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sexta-feira, 23 de outubro de 2026

.: Confusões familiares e aposentadoria dão o tom de “Querendo ou Não"


Comédia italiana de Gianni Di Gregorio chega à Reserva Imovision depois de passar pelo Festival de Veneza e observa, com humor delicado, os incômodos e afetos que acompanham a vida em família

Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Um professor aposentado na casa dos 70 anos finalmente conquistou aquilo que imaginava ser uma espécie de prêmio pela passagem dos anos: uma vida organizada segundo os próprios interesses. Em “Querendo ou Não”, que estreia na plataforma de streaming Reserva Imovision, o ator e diretor Gianni Di Gregorio interpreta esse homem que encontrou prazer na rotina tranquila, entre amigos, leituras, escritos que avançam devagar e uma existência sem grandes sobressaltos. O problema é que família, como se sabe, costuma ter pouca consideração pelos planejamentos alheios.

A tranquilidade do professor muda quando sua filha Sofia (Greta Scarano) retorna da Alemanha depois de descobrir a traição do marido, Helmut (Tom Wlaschiha). Ela chega acompanhada dos dois filhos, Olga e Tommaso, e instala na casa do pai uma confusão que altera seus hábitos, sua privacidade e até a maneira como ele passa a enxergar os próprios dias. Dirigido por Di Gregorio, que também assina o roteiro ao lado de Marco Pettenello, o filme acompanha esse rearranjo familiar com humor discreto. 

A situação poderia facilmente escorregar para a comédia de conflitos domésticos, mas o cineasta prefere observar os personagens em suas pequenas contradições. O professor gosta da liberdade que tem, mas também se intromete na vida alheia quando lhe interessa. Sofia está fragilizada pela crise conjugal, mas nem por isso deixa de ser exigente. Os netos chegam como uma pequena força da natureza. Helmut, arrependido, tenta reconstruir a relação percorrendo um caminho bastante peculiar da Alemanha até Roma.

A premissa tem uma particularidade interessante: o homem que imaginava ter finalmente conquistado o direito de administrar o próprio tempo descobre que a aposentadoria, para os outros, pode significar exatamente o contrário. Quando Sofia lembra ao pai que ele é aposentado, a frase aparentemente banal carrega uma dose considerável de ironia. O trabalho confere uma espécie de legitimidade social aos compromissos, enquanto aquilo que alguém escolhe fazer por prazer pode ser tratado como tempo disponível para resolver problemas familiares.

Esse aspecto aproxima “Querendo ou Não” de uma tradição do cinema italiano interessada em encontrar humor nas pequenas engrenagens da convivência. Di Gregorio não precisa inventar grandes acontecimentos para movimentar a narrativa. A casa cheia, uma rotina interrompida, uma conversa atravessada ou a necessidade de dividir novamente espaços que pareciam definitivamente particulares já bastam para provocar situações engraçadas. O filme mantém essa atenção aos personagens comuns e aos pequenos embaraços da existência.

O romance também aparece nessa equação. O professor demonstra interesse por uma mulher e se permite flertar, lembrar que ainda existe desejo e imaginar uma possibilidade de relacionamento. A abordagem é discreta, sem transformar a velhice em sinônimo de ausência de interesse amoroso. Nesse ponto, o filme ganha uma conversa peculiar com outras produções recentes que colocam personagens mais velhos no centro de histórias de amor e desejo.Talvez exista, na comédia de Di Gregorio, alguma sabedoria nessa inconveniente matemática doméstica: certas coisas simplesmente chegam, ocupam espaço e nos obrigam a recalcular a rota.


Ficha técnica
“Querendo ou Não” | “Come Ti Muovi, Sbagli” (título original)
Gênero: comédia. Duração: 97 min. Classificação indicativa: 12 anos. Ano de produção: 2025. Data de lançamento no Brasil: 22 de outubro de 2026, na Reserva Imovision. Idiomas: italiano e alemão. Direção: Gianni Di Gregorio. Roteiro: Gianni Di Gregorio e Marco Pettenello. Elenco: Gianni Di Gregorio, Greta Scarano, Tom Wlaschiha, Iaia Forte, Anna Losano, Pietro Serpi e Alessandro Bedetti. Distribuição no Brasil: Imovision. Cenas pós-créditos: não identificadas nas fontes consultadas. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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.: Tiros, teatro e humor à moda Corbucci: “Que Faço no Meio de Uma Revolução?”


A comédia de Sergio Corbucci mistura western, aventura e sátira política ao acompanhar dois italianos que caem, contra a vontade, no meio da Revolução Mexicana

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Sergio Corbucci levou Vittorio Gassman e Paolo Villaggio para o México revolucionário em “Que Faço no Meio de Uma Revolução?”, comédia de 1972 que chega ao streaming pelo streaming Belas Artes À La Carte. O filme coloca lado a lado um ator de teatro cheio de artimanhas e um padre pouco disposto a aventuras, dupla que passa a sobreviver entre revolucionários, tropas federais, fuzilamentos, fugas e disfarces. O resultado é uma mistura deliberadamente amalucada de western, aventura e humor.

Gassman interpreta Guido Guidi, líder de uma companhia teatral em turnê pelo México. Villaggio é don Albino Moncalieri, religioso que acaba envolvido na mesma confusão. A dupla circula por um país em ebulição e, a cada tentativa de escapar da encrenca, parece encontrar outra situação ainda mais complicada. O filme acompanha os dois italianos enquanto são jogados de um lado para outro entre grupos revolucionários e forças federais, sempre com a ameaça de uma execução por perto.

Corbucci já havia mergulhado no México revolucionário em “O Mercenário” (1968) e “Vamos a Matar, Companheiros” (1970). Em “Que Faço no Meio de Uma Revolução?”, porém, o cineasta leva o seu western para um terreno muito mais próximo da farsa. A produção integra o ciclo dos chamados Zapata Westerns, subgênero do western italiano ambientado na Revolução Mexicana e frequentemente marcado por conflitos sociais e políticos.

O elenco reúne ainda Riccardo Garrone, Eduardo Fajardo, Leo Anchóriz, José Canalejas, Simón Arriaga, Rosanna Yanni, Carmen Pericolo, Víctor Israel e Lorenzo Robledo. O roteiro foi escrito por Corbucci ao lado de Massimo Franciosa e Sabatino Ciuffini, enquanto Alejandro Ulloa cuidou da fotografia e Eugenio Alabiso da montagem. A trilha sonora ficou a cargo de Ennio Morricone, colaborador frequente do cinema de gênero italiano.

Existe ainda uma história de bastidores digna de uma comédia de Corbucci. Segundo Paolo Villaggio, depois de cerca de três meses de filmagens, a equipe descobriu que um problema técnico havia impedido o registro das cenas. Praticamente tudo precisou ser refilmado. A façanha foi realizada em apenas 22 dias, numa espécie de corrida contra o prejuízo que combina bastante com a reputação caótica do projeto.

O título original, “Che c'entriamo Noi con la Rivoluzione?”, pode ser entendido literalmente como “O que Nós Temos a Ver com a Revolução?”. A pergunta resume a situação dos protagonistas, dois italianos que vão parar no centro de uma guerra que, inicialmente, pouco lhes dizia respeito. O próprio conceito também brinca com a tradição do western revolucionário italiano, gênero que Corbucci ajudou a consolidar durante os anos 1960 e 1970.

Ficha técnica
“Que Faço no Meio de Uma Revolução?” | “Che c'entriamo noi con la rivoluzione?” (título original) | “What Am I Doing in the Middle of the Revolution?” (título internacional).
Gênero: comédia, aventura, western. Duração: 103 minutos. Classificação indicativa: 10 anos (classificação registrada no lançamento brasileiro). Ano de produção: 1972. Data de lançamento: 19 de dezembro de 1972 (Itália). Idioma: italiano. Direção: Sergio Corbucci. Roteiro: Sergio Corbucci, Massimo Franciosa e Sabatino Ciuffini. Elenco: Vittorio Gassman, Paolo Villaggio, Riccardo Garrone, Eduardo Fajardo, Leo Anchóriz, Rosanna Yanni, José Canalejas, Simón Arriaga, Carmen Pericolo, Víctor Israel e Lorenzo Robledo. Distribuição no Brasil: Belas Artes à La Carte, em estreia no streaming. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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.: "Minha Melhor Amiga" é longa nacional divertido de fotografia impecável


Cartaz de "Minha Melhor Amiga"

Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em outubro de 2026


O longa nacional de comédia, "Minha Melhor Amiga", estrelado por Mônica Martelli e Ingrid Guimarães, entrega uma história empolgante e divertida sobre uma amizade real. Logo, a química entre Ingrid e Mônica na telona transborda a ponto de pegar o público pela mão e trazer para a trama sobre os dilemas das mulheres que já passaram dos 50 anos, desde o envelhecimento feminino, a síndrome do "ninho vazio", a autonomia feminina e a quebra da ideia de que a felicidade está ligada a um romance.

A intimidade genuína entre as atrizes reflete em Clara (Ingrid Guimarães, de "Perrengue Fashion", "Minha Irmã & Eu") e Julia (Mônica Martelli), o que contribui na aceitação do enredo simples da comédia carismática. Ainda que a trama não se aprofunde, é pertinente a abordagem de dilemas das mulheres quinquagenárias. Assim, a comédia leve, caótica e reconfortante, acontece em meio a uma fotografia solar e impecável. 

Enquanto faz o público rir, em "Minha Melhor Amiga" há espaço para uma delicada, mas emocionante homenagem ao ator Paulo Gustavo que faz referência a cena hilária de falar "sorry". A trama que coloca duas amigas viajando entre Portugal e Espanha reforça a importância da amizade feminina, reavalia o peso e desafios do envelhecimento, o mode de ver a liberdade, assim como o rumo de suas próprias vidas. Vale a pena conferir a produção que transborda o carisma da dupla de protagonistas!

Trailer


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quinta-feira, 22 de outubro de 2026

.: Crítica: "Digger" vai além da figura endinheirada para chegar ao teatro

Cartaz de "Digger"

Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em outubro de 2026


O homem mais poderoso do mundo provoca um desastre ambiental de proporções globais, ingressa numa missão intensa para reparar os danos causados e provar que é o salvador da humanidade. Eis "Digger", o longa do diretor vencedor do Oscar Alejandro G. Iñárritu ("O Regresso") em uma inédita parceria com Tom Cruise ("Top Gun: Maverick", "Missão Impossível 7").

A empreitada da dupla embora pareça trabalhar uma trama surreal, na verdade, flerta fortemente com a atualidade ao refletir sobre responsabilidade e impactos da ambição desenfreada, colocando em pauta crise climática, negacionismo e manipulação de informação. De fato, a vida no planeta Terra corre risco estando nas mãos dos mais poderosos fazendo o que bem entendem e desejam.

Contudo, a história de um reizinho bilionário, Digger Rockwell, que cruza com figuras influentes, como por exemplo, o presidente dos Estados Unidos, na tentativa de recuperar credibilidade, vai além. Logo, no drama épico da sátira política e climática sobre um magnata do petróleo que causa um desastre apocalíptico, surge uma trama paralela que enaltece o teatro. 

Desprendido de sua beleza, Tom Cruise foge de seus papéis de sucesso para viver Digger Rockwell e dá um show de atuação com próteses e uma caracterização pesada, enquanto que a fotografia de Emmanuel Lubezki complementa com precisão tudo que se vê em cada enquadramento impressionante, assim como a estética monumental e sombria que reflete a decadência do poder. Como não perceber os fundos estampados nos cenários e, ao retratar a degradação, com infiltrações e baldes na tentativa de melhorar o ambiente?

No elenco da produção ousada que se sustenta da atuação impecável de Tom Cruise ainda estão Sandra Hüller ("Anatomia de Uma Queda" e "Zona de Interesse"), Riz Ahmed ("Venom"), Sophie Wilde ("Fale Comigo", "O Portal Secreto"), Jesse Plemons ("Guerra Civil", "Bugonia"), Emma D'Arcy ("A Casa do Dragão") e John Goodman ("Os Flintstones: O Filme"). Vale a pena conferir!


"Digger" (Digger). Duração: 2h 09min. Gênero: ação, comédia. Direção: Alejandro González Iñárritu. Roteiro: Alejandro González Iñárritu, Sabina Berman. Elenco: Tom Cruise, Sandra Hüller, Riz Ahmed, John Goodman. Sinopse: Em uma corrida contra o tempo, ele precisa enfrentar as consequências de suas decisões antes que a crise saia completamente do controle e ameace o futuro do planeta. Nessa trajetória, o bilionário cruza o caminho de algumas das figuras mais influentes do mundo, incluindo o presidente dos Estados Unidos, enquanto tenta recuperar sua credibilidade. O filme mistura drama épico e reflete sobre responsabilidade e os impactos da ambição desenfreada em uma narrativa repleta de tensão.

Trailer de "Digger"


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quarta-feira, 21 de outubro de 2026

.: Resenha: "Cara-de-Barro" é excelente tormenta psicológica da nova fase DCU


Cartaz de "Cara-de-Barro"

Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em outubro de 2026


Um ator de Hollywood no ápice do sucesso, com indicação ao Oscar, no auge do egocentrismo, corresponde às investidas de Mia Torrez (Joana Ribeiro), namorada de um poderoso chefão do crime de Gotham City, Markos Szabo (David Dencik, "O Homem das Castanhas"), e tem como resultado, após uma noite de amor, um ataque sanguinolento que lhe dá um rosto talhado. Assim, Matt Hagen (Tom Rhys Harries, de "O Retorno") sai do homem comum, passa pelo anti-herói, vingando-se daqueles que lhe fizeram mal, até se tornar, de fato, o vilão “Cara-de-Barro” (Clayface), que dá nome ao longa de terror da DC, antagonista de Batman (promessa de confronto num filme futuro). 

Assim que o ator de Hollywood perde sua identidade, sem se reconhecer no espelho ou por aqueles que o cercam, Matt busca um tratamento experimental, esbarrando na Doutora Caitlyn Bates (Naomi Ackie, "I Wanna Dance With Somebody: A História de Whitney Houston" e "Mickey 17") que consegue reverter o aspecto monstruoso, porém nele também passa a habitar uma criatura de barro. Desta forma, acaba sendo estabelecida uma relação criador e criatura que costura uma história assustadora com bons sustos para o público.

A adaptação do ser desfigurado a mando do gângster local, surgiu originalmente nos quadrinhos em 1940, sendo historicamente um dos vilões mais clássicos e perigosos do Cavaleiro das Trevas, com direção de James Watkins ("Não Fale o Mal" e "A Mulher de Preto") e roteirizado por Mike Flanagan ("A Maldição da Mansão Bly" e "A Maldição da Residência Hill"), entrega terror, no estilo gore que consegue flertar, em partes, com o estilo de Sam Raimi ("Uma Noite Alucinante - A Morte do Demônio" e "Homem-Aranha"), porém mesmo expondo detalhes incômodos, acaba sendo um pouco mais recatado. Tal qual o próprio Raimi fez em "Doutor Estranho no Multiverso da Loucura", por exemplo.

Tendo uma excelente trilha sonora, incluindo a clássica "If You Leave Me Now", da banda Chicago, na voz de Jasmine Jethwa, uma nova e mais sombria Gotham City é desenhada, seguindo o oposto das já vistas nas tramas do herói Batman (ou Bruce Wayne) quem nem mesmo se faz presente. Paralelamente, a ausência de luz e o peso dramático na vida de Matt transmitem a tormenta psicológica, dividindo a agonia com quem assiste a tudo. Vale destacar a atuação marcante do ator galês Tom Rhys Harries.

O longa que integra o novo DC Studios (DCU) soma 1 hora e 48 minutos de duração de horror visceral, sem cenas pós-créditos. Com elementos de terror corporal tal qual o grande sucesso recente de cinema "A Substância", a produção exibe a transformação de Matt diante dos olhos do público, regada no terror sanguinolento capaz de incomodar quem está diante de tais sequências. Contudo, é numa grande festa que a grande sacada do poder de Cara-de-Barro se faz gerando grande envolvimento, além de surpreender por vezes. Vale muito a ida ao cinema!

Cara-de-Barro (Clayface, 2026). Gênero: Terror corporal, suspense. Direção: James Watkins. Roteiro: Mike Flanagan e Hossein Amini. Elenco principal: Tom Rhys Harries, Naomi Ackie e Max Minghella. Sinopse: acompanha Matt Hagen (Tom Rhys Harries), um ator em ascensão que tem o rosto desfigurado por um chefe do crime de Gotham. Desesperado, ele usa um tratamento experimental clandestino que restaura sua aparência, mas o transforma em um monstro de argila e corrói sua sanidade. Estreia no Brasil: 22 de outubro de 2026 

Trailer de "Cara-de-Barro"


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terça-feira, 20 de outubro de 2026

.: “O Americano Tranquilo” revisita a Indochina de Greene e da Guerra Fria


Clássico dirigido por Joseph L. Mankiewicz chega ao Belas Artes à La Carte com Audie Murphy e Michael Redgrave em um triângulo amoroso cercado por disputas políticas, colonialismo e interesses estrangeiros

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

O cinema gosta de revisitar as próprias feridas, às vezes com uma elegância que chega a ser desconfortável. É o caso de “O Americano Tranquilo”, produção de 1958 dirigida por Joseph L. Mankiewicz que estreia no catálogo do streaming Belas Artes À La Carte. Adaptado do romance homônimo de Graham Greene, o filme mergulha na Saigon de 1952 para acompanhar a relação entre um jornalista britânico experiente, um jovem americano cheio de convicções e uma vietnamita que se torna o centro de uma disputa afetiva e política.

Michael Redgrave interpreta Thomas Fowler, correspondente britânico que conhece bem as engrenagens da Indochina e prefere observar os acontecimentos com uma dose generosa de cinismo. Audie Murphy vive o americano, personagem chamado Alden Pyle no romance, mas que permanece sem nome no filme. Giorgia Moll interpreta Phuong, jovem vietnamita envolvida com Fowler e, depois, também com o recém-chegado americano. Claude Dauphin completa o quarteto principal como o inspetor Vigot.

A trama começa com a descoberta do corpo do americano e recua no tempo para mostrar como aquela morte foi construída pelas relações entre os personagens. O que poderia se limitar a um triângulo amoroso ganha proporções maiores quando as ideias políticas de Pyle entram em choque com a experiência de Fowler. O americano acredita em uma espécie de “terceira força” capaz de reorganizar a região, enquanto o jornalista desconfia cada vez mais das boas intenções de quem chega de fora com soluções prontas.

A diferença entre o romance de Greene e o filme de Mankiewicz é uma das partes mais interessantes dessa história. No livro, publicado em 1955, Alden Pyle é um agente americano ligado à CIA e a intervenção estrangeira aparece sob uma perspectiva bastante crítica. A adaptação mudou radicalmente esse desenho: o personagem passou a ser apresentado como um civil ligado a uma organização de ajuda internacional, o que suavizou sua relação com o governo dos Estados Unidos. O Film at Lincoln Center observa que essa alteração provocou a reação de Greene, enquanto a mesma mudança acabou fortalecendo, para alguns críticos, o conflito dramático entre Pyle e Fowler.

Graham Greene não gostou da brincadeira. O escritor considerou que Mankiewicz havia alterado o sentido político de sua história. O British Film Institute lembra que o cineasta modificou o desfecho da trama de maneira significativa, invertendo a responsabilidade pelos atentados que aparecem na narrativa. No romance, a participação americana está no centro da violência; no filme, a explicação apresentada segue outro caminho.

A mudança não aconteceu por acaso. Hollywood ainda carregava as marcas do macarthismo e da perseguição a artistas acusados de simpatias comunistas. O próprio ambiente político da época ajuda a compreender por que um romance tão desconfiado da intervenção americana ganhou uma adaptação com posições diferentes das de Greene. Existe ainda uma figura curiosa nos bastidores: Edward Lansdale, oficial de inteligência americano que colaborou sem crédito no roteiro. O envolvimento dele ajudou a alimentar a associação entre o personagem e a atuação americana no Sudeste Asiático. A presença de Lansdale na produção tornou a história ainda mais curiosa, sobretudo porque o filme trata de uma região que poucos anos depois estaria no centro de uma intervenção militar americana de proporções muito maiores.

A escolha de Audie Murphy também acrescenta uma camada peculiar ao filme. Herói de guerra condecorado e uma das grandes celebridades militares americanas da época, Murphy carregava para a tela uma imagem pública muito diferente daquela de um ator convencional. Mankiewicz chegou a considerar Montgomery Clift para o papel, enquanto Laurence Olivier estava ligado inicialmente ao personagem de Fowler. Com a saída de Clift por problemas de saúde, Olivier também deixou o projeto, e Michael Redgrave assumiu o papel.

É Redgrave, aliás, quem acaba dominando boa parte do filme. A interpretação de Fowler recebeu elogios desde o lançamento e continua sendo apontada como um dos grandes trunfos da produção. As imagens de Saigon são outro capítulo à parte. “O Americano Tranquilo” foi o primeiro filme de Hollywood filmado no Vietnã, e parte significativa das cenas externas foi realizada em Saigon. Mercados, cerimônias religiosas e ruas da cidade foram incorporados à produção, dando ao filme uma dimensão documental rara para uma obra hollywoodiana daquele período. O restante das filmagens foi realizado nos estúdios Cinecittà, em Roma.

As filmagens vietnamitas renderam situações quase cinematográficas demais para serem verdadeiras. A equipe precisava evitar o meio-dia por causa da luz intensa, teve dificuldades para conseguir autorização para filmar em um templo budista e acabou registrando, sem saber, uma manifestação política que a polícia local acreditava ser uma cena de figuração. A produção pensou estar diante de uma procissão religiosa; depois descobriu que se tratava de um protesto.

A fotografia em preto e branco de Robert Krasker reforça essa atmosfera. Responsável também pela cinematografia de “O Terceiro Homem” e “Desencanto”, Krasker cria uma Saigon de contrastes fortes, em que a movimentação das ruas convive com a tensão permanente entre os personagens. O resultado tem o peso visual do cinema clássico, mas registra uma cidade que ainda estava longe de se tornar o cenário conhecido mundialmente pela Guerra do Vietnã.

O filme acabou ficando em uma posição curiosa na história do cinema. Foi recebido com atenção, mas enfrentou críticas pela distância em relação ao romance de Greene e não se transformou em grande sucesso comercial. Décadas depois, ganhou uma nova leitura, especialmente porque o que parecia uma disputa política distante passou a ser visto à luz dos acontecimentos que se seguiriam no Vietnã.

Jean-Luc Godard chegou a defender a produção de Mankiewicz e a considerá-la um dos grandes filmes de 1958. Em 2002, Philip Noyce voltou ao romance de Greene com Michael Caine, Brendan Fraser e Do Thi Hai Yen. Essa segunda versão é considerada mais fiel ao livro e ajuda a perceber o tamanho das mudanças feitas por Mankiewicz. As duas adaptações podem ser vistas quase como respostas cinematográficas diferentes para a mesma pergunta: até onde vai a ingenuidade de quem acredita estar ajudando um país estrangeiro e quando essa suposta ajuda começa a produzir consequências que ninguém consegue controlar?


Ficha técnica
“O Americano Tranquilo” | “The Quiet American” (título original)
Gênero: drama, romance, suspense e guerra. Duração: 122 minutos. Classificação indicativa: não informada no Brasil; produção originalmente classificada como Approved nos Estados Unidos. Ano de produção: 1958. Data de lançamento: 8 de fevereiro de 1958, nos Estados Unidos. Idiomas: inglês, francês e vietnamita. Direção: Joseph L. Mankiewicz. Roteiro: Graham Greene (romance) e Joseph L. Mankiewicz; Edward Lansdale colaborou sem crédito. Elenco: Audie Murphy, Michael Redgrave, Claude Dauphin, Giorgia Moll, Bruce Cabot, Fred Sadoff, Kerima e Richard Loo. Distribuição no Brasil: Belas Artes à La Carte, em estreia na plataforma. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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sexta-feira, 9 de outubro de 2026

.: "Nós Acreditamos em Vocês" coloca a Justiça diante da palavra de uma mãe


Drama belga de Charlotte Devillers e Arnaud Dufeys, premiado na Berlinale, acompanha uma audiência de guarda marcada por acusações de violência sexual e chega com exclusividade à Reserva Imovision

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Alice chega ao tribunal sabendo que qualquer palavra pode interferir no destino dos filhos. A guarda das crianças está em discussão, o ex-marido está diante dela e a mãe precisa sustentar, perante uma juíza, a decisão de protegê-las. É a situação central de "Nós Acreditamos em Vocês" ("On vous croit"), drama belga dirigido por Charlotte Devillers e Arnaud Dufeys que estreia exclusivamente na plataforma Reserva Imovision nesta sexta-feira, dia 9 de outubro. O filme foi lançado nos cinemas brasileiros em julho, pela Filmes do Estação, e retorna agora ao streaming depois de conquistar espaço em festivais internacionais.

Myriem Akheddiou interpreta Alice, personagem que concentra praticamente toda a tensão da narrativa. Conhecida por trabalhos como "Titane" e pela colaboração com os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, a atriz divide o elenco com Laurent Capelluto, no papel do pai, e Natali Broods, como a juíza. Ulysse Goffin e Adèle Pinckaers completam o núcleo familiar, respectivamente como Etienne e Lila. A direção e o roteiro são assinados por Devillers e Dufeys, que realizam aqui o primeiro longa-metragem da carreira conjunta.

O ponto de partida é uma audiência de família na qual Alice tenta impedir que os filhos voltem a ficar sob os cuidados do pai, acusado de violência sexual contra uma das crianças. A mãe precisa apresentar sua versão diante de advogados e da magistrada, enquanto sua própria conduta passa a ser examinada pelo sistema judicial. O filme acompanha esse embate durante uma manhã e mantém a narrativa praticamente confinada ao ambiente do tribunal, fazendo da burocracia, dos questionamentos e das respostas uma fonte contínua de tensão.

A escolha formal é decisiva para esse efeito. "Nós Acreditamos em Vocês" foi realizado no formato 4:3, com enquadramentos próximos dos rostos, especialmente o de Myriem Akheddiou. Charlotte Devillers explicou que o formato surgiu também da necessidade de trabalhar com recursos reduzidos e que o rosto de Alice se tornou uma espécie de paisagem principal da produção. A diretora e Arnaud Dufeys queriam deixar espaço para a atuação e para a sensação de que aquela audiência estava acontecendo diante do espectador.

Uma das características mais particulares da produção está na extensa cena de audiência. Segundo a entrevista concedida por Akheddiou ao AlloCiné, a sequência principal tem cerca de 55 minutos e foi filmada em uma tomada, com três câmeras. A atriz também enfrentou um monólogo de aproximadamente 25 minutos, exigência que ajudou a transformar a interpretação de Alice no eixo físico e emocional da produção.

O resultado é um drama de tribunal que evita transformar a acusação em mero recurso para produzir reviravoltas. Os diretores concentram a atenção na maneira como uma mãe precisa organizar sua fala enquanto enfrenta perguntas, objeções e procedimentos jurídicos. A estrutura também coloca o espectador numa posição desconfortável, porque a dúvida institucional passa a disputar espaço com aquilo que Alice afirma estar tentando impedir: que os filhos sejam novamente expostos ao homem que ela acusa.

A origem do projeto ajuda a entender essa escolha. Charlotte Devillers é enfermeira e teve contato profissional com questões relacionadas à saúde sexual e a vítimas de violência. Em entrevistas, ela e Dufeys relatam que pesquisaram o funcionamento da Justiça e conversaram com vítimas e profissionais antes de desenvolver o roteiro. A preocupação dos realizadores era compreender o desgaste de mães que chegam às instituições depois de longos períodos tentando proteger os filhos e precisam, ainda assim, explicar repetidamente suas decisões.

O filme também ganhou atenção pela maneira como utiliza atores profissionais ao lado de pessoas ligadas ao universo jurídico. As advogadas Alisa Laub e Marion de Nanteuil, que atuam na defesa da proteção infantil na Bélgica, participam da produção, assim como Mounir Bennaoum no papel do advogado das crianças. Devillers contou que o texto destinado aos advogados recebeu tratamento diferente durante as filmagens: eles receberam as ideias centrais e puderam desenvolver seus argumentos durante a longa cena da audiência.

A repercussão internacional começou na Berlinale 2025, onde "On vous croit" participou da seção Perspectives e recebeu uma Menção Especial do júri na categoria de primeiro longa-metragem. O reconhecimento oficial da Berlinale confirma a distinção, concedida ao filme dirigido por Charlotte Devillers e Arnaud Dufeys.

A trajetória posterior ampliou a recepção da produção. "Nós Acreditamos em Vocês" acumulou premiações em festivais e, posteriormente, conquistou seis troféus na primeira edição do prêmio René du Cinéma, entre eles Melhor Filme e Melhor Direção. A atuação de Myriem Akheddiou também recebeu reconhecimento em diferentes festivais, reforçando a posição da atriz como principal força interpretativa da produção.

O título ganha sentido completo quando a audiência chega ao fim. "Nós Acreditamos em Vocês" se refere diretamente à necessidade de reconhecer a palavra de vítimas de violência e, ao mesmo tempo, expõe a distância entre o que uma pessoa vive e aquilo que precisa ser traduzido para dentro de uma estrutura jurídica. A produção encontra sua força justamente nessa fricção: Alice precisa falar, explicar, responder e insistir enquanto tenta impedir que a proteção dos filhos seja tratada como uma questão secundária.

Com 78 minutos, fotografia de Pépin Struye, montagem de Nicolas Bier, direção de arte de Mathilde Lejeune e música de Lolita Del Pino, "Nós Acreditamos em Vocês" constrói uma experiência concentrada, sustentada pela atuação de Myriem Akheddiou e pela decisão de manter o espectador dentro daquela audiência durante praticamente toda o filme.

Ficha técnica
"Nós Acreditamos em Vocês" | "On Vous Croit" (título original) | "Acreditamos em Ti" (título em Portugal)
Gênero: drama. Duração: 78 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2025. Idioma: francês. Direção: Charlotte Devillers e Arnaud Dufeys. Roteiro: Charlotte Devillers e Arnaud Dufeys. Elenco: Myriem Akheddiou, Laurent Capelluto, Natali Broods, Ulysse Goffin, Adèle Pinckaers, Alisa Laub, Marion de Nanteuil e Mounir Bennaoum. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.



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quinta-feira, 8 de outubro de 2026

.: "Um Espírito Baixou em Mim": Steve Martin e Lily Tomlin no mesmo corpo


Comédia de Carl Reiner transforma uma tentativa de transferência de alma em um duelo físico entre dois personagens incompatíveis e marca a última parceria do diretor com Steve Martin

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

A morte pode até ser inevitável, mas, em "Um Espírito Baixou em Mim", de Carl Reiner, ela está longe de ser o fim dos problemas. A comédia de 1984 chega ao catálogo do streaming Belas Artes À La Carte com Steve Martin e Lily Tomlin em uma das situações mais absurdas do cinema americano dos anos 1980: dois personagens incompatíveis obrigados a dividir o mesmo corpo. É uma premissa que poderia facilmente virar uma bobagem descartável, mas encontra em Martin um intérprete disposto a transformar cada movimento do personagem numa pequena catástrofe física.

Roger Cobb é um advogado que vive uma existência bastante menos interessante do que gostaria. Durante o dia, trabalha no escritório; à noite, alimenta o sonho de se dedicar à música. A rotina ganha contornos definitivamente estranhos quando ele assume o caso de Edwina Cutwater, uma milionária excêntrica que está morrendo e pretende transferir sua alma para o corpo da jovem Terry Hoskins, interpretada por Victoria Tennant. O plano parece suficientemente extravagante, mas Hollywood ainda tinha algumas cartas na manga.

O ritual dá errado e Edwina acaba dentro do corpo de Roger, ocupando apenas um dos lados. A partir daí, o advogado passa a disputar pernas, braços, voz e movimentos com a mulher que mal consegue suportar. A engenhoca funciona principalmente porque Steve Martin se entrega de corpo inteiro ao exercício. O ator precisa representar Roger, representar Edwina e, em vários momentos, representar Roger sendo tomado pelas vontades de Edwina. A comicidade nasce do controle corporal, dos gestos desencontrados e da tentativa de fazer parecer natural aquilo que, por definição, é completamente ridículo. 

Lily Tomlin, por sua vez, participa de uma brincadeira curiosa: depois da morte de Edwina, sua presença aparece sobretudo pela voz e pelos reflexos, enquanto Martin carrega fisicamente a personagem. O resultado exige dos dois atores um jogo de timing bastante preciso. A dupla recebeu indicações ao Globo de Ouro de 1985 nas categorias de atuação em comédia ou musical, reconhecimento que ajuda a dimensionar o impacto das performances na época. O filme foi dirigido por Carl Reiner, cineasta que já havia trabalhado com Martin em "O Panaca", "Cliente Morto Não Paga" e "O Médico Erótico". "Um Espírito Baixou em Mim" encerrou essa parceria cinematográfica entre os dois, que transformaram a persona cômica de Martin em matéria-prima para diferentes tipos de maluquice.

O roteiro de Henry Olek e Phil Alden Robinson parte do romance inédito "Me Two", de Edwin Davis. Segundo o catálogo do American Film Institute, o projeto chegou a circular durante a produção com os títulos provisórios "Me, Two" e "Me, Too", antes de assumir o definitivo "All of Me". A mesma fonte registra que a versão cinematográfica foi baseada no romance não publicado de Davis e teve lançamento nos Estados Unidos em 21 de setembro de 1984. Também chama atenção a participação de Victoria Tennant como Terry Hoskins. Durante as filmagens, a atriz conheceu Steve Martin, e os dois se casaram em 1986, permanecendo juntos até 1994. Tennant ainda voltaria a trabalhar com Martin anos depois, em "L.A. Story", de 1991. 

"Um Espírito Baixou em Mim" tem aquela aparência assumidamente oitentista de uma comédia que não precisa explicar demais o absurdo para colocá-lo em movimento. Algumas soluções envelheceram, certos efeitos denunciam a época e o humor pode provocar reações bem diferentes de quem chega ao filme hoje. Ainda assim, a proposta central continua funcionando quando Martin e Tomlin estão em cena, sobretudo porque a história encontrou um terreno perfeito para o talento físico do ator. Não por acaso, Martin ganhou em 1985 os prêmios de melhor ator da National Society of Film Critics e do New York Film Critics Circle pelo trabalho no filme, enquanto também disputou o Globo de Ouro ao lado de Lily Tomlin.


Ficha técnica
"Um Espírito Baixou em Mim" | "All of Me" (título original) | "Almas do Outro Mundo" (título em Portugal)
Gênero: comédia e fantasia. Duração: 93 minutos. Classificação indicativa no Brasil: 14 anos. Ano de produção: 1984. Data de lançamento: 21 de setembro de 1984 nos Estados Unidos. Idioma: inglês. Direção:Carl Reiner. Roteiro: Phil Alden Robinson e Henry Olek, baseado no romance "Me Two", de Edwin Davis. Elenco: Steve Martin, Lily Tomlin, Victoria Tennant, Madolyn Smith Osborne, Richard Libertini, Dana Elcar, Jason Bernard, Selma Diamond, Eric Christmas, Gailard Sartain, Neva Patterson, Michael Ensign e Peggy Feury. Distribuição no Brasil: Belas Artes à La Carte. Cenas pós-créditos: não há cena pós-créditos, porém há uma sequência musical durante os créditos finais. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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