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quinta-feira, 5 de novembro de 2026

.: Crítica: "O Bosque Selvagem" é obra-prima épica repleta de subtramas

Cartaz de "O Bosque Selvagem"


Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em novembro de 2026


Ao assistir "O Bosque Selvagem" não espere uma história de contos de fadas convencional ou algo semelhante ao inesquecível "Coraline e o Mundo Secreto" (2009). A grandiosa animação em stop-motion de 2026, produzida pelo Estúdio Laika e dirigida por Travis Knight, entrega fantasia bastante madura, assim como os diálogos. Em "O Bosque Selvagem" tudo começa, de fato, a partir do momento em que a jovem Prue McKeel adentra a floresta, estando o colega tímido e medroso Curtis logo atrás.

Nos primeiros minutos, os pais da garota são apresentados no papel de zelosos e incentivadores de uma boa leitura. Contudo, é preciso seguir as ordens de não levar o pequeno Mac McKeel porta a fora. Eis que a garota não obedece e, após viver horas de diversão numa bicicleta puxando um carrinho com o garotinho, Prue decide dar uma pausa no parquinho da região, mas um bando de corvos rapta o menininho. Assim, ela embarca numa aventura imprevisível na floresta proibida e encantada (nos arredores de Portland).

Com direito a confrontos estilo a saga de "O Senhor dos Anéis", "O Bosque Selvagem" que levou 16 anos para a conclusão é indiscutivelmente um épico da animação que trabalha temas complicados como luto, violência, perda e dilemas morais profundos (impulsionados pela dor e pela ambição da personagem da Rainha Viúva Alexandra, dublada por Carey Mulligan).

A produção que soma 2 horas e 10 minutos de duração e repleta de subtramas, utilizou de 233 a 236 bonecos diferentes, de tamanhos variando desde a ratinha Septima com 4,1 cm até a personagem General (dublada por Angela Basset) com 86 cm. Sendo que cerca de 142.030 rostos substituíveis impressos em 3D foram trocados quadro a quadro (24 rostos por segundo de filme) para garantir expressões faciais fluidas. 

O resultado na telona de cinema é uma obra-prima baseada no livro homônimo infanto juvenil de Colin Meloy e ilustrado por Carson Ellis, publicado originalmente em 2011. Vale a pena conferir o longa que não é recomendado para menores de 14 anos!  


Filme: O Bosque Selvagem. Título Original: Wildwood. Direção: Travis Knight. Roteiro: Chris Butler (adaptado dos livros de Colin Meloy e Carson Ellis). Produção: LAIKA. Gênero: Animação, Aventura, Família, Fantasia Sombria. Duração: 130 minutos (2h 10min). Distribuição no Brasil: Imagem Filmes. Elenco de Voz Original: Peyton Elizabeth Lee (Prue McKeel), Jacob Tremblay (Curtis), Mahershala Ali, Angela Bassett. Data de Lançamento no Brasil: 29 de outubro de 2026. Sinopse: Uma adolescente inicia uma missão desesperada de resgate em uma floresta encantada depois que seu irmãozinho é raptado por um bando de corvos. Acompanhada por um colega de classe azarado, ela arrisca tudo ao navegar por um mundo cheio de bandidos, animais falantes e figuras poderosas. 

Trailer de "O Bosque Selvagem"



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Cartaz de "Street Fighter"

Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em novembro de 2026


O novo longa de ação e aventura produzido para o clássico dos jogos de fliperama de mesmo nome, "Street Fighter", é um recomeço cinematográfico para a franquia. A produção com Andrew Koji, Noah Centineo e Callina Liang, nitidamente eleva o nível de seus antecessores, "Street Fighter - A Última Batalha" (1994) e do spin-off não canônico de 2009, "Street Fighter: A Lenda de Chun-Li". 

O roteiro assinado por T.J. Fixman e Kitao Sakurai (com colaborações creditadas ou apontadas em versões de desenvolvimento também por Dalan Musson), agrada aos fãs, mas, ao público em geral, deixa a sensação de que poderia ter sido muito melhor. Não pelo uso do bom CGI, mas pelo atropelamento em que todo o enredo é apresentado. No entanto, é bom destacar que entrega embates memoráveis, seja o do Ryu em meio a névoa da sauna ou quando Ken finaliza o confronto no estilo do jogo.

Ambientado nos anos 90, o filme dirigido por Kitao Sakurai com duração de 1 hora e 59 minutos traz diversos personagens importantes da criação da CAPCOM (multinational desenvolvedora e publicadora japonesa de jogos eletrônicos), mas foca na tríade Ryu (Andrew Koji, de "Trem-Bala"), Ken Masters (Noah Centineo, de "Para Todos os Garotos Que Já Amei", "Adão Negro") e Chun-Li (Callina Liang, de "Presença"). Para tanto, apresenta os parceiros, quase irmãos Ryu e Ken que passam anos afastados numa disputa pessoal e de orgulho sobre o passado. 

Longe das lutas, Ryu tenta viver discretamente com as vendas de seu lámen num carrinho decadente de rua. Em tempo, nem mesmo um gatinho esfomeado é capaz de degustar tal iguaria. A derrocada de Ryu até remete a de Johnny Lawrence, na série "Cobra Kai", uma vez que Ken tenta sobreviver expondo-se nos holofotes televisivos quebrando carros. O que faz lembrar do personagem Johnny Cage (Karl Urban), do recente "Mortal Kombat II", mas sem a mesma qualidade e nível de entretenimento.

Eis que o tempo chega para o loiro fortão que também tem a figura esquecida pela grande massa. Por outro lado, Ken mantém ao lado o fiel parceiro Dan Hibiki (Andrew Schulz). Contudo, os rumos das vidas de Ken e Ryu voltam a serem entrelaçados por obra de Chun-Li, movida numa tarefa sombria de M. Bison (David Dastmalchian, de "Entrevista com o Demônio").

"Street Fighter" entrega uma trama confusa em meio a tantos personagens que circundam o trio principal, desde Dhalsim (Vidyut Jammwal, de "Jungle - Protegendo a Selva"), Balrog (Curtis "50 Cent" Jackson, a Cammy (Mel Jarnson, "A Fera"), cabendo duas aparições de Blanka (Jason Momoa, "Aquaman"). Ao pecar por excesso, com até dois vilões, não apresenta o arco dos personagens e acaba desperdiçando sequência importantes, como o torneio oficial que em meio a tantos outros confrontos fica em segundo plano. 

Contudo, "Street Fighter" deixa clara a busca de entreter o público saudosista do jogo. Sem se levar tão a sério, o longa tem como ponto alto os flashbacks em estilo anime, entregando todo o poder dos embates que faltaram em algumas cenas em live-action. Para quem busca diversão, a trama do famoso golpe Hadouken é uma boa pedida e promete sequência, com direito a cena pós-crédito.

Filme: Street Fighter. Título original: Street Fighter. Gênero: Ação, Artes Marciais, Comédia. Duração: 1h 59min (119 minutos). Direção: Kitao Sakurai. Roteiro: T.J. Fixman, Dalan Musson e Kitao Sakurai. Produção: Legendary Pictures, Capcom. Distribuição: Paramount Pictures. País de origem: Estados Unidos / Japão. Elenco Principal: Andrew Koji (Ryu), Noah Centineo (Ken Masters), Callina Liang (Chun-Li), David Dastmalchian (M. Bison), Cody Rhodes (Guile), Jason Momoa (Blanka / Jimmy), Roman Reigns (Akuma), 50 Cent (Balrog). Ano de lançamento: 2026 (estreia no Brasil em 15 de outubro de 2026). Sinopse: Ambientado em 1993, a história acompanha os amigos de infância e artistas marciais Ryu e Ken Masters, que estão afastados há anos e são recrutados pela misteriosa Chun-Li para competir no World Warrior Tournament (Torneio dos Guerreiros Mundiais). Ao se prepararem para o combate, eles descobrem uma conspiração global sombria orquestrada pelo ditador M. Bison, precisando confrontar o passado para sobreviver.

Trailer de "Street Fighter"





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quarta-feira, 4 de novembro de 2026

.: “Duna” desafia David Lynch com ficção científica grandiosa e estranha


Produção de 1984 tenta condensar o universo de Frank Herbert em 137 minutos e acaba encontrando sua força justamente nas imagens, nos figurinos e na atmosfera psicodélica

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Antes de Denis Villeneuve transformar “Duna” em uma das grandes experiências cinematográficas contemporâneas, David Lynch já havia encarado a tarefa de levar o universo criado por Frank Herbert ao cinema. O resultado, lançado em 1984, continua provocando uma reação curiosa: é perfeitamente possível reconhecer os problemas do filme e, ainda assim, continuar fascinado por ele. 

“Duna”, que estreia no streaming Belas Artes À La Carte, acompanha Paul Atreides (Kyle MacLachlan), jovem integrante de uma poderosa família nobre que se muda para Arrakis, planeta desértico responsável pela produção da especiaria Melange, substância fundamental para a expansão da humanidade pelo universo. O controle de Arrakis, portanto, significa controlar uma das maiores fontes de poder daquele futuro marcado por disputas políticas, guerras e intrigas.

A situação muda radicalmente quando os Atreides são traídos. Paul precisa sobreviver ao deserto, aproximar-se dos Fremen e compreender as visões que apontam para um destino muito maior do que ele próprio imaginava. No papel, uma aventura espacial de proporções gigantescas. Na prática, um dos projetos mais espinhosos da carreira de Lynch. O diretor passou cerca de três anos e meio trabalhando em “Duna”, depois de recusar a oportunidade de dirigir “O Retorno de Jedi”. Antes dele, Ridley Scott havia demonstrado interesse pelo projeto, mas acabou deixando a produção. Lynch assumiu direção e roteiro e tentou colocar no filme uma quantidade impressionante de informações do romance de Herbert.

Com uma história extremamente complexa, cheia de casas nobres, planetas, religiões, disputas políticas, profecias e termos próprios, “Duna” precisava de espaço. A versão cinematográfica, porém, chegou aos cinemas com 137 minutos. O corte original era consideravelmente maior, mas a interferência do estúdio reduziu a duração e, junto com ela, parte da capacidade do filme de desenvolver personagens, relações e acontecimentos. O resultado é uma narrativa que muitas vezes parece correr para explicar o que deveria ter tempo para apresentar. 

Vozes em off anunciam pensamentos, diálogos despejam informações e personagens aparecem com pouco espaço para ganhar profundidade. Para quem nunca leu o livro, acompanhar aquela quantidade de nomes e conceitos pode ser uma espécie de prova de resistência interplanetária. Existe ainda um detalhe curioso: Lynch não parece especialmente interessado em tornar aquele universo confortável para o espectador. A versão lynchiana de "Duna" tem uma aparência própria, frequentemente estranha, exagerada e psicodélica. A direção de arte e os figurinos carregam uma personalidade que continua chamando atenção décadas depois. Os cenários têm peso, textura e extravagância. Os trajes dos personagens parecem pertencer a uma civilização que passou séculos acumulando referências culturais de diferentes mundos e decidiu colocar tudo no mesmo guarda-roupa.

Os efeitos visuais, naturalmente, envelheceram. Algumas soluções parecem artesanais, outras revelam sem cerimônia as limitações técnicas da época. Ainda assim, existe uma dimensão tátil nos efeitos práticos e nas miniaturas que ajuda a explicar por que “Duna” continua despertando carinho entre parte dos admiradores da ficção científica. Os gigantescos vermes de areia de Arrakis são um bom exemplo. Vistos em uma tela pequena, determinados efeitos podem parecer frágeis. Em uma projeção de grande escala, porém, a dimensão física das criaturas ganha outra força. A experiência também favorece a fotografia, os cenários e o desenho de produção, elementos que sustentam boa parte do encanto do filme.

A trilha sonora de Toto, com participação de Brian Eno, é outro dos pontos fortes. O som ajuda a construir uma atmosfera grandiosa e peculiar, especialmente nas passagens envolvendo Arrakis e a Guilda Espacial. É uma música que, mesmo separada das imagens, continua capaz de evocar imediatamente o universo de Lynch. O elenco também merece atenção. Kyle MacLachlan interpreta Paul Atreides em seu primeiro grande papel no cinema e iniciaria ali uma parceria fundamental com Lynch. Francesca Annis, Jürgen Prochnow, Sean Young, Virginia Madsen, Max von Sydow, Patrick Stewart e Sting completam uma escalação que hoje parece quase inacreditável.

Patrick Stewart surge como Gurney Halleck em um dos detalhes mais curiosos da produção: carregando um pug durante uma batalha. É uma imagem tão improvável que parece ter sido inventada por alguém depois de assistir ao filme, mas está lá. O músico Sting, por sua vez, interpreta Feyd-Rautha Harkonnen e protagoniza uma das cenas mais lembradas da produção. Ele quase apareceu completamente nu durante o famoso banho de vapor, mas o estúdio mudou de ideia pouco antes das filmagens. O figurino usado na sequência acabou sendo produzido às pressas.

Os bastidores também foram pouco amigáveis. As filmagens no México provocaram problemas gastrointestinais em integrantes do elenco e da equipe. Para evitar novos contratempos, a produção construiu uma grande cafeteria para concentrar a alimentação e chegou a importar produtos dos Estados Unidos. Os trajes da Guilda Espacial têm outra história peculiar. Segundo os relatos reunidos sobre a produção, algumas peças foram encontradas em um antigo quartel de bombeiros abandonado e originalmente eram utilizadas como sacos para cadáveres. A equipe reaproveitou o material sem informar aos atores sua procedência. 

A recepção de “Duna” foi bastante dividida. Parte da crítica e dos fãs considerou a adaptação confusa, excessivamente comprimida e distante do espírito do romance. Outros enxergaram na personalidade visual e na estranheza de Lynch os elementos que fazem a produção permanecer interessante. Essa divisão continua décadas depois. Há quem considere o filme um dos grandes tropeços da carreira do diretor. Há também quem o veja como uma experiência singular, imperfeita e fascinante, especialmente por aquilo que ousa fazer com o material de Herbert.

O próprio Lynch ficou profundamente insatisfeito com a versão final. Ele chegou a pedir que seu nome fosse retirado da versão estendida produzida para a televisão americana, utilizando o pseudônimo Alan Smithee na direção e Judas Booth no roteiro. O gesto dizia muito sobre sua relação com um projeto que havia consumido anos de trabalho. 

“Duna” é melhor compreendido como documento de uma tentativa impossível: condensar um romance monumental em pouco mais de duas horas e, ao mesmo tempo, preservar a estranheza de um cineasta como David Lynch. O resultado é irregular, às vezes desajeitado, frequentemente exagerado e, em alguns momentos, involuntariamente engraçado. Também é visualmente inventivo, musicalmente marcante e cheio de escolhas que permanecem na memória. É um filme que pode irritar quem espera uma adaptação fiel e encantar quem gosta de descobrir alguma imagem inesperada, um figurino absurdo, uma criatura gigantesca ou Patrick Stewart entrando em batalha com um pug. 


Ficha técnica
“Duna” | “Dune” (título original)
Gênero: Ficção científica, aventura. Duração: 137 minutos. Direção e roteiro: David Lynch. Baseado no romance “Duna”, de Frank Herbert. Produção: Raffaella De Laurentiis. Produção executiva: Dino De Laurentiis. Elenco: Kyle MacLachlan, Francesca Annis, Jürgen Prochnow, Kenneth McMillan, Sean Young, Virginia Madsen, Sting, Max von Sydow, Patrick Stewart, Brad Dourif, José Ferrer, Linda Hunt, Silvana Mangano, Freddie Jones, Richard Jordan, Everett McGill, Siân Phillips, Paul L. Smith, Alicia Witt, Dean Stockwell, Jack Nance, entre outros. Música: Brian Eno e Toto. Cinematografia: Freddie Francis. Direção de arte: Pier Luigi Basile. Figurino: Bob Ringwood. Edição: Antony Gibbs. Companhia produtora: De Laurentiis. Distribuição nos Estados Unidos: Universal Pictures. Lançamento nos Estados Unidos: 14 de dezembro de 1984. Idiomas: Inglês e italiano. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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terça-feira, 3 de novembro de 2026

.: Documentário impressionante registra vida de Fatma Hassouna sob as bombas


Documentário de Sepideh Farsi acompanha por videochamadas a rotina de uma fotojornalista palestina em Gaza e ganha outro significado após a morte da jovem

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Com a impossibilidade de entrar em Gaza, a cineasta iraniana Sepideh Farsi encontrou no celular uma maneira de se aproximar de quem vivia sob os bombardeios. Foi assim que conheceu Fatma Hassouna, jovem fotojornalista palestina que passou a registrar para Farsi o cotidiano de uma população submetida à guerra. Durante mais de 200 dias, as duas mantiveram contato por videochamadas, trocando imagens, fotografias, mensagens e impressões sobre uma realidade marcada pela destruição.

O resultado dessa relação está em “Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe”, documentário que chega à plataforma Reserva Imovision. A produção acompanha Fatma entre conversas pela internet e imagens que ela própria registrava em Gaza, enquanto Farsi, do outro lado da tela, tentava manter aberta uma ligação com uma jovem que se tornou os olhos dela naquela região. O formato, aparentemente limitado pelas telas de celulares e pela precariedade das conexões, acaba incorporando ao filme a própria distância física entre as duas.

Fatma fala sobre fotografia, família, alimentação, sonhos e sobre a vontade de conhecer outros lugares. Ao mesmo tempo, relata os efeitos dos ataques que atingem a região e fotografa os escombros ao redor de onde vive. O filme alterna a convivência entre a brutalidade da guerra e os momentos cotidianos das conversas e aproxima o público da experiência de Fatma por meio de assuntos que vão dos bombardeios e das mortes de familiares a poesia, café, roupas e esperanças pessoais.

A câmera de Farsi também permanece consciente da própria posição dela. Muitas imagens são feitas a partir da tela de outro celular, enquanto televisores ligados ao fundo exibem notícias do conflito. A precariedade do sinal, os congelamentos da imagem e o áudio irregular passam a integrar a experiência de assistir ao documentário. Em uma das conversas, quando Farsi manifesta a angústia por não conseguir ajudar a amiga, Fatma responde que o simples fato de ela estar ali, ouvindo, já significa alguma coisa. 

A trajetória de Farsi também ajuda a compreender a proximidade entre as duas. Nascida no Irã e radicada em Paris, a cineasta deixou seu país ainda jovem e construiu uma carreira que inclui documentários, ficção e animação. A filmografia dela é marcada pelo interesse por conflitos políticos e pelas experiências de pessoas submetidas a situações de violência e deslocamento.

O filme foi selecionado para a mostra ACID do Festival de Cannes de 2025. A notícia chegou a Fatma em 15 de abril daquele ano. No dia seguinte, ela foi morta, aos 25 anos, junto de familiares, em um ataque israelense contra sua casa, segundo a produtora do filme e o Instituto Moreira Salles. A circunstância altera profundamente a percepção do material registrado durante os meses anteriores: aquelas conversas passam a constituir também o registro de uma vida que foi interrompida.

A morte de Fatma aconteceu antes da estreia em Cannes, mas o documentário preserva sua presença em momentos que vão muito além da condição de vítima de uma guerra. Ela aparece como fotógrafa, jovem apaixonada pelo que fazia, mulher com planos para o futuro e alguém que ainda encontrava espaço para sorrir diante da câmera. É um filme pensado como retrato de uma jovem que também passa a carregar a dimensão de uma despedida.

A escolha estética de Sepideh Farsi dispensa uma estrutura convencional de reportagem. As imagens produzidas por Fatma, os registros feitos pela diretora e as chamadas virtuais constroem um documento marcado pela intimidade. É uma janela para a vida em Gaza durante os bombardeios, realizada a partir das conversas entre as duas. O filme também ganhou reconhecimento em festivais internacionais. Entre as premiações estão o prêmio de Melhor Documentário no Arab Film Festival e o Gold Hugo de Melhor Documentário no Chicago International Film Festival, além de outras seleções e indicações.

“Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe” mantém aberta a conversa entre Sepideh Farsi e Fatma Hassouna. O celular, que poderia ser apenas uma limitação diante da distância, torna-se o instrumento que permite preservar a voz, o rosto e as imagens de uma jovem fotojornalista que continuou fotografando enquanto tentava sobreviver em Gaza.


Ficha técnica
“Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe” | “Put Your Soul on Your Hand and Walk” (título original) | “Com a Alma na Mão, Caminha” (título em Portugal)
Gênero: documentário. Duração: 110 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2025. Data de lançamento: 15 de maio de 2025, no Festival de Cannes; lançamento comercial francês em 24 de setembro de 2025. Idioma: árabe, francês e inglês. Direção e roteiro: Sepideh Farsi. Elenco: Fatma Hassouna e Sepideh Farsi. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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sábado, 31 de outubro de 2026

.: Crítica: "As Ovelhas Detetives" é inteligente e divertido

Cartaz de "As  Ovelhas Detetives"

Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em outubro de 2026


A comédia mesclada com mistério e CGI,  "As  Ovelhas Detetives", dirigida por Kyle Balda e roteirizada por Craig Mazin, baseada no romance de Leonie Swann, pode causar estranheza, mas logo no início, a produção cinematográfica faz o público embarcar na trama em que ovelhas após tanto ouvirem romances policiais nas leituras de seu pastor George Hardy (Hugh Jackman), acabam colocando em prática modos para desvendar segredos sombrios.

Facilmente inserido no estilo "cozy mystery" (mistério aconchegante), tal qual "Entre Facas e Segredos". De enredo estilo Agatha Christie, "As  Ovelhas Detetives" trata temas profundos como luto, mortalidade e a forma como os animais lidam com a perda. Sem deixar o brilho da forma de ver a vida, a produção ainda entrega muito bom humor, além de sequências de fofurice. 

Para registrar um caso misterioso surge o repórter Elliot Matthews (Nicholas Galitzine) que acaba tentando desvendar os meandros de um crime que atinge diretamente as ovelhas de George. Há no elenco a ricaça Lydia Harbottle (Emma Thompson), além de Patrick Stewart que dá voz ao carneiro Sir Ritchfield (conhecido na versão brasileira como Sr. Ranheta, um dos carneiros mais velhos, experientes e conservadores do rebanho. 

Inteligente e divertido, o longa apresenta uma figura de encanto e pureza, um rebanho de ovelhas quando algumas vão além de seguir a boiada, sem questionar ordens e carecer de raciocínio próprio. "As  Ovelhas Detetives" marca um momento muito significativo sendo o último filme lançado por Patrick Stewart ainda em vida, poucos meses antes de sua morte aos 86 anos, em 28 de outubro de 2026.

Homenagem da Google para Patrick Stewart

Trailer de "As  Ovelhas Detetives"



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segunda-feira, 26 de outubro de 2026

.: “Na Hora da Zona Morta” faz de dom paranormal um inquietante dilema


Suspense de David Cronenberg, baseado no romance de Stephen King, chega ao Belas Artes À La Carte com uma das atuações mais marcantes da carreira de Christopher Walken

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Christopher Walken interpreta um homem que acorda depois de cinco anos em coma e descobre que perdeu praticamente tudo o que dava sentido à antiga vida. A carreira de professor ficou para trás, a mulher que amava seguiu adiante e o mundo continuou funcionando durante o longo período em que ele permaneceu inconsciente. Em compensação, o personagem dele, Johnny Smith, ganhou um poder que ninguém em sã consciência pediria de presente: ao tocar em alguém, consegue enxergar acontecimentos do passado e possíveis acontecimentos do futuro. É a premissa de “Na Hora da Zona Morta”, produção de 1983 dirigida por David Cronenberg e baseada no romance homônimo de Stephen King, que estreia no catálogo do streaming Belas Artes À La Carte.

A situação poderia facilmente descambar para uma aventura sobrenatural cheia de truques, sustos e explicações convenientes. Cronenberg prefere outro caminho. O extraordinário aparece integrado à rotina de Johnny, quase como uma extensão incômoda de sua existência. O personagem não ganha uma capa, tampouco passa a posar de salvador da humanidade. Continua sendo um homem abatido, confuso e ressentido, tentando descobrir o que fazer com aquilo que lhe aconteceu.

As premonições têm um efeito físico sobre ele, mas o que realmente pesa é saber coisas que os outros desconhecem e carregar informações que não podem ser simplesmente esquecidas. Uma das características mais interessantes da atuação de Walken está nessa mistura de fragilidade e desconforto, sem transformar Johnny em um herói convencional. A escolha do protagonista quase foi outra. Stephen King queria Bill Murray para interpretar Johnny Smith, mas o papel acabou nas mãos de Walken. Hoje, a escalação parece tão perfeitamente encaixada que é difícil imaginar o filme com outra pessoa. 

A produção ainda reúne Brooke Adams, Tom Skerritt, Herbert Lom, Anthony Zerbe, Colleen Dewhurst e Martin Sheen, este último especialmente memorável como Greg Stillson, um político ambicioso que cruza o caminho de Johnny. A Paramount confirma o elenco principal e credita Jeffrey Boam pelo roteiro, baseado no romance de King. O roteiro de Boam organiza a narrativa em episódios que acompanham diferentes situações provocadas pelo dom de Johnny. Ele ajuda pessoas, interfere em acontecimentos e tenta compreender os limites de sua própria capacidade. Entre esses momentos está a colaboração com o xerife Bannerman, vivido por Tom Skerritt, numa investigação envolvendo um assassino de mulheres. 

A estrutura poderia resultar em um filme fragmentado, mas Cronenberg mantém o fio emocional do protagonista enquanto conduz a história até o encontro decisivo com Stillson. O aspecto político ganha força quando Johnny toca a mão de Stillson e vislumbra um futuro de consequências catastróficas. A partir daí, a pergunta deixa de ser apenas o que fazer com uma capacidade paranormal e passa a envolver uma questão bem mais incômoda: até onde alguém pode interferir no destino de outra pessoa quando conhece aquilo que está por vir?

Cronenberg vinha de filmes como “A Ninhada” e “Videodrome”, obras fortemente associadas ao horror corporal e às deformações físicas. Em “Na Hora da Zona Morta”, o diretor trabalha de maneira mais contida. O próprio filme parece interessado em explorar o medo por dentro da cabeça de Johnny, deixando o fantástico conviver com uma atmosfera cotidiana. A percepção das habilidades paranormais também varia visualmente ao longo da narrativa, em vez de obedecer a um único recurso repetido. Essa escolha ajuda a manter as premonições estranhas sem transformá-las em mero espetáculo.

A paisagem de inverno contribui para a sensação de isolamento. Johnny está cercado por neve, casas, pequenas comunidades e pessoas aparentemente comuns, mas carrega informações que o afastam cada vez mais delas. Uma análise publicada pela Cinemateca Portuguesa sobre a obra de Cronenberg destaca justamente o caráter psicológico do filme e sua ambientação fora dos grandes centros urbanos.

Os bastidores também guardam algumas histórias curiosas. Para conseguir reações involuntárias de Walken durante as premonições, Cronenberg disparava, fora do enquadramento, um revólver Magnum .357 carregado com munição de festim. A ideia teria partido do próprio ator. O recurso ajudava a provocar os pequenos espasmos que o diretor queria registrar diante da câmera. 

Outra situação curiosa envolveu um boneco de “E.T. - O Extraterrestre”. Na primeira versão da cena em que Johnny presencia uma premonição envolvendo o quarto de uma menina, o brinquedo aparecia em uma prateleira. Como o personagem pertencia à Universal, a produção precisou refazer a sequência depois que o estúdio ameaçou tomar medidas legais. O boneco, definitivamente, não tinha poderes paranormais, mas quase conseguiu interferir no futuro do filme.

A relação com a literatura também aparece em uma brincadeira que ganhou uma segunda vida anos depois. Antes do acidente, Johnny orienta os alunos a lerem “The Legend of Sleepy Hollow”, de Washington Irving. Em 1999, Christopher Walken interpretaria o Cavaleiro Sem Cabeça em “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça”, de Tim Burton. A coincidência transformou uma referência aparentemente casual em uma daquelas pequenas conexões que o cinema gosta de guardar para quem presta atenção.

A história de Johnny também tem uma curiosa ligação com Peter Hurkos, holandês que ficou conhecido por afirmar possuir poderes paranormais depois de sofrer uma queda e bater a cabeça. Hurkos dizia conseguir obter informações sobre outras pessoas por meio do toque, ideia que guarda evidente proximidade com a habilidade apresentada no filme.

Outro dado interessante está na própria trajetória de Cronenberg. “Na Hora da Zona Morta” foi seu primeiro grande sucesso de público, segundo a Cinemateca Portuguesa, e recebeu reconhecimento em festivais e premiações. O filme ganhou o Saturn Award de Melhor Filme de Terror em 1984, enquanto Walken, Cronenberg e Jeffrey Boam foram indicados nas categorias de atuação, direção e roteiro. Cronenberg também recebeu prêmios no Festival de Cinema Fantástico de Avoriaz, e a fotografia de Mark Irwin foi premiada pela Canadian Society of Cinematographers.

O longa-metragem tem ainda uma característica que ajuda a explicar sua permanência: o poder de Johnny nunca elimina sua condição humana. Ele continua sofrendo, hesitando, perdendo e fazendo escolhas cujas consequências não consegue controlar completamente. O sobrenatural serve, portanto, para apertar ainda mais o parafuso de uma história sobre culpa, destino, perda e responsabilidade. Com “Na Hora da Zona Morta”, Cronenberg encontrou uma maneira particularmente eficiente de adaptar Stephen King sem depender do excesso. O horror está naquilo que Johnny descobre quando toca alguém, mas também naquilo que ele gostaria de nunca ter visto.


Ficha técnica
“Na Hora da Zona Morta” | “The Dead Zone” (título original) | “Zona de Perigo” (título em Portugal).
Gênero: suspense, terror, ficção científica e drama psicológico. Duração: 103 minutos. Classificação indicativa: 14 anos no Brasil; M/16 em Portugal. Ano de produção: 1983. Data de lançamento: 21 de outubro de 1983 nos Estados Unidos. Idioma: inglês. Direção: David Cronenberg. Roteiro: Jeffrey Boam, baseado no romance de Stephen King. Elenco: Christopher Walken, Brooke Adams, Martin Sheen, Tom Skerritt, Herbert Lom, Anthony Zerbe, Colleen Dewhurst, Nicholas Campbell, Sean Sullivan e Jackie Burroughs. Distribuição no Brasil: Paramount Pictures. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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.: “Prazeres Desconhecidos”: a juventude perdida na China em transformação


Longa-metragem de Jia Zhangke acompanha dois jovens desempregados em Datong e registra, com humor seco e olhar documental, os desejos, frustrações e contradições de uma geração diante da modernização chinesa

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Dois jovens desempregados passam os dias andando de moto, jogando conversa fora, assistindo televisão e tentando descobrir o que fazer da própria vida. Em meio a uma China que acelera rumo à modernização, Xiao Ji (Wu Qiong) e Bin Bin (Zhao Weiwei) parecem ter ficado para trás. É desse aparente vazio que Jia Zhangke constrói “Prazeres Desconhecidos”, longa-metragem que chega à plataforma de streaming Reserva Imovision.

Terceiro longa dirigido pelo cineasta chinês, o filme acompanha os dois amigos em Datong, cidade industrial da província de Shanxi, durante 2001. O cenário ajuda a contar a história tanto quanto os personagens: prédios degradados, ruas em obras, fábricas, motocicletas, bares, karaokês e televisores ligados registram uma sociedade que começa a experimentar novas possibilidades econômicas e culturais. 

Xiao Ji se interessa por Qiao Qiao (Zhao Tao), cantora e dançarina que trabalha como garota-propaganda de uma empresa de bebidas alcoólicas. O problema atende pelo nome de Qiao San (Li Zhubin), namorado da moça, um sujeito envolvido com atividades criminosas e pouco disposto a aceitar a aproximação do rapaz. Bin Bin, por sua vez, vive uma relação cada vez mais distante com Yuan Yuan (Zhou Qingfeng), jovem que pretende deixar Datong para estudar comércio internacional em Pequim.

Enquanto os dois amigos perambulam pela cidade, a televisão anuncia acontecimentos que parecem pertencer a outro universo: a entrada da China na Organização Mundial do Comércio, a candidatura de Pequim aos Jogos Olímpicos de 2008, acontecimentos políticos e episódios de violência. A vida particular dos personagens segue em outra velocidade, quase como se eles assistissem ao próprio país avançar pela tela sem saber muito bem onde se encaixar. O filme registra uma geração influenciada pela televisão, pela cultura pop ocidental e pelo desejo de consumo, mas que ainda vive cercada por estruturas sociais e econômicas bastante precárias. 

O título original, “Ren Xiao Yao”, remete a um conceito associado ao filósofo taoista Zhuangzi e pode ser compreendido como uma ideia de liberdade diante das restrições. A expressão também aparece ligada a uma canção pop bastante conhecida entre os jovens chineses naquele período. O curioso é que a busca por liberdade dos personagens frequentemente esbarra em dívidas, desemprego, relacionamentos complicados, violência e falta de perspectivas. O prazer anunciado pelo título está sempre por perto, mas raramente ao alcance deles.

A relação com a cultura norte-americana aparece de maneira divertida e, ao mesmo tempo, reveladora. “Pulp Fiction”, de Quentin Tarantino, é citado pelos personagens, enquanto filmes, músicas, televisão e produtos estrangeiros compõem o imaginário de Xiao Ji e Bin Bin. Jia não trata essas referências como simples decoração: elas ajudam a mostrar como uma juventude de uma cidade provincial passa a construir seus desejos a partir de imagens vindas de um mundo muito maior.

A produção também guarda uma particularidade importante. “Prazeres Desconhecidos” foi o primeiro longa de Jia Zhangke filmado em vídeo digital. Segundo informações de produção reunidas pelo próprio diretor, a opção estava ligada às limitações de orçamento e tempo. O filme foi rodado em apenas 19 dias, e a câmera digital permitiu maior mobilidade para acompanhar as ruas de Datong.

A escolha estética combina com a história. Jia observa os personagens a uma certa distância, deixa as situações se desenvolverem e evita conduzir o espectador pela mão. Em vez de transformar cada conflito em grande acontecimento dramático, acompanha o cotidiano de pessoas que parecem não saber muito bem para onde ir. “Prazeres Desconhecidos” também encerra uma fase da carreira de Jia Zhangke. O longa é frequentemente associado a uma trilogia informal formada por “Xiao Wu”, “Plataforma” e este filme, dedicada a observar diferentes momentos de uma China em processo acelerado de mudança. A partir de “The World”, de 2004, o diretor passou a trabalhar dentro do sistema oficial de produção cinematográfica chinês.


Ficha técnica
“Prazeres Desconhecidos” | “Ren Xiao Vao” (título original)
Gênero: comédia dramática. Duração: 113 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2002. Data de lançamento no Brasil: 23 de outubro de 2026. Idioma: mandarim. Direção: Jia Zhangke. Roteiro: Jia Zhangke. Elenco: Zhao Weiwei, Wu Qiong, Zhao Tao, Zhou Qingfeng, Wang Hongwei, Bai Ru, Liu Xi'an e Li Zhubin. Distribuição no Brasil: Imovision, pela plataforma Reserva Imovision. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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