terça-feira, 8 de setembro de 2026

.: “Loucos por Cinema!”: a cinefilia como matéria-prima de viagem pela memória


Arnaud Desplechin mistura ficção, documentário e ensaio para revisitar a formação de Paul Dédalus e investigar por que o cinema continua ocupando um lugar tão particular na vida de quem assiste

Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Ir ao cinema pode ser uma experiência tão íntima que, em determinados momentos, um filme parece saber alguma coisa sobre quem está sentado diante da tela. É nesse território de lembranças, descobertas e obsessões que Arnaud Desplechin coloca “Loucos por Cinema!”, produção francesa que chega à plataforma de streaming da Reserva Imovision depois de passar por festivais como Cannes e Festival do Rio.

O cineasta retoma Paul Dédalus, personagem que funciona como seu alter ego, para reconstruir a formação de um espectador apaixonado por filmes. A trajetória começa na infância, quando o garoto descobre o cinema levado pela avó para assistir a “Fantômas”, e acompanha diferentes fases de sua vida até o momento em que a cinefilia deixa de ser apenas uma paixão e passa a interferir na maneira como ele compreende o mundo.

Paul é interpretado em diferentes idades por Louis Birman, Milo Machado-Graner, Sam Chemoul e Salif Cissé. Mathieu Amalric, presença recorrente na filmografia de Desplechin e intérprete de Paul Dédalus em “Como Eu Briguei (Por Minha Vida Sexual)”, aparece como o cineasta. A escolha reforça uma espécie de jogo de espelhos que acompanha o diretor há décadas.

A graça está justamente nessa mistura. “Loucos por Cinema!” se move entre a memória pessoal, a encenação ficcional, entrevistas, reflexão sobre a experiência de assistir a um filme e uma quantidade generosa de referências cinematográficas. Desplechin olha para a própria formação como cinéfilo e, ao fazer isso, acaba convidando o público a recuperar suas próprias primeiras sessões, os filmes descobertos por acaso, os personagens que permaneceram na lembrança e até aquelas obras que modificaram alguma coisa sem que fosse possível perceber imediatamente.

O diretor passeia por nomes e títulos fundamentais para a formação de seu olhar. “Os Incompreendidos”, de François Truffaut, “Gritos e Sussurros”, de Ingmar Bergman, “As Pequenas Margaridas”, de Věra Chytilová, e “Shoah”, de Claude Lanzmann, aparecem em uma coleção de referências que ajuda a desenhar a educação sentimental de Paul. A própria escolha de “Fantômas” como ponto de partida remete a uma lembrança de infância do cineasta. Desplechin quer entender por que as pessoas continuam indo ao cinema depois de mais de um século de imagens projetadas. Cannes definiu a produção como uma homenagem às salas de cinema, enquanto o próprio diretor explicou que reuniu memórias, ficção e investigação para criar uma espécie de percurso de formação de um espectador.

O problema aparece quando a paixão do diretor começa a pesar sobre a narrativa. As referências são tantas, e a vontade de discutir cinema é tão evidente, que determinadas passagens parecem destinadas principalmente a quem já domina o repertório apresentado. O filme ganha força quando transforma a cinefilia em memória compartilhada; perde um pouco dela quando se fecha em conversas e associações que exigem do público uma intimidade semelhante com a história do cinema.

Ainda assim, existe algo bastante simpático nessa imperfeição. Desplechin não tenta organizar sua paixão de maneira didática. Ele deixa que lembranças, cenas, ideias e personagens se encontrem, como acontece na própria memória de quem passa anos assistindo a filmes. Uma lembrança de Bergman pode levar a uma discussão filosófica; um cineclube escolar pode despertar uma paixão; uma sessão pode se transformar em acontecimento amoroso; um personagem de ficção pode carregar traços de quem o criou.

Com 88 minutos, “Loucos por Cinema!” tem o tamanho de uma lembrança que se recusa a terminar. A produção francesa foi apresentada na Sessão Especial de Cannes em 2024 e chegou aos cinemas brasileiros em março de 2025. O resultado é irregular, mas coerente com o próprio objeto. Afinal, a cinefilia também tem seus excessos. Há quem assista a um filme e siga para casa. Há quem passe dias pensando nele, procure entrevistas, leia sobre o diretor, descubra outro título, monte uma lista e volte à sala de cinema para rever aquilo que acabou de descobrir. Desplechin claramente pertence ao segundo grupo.


Ficha técnica
“Loucos por Cinema!” | “Spectateurs!” (título original) | “Espectadores!” (título em Portugal)
Gênero: drama, comédia e ficção documental. Duração: 88 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. Ano de produção: 2024. Data de lançamento: 15 de janeiro de 2025, na França. Idioma: francês. Direção e roteiro: Arnaud Desplechin. Elenco: Louis Birman, Dominique Païni, Clément Hervieu-Léger, Françoise Lebrun, Sandra Laugier, Olga Milshtein, Milo Machado-Graner, Margaux Mussano, Sam Chemoul, Marilou Poujardieu, Salomé Rose Stein, Micha Lescot, Shoshana Felman, Kent Jones, Salif Cissé e Mathieu Amalric. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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.: "Chapeuzinhos Mais Coloridos" ganha novas cores e caminhos para o clássico


Novo livro de José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta revisita "Chapeuzinho Vermelho" com seis versões da personagem e chega pela editora independente Padaria de Livros. Fotos: divulgação


Chapeuzinho Vermelho já percorreu a floresta tantas vezes que talvez estivesse na hora de experimentar um figurino novo. É o que fazem José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta em "Chapeuzinhos Mais Coloridos", novo livro infantil da dupla, publicado pela Padaria de Livros, editora independente criada pelos próprios autores, que começa pré-venda no dia 15 de setembro, com ilustrações de Marilia Pirillo. O título dá continuidade a "Chapeuzinhos Coloridos", lançado em 2010 pela Companhia das Letras e que já vendeu 200 mil exemplares. Desta vez, os escritores ampliam a brincadeira e apresentam seis novas possibilidades para a personagem: Amarelo-Canário, Marrom, Rosa, Transparente, Xadrez e Arco-Íris.

Em cada versão, a conhecida história de Chapeuzinho Vermelho ganha outro rumo. A dupla parte do conto tradicional para abordar assuntos como vaidade, folclore brasileiro, questões ambientais, terceira idade, fome, arte e até os mecanismos dos próprios contos de fada, em uma história que brinca com a metalinguagem. "Chapeuzinhos Mais Coloridos" integra a coleção "Eram Mil Vezes", dedicada às reinvenções de histórias conhecidas.

Torero e Pimenta escrevem juntos há mais de 30 anos e acumulam mais de 30 títulos em parceria, entre livros infantis, juvenis e adultos. O método de trabalho é curioso: um funciona como revisor do outro, numa parceria literária que sobreviveu a três décadas e, aparentemente, ainda rende novas maneiras de mexer com personagens que todo mundo acha que conhece. Na mesma coleção, os autores já publicaram "Os Penteados de Rapunzel" (2023), "O Patinho Feio que Não Era Patinho Nem Feio" (2024) e "Os Coelhos e as Tartarugas" (2025).

Na coleção "Fábrica de Fábulas", da Cia das Letrinhas, a dupla soma outros nove títulos de recontos. Jornalistas de formação, Torero e Pimenta se conheceram quando trabalhavam como revisores de uma revista especializada na área química. A parceria literária também passou pela ficção histórica. Entre os trabalhos da dupla está "Galantes Memórias e Admiráveis Aventuras do Virtuoso Conselheiro Gomes, O Chalaça", publicado originalmente em 1995 e vencedor do Prêmio Jabuti de Romance.

Ao longo da carreira, os dois publicaram por editoras como Companhia das Letras, Alfaguara, Moderna e Objetiva. Em 2019, ao lado do ilustrador Ivo Minkovicius, criaram a Padaria de Livros, que publica exclusivamente obras dos três sócios. A editora já lançou mais de 30 títulos, alguns deles indicados ao Prêmio Jabuti, e ultrapassou a marca de cem mil exemplares vendidos. "Chapeuzinhos Mais Coloridos" chega com 56 páginas e formato de 21 x 28 centímetros. A pré-venda começa em 15 de setembro, pelo site da Padaria de Livros. Pré-venda neste link.

.: "Jacques Tati, Caído da Lua" revela gênio quase destruído por "PlayTime"


Documentário de Jean-Baptiste Péretié revisita a trajetória do criador e mostra como perfeccionismo, ambição e uma cidade construída do zero ajudaram a produzir uma obra-prima - e uma ruína financeira

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico cultural, especial para o portal Resenhando.com

Jacques Tati tinha um problema sério com limites. Para fazer cinema, precisava controlar o enquadramento, o movimento dos atores, o cenário, os ruídos e até aquilo que o espectador deveria descobrir sozinho. Em "Jacques Tati, Caído da Lua", documentário dirigido por Jean-Baptiste Péretié, essa obsessão aparece como uma das chaves para entender tanto a grandeza quanto a derrocada do cineasta francês. A produção estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, e percorre a carreira de Tati por meio de imagens de arquivo, cenas de filmes, entrevistas e registros pouco conhecidos de seu processo criativo.

Com 60 minutos de duração, o documentário acompanha a trajetória do artista desde os primeiros trabalhos no music-hall até o sucesso internacional e o desastre financeiro provocado por "PlayTime". A narração é de Denis Podalydès, ator da Comédie-Française, e o elenco de imagens de arquivo reúne, entre outros, o próprio Tati e nomes como Marcel Amont, Brigitte Bardot, Olivia de Havilland e Charles de Gaulle.

O título original, "Jacques Tati, Tombé de la Lune", traduz a ideia de alguém que parece ter chegado de outro planeta para observar o mundo. A expressão combina perfeitamente com Monsieur Hulot, personagem que Tati transformou em uma espécie de alter ego: alto, desajeitado, educado, distraído e quase sempre deslocado diante das engenhocas, dos costumes e da velocidade do mundo moderno. A diferença é que Hulot tropeça nas situações enquanto Tati parecia arquitetar cada tropeço com régua, compasso e uma paciência quase criminosa.

Péretié recupera um aspecto essencial dessa filmografia: Tati fez da observação cotidiana uma forma particular de comédia. O diretor preferia Buster Keaton a Charlie Chaplin e chegou a criticar Chaplin por concentrar demais a comicidade no protagonista. Tati caminhou em outra direção, espalhando a gag pelo quadro e permitindo que personagens aparentemente secundários participassem da engrenagem humorística. 

O som também ocupa lugar central. Tati pertence ao cinema falado, mas muitas vezes parece trabalhar como se estivesse reinventando o cinema mudo. Portas, motores, passos, máquinas, campainhas, copos, telefones e ruídos urbanos assumem funções que normalmente seriam entregues aos diálogos. A comicidade nasce tanto do que se vê quanto do que se escuta. Em seus filmes, uma porta pode ter personalidade e uma máquina pode parecer mais humana do que quem a opera.

Essa obsessão alcança uma escala quase delirante em "PlayTime". Para filmar a produção de 1967, Tati construiu uma enorme cidade cenográfica conhecida como Tativille, com prédios, escritórios, ruas e interiores concebidos para que o diretor pudesse organizar sua coreografia visual. O projeto consumiu anos de trabalho e extrapolou sucessivamente o orçamento. O resultado hoje é tratado como uma das grandes obras-primas do cinema, mas sua recepção inicial foi bem menos generosa. O fracasso comercial levou Tati a uma crise financeira que envolveu a liquidação de sua empresa e a perda do controle sobre seus filmes, já que ele praticamente apostou a própria vida em uma obra que o público da época não estava preparado para receber. 

O cineasta chegou a hipotecar a casa e outros bens para sustentar a produção. O projeto, concebido com uma ambição monumental, acabou contribuindo para sua ruína. Décadas depois, a história tratou de devolver a "PlayTime" o lugar que Tati imaginava que merecia. O documentário também ajuda a reposicionar o cineasta diante da modernidade. Tati não tratava a tecnologia apenas como vilã. O que o interessava era o modo como os seres humanos se comportavam diante dela. 

Esse olhar continua particularmente atual. A arquitetura padronizada, a obsessão pela eficiência, a proliferação de dispositivos e a dificuldade de estabelecer relações em meio a ambientes cada vez mais automatizados poderiam facilmente alimentar uma comédia contemporânea. Tati percebeu esse mundo quando ele ainda estava começando a tomar forma. Talvez por isso Monsieur Hulot continue parecendo perdido: o problema é que nós também estamos.

"Jacques Tati, Caído da Lua" funciona como uma porta de entrada para uma filmografia pequena em quantidade e enorme em influência. O documentário não precisa transformar Tati em santo da comédia para demonstrar sua importância. Basta acompanhar o homem que começou no music-hall, criou um dos personagens mais reconhecíveis do cinema, ganhou o Oscar por "Meu Tio", construiu uma cidade para realizar "PlayTime" e terminou pagando uma conta brutal por sua própria ambição. Tati morreu em 1982, aos 75 anos, mas sua obra continuou crescendo depois dele. 

O melhor elogio que se pode fazer a "Jacques Tati, caído da Lua" talvez seja lembrar que o cineasta permanece difícil de encaixar. Ele é comediante, ator, roteirista, diretor, mímico e arquiteto de situações. É francês, mas seu humor atravessou fronteiras porque dependia pouco de idioma. É herdeiro de uma tradição burlesca, mas não cabe confortavelmente nela. E criou um personagem que parecia estar sempre alguns segundos atrasado em relação ao mundo, porque Tati estiva, na verdade, alguns anos à frente.


Ficha técnica
"Jacques Tati, caído da Lua" | "Jacques Tati, Tombé de la Lune" (título original)
Gênero: documentário. Duração: 60 minutos. Classificação indicativa: a confirmar no lançamento brasileiro. Ano de produção: 2021. Data de lançamento: a confirmar para a estreia na Belas Artes à La Carte. Idioma: francês. Direção: Jean-Baptiste Péretié. Roteiro: Jean-Baptiste Péretié. Elenco: Jacques Tati, Denis Podalydès (narração), Marcel Amont, Brigitte Bardot, Olivia de Havilland, Charles de Gaulle, entre outros, em imagens de arquivo. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.

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.: Prêmio São Paulo de Literatura 2026 abre inscrições para 19ª edição


Com inscrições disponíveis até 1º de outubro, o prêmio reconhece destaques de 2025 em duas categorias, totalizando R$ 400 mil em premiação

A 19ª edição do Prêmio São Paulo de Literatura, uma das maiores premiações literárias do Brasil, está chegando. Iniciativa do Governo do Estado de São Paulo por meio da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas, o prêmio valoriza a produção contemporânea e incentiva novos talentos literários, reconhecendo anualmente os melhores romances publicados e comercializados no Brasil.

Na edição de 2026, serão premiadas duas obras do gênero romance. A premiação será dividida em duas categorias: Prêmio São Paulo de Literatura de Melhor Romance de 2025 e Prêmio São Paulo de Literatura de Melhor Romance de Estreia de 2025. O vencedor de cada categoria receberá R$ 200 mil e o edital para inscrição das obras está disponível por meio do site prêmio são paulo de literatura.org.br.
 
“O Prêmio São Paulo não é apenas um reconhecimento, é um motor para o mercado editorial brasileiro. A cada edição, celebramos autores consolidados e abrimos portas decisivas para novos talentos, garantindo que a criação artística seja valorizada e que a leitura ganhe cada vez mais espaço no nosso estado", destaca a secretária da Cultura, Economia e Indústria Criativas, Marilia Marton.

A inscrição é gratuita e poderá ser realizada pelo próprio escritor, pela editora do livro, ou por procurador constituído pelo autor. Podem concorrer obras físicas cuja primeira edição tenha sido publicada e comercializada no Brasil entre 1º de janeiro e 31 de dezembro de 2025 e que tenham recebido seu registro de edição física pela Câmara Brasileira do Livro em 2025.

Entre os requisitos previstos no edital, a obra deverá pertencer ao gênero romance, ter sido escrita originalmente em língua portuguesa, ter autor vivo, ter sua primeira edição física publicada e comercializada no Brasil em 2025 e ter o primeiro ISBN do livro físico atribuído pela Câmara Brasileira do Livro em 2025. 

Também deverá concorrer em apenas uma categoria, possuir autoria única ou coautoria, desde que não integre compilação ou compêndio, não ter sido publicada, integral ou parcialmente, fora do período estabelecido no edital, e não ter sido escrita, ainda que parcialmente, com recursos de Inteligência Artificial Generativa.

Na categoria Melhor Romance de Estreia, será obrigatória a declaração do autor informando que se trata de seu primeiro romance, assinada eletronicamente por meio do site gov.br (não serão aceitas assinaturas de próprio punho ou inserções de fotos das assinaturas no arquivo). O processo de inscrição possui duas etapas: na primeira, o escritor, a editora ou o procurador deverá preencher o formulário de inscrição on-line, exclusivamente por meio do Sistema de Fomento (fomento.sp.gov.br). Será necessário anexar o livro completo em PDF, documentos de identificação, documentação complementar e as declarações previstas para as diferentes situações de inscrição.

Na segunda etapa, para que a inscrição seja efetivada, deverão ser enviados 10 exemplares físicos da obra, acompanhados do comprovante da inscrição on-line e da ficha de inscrição correspondente. O material deverá ser encaminhado para a Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas, na Rua Mauá, 51, Luz, São Paulo, SP, 01028-900. O envio poderá ser realizado por transportadora, via postal com Aviso de Recebimento (AR) ou mediante entrega presencial.

A seleção será realizada em duas etapas. Na primeira, um júri composto por 10 profissionais com reconhecida experiência e conhecimento na área de literatura selecionará 10 obras em cada categoria, totalizando 20 livros finalistas. Cada obra será avaliada por pelo menos cinco integrantes do júri, com cálculo da média das notas, com exclusão da maior e da menor notas atribuídas à obra.

Na segunda etapa, os 20 livros finalistas serão avaliados por uma curadoria formada por cinco profissionais de reconhecida experiência e conhecimento na área de literatura. A curadoria escolherá os dois vencedores, um em cada categoria. Os nomes dos integrantes da curadoria e do júri serão divulgados no Diário Oficial do Estado de São Paulo até o final do período de inscrições. Mais informações estão disponíveis no site oficial e pelo e-mail premiosaopaulodeliteratura@sp.gov.br. A cerimônia de premiação será realizada em data a ser definida.

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

.: Crítica: “Quando”, de Carla Madeira, coloca mãe e filho em lados opostos


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico cultural, especial para o portal Resenhando.com

Existe uma tentação contemporânea de dividir o mundo entre vítimas perfeitas e culpados absolutos. Carla Madeira faz o movimento contrário em “Quando”, quarto e mais ambicioso romance dela, publicado pela Editora Record. Um livro que exige do leitor algo particularmente desagradável: examinar as próprias convicções. Em tempos de uma sociedade cada vez mais adoecida, em que um streamer aborda e ridiculariza um ator da TV Globo na saída do Rock in Rio por causa da roupa que ele vestia e depois justifica a atitude como entretenimento, o livro ganha uma incômoda atualidade.

A história gira em torno de Viridiana, costureira e mãe de Margarida, Valquíria e Tito. Ela vive cercada pelos pequenos rituais da família, pelos afetos domésticos e por uma espécie de fé na possibilidade de manter tudo no devido lugar. Até que uma tragédia desmonta a bolha em que vive. Depois de chamar a polícia e denunciar o próprio filho, passa a conviver com uma pergunta que nenhuma sentença judicial consegue resolver: o que fazer com o amor quando ele está do lado de alguém que fez alguma coisa imperdoável?

A partir dessa premissa, começa a se desenvolver uma história em que maternidade, culpa, violência, homofobia, preconceito e Justiça se confundem até o leitor perceber que talvez não exista personagem suficientemente inocente para ocupar o papel de juiz. O gesto de Viridiana é brutal porque é correto e, ao mesmo tempo, devastador. Ela denuncia Tito à polícia porque amar alguém não significa necessariamente protegê-lo das consequências de seus atos.

Denunciar ou proteger o próprio filho se transforma em uma pergunta moral sem uma resposta satisfatória. A escritora sabe colocar o dedo na ferida e escolhe um lugar particularmente dolorido: o ponto em que uma mãe descobre que amar um filho pode significar entregá-lo à Justiça. Carla Madeira chegou a um ponto raro na trajetória dela como escritora. Depois do impacto de “Tudo É Rio”, da estrutura de “Véspera” e da investigação íntima de “A Natureza da Mordida”, “Quando” confirma uma escritora interessada em testar até onde a literatura pode levar uma situação aparentemente doméstica.

Machado de Assis já havia colocado, no conto “Pai Contra Mãe”, a miséria humana diante de uma escolha em que o afeto e a sobrevivência se enfrentam. Carla Madeira parece inverter o espelho em “Quando”: a situação a mãe contra o filho e o conflito ganha uma camada ainda mais incômoda, porque Viridiana precisa escolher entre proteger quem ama e entregá-lo às consequências do que fez. “Quando” poderia ter sido escrito como uma história convencional sobre culpa, violência e reconciliação.

Carla Madeira prefere desmontar o relógio, embaralhar os pontos de vista e fazer o leitor pensar, já que o livro avança aos solavancos do tempo. Há horários, lembranças, conversas, capítulos chamados “Engramas”, mudanças de perspectiva e episódios que retornam como se a memória fosse uma casa em que ninguém tivesse encontrado ainda o interruptor. A estrutura reproduz a experiência de quem espera: o tempo passa, mas alguma coisa permanece no mesmo lugar.

Viridiana espera Tito durante horas, dias, meses, vinte anos. Carla Madeira entende que o tempo sabe envelhecer pessoas, mas definitivamente não consegue educar sentimentos. Alguns leitores podem estranhar o ritmo contemplativo, sobretudo quando a narrativa parece interromper a ação para permanecer algum tempo dentro de uma lembrança, de uma conversa ou de uma sensação. Essa escolha, porém, está profundamente ligada ao que o romance pretende investigar: a autora quer que o leitor permaneça dentro das consequências.

Também é particularmente feliz a decisão de não transformar Viridiana em uma santa de porcelana. Ela erra, julga, sente vergonha, arrepende-se, recorda episódios que preferia esquecer e tenta compreender as próprias covardias. Em determinado momento, a mulher que se julgava correta percebe que já havia escolhido não enxergar outras dores quando elas bateram à própria porta. A maternidade, então, ganha contornos menos confortáveis. Uma mãe também pode ser espectadora, cúmplice involuntária, mulher amedrontada, pessoa preconceituosa e alguém capaz de rever a própria história.

Tito, por sua vez, não é apenas o filho denunciado, também está representado pela ausência que reorganiza a família. A homofobia surge dentro desse mecanismo familiar em que os personagens orbitam. O preconceito aparece em casa, no constrangimento, na vergonha, na religião usada como argumento, no medo da opinião alheia e na tentativa de transformar a sexualidade de alguém em problema coletivo. O romance entende que a violência também pode morar numa frase dita à mesa de jantar.

Carla Madeira não trata a dor como uma obrigação de solenidade. Pessoas continuam com fome durante tragédias, brigam por coisas pequenas, fazem sexo, criam filhos, queimam carne, tomam decisões ruins, sentem desejo, falam besteira e riem quando deveriam chorar, afinal, a vida tem péssimo gosto para escolher momentos adequados. O livro também não transforma sofrimento em espetáculo. A autora conhece o apelo da tragédia, mas não parece interessada em entregar ao leitor o conforto de um melodrama convencional. Carla Madeira escreve sobre uma família, mas observa um país.

O Brasil dos anos 1980 aparece como cenário social de uma narrativa marcada por preconceitos que não ficaram confinados ao passado e ainda ecoam em 2026. Homofobia, violência doméstica e familiar, autoritarismo e a ideia de que educar um filho significa moldá-lo pela força aparecem como sintomas de uma sociedade que aprendeu a chamar brutalidade de correção. Dentro desse contexto, expõe-se a fantasia de que os monstros nascem prontos, mas a escritora se mostra interessada no processo contrário: em como uma pessoa se forma dentro de uma família, quando uma violência pode ser ensinada, reproduzida e naturalizada, em como uma criança pode aprender que humilhar alguém é uma forma aceitável de exercer poder.

“Quando” deixa de ser apenas um romance sobre uma família destruída e passa a ser uma história sobre aquilo que o tempo faz quando decide não curar ninguém. O relógio anda, as pessoas envelhecem, o mundo continua, mas determinadas coisas permanecem no lugar em que foram pausadas. O quarto romance de Carla Madeira confirma uma escritora que poderia facilmente repetir a fórmula que a transformou em fenômeno editorial, mas prefere complicá-la. Em vez de oferecer outra história devastadora apenas pela devastação, constrói uma narrativa sobre o que vem depois da tragédia. Compre o livro “Quando”, de Carla Madeira, neste link.

.: "O Tesoureiro" revisita o caso PC Farias pelo olhar de Xico Sá


Livro recupera a investigação que levou o jornalista ao paradeiro do tesoureiro de Fernando Collor e reconstitui bastidores de um dos episódios mais emblemáticos da política brasileira. Foto: Renato Parada / C
apa: Veridiana Scarpelli

Em "O Tesoureiro: O Esquema de Corrupção, a Fuga Espetacular e a Morte de PC Farias", lançado pela Editora Todavia, o escritor Xico Sá retorna aos anos 1990 para reconstruir uma história que reúne política, investigação jornalística, fuga internacional e um assassinato que permanece cercado de dúvidas. O livro combina perfil, reportagem e memória para revisitar os bastidores da cobertura que colocou o jornalista no encalço de Paulo César Farias, personagem central do escândalo que abalou o governo de Fernando Collor de Mello. A capa é de Veridiana Scarpelli.

Repórter de política da Folha de S.Paulo naquele período, Xico Sá foi o primeiro jornalista a revelar o paradeiro de PC Farias depois que o empresário teve a prisão decretada, em 1993. Acusado de envolvimento em um esquema de corrupção ligado ao governo Collor, PC fugiu do Brasil e passou por diferentes países até ser localizado em Bangkok, na Tailândia.

A trajetória da fuga parece saída de uma narrativa de espionagem. Com peruca e sem o característico bigode, PC deixou uma fazenda no interior de Pernambuco em um bimotor com destino a Buenos Aires. O percurso ainda incluiu passagens pela Bahia, Paraguai, Uruguai e Londres, até a chegada à Tailândia. Depois de cumprir pena em Alagoas, ele foi assassinado em junho de 1996, ao lado da namorada, Suzana Marcolino. O crime, ocorrido em uma casa de Guaxuma, em Maceió, jamais foi completamente esclarecido.

Mais de três décadas depois dos acontecimentos que marcaram a política brasileira, Xico Sá recupera as informações que cercaram aquela cobertura. Entre as lembranças estão fontes que forneciam pistas em boates de Maceió, telefonemas anônimos, ameaças e os métodos de uma época em que a apuração jornalística dependia de viagens, telefones e contatos presenciais. O livro também registra uma transformação profunda na profissão. No início dos anos 1990, a internet ainda dava os primeiros passos e os celulares estavam longe da realidade atual. A rotina dos repórteres era marcada pelo fechamento diário dos jornais impressos e por uma cobertura que exigia presença constante no local dos acontecimentos.

É nesse ambiente que Xico Sá resgata a própria trajetória profissional. O jornalista mistura memória e investigação para reconstituir os caminhos percorridos durante a cobertura de PC Farias, incluindo episódios vividos ao lado de personagens da cena cultural pernambucana, como Chico Science e Doctor Mabuse. Um dos momentos narrados no livro acontece em junho de 1993. Xico estava em Recife, em um raro período de folga, quando uma notícia transmitida pelo rádio anunciou que a Justiça havia decretado a prisão preventiva de PC Farias por sonegação fiscal. A pausa acabou antes mesmo de começar. Por determinação da redação, o jornalista precisou retomar imediatamente a apuração e voltar a Maceió para acompanhar os passos do empresário.

A passagem também funciona como retrato de uma prática jornalística que dependia de telefones enormes, deslocamentos e uma rede de fontes construída no contato direto. O chamado "tijolão", celular cedido pela Folha, servia basicamente para fazer e receber ligações. A velocidade da informação era outra, e o fechamento de cada edição estabelecia o ritmo da investigação. Ao recuperar essas histórias, Xico Sá aproxima o passado dos dilemas do presente.

O resultado é um livro que acompanha a ascensão e a queda de uma das figuras mais controversas da Nova República enquanto também registra a formação de um jornalista diante de uma cobertura que atravessou política, corrupção, perseguições e mistérios. A narrativa preserva ainda a marca literária do autor, que se inspira em referências como Hunter S. Thompson e incorpora elementos de literatura policial à investigação. Entre as figuras que povoam a história está a misteriosa informante conhecida pelo codinome Brigitte Monfort, nome emprestado de uma personagem de romances populares. Compre o livro "O Tesoureiro", escrito por Xico Sá, neste link.


Sobre o autor
Xico Sá nasceu no Crato, no Ceará, em 1962. Iniciou a carreira jornalística no Recife e trabalhou durante anos como repórter investigativo. É autor de livros de contos e crônicas, apresentador do ICL Notícias e colunista do Diário do Nordeste. Compre os livros de Xico Sá neste link.

.: “Gente Pobre” e “A Dócil” recolocam Dostoiévski no centro do debate literário


Novas traduções diretas do russo, lançadas pela Via Leitura, aproximam leitores contemporâneos de dois textos fundamentais do escritor e filósofo russo


A literatura russa voltou a ocupar espaço no imaginário do público brasileiro. De referências a Fiódor Dostoiévski na novela “Quem Ama Cuida”, da TV Globo, ao crescimento da hashtag #russianliterature no TikTok, que já ultrapassa 180 milhões de visualizações, os clássicos do século XIX encontram uma nova geração de leitores interessada em histórias marcadas por conflitos humanos, questões sociais e mergulhos na subjetividade. 

O interesse também aparece nas livrarias. O mercado editorial brasileiro tem ampliado a publicação de coleções e novas traduções de autores russos, muitas delas realizadas diretamente a partir do idioma original. É nesse cenário que a Via Leitura lança “Gente Pobre e “A Dócil”, dois livros que ajudam a compreender por que Dostoiévski continua dialogando tão de perto com o presente. As novas edições têm tradução direta do russo assinada pela linguista e tradutora Natalia Petroff, formada pela USP e especialista no idioma. O trabalho busca preservar a força dos textos originais e, ao mesmo tempo, oferecer ao leitor brasileiro uma porta de entrada acessível para a obra do escritor.

Publicado originalmente em 1846, apresentando uma narrativa epistolar de forte dimensão social, “Gente Pobre” foi o primeiro romance de Dostoiévski. A narrativa acompanha, por meio de cartas, dois personagens humildes que compartilham sentimentos, expectativas e dificuldades provocadas pela pobreza. A troca epistolar revela tanto as limitações impostas pela condição social quanto a sensibilidade e a dignidade daqueles que vivem à margem. Compre "Gente Pobre", de Dostoiévski, neste link.

Concentra em poucas páginas um intenso estudo sobre a mente humana,“A Dócil” apresenta um dos momentos mais concentrados e perturbadores da literatura de Dostoiévski. Após o suicídio da jovem esposa, um homem tenta reconstruir os acontecimentos que levaram à tragédia. Entre lembranças, justificativas e contradições, a narrativa expõe temas como solidão, orgulho, incomunicabilidade e os impasses das relações afetivas. Compre "A Dócil", de Dostoiévski, neste link.

Essa capacidade de observar o indivíduo em seus momentos de maior fragilidade explicam a permanência de Dostoiévski. Culpa, medo, isolamento, desigualdade, relações humanas e conflitos psicológicos atravessam o tempo e encontram eco em questões discutidas atualmente, inclusive no campo da saúde mental. Os livros integram a coleção de literatura russa da Via Leitura, que também reúne títulos como “Memórias do Subsolo” e “Noites Brancas”. Com a iniciativa, o Grupo Editorial Edipro amplia o acesso a traduções diretas e aproxima do público brasileiro obras fundamentais da literatura mundial. Para quem ainda vê os clássicos russos como leituras distantes ou difíceis, os dois lançamentos também podem funcionar como ponto de partida. 


Sobre Fiódor Dostoiévski
Fiódor Dostoiévski
(1821-1881) foi escritor, jornalista e filósofo russo. Considerado um dos grandes nomes da literatura universal e um dos precursores do pensamento existencialista, construiu uma obra marcada pela investigação dos conflitos psicológicos e das contradições humanas. Entre seus livros mais conhecidos estão “Crime e Castigo”, “O Idiota” e “Os Irmãos Karamázov”. Sua trajetória pessoal também foi marcada por dificuldades financeiras e familiares, além de períodos de exílio e intensa produção literária. A experiência de Dostoiévski diante da pobreza, da culpa, da perda e das relações humanas atravessou seus livros e ajudou a formar uma literatura que continua provocando leitores de diferentes gerações. Compre os livros de Dostoiéviski neste link.

.: "Espirais" leva Nelson Job às origens do Druamverso na Bienal de São Paulo


Romance de ficção especulativa combina filosofia, ciência, espiritualidade e cultura pop para contar a história de uma sociedade ancestral

Nelson Job chega à 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo com "Espirais", romance de ficção especulativa publicado pela Mondru Editora que retorna ao passado mais remoto do Druamverso. O encontro com os leitores acontece em 12 de setembro, no Gaeb - Grupo Associado de Escritores Brasileiros, na Travessa 11 (Travessa Literária). 

A história se passa em Mrun, uma ilha ancestral localizada no território que, muitos milênios depois, seria conhecido como Brasil. Nesse lugar, humanos, animais, plantas e outras formas de consciência vivem em comunhão. A harmonia, porém, começa a ruir quando pulsações cósmicas provocam alterações na matéria, na percepção e nas capacidades dos seres vivos.

Com as mudanças, antigos acordos passam a ser questionados e o medo começa a interferir nas decisões coletivas. A transformação do mundo exterior acaba provocando também uma transformação na maneira como seus habitantes percebem a própria existência. A narrativa é conduzida por Nyarah, sacerdotisa e filósofa de Mrun, e se organiza em três movimentos: Dobra, Redobra e Desdobra. Ao longo da história, as mudanças alcançam a ilha, outros territórios e o plano etéreo.

Embora tenha autonomia para ser lido como uma obra independente, "Espirais" ocupa uma posição central na construção do Druamverso. O romance apresenta as origens de conceitos e conflitos que aparecem em trabalhos anteriores de Nelson Job, como "Druam", "Pulsares" e "Cânticos Andróginos". A ficção criada pelo autor aproxima filosofia, ciência, espiritualidade, arte e cultura pop e amplia um universo literário que já vem sendo desenvolvido em diferentes formatos. Aqui, o cosmos não aparece apenas como cenário: ele interfere diretamente na vida dos personagens e nas regras que organizam aquele mundo.


Sobre Nelson Job
Nelson Job é escritor, psicólogo e pesquisador transdisciplinar, doutor em História das Ciências, das Técnicas e Epistemologia pela UFRJ. Trabalhou com o físico Luiz Pinguelli Rosa e conheceu Nise da Silveira na Casa das Palmeiras, onde foi coordenador cultural. É coeditor da revista "Cosmos e Contexto", ao lado do cosmólogo Mario Novello, e criador do campo dos transaberes. É autor de "Druam", "Livro na Borogodança", "Cânticos Andróginos" e "Pulsares". Job desenvolve o Druamverso em diferentes formatos e também promove cursos e grupos de estudo dedicados à experimentação e ao pensamento brasileiro. Compre os livros de Nelson Job neste link.


Serviço
Nelson Job na 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo
Evento: 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo
Data: até dia 13 de setembro de 2026
Local: Distrito Anhembi - Pavilhão de Exposições
Endereço: Av. Olavo Fontoura, 1209 - Santana, São Paulo - SP

Atividade: Autógrafos e bate-papo
Data: 12 de setembro de 2026, sábado
Horário: das 10h às 13h45
Onde: Gaeb - Grupo Associado de Escritores Brasileiros - Travessa 11 (Travessa Literária)
Livro: "Espirais"
Gênero: Romance de ficção especulativa
Editora: Mondru Editora
Páginas: 240
Lançamento: 2026

sábado, 5 de setembro de 2026

.: "As Irmãs de Amarelo" mergulha em escolhas difíceis e na sobrevivência


Novo romance de Mieko Kawakami chega ao Brasil pela Intrínseca e acompanha mulheres que tentam sobreviver à pobreza, à criminalidade e à falta de perspectivas. Foto: Reiko Toyama

Quanto de liberdade existe quando escolher é um privilégio que o dinheiro pode comprar? Em "As Irmãs de Amarelo", novo romance de Mieko Kawakami, autora de "Peitos e Ovos", essa pergunta ganha contornos cada vez mais incômodos ao acompanhar mulheres que encontram na amizade, no trabalho e até na criminalidade maneiras de escapar de uma vida marcada pela precariedade. 

Publicado pela Intrínseca, o livro leva o leitor às noites de Tóquio do fim dos anos 1990 e retoma alguns dos assuntos recorrentes na obra da escritora japonesa, como desigualdade social, trabalho feminino e os limites impostos às mulheres quando faltam dinheiro, proteção e perspectivas. Vencedora do Prêmio Yomiuri de Literatura, Kawakami constrói uma narrativa em que as escolhas pessoais nunca estão completamente separadas das condições sociais que as cercam. A tradução é de Rita Kohl.

A história começa em abril de 2020. Aos 40 anos, Hana se depara por acaso com uma notícia de jornal sobre Kimiko Yoshikawa, uma mulher de 60 anos que está sendo julgada por agredir e manter uma jovem em cárcere privado. O nome faz Hana voltar no tempo, até uma fase da vida que parecia definitivamente arquivada. Em 1998, aos 15 anos, ela morava com a mãe na periferia de Tóquio, enfrentava dificuldades financeiras e trabalhava para juntar algum dinheiro. Em uma casa sem segurança e com poucas possibilidades de decidir o próprio futuro, Hana encontra em Kimiko uma espécie de porta de saída.

As duas abrem o Lemon, pequeno bar no bairro de Sangenjaya que acaba se tornando ponto de encontro e abrigo para Hana e outras duas jovens, Lan e Momoko. As quatro passam a trabalhar juntas e dividir a mesma casa. Por algum tempo, aquela família improvisada oferece algo que parecia impossível: pertencimento. Só que contas não costumam respeitar sonhos. Quando o dinheiro começa a desaparecer, a sensação de liberdade também perde força. Hana acaba envolvida no submundo dos golpes, onde necessidade e ganância passam a dividir uma fronteira cada vez mais estreita. O que parecia uma alternativa para sobreviver começa a cobrar um preço próprio. É nesse terreno desconfortável que Kawakami desenvolve a principal questão do romance: até onde uma escolha pode ser considerada realmente livre quando as outras opções praticamente desapareceram? Compre o livro "As Irmãs de Amarelo", de Mieko Kawakami, neste link.

Sobre a autora
Mieko Kawakami
é autora do best-seller internacional "Peitos e Ovos", escolhido pelo jornal The New York Times entre os livros notáveis do ano e incluído pela revista Time entre os dez melhores livros de 2020. Entre seus outros romances estão "Paraíso", finalista do International Booker Prize de 2022, e "Todos os Amantes da Noite", finalista do National Book Critics Circle Award de 2023 na categoria ficção. Em 2024, "As Irmãs de Amarelo" recebeu o Prêmio Yomiuri de Literatura. Traduzidos para mais de quarenta idiomas, os livros da escritora são conhecidos pelas reflexões sobre gênero, classe e ética na sociedade contemporânea. Nascida em Osaka, Kawakami vive atualmente em Tóquio, no Japão. Compre os livros de Mieko Kawakami neste link.

.: “Nefelibato” retorna a São Paulo e coloca a loucura diante do espelho


Monólogo de Regiana Antonini, estrelado por Luiz Machado, investiga os limites entre lucidez e loucura e volta ao Teatro B32 para temporada de 4 a 27 de setembro.  Foto: Claudia Ribeiro

Um homem, um carrinho e um mundo inteiro para carregar. É assim que Anderson, personagem central de “Nefelibato”, monólogo escrito por Regiana Antonini, chega ao palco na interpretação de Luiz Machado. Com direção de Fernando Philbert e supervisão artística de Amir Haddad, o espetáculo retorna a São Paulo para uma curta temporada no Teatro B32, até dia 27 de setembro. A montagem, que já passou por temporadas no Rio de Janeiro e em São Paulo, chega à sexta temporada carregando uma história que nasceu nos anos 1990, período marcado pelo confisco das reservas financeiras da população pelo governo, mas que encontra ecos incômodos no Brasil de hoje.

A medida econômica mergulhou milhares de brasileiros em desespero e levou muitos à bancarrota. Anderson foi um deles. Perdeu o negócio, uma pessoa querida, um grande amor e, depois de tudo isso, acabou nas ruas. Entre a realidade e a imaginação, passa a perambular carregando consigo aquilo que restou de seu mundo. É nesse território de fronteira que “Nefelibato” encontra sua força. A peça investiga o quanto de loucura pode existir como mecanismo de sobrevivência e até onde alguém consegue ir para continuar vivo. Para Anderson, a rua se transforma numa espécie de refúgio possível diante de uma existência que deixou de caber nos moldes convencionais.

“O público fica muito impactado, pois o espetáculo reflete uma realidade que tentamos fazer invisível, mas que está sempre à disposição de nossos olhos. Então, é muito interessante quando a plateia percebe que a atitude do personagem é consequência de um ato político e se aproxima ainda mais desta verdade social em que vivemos”, afirma Luiz Machado. O ator conta que se encantou pelo personagem desde o primeiro contato com o texto. "A história de Anderson me fascinou completamente, pois é um personagem que vive no limite da vida e do sonho, entre a lucidez e a loucura", conclui.

Fernando Philbert define a montagem como uma mistura de realidade, fantasia, humor e poesia, tendo como centro um personagem que carrega o próprio universo em um carrinho e, ao mesmo tempo, dentro de si. “Um fato real, que se mistura com a nuvem da fantasia, do drama, do épico, do louco, do homem, do ‘Nefelibato’ que mora na praça que cada um possui no meio do peito. O projeto ‘Nefelibato’ é um espetáculo teatral da dimensão humana que se refaz no humor, na poesia, na força, na busca por um lugar no mundo, seja o mundo real ou mundo imaginário. Este personagem que carrega seu próprio mundo em um carrinho, que tem seu próprio mundo dentro de si, vai como Dom Quixote, como Hamlet, como o capitão Ahab de “Moby Dick” à procura de sua baleia branca, em busca de enfrentar seus moinhos e demônios para ser feliz. Sim, ser feliz é o que todos queremos, este singelo momento que justifica a vida, sorrir ao acordar”, assim o diretor Fernando Philbert discorre sobre o tema da peça.

A trajetória de Anderson também coloca em cena uma pergunta incômoda: o que acontece quando a sociedade empurra alguém para fora dela e depois finge que não viu? Ao transformar a rua em escolha de sobrevivência, o personagem expõe as consequências de uma realidade social que costuma ser empurrada para debaixo do tapete. Com uma única pessoa em cena, Luiz Machado sustenta o espetáculo e transforma a instabilidade emocional do personagem em matéria teatral. A atuação foi reconhecida com indicação ao Prêmio Cenym de melhor ator e com o Prêmio Aplauso Brasil, na categoria especial de Destaque do Ano.


Ficha técnica
Espetáculo "Nefelibato"
Texto: Regiana Antonini. Supervisão artística: Amir Haddad. Direção: Fernando Philbert. Interpretação: Luiz Machado. Direção de produção: Gerardo Franco. Cenografia e figurino: Teca Fichinski. Iluminação: Vilmar Olos. Músicas: Maíra Freitas. Direção de movimento: Marina Salomon. Preparação vocal: Edi Montecchi. Design gráfico: Cláucio Sales. Assistente de direção: Alexandre David. Assistente de cenário: Juju Ribeiro. Realização: LM Produções Artísticas. Assessoria de imprensa: Adriana Monteiro.


Serviço
Espetáculo "Nefelibato"
Teatro B32 | Espaço Experimental | Avenida Brigadeiro Faria Lima, 3732, Itaim Bibi / São Paulo
Temporada: 4 a 27 de setembro, às 20h00. Domingos, às 18h00. Ingressos: R$ 100,00 (inteira) / R$ 50,00 (meia-entrada). Classificação: 14 anos. Duração: uma hora. Lotação: 70 lugares. Atenção: não é permitida a entrada após o início do espetáculo.

.: "Nino" torna diagnóstico de câncer em jornada íntima pelas ruas de Paris


Drama de Pauline Loquès acompanha jovem que recebe uma notícia devastadora e ganha dois dias para reorganizar a própria vida antes de iniciar o tratamento

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Depois de chegar aos cinemas brasileiros, "Nino" encontra uma nova janela de exibição na plataforma de streaming da Reserva Imovision, onde apresenta ao público brasileiro o primeiro filme de ficção de Pauline Loquès. No centro da história está Nino, interpretado por Théodore Pellerin, um jovem parisiense que descobre ter câncer na garganta quando deveria estar preocupado com assuntos bem menos dramáticos.

A partir do diagnóstico, os médicos dão ao rapaz duas tarefas antes do início do tratamento. O que poderia parecer apenas uma contagem regressiva médica ganha contornos de uma jornada pessoal pelas ruas de Paris, enquanto Nino tenta entender o que fazer com a notícia, como contar para a mãe e os amigos e, principalmente, como continuar vivendo diante de uma realidade que mudou de repente. A própria apresentação oficial do filme resume essas missões como uma oportunidade para o personagem se reconectar com o mundo e consigo mesmo.

A estrutura concentra a narrativa em poucos dias e transforma a capital francesa em parte essencial da experiência de Nino. A cidade aparece como espaço de encontros, lembranças, afetos e pequenas decisões, enquanto o protagonista tenta administrar o medo, a confusão e as relações que havia deixado pelo caminho. A comparação com "Cléo das 5 às 7", clássico de Agnès Varda, surge naturalmente pela maneira como o filme acompanha uma personagem diante da perspectiva de uma doença e usa a cidade como extensão de sua inquietação. A própria recepção ao filme também destacou essa relação entre deslocamento urbano, espera e descoberta pessoal.

Estreante na direção de ficção, Loquès também assina o roteiro, com colaboração de Maud Ameline. Antes de "Nino", a cineasta havia dirigido o documentário "La Vie d'une Jeune Fille", de 2018. O filme nasceu de um processo de desenvolvimento iniciado em 2020 e foi rodado em Paris no segundo semestre de 2024. Théodore Pellerin é o grande trunfo do elenco. A interpretação como Nino rendeu ao ator o Prêmio Fundação Louis Roederer de Revelação na Semana da Crítica do Festival de Cannes de 2025. 

O reconhecimento não parou em Cannes. "Nino" venceu o César de Melhor Primeiro Filme e Pellerin levou o prêmio de Melhor Revelação Masculina na edição de 2026. A produção também passou pelo Festival Internacional de Toronto, na competição Platform, e acumulou prêmios em eventos como Deauville, Roma, Varsóvia e Namur. No elenco, Pellerin divide a cena com William Lebghil, Salomé Dewaels e Jeanne Balibar, além de participações de Camille Rutherford, Estelle Meyer, Victoire Du Bois e Mathieu Amalric.

A produção francesa chegou aos cinemas brasileiros em 7 de maio de 2026 e agora pode ser encontrada na Reserva Imovision. Com 96 minutos, o filme aposta na intimidade, no humor pontual e nos encontros fortuitos para construir uma história sobre juventude, amizade, família e a necessidade quase urgente de reaprender a olhar para a própria vida.


Ficha técnica
"Nino" (título original)
Gênero: drama. Duração: 96 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2025. Data de lançamento: 7 de maio de 2026 no Brasil; 9 de abril de 2026 em Portugal. Idioma: francês. Direção: Pauline Loquès. Roteiro: Pauline Loquès, com colaboração de Maud Ameline. Elenco: Théodore Pellerin, William Lebghil, Salomé Dewaels, Jeanne Balibar, Camille Rutherford, Estelle Meyer, Victoire Du Bois, Balthazar Billaud, Mathieu Amalric, Nahéma Ricci, Alexandre Desrousseaux e outros. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


Assine a Reserva Imovision, a maior plataforma de filmes independentes da América Latina
A equipe do portal Resenhando.com acompanha os filmes por meio da plataforma de streaming Reserva Imovision, dedicada ao cinema independente e autoral. Para acessar o catálogo completo, conferir novidades e realizar sua assinatura, o aplicativo da plataforma ou o visite o site oficial neste link. A Reserva Imovision reúne filmes e séries cuidadosamente selecionados, ampliando o acesso a obras que valorizam a diversidade cultural, a reflexão e experiências cinematográficas diferenciadas. Você pode assinar a plataforma de streaming Reserva Imovision neste link.

.: Livro "Compêndio..." reúne gigantes e pigmeus na Bienal de São Paulo


Leonardo Menegatto mistura mito, religião, fantasia e ciência em cinco narrativas que percorrem diferentes formas de contar o mundo


Leonardo Menegatto chega à 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo com "Compêndio das Grandes e Pequenas Existências", publicado pela Mondru Editora. O escritor participa de autógrafos e bate-papo em 8 de setembro, no Gaeb - Grupo Associado de Escritores Brasileiros, na Travessa 11 (Travessa Literária). O livro reúne cinco textos independentes ligados por uma presença em comum: gigantes e pigmeus. A partir desse fio, cada narrativa assume uma estrutura própria e conduz o leitor por diferentes épocas, gêneros e maneiras de imaginar e registrar a realidade.

O percurso passa pelo relato mitológico, pelo texto bíblico, pelo conto de fadas, pelo ensaio científico ficcional e pela correspondência. A variedade de formatos faz parte da própria proposta da obra, que investiga como diferentes sociedades e períodos históricos criam maneiras particulares de explicar o mundo. Menegatto dialoga com referências como a tradição atribuída a Homero, textos gnósticos e apócrifos do cristianismo primitivo, os contos reunidos pelos irmãos Grimm e as obras de Charles Darwin.

Doutor em Genética, o autor também estabelece uma aproximação entre literatura e história da ciência. O conhecimento científico entra na construção ficcional sem ficar confinado ao papel de figurante, enquanto a linguagem ganha diferentes funções conforme cada narrativa muda de época e de gênero. "Compêndio das Grandes e Pequenas Existências" brinca com escalas, formatos e perspectivas. Gigantes e pigmeus acabam funcionando como imagens que mudam de tamanho conforme o olhar de quem conta — porque, na literatura, até uma criatura colossal pode caber em poucas páginas. Compre os livros de Leonardo Menegatto neste link.


Sobre Leonardo Menegatto
Leonardo Menegatto é escritor, engenheiro agrônomo, doutor em Genética pela FMRP-USP e mestre em Agronomia, com ênfase em Genética e Melhoramento de Plantas. É também licenciado em Ciências Agrárias pela ESALQ-USP. Sua produção literária transita pelo realismo fantástico, pela poesia e pela literatura infantojuvenil.

É autor de "A Fantástica Aventura de Ferdinando e Quem Eu Lá Conheci", vencedor do Prêmio Book Brasil nas categorias Melhor Infantojuvenil e Aclamado pelo Público, e de "Na Estranha Imagem Entre Nós". Também possui contos e poemas publicados em diferentes coletâneas. Compre os livros de Leonardo Menegatto neste link.


Serviço
Leonardo Menegatto na 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo
Atividade: Autógrafos e bate-papo
Dia 8 de setembro de 2026, terça-feira, das 9h00 às 13h45
Gaeb - Grupo Associado de Escritores Brasileiros - Travessa 11 (Travessa Literária)

28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo
Data: 4 a 13 de setembro de 2026
Distrito Anhembi - Pavilhão de Exposições
Endereço: Av. Olavo Fontoura, 1209 - Santana / São Paulo
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