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domingo, 21 de junho de 2026

.: “Muito Mais que um Crime” reafirma o vigor político de Costa-Gavras


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Lançado em 1989, “Muito Mais que um Crime” reestreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte com a assinatura firme de Costa-Gavras, cineasta que construiu carreira investigando as zonas de atrito entre poder, memória e justiça. Nesse filme, ele conduz um drama judicial que se move com tensão de thriller, sem recorrer a excessos formais, sustentado por um roteiro que prefere a revelação gradual ao choque fácil. A trama acompanha Ann Talbot (Jessica Lange), advogada respeitada que aceita defender o próprio pai, Mike Laszlo (Armin Mueller-Stahl), acusado de ter participado de crimes de guerra na Hungria durante a Segunda Guerra Mundial. 

O que começa como um gesto de lealdade familiar se transforma em um percurso incômodo, à medida que o tribunal expõe testemunhos, documentos e informações que colocam em xeque a imagem construída dentro de casa. O roteiro de Joe Eszterhas, inspirado em experiências pessoais - o pai dele foi acusado de colaboração com o regime nazista -, evita simplificações e constrói um embate moral que não se resolve com facilidade. A escrita aposta na ambiguidade e sustenta o conflito central: até onde vai a fidelidade a alguém quando a verdade ameaça desmoronar tudo o que se acreditava sólido? 

Jessica Lange conduz o filme com uma atuação de alta voltagem emocional, reconhecida com indicação ao Oscar de Melhor Atriz. Sua Ann oscila entre convicção e dúvida, sem perder a densidade. Ao seu lado, Armin Mueller-Stahl compõe um pai que alterna afeto, orgulho e um jeito difícil de decifrar, elemento essencial para manter a tensão em cena. O elenco conta ainda com Frederic Forrest e Lukas Haas, reforçando um conjunto que sustenta o peso dramático sem dispersão.

Premiado com o Urso de Ouro no Festival de Berlim, o longa-metragem confirma a habilidade de Costa-Gavras em tratar temas espinhosos com firmeza na condução da história. Conhecido por títulos como “Z” e “Missing”, o diretor retoma aqui o interesse por estruturas de poder e pelas marcas que a história deixa nos indivíduos, sem recorrer a discursos didáticos. O julgamento funciona como motor dramático, mas o filme cresce nos momentos em que desloca o foco para o impacto íntimo das descobertas.

Há também um detalhe simbólico que marca a narrativa: a caixa de música do título original (“Music Box”). O objeto, aparentemente inofensivo, guarda pistas que se revelam decisivas. A escolha do nome não é gratuita e aponta para a ideia de memória guardada e, em algum momento, exposta. Entre as curiosidades, nomes como Kirk Douglas e Walter Matthau foram cogitados para o papel de Mike Laszlo, mas Costa-Gavras optou por Mueller-Stahl, cuja origem europeia acrescenta autenticidade ao personagem. Também se comenta que Jane Fonda chegou a ser considerada para o papel de Ann, antes da escolha por Jessica Lange.

Sem recorrer a grandes manobras estéticas, “Muito Mais que Um Crime” aposta na força da narrativa e na densidade de seus conflitos. O filme mantém o espectador atento até o desfecho, quando as peças finalmente se encaixam. O impacto não vem de um truque, mas daquilo que sempre esteve ali, à espera de ser encarado.


Ficha técnica
“Muito Mais que um Crime” | “Music Box” (título original) | “O Enigma da Caixa de Música” (título em Portugal)
Gênero: drama, suspense. Duração: 124 minutos. Classificação indicativa: 13 anos. Ano de produção: 1989. Idioma: inglês. Direção: Costa-Gavras. Roteiro: Joe Eszterhas. Elenco: Jessica Lange, Armin Mueller-Stahl, Frederic Forrest, Lukas Haas, Donald Moffat. Distribuição no Brasil: não especificada. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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sábado, 20 de junho de 2026

.: Crítica: "Uma Infância Alemã" é história de amadurecimento e devoção


Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em junho de 2026


Em busca de realizar o desejo da mãe, garotinho Nanning (Jasper Billerbeck) descobre que além do rio há uma realidade ainda mais cruel e capaz de fazê-lo romper a inocência diante da escassez de itens comuns como a farinha de trigo, por exemplo. Ambientado na primavera de 1945, "Uma Infância Alemã" (Amrum), apresenta uma aventura épica na ilha isolada de Amrum, no Mar do Norte.

O drama que acontece ainda nas semanas finais da Segunda Guerra Mundial, leva o menino de 12 anos que aguarda o retorno do pai do front, a protagonizar uma verdadeira jornada do herói com uma trajetória emocionante, que o faz caçar focas, pescar à noite, trabalhar no campo para sustentar a mãe grávida e até o faz cair no erro de cometer alguns delitos. 

O longa exibido no Festival de Cinema Europeu IMOVISION 2026, baseado em memórias reais que pincelam o fim da guerra e segredos familiares profundos, entrega uma perspectiva emocional e psicológica sobre a Segunda Guerra Mundial. Logo, "Uma Infância Alemã" é um retrato delicado sobre o amadurecimento diante da realidade, assim como o impacto do fascismo e do trauma por meio dos olhos de uma criança criada dentro da ideologia nazista.

"Uma Infância Alemã" (Amrum). Gênero: Drama. Direção: Fatih Akin. Roteiro: Fatih Akin e Hark Bohm. Duração: 1h 33 minutos. Classificação Indicativa: 14 anos. Distribuição: Imovision. Elenco: Laura Tonke, Jasper Billerbeck e Diane Kruger. Sinopse: drama histórico que acompanha a perda da inocência de um garoto durante o colapso do Terceiro Reich. 


Trailer de "Uma Infância Alemã"


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.: Longa “The Doors” expõe excessos e controvérsias sobre Jim Morrison


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Oliver Stone nunca teve vocação para a neutralidade. Isso aparece com força em “The Doors”,  cinebiografia em cartaz na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, e tenta capturar sem muita delicadeza o furacão chamado Jim Morrison. Lançado em 1991, o longa-metragem sempre foi embalado por expectativas altas, sustentadas pelo mito da banda que ajudou a redefinir os limites do rock e da contracultura norte-americana no fim dos anos 1960.

No centro de tudo está Val Kilmer, em uma atuação que beira o transe. Há relatos de que ele aprendeu cerca de 50 músicas do repertório da banda, cantando boa parte delas no próprio filme. Em estúdio, a voz dele chegou a confundir até integrantes originais do grupo, tamanha a precisão. O nível de dedicação cobrou um preço, já que o ator precisou de terapia ao final das filmagens para se desligar do personagem.

A narrativa acompanha Morrison desde os tempos de estudante de cinema na UCLA até a ascensão meteórica com o The Doors, passando por excessos, crises criativas e a espiral autodestrutiva que culminaria na morte precoce dele, aos 27 anos, em Paris. Stone aposta no hedonismo, no caos e em uma aura quase mística que transforma o vocalista no chamado “Rei Lagarto”. O elenco sustenta essa atmosfera com eficiência. 

Meg Ryan surpreende ao abandonar a imagem de comédias românticas para viver Pamela Courson, companheira de Morrison. Kyle MacLachlan, como Ray Manzarek, traz uma presença mais contida, enquanto Kevin Dillon (John Densmore) e Frank Whaley (Robby Krieger) completam a formação da banda. Entre participações curiosas, Billy Idol aparece como Cat, e Crispin Glover surge como Andy Warhol, em um retrato breve, mas marcante.

O roteiro, assinado por Stone em parceria com J. Randall Jahnson, opta por uma construção fragmentada, quase alucinada, que privilegia sensações em vez de fidelidade histórica. Integrantes da banda, especialmente Manzarek e Densmore, criticaram publicamente o filme por reduzir Morrison a um arquétipo de excessos, ignorando a inteligência, humor e inquietação intelectual dele. 

Décadas depois, o consenso permanece instável: o filme oscila entre documento cultural e fantasia estilizada. Mesmo com as controvérsias, a bilheteria superou ligeiramente o custo de produção, e o filme acabou consolidando uma imagem duradoura de Morrison para gerações que não o viram ao vivo. Para muitos, o Jim Morrison de Kilmer virou referência, o que, por si só, explica parte do incômodo dos músicos originais.

Curiosamente, o papel quase teve outro destino. Ian Astbury, vocalista do The Cult, recusou o convite por discordar da abordagem do roteiro. Nomes como Bono e Michael Hutchence também demonstraram interesse, mas não avançaram. A escolha por Kilmer, hoje, parece inevitável. Selecionado para o Festival de Moscou em 1991 e revisitado anos depois na seção Cannes Classics, o filme segue provocando debate. Stone entrega um retrato intenso, por vezes exagerado, que transforma a trajetória da banda em uma experiência sensorial. Há momentos em que a encenação se sobrepõe ao fato, mas a energia permanece.


Ficha técnica
“The Doors” | “The Doors: O Mito de uma Geração” (título em Portugal)
Gênero: Musical, biográfico. Duração: 141 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 1991. Idioma: inglês. Direção: Oliver Stone. Roteiro: Oliver Stone e J. Randall Jahnson. Elenco: Val Kilmer, Meg Ryan, Kyle MacLachlan, Kevin Dillon, Frank Whaley, Kathleen Quinlan, Billy Idol, Crispin Glover, entre outros. Distribuição no Brasil: Columbia Pictures (Sony Pictures). Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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.: Filme “Caso 137” revisita protestos e questiona o papel da polícia


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

O drama “Caso 137” estreia na plataforma de streaming Reserva Imovision com a assinatura firme do diretor alemão radicado na França Dominik Moll, que volta ao território policial depois do premiado "A Noite do Dia 12". Nesse novo longa-metragem, ele afina ainda mais o olhar para os mecanismos internos da polícia francesa ao acompanhar uma investigação conduzida por quem deveria vigiar a própria instituição: a IGPN, conhecida como “a polícia da polícia”.

A trama segue Stéphanie Bertrand (Léa Drucker), encarregada de apurar o caso de um jovem gravemente ferido durante um protesto em Paris. O episódio remete diretamente às manifestações dos coletes amarelos, entre 2018 e 2020, quando denúncias de uso excessivo da força ganharam repercussão internacional. O roteiro, assinado por Moll em parceria com Gilles Marchand, parte de um evento fictício, mas reproduz situações reais amplamente documentadas pela imprensa europeia, incluindo casos de manifestantes atingidos por balas de borracha, prática questionada por organismos de direitos humanos.

O filme teve estreia mundial no Festival de Cannes de 2025, onde disputou a Palma de Ouro e arrancou aplausos prolongados na sessão oficial. Depois, seguiu um percurso consistente em festivais e premiações, acumulando indicações importantes e consolidando o nome de Léa Drucker como peça central do projeto. A atriz foi reconhecida com o César de Melhor Atriz, reforçando o consenso crítico em torno da interpretação contida e precisa que ela entrega nesse filme.

Moll conduz a narrativa com rigor que lembra o documental. A câmera observa mais do que intervém, insistindo em salas de interrogatório, relatórios burocráticos e depoimentos que raramente se encaixam. Há um interesse claro em expor o funcionamento do sistema por dentro, sem atalhos dramáticos. O que se vê é um acúmulo de versões, tensões institucionais e pequenas fissuras que revelam o desgaste de uma estrutura que deveria garantir justiça, mas frequentemente se protege.

A investigação ganha densidade quando o caso deixa de ser apenas um número. A ligação pessoal da protagonista com a origem da vítima desloca o eixo do filme e coloca em jogo dilemas que não cabem em protocolos. Stéphanie não se transforma em heroína clássica; segue trabalhando, lidando com a rotina e negociando limites. Esse desenho evita idealizações fáceis e sustenta um retrato mais próximo da experiência concreta de quem opera dentro da máquina pública.

Outro ponto que chama atenção é a recusa em simplificar o conflito. O roteiro distribui responsabilidades e tensões entre diferentes lados: policiais pressionados, testemunhas desconfiadas, famílias feridas e um aparato jurídico que se move com lentidão Nos bastidores, em Cannes, o ator Théo Navarro-Mussy foi impedido de participar do tapete vermelho após acusações de violência sexual - decisão apoiada pela organização do festival e compreendida publicamente por Moll. O episódio acabou desviando parte da atenção midiática, ainda que não tenha afetado a recepção crítica do longa.

“Caso 137” trabalha com a frustração de processos que avançam sem necessariamente produzir respostas satisfatórias. A trilha discreta de Olivier Marguerit acompanha esse tom, quase imperceptível, deixando que o peso recaia sobre os diálogos e as lacunas institucionais, aquelas que se impõem pela impossibilidade de conclusão. O filme é um retrato incômodo de um sistema que investiga a si mesmo, encontra limites para agir e, ainda assim, falha.


Ficha técnica
“Caso 137” | “Dossier 137” (título original) | “Dossiê 137” (título em Portugal)
Gênero: policial, drama. Duração: 1h56min. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2025. Idioma: francês. Direção: Dominik Moll. Roteiro: Dominik Moll e Gilles Marchand. Elenco: Léa Drucker, Jonathan Turnbull, Mathilde Roehrich, Guslagie Malanda, Stanislas Merhar. Distribuição no Brasil: Autoral Filmes. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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sexta-feira, 19 de junho de 2026

.: No streaming, “Betty Blue” convoca o público a encarar a vertigem


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

A cópia restaurada de “Betty Blue” devolve ao circuito um filme que nunca se acomodou no passado. Dirigido e roteirizado por Jean-Jacques Beineix, a partir do romance de Philippe Djian, o longa-metragem reaparece em versão remasterizada para celebrar quatro décadas de um impacto que não se dilui. A estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte recoloca em evidência uma obra que mistura desejo, criação artística e vertigem emocional. O filme volta embalado por uma restauração em alta definição que valoriza as cores saturadas.

Na história, Zorg (Jean-Hugues Anglade) leva uma vida modesta à beira-mar até a chegada de Betty (Béatrice Dalle), uma mulher que desestabiliza tudo ao redor dela. O romance entre os dois avança de maneira intensa, física e instável. Entre mudanças de cidade, empregos improvisados e a tentativa de transformar um manuscrito em livro publicado, o casal se move por impulsos que os aproximam e, ao mesmo tempo, anunciam um término inevitável. O filme observa esse percurso sem freio moral e mostra o que acontece quando o amor e o descontrole caminham juntos.

Lançado originalmente em 1986, “Betty Blue” foi o oitavo maior sucesso de bilheteria na França naquele ano e alcançou reconhecimento internacional com indicação ao Oscar e ao BAFTA de Melhor Filme em Língua Estrangeira. A trilha de Gabriel Yared, hoje amplamente reconhecida, ajuda a sustentar a atmosfera sensorial que marcou o cinema francês dos anos 1980, especialmente o chamado “cinema do look”, ao qual Beineix é frequentemente associado.

Há bastidores que ampliam a experiência de quem revisita o longa. As filmagens ocorreram ao longo de 13 semanas em locações como Gruissan, Marselha e Marvejols, explorando paisagens que alternam o solar e o melancólico. Beineix comentou, em entrevistas, que a química entre Béatrice Dalle e Jean-Hugues Anglade ultrapassava a encenação - uma energia que se infiltra em cena e ajuda a explicar a combustão do casal. Décadas depois, a versão do diretor, com cerca de 185 minutos, ganhou circulação ampliada e aprofunda a espiral de Betty, além de expandir o arco de Zorg.


“Betty Blue” | “37°2 Le Matin” (título original) | “Betty Blue – 37,2º de Manhã” (título em Portugal)
Gênero: drama, romance, erótico, psicológico. Duração: 120 minutos (versão original); 185 minutos (versão do diretor). Classificação indicativa: 18 anos. Ano de produção: 1986. Idioma: francês. Direção: Jean-Jacques Beineix. Roteiro: Jean-Jacques Beineix, baseado no romance de Philippe Djian. Elenco: Béatrice Dalle, Jean-Hugues Anglade, Gérard Darmon, Consuelo de Haviland, Clémentine Célarié, Jacques Mathou, Vincent Lindon, entre outros. Distribuição no Brasil: Pandora Filmes. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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.: Longa francês, “E Seus Filhos Depois Deles” expõe juventude à deriva


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

“E Seus Filhos Depois Deles” chega na plataforma de streaming Reserva Imovision carregando o peso de uma origem literária premiada e o fôlego de uma adaptação ambiciosa. Dirigido pelos irmãos Ludovic e Zoran Boukherma, o longa francês transforma o romance homônimo de Nicolas Mathieu - vencedor do Prix Goncourt - em uma narrativa de formação.

Ambientado no leste da França, entre 1992 e o fim da década, o filme acompanha Anthony (Paul Kircher) e seus arredores ao longo de quatro verões que moldam sua passagem da adolescência à vida adulta. O ponto de partida é simples: tédio, um lago, uma garota. O que se segue, porém, é um encadeamento de escolhas impulsivas que escancaram tensões familiares, disputas de território e um sentimento difuso de estagnação social. 

Os Boukherma filmam esse universo com olhar atento ao detalhe cotidiano. A fotografia de Augustin Barbaroux encontra beleza nas ruínas industriais e na pele suada dos personagens, enquanto a trilha sonora mergulha nos anos 1990 com precisão afetiva, costurando referências que vão do pop ao rock da época. Com financiamento robusto, incluindo parcerias com grandes players europeus, o filme percorre diferentes locações e períodos, mantendo uma coerência estética que dialoga com o realismo do livro.

Exibido na competição do Festival de Veneza, “E Seus Filhos Depois Deles” rendeu a Paul Kircher o Prêmio Marcello Mastroianni, dedicado a jovens atores promissores. O reconhecimento reforça a aposta do filme em um elenco que equilibra nomes experientes, como Gilles Lellouche e Ludivine Sagnier, com rostos em ascensão. Há ainda participações que ampliam o interesse do público atento ao cinema francês contemporâneo, como Raphaël Quenard.

Ao adaptar um romance marcado por sua densidade social, os Boukherma optam por uma narrativa que privilegia a memória sensorial da juventude: o calor, o desejo, a frustração. Nem sempre o resultado alcança a complexidade do texto original, mas há consistência na maneira como o filme constrói seu retrato de uma geração que cresce entre promessas quebradas e horizontes estreitos.

Ficha técnica
“E Seus Filhos Depois Deles” | “Leurs Enfants Après Eux” (título original) | “Os Seus Filhos Depois Deles” (título em Portugal)
Gênero: drama. Duração: 2h21min. Classificação indicativa: 18 anos. Ano de produção: 2024. Idioma: francês. Direção: Ludovic Boukherma e Zoran Boukherma. Roteiro: Ludovic Boukherma, Zoran Boukherma, Nicolas Mathieu. Elenco: Paul Kircher, Angelina Woreth, Sayyid El Alami, Gilles Lellouche, Ludivine Sagnier. Distribuição no Brasil: Imovision. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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terça-feira, 16 de junho de 2026

.: Crítica: "Backrooms: Um Não Lugar" faz refletir sobre "eus"


Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em junho de 2026


Suspense psicológico "Backrooms: Um Não Lugar" promove encontros de "eus" de modo criativo e bastante assustador. No longa de ficção científica tudo começa com um paciente, dono de uma loja de móveis, Clark (Chiwetel Ejiofor, de "12 Anos de Escravidão³"), e uma psicóloga, Mary Kline (Renate Reinsve, de"Valor Sentimental"), em uma consulta profissional.

Bem acomodados, tudo segue dentro do habitual, até que a doutora pede para que o cliente simule que ela é a "ex" dele. Apesar da relutância, a encenação acontece, porém o "faz-de-conta" vai muito além, a ponto de ser a ponta do iceberg que é desenvolvido na profunda trama que vai além das aparências, esbarra na perda de referências, da noção de tempo e espaço.

Com direção de Kane Parsons (websérie  "Backrooms"), jovem cineasta e YouTuber norte-americano que ganhou notoriedade na internet com curtas de terror e animação, que chegou a Hollywood, como o diretor mais jovem da produtora A24, o longa de 1 hora e 50 minutos de duração provoca reflexões diversas. De fato, Backrooms é uma lenda urbana digital (creepypasta) sobre uma dimensão paralela infinita, formada por corredores labirínticos vazios, paredes amareladas e luzes.

A produção cinematográfica costura todo um jogo de sentidos enquanto assusta e desperta a mente buscando alternativas para sair de um espaço que tecnicamente não existe. A provocante viagem mental de "Backrooms: Um Não Lugar" acontece numa arquitetura infinita e corredores vazios, representando uma crítica existencial profunda ao isolamento moderno, ao capitalismo e às armadilhas da psique humana em meio à repetição do cotidiano. Imperdível!

"Backrooms: Um Não Lugar" (Backroom). Gênero: Terror, Ficção Científica e Suspense Psicológico. DireçãoKane Parsons. Roteiro: Will Soodik. Duração: 1h 50 minutos. Classificação Indicativa: 16 anos. Distribuição: Imagem Filmes. Elenco: Chiwetel Ejiofor, Renate Reinsve, Mark Duplass, Finn Bennett, Lukita Maxwell e Avan Jogia. Sinopse: Em 1990, o vendedor de móveis Clark descobre em sua loja um portal para os Backrooms. Fascinado e obcecado por mapear as anomalias do labirinto infinito de escritórios amarelados, ele acaba desaparecendo no local. A sua terapeuta, Dra. Mary Kline, mergulha na dimensão impossível para resgatá-lo, sendo forçada a confrontar seus próprios traumas e os horrores dos espaços vazios.

Trailer de "Backrooms: Um Não Lugar"



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terça-feira, 9 de junho de 2026

Crítica: "Todo Mundo em Pânico 6" é deboche saudosista imperdível



Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em junho de 2026


A volta dos irmãos Wayans no controle do roteiro da franquia de deboche "Todo Mundo em Pânico", que chega ao sexto filme, é recheada de críticas divertidas e pesadas. Desde as bobeiras sem sentido da internet como o "six seven", até altas lições de pura consciência sobre os absurdos naturalizados da atualidade, incluindo o preconceito racial muito bem representados pelos grandes nomes da franquia Cindy (Anna Faris, de "Casa das Coelhinhas") e Brenda (Regina Hall, de "Uma Batalha Após a Outra").

Ver "Todo Mundo em Pânico 6" dirigido por Michael Tiddes ("Inatividade Paranormal" e "Cinquenta Tons de Preto"), na telona do cinema, resgatando o tempero perfeito da comédia mesclada a paródias de importantes produções, como os indicados e vencedores do Oscars 2026, "Pecadores""Uma Batalha Após a Outra". Sendo que o segundo filme abocanhou seis estatuetas, entre elas a de "Melhor Filme", e divide a atuação da atriz Teyana Taylor, que, na comédia entrega tudo com uma barriga tanquinho de entortar a faca do Ghostface enquanto empunha o Globo de Ouro com poder. 

O longa é uma verdadeira explosão de nostalgia durante 1 hora e 36 minutos de duração. Ao promover encontros e reencontros, com roteiro de Marlon Wayans, Shawn Wayans, Keenen Ivory Wayans, Craig Wayans e Rick Alvarez, volta à raiz. Ao colocar  Teyana como a primeira garota do sexto longa, resgata que Carmen Electra foi a primeira das garotas quando atendeu o telefonema do Ghostface em "Todo Mundo em Pânico" (2000), sendo perseguida pelo jardim de casa e tem o silicone retirado.

Sem esconder a fórmula da franquia, "Todo Mundo em Pânico 6" a segue com muita acidez e promove o resgate de personagens clássicos como o quarteto Cindy, Brenda, Ray (Shawn Wayans, de "As Branquelas") e Shorty (Marlon Wayans, de "GOAT"), além de reintegrar o elenco com Greg (Lochlyn Munro, de "As Branquelas"), Gail (Cheri Oteri), Doofy (Dave Sheridan, de "O Pequenino"). Até o ex de Cindy, Bobby (Jon Abrahams, de "A Casa de Cera") e o mordomo Hanson (interpretado pelo comediante Chris Elliott), conhecido como o Mãozinha, retornam. Sabiamente, o sexto filme abre espaço para discutir e criticar as escolhas tomadas dentro da própria franquia de paródias irônicas.

Em meio ao elenco estelar de "Todo Mundo em Pânico 6" há novidades. Assim como alguns filmes do gênero terror encontraram uma saída para dar um novo fôlego, "Todo Mundo em Pânico 6" também apresenta os filhos dos sobreviventes que agora estão na mira do grande vilão da trama. Surge na história Waldinha ou Tuesday, não Wandinha ou Wednesday como em "Família Addams" (Savannah Lee Nassif), uma das duas filhas adotas de Cindy Campbell, assim como Sara (Olivia Rose Keegan). 

Criticando o medo moderno de ser cancelado e a patrulha ideológica da internet, o comportamento das pessoas nas redes sociais, retratando o vício em internet como uma "doença crônica", cutuca ainda a política abusiva de Trump e a função efetiva do ICE. "Todo Mundo em Pânico 6" ironiza até a onda de filmes de terror intelectuais ou "cult", abraçando abertamente a chacota e os clichês óbvios.

Resgatando os personagens marcantes da franquia e com grande elenco, "Todo Mundo em Pânico 6"  diverte, mas dá um recado maior dado e reforça que os personagens matrizes não podem ser substituídos, nem mesmo por seus filhos. De fato, não é a nova geração que entrega saudosismo, mas os coroas. A autocrítica também marca presença quando debate na telona os desvios nas tramas da franquia assim como a trocas de atores ou a ausência deles.

Cheio de referências críticas a filmes que  dão liga para cada narrativa diversa estão "Escape Room", "Terrifier", "M3gan", "Pânico", "Pecadores", "Halloween", "Sorria", "A Substância" e o prazo de validade da idade feminina aceita em Hollywood, citando até Demi Moore. "Todo Mundo em Pânico 6"  contempla com deboche um dos maiores marcos do cinema LGBTQIA+ e do drama romântico moderno "O Segredo de Brokeback Mountain", assim como o recente sucesso nos cinemas "Michael"

Vale muito a pena assistir "Todo Mundo em Pânico 6" dublado, uma vez que as vozes na versão nacional são de Priscila Amorim (Anna Faris como Cindy), Marisa Leal (Regina Hall como Brenda), Duda Ribeiro (Shawn Wayans com Ray) e Jorge Lucas (Marlon Wayans como Shorty). Boa diversão e não perca!


"Todo Mundo em Pânico 6" ("Scary Movie"). Gênero: Comédia, Paródia. Direção: Michael Tiddes. Roteiro: Marlon Wayans, Shawn Wayans, Keenen Ivory Wayans, Craig Wayans e Rick Alvarez. Duração: 1h 36 minutos. Classificação Indicativa: 18 anos. Distribuição: Paramount Pictures. Elenco: Anna Faris como Cindy Campbell, Regina Hall como Brenda Meeks, Marlon Wayans como Shorty Meeks, Shawn Wayans como Ray Wilkins, Jon Abrahams como Bobby Prinze, Lochlyn Munro como Greg Phillipe, Dave Sheridan como Doofy Gilmore, Cheri Oteri como Gail Hailstorm, Chris Elliott como Hanson, Anthony Anderson. Sinopse: A trama se passa 26 anos após os eventos originais. O grupo de amigos formado por Cindy, Brenda, Shorty e Ray encontra-se novamente na mira de um assassino mascarado implacável, em uma história recheada de sátiras aos maiores sucessos recentes do cinema de terror (como Halloween, Sorria e Pecadores).


Trailer de "Todo Mundo em Pânico 6"



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sábado, 6 de junho de 2026

.: "Incêndios" mergulha na guerra e em um dos maiores segredos do cinema


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Poucos filmes conseguem provocar tamanho impacto emocional quanto "Incêndios", filme em cartaz na plataforma de streaming Reserva Imovision. Lançado em 2010 e dirigido por Denis Villeneuve, o drama canadense chegou aos cinemas brasileiros em fevereiro de 2011 e rapidamente conquistou espaço entre as produções mais admiradas do século. Antes de se tornar um dos cineastas mais celebrados de Hollywood com obras como "A Chegada", "Blade Runner 2049" e os dois capítulos de "Duna", Villeneuve entregou uma narrativa poderosa, construída sobre perdas, memória, violência e heranças que atravessam gerações.

Baseado na peça homônima do escritor e dramaturgo Wajdi Mouawad, o longa acompanha os irmãos gêmeos Jeanne e Simon Marwan, interpretados por Mélissa Désormeaux-Poulin e Maxim Gaudette. Após a morte da mãe, Nawal Marwan, vivida de forma impressionante por Lubna Azabal, os dois recebem uma missão inesperada: localizar um pai que acreditavam estar morto e um irmão cuja existência desconheciam. A investigação conduz os personagens ao Oriente Médio e, pouco a pouco, revela um passado marcado pela guerra e por acontecimentos capazes de redefinir tudo o que julgavam saber sobre a própria família.

O roteiro, assinado por Denis Villeneuve e Valérie Beaugrand-Champagne, organiza a narrativa em diferentes tempos históricos sem perder a clareza dramática. Cada descoberta amplia a dimensão da tragédia e transforma a busca dos irmãos em uma reflexão profunda sobre identidade, culpa, perdão e sobrevivência. A força do texto encontra apoio em uma direção segura, que sabe dosar tensão e emoção sem recorrer a atalhos fáceis.

Uma das curiosidades mais comentadas sobre a produção está na inspiração indireta em acontecimentos ligados à Guerra Civil Libanesa. Embora a história não adapte fatos reais específicos, estudiosos e críticos apontam semelhanças com a trajetória da ativista libanesa Souha Bechara, presa e torturada durante anos em uma penitenciária do sul do Líbano. Essa aproximação ajuda a compreender a intensidade política e humana presente no filme.

A excelência técnica também contribui para o prestígio duradouro da obra. A fotografia de André Turpin alterna paisagens frias e tons áridos para reforçar os contrastes geográficos e emocionais da trama. Já a trilha sonora de Grégoire Hetzel acompanha a jornada sem excessos, permitindo que o peso dos acontecimentos encontre espaço para ressoar por conta própria.

O reconhecimento internacional veio rapidamente. "Incêndios" recebeu indicação ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira e consolidou Denis Villeneuve como um dos realizadores mais talentosos de sua geração. Mais de uma década depois, continua sendo apontado por parte da crítica e do público como o trabalho mais contundente de sua carreira. Em tempos de narrativas descartáveis e consumo acelerado, "Incêndios" permanece intacto, preservando a capacidade de surpreender, inquietar e emocionar com a mesma intensidade de sua estreia.


Ficha técnica
"Incêndios" | "Incendies" (título original) | "Incendies - A Mulher Que Canta" (título em Portugal)
Gênero: drama. Duração: 2h10m. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 2010. Idioma: francês e árabe. Direção: Denis Villeneuve. Roteiro: Denis Villeneuve e Valérie Beaugrand-Champagne, baseado na peça de Wajdi Mouawad. Elenco: Lubna Azabal, Mélissa Désormeaux-Poulin, Maxim Gaudette e Rémy Girard. Distribuição no Brasil: Imovision. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.

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