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segunda-feira, 26 de outubro de 2026

.: “Na Hora da Zona Morta” faz de dom paranormal um inquietante dilema


Suspense de David Cronenberg, baseado no romance de Stephen King, chega ao Belas Artes À La Carte com uma das atuações mais marcantes da carreira de Christopher Walken

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Christopher Walken interpreta um homem que acorda depois de cinco anos em coma e descobre que perdeu praticamente tudo o que dava sentido à antiga vida. A carreira de professor ficou para trás, a mulher que amava seguiu adiante e o mundo continuou funcionando durante o longo período em que ele permaneceu inconsciente. Em compensação, o personagem dele, Johnny Smith, ganhou um poder que ninguém em sã consciência pediria de presente: ao tocar em alguém, consegue enxergar acontecimentos do passado e possíveis acontecimentos do futuro. É a premissa de “Na Hora da Zona Morta”, produção de 1983 dirigida por David Cronenberg e baseada no romance homônimo de Stephen King, que estreia no catálogo do streaming Belas Artes À La Carte.

A situação poderia facilmente descambar para uma aventura sobrenatural cheia de truques, sustos e explicações convenientes. Cronenberg prefere outro caminho. O extraordinário aparece integrado à rotina de Johnny, quase como uma extensão incômoda de sua existência. O personagem não ganha uma capa, tampouco passa a posar de salvador da humanidade. Continua sendo um homem abatido, confuso e ressentido, tentando descobrir o que fazer com aquilo que lhe aconteceu.

As premonições têm um efeito físico sobre ele, mas o que realmente pesa é saber coisas que os outros desconhecem e carregar informações que não podem ser simplesmente esquecidas. Uma das características mais interessantes da atuação de Walken está nessa mistura de fragilidade e desconforto, sem transformar Johnny em um herói convencional. A escolha do protagonista quase foi outra. Stephen King queria Bill Murray para interpretar Johnny Smith, mas o papel acabou nas mãos de Walken. Hoje, a escalação parece tão perfeitamente encaixada que é difícil imaginar o filme com outra pessoa. 

A produção ainda reúne Brooke Adams, Tom Skerritt, Herbert Lom, Anthony Zerbe, Colleen Dewhurst e Martin Sheen, este último especialmente memorável como Greg Stillson, um político ambicioso que cruza o caminho de Johnny. A Paramount confirma o elenco principal e credita Jeffrey Boam pelo roteiro, baseado no romance de King. O roteiro de Boam organiza a narrativa em episódios que acompanham diferentes situações provocadas pelo dom de Johnny. Ele ajuda pessoas, interfere em acontecimentos e tenta compreender os limites de sua própria capacidade. Entre esses momentos está a colaboração com o xerife Bannerman, vivido por Tom Skerritt, numa investigação envolvendo um assassino de mulheres. 

A estrutura poderia resultar em um filme fragmentado, mas Cronenberg mantém o fio emocional do protagonista enquanto conduz a história até o encontro decisivo com Stillson. O aspecto político ganha força quando Johnny toca a mão de Stillson e vislumbra um futuro de consequências catastróficas. A partir daí, a pergunta deixa de ser apenas o que fazer com uma capacidade paranormal e passa a envolver uma questão bem mais incômoda: até onde alguém pode interferir no destino de outra pessoa quando conhece aquilo que está por vir?

Cronenberg vinha de filmes como “A Ninhada” e “Videodrome”, obras fortemente associadas ao horror corporal e às deformações físicas. Em “Na Hora da Zona Morta”, o diretor trabalha de maneira mais contida. O próprio filme parece interessado em explorar o medo por dentro da cabeça de Johnny, deixando o fantástico conviver com uma atmosfera cotidiana. A percepção das habilidades paranormais também varia visualmente ao longo da narrativa, em vez de obedecer a um único recurso repetido. Essa escolha ajuda a manter as premonições estranhas sem transformá-las em mero espetáculo.

A paisagem de inverno contribui para a sensação de isolamento. Johnny está cercado por neve, casas, pequenas comunidades e pessoas aparentemente comuns, mas carrega informações que o afastam cada vez mais delas. Uma análise publicada pela Cinemateca Portuguesa sobre a obra de Cronenberg destaca justamente o caráter psicológico do filme e sua ambientação fora dos grandes centros urbanos.

Os bastidores também guardam algumas histórias curiosas. Para conseguir reações involuntárias de Walken durante as premonições, Cronenberg disparava, fora do enquadramento, um revólver Magnum .357 carregado com munição de festim. A ideia teria partido do próprio ator. O recurso ajudava a provocar os pequenos espasmos que o diretor queria registrar diante da câmera. 

Outra situação curiosa envolveu um boneco de “E.T. - O Extraterrestre”. Na primeira versão da cena em que Johnny presencia uma premonição envolvendo o quarto de uma menina, o brinquedo aparecia em uma prateleira. Como o personagem pertencia à Universal, a produção precisou refazer a sequência depois que o estúdio ameaçou tomar medidas legais. O boneco, definitivamente, não tinha poderes paranormais, mas quase conseguiu interferir no futuro do filme.

A relação com a literatura também aparece em uma brincadeira que ganhou uma segunda vida anos depois. Antes do acidente, Johnny orienta os alunos a lerem “The Legend of Sleepy Hollow”, de Washington Irving. Em 1999, Christopher Walken interpretaria o Cavaleiro Sem Cabeça em “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça”, de Tim Burton. A coincidência transformou uma referência aparentemente casual em uma daquelas pequenas conexões que o cinema gosta de guardar para quem presta atenção.

A história de Johnny também tem uma curiosa ligação com Peter Hurkos, holandês que ficou conhecido por afirmar possuir poderes paranormais depois de sofrer uma queda e bater a cabeça. Hurkos dizia conseguir obter informações sobre outras pessoas por meio do toque, ideia que guarda evidente proximidade com a habilidade apresentada no filme.

Outro dado interessante está na própria trajetória de Cronenberg. “Na Hora da Zona Morta” foi seu primeiro grande sucesso de público, segundo a Cinemateca Portuguesa, e recebeu reconhecimento em festivais e premiações. O filme ganhou o Saturn Award de Melhor Filme de Terror em 1984, enquanto Walken, Cronenberg e Jeffrey Boam foram indicados nas categorias de atuação, direção e roteiro. Cronenberg também recebeu prêmios no Festival de Cinema Fantástico de Avoriaz, e a fotografia de Mark Irwin foi premiada pela Canadian Society of Cinematographers.

O longa-metragem tem ainda uma característica que ajuda a explicar sua permanência: o poder de Johnny nunca elimina sua condição humana. Ele continua sofrendo, hesitando, perdendo e fazendo escolhas cujas consequências não consegue controlar completamente. O sobrenatural serve, portanto, para apertar ainda mais o parafuso de uma história sobre culpa, destino, perda e responsabilidade. Com “Na Hora da Zona Morta”, Cronenberg encontrou uma maneira particularmente eficiente de adaptar Stephen King sem depender do excesso. O horror está naquilo que Johnny descobre quando toca alguém, mas também naquilo que ele gostaria de nunca ter visto.


Ficha técnica
“Na Hora da Zona Morta” | “The Dead Zone” (título original) | “Zona de Perigo” (título em Portugal).
Gênero: suspense, terror, ficção científica e drama psicológico. Duração: 103 minutos. Classificação indicativa: 14 anos no Brasil; M/16 em Portugal. Ano de produção: 1983. Data de lançamento: 21 de outubro de 1983 nos Estados Unidos. Idioma: inglês. Direção: David Cronenberg. Roteiro: Jeffrey Boam, baseado no romance de Stephen King. Elenco: Christopher Walken, Brooke Adams, Martin Sheen, Tom Skerritt, Herbert Lom, Anthony Zerbe, Colleen Dewhurst, Nicholas Campbell, Sean Sullivan e Jackie Burroughs. Distribuição no Brasil: Paramount Pictures. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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.: “Prazeres Desconhecidos”: a juventude perdida na China em transformação


Longa-metragem de Jia Zhangke acompanha dois jovens desempregados em Datong e registra, com humor seco e olhar documental, os desejos, frustrações e contradições de uma geração diante da modernização chinesa

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Dois jovens desempregados passam os dias andando de moto, jogando conversa fora, assistindo televisão e tentando descobrir o que fazer da própria vida. Em meio a uma China que acelera rumo à modernização, Xiao Ji (Wu Qiong) e Bin Bin (Zhao Weiwei) parecem ter ficado para trás. É desse aparente vazio que Jia Zhangke constrói “Prazeres Desconhecidos”, longa-metragem que chega à plataforma de streaming Reserva Imovision.

Terceiro longa dirigido pelo cineasta chinês, o filme acompanha os dois amigos em Datong, cidade industrial da província de Shanxi, durante 2001. O cenário ajuda a contar a história tanto quanto os personagens: prédios degradados, ruas em obras, fábricas, motocicletas, bares, karaokês e televisores ligados registram uma sociedade que começa a experimentar novas possibilidades econômicas e culturais. 

Xiao Ji se interessa por Qiao Qiao (Zhao Tao), cantora e dançarina que trabalha como garota-propaganda de uma empresa de bebidas alcoólicas. O problema atende pelo nome de Qiao San (Li Zhubin), namorado da moça, um sujeito envolvido com atividades criminosas e pouco disposto a aceitar a aproximação do rapaz. Bin Bin, por sua vez, vive uma relação cada vez mais distante com Yuan Yuan (Zhou Qingfeng), jovem que pretende deixar Datong para estudar comércio internacional em Pequim.

Enquanto os dois amigos perambulam pela cidade, a televisão anuncia acontecimentos que parecem pertencer a outro universo: a entrada da China na Organização Mundial do Comércio, a candidatura de Pequim aos Jogos Olímpicos de 2008, acontecimentos políticos e episódios de violência. A vida particular dos personagens segue em outra velocidade, quase como se eles assistissem ao próprio país avançar pela tela sem saber muito bem onde se encaixar. O filme registra uma geração influenciada pela televisão, pela cultura pop ocidental e pelo desejo de consumo, mas que ainda vive cercada por estruturas sociais e econômicas bastante precárias. 

O título original, “Ren Xiao Yao”, remete a um conceito associado ao filósofo taoista Zhuangzi e pode ser compreendido como uma ideia de liberdade diante das restrições. A expressão também aparece ligada a uma canção pop bastante conhecida entre os jovens chineses naquele período. O curioso é que a busca por liberdade dos personagens frequentemente esbarra em dívidas, desemprego, relacionamentos complicados, violência e falta de perspectivas. O prazer anunciado pelo título está sempre por perto, mas raramente ao alcance deles.

A relação com a cultura norte-americana aparece de maneira divertida e, ao mesmo tempo, reveladora. “Pulp Fiction”, de Quentin Tarantino, é citado pelos personagens, enquanto filmes, músicas, televisão e produtos estrangeiros compõem o imaginário de Xiao Ji e Bin Bin. Jia não trata essas referências como simples decoração: elas ajudam a mostrar como uma juventude de uma cidade provincial passa a construir seus desejos a partir de imagens vindas de um mundo muito maior.

A produção também guarda uma particularidade importante. “Prazeres Desconhecidos” foi o primeiro longa de Jia Zhangke filmado em vídeo digital. Segundo informações de produção reunidas pelo próprio diretor, a opção estava ligada às limitações de orçamento e tempo. O filme foi rodado em apenas 19 dias, e a câmera digital permitiu maior mobilidade para acompanhar as ruas de Datong.

A escolha estética combina com a história. Jia observa os personagens a uma certa distância, deixa as situações se desenvolverem e evita conduzir o espectador pela mão. Em vez de transformar cada conflito em grande acontecimento dramático, acompanha o cotidiano de pessoas que parecem não saber muito bem para onde ir. “Prazeres Desconhecidos” também encerra uma fase da carreira de Jia Zhangke. O longa é frequentemente associado a uma trilogia informal formada por “Xiao Wu”, “Plataforma” e este filme, dedicada a observar diferentes momentos de uma China em processo acelerado de mudança. A partir de “The World”, de 2004, o diretor passou a trabalhar dentro do sistema oficial de produção cinematográfica chinês.


Ficha técnica
“Prazeres Desconhecidos” | “Ren Xiao Vao” (título original)
Gênero: comédia dramática. Duração: 113 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2002. Data de lançamento no Brasil: 23 de outubro de 2026. Idioma: mandarim. Direção: Jia Zhangke. Roteiro: Jia Zhangke. Elenco: Zhao Weiwei, Wu Qiong, Zhao Tao, Zhou Qingfeng, Wang Hongwei, Bai Ru, Liu Xi'an e Li Zhubin. Distribuição no Brasil: Imovision, pela plataforma Reserva Imovision. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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domingo, 25 de outubro de 2026

.: "Perfume: A História de Um Assassino" trata solidão e desejo de ser amado

 

Cartaz de "Perfume: A História de Um Assassino"

Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em outubro de 2026


A alegoria sobre a solidão humana é a tônica de "Perfume: A História de Um Assassino", longa dirigido por Tom Tykwer ("A Luz"), sobrea vida de Jean-Baptiste Grenouille, personagem fictício que de tão bem estruturado convence a ponto de nas pesquisas na internet, o primeiro complemento para seu nome ser o verbo conjugado no passado: "existiu". O protagonista que nasceu no romance homônimo de Patrick Süskind, nasce na cidade de Grasse, em Paris, numa França suja e abandonada no século XVIII. 

Teimosamente, apesar de falta de higiene, ele resiste e sobrevive ali, num mercado de peixes. Rejeitado pela mãe, Jean-Baptiste cresce e apura o dom de um olfato sobre-humano, embora não tenha cheiro corporal próprio. Até que consegue emprego como aprendiz do perfumista Giuseppe Baldini (Dustin Hoffman) aprende técnicas a ponto de superar o mestre na criação de essências. 

Obcecado por capturar o aroma perfeito da juventude feminina, por meio da maceração para extrair a gordura e o cheiro de suas peles, o impetuoso Jean-Baptiste assassina 13 jovens mulheres, incluindo o alvo principal, Laura Richis. Contudo, ele é capturado, julgado e condenado à morte. No entanto, antes da execução, desepeja em si o perfume supremo que elaborou. A poderosa fragrância automaticamente causa histeria coletiva de adoração e êxtase na multidão.

"Perfume: A História de Um Assassino" reflete a necessidade visceral de conexão por conta da solidão e a ausência dos limites do desejo. Reforçado justamente quando Jean-Baptiste percebe que o perfume supremo apenas faz as pessoas amarem a essência e não a ele, que segue sem um aroma próprio, sem identidade. Excelente filme que faz refletir quando alguém aparentemente diz gostar de você a ponto de guardar num potinho. Imperdível!


Filme: Perfume - A História de um Assassino. Diretor: Tom Tykwer. Roteiro: Andrew Birkin, Bernd Eichinger e Tom Tykwer, com base no romance homônimo de Patrick Süskind. Gênero: Thriller/Fantasia. Duração: 2h 27m. Classificação etária: 16. Estreia no Brasil: 26 de janeiro de 2007. Estreia na Alemanha: 14 de setembro de 2006. Sinopse: A adaptação cinematográfica do romance de Patrick Süskind de 1985 acompanha a vida de Jean-Baptiste, do nascimento, a apuração de seu dom até seu último suspiro.

Trailer de "Perfume: A História de Um Assassino"


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sábado, 24 de outubro de 2026

.: "As Filhas de Marvin" é emocionante clássico de sacrifício familiar; crítica

Cartaz de "As Filhas de Marvin"

Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em outubro de 2026


O drama emocionante "As Filhas de Marvin" é pura sensibilidade que faz brilhar em cena um elenco de primeira com Meryl Streep ("Não Olhe Para Cima"), Diane Keaton (indicada ao Oscar de Melhor Atriz por este papel, "Do Jeito Que Elas Querem: O Próximo Capítulo"), Leonardo DiCaprio ("Assassinos da Lua das Flores") e Robert De Niro ("Coração Satânico"). O clássico que completa 30 anos, reúne duas irmãs afastadas. Enquanto Bessie (Diane Keaton) tem paciência no trato com o pai acamado e a tia (Gwen Verdon), e assume o posto de abnegada, Lee (Meryl Streep, indicada ao Globo de Ouro) é uma mulher desinteressada em apegos, uma vez que cria os filhos sozinha, tendo que lidar com o adolescente rebelde problemático.

No entanto, Bessie, a irmã cuidadora descobre estar com leucemia e procura Lee. Assim, a junção de doçuras doloridas se faz a cada dia de convivência, mesmo que deva ser por alguns dias. Afinal, a mãe e os filhos já tem a vida acertada longe dali. Contudo, o sobrinho adolescente, Hank (Leonardo Di Caprio), anteriormente internado após um incidente com fogo acaba deixando mais os nervos à flor da pele na família unida com o diagnóstico do doutor Wally (Robert De Niro).

Ao reunir uma família separada, "As Filhas de Marvin" trata o perdão após 20 anos de distanciamento, as dificuldades do envelhecimento, o sacrifício familiar e a leucemia. De texto marcante e um elenco que se entrega. Há ainda no filme dirigido por Jerry Zaks uma história de afeto que passa longe de ser um melodrama deprimente. Imperdível!


As Filhas de Marvin (Marvin's Room). Gênero: Drama, comédia dramática. Direção: Jerry Zaks. Elenco principal: Meryl Streep, Diane Keaton, Leonardo DiCaprio e Robert De Niro. Lançamento comercial amplo em 18 de dezembro de 1996 / 28 de fevereiro de 1997 nos EUA, chegando no Brasil em novembro de 1997. Sinopse: Acompanha a reunião de uma família distante após uma crise de saúde.

Trailer de "As Filhas de Marvin"



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sexta-feira, 23 de outubro de 2026

.: Confusões familiares e aposentadoria dão o tom de “Querendo ou Não"


Comédia italiana de Gianni Di Gregorio chega à Reserva Imovision depois de passar pelo Festival de Veneza e observa, com humor delicado, os incômodos e afetos que acompanham a vida em família

Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Um professor aposentado na casa dos 70 anos finalmente conquistou aquilo que imaginava ser uma espécie de prêmio pela passagem dos anos: uma vida organizada segundo os próprios interesses. Em “Querendo ou Não”, que estreia na plataforma de streaming Reserva Imovision, o ator e diretor Gianni Di Gregorio interpreta esse homem que encontrou prazer na rotina tranquila, entre amigos, leituras, escritos que avançam devagar e uma existência sem grandes sobressaltos. O problema é que família, como se sabe, costuma ter pouca consideração pelos planejamentos alheios.

A tranquilidade do professor muda quando sua filha Sofia (Greta Scarano) retorna da Alemanha depois de descobrir a traição do marido, Helmut (Tom Wlaschiha). Ela chega acompanhada dos dois filhos, Olga e Tommaso, e instala na casa do pai uma confusão que altera seus hábitos, sua privacidade e até a maneira como ele passa a enxergar os próprios dias. Dirigido por Di Gregorio, que também assina o roteiro ao lado de Marco Pettenello, o filme acompanha esse rearranjo familiar com humor discreto. 

A situação poderia facilmente escorregar para a comédia de conflitos domésticos, mas o cineasta prefere observar os personagens em suas pequenas contradições. O professor gosta da liberdade que tem, mas também se intromete na vida alheia quando lhe interessa. Sofia está fragilizada pela crise conjugal, mas nem por isso deixa de ser exigente. Os netos chegam como uma pequena força da natureza. Helmut, arrependido, tenta reconstruir a relação percorrendo um caminho bastante peculiar da Alemanha até Roma.

A premissa tem uma particularidade interessante: o homem que imaginava ter finalmente conquistado o direito de administrar o próprio tempo descobre que a aposentadoria, para os outros, pode significar exatamente o contrário. Quando Sofia lembra ao pai que ele é aposentado, a frase aparentemente banal carrega uma dose considerável de ironia. O trabalho confere uma espécie de legitimidade social aos compromissos, enquanto aquilo que alguém escolhe fazer por prazer pode ser tratado como tempo disponível para resolver problemas familiares.

Esse aspecto aproxima “Querendo ou Não” de uma tradição do cinema italiano interessada em encontrar humor nas pequenas engrenagens da convivência. Di Gregorio não precisa inventar grandes acontecimentos para movimentar a narrativa. A casa cheia, uma rotina interrompida, uma conversa atravessada ou a necessidade de dividir novamente espaços que pareciam definitivamente particulares já bastam para provocar situações engraçadas. O filme mantém essa atenção aos personagens comuns e aos pequenos embaraços da existência.

O romance também aparece nessa equação. O professor demonstra interesse por uma mulher e se permite flertar, lembrar que ainda existe desejo e imaginar uma possibilidade de relacionamento. A abordagem é discreta, sem transformar a velhice em sinônimo de ausência de interesse amoroso. Nesse ponto, o filme ganha uma conversa peculiar com outras produções recentes que colocam personagens mais velhos no centro de histórias de amor e desejo.Talvez exista, na comédia de Di Gregorio, alguma sabedoria nessa inconveniente matemática doméstica: certas coisas simplesmente chegam, ocupam espaço e nos obrigam a recalcular a rota.


Ficha técnica
“Querendo ou Não” | “Come Ti Muovi, Sbagli” (título original)
Gênero: comédia. Duração: 97 min. Classificação indicativa: 12 anos. Ano de produção: 2025. Data de lançamento no Brasil: 22 de outubro de 2026, na Reserva Imovision. Idiomas: italiano e alemão. Direção: Gianni Di Gregorio. Roteiro: Gianni Di Gregorio e Marco Pettenello. Elenco: Gianni Di Gregorio, Greta Scarano, Tom Wlaschiha, Iaia Forte, Anna Losano, Pietro Serpi e Alessandro Bedetti. Distribuição no Brasil: Imovision. Cenas pós-créditos: não identificadas nas fontes consultadas. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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.: Tiros, teatro e humor à moda Corbucci: “Que Faço no Meio de Uma Revolução?”


A comédia de Sergio Corbucci mistura western, aventura e sátira política ao acompanhar dois italianos que caem, contra a vontade, no meio da Revolução Mexicana

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Sergio Corbucci levou Vittorio Gassman e Paolo Villaggio para o México revolucionário em “Que Faço no Meio de Uma Revolução?”, comédia de 1972 que chega ao streaming pelo streaming Belas Artes À La Carte. O filme coloca lado a lado um ator de teatro cheio de artimanhas e um padre pouco disposto a aventuras, dupla que passa a sobreviver entre revolucionários, tropas federais, fuzilamentos, fugas e disfarces. O resultado é uma mistura deliberadamente amalucada de western, aventura e humor.

Gassman interpreta Guido Guidi, líder de uma companhia teatral em turnê pelo México. Villaggio é don Albino Moncalieri, religioso que acaba envolvido na mesma confusão. A dupla circula por um país em ebulição e, a cada tentativa de escapar da encrenca, parece encontrar outra situação ainda mais complicada. O filme acompanha os dois italianos enquanto são jogados de um lado para outro entre grupos revolucionários e forças federais, sempre com a ameaça de uma execução por perto.

Corbucci já havia mergulhado no México revolucionário em “O Mercenário” (1968) e “Vamos a Matar, Companheiros” (1970). Em “Que Faço no Meio de Uma Revolução?”, porém, o cineasta leva o seu western para um terreno muito mais próximo da farsa. A produção integra o ciclo dos chamados Zapata Westerns, subgênero do western italiano ambientado na Revolução Mexicana e frequentemente marcado por conflitos sociais e políticos.

O elenco reúne ainda Riccardo Garrone, Eduardo Fajardo, Leo Anchóriz, José Canalejas, Simón Arriaga, Rosanna Yanni, Carmen Pericolo, Víctor Israel e Lorenzo Robledo. O roteiro foi escrito por Corbucci ao lado de Massimo Franciosa e Sabatino Ciuffini, enquanto Alejandro Ulloa cuidou da fotografia e Eugenio Alabiso da montagem. A trilha sonora ficou a cargo de Ennio Morricone, colaborador frequente do cinema de gênero italiano.

Existe ainda uma história de bastidores digna de uma comédia de Corbucci. Segundo Paolo Villaggio, depois de cerca de três meses de filmagens, a equipe descobriu que um problema técnico havia impedido o registro das cenas. Praticamente tudo precisou ser refilmado. A façanha foi realizada em apenas 22 dias, numa espécie de corrida contra o prejuízo que combina bastante com a reputação caótica do projeto.

O título original, “Che c'entriamo Noi con la Rivoluzione?”, pode ser entendido literalmente como “O que Nós Temos a Ver com a Revolução?”. A pergunta resume a situação dos protagonistas, dois italianos que vão parar no centro de uma guerra que, inicialmente, pouco lhes dizia respeito. O próprio conceito também brinca com a tradição do western revolucionário italiano, gênero que Corbucci ajudou a consolidar durante os anos 1960 e 1970.

Ficha técnica
“Que Faço no Meio de Uma Revolução?” | “Che c'entriamo noi con la rivoluzione?” (título original) | “What Am I Doing in the Middle of the Revolution?” (título internacional).
Gênero: comédia, aventura, western. Duração: 103 minutos. Classificação indicativa: 10 anos (classificação registrada no lançamento brasileiro). Ano de produção: 1972. Data de lançamento: 19 de dezembro de 1972 (Itália). Idioma: italiano. Direção: Sergio Corbucci. Roteiro: Sergio Corbucci, Massimo Franciosa e Sabatino Ciuffini. Elenco: Vittorio Gassman, Paolo Villaggio, Riccardo Garrone, Eduardo Fajardo, Leo Anchóriz, Rosanna Yanni, José Canalejas, Simón Arriaga, Carmen Pericolo, Víctor Israel e Lorenzo Robledo. Distribuição no Brasil: Belas Artes à La Carte, em estreia no streaming. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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.: "Minha Melhor Amiga" é longa nacional divertido de fotografia impecável


Cartaz de "Minha Melhor Amiga"

Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em outubro de 2026


O longa nacional de comédia, "Minha Melhor Amiga", estrelado por Mônica Martelli e Ingrid Guimarães, entrega uma história empolgante e divertida sobre uma amizade real. Logo, a química entre Ingrid e Mônica na telona transborda a ponto de pegar o público pela mão e trazer para a trama sobre os dilemas das mulheres que já passaram dos 50 anos, desde o envelhecimento feminino, a síndrome do "ninho vazio", a autonomia feminina e a quebra da ideia de que a felicidade está ligada a um romance.

A intimidade genuína entre as atrizes reflete em Clara (Ingrid Guimarães, de "Perrengue Fashion", "Minha Irmã & Eu") e Julia (Mônica Martelli), o que contribui na aceitação do enredo simples da comédia carismática. Ainda que a trama não se aprofunde, é pertinente a abordagem de dilemas das mulheres quinquagenárias. Assim, a comédia leve, caótica e reconfortante, acontece em meio a uma fotografia solar e impecável. 

Enquanto faz o público rir, em "Minha Melhor Amiga" há espaço para uma delicada, mas emocionante homenagem ao ator Paulo Gustavo que faz referência a cena hilária de falar "sorry". A trama que coloca duas amigas viajando entre Portugal e Espanha reforça a importância da amizade feminina, reavalia o peso e desafios do envelhecimento, o mode de ver a liberdade, assim como o rumo de suas próprias vidas. Vale a pena conferir a produção que transborda o carisma da dupla de protagonistas!

Trailer


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quinta-feira, 22 de outubro de 2026

.: Crítica: "Digger" vai além da figura endinheirada para chegar ao teatro

Cartaz de "Digger"

Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em outubro de 2026


O homem mais poderoso do mundo provoca um desastre ambiental de proporções globais, ingressa numa missão intensa para reparar os danos causados e provar que é o salvador da humanidade. Eis "Digger", o longa do diretor vencedor do Oscar Alejandro G. Iñárritu ("O Regresso") em uma inédita parceria com Tom Cruise ("Top Gun: Maverick", "Missão Impossível 7").

A empreitada da dupla embora pareça trabalhar uma trama surreal, na verdade, flerta fortemente com a atualidade ao refletir sobre responsabilidade e impactos da ambição desenfreada, colocando em pauta crise climática, negacionismo e manipulação de informação. De fato, a vida no planeta Terra corre risco estando nas mãos dos mais poderosos fazendo o que bem entendem e desejam.

Contudo, a história de um reizinho bilionário, Digger Rockwell, que cruza com figuras influentes, como por exemplo, o presidente dos Estados Unidos, na tentativa de recuperar credibilidade, vai além. Logo, no drama épico da sátira política e climática sobre um magnata do petróleo que causa um desastre apocalíptico, surge uma trama paralela que enaltece o teatro. 

Desprendido de sua beleza, Tom Cruise foge de seus papéis de sucesso para viver Digger Rockwell e dá um show de atuação com próteses e uma caracterização pesada, enquanto que a fotografia de Emmanuel Lubezki complementa com precisão tudo que se vê em cada enquadramento impressionante, assim como a estética monumental e sombria que reflete a decadência do poder. Como não perceber os fundos estampados nos cenários e, ao retratar a degradação, com infiltrações e baldes na tentativa de melhorar o ambiente?

No elenco da produção ousada que se sustenta da atuação impecável de Tom Cruise ainda estão Sandra Hüller ("Anatomia de Uma Queda" e "Zona de Interesse"), Riz Ahmed ("Venom"), Sophie Wilde ("Fale Comigo", "O Portal Secreto"), Jesse Plemons ("Guerra Civil", "Bugonia"), Emma D'Arcy ("A Casa do Dragão") e John Goodman ("Os Flintstones: O Filme"). Vale a pena conferir!


"Digger" (Digger). Duração: 2h 09min. Gênero: ação, comédia. Direção: Alejandro González Iñárritu. Roteiro: Alejandro González Iñárritu, Sabina Berman. Elenco: Tom Cruise, Sandra Hüller, Riz Ahmed, John Goodman. Sinopse: Em uma corrida contra o tempo, ele precisa enfrentar as consequências de suas decisões antes que a crise saia completamente do controle e ameace o futuro do planeta. Nessa trajetória, o bilionário cruza o caminho de algumas das figuras mais influentes do mundo, incluindo o presidente dos Estados Unidos, enquanto tenta recuperar sua credibilidade. O filme mistura drama épico e reflete sobre responsabilidade e os impactos da ambição desenfreada em uma narrativa repleta de tensão.

Trailer de "Digger"


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