quarta-feira, 9 de setembro de 2026

.: "Um Homem com Uma Câmera" ganha vida com trilha sonora ao vivo no MIS


Clássico de Dziga Vertov será exibido pelo Cinematographo em sessão com acompanhamento do pianista e compositor Anselmo Mancini. Foto: divulgação


O MIS - Museu da Imagem e do Som de São Paulo resgata a experiência das antigas sessões de cinema no dia 13 de setembro, quando o programa Cinematographo apresenta "Um Homem com Uma Câmera", clássico documentário dirigido por Dziga Vertov em 1929. A sessão terá trilha sonora executada ao vivo pelo pianista e compositor Anselmo Mancini, que recriará musicalmente a atmosfera da produção soviética. Considerado um dos grandes documentários da história do cinema, o filme acompanha 24 horas na vida dos moradores de uma cidade grande. Do amanhecer ao anoitecer, um cinegrafista percorre diferentes espaços com a câmera no ombro e registra o movimento urbano, o trabalho, o lazer e a rotina cotidiana.

A proposta de Vertov revolucionou a linguagem documental ao transformar a própria câmera em personagem e explorar possibilidades de montagem, ritmo e enquadramento. Quase um século depois, o filme ganha uma nova camada de experiência no MIS com a música criada e executada ao vivo por Mancini. Os ingressos custam R$ 40,00 (inteira) e R$ 20,00 (meia-entrada) e podem ser adquiridos pela plataforma Megapass ou na bilheteria física do MIS.

A programação é uma realização do Ministério da Cultura, Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas de São Paulo, e Museu da Imagem e do Som, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, ProAC e Promac. O MIS tem patrocínio institucional da Livelo, Vivo, Goldman Sachs, Ituran e Goodstorage e apoio institucional das empresas Delboni, EAÍ?! Marketing, Unisys, Volkswagen Caminhões e Ônibus, Unipar, Campari, Colégio Albert Sabin, PWC, Pirelli, Alcaçuz, Telium, Kaspersky, Gabriel e Play Audiovisual. 


Sobre o convidado
Anselmo Mancini
é doutor e mestre em audiovisual e bacharel em composição musical pela Universidade de São Paulo (USP). Com mais de 24 anos de trajetória profissional, atua como compositor e pesquisador, reunindo experiência em diferentes áreas relacionadas à música e ao audiovisual. Mancini ministra cursos, oficinas e workshops sobre trilha sonora em instituições como o Centro de Pesquisa e Formação do SESC, as Oficinas Culturais do Estado de São Paulo e a Academia Internacional de Cinema. Também participa como palestrante convidado e integra bancas de trabalhos de conclusão de curso e defesas de mestrado nos departamentos de Música, Audiovisual e Rádio e TV da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP) e da FMU-FIAM-FAAM.

Sobre o Cinematographo
O Cinematographo é um programa mensal do MIS dedicado a recuperar o clima das antigas sessões de cinema, com um detalhe que muda completamente a experiência: músicos convidados criam e executam a trilha sonora ao vivo durante a exibição. A cada edição, filmes de diferentes períodos ganham acompanhamento musical pensado para a sessão, aproximando cinema e música em uma experiência que transforma a relação do público com a obra.

Serviço | Cinematographo – "Um Homem com Uma Câmera"
Domingo, dia 13 de setembro, às 15h00
Auditório MIS (168 lugares)
Ingresso: R$ 40,00 (inteira) e R$ 20,00 (meia). Ingressos disponíveis na plataforma Megapass e na bilheteria do MIS
Classificação: 14 anos

.: Alex Solnik leva "O Código 12" à Bienal e reabre o caso da morte de JK


Jornalista e escritor apresenta livro que revisita a morte de Juscelino Kubitschek e reúne documentos, depoimentos e perícia realizada décadas após o acidente. Foto: divulgação

O jornalista e escritor Alex Solnik participa da 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo com uma sessão de autógrafos de "O Código 12 - As Surpreendentes Revelações sobre o Assassinato de JK pela Ditadura Militar". O encontro com os leitores acontece no dia 13 de setembro, das 14h00 às 15h00, no estande J75 da Matrix Editora, no Distrito Anhembi. Publicado pela Matrix Editora, o livro investiga as circunstâncias da morte de Juscelino Kubitschek, ocorrida em 1976, e coloca em questão a versão oficial sobre o acidente que matou o ex-presidente. 

A partir de documentos, depoimentos e de uma perícia realizada décadas depois do episódio, Solnik reconstitui os últimos momentos de JK e apresenta elementos para uma nova leitura de um dos casos mais controversos da história política brasileira. Entre os documentos analisados está um laudo elaborado pelo perito Sérgio Ejzenberg, em 2019, a pedido do Ministério Público de Resende. A investigação conduzida por Solnik reúne diferentes registros e testemunhos em torno das circunstâncias da morte de Juscelino. Compre o livro "O Código 12 - As Surpreendentes Revelações sobre o Assassinato de JK pela Ditadura Militar" neste link.


Sobre o autor
Alex Solnik é natural de Drogobytch, na Ucrânia, e mora no Brasil desde 1958. Jornalista profissional desde 1977, trabalhou nas revistas Isto É, Senhor, Careta, Status, Manchete e Interview, além dos jornais Jornal da Tarde, Última Hora, Correio Braziliense, Folha da Tarde, Panorama e O Nacional. É autor de "Os Pais do Cruzado Contam por Que Não Deu Certo", "O Cofre do Adhemar", "A Guerra do Apagão", "A Última Batalha de Napoleão" e "O Dia em que conheci Brilhante Ustra". Também é coautor, com Paulo Caruso, dos quadrinhos da série "Bar Brasil", publicados nas revistas Careta e Senhor, e dos livros "Bar Brasil, Bar Brasil na Nova República" e "Ecos do Ipiranga". Compre os livros de Alex Solnik neste link.


Serviço
Sessão de autógrafos do livro "O Código 12", com Alex Solnik
Dia 13 de setembro, das 14h00 às 15h00
Local: estande da Matrix Editora – J75
Evento: 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo
Endereço: Distrito Anhembi / São Paulo

.: Filho transforma pai conservador em drag queen para exposição "Querido Pai"


Artista transforma o próprio pai, um homem conservador do interior do Paraná, em drag queen para investigar homofobia, masculinidade, memória e afeto familiar

O que pode acontecer quando um filho gay convida o próprio pai, um homem do campo, de origem humilde e criado em um ambiente conservador, a experimentar o universo drag? Para o artista brasileiro Danilo Zocatelli Cesco, a resposta virou a exposição "Querido Pai", série fotográfica com curadoria de Renato Negrão que coloca a relação entre pai e filho no centro de uma investigação sobre masculinidade, memória, identidade queer e afeto. Radicado em Londres, onde concluiu o mestrado em fotografia pelo Royal College of Art, Zocatelli retorna ao Brasil para apresentar o trabalho na galeria de arte O Jardim, em São Paulo. A abertura acontece no dia 12 de setembro, com curadoria de Renato Negrão e performances das artistas queers PAVUNAGATOPRETO e Anuby Messias.

Nascido em 1989 e criado em Marialva, no Paraná, Danilo cresceu em um ambiente rural no qual a masculinidade também funcionava como uma espécie de código de pertencimento. Jogar futebol, trabalhar na terra, dirigir tratores, frequentar a igreja e participar das atividades da comunidade faziam parte do repertório esperado de um menino. Para ele, essas experiências serviam como lembretes de um universo masculino ao qual sentia não pertencer.

Ao se reconhecer como queer e encontrar na comunidade drag uma possibilidade de expressão e pertencimento, o artista enxergou nessa linguagem uma ponte possível com o pai. Em vez de explicar sua identidade por meio de uma conversa, propôs que o pai experimentasse fisicamente aquele universo. Diante da câmera, aplicou maquiagem em seu rosto e colocou uma grande peruca, criando uma personagem drag a partir do homem que, em sua memória, representava parte das estruturas de masculinidade das quais havia tentado escapar. “Não se trata de uma tentativa de transformar meu pai em outra pessoa, porque eu aprendi a amá-lo e entendê-lo como ele é. Eu só quiz mostrar a ele como pertenço ao mundo e como me sinto”, conta Danilo.

As fotografias nascem de uma carta escrita pelo artista ao pai. Os trechos da correspondência dão nome às imagens e transformam a série em uma narrativa construída a partir de lembranças pessoais. Entre elas estão o medo de decepcionar o pai e a experiência de crescer ouvindo uma palavra usada de maneira pejorativa para se referir a homens gays. Também aparece na carta uma lembrança decisiva. Aos 17 anos, depois que sua mãe contou ao pai que ele havia se assumido gay, Danilo ouviu dele, pela primeira vez, que era amado.

A história familiar ganhou alcance internacional e levou "Querido Pai" a instituições e festivais dedicados à fotografia contemporânea. A série foi apresentada nos Rencontres d’Arles, na França; na Saatchi Gallery e no Institute of Contemporary Arts (ICA), em Londres; na Embaixada do México em Londres; na Embaixada Britânica em São Francisco; e no PhotoBrussels Festival, na Bélgica. O projeto também foi selecionado para o New Contemporaries, iniciativa britânica que há mais de 70 anos destaca artistas emergentes. Em 2025, integrou ainda a seleção do Dior Photography and Visual Arts Award for Young Talents, apresentado na Luma, em Arles, e posteriormente na Suíça.

A abertura em São Paulo amplia a proposta da exposição com performances de PAVUNAGATOPRETO e Anuby Messias, escolhidas por meio de uma convocatória pública da galeria. Multiartista, cantora, cineasta e performer, Anuby Messias é uma mulher trans e negra criada na periferia de Guarulhos. Seu trabalho reúne audiovisual, música, performance, transgeneridade e negritude. Entre seus projetos está "Ira — A Travesti na Escravidão", que estabelece uma reflexão sobre identidade negra e trans a partir da história de Xica Manicongo, reconhecida como a primeira travesti do Brasil. A participação de PAVUNAGATOPRETO completa a programação da abertura e aproxima "Querido Pai" de uma cena contemporânea de performance que utiliza o corpo como espaço de expressão, provocação e resistência.

Sobre o artista
Nascido em 1989, Danilo Zocatelli Cesco é artista brasileiro radicado em Londres. A prática dele investiga identidade, memória e experiências humanas por meio de storytelling, livros de artista, fotografia sem câmera, vídeo, som e escultura. Os trabalhos dele abordam temas como enfermidade, sistema prisional, crimes de ódio, resiliência queer e reconexões familiares. É mestre em fotografia pelo Royal College of Art (2024) e teve trabalhos apresentados em instituições e exposições no Reino Unido, França, Estados Unidos e outros países.


Serviço
Exposição "Querido Pai", de Danilo Zocatelli

Curador: Renato Negrão
Local: O Jardim, galeria de arte
Endereço: Rua Ilansa, 185, Mooca – São Paulo/SP
Abertura: 12 de setembro, das 15h00 às 20h00
Período de visitação: 12 de setembro a 17 de outubro
Abertura com performances de: Anuby Messias e PAVUNAGATOPRETO

.: Claudia Alexandre leva "Tia Ciata e o Mistério da Foto" à Bienal do Livro


Autora participa de roda de conversa no Salão de Ideias e autografa livro infantil que revisita registros sobre a matriarca do samba; Foto: divulgação / arquivo pessoal

Vencedora do Prêmio Jabuti Acadêmico pelo livro "Exu-Mulher e o Matriarcado Nagô", a jornalista e escritora Claudia Alexandre integra a programação oficial da Bienal Internacional do Livro de São Paulo. Pesquisadora das tradições de matrizes africanas, ela participa de uma roda de conversa no Salão de Ideias, no dia 12 de setembro, ao lado da sambista e jornalista Lyllian Bragança. O encontro apresenta o livro infantil "Tia Ciata e o Mistério da Foto", com início às 19h30. Antes do bate-papo, às 17h00, Claudia autografa o lançamento no estande da Cortez Editora, na Rua G 26.

Resultado de uma pesquisa iniciada em 2008, "Tia Ciata e o Mistério da Foto" transforma em narrativa lúdica uma investigação sobre lacunas, contradições e registros históricos e fotográficos atribuídos à chamada "mãe do samba". A pesquisa lança um olhar curioso para as imagens que ajudaram a construir a memória de Tia Ciata e para aquilo que ficou de fora delas.

Na obra, Claudia também recupera a dimensão multifacetada de Tia Ciata, destacando sua atuação como rezadeira, musicista e personagem fundamental na história do samba. Entre os episódios revisitados está a criação de "Pelo Telefone", considerado o primeiro samba gravado. A trajetória da autora passa ainda pelo Prêmio Jabuti Acadêmico. Claudia Alexandre venceu a premiação em 2024 com "Exu-Mulher e o Matriarcado Nagô" e voltou a ser reconhecida em 2025, desta vez pela obra coletiva "A Salvação da Pátria Amada". No ano passado, "Exu-Mulher" serviu de inspiração para o enredo que levou a Escola de Samba Pérola Negra ao título em São Paulo.

Serviço
Roda de conversa com Claudia Alexandre e lançamento de "Tia Ciata e o Mistério da Foto"

Sábado, dia 12 de setembro, às 17h00 - Sessão de autógrafos
Estande da Cortez Editora – Rua G 26

19h30 - Roda de conversa
Salão de Ideias - Programação Oficial da Bienal do Livro
Endereço da Bienal: Distrito Anhembi - Av. Olavo Fontoura, 1209 - Santana / São Paulo

.: Nova versão de "Emmanuelle" revisita o erotismo dos anos 1970


"Emmanuelle" leva Noémie Merlant a Hong Kong em uma viagem de negócios marcada por desejo, poder e encontros misteriosos

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

O desejo ganhou endereço novo em "Emmanuelle", que estreia na plataforma de streaming Reserva Imovision. Dirigido por Audrey Diwan, o filme leva a personagem criada pela escritora Emmanuelle Arsan para Hong Kong e troca o imaginário tropical da produção de 1974 por hotéis de luxo, corredores sofisticados, quartos de alto padrão e uma protagonista profissionalmente segura, mas em busca de alguma coisa que parece ter ficado pelo caminho.

Na trama, Emmanuelle (Noémie Merlant) trabalha como responsável pela qualidade de uma rede hoteleira de luxo. Ela viaja sozinha para Hong Kong com a missão de avaliar o desempenho de um hotel administrado por Margot (Naomi Watts). O trabalho, porém, ganha contornos pessoais quando a protagonista passa a experimentar novas relações e conhece Kei (Will Sharpe), um homem enigmático que parece escapar de suas tentativas de aproximação. É uma busca por um prazer perdido em meio a encontros intensos e novas experiências.

A escolha de Audrey Diwan dá ao projeto uma curiosa camada de expectativa. A diretora venceu o Leão de Ouro no Festival de Veneza por "O Acontecimento", adaptação do livro de Annie Ernaux sobre uma jovem francesa que enfrenta uma gravidez indesejada nos anos 1960. Em "Emmanuelle", ela volta a colocar uma mulher e sua relação com o próprio corpo no centro da narrativa, desta vez a partir de um personagem que já chega ao cinema carregado por décadas de memória.

O filme é baseado no romance "Emmanuelle", publicado em 1967 por Emmanuelle Arsan, e funciona como uma nova versão cinematográfica da personagem que ficou mundialmente conhecida com o filme dirigido por Just Jaeckin em 1974, estrelado por Sylvia Kristel. A nova produção foi apresentada na abertura do Festival de San Sebastián, em setembro de 2024, antes de chegar aos cinemas franceses.

Uma das diferenças mais evidentes está no cenário. A história abandona Bangkok e se instala em Hong Kong, cidade que também participa ativamente da composição visual do filme. Parte das filmagens aconteceu na cidade, inclusive em Chungking Mansions, complexo que ficou conhecido entre cinéfilos por sua presença marcante em "Amores Expressos", de Wong Kar-wai. Audrey Diwan escolheu o local por sua admiração pelo filme de 1994.

Noémie Merlant assume uma personagem que se move entre reuniões, avaliações profissionais e experiências íntimas. A atriz, conhecida por "Retrato de uma Jovem em Chamas", divide o elenco com Naomi Watts, Will Sharpe, Jamie Campbell Bower, Chacha Huang e Anthony Wong. O roteiro é assinado por Audrey Diwan e Rebecca Zlotowski, a partir do romance de Arsan.

A produção também carrega uma curiosidade de bastidor. Léa Seydoux chegou a ser anunciada para interpretar Emmanuelle, mas deixou o projeto e foi substituída por Noémie Merlant em 2023. As filmagens começaram em Paris naquele ano e depois seguiram para Hong Kong.

A recepção crítica foi dividida, com avaliações que elogiaram a fotografia, a direção de arte e a tentativa de atualizar o material, enquanto outras apontaram problemas no roteiro e uma distância entre a proposta sensual e o resultado.  Audrey Diwan parece interessada em retirar a personagem do lugar de fantasia sexual que marcou sua história cinematográfica e colocá-la diante de uma pergunta menos confortável: o que resta do desejo quando uma mulher já conquistou independência, dinheiro, profissão e liberdade para escolher? A resposta pode dividir opiniões. 
Ficha técnica


Ficha técnica
"Emmanuelle" (título original)
Gênero: drama, romance, erótico. Duração: 105 minutos. Classificação indicativa: 18 anos. Ano de produção: 2024. Data de lançamento: 10 de julho de 2025 no Brasil. Idioma: inglês e francês. Direção: Audrey Diwan. Roteiro: Audrey Diwan e Rebecca Zlotowski. Elenco: Noémie Merlant, Naomi Watts, Will Sharpe, Jamie Campbell Bower, Chacha Huang, Anthony Wong, Carole Franck, Isabella Wei, Adam Pak e outros. Distribuição no Brasil: Imovision. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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.: "Sid e Nancy: o Amor Mata" transforma o amor punk em sentença de morte


Cultuado desde os anos 1980, filme de Alex Cox chega ao Belas Artes à La Carte com Gary Oldman e Chloe Webb em uma das histórias de amor mais caóticas da história do rock

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Sexo, drogas, brigas, heroína, Sex Pistols e um romance que parecia ter sido escrito por alguém com uma queda preocupante por finais infelizes. "Sid & Nancy: o Amor Mata" retorna ao catálogo brasileiro pela plataforma de streaming Belas Artes À La Carte para revisitar a história de Sid Vicious e Nancy Spungen, casal que virou símbolo do lado mais destrutivo do punk em um retrato cru e perturbador da breve e incendiária trajetória de Sid Vicious e Nancy Spungen.

Dirigido por Alex Cox, o filme acompanha Sid Vicious, baixista dos Sex Pistols interpretado por Gary Oldman, e Nancy Spungen, vivida por Chloe Webb. A trama parte da passagem da banda pelos Estados Unidos, em 1978, e acompanha a deterioração do relacionamento entre os dois, enquanto drogas, violência e dependência passam a ocupar cada vez mais espaço na vida do casal. A produção também traz David Hayman como Malcolm McLaren, Andrew Schofield como Johnny Rotten e uma participação de Courtney Love, em uma de suas primeiras experiências no cinema.

Cox escreveu o roteiro ao lado de Abbe Wool. O diretor já vinha do irreverente "Repo Man" e decidiu tratar Sid e Nancy com uma liberdade que incomodou bastante gente ligada aos Sex Pistols. O próprio Cox explicou, anos depois, que a recepção americana do filme, entendido como uma história de amor trágica, estava mais próxima da intenção original do que a leitura britânica que o classificava simplesmente como um filme sobre o movimento punk.

A produção também ganhou força graças ao trabalho de Gary Oldman. O ator emagreceu para interpretar Sid e incorporou postura, voz e gestos do músico. Uma das curiosidades mais saborosas da produção é que Oldman usou durante as filmagens o colar que pertenceu ao próprio Sid Vicious. A mãe do músico, Anne Beverley, entregou a peça ao ator depois de conhecer a produção. Chloe Webb constrói uma Nancy menos fácil de encaixar na caricatura da groupie problemática. A atriz mergulha na instabilidade da personagem e acompanha a transformação de uma relação amorosa em uma espécie de pacto de autodestruição. O resultado incomoda porque o filme não oferece personagens particularmente fáceis de admirar.

A decadência aparece em primeiro plano, com o uso de drogas e a dependência tratados de maneira bastante dura. O filme também carregou uma velha briga com John Lydon, o Johnny Rotten dos Sex Pistols. O vocalista atacou publicamente a produção e reclamou da ausência de sua versão dos acontecimentos durante o processo de realização. Em entrevista ao The Guardian, anos depois, Lydon continuava classificando o filme de forma bastante pouco diplomática.

O incômodo faz algum sentido: Cox nunca pretendeu fazer uma reconstituição histórica convencional. A própria produção assumiu uma abordagem estilizada, misturando acontecimentos reais, memória e imaginação cinematográfica. O diretor chegou a admitir posteriormente que gostaria de ter tornado o final mais duro, deixando ainda mais evidente a dimensão trágica do desperdício das vidas de Sid e Nancy.

A trilha sonora ajuda a explicar por que o filme ganhou vida própria dentro da cultura punk. Joe Strummer, do The Clash, compôs "Love Kills", canção que acabou batizando a produção em diferentes materiais internacionais. A trilha ainda reúne The Pogues, John Cale, Steve Jones, Circle Jerks, Pray for Rain e o próprio Gary Oldman cantando "My Way". Outro detalhe curioso envolve Courtney Love. "Sid e Nancy" marcou uma de suas primeiras experiências no cinema, anos antes de ela conquistar reconhecimento como atriz por "O Povo contra Larry Flynt". No filme de Cox, ela aparece em um papel secundário, quando ainda era uma figura distante da celebridade cinematográfica que viria a se tornar.

A produção não foi um fenômeno comercial. Feita com orçamento estimado em US$ 4 milhões, arrecadou cerca de US$ 2,85 milhões mundialmente. A matemática, portanto, não ajudou. O tempo, entretanto, resolveu ser mais generoso: "Sid e Nancy" ganhou status de clássico cult e passou a ser lembrado como uma das cinebiografias musicais mais particulares dos anos 1980. A recepção crítica também ajudou a preservar o filme. 

Ficha Técnica
"Sid e Nancy: o Amor Mata" | "Sid and Nancy" (título original)
Gênero: drama biográfico, musical e romance. Duração: 112 minutos. Classificação indicativa: 18 anos. Ano de produção: 1986. Data de lançamento: 7 de agosto de 1987 (Brasil). Idioma: inglês. Direção: Alex Cox. Roteiro: Alex Cox e Abbe Wool. Elenco: Gary Oldman, Chloe Webb, David Hayman, Andrew Schofield, Perry Benson, Tony London e Courtney Love. Distribuição no Brasil: Belas Artes à La Carte. Cenas pós-créditos: não há cena pós-créditos propriamente dita. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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terça-feira, 8 de setembro de 2026

.: Prêmio Sesc de Literatura anuncia vencedores da edição 2026


Mariana do Nascimento Ramos, Anacã Agra e Guilherme de Miranda Ramos tiveram seus livros selecionados nas categorias Romance, Conto e Poesia; edição recebeu 2.969 inscrições. Na imagem, o
s autores vencedores: Mariana do Nascimento Ramos; Anacã Agra; Guilherme de Miranda Ramos

O Prêmio Sesc de Literatura anunciou as obras vencedoras da edição 2026: na categoria romance o ganhador foi “A Vontade das Coisas Mortas”, do Distrito Federal, escrito por Mariana do Nascimento Ramos; em Conto o livro “A Replicação do Sangue”, da Paraíba, de autoria de Anacã Agra; e em poesia “Geografia do Desconforto”, de Alagoas, por Guilherme de Miranda Ramos. Neste ano, o prêmio bateu recorde histórico de inscrições com 2.969 obras, sendo 1.203 de poesia, 960 romances e 806 livros de contos. As obras foram selecionadas por especialistas convidados para cada categoria.

“Chegar a 23ª edição com recorde de inscrições é um reconhecimento da força que o Prêmio Sesc de Literatura conquistou ao longo de sua trajetória. Os trabalhos recebidos este ano mostram que há uma produção literária diversa, potente e interessada em encontrar novos caminhos para contar as histórias do nosso país. Mais do que revelar novos autores, o prêmio reafirma o compromisso do Sesc com a literatura brasileira, criando oportunidades para que essas vozes sejam publicadas, circulem e cheguem a leitores de diferentes lugares”, afirma Diana dos Santos Abreu, Diretora de Saúde, Cultura, Lazer e Assistência do Departamento Nacional do Sesc.

Criado para incentivar novos talentos da literatura nacional, o Prêmio Sesc de Literatura é voltado exclusivamente a autores inéditos, ou seja, aqueles que nunca tiveram livros publicados na categoria para a qual concorrem. Os vencedores têm seus livros publicados pela Editora Senac Rio e recebem uma premiação em dinheiro no valor de R$ 30 mil. Além disso, circulam pelo país em uma programação composta por eventos como clubes de leitores, bate-papos com o público e eventos de literários.


Romance
Vencedora na categoria Romance, Mariana do Nascimento Ramos, carioca de 45 anos que mora em Brasília, é a autora de “A Vontade das Coisas Mortas”. Escritora, professora e servidora pública, Mariana é formada em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde também concluiu mestrado em Ciência da Literatura. Atuou como professora de Literatura Brasileira na Argentina, na Costa Rica e na China.

“A Vontade das Coisas Mortas” conta a história de Bruna, professora de literatura de uma pequena cidade do interior que tenta reconstruir a própria vida depois de sobreviver a um massacre escolar. Entre sessões de terapia, o retorno ao trabalho, relações familiares e lembranças do passado, a personagem enfrenta o luto, a culpa e o trauma. A narrativa alterna presente e passado e aborda temas como memória, morte, solidão e as marcas deixadas por tragédias em pessoas e lugares. “Esse foi o primeiro romance que eu escrevi. O livro foi inspirado no caso de Suzano, em São Paulo, e tentei trazer intimidade de um lugar difícil, que é a violência. Procurei falar com lirismo e ternura, tratando a violência de forma silenciosa e que se entranha nas relações e nas coisas. Estou ansiosa para ver qual vai ser a percepção do público sobre a história”, conta.


Conto
Na categoria Conto, o escritor é o paraibano Anacã Agra, de 48 anos, com “A Replicação do Sangue”. Formado em Letras, com mestrado e doutorado em Literatura, Anacã é professor na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), onde ministra, desde 2017, um curso de criação literária. A literatura e a escrita estão presentes na vida dele desde a infância, com influência do pai, que também foi professor de literatura, letras e escritor. “Segundo meu pai conta, escrevi meu primeiro conto aos 13 anos e não parei mais”. Escritor de romances, contos, poemas e roteiros cinematográficos, Anacã publicou de forma independente os romances “A Face Interna da Carne”, “O Circo da Galileia”, “Amadis de Riorraso” e “Éramos Eternos”.

“A Replicação do Sangue” reúne contos marcados por tragédias humanas, violência, culpa, desejo e ironias do destino. As histórias colocam personagens comuns diante de situações extremas e exploram dramas familiares, paixões frustradas, vinganças, acidentes, crimes e encontros marcados pelo acaso. “Uma semana antes de receber a notícia do prêmio eu pensei em desistir de publicar. Faz mais de 30 anos que eu produzo e ainda não havia conseguido um ‘sim’. Agora eu não desisto mais”. Anacã diz que os contos que compõem o livro foram escritos ao longo do tempo, inicialmente sem a intenção de formar uma obra única. Posteriormente, o autor identificou aproximações temáticas entre os textos e os reuniu. “Parte das histórias tem origem em experiências próprias ou de pessoas próximas, enquanto outras nasceram de notícias, filmes e outras referências”, ele explica.

Poesia
O vencedor na categoria Poesia é o alagoano Guilherme de Miranda Ramos, 54 anos, com “Geografia do Desconforto”. Escritor, compositor e produtor cultural, Guilherme é autor de livros infantis e de crônicas e possui textos premiados em editais e concursos. Na música, é idealizador do Intermídia Estúdio de Criação e do projeto Quarentemas, além de compor trilhas sonoras para literatura, audiovisual e artes cênicas e produzir singles e álbuns autorais. Guilherme diz que o primeiro contato que teve com a arte foi criança, quando leu um poema em uma revista que sua mãe levou para casa. “Essa poesia me encantou, eu ficava reescrevendo como se o texto fosse meu”. Depois disso, se envolveu com arte na escola e passou a ler tudo, até bula de remédio, ele brinca.

Em “Geografia do Desconforto”, os poemas percorrem três territórios simbólicos: o sangue, o asfalto e o espelho. A primeira parte aborda memórias familiares, heranças afetivas, silêncios entre gerações, perdas e a busca por identidade. Na segunda, o olhar se volta para trabalhadores invisibilizados nas cidades, discutindo desigualdade, precarização, resistência e dignidade. Já a terceira parte mergulha em questões existenciais relacionadas ao corpo, ao tempo, à solidão, à saúde mental e ao sentimento de não pertencimento. Com linguagem simples e imagens marcantes, o livro constrói uma cartografia da memória e da condição humana. “Para esse livro eu saí da minha zona de conforto e experimentei formatos que antes eu não tinha coragem. Estou ansioso para encontrar outros escritores, trocar experiências com essas pessoas e ser fonte de inspiração para que eles não desistam dos seus sonhos, como eu não desisti do meu”.

Os autores vencedores serão apresentados ao público em uma cerimônia com noite de autógrafos no fim do ano. Após a publicação, os livros serão vendidos em livrarias online e físicas por todo país e distribuídos na rede de bibliotecas e escolas do Sesc. 

 
Os jurados em 2026
O júri do Prêmio Sesc de Literatura 2026 reúne nomes de destaque da literatura brasileira. Em Romance, Maria Esther Maciel, escritora, poeta e professora da UFMG, e Itamar Vieira Junior, autor de Torto Arado e vencedor dos prêmios Jabuti, LeYa e Oceanos. Em Conto, participaram Miriam Alves, escritora e importante voz da literatura afro-brasileira contemporânea, e Dau Bastos, escritor, ensaísta e professor da UFRJ. Já o júri de Poesia foi formado por Cida Pedrosa, vencedora do Jabuti por Solo para Vialejo, e Edimilson de Almeida Pereira, poeta, ensaísta e professor da UFJF, vencedor do Oceanos e do Prêmio São Paulo de Literatura.

Sobre o Prêmio Sesc de Literatura
Criado em 2003, o Prêmio Sesc de Literatura já recebeu cerca de 27 mil originais e revelou ao mercado editorial 46 novos autores. O processo de avaliação tem como base o anonimato dos autores, garantindo a lisura do projeto e a liberdade de análise das comissões julgadoras, que fazem a seleção pelo mérito literário, com soberania sobre a decisão final. Os autores devem ser inéditos nas categorias pelas quais concorrem, ou seja, sem obras publicadas na categoria escolhida. Ao longo de sua trajetória, a iniciativa vem contribuindo para a publicação e circulação de novos autores, aproximando suas obras de leitores de diferentes regiões do país.

.: “Sobre Poetas e Heresias” leva poesia, humor e ironia ao Sesc Pinheiros


Espetáculo com Jairo Mattos e direção de Carlo Milani aproxima Fernando Pessoa, Padre Antônio Vieira e outros autores em uma montagem que transforma literatura em jogo cênico. Foto: Adriano Escanhuela

A literatura ganha ritmo, humor e provocação em “Sobre Poetas e Heresias”, espetáculo protagonizado por Jairo Mattos e dirigido por Carlo Milani, em cartaz até dia 12 de setembro - de quinta a sábado, às 20h30; no dia 11 de setembro, também às 16h00 - , no auditório do Sesc Pinheiros, em São Paulo. A montagem reúne textos de Padre Antônio Vieira, José Régio, Fernando Pessoa e Wislawa Szymborska para criar um encontro entre poesia, pensamento e comicidade.

Em cena, Mattos interpreta um bufão contemporâneo que assume a função de mestre de cerimônias e comentarista. Diante do público, ele revisita versos, pensamentos e discursos de diferentes épocas, conduzindo a narrativa com ironia e questionamentos. Sermões e poemas ganham novas possibilidades ao serem transformados em ações cênicas, comentários e situações marcadas pelo humor. A dramaturgia, alinhavada por Aloysio Burtin, coloca lado a lado autores de períodos e contextos distintos para abordar temas como poder, fé, amor e ódio. A palavra ocupa o centro da montagem e serve como ponto de partida para um diálogo entre diferentes vozes da literatura.

“Escolhi o bufão porque ele não oferece respostas; ao contrário. Ri das certezas, desmonta discursos e convida o público a olhar o mundo por outro ângulo. Os poetas presentes também são hereges à sua maneira: recusaram aceitar o mundo como algo pronto e fizeram da poesia um ato de liberdade”, afirma Jairo Mattos.

O espetáculo também marca o reencontro artístico entre Mattos e Milani. A parceria entre ator e diretor parte da ideia de transformar a palavra em ação e estabelecer uma relação próxima com a plateia. A direção trabalha com diferentes ritmos para alternar a intimidade dos sermões, a dimensão poética dos textos e as provocações do bufão. O resultado é uma montagem que aproxima obras literárias do público por meio de uma encenação direta e bem-humorada. Entre citações, comentários e invenções, “Sobre Poetas e Heresias” convida a pensar sobre as certezas que atravessam a vida em sociedade sem abrir mão do prazer de rir delas.


Ficha técnica
Peça teatral "Sobre Poetas e Heresias"
Direção: Carlo Milani
Atuação: Jairo Mattos
Figurino: Luiza Curvo
Maquiagem: Beto França
Texto, luz e cenário: Jairo Mattos
Operador de Luz: Bruno Gutierres
Fotografia: Adriano Escanhuela
Direção de produção: Lilia Ladislau e Jorge Moreira
Consultoria: Adolfo Mazzarini
Produção: Orapronobis Produções Culturais


Serviço
Peça teatral "Sobre Poetas e Heresias"
Temporada: até dia 12 de setembro de 2026. De quinta a sábado, às 20h30. No dia 11 de setembro, também às 16h00.
Sessões com LIBRAS: 4 e 5 de setembro
Local: Sesc Pinheiros – Auditório – Rua Paes Leme, 195, Pinheiros, São Paulo, SP
Ingressos: R$ 50,00 (inteira), R$ 25,00 (meia-entrada) e R$ 15,00 (credencial plena)
Vendas: sescsp.org.br ou nas bilheterias das unidades do Sesc SP
Duração: 60 minutos
Classificação: 14 anos
Acessibilidade: auditório acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida.
Sesc Pinheiros | Rua Paes Leme, 195, Pinheiros – São Paulo/SP.
Horário de funcionamento: terça a sexta, das 10h00 às 22h00; sábados, das 10h00 às 21h00; domingos e feriados, das 10h00 às 18h30.
Estacionamento: com manobrista.
Como chegar de transporte público: 350 metros a pé da Estação Faria Lima (Metrô – Linha Amarela), 350 metros a pé da Estação Pinheiros (CPTM – Linha Esmeralda) e do Terminal Municipal Pinheiros (ônibus).
Acessibilidade: a unidade possui rampas de acesso e elevadores, além de banheiros e vestiários acessíveis para pessoas com mobilidade reduzida. Também conta com espaços reservados para cadeirantes.

.: “Nós, Ursos” leva ao teatro um amor que amadureceu em segredo


Espetáculo dirigido por André Corrêa adapta romance de Gilvan Azevedo e coloca em cena dois homens maduros diante das escolhas que fizeram — e das que ainda desejam fazer. Foto: Daniela Ferreira

O que acontece quando a vida construída durante décadas começa a pedir uma revisão de roteiro? É dessa inquietação que parte “Nós, Ursos”, espetáculo que chega ao Teatro Commune, em São Paulo, com direção de André Corrêa e adaptação teatral assinada pelo escritor Gilvan Azevedo. A montagem, que segue em cartaz até dia 27 no Teatro Commune, reúne no elenco o próprio autor e Mauricio Constantino, seu marido e parceiro na criação da Cia. Salor. O espetáculo adapta o romance “Éramos Ursos e Não Sabíamos”, obra que conquistou leitores ao tratar de amor, identidade e reinvenção na maturidade. As apresentações acontecem aos sábados e domingos, às 20h00.

Em cena, Saulo e Rodney são dois homens maduros que passaram boa parte da vida seguindo os caminhos que pareciam previamente traçados. Pais de família, profissionais estabelecidos e acostumados a atender às expectativas alheias, eles se conhecem quando já carregam no currículo afetivo uma boa coleção de responsabilidades, escolhas e renúncias. A aproximação começa entre mensagens, viagens e encontros escondidos. Aos poucos, a relação ganha espaço e se transforma em algo difícil de manter nos bastidores. O romance passa então a conviver com afastamentos, conflitos internos, pressões familiares e as pequenas vitórias de quem decide, finalmente, olhar para a própria vida com outros olhos.

Misturando humor, drama e poesia, “Nós, Ursos” aborda amor, paternidade, masculinidades, liberdade, envelhecimento, desejo e reinvenção na vida adulta. A montagem também coloca em evidência relações LGBTQIA+ maduras, tema ainda pouco explorado pela dramaturgia brasileira contemporânea. Gilvan Azevedo, além de adaptar o romance, interpreta um dos protagonistas ao lado de Mauricio Constantino. A passagem da literatura para o palco nasceu da vontade de investigar o que o teatro poderia acrescentar à história.

"O teatro tem a capacidade de tornar visíveis conflitos que, no romance, acontecem dentro dos personagens. A adaptação não surgiu do desejo de ilustrar o livro, mas de explorar aquilo que o palco pode revelar de maneira única", afirma Gilvan Azevedo. Na direção, André Corrêa concentra a encenação nas relações entre os personagens e na passagem do tempo. A proposta combina interpretação, projeções e desenho de som, mantendo os atores e os vínculos estabelecidos entre eles no centro da narrativa.

"Vejo 'Nós, Ursos' como uma história sobre pessoas que chegam a um determinado momento da vida e precisam lidar com escolhas feitas, caminhos abandonados e possibilidades que ainda permanecem abertas. Buscamos uma encenação simples, focada nos atores e nos vínculos que eles constroem, combinando interpretação, projeções e desenho de som para ampliar a experiência emocional do público", afirma o diretor. O título da peça remete à cultura bear, surgida nos Estados Unidos na década de 1980 e difundida no Brasil a partir dos anos 1990.

Na comunidade LGBTQIA+, "urso" identifica homens gays ou bissexuais associados a corpos robustos, pelos e barbas. A expressão também carrega ideias de acolhimento, autenticidade e pertencimento. A referência serve de ponto de partida para ampliar a conversa sobre corpos, afetos e diferentes formas de masculinidade, longe de caricaturas e estereótipos. "A peça apresenta dois homens gays, mas não pretende transformar a sexualidade no único eixo de leitura desses personagens. Eles também são filhos, pais, profissionais, amigos, pessoas tentando conciliar expectativas externas e necessidades internas", afirma Gilvan Azevedo.

O escritor vê na trajetória de Saulo e Rodney uma história capaz de conversar com questões que vão muito além da experiência específica dos protagonistas. "Por isso, embora a história parta de uma experiência específica, acredito que ela dialoga com qualquer pessoa que já tenha se perguntado se a vida que construiu corresponde à vida que deseja viver”. Publicado inicialmente no Brasil e posteriormente lançado em inglês com o título “We Were Bears and Didn't Know”, o romance reúne leitores interessados em temas como identidade, afeto, corpo, pertencimento e as possibilidades que surgem depois dos 40 anos.

A adaptação marca, portanto, uma nova etapa para uma história que nasceu nas páginas de um livro e agora ganha corpo, voz e presença no palco. Porque algumas histórias de amor podem até demorar para começar. O problema é convencer o coração de que ele deveria continuar esperando. “Nós, Ursos” é uma produção da Cia. Salor, criada por Gilvan Azevedo e Mauricio Constantino a partir da experiência da Editora Salor. A companhia desenvolve projetos que aproximam literatura, teatro e outras linguagens artísticas.

“Éramos Ursos e Não Sabíamos” transforma crise de identidade em romance sobre liberdade
Publicado em 2024, o romance “Éramos Ursos e Não Sabíamos”, de Gilvan Azevedo, acompanha dois homens maduros inseridos no universo corporativo de São Paulo e diante de uma pergunta que costuma chegar sem convite: e se a vida que deu certo para todo mundo estiver errada para quem a vive?

Rodney é um executivo bem-sucedido, mas enfrenta um casamento desgastado e desejos que permanecem escondidos. A rotina ganha outro contorno quando ele conhece Paulo, também executivo e marcado por uma formação familiar conservadora. A aproximação entre os dois provoca uma sucessão de questionamentos sobre identidade, desejo, autonomia e as escolhas feitas ao longo da vida.

Com 213 páginas, o livro combina romance, conflitos familiares, discussões filosóficas e situações do cotidiano para acompanhar personagens que precisam decidir entre a segurança de uma existência conhecida e os riscos de uma vida mais autêntica. O título faz referência à cultura bear e à descoberta tardia de uma identidade que esteve ali o tempo todo, ainda que os próprios personagens não soubessem reconhecê-la.

A obra, que deu origem ao espetáculo “Nós, Ursos”, também propõe uma reflexão sobre o envelhecimento e as possibilidades de recomeço depois dos 40. Afinal, amadurecer pode trazer rugas, boletos e algumas certezas — mas também a coragem de descobrir que ainda há tempo para mudar o roteiro. Compre o livro “Éramos Ursos e Não Sabíamos”, de Gilvan Azevedo, neste link.


Ficha técnica
Espetáculo "Nós, Ursos"

Direção: André Corrêa. Texto e adaptação teatral: Gilvan Azevedo. Elenco: Mauricio Constantino e Gilvan Azevedo. Produção: Cia. Salor. Figurinos e preparação corporal: Lu Castro. Desenho de iluminação: Rodrigo Pivetti. Desenho de som e projeções: Giba. Coordenação de produção: Lu Castro. Assistência de produção: Diogo Castro. Assessoria de imprensa: Adriana Balsanelli. Design gráfico: Werner Schultz. Fotos e filmagens: Daniela Ferreira. Realização: Cia. Salor. Apoios: Carne Fresca Clothing, Planeta’s Restaurante, Cantina Luna di Capri, Piolin, Instituto Marcio Kozonara e ABC Bailão.


Serviço
Espetáculo “Nós, Ursos”
Temporada: de 8 de agosto a 27 de setembro de 2026. Sessões: sábados e domingos, às 20h00. Classificação indicativa: 16 anos. Duração: 70 minutos. Ingressos: R$ 100,00 (inteira) e R$ 50,00 (meia-entrada). Vendas: Sympla - https://www.sympla.com.br/evento/nos-ursos/3453018. Teatro Commune |  Rua da Consolação, 1218, Consolação / São Paulo. Próximo à estação Higienópolis-Mackenzie.

.: “Loucos por Cinema!”: a cinefilia como matéria-prima de viagem pela memória


Arnaud Desplechin mistura ficção, documentário e ensaio para revisitar a formação de Paul Dédalus e investigar por que o cinema continua ocupando um lugar tão particular na vida de quem assiste

Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Ir ao cinema pode ser uma experiência tão íntima que, em determinados momentos, um filme parece saber alguma coisa sobre quem está sentado diante da tela. É nesse território de lembranças, descobertas e obsessões que Arnaud Desplechin coloca “Loucos por Cinema!”, produção francesa que chega à plataforma de streaming da Reserva Imovision depois de passar por festivais como Cannes e Festival do Rio.

O cineasta retoma Paul Dédalus, personagem que funciona como seu alter ego, para reconstruir a formação de um espectador apaixonado por filmes. A trajetória começa na infância, quando o garoto descobre o cinema levado pela avó para assistir a “Fantômas”, e acompanha diferentes fases de sua vida até o momento em que a cinefilia deixa de ser apenas uma paixão e passa a interferir na maneira como ele compreende o mundo.

Paul é interpretado em diferentes idades por Louis Birman, Milo Machado-Graner, Sam Chemoul e Salif Cissé. Mathieu Amalric, presença recorrente na filmografia de Desplechin e intérprete de Paul Dédalus em “Como Eu Briguei (Por Minha Vida Sexual)”, aparece como o cineasta. A escolha reforça uma espécie de jogo de espelhos que acompanha o diretor há décadas.

A graça está justamente nessa mistura. “Loucos por Cinema!” se move entre a memória pessoal, a encenação ficcional, entrevistas, reflexão sobre a experiência de assistir a um filme e uma quantidade generosa de referências cinematográficas. Desplechin olha para a própria formação como cinéfilo e, ao fazer isso, acaba convidando o público a recuperar suas próprias primeiras sessões, os filmes descobertos por acaso, os personagens que permaneceram na lembrança e até aquelas obras que modificaram alguma coisa sem que fosse possível perceber imediatamente.

O diretor passeia por nomes e títulos fundamentais para a formação de seu olhar. “Os Incompreendidos”, de François Truffaut, “Gritos e Sussurros”, de Ingmar Bergman, “As Pequenas Margaridas”, de Věra Chytilová, e “Shoah”, de Claude Lanzmann, aparecem em uma coleção de referências que ajuda a desenhar a educação sentimental de Paul. A própria escolha de “Fantômas” como ponto de partida remete a uma lembrança de infância do cineasta. Desplechin quer entender por que as pessoas continuam indo ao cinema depois de mais de um século de imagens projetadas. Cannes definiu a produção como uma homenagem às salas de cinema, enquanto o próprio diretor explicou que reuniu memórias, ficção e investigação para criar uma espécie de percurso de formação de um espectador.

O problema aparece quando a paixão do diretor começa a pesar sobre a narrativa. As referências são tantas, e a vontade de discutir cinema é tão evidente, que determinadas passagens parecem destinadas principalmente a quem já domina o repertório apresentado. O filme ganha força quando transforma a cinefilia em memória compartilhada; perde um pouco dela quando se fecha em conversas e associações que exigem do público uma intimidade semelhante com a história do cinema.

Ainda assim, existe algo bastante simpático nessa imperfeição. Desplechin não tenta organizar sua paixão de maneira didática. Ele deixa que lembranças, cenas, ideias e personagens se encontrem, como acontece na própria memória de quem passa anos assistindo a filmes. Uma lembrança de Bergman pode levar a uma discussão filosófica; um cineclube escolar pode despertar uma paixão; uma sessão pode se transformar em acontecimento amoroso; um personagem de ficção pode carregar traços de quem o criou.

Com 88 minutos, “Loucos por Cinema!” tem o tamanho de uma lembrança que se recusa a terminar. A produção francesa foi apresentada na Sessão Especial de Cannes em 2024 e chegou aos cinemas brasileiros em março de 2025. O resultado é irregular, mas coerente com o próprio objeto. Afinal, a cinefilia também tem seus excessos. Há quem assista a um filme e siga para casa. Há quem passe dias pensando nele, procure entrevistas, leia sobre o diretor, descubra outro título, monte uma lista e volte à sala de cinema para rever aquilo que acabou de descobrir. Desplechin claramente pertence ao segundo grupo.


Ficha técnica
“Loucos por Cinema!” | “Spectateurs!” (título original) | “Espectadores!” (título em Portugal)
Gênero: drama, comédia e ficção documental. Duração: 88 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. Ano de produção: 2024. Data de lançamento: 15 de janeiro de 2025, na França. Idioma: francês. Direção e roteiro: Arnaud Desplechin. Elenco: Louis Birman, Dominique Païni, Clément Hervieu-Léger, Françoise Lebrun, Sandra Laugier, Olga Milshtein, Milo Machado-Graner, Margaux Mussano, Sam Chemoul, Marilou Poujardieu, Salomé Rose Stein, Micha Lescot, Shoshana Felman, Kent Jones, Salif Cissé e Mathieu Amalric. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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.: "Chapeuzinhos Mais Coloridos" ganha novas cores e caminhos para o clássico


Novo livro de José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta revisita "Chapeuzinho Vermelho" com seis versões da personagem e chega pela editora independente Padaria de Livros. Fotos: divulgação


Chapeuzinho Vermelho já percorreu a floresta tantas vezes que talvez estivesse na hora de experimentar um figurino novo. É o que fazem José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta em "Chapeuzinhos Mais Coloridos", novo livro infantil da dupla, publicado pela Padaria de Livros, editora independente criada pelos próprios autores, que começa pré-venda no dia 15 de setembro, com ilustrações de Marilia Pirillo. O título dá continuidade a "Chapeuzinhos Coloridos", lançado em 2010 pela Companhia das Letras e que já vendeu 200 mil exemplares. Desta vez, os escritores ampliam a brincadeira e apresentam seis novas possibilidades para a personagem: Amarelo-Canário, Marrom, Rosa, Transparente, Xadrez e Arco-Íris.

Em cada versão, a conhecida história de Chapeuzinho Vermelho ganha outro rumo. A dupla parte do conto tradicional para abordar assuntos como vaidade, folclore brasileiro, questões ambientais, terceira idade, fome, arte e até os mecanismos dos próprios contos de fada, em uma história que brinca com a metalinguagem. "Chapeuzinhos Mais Coloridos" integra a coleção "Eram Mil Vezes", dedicada às reinvenções de histórias conhecidas.

Torero e Pimenta escrevem juntos há mais de 30 anos e acumulam mais de 30 títulos em parceria, entre livros infantis, juvenis e adultos. O método de trabalho é curioso: um funciona como revisor do outro, numa parceria literária que sobreviveu a três décadas e, aparentemente, ainda rende novas maneiras de mexer com personagens que todo mundo acha que conhece. Na mesma coleção, os autores já publicaram "Os Penteados de Rapunzel" (2023), "O Patinho Feio que Não Era Patinho Nem Feio" (2024) e "Os Coelhos e as Tartarugas" (2025).

Na coleção "Fábrica de Fábulas", da Cia das Letrinhas, a dupla soma outros nove títulos de recontos. Jornalistas de formação, Torero e Pimenta se conheceram quando trabalhavam como revisores de uma revista especializada na área química. A parceria literária também passou pela ficção histórica. Entre os trabalhos da dupla está "Galantes Memórias e Admiráveis Aventuras do Virtuoso Conselheiro Gomes, O Chalaça", publicado originalmente em 1995 e vencedor do Prêmio Jabuti de Romance.

Ao longo da carreira, os dois publicaram por editoras como Companhia das Letras, Alfaguara, Moderna e Objetiva. Em 2019, ao lado do ilustrador Ivo Minkovicius, criaram a Padaria de Livros, que publica exclusivamente obras dos três sócios. A editora já lançou mais de 30 títulos, alguns deles indicados ao Prêmio Jabuti, e ultrapassou a marca de cem mil exemplares vendidos. "Chapeuzinhos Mais Coloridos" chega com 56 páginas e formato de 21 x 28 centímetros. A pré-venda começa em 15 de setembro, pelo site da Padaria de Livros. Pré-venda neste link.

.: "Jacques Tati, Caído da Lua" revela gênio quase destruído por "PlayTime"


Documentário de Jean-Baptiste Péretié revisita a trajetória do criador e mostra como perfeccionismo, ambição e uma cidade construída do zero ajudaram a produzir uma obra-prima - e uma ruína financeira

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico cultural, especial para o portal Resenhando.com

Jacques Tati tinha um problema sério com limites. Para fazer cinema, precisava controlar o enquadramento, o movimento dos atores, o cenário, os ruídos e até aquilo que o espectador deveria descobrir sozinho. Em "Jacques Tati, Caído da Lua", documentário dirigido por Jean-Baptiste Péretié, essa obsessão aparece como uma das chaves para entender tanto a grandeza quanto a derrocada do cineasta francês. A produção estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, e percorre a carreira de Tati por meio de imagens de arquivo, cenas de filmes, entrevistas e registros pouco conhecidos de seu processo criativo.

Com 60 minutos de duração, o documentário acompanha a trajetória do artista desde os primeiros trabalhos no music-hall até o sucesso internacional e o desastre financeiro provocado por "PlayTime". A narração é de Denis Podalydès, ator da Comédie-Française, e o elenco de imagens de arquivo reúne, entre outros, o próprio Tati e nomes como Marcel Amont, Brigitte Bardot, Olivia de Havilland e Charles de Gaulle.

O título original, "Jacques Tati, Tombé de la Lune", traduz a ideia de alguém que parece ter chegado de outro planeta para observar o mundo. A expressão combina perfeitamente com Monsieur Hulot, personagem que Tati transformou em uma espécie de alter ego: alto, desajeitado, educado, distraído e quase sempre deslocado diante das engenhocas, dos costumes e da velocidade do mundo moderno. A diferença é que Hulot tropeça nas situações enquanto Tati parecia arquitetar cada tropeço com régua, compasso e uma paciência quase criminosa.

Péretié recupera um aspecto essencial dessa filmografia: Tati fez da observação cotidiana uma forma particular de comédia. O diretor preferia Buster Keaton a Charlie Chaplin e chegou a criticar Chaplin por concentrar demais a comicidade no protagonista. Tati caminhou em outra direção, espalhando a gag pelo quadro e permitindo que personagens aparentemente secundários participassem da engrenagem humorística. 

O som também ocupa lugar central. Tati pertence ao cinema falado, mas muitas vezes parece trabalhar como se estivesse reinventando o cinema mudo. Portas, motores, passos, máquinas, campainhas, copos, telefones e ruídos urbanos assumem funções que normalmente seriam entregues aos diálogos. A comicidade nasce tanto do que se vê quanto do que se escuta. Em seus filmes, uma porta pode ter personalidade e uma máquina pode parecer mais humana do que quem a opera.

Essa obsessão alcança uma escala quase delirante em "PlayTime". Para filmar a produção de 1967, Tati construiu uma enorme cidade cenográfica conhecida como Tativille, com prédios, escritórios, ruas e interiores concebidos para que o diretor pudesse organizar sua coreografia visual. O projeto consumiu anos de trabalho e extrapolou sucessivamente o orçamento. O resultado hoje é tratado como uma das grandes obras-primas do cinema, mas sua recepção inicial foi bem menos generosa. O fracasso comercial levou Tati a uma crise financeira que envolveu a liquidação de sua empresa e a perda do controle sobre seus filmes, já que ele praticamente apostou a própria vida em uma obra que o público da época não estava preparado para receber. 

O cineasta chegou a hipotecar a casa e outros bens para sustentar a produção. O projeto, concebido com uma ambição monumental, acabou contribuindo para sua ruína. Décadas depois, a história tratou de devolver a "PlayTime" o lugar que Tati imaginava que merecia. O documentário também ajuda a reposicionar o cineasta diante da modernidade. Tati não tratava a tecnologia apenas como vilã. O que o interessava era o modo como os seres humanos se comportavam diante dela. 

Esse olhar continua particularmente atual. A arquitetura padronizada, a obsessão pela eficiência, a proliferação de dispositivos e a dificuldade de estabelecer relações em meio a ambientes cada vez mais automatizados poderiam facilmente alimentar uma comédia contemporânea. Tati percebeu esse mundo quando ele ainda estava começando a tomar forma. Talvez por isso Monsieur Hulot continue parecendo perdido: o problema é que nós também estamos.

"Jacques Tati, Caído da Lua" funciona como uma porta de entrada para uma filmografia pequena em quantidade e enorme em influência. O documentário não precisa transformar Tati em santo da comédia para demonstrar sua importância. Basta acompanhar o homem que começou no music-hall, criou um dos personagens mais reconhecíveis do cinema, ganhou o Oscar por "Meu Tio", construiu uma cidade para realizar "PlayTime" e terminou pagando uma conta brutal por sua própria ambição. Tati morreu em 1982, aos 75 anos, mas sua obra continuou crescendo depois dele. 

O melhor elogio que se pode fazer a "Jacques Tati, caído da Lua" talvez seja lembrar que o cineasta permanece difícil de encaixar. Ele é comediante, ator, roteirista, diretor, mímico e arquiteto de situações. É francês, mas seu humor atravessou fronteiras porque dependia pouco de idioma. É herdeiro de uma tradição burlesca, mas não cabe confortavelmente nela. E criou um personagem que parecia estar sempre alguns segundos atrasado em relação ao mundo, porque Tati estiva, na verdade, alguns anos à frente.


Ficha técnica
"Jacques Tati, caído da Lua" | "Jacques Tati, Tombé de la Lune" (título original)
Gênero: documentário. Duração: 60 minutos. Classificação indicativa: a confirmar no lançamento brasileiro. Ano de produção: 2021. Data de lançamento: a confirmar para a estreia na Belas Artes à La Carte. Idioma: francês. Direção: Jean-Baptiste Péretié. Roteiro: Jean-Baptiste Péretié. Elenco: Jacques Tati, Denis Podalydès (narração), Marcel Amont, Brigitte Bardot, Olivia de Havilland, Charles de Gaulle, entre outros, em imagens de arquivo. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.

Assine o Belas Artes À La Carte, o streaming para quem ama cinema de verdade
A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.
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