sábado, 5 de setembro de 2026

.: “Duelo na Riviera Francesa” faz da traição de 40 anos um acerto de contas


Comédia francesa de Ivan Calbérac chega ao Belas Artes À La Carte com André Dussollier, Sabine Azéma e Thierry Lhermitte em uma história na qual o ciúme envelhece, mas aparentemente não prescreve


Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico cultural, especial para o portal Resenhando.com

Descobrir uma traição quarenta anos depois pode parecer um excelente motivo para deixar o passado quieto. Para o personagem François Marsault, definitivamente não. Em “Duelo na Riviera Francesa”, comédia francesa de Ivan Calbérac que estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte., um general aposentado resolve transformar uma velha infidelidade conjugal em assunto de primeira ordem - porque, para ele, certas ofensas têm prazo de validade semelhante ao vinho francês: aparentemente, quanto mais antigas, mais inflamáveis.

Interpretado por André Dussollier, François é casado há cinco décadas com Annie, vivida por Sabine Azéma. O casamento segue firme quando ele encontra, no sótão, cartas apaixonadas que revelam um caso extraconjugal ocorrido quatro décadas antes. Annie admite o romance e tenta argumentar que o episódio pertence a uma época tão distante que já deveria ter prescrito. François, contudo, não está interessado em jurisprudência sentimental. Decide pedir o divórcio e localizar Boris, o antigo amante da mulher, para acertar as contas pessoalmente.

A missão leva o casal até Nice, na Côte d’Azur, onde o passado reaparece na figura de Boris, vivido por Thierry Lhermitte. O sujeito não parece exatamente disposto a colaborar com a paz matrimonial: ainda guarda sentimentos por Annie e volta a cortejá-la. O que poderia ser apenas uma briga de casal ganha proporções familiares quando os três filhos entram na equação, transformando a viagem numa espécie de excursão involuntária pelos problemas, segredos e afetos de uma família que já deveria saber se comportar melhor.

Calbérac escreve e dirige uma comédia apoiada no choque entre a rigidez de François e a capacidade de Annie de enxergar a situação com alguma distância. A premissa tem uma boa dose de absurdo: um homem de 73 anos decide fazer justiça pelas próprias mãos por causa de algo que aconteceu quando ainda era jovem. O curioso é que o filme não trata o personagem simplesmente como um velho ciumento. A crise acaba servindo para colocar em xeque a maneira como ele passou décadas comandando a própria família.

A dupla André Dussollier e Sabine Azéma acrescenta uma camada particularmente saborosa ao projeto. Os dois atores voltam a interpretar um casal depois de inúmeras colaborações, entre elas “Tanguy”, “On Connaît la Chanson”, “Cœurs” e “Les Herbes Folles”, trabalhos associados, em boa parte, ao cineasta Alain Resnais. Para “Duelo na Riviera Francesa”, essa história compartilhada ajuda a vender uma intimidade que o roteiro precisa construir rapidamente. A própria imprensa francesa chamou atenção para a 12ª colaboração cinematográfica entre os dois.

Thierry Lhermitte entra como o ingrediente capaz de incendiar novamente a situação. Boris é o antigo amante que, quatro décadas depois, ainda conserva uma queda por Annie. O encontro entre os três produz a faísca central da comédia: enquanto François está preocupado em defender uma honra conjugal que já atravessou quatro décadas, Boris parece muito mais interessado em descobrir se uma velha paixão pode ganhar uma segunda temporada.

A origem da história também tem um quê de roteiro pronto. Segundo as informações de produção divulgadas sobre o filme, Calbérac teve a ideia depois de ler uma notícia sobre um italiano com mais de 90 anos que pediu o divórcio ao descobrir antigas cartas de amor endereçadas à esposa. A anedota real acabou virando uma comédia sobre memória, casamento, orgulho e aquela velha mania humana de transformar uma questão encerrada há décadas em emergência nacional.

Lançado na França em 24 de abril de 2024, “Duelo na Riviera Francesa” teve uma abertura expressiva: alcançou 34.020 espectadores no primeiro dia, ficando atrás apenas de “Back to Black” entre os lançamentos daquele dia. Na semana de estreia, acumulou 234.009 espectadores e chegou ao fim de sua passagem francesa com cerca de 594 mil entradas. O filme também circulou internacionalmente com o título “Riviera Revenge”, chegando a outros mercados europeus e à Austrália.

“Duelo na Riviera Francesa” parece interessado em observar o ridículo de homens que levam a própria honra a sério demais e mulheres que já descobriram que determinadas guerras conjugais simplesmente não merecem munição. No fim, a viagem para a Riviera deixa de ser apenas uma perseguição ao amante do passado. François precisa encarar a mulher com quem passou 50 anos, os filhos que conhece menos do que imagina e, sobretudo, a possibilidade incômoda de que uma vida inteira não cabe nas versões que cada integrante da família construiu dela. É uma comédia sobre casamento, velhice e ciúme em que ninguém parece exatamente inocente.


Ficha técnica
“Duelo na Riviera Francesa” | “N’avoue Jamais” (título original) | “Nunca Confesses” (título em Portugal) | “Riviera Revenge” (título internacional)
Gênero: comédia. Duração: 94 minutos. Classificação indicativa: não localizada em fonte oficial brasileira até o momento; na França, o filme recebeu classificação “Tous publics” (livre para todos os públicos). Ano de produção: 2024. Data de lançamento: setembro de 2026 no Belas Artes À La Carte; estreia original na França em 24 de abril de 2024. Idioma: francês. Direção: Ivan Calbérac. Roteiro: Ivan Calbérac. Elenco: André Dussollier (François Marsault), Sabine Azéma (Annie Marsault), Thierry Lhermitte (Boris Pelleray), Joséphine de Meaux (Capucine Marsault), Sébastien Chassagne (Adrien Marsault), Gaël Giraudeau (Amaury Marsault), Eva Rami (Mika), Michel Boujenah (Clément Fontaine), Solal Bouloudnine (Mourad), Frédéric Deleersnyder (tenente Théo), Christiane Conil (Sophie Désenclos), Jacques Brunet (almirante) e Marie Fabre (Marjorie Marsault). Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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