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sábado, 26 de setembro de 2026

.: As novas cenas de "Ultimato Encore", filme requentado para "Doutor Destino"


Relançamento de "Vingadores: Ultimato" acrescenta cenas inéditas que conectam Steve Rogers, o colapso do multiverso e o Doutor Destino ao próximo capítulo da Marvel

Atenção: o texto a seguir contém spoilers de "Vingadores: Ultimato Encore"

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Sete anos depois de levar a Saga do Infinito a uma conclusão que parecia definitiva, "Vingadores: Ultimato" voltou aos cinemas com uma nova versão. Batizada de "Vingadores: Ultimato Encore", a produção mantém praticamente intacta a aventura lançada originalmente em 2019, mas acrescenta material inédito que muda a maneira como aquele encerramento conversa com o futuro do Universo Cinematográfico Marvel.

O relançamento chegou aos cinemas brasileiros em setembro de 2026 e foi pensado como uma espécie de ponte para "Vingadores: Doutor Destino", próximo grande encontro dos heróis da Marvel. O resultado é curioso: o público revê praticamente o mesmo filme que já conhece, mas descobre que a despedida de Steve Rogers, afinal, ainda tinha uma visita para receber. A primeira novidade aparece quando "Ultimato" parecia ter terminado.

Steve Rogers (Chris Evans) e Peggy Carter (Hayley Atwell) finalmente vivem o momento que o personagem esperou durante décadas. Os dois dançam na casa de Peggy ao som de "It's Been a Long, Long Time", mas, desta vez, a cena não termina ali. Uma batida na porta interrompe a dança.

Peggy atende e encontra Loki (Tom Hiddleston), usando o uniforme da Autoridade de Variância Temporal, a mesma organização apresentada na série "Loki". Steve observa a situação escondido e, quando Loki entra, fica claro que a visita não é casual. A nova versão do longa-metragem deixa os três diante de uma situação que o filme de 2019 jamais apresentou: o Capitão América encontra uma versão de Loki que teve uma trajetória completamente diferente daquela conhecida por ele.

É uma pequena sequência, mas com potencial para alterar a leitura daquele desfecho. O Steve Rogers que decidiu permanecer no passado para viver com Peggy agora parece ter sido alcançado por acontecimentos que envolvem o multiverso. Depois, "Ultimato Encore" começa a olhar para um problema ainda maior.

Na Autoridade de Variância Temporal, Mobius (Owen Wilson), O.B. (Ke Huy Quan) e Miss Minutes acompanham uma situação que foge rapidamente do controle. Duas realidades entram em processo de incursão e, em pouco tempo, o número de universos ameaçados cresce de maneira vertiginosa. Entre eles está o Universo 10005, associado aos X-Men dos filmes da Fox. A situação evolui de algumas colisões para centenas e, depois, milhares de incursões. O.B. percebe a dimensão do desastre enquanto a TVA acompanha a destruição das realidades. A conclusão é direta: o multiverso está entrando em colapso.

A sequência funciona como uma explicação visual para um conceito que deve ganhar peso em "Vingadores: Doutor Destino": as incursões, quando universos diferentes entram em rota de colisão e ameaçam destruir uns aos outros. Se Steve Rogers recebe uma visita inesperada, Bruce Banner ganha uma ainda mais problemática. Após os acontecimentos de "Homem-Aranha: Um Novo Dia", Banner (Mark Ruffalo) aparece isolado em uma instalação militar subterrânea, a quilômetros abaixo da superfície. Ele registra seus experimentos e trabalha numa maneira de controlar a radiação gama para impedir que o Hulk volte a assumir o controle.

O isolamento, porém, dura pouco. A instalação começa a apresentar interferências. As imagens falham, os equipamentos sofrem alterações e uma presença surge no local. É Doutor Destino (Robert Downey Jr.), interpretado pelo próprio Robert Downey Jr., embora o personagem não seja mostrado integralmente nessa sequência. Banner pergunta o que ele está fazendo ali. Destino responde que veio "coletá-lo". O cientista se transforma no Hulk e parte para o confronto. A luta, porém, não chega a ser mostrada de maneira convencional. A câmera cai e, quando a situação volta a ser observada, Banner e Destino desapareceram. No chão e nas paredes, ficam as marcas da magia de Destino, sugerindo que os dois foram transportados para outro lugar.

A quarta novidade trabalha com a presença de Robert Downey Jr. no novo capítulo da Marvel. "Ultimato", em sua versão original, terminava com uma referência sonora ao primeiro "Homem de Ferro", de 2008: as batidas metálicas remetiam à construção da armadura de Tony Stark, criando um círculo simbólico para a Saga do Infinito. Em "Ultimato Encore", essa lembrança ganha outro significado. As batidas acompanham imagens de Doutor Destino trabalhando na própria máscara metálica. A associação é inevitável: Tony Stark e Victor von Doom são interpretados por Robert Downey Jr., mas agora o ator ocupa uma posição completamente diferente dentro do universo Marvel.

"Vingadores: Ultimato Encore" não acrescenta uma nova aventura às três horas de filme que o público conhece. O que muda está concentrado principalmente no material adicional, criado para aproximar a conclusão da Saga do Infinito dos acontecimentos de "Vingadores: Doutor Destino". Além dessas sequências, a nova apresentação conta com materiais especiais antes da sessão, incluindo uma mensagem de Robert Downey Jr. e Chris Evans e um vídeo produzido para o público dos cinemas.

O efeito é quase o de uma pós-produção feita anos depois para reposicionar um final conhecido. Steve e Peggy ganham uma visita inesperada; Banner deixa de ser apenas um personagem distante do próximo grande conflito; a TVA identifica o avanço das incursões; e Doutor Destino passa a ocupar um espaço cada vez maior na história.

Para quem esperava cenas deletadas de "Ultimato" ou uma versão significativamente diferente do filme de 2019, a novidade é mais pontual. Para os fãs interessados na continuidade do MCU, entretanto, poucos minutos bastam para transformar um encerramento conhecido em uma espécie de prólogo para a próxima reunião dos Vingadores. "Vingadores: Ultimato" já havia encerrado uma era. "Ultimato Encore" acrescenta algo que o filme original não precisava ter: uma porta aberta para a próxima.


Serviço
"Vingadores: Ultimato Encore"
Gênero: ação, aventura, ficção científica.
Direção: Anthony Russo e Joe Russo.
Elenco: Robert Downey Jr., Chris Evans, Mark Ruffalo, Chris Hemsworth, Scarlett Johansson, Jeremy Renner, Tom Hiddleston, Owen Wilson, Ke Huy Quan, entre outros.
Distribuição: Marvel Studios / Disney.
Estreia nos cinemas brasileiros: setembro de 2026.
Atenção: a disponibilidade de determinados materiais adicionais pode variar de acordo com o formato e a sala de exibição. "Vingadores: Doutor Destino" está previsto para chegar aos cinemas brasileiros em dezembro de 2026.

.: Novo cinema cruza fronteiras e leva o Brasil de 214 milhões ao mundo


De Berlim a Cannes, de Veneza a Locarno e ao Oscar, filmes brasileiros ampliam sua circulação internacional e mostram como diferentes territórios, personagens e formas de contar o país passaram a integrar a imagem do Brasil no cinema contemporâneo

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para Resenhando.com

Segundo estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população do Brasil chegou a 214.211.951 habitantes em 2026. Em um recorte muito específico, Quixadá, no interior do Ceará, pode parecer distante de Berlim, Cannes ou Los Angeles quando se pensa na geografia tradicional do cinema internacional. No entanto, foi justamente de lá que “Feito Pipa” partiu para uma trajetória que resume boa parte do movimento que faz hoje o cinema brasileiro: um filme que evoca memórias do interior cearense, produzido fora do eixo Rio-São Paulo, premiado em um dos grandes festivais do mundo e agora escolhido para representar o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar 2027.

Dirigido por Allan Deberton, o filme conquistou dois dos principais reconhecimentos da mostra Generation Kplus, no Festival de Berlim: o Grande Prêmio do Júri Internacional de Melhor Filme e o Urso de Cristal concedido pelo Júri Jovem. A produção também circulou por outros festivais internacionais e chegou a Guadalajara, no México, onde recebeu o Prêmio Maguey de Melhor Filme e outro reconhecimento para sua atuação. Em 16 de setembro de 2026, a Academia Brasileira de Cinema confirmou “Feito Pipa” como representante brasileiro na disputa por uma vaga na categoria de Melhor Filme Internacional do Oscar 2027.

A trajetória ajuda a desmontar uma ideia antiga sobre o que precisa acontecer para um filme brasileiro ser visto fora do país. A circulação internacional não começa necessariamente em São Paulo ou no Rio de Janeiro, nem depende de uma história ambientada em grandes capitais. Gugu, personagem de Yuri Gomes, nasce cinematograficamente no sertão cearense e chega a públicos de diferentes países carregando consigo uma experiência muito particular de infância, família, identidade e pertencimento.


O mundo também está olhando para nós
A presença brasileira em festivais internacionais não se resume a um único título. Em 2025, “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, levou o cinema brasileiro novamente ao centro do Festival de Cannes. O filme recebeu os prêmios de Melhor Direção, para Mendonça Filho, e Melhor Ator, para Wagner Moura, na competição oficial, além de reconhecimentos paralelos da crítica e de exibidores franceses. A obra foi produzida em coprodução entre Brasil, França, Holanda e Alemanha.

O resultado também chama atenção pela origem do diretor. Kleber Mendonça Filho construiu uma obra profundamente ligada a Recife, ao cotidiano pernambucano e às contradições sociais e políticas brasileiras. Em Cannes, essa produção deixou de ser uma história exclusivamente local para entrar em uma conversa internacional, sem precisar apagar a cidade onde foi concebida.

Em 2026, outro exemplo veio de Pernambuco. “A Margem do Rio”, dirigido por Matheus Farias e Enock Carvalho, estreou mundialmente no Festival de Locarno, na Suíça, e foi o único filme brasileiro na disputa pelo Leopardo de Ouro. Poucos dias depois, a produção recebeu o Prêmio Especial do Júri. Ambientado em Recife e centrado no romance entre Izaquiel, auxiliar de serviços gerais, e Jeremias, pescador, o filme levou ao circuito internacional personagens e espaços que também fazem parte de um Brasil distante dos cartões-postais. É uma característica que atravessa boa parte da produção recente: o território deixa de ser simples cenário e passa a participar da identidade do filme. Recife, Quixadá, Marajó, Belo Horizonte, Salvador ou outras cidades e regiões podem estar no centro da narrativa sem que isso seja tratado como uma curiosidade exótica para o público estrangeiro.


“Ainda Estou Aqui” abriu uma porta que continua aberta
Se “Feito Pipa” chega ao Oscar depois de uma passagem internacional construída desde Berlim, o caso de “Ainda Estou Aqui” ajuda a compreender como essa circulação pode se ampliar. O filme de Walter Salles estreou mundialmente no Festival de Veneza de 2024, onde recebeu o prêmio de Melhor Roteiro. Depois, passou por outros festivais, foi escolhido pela Academia Brasileira de Cinema para representar o país no Oscar 2025 e entrou na shortlist da categoria de Melhor Filme Internacional.

A trajetória terminou com um acontecimento histórico: “Ainda Estou Aqui” venceu o Oscar de Melhor Filme Internacional na cerimônia realizada em 2025. A própria Academia registra o Brasil como vencedor da categoria, com o filme dirigido por Walter Salles. Antes da premiação, porém, houve um percurso que começou muito antes da cerimônia. Veneza, Vancouver, Toronto e outros festivais ajudaram a colocar a produção em circulação, enquanto a distribuição internacional ampliou o acesso ao filme em diferentes territórios.

Esse caminho mostra uma diferença importante entre simplesmente produzir um filme e fazer com que ele encontre espectadores fora do país. A seleção para um festival pode abrir portas, mas depois vêm negociações de distribuição, agentes internacionais, imprensa, mercados, mostras, legendagem, contratos e estratégias para que a obra continue circulando. O festival, portanto, pode ser o começo de uma segunda vida para um filme.

Cannes, Berlim, Veneza: vitrines diferentes para filmes
Os grandes festivais internacionais cumprem funções distintas dentro desse circuito. Berlim, Cannes, Veneza, Locarno, Toronto e Sundance possuem programações, públicos e estruturas de mercado próprias. Entrar em uma dessas seleções significa colocar uma produção brasileira diante de curadores, críticos, distribuidores, programadores e compradores de diferentes países.

A própria Ancine mantém iniciativas voltadas à aproximação entre o cinema brasileiro e os grandes festivais. O programa “Encontros com o Cinema Brasileiro”, desenvolvido em parceria com o Ministério das Relações Exteriores e com o apoio do Cinema do Brasil, foi criado justamente para aproximar curadores internacionais da produção nacional e ampliar sua presença no circuito. Entre os festivais envolvidos ao longo das edições estão Cannes, Berlim, Toronto, Sundance, Veneza, Locarno, San Sebastián e Roterdã.

Esse trabalho de aproximação é menos visível para o público que compra ingresso, mas pode ser decisivo para um filme independente. Antes de uma produção chegar a uma sala francesa, alemã, mexicana ou canadense, existe uma rede profissional responsável por apresentá-la, negociá-la e encontrar o espaço adequado para sua circulação. É nesse ponto que o cinema brasileiro também deixa de ser somente uma questão artística e passa a envolver uma cadeia internacional de negócios.


Coproduzir para atravessar fronteiras
As coproduções internacionais entram nessa equação. Elas podem reunir produtoras, recursos, profissionais e estruturas de diferentes países e facilitar a circulação de uma obra desde sua própria concepção. Em 2026, por exemplo, a Ancine e o Ministério da Cultura lançaram uma chamada de coprodução Brasil-Portugal com aproximadamente R$ 2 milhões do Fundo Setorial do Audiovisual para longas-metragens de ficção, documentário e animação. A iniciativa brasileira foi acompanhada por uma chamada portuguesa, criando uma estrutura bilateral de financiamento.

Outro edital lançado no mesmo ano destinou aproximadamente R$ 1,5 milhão do FSA à coprodução Brasil-Argentina. A chamada prevê a participação de produtoras brasileiras independentes como coprodutoras minoritárias, enquanto o Instituto Nacional de Cine y Artes Audiovisuales, da Argentina, mantém mecanismo correspondente para os projetos em que a participação argentina seja minoritária.

São mecanismos que ajudam a entender uma das questões levantadas na matéria anterior deste dossiê: dinheiro, produção e circulação estão ligados. Um filme pode nascer em uma determinada região brasileira, contar com recursos nacionais, estabelecer uma coprodução internacional e depois encontrar seu público em festivais e salas de outros países.


Um cinema que viaja sem deixar o território para trás
Existe uma questão curiosa na internacionalização do cinema brasileiro. Para ser reconhecido fora do país, um filme nacional não precisa necessariamente parecer menos brasileiro.“Ainda Estou Aqui” levou para Veneza e depois para o Oscar uma história marcada pela ditadura militar e pela experiência de uma família carioca. “O Agente Secreto” levou Recife e a memória política do país a Cannes. “Feito Pipa” saiu do sertão cearense para Berlim e, agora, para o caminho do Oscar. “A Margem do Rio” colocou Recife novamente em uma vitrine internacional a partir de uma história de amor entre dois homens. São filmes muito diferentes entre si, mas existe um ponto de contato: nenhum deles precisou abandonar o lugar de onde veio para encontrar espectadores em outros países.

Essa circulação também altera a própria imagem do Brasil projetada internacionalmente. Em vez de um país representado somente por paisagens reconhecíveis ou por histórias já conhecidas no exterior, aparecem crianças do interior, trabalhadores, famílias, pessoas LGBTQIA+, mulheres, personagens negros, idosos, moradores de grandes cidades e comunidades afastadas dos centros econômicos. O país que viaja nas telas fica maior quando o cinema encontra mais de um Brasil dentro do Brasil.


O Oscar é uma porta, não a chegada
A escolha de “Feito Pipa” para representar o país no Oscar 2027 abre outra discussão. O reconhecimento da Academia Brasileira de Cinema coloca o filme em uma nova etapa de circulação internacional. A candidatura, por si só, não significa que a produção esteja automaticamente entre os indicados finais. A lista de indicados será anunciada posteriormente pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.

Esse cuidado é necessário porque o Oscar costuma concentrar uma atenção enorme, mas o circuito internacional é muito maior do que a premiação de Hollywood. Um filme pode construir uma carreira relevante em Berlim, Cannes, Veneza, Locarno, Toronto, Sundance ou em festivais especializados sem necessariamente chegar à disputa por uma estatueta. O percurso de “Feito Pipa” já demonstra isso. Antes da escolha para representar o Brasil, o filme passou por Berlim e recebeu dois prêmios importantes na Generation Kplus. Depois, encontrou outros festivais e públicos. A indicação ao Oscar, caso venha a acontecer, será mais uma etapa de uma trajetória que começou muito antes.


O Brasil que chega ao mundo
Ao longo de sete matérias, este dossiê passou por personagens, territórios, diretores, políticas públicas, dinheiro e agora circulação internacional. O fio que liga esses assuntos talvez esteja justamente na possibilidade de enxergar o cinema brasileiro como uma produção formada por muitos centros, muitas vozes e diferentes caminhos.

O chamado “novo cinema brasileiro” não cabe em uma geração específica. Também não se limita a uma estética ou a uma cidade. Ele aparece quando um menino de Quixadá ocupa uma tela em Berlim, quando Recife chega a Cannes e Locarno, quando uma família brasileira atravessa Veneza e alcança o Oscar, quando políticas públicas permitem que uma produtora regional coloque um projeto de pé e quando uma história criada em um território específico encontra espectadores do outro lado do oceano. Internacionalizar o cinema brasileiro não significa fazer o país caber na expectativa de quem olha de fora, mas permitir que diferentes Brasis tenham a oportunidade de ser vistos.


Dossiê Resenhando - Novo Cinema Brasileiro

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

.: Novo cinema brasileiro revela quem paga a conta para filme chegar até você


Fundo Setorial do Audiovisual, leis de incentivo, editais estaduais e municipais e políticas de descentralização ajudam a financiar uma produção que movimentou cifras recordes em 2025


Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Antes de existir um filme, existe uma pergunta pouco cinematográfica: quem vai pagar por ele? A questão costuma desaparecer quando começam os festivais. Depois de pronto, o filme ganha cartaz, trailer, entrevistas, sessões e, em alguns casos, prêmios internacionais. O público vê o resultado, enquanto os créditos finais passam rapidamente diante dos olhos. Antes disso, porém, existe um percurso de desenvolvimento, roteiro, contratação de equipe, preparação, filmagem, montagem, finalização, distribuição e divulgação que precisa ser financiado.

O crescimento recente do cinema brasileiro também passa por essa conta. Em 2025, a Agência Nacional do Cinema registrou R$ 1,41 bilhão em recursos efetivamente destinados para o setor, o maior volume da série histórica. No mesmo ano, havia 1.556 projetos audiovisuais em execução com apoio do fomento da Ancine, enquanto outros 3.697 estavam em fase de captação por leis de incentivo ou de contratação de recursos do Fundo Setorial do Audiovisual, o FSA. O número ajuda a explicar por que falar em novo cinema brasileiro também significa lembrar de política pública, investimento, empresas, editais e mecanismos de financiamento, já que uma boa história ainda precisa encontrar dinheiro para virar imagem.

O dinheiro que volta para o cinema
O principal mecanismo federal de investimento direto no audiovisual é o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), que recebe, entre outras fontes, recursos da Condecine, contribuição criada para estimular e financiar o desenvolvimento da indústria cinematográfica e audiovisual brasileira. Em 2025, o Fundo alcançou números expressivos. Foram R$ 564,3 milhões contratados em investimentos, segundo a Ancine, o maior valor da série histórica, além de R$ 411,1 milhões destinados a operações de crédito para infraestrutura, modernização de estúdios, equipamentos e criação e comercialização de conteúdos. As leis de incentivo liberaram outros R$ 437,8 milhões.

O FSA pode funcionar por meio de investimento em projetos, enquanto suas linhas de crédito financiam empresas e estruturas do setor. Já os mecanismos de incentivo fiscal permitem que projetos habilitados captem recursos junto a empresas e outros investidores dentro das regras estabelecidas pela legislação. A própria Ancine passou a disponibilizar uma ferramenta que permite consultar as fontes de financiamento das obras brasileiras e identificar aquelas que utilizaram recursos públicos administrados pela agência, como o FSA e as leis de incentivo. O mapa financeiro do cinema, portanto, é mais complexo do que uma simples pergunta sobre quem “bancou” determinado filme.


O Fundo que chega antes do filme
Em 2025, o Comitê Gestor do FSA aprovou um Plano Anual de Investimentos de R$ 911 milhões. Desse valor, R$ 330 milhões foram planejados para o Prodecine, voltado ao cinema; R$ 315 milhões para o Prodav, relacionado à televisão; e R$ 266 milhões para operações de crédito do Proinfra. A existência dessas linhas significa que o financiamento pode alcançar diferentes etapas da cadeia. Desenvolvimento de projeto, produção, infraestrutura, circulação e internacionalização fazem parte de um sistema que tenta manter o audiovisual funcionando para além de um filme específico.

Em dezembro de 2025, por exemplo, o Comitê Gestor aprovou novas ações que incluíram R$ 100 milhões para suplementação da produção cinematográfica, R$ 30 milhões para complementação de projetos, R$ 90 milhões relacionados ao desempenho comercial de produtoras, R$ 40 milhões para desempenho artístico e R$ 25 milhões para coproduções internacionais binacionais. O cinema, portanto, pode receber dinheiro em momentos diferentes. Um projeto pode precisar de recursos para ser desenvolvido antes de conseguir filmar. Uma produtora pode precisar complementar o orçamento. Uma coprodução internacional pode abrir outra porta de financiamento. A famosa expressão “tirar um filme do papel” envolve uma papelada considerável.


O dinheiro também precisa sair do eixo
Se o dinheiro se concentrasse nos mesmos lugares onde historicamente estão as maiores produtoras, distribuidoras, equipes e estruturas, a descentralização da produção continuaria sendo apenas uma promessa. Por isso, os chamados "arranjos regionais" ganharam importância dentro do FSA. O mecanismo combina recursos federais e investimentos de estados e municípios para apoiar políticas audiovisuais locais.

Na edição de 2025, o programa teve R$ 300 milhões aprovados pelo FSA como complemento aos recursos dos entes locais. No resultado final, 41 entes locais foram selecionados e, pelas regras da chamada, 70% dos recursos foram destinados às regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, enquanto 30% ficaram para propostas do Sul, Minas Gerais e Espírito Santo. A complementação federal pode chegar a cinco vezes o aporte do ente nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste e a quatro vezes no segundo grupo. A lógica é simples de entender, embora a operação seja bem mais complicada: o dinheiro federal entra para reforçar estruturas e recursos que já estão sendo organizados localmente.

Em vez de imaginar que uma produtora de Fortaleza, Recife, Belém ou Goiânia precisa disputar exatamente as mesmas condições de uma empresa instalada no Rio de Janeiro ou em São Paulo, a política tenta criar mecanismos para fortalecer os próprios ecossistemas regionais. É uma mudança importante porque cinema não se faz apenas durante as semanas de filmagem. Para existir produção contínua, uma região precisa de roteiristas, produtores, técnicos, equipamentos, empresas, espaços de formação, festivais, salas e capacidade de distribuição.


Paulo Gustavo deixou dinheiro na ponta
Outro capítulo dessa história foi escrito pela Lei Paulo Gustavo. Criada em 2022, a legislação destinou R$ 3,862 bilhões para ações culturais em todo o território nacional. O dinheiro foi transferido pela União aos estados, ao Distrito Federal e aos municípios, que ficaram responsáveis pela execução de editais, chamamentos públicos, premiações e outras formas de seleção. A diferença em relação a um edital federal tradicional está justamente nessa descentralização. O dinheiro chega aos governos locais, que passam a organizar chamadas de acordo com suas realidades.

Para o audiovisual, isso pode significar recursos para curta-metragem, desenvolvimento de projetos, formação, cineclubismo, manutenção de espaços e outras atividades que dificilmente aparecem quando o público pensa apenas no filme pronto. A Política Nacional Aldir Blanc, por sua vez, foi criada como uma política permanente de financiamento cultural. O modelo prevê um total de R$ 15 bilhões em repasses ao longo de sua implementação, distribuídos de forma descentralizada entre estados, Distrito Federal e municípios. No segundo ciclo, referente a 2025 e 2026, todos os estados e 99,9% dos municípios haviam aderido à política, segundo o Ministério da Cultura.

O resultado dessa descentralização não aparece necessariamente no cartaz de um filme famoso. Pode estar em uma oficina de roteiro, na compra de equipamentos para uma produtora, na formação de uma equipe técnica ou no primeiro curta de alguém que ainda está longe dos festivais internacionais. É assim que uma política cultural começa a produzir efeitos antes mesmo de existir um filme para o público assistir.


O Ceará coloca dinheiro no próprio cinema
O caso do Ceará ajuda a visualizar essa engrenagem. Em 2026, o 16º Edital Ceará de Cinema e Audiovisual reuniu um conjunto de ações que totaliza R$ 34 milhões sendo R$ 25 milhões provenientes do FSA e R$ 9 milhões do Fundo Estadual de Cultura. O pacote inclui modalidades para curtas, desenvolvimento de roteiros, difusão, produção de longas-metragens para salas de cinema e produção para TV e vídeo sob demanda.

É uma política que tenta alcançar diferentes momentos da cadeia. Um cineasta pode precisar de dinheiro para desenvolver o roteiro muito antes de conseguir captar o orçamento de produção. Uma produtora pode precisar de recursos para filmar. Depois, ainda existe a etapa de levar a obra ao público. O cinema independente depende dessa continuidade. 

“Feito Pipa”, filme escolhido para representar o Brasil no Oscar, portanto, não deve ser entendido apenas pelo valor de um eventual edital ou pela quantidade de instituições que aparecem em seus créditos. O filme é resultado de uma cadeia de produção na qual diferentes mecanismos podem se somar. A própria trajetória da Deberton Filmes, sediada em Fortaleza, mostra como uma produtora regional pode construir projetos ao longo de anos, articulando produção, distribuição e parcerias.

Existe ainda outro caminho: os mecanismos de incentivo fiscal. A Lei do Audiovisual permite que projetos habilitados captem recursos dentro de determinados mecanismos de incentivo. Em 2025, a Ancine liberou R$ 437,8 milhões por meio das leis de incentivo, mantendo esse mecanismo como uma das fontes importantes de financiamento da produção brasileira.

Nesse mesmo ano, os limites de aporte dos mecanismos previstos nos artigos 1º e 1º-A da Lei do Audiovisual foram atualizados para até R$ 12 milhões na soma desses dispositivos, enquanto os artigos 3º e 3º-A passaram a ter limite de R$ 9 milhões na soma. A legislação também teve sua vigência prorrogada até 2029. Na prática, o produtor não recebe simplesmente um cheque do governo para fazer o filme. Existem regras, aprovação do projeto, captação, prestação de contas e acompanhamento da execução. É uma engrenagem que mistura dinheiro público, participação privada e mecanismos de incentivo.


Coproduzir também é uma maneira de produzir
Quando o orçamento brasileiro não é suficiente para determinado projeto, a coprodução internacional pode abrir outra possibilidade. Em 2026, o FSA lançou chamadas específicas para coproduções com Portugal e Argentina. A chamada com Portugal prevê aproximadamente R$ 2 milhões em recursos do FSA para longas-metragens brasileiros realizados em coprodução com o país europeu. A chamada com a Argentina prevê aproximadamente R$ 1,5 milhão do Fundo para longas brasileiros realizados em coprodução com produtoras argentinas.

Coprodução não significa simplesmente conseguir dinheiro estrangeiro. Ela envolve regras, empresas dos países envolvidos, divisão de responsabilidades e reconhecimento formal da parceria. Também pode ampliar o caminho internacional de um filme. Uma obra que nasce no Brasil pode encontrar parceiros, financiamento, profissionais e circuitos de circulação em outros países. O cinema contemporâneo, nesse sentido, pode ser local na história e internacional na estrutura de produção.


O filme começa muito antes da câmera
Existe uma imagem romântica do cinema que começa quando a câmera é ligada. Na prática, o filme já começou muito antes. Começa quando alguém escreve um argumento, procura uma produtora, desenvolve um roteiro, apresenta um projeto, participa de um laboratório, procura financiamento, entra em um edital, negocia uma coprodução, monta um plano de produção e tenta convencer outras pessoas de que aquela história merece existir.

Depois vêm contratação de equipe, locações, elenco, equipamentos, transporte, alimentação, seguros, montagem, correção de cor, desenho de som, acessibilidade, cópias, materiais de divulgação, distribuição e tudo aquilo que aparece nos créditos quando a sessão termina. É por isso que o número de 3.981 obras audiovisuais brasileiras registradas em 2025, recorde histórico, precisa ser lido ao lado dos dados de financiamento. A Ancine registrou ainda 2.500 obras brasileiras independentes naquele ano, crescimento de 6,7% em relação a 2024, e 810 registros de produtoras sediadas no Centro-Oeste, Norte e Nordeste, alta de 9%.

No entanto, o aumento dos recursos não elimina os problemas: um edital não garante que um filme encontrará público. Um prêmio não paga sozinho a próxima produção. Um projeto aprovado pode enfrentar dificuldades de captação. Uma produtora pode conseguir realizar um filme e ainda ter problemas para distribuí-lo. Além disso, o dinheiro destinado à produção precisa chegar em tempo suficiente para que o setor consiga transformar orçamento em trabalho.

A própria Ancine registrou, ao lado dos recordes de 2025, milhares de projetos ainda em fase de captação ou contratação. O número mostra que existe dinheiro disponível e uma demanda enorme por recursos. Também existe uma questão que os números não resolvem sozinhos: quem consegue acessar os mecanismos de financiamento? Para um produtor experiente, entender um edital pode fazer parte da rotina. Para quem está começando, as exigências técnicas, jurídicas e administrativas podem ser uma barreira tão grande quanto encontrar dinheiro.


O cinema que aparece na tela tem muitos investidores invisíveis
Quando “Feito Pipa” chegar aos cinemas brasileiros, em 5 de novembro, o espectador poderá acompanhar Gugu, Dilma e aquela história familiar ambientada no Ceará. Poderá gostar ou não do filme, emocionar-se, discordar, encontrar referências próprias ou simplesmente seguir para a próxima sessão. Por trás dessa experiência estarão produtoras, profissionais, equipamentos, editais, fundos, leis de incentivo, investimentos, coproduções e anos de trabalho. Alguns desses nomes aparecem nos créditos. Outros ficam escondidos nos documentos de financiamento.

Em 2025, o audiovisual brasileiro recebeu o maior volume de recursos efetivamente desembolsados pela Ancine em sua série histórica. Ao mesmo tempo, a produção independente bateu recorde e regiões fora do eixo tradicional aumentaram sua participação. Ainda existe uma longa estrada entre conseguir dinheiro e atrair público. Saber disso é uma boa maneira de olhar para o chamado novo cinema brasileiro: os filmes que fazem parte dele são resultado de uma infraestrutura que tornou possível filmá-los.

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

.: Novo cinema brasileiro revela diretores que ampliam a ideia de autoria


De Allan Deberton a Grace Passô, cineastas com trajetórias, idades e formações diferentes constroem filmes autorais a partir de territórios, experiências pessoais e maneiras diversas de olhar para o Brasil

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Se existe uma palavra que costuma aparecer quando se fala em cinema brasileiro contemporâneo, é “novo”. O problema começa quando ela precisa ser definida. Novo em relação a quê? À idade dos diretores? À linguagem? Aos temas? À maneira de produzir? À presença em festivais internacionais? A lista brasileira que disputou a indicação ao Oscar 2027 ajuda a complicar a resposta.

Entre os seis finalistas estavam Allan Deberton, Carlos Saldanha, Eliza Capai, Gabriel Martins, Grace Passô e Rafaela Camelo. São profissionais com trajetórias bastante diferentes, vindos de experiências distintas e que chegaram ao cinema por caminhos que não cabem em uma mesma biografia. “Feito Pipa”, de Deberton, acabou escolhido pela Academia Brasileira de Cinema, mas os outros cinco filmes ajudam a entender a diversidade de autoria existente no país.


Allan Deberton levou o Ceará para o centro da conversa
A trajetória de Allan Deberton começa em Russas, no interior do Ceará, passa pela Universidade Federal Fluminense e retorna ao estado de origem por meio das próprias histórias. Formado em Cinema pela Universidade Federal Fluminense, o diretor teve curtas exibidos em mais de 150 festivais nacionais e internacionais, acumulando 76 prêmios antes de chegar a “Feito Pipa”. O caminho também passa por “Pacarrete”, filme de 2019 que conquistou oito Kikitos no Festival de Gramado, e por uma produtora que Deberton mantém em Fortaleza ao lado do produtor Marcelo Pinheiro.

A Deberton Filmes foi criada em 2001 e trabalha com desenvolvimento, produção e distribuição. Além de “Pacarrete”, produziu “Transversais” e “O Melhor Amigo”, lançado em 2025, antes de chegar à coprodução de “Feito Pipa” com a Biônica Filmes e a Warner Bros. Pictures Brasil. O percurso é significativo porque Deberton não precisou transformar o Ceará em uma paisagem exótica para fazer um filme reconhecível fora do Brasil. 

“Feito Pipa” surgiu de memórias de infância, foi filmado em Quixadá e chegou à Berlinale, onde recebeu o Urso de Cristal e o Grande Prêmio do Júri Internacional da Generation Kplus. Depois, acumulou outros reconhecimentos até ser escolhido para representar o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar 2027. O próximo projeto do diretor, “A Adoção”, também já vem conectado a uma rede internacional de produção, com participação de Deberton Filmes, Paramount Pictures, Iwaso Films e Arthood Films. 


Gabriel Martins transforma a experiência coletiva em cinema
Gabriel Martins chegou ao cinema por uma trajetória ligada à Filmes de Plástico, produtora criada em Belo Horizonte por ele, André Novais Oliveira, Maurílio Martins e Thiago Macêdo Correia. O grupo se tornou um dos exemplos mais conhecidos de produção independente brasileira surgida fora do eixo tradicional. “Marte Um”, lançado em 2022, ampliou essa trajetória para um público internacional e foi escolhido pelo Brasil para disputar uma vaga no Oscar 2023. Quatro anos depois, Martins retorna com “Vicentina Pede Desculpas”, filme protagonizado por uma professora aposentada de 75 anos que tenta lidar com as consequências de um acidente provocado pelo próprio filho. 

A mudança de idade da protagonista já diz alguma coisa sobre o caminho percorrido pelo diretor. Depois de acompanhar uma família negra de classe média baixa em “Marte Um”, Martins volta sua atenção para uma mulher idosa diante de uma tragédia que a obriga a percorrer a cidade em busca das famílias das vítimas. “Vicentina Pede Desculpas” também amplia a circulação internacional do diretor. Em 2026, o filme foi selecionado para a competição oficial do Festival de San Sebastián e para a seção Plataforma do Festival Internacional de Cinema de Toronto.


Grace Passô chegou ao cinema por outro caminho
Grace Passô representa outra espécie de percurso. Atriz, dramaturga e diretora, ela construiu uma carreira de destaque principalmente no teatro antes de chegar à direção de um longa-metragem. “Nosso Segredo” marca sua estreia na direção de longas e nasceu de uma peça escrita por ela duas décadas antes, “Amores Surdos”. A adaptação leva para o cinema uma família negra que tenta reconstruir a rotina depois da morte do pai, misturando drama familiar, elementos fantásticos e uma linguagem que mantém relação com a experiência teatral da diretora.

O filme também chegou ao Festival de Gramado cercado de atenção e venceu o Kikito de Melhor Longa-Metragem Brasileiro, além de outros prêmios. Existe uma ironia interessante nessa estreia: Grace Passô não aparece como uma desconhecida que descobriu o cinema de repente, já que chega ao primeiro longa-metragem carregando anos de experiência com dramaturgia, atuação e direção. O primeiro filme, nesse caso, é apenas o primeiro longa-metragem, não o primeiro capítulo da carreira. 


Rafaela Camelo estreia no longa-metrag
em depois de rodar o mundo
Rafaela Camelo oferece outro exemplo. “A Natureza das Coisas Invisíveis” é o primeiro longa-metragem dela, mas a diretora e roteirista já vinha acumulando experiências em curtas, laboratórios e festivais internacionais. Formada em Audiovisual pela Universidade de Brasília e pós-graduada em roteiro pela FAAP, Camelo dirigiu “O Mistério da Carne”, selecionado para o Sundance Film Festival em 2019. Com “As Miçangas”, codirigido com Emanuel Lavor, voltou à Berlinale em 2023. Em 2025, estreou “A Natureza das Coisas Invisíveis” na Berlinale.

O filme acompanha Glória e Sofia, duas meninas de dez anos que se conhecem em um hospital durante as férias. A partir da amizade entre elas, a narrativa passa por doença, ausência, memória e mudanças familiares. Camelo também aparece entre os finalistas do Grande Otelo 2026 na categoria de Melhor Primeira Direção de Longa-Metragem. A carreira dela mostra como funciona uma parte menos visível do cinema contemporâneo: antes de um longa chegar ao público, existe uma longa caminhada por oficinas, laboratórios, programas de desenvolvimento, curtas e festivais. 


Eliza Capai leva o documentário para dentro da brincadeira
Eliza Capai também chegou à disputa do Oscar 2027 por uma via diferente. “A Fabulosa Máquina do Tempo” é um documentário construído a partir do encontro com meninas do sertão do Piauí, que inventam uma máquina do tempo para imaginar o passado de suas mães e avós e projetar os próprios futuros. A diretora já havia trabalhado com temas sociais e políticos em “Espero tua (Re)volta”. No novo filme, porém, encontra outra maneira de construir a narrativa: a brincadeira vira ferramenta de investigação.

Meninas de dez anos falam sobre religião, gênero, casamento, alcoolismo, pobreza e desigualdade enquanto inventam regras, personagens e futuros. O documentário se aproxima da infância sem retirar das personagens a capacidade de interpretar a própria realidade. A escolha formal também diz respeito à autoria. Sem transformar as meninas em fontes de depoimentos previsíveis para falar sobre desigualdade, ela deixa que a imaginação delas participe da construção do filme. A máquina do tempo existe porque o cinema permite inventá-la.


Carlos Saldanha chega de Hollywood sem abandonar o Brasil
Carlos Saldanha é o nome que mais desmonta a ideia de que o “novo cinema brasileiro” precisa ser feito exclusivamente por profissionais que começaram recentemente. Diretor de animações como “A Era do Gelo”, “Rio” e “O Touro Ferdinando”, Saldanha construiu durante décadas uma carreira internacional ligada à indústria norte-americana. Em “100 Dias”, porém, retorna a uma história brasileira inspirada na travessia de Amyr Klink pelo Atlântico Sul.

O filme acompanha o navegador durante a viagem solitária entre a África e o Brasil e transforma uma experiência real em uma narrativa sobre resistência física, memória e relações familiares. A produção teve première brasileira no Festival do Rio, onde foi escolhida para a Gala de Encerramento. O movimento é curioso porque Saldanha poderia ser apresentado apenas como um brasileiro que fez carreira fora do país. 


Marianna Brennand filma uma infância que já tinha história
Marianna Brennand também construiu sua relação com o cinema a partir do documentário. Em “Manas”, porém, leva para a ficção uma personagem adolescente que vive na Ilha do Marajó. O filme acompanha Marcielle (Jamilli Corrêa), de 13 anos, enquanto ela percebe as limitações impostas às mulheres de sua família e começa a imaginar uma maneira diferente de conduzir a própria vida.

A produção tem uma trajetória internacional expressiva e também aparece entre os finalistas do Grande Otelo 2026 na categoria de Melhor Direção. Brennand também assina a produção do filme pela Inquietude, em parceria com outras empresas brasileiras e portuguesas. A ficha técnica reúne ainda nomes como os produtores associados Jean-Pierre e Luc Dardenne, o que mostra como uma produção brasileira pode estabelecer pontes com outros circuitos de cinema sem deixar de partir de uma história profundamente localizada.

O “novo cinema brasileiro” pode ter sotaques, idades, métodos e até modelos de produção diferentes. O que aproxima esses cineastas não é uma cartilha, mas a disposição de encontrar uma forma própria de olhar para um país que continua oferecendo histórias demais para caber em um único cinema.

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

.: Novo cinema brasileiro reúne 15 filmes e desenha muitos Brasis


De Amyr Klink à Revolta dos Malês, de uma família negra em luto a profissionais do sexo da Vila Mimosa, lista brasileira para o Oscar 2027 apresentou histórias, gêneros, territórios e personagens muito diferentes antes de “Feito Pipa” ser escolhido

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.


Antes de “Feito Pipa” ganhar o direito de representar o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar 2027, outros 14 filmes dividiram com a produção de Allan Deberton a atenção da Academia Brasileira de Cinema. A lista de 15 títulos habilitados à disputa reuniu ficções, documentários, histórias contemporâneas, personagens históricos, crianças, idosos, artistas, criminosos, profissionais do sexo, famílias, políticos, aventureiros e personagens que poderiam facilmente habitar universos cinematográficos completamente diferentes. A escolha final aconteceu em 16 de setembro, depois de uma primeira triagem que reduziu os 15 títulos para seis.  

Além de “Feito Pipa”, chegaram à segunda etapa “100 Dias”, “A Fabulosa Máquina do Tempo”, “A Natureza das Coisas Invisíveis”, “Nosso Segredo” e “Vicentina Pede Desculpas”. A comissão formada pela Academia Brasileira de Cinema acabou escolhendo o filme de Allan Deberton, que agora segue no processo internacional do Oscar. O interessante está, também, no que aconteceu antes da escolha. Olhar para os 15 filmes permite enxergar uma espécie de fotografia do cinema brasileiro contemporâneo, ainda que uma lista de premiação nunca consiga representar sozinha toda a produção de um país.


"A Fabulosa Máquina do Tempo": no sertão do Piauí, meninas de dez anos navegam entre TikTok, cultos evangélicos e sonhos de futuro

Um barco, uma máquina do tempo e um menino do Ceará
“100 Dias”, de Carlos Saldanha, acompanha uma experiência real que parece ter sido escrita para o cinema: a travessia do Atlântico Sul feita por Amyr Klink a remo, entre a África e o Brasil. Sozinho em um pequeno barco, o navegador enfrenta o oceano enquanto a narrativa também mergulha em memórias, conflitos familiares e nos limites físicos e emocionais de quem decidiu encarar uma viagem dessa dimensão.

Já “A Fabulosa Máquina do Tempo”, de Eliza Capai, parte do sertão do Piauí para acompanhar meninas que circulam entre religião, redes sociais, histórias familiares e sonhos de futuro. A invenção de uma máquina do tempo permite que elas revisitem as experiências de mães e avós e imaginem outras possibilidades para suas próprias vidas.

“A Natureza das Coisas Invisíveis”, de Rafaela Camelo, também olha para a infância. Glória, de dez anos, conhece Sofia durante uma temporada no hospital onde a mãe trabalha. A amizade entre as duas nasce em meio à doença da bisavó de Sofia e continua quando as meninas e suas mães seguem para o interior de Goiás.

Em “Feito Pipa”, Allan Deberton leva o espectador para Quixadá, no Ceará, onde um menino de 12 anos, interpretado por Yuri Gomes, vive com a avó Dilma (Teca Pereira) e enfrenta a possibilidade de precisar morar com o pai, vivido por Lázaro Ramos. Futebol, família, infância, afeto e pertencimento se encontram na história que acabou escolhida pela Academia Brasileira de Cinema.


Quando o desejo vira assunto
“Ato Noturno”, dirigido por Marcio Reolon e Filipe Matzembacher, leva a lista de candidatos a representante do Brasil no Oscar para um território completamente diferente. O filme acompanha um ator ambicioso (interpretado por Gabriel Faryas) e um político em ascensão (Cirillo Luna) que mantêm um relacionamento secreto e compartilham o desejo por encontros sexuais em locais públicos. Conforme os dois se aproximam da fama, o risco também aumenta. O filme coloca sexualidade, desejo, exposição e poder dentro de uma mesma história. A relação entre os personagens também introduz uma questão recorrente no cinema contemporâneo: aquilo que uma pessoa faz quando a vida pública começa a entrar em conflito com aquilo que deseja viver longe dos olhos dos outros.

“Cinco Tipos de Medo”, de Bruno Bini, parte de outro tipo de tensão. Murilo (João Vitor Silva) é um jovem músico em luto que se envolve com Marlene (Bella Campos), uma enfermeira presa a um relacionamento abusivo com um traficante. As histórias deles se cruzam com as de Luciana (Bárbara Colen), uma policial movida por vingança, e Ivan (Rui Ricardo Diaz), um advogado com segundas intenções. O filme é inspirado em histórias reais e organiza os personagens em uma trama de vidas que se aproximam até o ponto de não haver mais caminho de volta.


Três mulheres apostam tudo
“Dolores”, de Maria Clara Escobar e Marcelo Gomes, foca em três gerações de mulheres. Aos 65 anos, Dolores (Carla Ribas) tem uma premonição de que a vida dela vai mudar e imagina um futuro como dona de um cassino de sucesso. O problema é que o passado de vício em jogo continua por perto. A filha, Deborah (Naruna Costa), espera a saída do namorado da prisão para começar uma nova vida. Duda (Ariana Aparecida), neta de Dolores, vê uma oportunidade de trabalhar nos Estados Unidos. As três projetam futuros diferentes e apostam em mudanças que podem alterar a trajetória da família.

Em “Herança de Narcisa”, de Clarissa Appelt e Daniel Dias, a relação familiar também conduz a história. Ana (Paolla Oliveira) quer vender a casa onde passou a infância depois da morte da mãe, uma grande vedete chamada Narcisa (Rosamaria Murtinho), e dividir o dinheiro com o irmão Diego (Pedro Henrique Müller). O problema surge quando sinais da presença do espírito da mãe começam a aparecer.

“Vicentina Pede Desculpas”, de Gabriel Martins, apresenta outra mulher mais velha como protagonista. Vicentina (Rejane Farias) é uma professora aposentada de 75 anos e mãe de Wesley (Renato Novaes), motorista de um ônibus envolvido em um acidente que mata praticamente todos os passageiros. Depois da tragédia, ela procura as famílias das vítimas para pedir desculpas.


O Brasil que aparece quando a câmera muda de lugar
“Nosso Segredo”, de Grace Passô, acompanha uma família negra tentando reconstruir a rotina depois de uma perda. Cada integrante lida com o luto de uma maneira, enquanto o filho caçula guarda um segredo que pode levar a família a encarar as raízes de suas dores. Eles são uma família, com problemas, afetos, conflitos e segredos. O fato de serem negros integra essa experiência, mas não esgota seus personagens.

“Malês”, dirigido por Antonio Pitanga, olha para outro momento da história brasileira. Ambientado em Salvador, em 1835, o filme acompanha dois jovens muçulmanos que são separados depois de serem escravizados no Brasil. A trajetória dos dois se cruza com a Revolta dos Malês, uma das maiores insurreições de pessoas escravizadas da história brasileira. Entre um drama familiar contemporâneo e uma produção histórica ambientada no século XIX existe uma distância enorme. Ainda assim, os dois filmes colocam personagens negros no centro da narrativa e trabalham com experiências que durante muito tempo foram representadas de maneira limitada pelo audiovisual brasileiro.

A fama como destino
“O Rei da Internet”, de Fabrício Bittar, acompanha Daniel Nascimento (João Guilherme), personagem inspirado em uma história real. Ele ganhou fama como um dos melhores hackers do Brasil, entrou para uma organização criminosa que movimentava milhões de reais, viveu cercado por luxo e acabou preso em uma operação da Polícia Federal. A internet aparece aqui como território de ascensão, dinheiro e crime. A fama, que em outras histórias pode significar reconhecimento artístico ou sucesso profissional, assume outro formato.

Em “Papagaios”, de Douglas Soares, a obsessão por aparecer também está no centro da narrativa. Tunico (Gero Camilo) é conhecido no Rio de Janeiro como “Papagaio de Pirata”, aquele personagem que persegue repórteres para tentar aparecer nas transmissões de televisão. Depois de sofrer um acidente, ele conhece Beto (Ruan Aguiar), um jovem misterioso que se torna seu aprendiz. A história usa a televisão e a busca pela fama para falar de um Brasil com milhões de aparelhos ligados diariamente, onde aparecer pode se tornar uma espécie de profissão informal. São dois filmes interessados em personagens que querem ser vistos. Um encontra a fama na internet; o outro, na televisão.


Quando a história recente volta a bater à porta
“A Conspiração Condor”, de André Sturm, parte de uma investigação jornalística. Depois da morte de Juscelino Kubitschek em um acidente de carro, um jornalista interpretada por Mel Lisboa começa a investigar o caso. A morte de João Goulart meses depois aumenta suas suspeitas sobre uma possível conspiração relacionada à ditadura militar. O filme entra em uma zona conhecida do cinema brasileiro: a tentativa de revisitar acontecimentos históricos ainda cercados de dúvidas e interpretações. A proposta se aproxima do thriller político e utiliza uma investigação para retornar a um período que continua presente no debate histórico brasileiro.

A variedade da lista também aparece no modo como o passado é abordado. Em “Malês”, o cinema retorna ao século XIX. Em “A Conspiração Condor”, olha para a ditadura militar. Em “Herança de Narcisa”, o passado aparece dentro de uma casa e de uma família. Em “Feito Pipa”, surge nas memórias de infância de seus criadores. O passado brasileiro, portanto, não chega ao cinema de uma única maneira.

O que fica escondido
“Quando Vira a Esquina”, documentário dirigido por Chris Alcazar, leva a câmera para a Vila Mimosa, no Rio de Janeiro, um dos mais conhecidos territórios de prostituição do país. O filme escuta profissionais do sexo que trabalham no local e constrói sua narrativa a partir da relação de confiança estabelecida entre realizadora e personagens. É outro tipo de movimento dentro da lista. Em vez de criar personagens ficcionais, o documentário abre espaço para pessoas que raramente controlam a maneira como suas vidas são representadas.

Essa mesma vontade de olhar para personagens e ambientes pouco convencionais aparece, de maneira diferente, nos demais títulos. A lista não se limita a histórias de famílias de classe média, grandes centros urbanos ou personagens já conhecidos do público. Ela passa por comunidades, profissões, cidades, períodos históricos e experiências que ampliam o repertório do cinema brasileiro.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

.: Novo cinema brasileiro coloca novos personagens no centro das histórias


Filmes recentes aproximam crianças, mulheres, idosos, personagens negros e LGBTQIA+ do centro da narrativa e revelam um país contado a partir de experiências que durante muito tempo apareceram nas margens

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Gugu tem quase 12 anos, gosta de futebol, dança e maquiagem, vive com a avó e tenta administrar sozinho uma situação que ultrapassa a idade que tem. Em “Feito Pipa”, Allan Deberton escolheu esse menino do interior do Ceará para conduzir uma história sobre afeto, família, preconceito, memória e perda. A escolha do personagem ajuda a entender uma das características mais interessantes do cinema brasileiro recente: o centro das narrativas está ficando maior.

Durante muito tempo, o cinema brasileiro comercial e autoral repetiu determinados tipos de protagonista. Homens adultos, urbanos, geralmente inseridos em conflitos políticos, familiares ou profissionais, ocuparam boa parte desse espaço. Eles continuam existindo, naturalmente, mas dividem a cena com personagens que chegam de outros lugares, idades, classes sociais, regiões e experiências.

O resultado aparece em filmes de perfis muito diversos em que circulam personagens que fogem do óbvio. Nessas produções, estão uma menina de 13 anos na Ilha do Marajó, uma professora aposentada de 75 anos em Belo Horizonte, duas meninas que se conhecem em um hospital, uma família negra lidando com o luto, duas mulheres que atravessam deslocamentos entre cidade e campo e um menino cearense criado pela avó podem parecer personagens sem muita relação entre si. Juntos, porém, ajudam a desenhar um país cinematográfico menos preocupado em caber em um único retrato.

A escolha de Gugu como protagonista de “Feito Pipa” chama atenção porque o personagem reúne características que poderiam facilmente empurrá-lo para o papel de coadjuvante dentro de uma história familiar. Ele é criança, vive no interior, gosta de atividades que desafiam expectativas associadas ao comportamento masculino e precisa lidar com a doença da avó enquanto teme ser separado dela.

No filme, essas características organizam a própria narrativa. Gugu, interpretado por Yuri Gomes, conduz o espectador por uma experiência de infância marcada por afeto, insegurança e descoberta, enquanto Dilma, interpretada por Teca Pereira, ocupa outro espaço que costuma receber menos atenção no cinema: o de uma mulher idosa que não existe apenas em função dos personagens mais jovens.

A relação entre os dois é fundamental para o filme e também ajuda a deslocar uma ideia antiga de família no audiovisual. Em vez de colocar adultos como responsáveis por explicar o mundo às crianças, “Feito Pipa” acompanha uma criança que também precisa cuidar, decidir, esconder, compreender e encontrar maneiras de continuar vivendo. A repercussão internacional do filme reforça essa escolha. Antes de ser selecionado para representar o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar 2027, “Feito Pipa” passou pela Berlinale, onde recebeu o Urso de Cristal e o Grande Prêmio do Júri da Generation Kplus, e depois conquistou cinco prêmios no Festival de Gramado, entre eles os reconhecimentos para Yuri Gomes, Teca Pereira e Lázaro Ramos.


Protagonista de "Manas", Jamilli Correa foi descoberta em testes com centenas de crianças na Região Metropolitana de Belém e ilhas próximas, sem nenhuma experiência em atuação. Foto: divulgação

Uma menina olha para o futuro
“Manas”, de Marianna Brennand, também coloca uma adolescente no centro de uma história atravessada por violência, desigualdade e falta de perspectivas. Marcielle tem 13 anos e vive na Ilha do Marajó, no Pará. A personagem percebe que o futuro oferecido a ela segue um roteiro conhecido pelas mulheres de sua família e decide confrontá-lo. A diferença está no ponto de vista. O filme acompanha uma menina que observa o mundo ao redor e começa a entender as estruturas que limitam as possibilidades. Marcielle não aparece como uma figura distante a ser observada pelo público, mas é ela quem conduz a narrativa e percebe, aos poucos, aquilo que os adultos ao redor naturalizaram.

O cinema brasileiro recente tem apresentado outras personagens femininas em posições semelhantes, sem precisar encaixá-las em modelos de heroísmo tradicional. Em “Vicentina Pede Desculpas”, Gabriel Martins acompanha uma professora aposentada de 75 anos que decide procurar as famílias das vítimas de um acidente provocado pelo próprio filho. Vicentina parte de uma tragédia íntima para entrar em contato com pessoas que ela sequer conhece e tentar encontrar uma maneira de continuar vivendo.

A idade da personagem também importa. Mulheres idosas ainda aparecem com frequência menor como protagonistas de histórias cinematográficas, sobretudo quando a narrativa não está organizada em torno da doença, da memória afetiva ou da relação com filhos e netos. Em “Vicentina Pede Desculpas”, Rejane Faria conduz uma personagem que toma decisões, erra, sofre, se movimenta e ocupa a história por inteiro.


Crianças também descobrem o mundo
“A Natureza das Coisas Invisíveis”, dirigido por Rafaela Camelo, aproxima duas meninas de experiências relacionadas à doença, à amizade, à perda e ao amadurecimento. Glória, de dez anos, passa as férias no hospital onde a mãe trabalha e conhece Sofia, outra menina que está lidando com a piora da saúde da bisavó.

A infância aparece novamente como ponto de observação do mundo adulto. Em vez de apresentar crianças como personagens que apenas acompanham as decisões dos pais, o filme acompanha a maneira como elas interpretam acontecimentos que nem sempre conseguem compreender completamente. Parece uma diferença pequena, mas o que acontece é algo grande na construção narrativa. 

A criança deixa de ser apenas uma lembrança da infância dos adultos e passa a ter uma experiência própria, com dúvidas, desejos, medos e interpretações. “Feito Pipa” e “A Natureza das Coisas Invisíveis” partem de situações diferentes, mas compartilham uma escolha: permitir que personagens infantis sustentem questões complexas sem transformá-los em pequenos adultos que reproduzem discursos prontos.


Famílias negras contam as próprias histórias
“Nosso Segredo”, de Grace Passô, parte de uma família negra que tenta reorganizar a vida depois de uma perda. O filme acompanha diferentes maneiras de lidar com o luto e coloca no centro uma família formada por personagens negros, com relações, conflitos e afetos que não precisam ser apresentados ao espectador como uma exceção.

Essa mudança de perspectiva aparece também em outros filmes brasileiros recentes, em que personagens negros ocupam posições variadas dentro das narrativas. Eles podem ser crianças, pais, trabalhadores, artistas, amantes, professores, criminosos, religiosos, idosos, protagonistas ou personagens secundários. A experiência negra deixa de estar limitada a determinados assuntos e passa a integrar a variedade de histórias possíveis.

“Malês”, de Antonio Pitanga, trabalha com outro registro ao recuperar a Revolta dos Malês e acompanhar personagens negros na Salvador de 1835. A produção utiliza um episódio histórico como matéria narrativa, mas também devolve nomes, relações, conflitos e protagonismo a personagens negros que durante muito tempo foram tratados de maneira secundária nas representações audiovisuais da história brasileira.

A diferença entre esses filmes também é reveladora. “Nosso Segredo” parte de uma família contemporânea e de uma experiência de luto. “Malês” olha para o século XIX e para a resistência de pessoas escravizadas. Um fala de uma família; o outro, de uma revolta histórica. Nenhum precisa reduzir seus personagens a uma única questão identitária.


O desejo também muda de lugar
A presença de personagens LGBTQIA+ no cinema brasileiro recente também ajuda a perceber essa ampliação. Em “Feito Pipa”, Gugu é um menino queer que vive sua infância em uma relação de afeto com a avó, enquanto o conflito com o pai está ligado à dificuldade de aceitação de quem ele é. Em “Cidade; Campo”, Juliana Rojas acompanha, entre outras questões, a relação de Flávia e Mara, duas mulheres que se mudam para uma fazenda depois da morte do pai de uma delas. O filme cruza relações afetivas, migração, trabalho, memória e território, sem transformar a relação das duas em uma história isolada do restante da vida.

A presença de personagens LGBTQIA+ nesse cinema também aparece acompanhada de diferenças de classe, idade, região e contexto familiar. Isso amplia a representação porque não existe uma única maneira de contar uma experiência dissidente. O cinema deixa de perguntar apenas quem esses personagens desejam amar e passa a mostrar onde trabalham, como vivem, do que têm medo, o que desejam, de onde vieram e para onde querem ir.


Mulheres atrás e diante da câmera
Os dados mais recentes da Ancine mostram que, entre os 367 longas-metragens brasileiros exibidos em 2025, 78 foram dirigidos exclusivamente por mulheres. O número representa 21,3% do total e supera os 52 filmes dirigidos exclusivamente por mulheres em 2024, quando a participação havia sido de 16,8%.

Ainda existe uma diferença considerável, mas a comparação entre os dois anos ajuda a perceber uma movimentação. “Cidade; Campo”, “Manas” e “A Natureza das Coisas Invisíveis” são exemplos de filmes recentes dirigidos por mulheres em que personagens femininas ocupam posições centrais. A relação entre quem conta e quem é contado não precisa seguir uma regra automática. Uma diretora não precisa fazer filmes sobre mulheres, assim como um homem não está condenado a contar histórias protagonizadas por homens. O que muda quando mais pessoas chegam às diferentes etapas da produção é o número de experiências disponíveis para virar roteiro, personagem, conflito e imagem.


Wagner Moura encabeça o elenco de 'O Agente Secreto', filme de Kleber Mendonça Filho. Foto: divulgação

Um país com mais de um protagonista
“O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, oferece outro caminho. O protagonista é Marcelo, interpretado por Wagner Moura, um homem que retorna ao Recife em 1977 e tenta reencontrar o filho enquanto é perseguido pela repressão da ditadura militar. É um personagem masculino, adulto e inserido em uma trama política, mas a narrativa também se constrói ao redor de figuras que ampliam o retrato daquela cidade e daquele período.

Dona Sebastiana, interpretada por Tânia Maria, é um desses exemplos. O personagem integra uma rede de pessoas que oferecem abrigo e proteção a quem está sendo perseguido. A cidade também deixa de ser apenas cenário: Recife participa da construção da história, com seus cinemas, ruas, hábitos, sons, memórias e personagens. É essa variedade que ajuda a compreender o chamado “novo cinema brasileiro”. O termo não define uma escola estética nem uma geração fechada, mas pode ser observado na quantidade de perspectivas que passam a disputar o centro das narrativas. Compre o roteiro de “O Agente Secreto” neste link.


O centro ficou maior
Uma das melhores maneiras de observar o cinema brasileiro atual seja prestar atenção a quem aparece quando a câmera começa a filmar. As histórias são diferentes, os gêneros variam e os lugares também. O que elas têm em comum é a possibilidade de transformar experiências específicas em matéria de cinema. “Feito Pipa” chegou ao Oscar a partir do Ceará. Outros filmes recentes chegaram a Berlim, Cannes, Sundance, Toronto, San Sebastián e a diferentes festivais brasileiros levando personagens que não precisam abandonar sua origem para serem compreendidos fora dela.

O novo cinema brasileiro, nesse sentido, também pode ser observado pelo tamanho do elenco de protagonistas que ele ostentar. Quanto mais gente encontra espaço para contar a própria história, mais difícil fica resumir o país a meia dúzia de personagens conhecidos. O Brasil continua reconhecível, mas começa a aparecer por ângulos que o cinema nem sempre teve disposição, dinheiro ou liberdade para mostrar.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

.: "As Cores do Tempo" costura passado e presente com arte, família e memória


Filme de Cédric Klapisch acompanha quatro primos que investigam a história de uma ancestral na Paris de 1895 e estreia no streaming Belas Artes À La Carte

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Uma casa abandonada na Normandia, fotografias antigas, pinturas, cartas e uma família numerosa que mal se conhece. É desse conjunto de pistas que Cédric Klapisch parte em "As Cores do Tempo", comédia dramática francesa e belga que coloca quatro primos diante de uma história familiar que começa muito antes de eles nascerem. Depois da passagem pelos cinemas brasileiros e da exibição no 2º Festival de Cinema Europeu Imovision, o filme chega ao streaming Reserva Imovision. O longa-metragem teve sua estreia mundial fora de competição no Festival de Cannes de 2025.

A trama acompanha Seb, Guy, Céline e Abdel, quatro parentes entre mais de trinta herdeiros ligados à mesma família. Eles recebem a tarefa de investigar uma antiga propriedade na Normandia, praticamente intocada desde a década de 1940. No interior da casa aparecem vestígios da vida de Adèle Vermillard, jovem que deixou a região em 1895, aos 20 anos, rumo a Paris, onde pretendia encontrar a mãe.

A investigação contemporânea abre espaço para a segunda linha narrativa do filme. Klapisch leva o público à Paris do final do século XIX, período de grandes mudanças tecnológicas e artísticas, quando a fotografia ganhava força e o Impressionismo modificava a relação entre pintura e realidade. O cineasta contou ao Festival de Cannes que escolheu colocar 1895 e o presente em diálogo justamente por reconhecer semelhanças entre dois momentos de forte transformação tecnológica e cultural.

Suzanne Lindon interpreta Adèle e ocupa uma posição central nessa viagem temporal. A atriz, filha de Vincent Lindon e Sandrine Kiberlain, ganhou projeção com "Jovens Amantes" e aparece cercada por nomes como Abraham Wapler, Vincent Macaigne, Julia Piaton, Zinedine Soualem, Paul Kircher, Vassili Schneider, Sara Giraudeau e Cécile de France. O elenco ainda reserva participações de figuras históricas ligadas à vida cultural francesa, entre elas Claude Monet, Victor Hugo, Sarah Bernhardt e Félix Nadar.

O roteiro é assinado por Klapisch em parceria com Santiago Amigorena, colaborador de longa data do diretor. A fotografia de Alexis Kavyrchine e a direção de arte de Marie Cheminal têm papel particularmente importante na construção das duas épocas. O filme foi rodado em diferentes localidades da Normandia e da região de Île-de-France, além dos jardins e da casa de Claude Monet em Giverny, cenário que combina naturalmente com a aproximação do filme ao universo impressionista.

A produção também utilizou um trem Nomad durante uma viagem entre Paris e Le Havre para algumas cenas. A escolha das locações ajuda a construir uma França de fim de século que ainda preservava áreas rurais próximas à capital, ao mesmo tempo em que experimentava eletricidade, fotografia, novas formas de transporte e outras novidades que alteravam a vida cotidiana.

A presença de Monet não fica restrita à decoração de época. O pintor aparece em momentos diferentes da narrativa, numa brincadeira com o próprio tempo e com a maneira como os personagens contemporâneos passam a enxergar o passado. A relação com a arte, portanto, não serve somente para deixar a produção mais bonita: fotografias, pinturas e objetos antigos funcionam como peças de investigação para os descendentes de Adèle.

A imprensa francesa percebeu essa combinação de leveza, fantasia e reconstrução histórica. Le Monde destacou a maneira como Klapisch articula as duas épocas sem recorrer ao tradicional recurso dos flashbacks, enquanto a TF1 classificou o filme como uma comédia moderna construída a partir dos encontros entre passado e presente.

O resultado tem o conhecido interesse de Klapisch pelas relações humanas, mas aqui a família ganha uma dimensão particular: os personagens precisam conhecer uma mulher que morreu muito antes de eles nascerem para compreender melhor a própria origem. E, como costuma acontecer quando alguém resolve mexer em caixas antigas, uma fotografia nunca é apenas uma fotografia quando existe uma história escondida atrás dela.

A crítica de Mary Ellen Farias dos Santos, editora e criadora do Resenhando.com, também chamou atenção para a força visual da produção. Em sua análise, ela descreveu "As Cores do Tempo" como um filme de fotografia contemplativa, marcado pela relação entre arte, memória e passagem do tempo, e destacou a construção em duas linhas temporais, entre 1895 e 2024/2025. Leia a crítica completa neste link.

O filme teve boa recepção popular na França, onde alcançou quase 1 milhão de espectadores, segundo dados divulgados pela Imovision e repercutidos pelo Resenhando.com. No Brasil, chegou aos cinemas em 30 de julho de 2026, depois da passagem pelo Festival de Cinema Europeu Imovision. Agora, com a chegada ao streaming, "As Cores do Tempo" oferece uma viagem cinematográfica em que uma casa velha guarda fotografias, pinturas e cartas capazes de aproximar uma família contemporânea de uma jovem que, em 1895, decidiu descobrir de onde vinha. No caminho, aparecem Paris, Monet, fotografia, Impressionismo, amores, escolhas e uma boa dose da delicadeza que costuma acompanhar os filmes de Klapisch.


Ficha técnica
"As Cores do Tempo" | "La Venue de l'avenir" (título original) | "Colours of Time" (título internacional)
Gênero: comédia dramática. Duração: 126 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2025. Data de lançamento: 22 de maio de 2025, na França; 15 de janeiro de 2026, em Portugal; 30 de julho de 2026, nos cinemas brasileiros. Idioma: francês. Direção: Cédric Klapisch. Roteiro: Cédric Klapisch e Santiago Amigorena. Elenco: Suzanne Lindon, Abraham Wapler, Vincent Macaigne, Julia Piaton, Zinedine Soualem, Paul Kircher, Vassili Schneider, Sara Giraudeau, Cécile de France, Olivier Gourmet, Claire Pommet, Fred Testot, François Berléand, Philippine Leroy-Beaulieu e Vincent Pérez. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.

Assine a Reserva Imovision, a maior plataforma de filmes independentes da América Latina
A equipe do portal Resenhando.com acompanha os filmes por meio da plataforma de streaming Reserva Imovision, dedicada ao cinema independente e autoral. Para acessar o catálogo completo, conferir novidades e realizar sua assinatura, o aplicativo da plataforma ou o visite o site oficial neste link. A Reserva Imovision reúne filmes e séries cuidadosamente selecionados, ampliando o acesso a obras que valorizam a diversidade cultural, a reflexão e experiências cinematográficas diferenciadas. Você pode assinar a plataforma de streaming Reserva Imovision neste link.

.: "O Futuro Espera" leva a Paris ocupada para o confinamento de uma família


Drama de Nils Tavernier, inspirado na história real de Tauba Zylbersztejn, acompanha dois anos de uma família escondida em uma pequena dependência sob os telhados de Paris durante a ocupação nazista

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

A Paris de 1942 aparece em "O Futuro Espera" por uma perspectiva bastante particular: a de quem praticamente não pode sair do lugar. Dirigido por Nils Tavernier, o filme franco-belga que acaba de chegar ao catálogo do streaming Belas Artes À La Carte acompanha Tauba Zylbersztejn e seus pais, judeus poloneses que escapam da perseguição aos judeus em Paris e encontram abrigo em uma pequena dependência sob os telhados da cidade. O que deveria ser uma solução provisória acaba se prolongando por cerca de dois anos, enquanto a família convive com o medo de ser descoberta.

Inspirado em uma história real, o filme tem como protagonista a adolescente Tauba, interpretada por Violette Guillon. Guillaume Gallienne e Adeline d’Hermy vivem seus pais, Moshe e Rywka, enquanto Sandrine Bonnaire interpreta Rose Dinanceau, uma das pessoas que ajudam a família a permanecer escondida. O roteiro é assinado por Tavernier ao lado de Guy Birenbaum e Laurent Bertoni.

O caso que deu origem à produção é especialmente impressionante pela duração do confinamento. Segundo o "Le Parisien", Tauba, seus pais e o casal francês que os ajudou passaram 765 dias ligados àquele pequeno espaço. A família havia escapado da batida policial associada à Rafle du Vél’ d’Hiv, em julho de 1942, e conseguiu se esconder no número 209 da Rue Saint-Maur, no 10º arrondissement de Paris.

A história chegou ao cinema a partir do testemunho da própria Tauba. Em 1997, ela relatou sua experiência em uma entrevista que integra o trabalho de preservação de depoimentos de sobreviventes da Shoah associado ao projeto de Steven Spielberg. O material serviu de base para a construção do filme e também para o livro homônimo escrito por Guy Birenbaum, filho de Tauba e um dos roteiristas da produção.

A ligação de Birenbaum com a história dá ao projeto uma dimensão familiar bastante particular. Tauba era sua mãe, e o roteiro parte justamente das lembranças e do testemunho dela. Em entrevista ao CRIF, o escritor contou que a equipe chegou a reproduzir cuidadosamente o espaço onde sua família permaneceu durante os 765 dias. A reconstituição do pequeno cômodo foi um dos elementos centrais da produção.

Tavernier utiliza o espaço reduzido para construir uma narrativa marcada pela tensão da espera. A família precisa administrar o medo, a falta de liberdade e as mudanças na relação entre seus integrantes, enquanto os acontecimentos da guerra chegam por sons, notícias e breves vislumbres do mundo exterior. Para Tauba, entretanto, pequenas possibilidades de liberdade ganham outro peso: um piano desenhado no chão e a vista de Paris pelas janelas tornam-se formas de manter a imaginação em movimento.

A produção também investiu na reconstrução histórica de Paris. O cenário da Rue Saint-Maur e o pequeno espaço ocupado pela família foram recriados com atenção aos detalhes, enquanto imagens de arquivo ajudam a aproximar a experiência particular dos personagens dos acontecimentos que tomavam conta da cidade. O projeto recebeu apoio da Fondation pour la Mémoire de la Shoah, instituição dedicada à preservação e transmissão da memória do Holocausto.

É uma produção que parte de uma história familiar para recuperar um dos períodos mais sombrios da história europeia. O filme já havia estreado nos cinemas franceses em fevereiro de 2025 e apresenta Nils Tavernier, filho do também cineasta Bertrand Tavernier, diante de uma narrativa baseada em uma experiência vivida e registrada pela própria sobrevivente.

Ficha técnica
"O Futuro Espera" | "La Vie Devant Moi" (título original) |"The Future Awaits" (título internacional)
Gênero: drama, biografia. Duração: 93 minutos. Classificação indicativa: a definir no Brasil. Ano de produção: 2024. Idioma: francês. Direção: Nils Tavernier. Roteiro: Nils Tavernier, Guy Birenbaum e Laurent Bertoni. Elenco: Violette Guillon, Guillaume Gallienne, Adeline d’Hermy, Sandrine Bonnaire, Laurent Bateau, Claude Mathieu, Rod Paradot e Bernard Le Coq. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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.: “Feito Pipa” mostra um cinema que deixou o eixo Rio-São Paulo para trás


Filme de Allan Deberton leva Quixadá ao Oscar e ajuda a revelar uma produção audiovisual que cresce fora dos grandes centros, com políticas públicas, festivais, produtoras independentes e histórias que encontram no território a matéria-prima para chegar ao mundo. Foto: divulgação

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Quando “Feito Pipa” chegar aos cinemas brasileiros, no dia 5 de novembro, o público encontrará na tela um pedaço do Ceará que já fez uma viagem considerável. O filme de Allan Deberton surgiu de memórias de infância em Russas, foi rodado em Quixadá, estreou na Berlinale, recebeu dois dos principais prêmios da mostra Generation Kplus, passou por outros festivais internacionais, conquistou quatro Kikitos e uma Menção Honrosa em Gramado e agora representa o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar 2027. 

A trajetória de “Feito Pipa” tem uma particularidade que merece atenção: ela começa longe do eixo Rio-São Paulo, onde durante décadas se concentraram boa parte das estruturas, dos profissionais e das oportunidades do cinema brasileiro. O mapa, porém, mudou. Os números mais recentes da Agência Nacional do Cinema ajudam a enxergar essa mudança. Em 2025, o Brasil registrou 3.981 obras audiovisuais, recorde histórico, e as regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste tiveram crescimento de 9% na produção. 

No mesmo ano, 367 filmes brasileiros chegaram aos cinemas, levando 11,12 milhões de espectadores às salas e movimentando R$ 214,99 milhões em renda. Os números não significam que a velha concentração tenha desaparecido, mas que existe mais coisa acontecendo fora dela.


O Ceará que virou cenário, escola e fábrica de cinema
Allan Deberton nasceu em Russas, no interior do Ceará, mas precisou sair do estado para estudar Cinema. Quando entrou na Universidade Federal Fluminense, em Niterói, ainda não havia um curso superior de Cinema no Ceará. O retorno veio pelas próprias histórias. Foi em Russas que o cineasta filmou “Doce de Coco”, seu primeiro curta-metragem, e também “Pacarrete”, o filme que o projetou nacionalmente e conquistou oito Kikitos no Festival de Gramado. 

A trajetória seguinte trouxe “Feito Pipa”, novamente ligado ao interior cearense, e consolidou uma carreira construída em torno de personagens e histórias que carregam a marca de seu território. Existe uma diferença importante entre filmar fora do eixo e simplesmente levar uma equipe para filmar em outro lugar. A própria Deberton Filmes mantém sede em Fortaleza e é liderada por Allan Deberton e pelo produtor Marcelo Pinheiro, profissional formado no ambiente audiovisual cearense. 

Pinheiro participa da produtora desde 2020 e esteve envolvido em projetos como “Pacarrete”, “Transversais”, “O Melhor Amigo” e “Feito Pipa”. Cinema não nasce quando alguém grita “ação”. Antes disso, existe formação profissional, roteiro, produção, captação de recursos, preparação de elenco, locação, fotografia, montagem, som, pós-produção, distribuição e uma quantidade considerável de gente que precisa pagar as contas enquanto espera o próximo projeto.


A importância das políticas públicas
“Feito Pipa” teve apoio da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, da PNAB Ceará, do Governo do Ceará, do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul, do Fundo Setorial do Audiovisual, da Ancine e do Ministério da Cultura. Não se trata de uma informação burocrática escondida nos créditos finais. O financiamento ajuda a explicar como uma produção independente consegue existir, contratar profissionais, filmar em uma cidade do interior, finalizar o material e levá-lo para um circuito internacional.

O próprio Allan Deberton resumiu essa relação em entrevista ao C7nema ao falar sobre “Feito Pipa”: “Sem política pública, um filme como 'Feito Pipa' não acontece”. A frase ganha dimensão maior quando colocada diante da estrutura que vem sendo construída no Ceará. Em 2026, o estado abriu o 16º Edital Ceará de Cinema e Audiovisual, com um conjunto de ações que soma R$ 34 milhões para fortalecer a cadeia produtiva local. Desse total, R$ 25 milhões vêm do Fundo Setorial do Audiovisual e R$ 9 milhões do Fundo Estadual de Cultura. 

O programa contempla produção e finalização de curtas, desenvolvimento de roteiros, difusão e outras modalidades, além de editais específicos para produção de longa-metragem para salas de cinema e conteúdos para TV e vídeo sob demanda. O estado também deu outro passo em 2025, quando a Assembleia Legislativa aprovou a criação da Empresa Cearense do Audiovisual, vinculada à Secretaria da Cultura. 

A legislação prevê atuação em produção, distribuição, promoção e difusão de conteúdos, atração de investimentos, formação, pesquisa, film commission e articulação de políticas públicas para o setor. A expressão “novo cinema brasileiro”, portanto, começa a ganhar uma dimensão que vai além de estética ou geração.


Uma rede que começa antes do filme

Quem acompanha o cinema brasileiro pelos lançamentos costuma encontrar o resultado final: o cartaz, o trailer, o festival, a crítica, os atores conhecidos e, quando tudo dá certo, a indicação a um prêmio. O caminho até ali costuma ser bem menos glamouroso. No Ceará, essa cadeia passa por equipamentos como o Cinema do Dragão e o Cineteatro São Luiz, por editais de produção, difusão e festivais, por cineclubes e por iniciativas de formação. 

O Panorama do Ecossistema Audiovisual publicado pelo Ministério da Cultura registra essa estrutura e mostra também conexões do Ceará com outros estados por meio dos chamados Arranjos Regionais. A lógica dos Arranjos Regionais é especialmente interessante porque mexe numa velha dificuldade do audiovisual brasileiro: produzir fora dos centros tradicionais sem deixar o produtor regional sozinho diante de uma indústria concentrada. 

Em 2025, o Comitê Gestor do Fundo Setorial do Audiovisual aprovou R$ 242 milhões para suplementação dos Arranjos Regionais. O planejamento estabeleceu percentuais específicos para diferentes regiões e manteve mecanismos de descentralização dos investimentos. A política pública, nesse caso, tenta fazer com que dinheiro e produção circulem por mais lugares.


O Nordeste não é um gênero cinematográfico
Existe uma armadilha na maneira de falar sobre a produção audiovisual nordestina: tratar tudo como se fosse parte de uma mesma estética. Um filme rodado no Ceará não precisa falar de seca. Uma produção baiana não precisa ter carnaval. Um diretor pernambucano não precisa carregar a obrigação de representar Pernambuco a cada plano. 

O que existe é uma multiplicidade de cinematografias produzidas em territórios que durante muito tempo tiveram menos acesso aos mecanismos de produção e circulação. “Feito Pipa” está profundamente ligado ao Ceará, mas sua história não depende de o espectador conhecer Quixadá, Russas ou a paisagem da região. Gugu é um menino específico, numa família específica, vivendo um conflito específico. 


De Quixadá para Berlim

A passagem de “Feito Pipa” pela Berlinale ajuda a dimensionar o que significa essa produção. O filme chegou à mostra Generation Kplus e recebeu o Urso de Cristal, concedido pelo Júri Infantil e Juvenil, além do Grande Prêmio do Júri Internacional. Depois, seguiu para outros festivais e chegou a Gramado já carregando uma trajetória internacional. A recepção também mostra outra característica dessa circulação.

O filme não precisou abandonar sua identidade regional para entrar no circuito internacional. Ao contrário: foi justamente carregando uma história situada no Ceará que encontrou espectadores em outros países. Durante a Berlinale, Allan Deberton contou que André Araújo, roteirista de “Feito Pipa”, é seu conterrâneo e que a história nasceu de um lugar íntimo. É uma informação pequena, mas reveladora: dois profissionais que cresceram no mesmo estado transformaram lembranças em roteiro, roteiro em filme e filme em uma produção exibida na Alemanha. O mapa da criação cinematográfica pode ser muito maior do que o mapa da indústria.

Essa cadeia ainda enfrenta dificuldades de distribuição, formação, financiamento e acesso ao público. A própria Ancine aponta que o fortalecimento da produção regional continua entre os desafios do setor e vem utilizando instrumentos como os Arranjos Regionais para ampliar os investimentos. Em 2025, a agência também registrou crescimento das produções do Centro-Oeste, Norte e Nordeste. Enquanto isso, novos editais continuam surgindo.

Em agosto de 2026, o Ceará abriu inscrições para seu 16º Edital de Cinema e Audiovisual. Entre as modalidades está a produção de longas-metragens para salas de cinema, em parceria com MinC, FSA e BRDE. Isso significa que “Feito Pipa” pode ser visto de duas maneiras: como uma história de sucesso de um filme específico e como parte de uma estrutura que tenta fazer com que outros filmes também possam existir.


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