Em sua aguardada estreia na direção de longas-metragens, Kristen Stewart escolheu o caminho mais íngreme e corajoso ao adaptar a autobiografia de Lidia Yuknavitch em "A Cronologia da Água", que estreia no Cine Arte Posto 4, o cinema da orla de Santos, no litoral de São Paulo. Longe da maquiagem que costuma pasteurizar as cinebiografias de Hollywood, o espectador é arremessado em uma narrativa fragmentada, incômoda e esteticamente provocativa.
Exibido na prestigiada seção Un Certain Regard do Festival de Cannes, o longa-metragem impactou a Riviera Francesa, de onde saiu consagrado por uma arrebatadora ovação de pé com mais de seis minutos de aplausos contínuos. É um cartão de visitas cinematográfico que posiciona Stewart não mais como a estrela infantojuvenil da saga "Crepúsculo" ou a atriz cultuada da atualidade, mas como uma realizadora destemida.
A trama esmiúça a trajetória sinuosa de Lidia, interpretada com uma entrega física e psicológica devastadora por Imogen Poots. Desde a juventude, a protagonista busca na natação e na literatura os únicos refúgios possíveis contra um ambiente doméstico asfixiante, dominado pelos abusos físicos e sexuais sistemáticos perpetrados pelo próprio pai, Mike, papel defendido pelo ator Michael Epp, sob o olhar tragicamente omisso de uma mãe alcoólatra.
Quando a piscina deixa de ser um santuário e as aspirações olímpicas desmoronam, Lidia mergulha em uma espiral destrutiva de excessos, drogas, relacionamentos voláteis e perdas irreparáveis, incluindo o trauma de um parto natimorto. A redenção não surge por meio de milagres sentimentais, mas pela fricção com a arte, impulsionada pelo convívio acadêmico com o escritor Ken Kesey, interpretado pelo veterano Jim Belushi, e por experiências terapêuticas heterodoxas ligadas ao universo do BDSM.
A imprensa internacional especializada rapidamente rotulou a produção como um dos grandes acontecimentos cinematográficos recentes. Críticos da revista Variety elogiaram a paixão poética com que a jornada de abuso e redenção é conduzida, enquanto periódicos independentes destacaram a recusa deliberada do roteiro em enquadrar a protagonista no estereótipo limitante da vítima idealizada.
Para alcançar essa atmosfera de intimidade documental, Stewart e o diretor de fotografia Corey C. Waters tomaram a decisão artística de rodar o filme inteiramente em película de 16mm, utilizando a proporção de tela 1,66:1. Essa escolha técnica confere às imagens uma textura granulada, orgânica e nostálgica, perfeitamente alinhada à névoa das memórias fragmentadas da escritora. O longa arrebatou prêmios importantes nos festivais de Deauville e Savannah, além de render a Kristen Stewart o Prêmio Maverick no IndieWire Honors, consolidando sua transição triunfal para os bastidores da sétima arte.
Ficha técnica
“A Cronologia da Água” | “The Chronology of Water” (título original)
Gênero: drama psicológico, biográfico. Duração: 128 minutos. Classificação indicativa: não recomendado para menores de 18 anos. Ano de produção: 2025. Idioma: inglês. Direção: Kristen Stewart. Roteiro: Kristen Stewart e Andy Mingo (baseado no livro de memórias de Lidia Yuknavitch). Elenco: Imogen Poots, Thora Birch, Susannah Flood, Tom Sturridge, Kim Gordon, Michael Epp, Earl Cave, Esmé Creed-Miles, Jim Belushi, Charlie Carrick. Cenas pós-créditos: não.
Cine Arte Posto 4
Av. Vicente de Carvalho, sem número - Gonzaga - Santos/SP (Posto 4, ao lado do Canal 3)
Em cartaz até dia 10 de junho
Sessões (horário especial): 15h00, 17h30 e 20h00
Funcionamento: terça a domingo (fechado às segundas-feiras)
Ingressos a R$ 3,00 (inteira) e R$ 1,50 (meia-entrada). Pagamento somente em dinheiro, temporariamente.
Telefone: (13) 3286-0297
Telefone: (13) 3286-0297













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