quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

.: Entrevista com Leyla Bouzid, de "Assim que Abro Meus Olhos"

"...esquecer não é necessariamente uma coisa ruim. [...] Mas a amnésia e o esquecimento devem ser combatidos".
Leyla Bouzid 

Por Maha Ben Abdeladhim, jornalista e escritora

Leyla Bouzid (Túnis, 1984) se mudou para Paris em 2003 para estudar literatura francesa na Sorbonne e, em seguida, foi para La F émis estudar direção. Ela dirigiu  "Soubresauts", seu filme de tese, na Tunísia, poucos meses antes da Revolução. Depois ela dirigiu  "Zakaria" no sul da França com atores não profissionais. Estes dois curtas-metragens receberam uma calorosa recepção em festivais na França e em outros países. "Assim que Abro Meus Olhos" ("A Peine J 'Ouvre Les Yeux", 2015) é  seu primeiro longa-metragem. Também dirigiu os curta-metragens "Un Ange Passe" (2010) e "Gamine" (2013).

"Assim que Abro Meus Olhos" se passa  em Túnis, no verão de 2010, poucos meses antes da revolução. Farah tem 18 anos e está recém-formada, mas sua família já a vê como uma futura médica. Ela, no entanto, não pensa da mesma forma e tem como atividade preferida cantar em uma banda de rock engajada, com músicas que abordam temas políticos. Seu  único plano no momento  é aproveitar a vida intensamente, beber, descobrir amores e sua própria cidade durante a noite. Tudo isso contra a vontade de sua mãe Hayet, uma mulher que conhece muito bem a Tunísia e os seus perigos. Prêmio do Público no Venice Days, Festival de Veneza e exibição em mais de 40 festivais.

O filme se passa quando Ben Ali era Presidente, mas foi escrito e filmado muito tempo depois dele fugir do país. Como seu trabalho mudou em relação aos eventos chaves e históricos que recentemente ocorreram na Tunísia?
Quando a revolução aconteceu, o desejo era muito forte para filmar e representar isto. Muitos documentários foram filmados então, todos cheio de esperança, todos focados no futuro. Eu também queria filmar. Não a revolução, mas o que todos viveram e sofreram: o cotidiano sufocante, o poder total de polícia, a vigilância, o medo e paranoia do povo tunisiano nos últimos 23 anos. A revolução (ou revoltas, pontos de vista são divergentes) surpreendeu o mundo inteiro, mas não veio de lugar nenhum. Não poderíamos de repente varrer décadas de ditadura e voltar para o futuro sem examinar o passado. Para mim, era óbvio que tínhamos de rever rapidamente o passado enquanto a maré da liberdade continuava a fluir. Como a maioria dos tunisianos, minha euforia era forte no início, seguida por sucessivas fases de encanto e desencanto. Para o filme, eu não queria que a gama de emoções conectadas a eventos em curso me influenciasse. Meu único guia era tentar consistentemente seguir a jornada emocional vivida pelos personagens durante o período histórico que é contado. O objetivo era ser o mais preciso possível em uma obra de ficção leal a um contexto histórico específico.

Você estava ciente das renovadas restrições sobre a liberdade durante a filmagem? Você teve receio de ver a era Ben Ali voltar à vida no olho de sua câmera?
Eu estava ciente de que eu tinha que filmar rapidamente, enquanto ainda havia tempo, e que era importante filmar o medo que os tunisianos sentiram quando Ben Ali estava no poder. Para memorizar as dificuldades daqueles anos que nunca queremos ver de novo, para conjurar o risco de os ver voltando novamente. Durante a filmagem, notei que muitos já tinham esquecido o que era viver sob o regime de Ben Ali. Quando eu disse aos figurantes: "aqui há um silêncio pesado", porque sob o regime do Ben Ali não se podia ouvir tais coisas sem ficar com medo, alguns deles tiveram dificuldade em recompor o sentimento. As pessoas perderam os reflexos que tiveram durante esse período, juntamente com a memória do medo e da paranoia. De um certo ponto de vista, esquecer não é necessariamente uma coisa ruim. Como se esse período estivesse realmente atrás de nós. Mas a amnésia e o esquecimento devem ser combatidos. Esse é um dos papeis do cinema.

Você fala dos medos em relação ao sistema policial, mas existe também uma verdadeira ameaça terrorista pairando sobre a Tunísia. E, no entanto, a religião está completamente ausente do filme.
Estamos com os jovens que transbordam de energia, que fazem coisas, que querem fazer música, organizar concertos, viver sua arte. A religião não está no centro de suas vidas. É essa juventude enérgica e criativa que eu queria filmar. Juventude que luta todos os dias por sua existência, e que raramente ouvimos alguma coisa sobre. Os únicos jovens que têm voz na mídia são aqueles que se voltam para o extremismo e a violência. Pareceu importante dizer que também existem jovens que são impulsionados pela vida, para lhes dar uma voz através da Farah, mostrar que ela  é amordaçada por um terror que se origina do sistema. O terrorismo não é a única forma de terror. Farah está tentando existir como um indivíduo, para ter sua voz escutada. Conhecemos " O povo Tunisiano", o "Nós", e a "Nação"... 

Mas qual lugar é dado ao "Eu"? A que preço este existe como um indivíduo livre na Tunísia? Você teve que pagar este preço? O que existe de você em Farah?
O filme faz esta pergunta: como uma pessoa pode, na Tunísia, libertar-se da família, da sociedade, do sistema? - a energia que isso requer, a resistência que ela provoca e a violência que ela pode gerar são tremendas. Seguimos a trajetória de Farah, que quer viver a vida ao máximo, que está plenamente viva, contra todos e todas as probabilidades, e por isso ela é punida, esmagada. Penso que na Tunísia, todos nós pagamos um preço, quer se trate de um artista ou não, em um momento ou outro na vida, a um nível íntimo, familiar, social ou educacional. Na sociedade tunisiana, qualquer um faz concessões, ou é confrontado com inúmeros obstáculos. A história do filme não é autobiográfica, mesmo que exista algumas situações que eu própria vivi: a de descobrir que um amigo próximo, que pertencia ao mesmo cineclube que eu, era um informante da polícia. Alguém que estava lá para nos vigiar, para nos infiltrar. Foi um choque terrível. Então, percebi que estávamos cercados e que não podíamos confiar em nada ou em ninguém. Mas Farah é muito diferente de mim. Ela é mais impulsiva e espontânea do que eu, nunca teria sido capaz de ir tão longe quanto ela. Ela é agraciada por uma espécie de inocência e coragem, ela não assimilou os limites que bloqueiam qualquer iniciativa. Ela é como um elétron livre.

Você escolheu a cantora Ghalia Benali para interpretar o papel da mãe, e deu a Baya Medhaffer seu primeiro papel, que é o da protagonista. Como as duas atrizes reagiram a esta escolha?
Ghalia ficou muito surpresa por eu ter contatado ela para interpretar o papel da mãe de uma cantora. A princípio, ela ficou quase ofendida. Mas finalmente, quando ela leu o roteiro, ela estava muito entusiasmada. Na personagem de Hayet, ela viu coisas que lembrou a sua própria mãe, e estava animada para desempenhar o papel. A presença de Ghalia trouxe muito para o filme: ela foi uma grande ajuda para Baya. Elas se uniram maravilhosamente e desenvolveram um ritmo próprio delas. A última cena do filme é de fato inspirada no primeiro encontro das duas atrizes. Ghalia cantou para encorajar Baya a cantar em sua presença. Pouco a pouco, Baya começou a cantar com ela. Isso mexeu com Ghalia de modo que lá grimas começaram a correr por suas bochechas enquanto ela sorria. Foi muito intenso e de repente, era óbvio que este era o final do filme. Para desempenhar o papel de Farah, precisava de uma jovem de 18 anos, muito livre, pronta e capaz de encarnar o papel, que exigia tanto o canto como a atuação. É uma parte difícil para um novato. O casting durou mais de um ano, eu me encontrei com muitas, muitas jovens, algumas delas várias vezes. Baya fez o teste de tela no início, mas eu não tinha certeza, eu estava cheia de dúvidas. A escolha foi difícil e Baya realmente lutou para obter o papel. Ela absolutamente queria. Ela amava o personagem e não tinha medo de ser censurada ou de fazer algo proibido. Ela é, de fato, mais livre do que Farah, mais explosiva. Ela é excepcionalmente livre. Isso foi muito precioso para encarnar o papel e foi o que me convenceu.

Você filma duros locais de Túnis, sua vida noturna, os bares, trens, lugares muito masculinos, nos quais você entra com os olhos de uma mulher... Então você vai para o interior, principalmente para a área de mineração, onde o árido quebra a decoração do turbulento cenário urbano.
Existe uma barreira que separa esses dois cenários que eu sinto que deve ser quebrada, e que é possível eu fazer isso. Concretamente, durante a filmagem, é a cena em que Hayet entra no bar, que era a mais delicada. Os figurantes eram verdadeiros clientes de um bar decadente. Cada vez que nós refazíamos a cena, a atriz teve que entrar no bar novamente e em cada vez isso foi uma provação. Os homens, figurantes, olhavam com insistência, quase de forma obscena, sem nossa permissão. Todas as mulheres que participaram da filmagem sentiram a pressão do olhar deles. Eu estava determinada a filmar lugares da Tunísia com suas verdadeiras atmosferas, as pessoas reais que trabalham ou passam por lá, para ser fiel à sua realidade. O trem suburbano, os bares, a estação de ônibus são filmados de forma documental. A ideia era injetar a ficção do filme nesses lugares da cidade terrivelmente vivos... até as poeiras das minas de fosfato, o viveiro de resistência quando Ben Ali estava no poder. Os trabalhadores desempenham o próprio papel deles. Esta cena cria uma ruptura no filme, permitindo dar um passo atrás em relação à história, uma espécie de zoom para trás que tenta desenhar um mapa do país. Para lembrar que as palavras das canções vêm de longe, que a impressão de sufocar é profunda, enterrada sob várias camadas sociais. A cena é um tributo a estes trabalhadores (ainda em conflito com as autoridades de hoje), antes de tudo evocar sua resistência, que preparou o país para se levantar contra o governo. A resistência começou cedo, em 2008, muito antes da famosa tentativa de Bouazizi de se imolar. 

A música no filme é o vetor para um tipo de resistência. Khyam Allami, um iraquiano, a compôs... 
Música e dança sempre existiram na cultura popular tunisiana. A música tradicional, "Mezwed", as danças, as festividades durante os casamentos são verdadeiramente ocasiões intensas, permitindo libertação emocional para as pessoas. Hoje, o rap tunisiano está emergindo dos distritos pobres. É um verdadeiro refúgio para alguns, e manifesta um forte movimento de resistência que atinge um grande número de pessoas. O Estado está visivelmente com medo desses rappers que protestam pelo o que eles  gritam em suas canções. A música foi o maior desafio do filme. Eu não só tinha que encontrar uma atriz que canta, mas eu precisava criar uma banda, compor a música, escrever as canções. Às vezes eu achava que seria impossível. Conheci inúmeros músicos, mas nunca conseguimos nos dar bem. E então, um dia, por acaso, eu estava em um concerto em Paris e descobri uma banda cuja música simplesmente me chamou a atenção: o Alif Ensemble. Khyam é um dos cinco músicos de vários países  árabes (Líbano, Egito, Palestina, Iraque). Sua energia, seu treinamento está muito próximo do que eu queria (seu primeiro álbum foi lançado em 4 de setembro de 2015). E também descobri que o fabricante de instrumentos de cordas da banda é iraquiano e que ele morou na Tunísia nos últimos três anos. Ele falava tunisiano, conhecia os lugares onde eu queria filmar o filme, a vida underground da juventude lá, Baya... Tudo aconteceu muito rápido e foi realmente simples depois disso. Khyam e eu estávamos completamente em sintonia. Eu o consultei quando fiz o elenco, criamos a banda juntos. Ele compôs as músicas para a voz de Baya e ensaiou a banda por semanas antes do início da filmagem. Isso os uniu. Eles se tornaram uma banda de verdade. Todos nós amamos a música. Filmar as cenas musicais com a performance ao vivo da banda foram verdadeiros momentos de exaltação para toda a equipe de filmagem. Para as letras, eu trabalhei com um velho amigo meu, Ghassen Amami, que também trabalha no cinema. Cada canção tinha que ter um sentimento específico em relação ao momento em que era cantada no filme. Cada uma participa da dramaturgia. Algumas das canções foram escritas de uma só vez, outras exigiram várias adaptações. As letras estão profundamente enraizadas na Tunísia de hoje.

"Assim que Abro Meus Olhos" (A peine j ' ouvre les yeux), de Leyla Bouzid, estreia dia 12 de janeiro.
Direção - Leyla Bouzid  
Roteiro - Leyla Bouzid e Marie-Sophie Chambon  
Produtores - Sandra da Fonseca e Imed Marzouk  
Elenco - Baya Medhaffer, Ghalia Benali, Montassar Ayari, Aymen Omrani, Lassaad Jamoussi, Deena Abdelwahed, Youssef Soltana, Marwen Soltana, Najoua Mathlouthi, Youness Ferhi, Fathi Akkeri e Saloua Mohammed  
Música Original - Khyam Allami  
Direçã o de Fotografia - Sé bastien Goepfert 
Montagem - Lilian Corbeille 
Som - Ludovic Van Pachterbeke 
Mixagem de Som - Ré  mi Gérard  
Coprodutor - Anthony Rey  
Produtores Associados - Nathalie Mesuret e Bertrand Gore  
Coprodução - Hélicotronc  
Produção - Blue Monday Productions e Propaganda Production 
Distribuição Nacional - Supo Mungam Films
Título Original: "A Peine J' Ouvre Les Yeux"  | Tunísia/França/Bélgica | 2015 | 102 min | Janela 1.85:1 | Classificação Indicativa: em breve

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