 100 anos no dia 1.° de junho de 2026. Mais de seis décadas depois de sua morte, aos 36 anos, ela continua sendo a figura feminina mais reconhecida da história do cinema. Para celebrar o centenário da atriz, a plataforma Belas Artes À La Carte destaca uma coletânea especial com alguns dos filmes mais importantes da sua carreira: "O Segredo das Joias" (1950), de John Huston; "A Malvada" (1950), de Joseph L. Mankiewicz; "Conflito à Noite" (1952), de Fritz Lang; "Como Agarrar um Milionário" (1953), de Jean Negulesco; "Os Homens Preferem as Loiras" (1953), de Howard Hawks; e "O Pecado Mora ao Lado" (1955), de Billy Wilder. 

É uma boa chance de revisitar uma atriz que, durante muito tempo, acabou reduzida apenas à própria imagem. No fim das contas, Marilyn acabou se tornando tão eterna quanto os diamantes que ostentou em uma de suas performances mais icônicas Antes de virar estrela mundial, ela passou anos tentando conseguir espaço em papéis pequenos e produções em que quase sempre aparecia dentro do mesmo tipo de personagem. Aos poucos, porém, começou a chamar atenção pelo talento para a comédia, pela presença em cena e pelo carisma que tinha diante das câmeras. 

Foi a partir daí que ela passou a trabalhar com alguns dos diretores mais importantes do cinema, como John Huston, Joseph L. Mankiewicz, Fritz Lang, Billy Wilder e Howard Hawks. Com o tempo, vieram personagens mais interessantes e também o reconhecimento da indústria. Em 1960, Marilyn venceu o Globo de Ouro de Melhor Atriz em Comédia ou Musical por "Quanto Mais Quente Melhor", prêmio que ajudou a reforçar algo que muita gente já via nas telas: ela era uma atriz muito mais versátil do que os estúdios costumavam admitir. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.


Mostra “Marilyn Monroe 100 anos” | 2 a 7 de junho | R$ 6,00 (inteira) 
A curadoria do cineasta André Sturm selecionou doze títulos com participações menos ou mais proeminentes de Marilyn, mas com destaque especial para seus trabalhos menos reverenciados, de caráter mais intimista ou sóbrio. “Queria dar destaque para uma Marilyn Monroe séria na tela, ou ainda tímida no início de sua carreira no cinema”, conta o curador. “Seus filmes mais celebrados, sobretudo os dirigidos por Billy Wilder, são excelentes e já estão na memória dos espectadores. A ideia aqui era tentar revelar essa Marilyn menos pop, menos óbvia, menos objeto de desejo, por isso seus filmes mais ‘lado B’, por assim dizer. A gente vai poder ver uma Marilyn pré-magnetismo total”, explica. 

A lista de filmes inclui raridades, entre os quais “Idade Perigosa”, que marca o primeiro papel com fala de Marilyn Monroe; “Mentira Salvadora”, que traz sua primeira protagonista; “Só a Mulher Peca”, um drama noir do lendário diretor Fritz Lang; “O Rio das Almas Perdidas”, um western musical de Otto Preminger que mereceu ter seu pôster na sala da casa da atriz em Los Angeles; e dois filmes dirigidos por John Huston, incluindo “Os Desajustados”, o último trabalho de Marilyn no cinema. 


Terça-feira, 2 de junho
18h00 | Auditório MIS 
"Torrentes de Ódio" 
("Clash by Night", dir. Fritz Lang, 1952, Estados Unidos, 105 min, 14 anos) 
Após anos fora, uma mulher retorna a sua cidade natal e tenta reconstruir a vida ao lado de um pescador trabalhador. O casamento, porém, entra em crise quando desejos reprimidos e frustrações pessoais vêm à tona. O filme combina melodrama e tensão emocional em um retrato duro das relações humanas. 

20h00 |Auditório MIS 
"O Segredo das Viúvas" 
("Love Nest", dir. Joseph M. Newman, 1951, Estados Unidos, 84 min, livre) 
Um casal recém-casado retorna a Nova York em busca de um apartamento e acaba alugando um imóvel em um prédio cheio de moradores excêntricos. A convivência provoca situações amorosas e mal-entendidos que envolvem ciúme, ambição e vida conjugal. A trama mistura romance leve e comédia urbana do pós-guerra. 


Quarta-feira, 3 de junho
18h00 | Auditório MIS 
"Anos Perigosos" 
("Dangerous Years", dir. Arthur Pierson, 1947, Estados Unidos, 62 min, 12 anos) 
Moradores de uma pequena cidade passam a temer a influência de um novo restaurante frequentado por jovens rebeldes. Um professor tenta afastar adolescentes da criminalidade, mas acaba envolvido em uma tragédia que leva um grupo de delinquentes a julgamento. O filme mistura drama juvenil e tribunal, refletindo preocupações do pós-guerra com a violência entre jovens. 

20h00 | Auditório MIS 
"Páginas da Vida" 
("O. Henry’s Full House", dirs. Henry Hathaway/Howard Hawks/Henry King/Henry Koster/Jean Negulesco, 1952, Estados Unidos, 117 min, 12 anos) 
Antologia inspirada em contos de O. Henry que reúne histórias independentes marcadas por ironia, drama e reviravoltas finais. Os episódios abordam temas como amor, sacrifício, crime e acaso, mantendo o tom humano e sentimental característico do escritor. 


Quinta-feira, 4 de junho
 
16h00 | Auditório MIS 
"Almas Descasadas / Travessuras de Casados" 
("We’re Not Married!", dir. Edmund Goulding, 1952, Estados Unidos, 86 min, 10 anos) 
Diversos casais descobrem simultaneamente que seus casamentos não têm validade legal devido a um erro burocrático. A notícia provoca crises, reconciliações e situações cômicas envolvendo relacionamentos e expectativas amorosas. 

17h00 | Auditório LABMIS 
"O Segredo das Joias" 
("The Asphalt Jungle", dir. John Huston, 1950, Estados Unidos, 112 min, 14 anos) 
Um criminoso experiente reúne especialistas para executar um grande roubo em uma joalheria. O plano parece perfeito, mas falhas humanas e ambições individuais conduzem o grupo a consequências inesperadas. O filme influenciou profundamente o cinema policial posterior. 

18h00 | Auditório MIS 
"O Rio das Almas Perdidas" 
("River of No Return", dir. Otto Preminger, 1954, Estados Unidos, 91 min, 14 anos) 
Durante uma perigosa viagem por um rio no oeste americano, três pessoas precisam enfrentar corredeiras, ataques e conflitos internos para sobreviver. A travessia transforma gradualmente a relação entre elas, marcada por desconfiança, ressentimento e aproximação afetiva. 

19h00 | Auditório LABMIS 
"Páginas da Vida" 
("O. Henry’s Full House", dirs. Henry Hathaway/Howard Hawks/Henry King/Henry Koster/Jean Negulesco, 1952, Estados Unidos, 117 min, 12 anos) 
Antologia inspirada em contos de O. Henry que reúne histórias independentes marcadas por ironia, drama e reviravoltas finais. Os episódios abordam temas como amor, sacrifício, crime e acaso, mantendo o tom humano e sentimental característico do escritor. 

20h00 | Auditório MIS 
"Os Desajustados" 
("The Misfits", dir. John Huston, 1961, Estados Unidos, 124 min, 14 anos) 
Uma mulher recém-divorciada se aproxima de homens solitários e deslocados no interior do oeste americano. Enquanto tentam encontrar sentido para a própria vida, os personagens enfrentam frustrações afetivas, desgaste emocional e a sensação de não pertencer mais ao mundo ao redor. 


Sexta-feira, 6 de junho
 
17h00 |Auditório LABMIS  
"Love Happy" 
("Love Happy", dir. David Miller, 1949, Estados Unidos, 91 min, livre) 
Integrantes de uma companhia teatral enfrentam dificuldades financeiras enquanto tentam manter um espetáculo em cartaz. Paralelamente, um roubo de joias desencadeia perseguições e confusões envolvendo criminosos e artistas. A trama mistura musical, comédia e suspense farsesco. 

18h00 | Auditório MIS 
"Mentira Salvadora" / "Mulheres em Coro" 
("Ladies of the Chorus", dir. Phil Karlson, 1948, Estados Unidos, 61 min, 10 anos) 
Uma jovem corista tenta construir carreira nos palcos enquanto divide a rotina com a mãe, também artista de teatro musical. Quando surge um romance com um homem de origem social mais alta, as diferenças de classe e as inseguranças familiares passam a interferir na relação. 

19h00 | Auditório LABMIS 
"O Rio das Almas Perdidas" 
("River of No Return", dir. Otto Preminger, 1954, Estados Unidos, 91 min, 12 anos) 
Durante uma perigosa viagem por um rio no oeste americano, três pessoas precisam enfrentar corredeiras, ataques e conflitos internos para sobreviver. A travessia transforma gradualmente a relação entre elas, marcada por desconfiança, ressentimento e aproximação afetiva. 

20h00 | Auditório MIS 
"Almas Desesperadas" 
("Don’t Bother to Knock", dir. Roy Ward Baker, 1952, Estados Unidos, 76 min, 14 anos) 
Uma babá emocionalmente fragilizada passa a agir de forma cada vez mais imprevisível durante uma noite em um hotel. O encontro com um hóspede solitário desencadeia conflitos psicológicos e situações inquietantes. O suspense explora solidão, trauma e paranoia. 


Sábado, 6 de junho 
16h00 | Auditório MIS 
"Só a Mulher Peca" 
("Clash by Night", dir. Fritz Lang, 1952, Estados Unidos, 105 min, 14 anos) 
Uma mulher retorna a sua cidade natal e tenta reconstruir a vida ao lado de um pescador trabalhador. O casamento, porém, é abalado por frustrações pessoais, desejos reprimidos e relações afetivas cada vez mais tensas. O filme mistura melodrama e realismo social em um retrato duro das relações humanas. 

17h00 | Auditório LABMIS 
"O Segredo das Viúvas" 
("Love Nest", dir. Joseph M. Newman, 1951, Estados Unidos, 84 min, livre) 
Um casal recém-casado retorna a Nova York em busca de um apartamento e acaba alugando um imóvel em um prédio cheio de moradores excêntricos. A convivência provoca situações amorosas e mal-entendidos que envolvem ciúme, ambição e vida conjugal. A trama mistura romance leve e comédia urbana do pós-guerra. 

18h00 | Auditório MIS 
"O Segredo das Joias" 
("The Asphalt Jungle", dir. John Huston, 1950, Estados Unidos, 112 min, 14 anos) 
Um grupo de criminosos planeja um sofisticado roubo de joias que promete render uma fortuna. Apesar da organização cuidadosa, interesses pessoais, traições e erros sucessivos começam a comprometer o plano. 

19h00 | Auditório LABMIS 
"Love Happy" 
("Love Happy", dir. David Miller, 1949, Estados Unidos, 91 min, livre) 
Integrantes de uma companhia teatral enfrentam dificuldades financeiras enquanto tentam manter um espetáculo em cartaz. Paralelamente, um roubo de joias desencadeia perseguições e confusões envolvendo criminosos e artistas. A trama mistura musical, comédia e suspense farsesco. 

20h00 | Auditório MIS 
"Os Desajustados" 
("The Misfits", dir. John Huston, 1961, Estados Unidos, 124 min, 14 anos) 
Uma mulher recém-divorciada se aproxima de homens solitários e deslocados no interior do oeste americano. Enquanto tentam encontrar sentido para a própria vida, os personagens enfrentam frustrações afetivas, desgaste emocional e a sensação de não pertencer mais ao mundo ao redor. 


Domingo, 7 de junho 
17h00 | Auditório MIS 
"Os Desajustados" 
("The Misfits", dir. John Huston, 1961, Estados Unidos, 124 min, 14 anos) 
Uma mulher recém-divorciada se aproxima de homens solitários e deslocados no interior do oeste americano. Enquanto tentam encontrar sentido para a própria vida, os personagens enfrentam frustrações afetivas, desgaste emocional e a sensação de não pertencer mais ao mundo ao redor. 

19h00 | Auditório MIS 
"Só A Mulher Peca" 
("Clash By Night", dir. Fritz Lang, 1952, Estados Unidos, 105 min, 14 anos) 
Uma mulher retorna a sua cidade natal e tenta reconstruir a vida ao lado de um pescador trabalhador. O casamento, porém, é abalado por frustrações pessoais, desejos reprimidos e relações afetivas cada vez mais tensas. O filme mistura melodrama e realismo social em um retrato duro das relações humanas. 


Serviço |
MIS SP - Avenida Europa, 158 - Jd. Europa - São Paulo
Horários: terças a sextas, das 10h00 às 19h00; sábados, das 10h00 às 20h00; domingos e feriados, das 10h00 às 18h00. Ingressos: terças-feiras: gratuito; de quarta a domingo: R$ 60,00 (inteira) e R$ 30,00 (meia) | megapass.com.br/mis
Classificação: livre

A programação é uma realização do Ministério da Cultura, Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas de São Paulo, e MIS, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, ProAC e Promac. O MIS tem patrocínio institucional da Livelo, Vivo, Goldman Sachs, Ituran e Goodstorage e apoio institucional das empresas Delboni, EAÍ?! Marketing, Unisys, Volkswagen Caminhões e Ônibus, Unipar, Campari, Colégio Albert Sabin, PWC, Telium, Kaspersky, Gabriel e Play Audiovisual.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

.: “O Fantasma do Futuro”, a animação que redefiniu o preço da evolução


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Há obras que parecem esculpir os contornos do que se passa a entender como realidade. Quando a animação japonesa "O Fantasma do Futuro" estreou nos cinemas em novembro de 1995, o diretor Mamoru Oshii não estava apenas entregando mais um produto de entretenimento para as massas ávidas por tecnologia. Ele estava injetando um ensaio existencialista profundo na espinha dorsal da cultura pop global. Agora em cartaz na plataforma de streaming Reserva Imovision, o longa-metragem fincou os pés no topo do panteão cyberpunk, ao lado de gigantes como "Akira" e "Blade Runner", tornando-se a fundação estética e conceitual que os irmãos Wachowski abertamente clonaram para dar vida à trilogia "Matrix".

A trama, ambientada em 2029, acompanha a Major Motoko Kusanagi, uma agente cibernética líder da unidade de serviço secreto Esquadrão Shell (a Seção 9). Em um Japão hiperinformatizado, onde ciber-cérebros se conectam diretamente a redes globais, a linha entre a biologia e o silício foi praticamente extinta. Motoko é o ápice dessa transição: uma casca inteiramente artificial que abriga uma semente de consciência. A caçada ao Mestre das Marionetes, um hacker misterioso capaz de invadir mentes alheias e reescrever memórias, transforma-se rapidamente em um espelho incômodo para as próprias angústias da protagonista. O roteiro, estruturado por Kazunori Itô a partir do mangá original de Masamune Shirow, mergulha em diálogos contemplativos e pausas silenciosas que evocam a psicologia analítica de Carl Jung e os limites da individualidade.

O grande triunfo que a crítica especializada e os registros históricos da grande imprensa sempre destacam reside no pioneirismo técnico e sensorial da produção. Foi ali que a animação tradicional em celuloide encontrou a computação gráfica nascente de forma orgânica, gerando o famoso efeito de camuflagem termo-óptica que fascinou plateias pelo mundo. 

Somando-se a isso, a trilha sonora de Kenji Kawai - que funde coros folclóricos búlgaros a percussões tradicionais japonesas e sintetizadores - confere ao filme uma atmosfera de ritual religioso e melancólico. O elenco de dublagem original, encabeçado pelas vozes marcantes de Atsuko Tanaka, Akio Ôtsuka e Kôichi Yamadera, dá peso e frieza cirúrgica a esses personagens que vagam por uma floresta de concreto chuvosa e decadente. Três décadas depois, a obra de Oshii permanece dolorosamente atual, lembrando-nos de que a busca pela alma humana continua sendo a nossa tecnologia mais complexa.


Ficha técnica
“O Fantasma do Futuro” | "Kôkaku Kidôtai" (título original)

Gênero: ficção científica, animação, ação. Duração: 83 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1995. Idioma: japonês, inglês, espanhol. Direção: Mamoru Oshii. Roteiro: Kazunori Itô e Masamune Shirow. Elenco: Atsuko Tanaka, Akio Ôtsuka, Kôichi Yamadera, Tamio Ôki, Iemasa Kayumi, Tesshô Genda, Mitsuru Miyamoto, Shinji Ogawa. Distribuição no Brasil: Flashstar Home Vídeo. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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.: 100 Anos de Marilyn Monroe é destaque no Belas Artes À La Carte


Nesta segunda-feira, dia 1º de junho, a atriz Marilyn Monroe completaria 100 anos. Mais de seis décadas depois de sua morte, aos 36 anos, ela continua sendo a figura feminina mais reconhecida da história do cinema. Para celebrar o centenário da atriz, a plataforma Belas Artes À La Carte destaca uma coletânea especial com alguns dos filmes mais importantes da sua carreira: "O Segredo das Joias" (1950), de John Huston; "A Malvada" (1950), de Joseph L. Mankiewicz; "Conflito à Noite" (1952), de Fritz Lang; "Como Agarrar um Milionário" (1953), de Jean Negulesco; "Os Homens Preferem as Loiras" (1953), de Howard Hawks; e "O Pecado Mora ao Lado" (1955), de Billy Wilder. 

É uma boa chance de revisitar uma atriz que, durante muito tempo, acabou reduzida apenas à própria imagem. No fim das contas, Marilyn acabou se tornando tão eterna quanto os diamantes que ostentou em uma de suas performances mais icônicas Antes de virar estrela mundial, ela passou anos tentando conseguir espaço em papéis pequenos e produções em que quase sempre aparecia dentro do mesmo tipo de personagem. Aos poucos, porém, começou a chamar atenção pelo talento para a comédia, pela presença em cena e pelo carisma que tinha diante das câmeras. 

Foi a partir daí que ela passou a trabalhar com alguns dos diretores mais importantes do cinema, como John Huston, Joseph L. Mankiewicz, Fritz Lang, Billy Wilder e Howard Hawks. Com o tempo, vieram personagens mais interessantes e também o reconhecimento da indústria. Em 1960, Marilyn venceu o Globo de Ouro de Melhor Atriz em Comédia ou Musical por "Quanto Mais Quente Melhor", prêmio que ajudou a reforçar algo que muita gente já via nas telas: ela era uma atriz muito mais versátil do que os estúdios costumavam admitir.


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domingo, 31 de maio de 2026

.: Milla Fernandez desconstrói a própria experiência para questionar limites


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.comFoto: divulgação

Era época da pandemia da covid-19 e pouco antes de o mundo recolher as certezas em salas trancadas e telas acesas, Milla Fernandez descobriu que a sobrevivência material exigia dela uma coreografia inédita. O sustento de uma estrutura familiar inteira dependeu, por meses, do avanço de moedas virtuais em salas de transmissão erótica. 

Sem o verniz da condescendência ou o drama da autocomiseração, estavam postos o corpo, o dinheiro, a webcam e o cansaço de uma jovem atriz que, farta de esperar por testes para novos trabalhos, resolveu precificar os próprios limites diante de estranhos. Do fundo do poço sanitário que a crise de 2020 cavou na cultura, ela emergiu com o texto de "TIP (Antes Que Me Queimem Eu Mesma Me Atiro no Fogo"), monólogo que tem neste domingo , dia 31 de maio, a última apresentação em São Paulo, no Teatro YouTube, após uma passagem incômoda e premiada pelos palcos cariocas. 

Sob a direção precisa e rigorosa de Rodrigo Portella - que limpa a cena de fetiches óbvios para deixar apenas os tapetes vermelhos do sucesso e a crueza da caixa cênica - a atriz faz uma devassa sobre o quanto a sociedade da imagem cobra para manter de pé as ilusões diárias e as perdidas. 


Resenhando.com - No espetáculo "TIP", o gesto de "se atirar no fogo" parece uma estratégia: até que ponto essa exposição radical é controle, e não descontrole, da própria narrativa?
Milla Fernandez - Essa peça nasce de um segredo que pensei que guardaria a vida toda. Contá-lo com as minhas próprias palavras ainda é uma tentativa de controle, mas de outra natureza. Antes eu achava que controlar era prever o resultado e qualquer erro de cálculo era considerado um fracasso. Hoje, “me atirar no fogo” é aceitar que não posso adivinhar a reação das pessoas, só posso decidir não me paralisar diante dela. Ainda existe uma tentativa de controle nisso, mas menos como defesa e mais como a necessidade de colocar no mundo uma versão de mim que não caiba só no olhar do outro. Talvez, daqui a cinco anos, eu mesma mude de ideia sobre a versão que contei. E, estranhamente, aceitar essa instabilidade me libertou mais do que qualquer certeza.


Resenhando.com - Você transforma a lógica da gorjeta ("tip", em inglês) em dramaturgia. O aplauso, no teatro, também pode ser lido como uma moeda? 
Milla Fernandez - Eu não vejo exatamente o aplauso como moeda. Ele pertence a um campo muito mais contraditório: pode ser um encontro genuíno com a obra ou apenas um reflexo social quase automático. A pergunta que fica pra mim é: por que algumas trocas são legitimadas e outras são imediatamente moralizadas? Quem decide o que é nobre e o que é degradante?


Resenhando.com - O que muda quando o desejo do público deixa de ser simbólico e passa a ser literalmente pago?
Milla Fernandez - A experiência de camgirl me fez perceber que desejo, projeção, validação e fantasia existem em muitos tipos de relação entre público e performer, inclusive no teatro. Não da mesma maneira, obviamente. Mas também não tão separados quanto gostamos de imaginar. O dinheiro não cria a objetificação, às vezes ele só impede que certas idealizações permaneçam intactas. E talvez o desconforto venha menos da transação em si e mais do fim da fantasia.


Resenhando.com - Há um momento em que a atriz diz ter aprendido a "respirar debaixo d'água". Esse aprendizado vem antes ou depois de aceitar que talvez não exista superfície para voltar?
Milla Fernandez - Sempre existiu superfície. Acho que o que mudou foi eu parar de acreditar que a superfície era o destino. Por muito tempo, "respirar debaixo d'água" era uma habilidade emergencial, algo que eu fazia enquanto esperava voltar ao normal. Mas fui percebendo que atrofiei minha criatividade tentando me encaixar num molde que nem eu mesma havia escolhido conscientemente, o molde da carreira correta, da progressão esperada, da atriz que espera ser escolhida. O aprendizado de respirar lá embaixo veio quando parei de tratar a submersão como acidente e comecei a tratá-la como território. A superfície não desapareceu, eu é que deixei de precisar dela para existir.


Resenhando.com - Seu trabalho tensiona a fronteira entre autonomia e exploração. Existe um ponto em que essa distinção deixa de fazer sentido, ou ela precisa existir para que a obra se sustente?
Milla Fernandez - Essa tensão precisa existir, não só para que a obra se sustente, mas porque ela é real. Se eu dissesse que fui "livre", estaria mentindo. Se dissesse que fui "explorada", estaria simplificando. A verdade é que as duas coisas habitam o mesmo gesto. O que "TIP" tenta fazer não é resolver essa contradição, é recusar-se a dissolvê-la ou ignorá-la por conforto. Talvez autonomia seja isso: saber que estamos dentro da armadilha e ainda assim tentar decidir como atravessá-la. Acredito que parar de se perguntar é o começo de qualquer forma de violência.


Resenhando.com - O espetáculo parece desmontar a ideia de vocação artística como destino. Depois de tudo, ainda faz sentido falar em "amor à arte" ou as pessoas estão sempre falando, no fundo, de sobrevivência?
Milla Fernandez - Falar em amor à arte sem falar em sobrevivência é um privilégio que muita gente não tem e que o mercado usa para manter artistas em condição de gratidão permanente. “Amor à arte” é uma frase linda, mas muitas vezes usada para romantizar precariedade. Eu ainda acredito no amor, mas desconfio quando ele é exigido como prova de resistência. No fundo, arte e sobrevivência estão muito misturadas. Às vezes a gente cria porque ama; às vezes porque precisa; às vezes porque não sabe mais existir sem transformar a dor em alguma coisa.


Resenhando.com - Em cena, você revisita experiências potencialmente traumáticas com humor ácido. O riso é um mecanismo de defesa, de ataque ou de sedução para o público?
Milla Fernandez - O riso é tudo isso. Defesa, ataque e sedução. Ele protege porque cria distância da ferida, ataca porque desmonta o lugar da vitimização e seduz porque aproxima o público antes de empurrá-lo para um lugar desconfortável. Quando a plateia ri de uma situação constrangedora, ela se surpreende ao se perceber cúmplice. É aí que o espetáculo acontece de verdade, nesse instante em que o riso revela mais do espectador do que da personagem.


Resenhando.com - Ao trazer a família para dentro da narrativa - ainda que ficcionalizada - você desloca o eixo da exposição: o que é mais arriscado, falar de sexo ou falar de afeto?
Milla Fernandez - O sexo nunca esteve separado de afeto, carência ou vulnerabilidade na peça. Então não vejo essas coisas como opostas. O que muda quando a família entra em cena é que a exposição deixa de ser inteiramente administrável. Porque já não envolve só a minha versão sobre mim mesma. Mas o teatro também oferece uma espécie de deslocamento. Nada em cena é exatamente documento, nem totalmente invenção. A ficção não elimina completamente o risco, mas torna possível atravessá-lo.


Resenhando.com - Dirigida por Rodrigo Portella, a peça assume um minimalismo que escancara o próprio teatro. O que sobra quando se retira quase tudo?
Milla Fernandez - O minimalismo não dá chance pra esconderijos, ele obriga a cena a revelar suas “mentiras”, seus “truques”. Rodrigo tem por hábito, nos seus trabalhos, assumir a ficção como experiência compartilhada. Quando ele propõe tirar quase tudo, é uma escolha que reforça o pacto entre atriz e público. Um pacto que fala mais sobre a honestidade de construirmos uma realidade juntos do que de revelar uma grande e única verdade. Ele é um diretor que, antes de qualquer coisa, convoca o imaginário do espectador e aposta no poder do encontro.


Resenhando.com - Você afirma ter deixado de esperar ser escolhida. Esse gesto de autoria é libertador ou inaugura uma nova forma de solidão dentro do mercado artístico?
Milla Fernandez - É libertador e solitário. Durante muito tempo eu esperei ser escolhida pelo olhar do outro. Assumir autoria interrompe essa lógica, mas também revela que independência artística nunca é absoluta. É uma troca de vulnerabilidades: antes, a fragilidade estava em esperar permissão. Agora, está em sustentar a própria voz mesmo quando ela incomoda ou não encontra acolhimento imediato.


Resenhando.com - Se "TIP" é, no fim, uma pergunta que você se faz todos os dias, qual é a única resposta que você torce para nunca encontrar?
Milla Fernandez - Que teria sido melhor ficar calada. Mas essa preocupação eu não tenho. A partir de "TIP", a única coisa que eu vou conhecer é a vida pós-fogueira.


Ficha técnica
Espetáculo “TIP (Antes Que Me Queimem Eu Mesma Me Atiro no Fogo)”
Dramaturgia e performance: Milla Fernandez
Direção: Rodrigo Portella
Direção musical: Federico Puppi
Trilha sonora original: Leonardo Bandeira (bateria) e Federico Puppi
Figurino: Karen Brusttolin
Cenário e luz: Rodrigo Portella
Colaboração: Georgina Vila Bruch
Vídeo design: Plinio Hit
Visagismo: Neandro Ferreira
Fotos: Ale Catan
Identidade Visual: José Mancini e Diego Navarro
Mídias Sociais e Gestão de Tráfego: Nathália Alves
Captação de apoio: RumoToloá
Produção: Ártemis e Virgínia Bravo (Ártemis Produções Artísticas)
Realização: Mil Atividades Artísticas
Assessoria de imprensa: JSPontes Comunicação - João Pontes e Stella Stephany


Serviço
Espetáculo “TIP (Antes Que Me Queimem Eu Mesma Me Atiro no Fogo)”
Temporada até este domingo, dia 31 de maio
Teatro YouTube (antigo Eva Herz) - Av. Paulista, 2073/3º and, Conjunto Nacional, Bela Vista / SP (estacionamento no local)
Sexta-feira e sábado, às 20h00; domingo, às 17h00. Ingressos: R$120,00 e R$60,00 (meia) em https://www.eventim.com.br/artist/teatro-youtube/tip-antes-que-me-queimem-eu-mesma-me-atiro-no-fogo-4076460/ ou na bilheteria de segundas 13h00 às 21h00 / Capacidade: 166 espectadores / Duração: 90 minutos. Gênero: autoficção. Classificação: 18 anos. Acessibilidade teatro: sim / Temporada: até 31 de maio

sábado, 30 de maio de 2026

.: Dez motivos para não perder "Curto-circuito" com Luiz Fernando Guimarães

Luiz Fernando Guimarães e Leticia Augustin - Foto: Leo Aversa

Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em maio de 2026


O espetáculo "Curto-circuito" que celebra os 50 anos de carreira do ator Luiz Fernando Guimarães por meio da comédia inteligente, leva ao palco do Teatro Renaissance o grande nome do humor brasileiro ao lado da atriz Leticia Augustin numa viagem mental hilária. O resultado são reflexões do cotidiano, desde faz um exame médico a uma prova do Enem. Para tanto, nós do Resenhando.com elencamos dez motivos para não perder a montagem dirigida por Gustavo Barchilon e escrita por Gustavo Pinheiro que fica em cartaz até o dia 31 de maio. Confira!

1. A peça de celebração aos 50 anos de carreira de Luiz Fernando Guimarães, que traz de volta aos palcos, externa reflexões hilárias sobre situações do cotidiano por meio do que se passa literalmente na mente de variados personagens. 

2. A homenagem à trajetória de Luiz Fernando Guimarães no teatro e televisão, leva o público a acompanhar a personificação de partes do cérebro em surto com o estresse moderno.

3. Garantindo boas risadas, a peça convida a pensar sobre as pressões que todos enfrentamos diariamente. Situações que chegam a parecer tão particulares, mas são comuns.

4. Assinada por Gustavo Pinheiro, um dos grandes dramaturgos atuais, a peça é inteligente, provocante e ácida.

5. O espetáculo cheio de ritmo e dinamismo tem direção de Gustavo Barchilon, que equilibra o ritmo de cada piada, assim como das pausas dramáticas.

6. A química perfeita entre o veterano Luiz Fernando e a versátil Leticia Augustin dita o tom da dupla afinada nas mais diversas cenas. 

7. A montagem focada nos perrengues cotidianos vai da tensão de fazer uma ressonância magnética, estando preso e sem poder ser mexer, dentro de uma máquina, liderar um grupo passando turbulência durante um voo, lutar contra a implacável insônia e até fazer a prova do Enem e até zerar. Não há como deixar de se identificar com alguma situação-limite.

8. A produção apresenta personagens inusitados em situações absurdas, como por exemplo, uma amígdala cerebral prestes a pedir demissão.

9. As múltiplas personas assumidas em esquetes rápidas pelo mestre do humor Luiz Fernando Guimarães tecem no palco dinamismo e entrosamento perfeito com Leticia Augustin, tendo ainda participações de vozes como Fernanda Montenegro e Fernanda Torres.

10. Numa localização privilegiada, no sofisticado Teatro Renaissance, em São Paulo, o espetáculo de comédia tem ingressos acessíveis que podem ser adquiridos diretamente pelo site oficial.


Serviço
Espetáculo "Curto Circuito"
Local: Teatro Renaissance - Alameda Santos, 2233 – São Paulo / SP
Temporada até dia 31 de maio
Dias e horários: sábados, às 21h00, e domingos, às 18h30


Leia+

.: Crítica musical: Beach Boys, a obra prima de Pet Sounds


Por
Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

Há 60 anos, a banda americana Beach Boys lançava o álbum apontado como o auge criativo em termos de produção e composição. "Pet Sounds" é um disco que atravessa décadas e ainda continiua sendo relevante no plano artístico,  influenciando várias gerações de músicos. Para entender o contexto da época, é preciso jembrar que os britânicos Beatles predominavam com seus lançamentos. Os integrantes dos Beach Boys ficaram impressionados com o álbum "Rubber Soul" e sua  sonoridade nova.

Brian Wilson se sentiu estimulado a produzir algo tão bom como o disco dos músicos de Liverpool. Aliás, ele estava cansado de fazer turnês e preferia trabalhar no estúdio os discos e as canções, arranjando harmonias vocais e apontando para onde a música  deveria seguir. Sua principal fonte de inspiração era o produtor Phil Spector, famoso por criar o recurso conhecido como "Wall of Sound" ("Muro de Som").

Comparado com os outros discos lançados anteriormente, "Pet Sounds" estava um passo a frente. Além da produção de Brian Wilson ser primorosa, as canções mostravam um incrível amadurecimento no som da banda, que na época ficou marcada pelos temas relaxionados ao verão, praia e surf.

Pelo menos três faixas se tornaram hits da banda: "Wouldn't It Be Nice". "God Only Knows" e "Sloop John B". Paul McCartney sempre citou "God Only Knows" como uma das melhores canções gravadas. Mas é fato que mesmo as faixas menos conhecidas são ótimas. Na verdade, o álbum funciona de forma conceitual. "Pet Sounds" se tornaria o clássico absoluto dos Beach Boys. E ironicamente estimularia os Beatles a produzirem trabalhos mais maduros, com uma linha mais conceitual.

 Beach Boys - "God Only Knows"

Beach Boys - "Sloop John B"

Beach Boys - "Wouldn´t It Be Nice"
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