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quinta-feira, 2 de julho de 2026

.: “A Vingança de Uma Mulher” conduz jogo psicológico de desejo e crueldade



Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

“A Vingança de Uma Mulher” (“La Vengeance d'une femme”), dirigido por Jacques Doillon, está em cartaz na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte. Lançado em 1990 e exibido na seleção oficial do 40º Festival Internacional de Cinema de Berlim, o longa-metragem parte de uma premissa simples e incômoda: uma viúva decide confrontar a amante do marido morto e, nesse encontro, reorganizar sua dor como método. Cécile, vivida por Isabelle Huppert, procura Suzy, interpretada por Béatrice Dalle, em Paris após o suicídio do marido. Convencida de que a amante tem responsabilidade na morte, ela constrói um jogo de aproximação e pressão emocional, em que cada palavra parece calculada para desestabilizar. O filme acompanha esse movimento com rigor, apostando em diálogos longos, olhares que se sustentam além do conforto e uma encenação que privilegia a presença física das atrizes.

O roteiro, assinado por Doillon em parceria com Jean-François Goyet, dialoga com a literatura de Fiódor Dostoiévski, especialmente “O Eterno Marido”, obra que investiga ciúme, ressentimento e obsessão. Essa base literária se traduz em uma narrativa concentrada, quase teatral, em que o conflito se desenrola pelo atrito constante entre as personagens. Isabelle Huppert conduz o filme com precisão e controle, explorando as ambiguidades de uma mulher que alterna acolhimento e agressividade com naturalidade inquietante. Béatrice Dalle responde com uma presença mais instintiva, criando um contraste que sustenta a tensão ao longo das mais de duas horas de duração. O restante do elenco - que inclui Jean-Louis Murat, Laurence Côte e Sebastian Roché - orbita esse confronto central, reforçando a atmosfera de instabilidade.

Outro dado que chama atenção é a forma como Doillon organiza o espaço cênico. Há uma economia de cenários e uma concentração nos corpos e nas vozes, o que aproxima o filme de uma experiência teatral filmada, sem abrir mão de uma mise-en-scène rigorosa. Críticos da época destacaram justamente esse caráter metódico da encenação, em que a vingança se constrói passo a passo, como se cada gesto obedecesse a um plano previamente traçado. Com 133 minutos de duração, “A Vingança de uma Mulher” exige do espectador disposição para acompanhar um ritmo deliberadamente controlado. A recompensa está na densidade das interpretações e na forma como o filme transforma um encontro em campo de guerra. Décadas depois, a obra permanece como um estudo incisivo sobre desejo, culpa e as formas silenciosas de violência que atravessam as relações íntimas.


Ficha técnica
“A Vingança de uma Mulher” | “La Vengeance d'une femme” (título original)
Gênero: drama. Duração: 133 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 1990. Idioma: francês. Direção: Jacques Doillon. Roteiro: Jacques Doillon e Jean-François Goyet, com base em “O Eterno Marido”, de Fiódor Dostoiévski. Elenco: Isabelle Huppert, Béatrice Dalle, Jean-Louis Murat, Laurence Côte, Sebastian Roché, David Léotard, Albert Le Prince, Brigitte Marvine, Pierre Amzallag, Jean-Pierre Bamberger. Distribuição no Brasil: não especificada. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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.: "4x100: Correndo por Um Sonho" revisita derrota e busca redenção


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Aposta rara do audiovisual brasileiro, o drama esportivo “4x100: Correndo por Um Sonho” chega à plataforma de streaming Reserva Imovision. Dirigido por Tomas Portella, conhecido por transitar entre o cinema comercial e projetos de maior ambição estética, o longa-metragem parte de uma derrota marcante nas Olimpíadas do Rio 2016 para construir uma narrativa sobre rivalidade, culpa e reconstrução coletiva.

A trama acompanha Maria Lúcia (Fernanda de Freitas), atleta que carrega o peso de um erro decisivo na final do revezamento 4x100, e Adriana (Thalita Carauta), que, após o fracasso, abandona as pistas e tenta sobreviver no circuito de lutas de MMA. Anos depois, às vésperas dos Jogos de Tóquio, elas se veem obrigadas a dividir novamente a mesma equipe, dessa vez ao lado de outras corredoras que também lidam com suas próprias frustrações e expectativas.

O roteiro, assinado por um grupo que inclui Carlos Cortez, Caroline Fioratti, Juliana Soares, L.G. Bayão, Mauro Lima e o próprio Portella, costura diferentes conflitos pessoais sem perder de vista o eixo central: o trabalho em equipe como condição para qualquer vitória. O filme aposta em personagens com trajetórias distintas, evitando uma visão homogênea das atletas e abrindo espaço para discussões sobre machismo no esporte, desigualdade de investimento e a forma como a mídia constrói e destrói narrativas de sucesso.

Nos bastidores, a produção reúne nomes ligados à Gullane Filmes, com coprodução da Globo Filmes e Telecine. A ideia original partiu da atriz Roberta Alonso, que também integra o elenco, evidenciando um envolvimento criativo que ultrapassa a atuação. Parte das sequências de competição foi rodada entre São Paulo e Rio de Janeiro, enquanto a etapa final teve cenas captadas em Tóquio, em uma breve janela de gravações que buscou aproximar a ficção do ambiente olímpico.

Um dos episódios mais comentados da produção envolve Thalita Carauta, que relatou ter sofrido lesões durante as filmagens das cenas de corrida, exigindo adaptações e uso de efeitos visuais. O compromisso físico do elenco contribui para a sensação de esforço real que o filme tenta transmitir, especialmente nas sequências de treino e competição. Lançado em 2021, após adiamentos causados pela pandemia de Covid-19, o longa dialoga com um momento em que o esporte voltou ao centro do debate público, impulsionado pela realização das Olimpíadas de Tóquio. A coincidência de calendário reforçou o interesse pela obra, que funciona também como vitrine para histórias pouco exploradas no cinema nacional.


Ficha técnica

“4x100: Correndo por Um Sonho”
Gênero: drama esportivo. Duração: 109 minutos. Classificação indicativa: 10 anos. Ano de produção: 2021. Idioma: português. Direção: Tomas Portella. Roteiro: Carlos Cortez, Caroline Fioratti, Juliana Soares, L.G. Bayão, Mauro Lima e Tomas Portella. Elenco: Thalita Carauta, Fernanda de Freitas, Priscila Steinman, Cintia Rosa, Roberta Alonso, Augusto Madeira, Zezé Motta. Distribuição no Brasil: Imovision. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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terça-feira, 30 de junho de 2026

.: Crítica: “Caso 137” mira na alienação com vídeos de gatinhos contra crimes

"Caso 137" pode ser assistido no site e aplicativo Reserva IMOVISION

Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em junho de 2026


Vídeos de gatinhos em sequência ou encarar problemas dentro da própria corporação. Eis o contraponto da protagonista do drama “Caso 137”: Stéphanie Bertrand interpretada pela versátil Léa Drucker. Com direção de Dominik Moll, alemão radicado na França, o longa que soma 1 hora e 56 minutos de duração apresenta um jogo de gato e rato em que quem tem culpa encontra uma rede de apoio para esconder os abusos cometidos, enquanto que quem tenta dar um basta nos erros de conduta, acaba a ponto de até perder o emprego.

Flertando com o true crime, o thriller investigativo ficcional inspirado em fatos reais “Caso 137” é o palco da agente da corregedoria francesa, Stéphanie que apenas tenta ser justa nas análises de cada situação delicada. Assim, ela acaba como responsável pela investigação interna do complexo caso de violência contra o jovem de uma cidade distante, Guillaume Girard (Côme Peronnet), que acaba gravemente ferido pela polícia em Paris durante um protesto caótico dos Coletes Amarelos (movimento de protesto de origem espontânea, que começou com manifestações na França em outubro de 2018 e, posteriormente, se espalhou para outros países). 

Disponível na plataforma de streaming Reserva Imovision, o roteiro, assinado por Moll em parceria com Gilles Marchand de “Caso 137”, une um evento fictício por meio de situações reais amplamente documentadas pela imprensa europeia, que resultaram em casos de manifestantes atingidos por balas de borracha, prática questionada por organismos de direitos humanos.

Na mescla de ficção a realidade, a produção pauta a trama no faro de apuração técnica, uma vez que o estrago feito na vida do jovem que participava de seu primeiro protesto é irreversível. Ao analisar discursos e unir provas contra os colegas de profissão, Stéphanie passa a viver num dilema mais profundo ao contornar o drama pessoal, incluindo o ex-marido (com uma nova namorada provocativa), o filho e a mãe. 

Em meio aos aparentemente infinitos e convidativos vídeos de gatinhos nas redes sociais, Stéphanie enfrenta o processo burocrático e psicológico da investigação, tendo a tensão do suspense com a sobriedade do drama social. O longa com estreia mundial no Festival de Cannes de 2025, que disputou a Palma de Ouro e levou o César de Melhor Atriz com Léa Drucker é imperdível!



Filme: "Caso 137" (Dossier 137). Gênero: policial, drama. Duração: 1h56min. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2025. Idioma: francês. Direção: Dominik Moll. Roteiro: Dominik Moll e Gilles Marchand. Elenco: Léa Drucker, Jonathan Turnbull, Mathilde Roehrich, Guslagie Malanda, Stanislas Merhar. Distribuição no Brasil: Autoral Filmes. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.

Trailer de "Caso 137"

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segunda-feira, 29 de junho de 2026

.: “O Balão Vermelho” flutua sobre Paris e redefine olhar sobre a infância


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Um menino, um balão e uma cidade inteira ao redor. Assim é o média-metragem francês “O Balão Vermelho”, dirigido e roteirizado por Albert Lamorisse, que estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte. Filmado em 1956, o filme acompanha um menino solitário que encontra, nas ruas de Paris, um balão vermelho aparentemente comum, mas dotado de vontade própria. A partir desse encontro, a rotina ganha outra configuração, entre brincadeiras, perseguições e pequenas violências cotidianas.

Interpretado por Pascal Lamorisse, filho do diretor, o protagonista sustenta a narrativa com uma presença quase muda, guiada por gestos, olhares e deslocamentos pela cidade. Sabine Lamorisse e Georges Sellier completam o elenco principal, inserindo o menino em um mundo adulto pouco acolhedor, marcado por regras, repressões e uma certa indiferença. A escolha de filmar em locações reais, especialmente no bairro de Ménilmontant, reforça o contraste entre a Paris turística e a Paris vivida, com escadarias, cortiços e ruas estreitas.

Com 34 minutos, o filme alcançou um feito improvável: venceu o Oscar de Melhor Roteiro Original em 1957, tornando-se até hoje o único curta ou média-metragem a conquistar a estatueta fora das categorias específicas de duração. Também levou a Palma de Ouro de curta-metragem no Festival de Cannes. As conquistas chamam atenção porque o roteiro praticamente abdica de diálogos e aposta na força das imagens e na relação visual entre o garoto e o balão.

A fotografia de Edmond Séchan explora o contraste entre o cinza urbano e o vermelho vibrante que aparece na tela. O balão assume presença, reage, insiste, escapa e retorna. A dinâmica entre os dois personagens, um de carne e osso e outro de ar, constrói uma espécie de amizade improvável, que oscila entre cumplicidade e ameaça constante. Há também um dado curioso que atravessa gerações: muito antes de animações contemporâneas atribuirem personalidade a objetos, Lamorisse já transformava um balão em personagem pleno, capaz de provocar empatia sem uma única fala. O efeito especial, simples para os padrões atuais, ainda surpreende pela precisão e pelo encanto.

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Ficha técnica
“O Balão Vermelho” | “Le Ballon Rouge” (título original)
Gênero: comédia, fantasia. Duração: 34 minutos. Classificação indicativa: livre. Ano de produção: 1956. Idioma: francês. Direção e roteiro: Albert Lamorisse. Elenco: Pascal Lamorisse, Sabine Lamorisse, Georges Sellier, Vladimir Popov, Paul Perey, Renée Marion, Michel Pezin. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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domingo, 28 de junho de 2026

.: “O Rei Pasmado e a Rainha Nua” transforma desejo em crise de Estado


Imagine a corte espanhola do século XVII entrando em estado de choque simplesmente porque o rei teve um desejo considerado escandaloso: ver a própria esposa nua. É a partir dessa premissa deliciosamente absurda que "O Rei Pasmado e a Rainha Nua" (1991), em cartaz na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, dirigido por Imanol Uribe, constrói uma das sátiras mais divertidas e inteligentes do cinema espanhol dos anos 90. 

Depois de passar uma noite com uma prostituta, o jovem rei percebe que nunca viu o corpo da rainha — e decide corrigir isso imediatamente. O problema é que um pedido tão simples acaba provocando um verdadeiro terremoto moral dentro da corte. Padres, nobres, conselheiros e autoridades religiosas começam a discutir a situação como se o destino do reino dependesse daquilo. E é justamente aí que o filme fica ótimo. Quanto mais séria a reação das figuras de poder, mais engraçada se torna a situação. O roteiro transforma o espanto do rei diante da nudez em uma grande ironia sobre repressão, hipocrisia religiosa e controle dos desejos. Tudo isso sem perder o tom leve e bem-humorado.

Baseado no romance "Crónica del Rey Pasmado", de Gonzalo Torrente Ballester, o filme brinca o tempo inteiro com a distância entre aparência e desejo dentro daquela sociedade rígida e cheia de protocolos. Visualmente, também chama muita atenção. Os figurinos, os interiores do palácio e toda a recriação da Espanha do século XVII ajudam a dar ainda mais charme para essa mistura de comédia histórica e crítica de costumes. E o elenco parece se divertir bastante com a proposta. Destaque especial para Fernando Fernán Gómez, que conquistou o Goya de Melhor Ator Coadjuvante pelo filme. Aliás, "O Rei Pasmado e a Rainha Nua" saiu da cerimônia do Prêmio Goya 1992 com oito estatuetas, incluindo Melhor Filme e Melhor Direção. 

Mas talvez o mais interessante seja perceber como a história continua atual. No fundo, o filme fala sobre sociedades que transformam algo simples e natural em escândalo coletivo. Uma dica de fim de semana perfeita para quem gosta de comédias inteligentes, sátiras históricas e filmes que usam humor para cutucar estruturas de poder sem nunca perder a elegância. O inverno chegou, todo mundo já andando encapotado... será mesmo que a rainha vai ficar peladona?

Ficha técnica
“O Rei Pasmado e a Rainha Nua” | “El rey pasmado” (título original) | “O Rei Pasmado” (título em Portugal)
Gênero: comédia, histórico, sátira. Duração: 104 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1991. Idioma: espanhol. Direção: Imanol Uribe. Roteiro: Imanol Uribe, Joaquín Oristrell e Rafael Azcona (baseado na obra de Gonzalo Torrente Ballester). Elenco: Fernando Fernán Gómez, María Barranco, Laura del Sol, Juan Diego, Gabriela Toscano. Distribuição no Brasil: Disponível em Belas Artes À La Carte. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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quarta-feira, 24 de junho de 2026

.: Filme "Um Dia Nossos Segredos Serão Revelados" transforma desejo proibido


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Poucos filmes recentes abraçaram o romantismo trágico com tamanha convicção quanto "Um Dia Nossos Segredos Serão Revelados". Dirigido pela cineasta alemã Emily Atef, o longa-metragem é um dos mais vistos da  plataforma de streaming Reserva Imovision, carregando a atmosfera de um amor capaz de consumir tudo ao redor, enquanto observa um dos momentos mais decisivos da história contemporânea alemã: os meses que sucederam a queda do Muro de Berlim.

Baseado no romance homônimo da escritora Daniela Krien, o filme transporta o espectador para o verão de 1990, na antiga Alemanha Oriental. O país vive a expectativa da reunificação, mas a transformação política permanece ao fundo. O centro da narrativa é Maria, jovem prestes a completar 19 anos que divide os dias entre a fazenda da família do namorado, Johannes, e as páginas dos livros que devora compulsivamente. Entre eles, "Os Irmãos Karamázov", de Fiódor Dostoiévski, obra cuja presença dialoga diretamente com os conflitos morais e emocionais da protagonista.

Interpretada com impressionante magnetismo por Marlene Burow, Maria encontra no vizinho Henner, vivido por Felix Kramer, um homem marcado pela dureza da vida, pela solidão e por segredos nunca totalmente revelados. O encontro entre os dois desencadeia uma atração imediata, física e emocional, que cresce até assumir contornos obsessivos. Johannes, personagem de Cedric Eich, torna-se o terceiro vértice de uma relação atravessada por culpa, desejo e inevitáveis consequências.

Emily Atef assina a direção e também o roteiro, desenvolvido em parceria com Daniela Krien e Josune Hahnheiser. Conhecida por obras como "Mais que Nunca", a cineasta franco-alemã demonstra novamente interesse por personagens que enfrentam dilemas íntimos em períodos de profundas mudanças. Em "Um Dia Nossos Segredos Serão Revelados", ela constrói uma narrativa sensorial, apoiada em diálogos econômicos e em uma poderosa comunicação visual.

A atuação de Marlene Burow merece atenção especial. A jovem atriz sustenta a narrativa com uma presença ao mesmo tempo delicada e inquieta. O olhar da atriz frequentemente diz mais do que os diálogos. Felix Kramer, por sua vez, entrega um personagem difícil de decifrar, alternando brutalidade, fragilidade e melancolia. 

Os extensos campos da Turíngia, região onde ocorreram as filmagens, transformam-se em reflexo do estado emocional dos personagens. A câmera captura o calor do verão, a poeira das estradas rurais, a vastidão das plantações e os corpos em permanente tensão. O trabalho fotográfico cria um contraste marcante entre a liberdade aparente daquele cenário e os aprisionamentos afetivos vividos por Maria.

Selecionado para a Competição Oficial do Festival Internacional de Cinema de Berlim de 2023, o longa-metragem despertou debates entre crítica e público. Enquanto alguns enxergaram uma vigorosa história de amadurecimento e descoberta sexual, outros questionaram a romantização de uma relação marcada pela diferença de idade e por evidentes desequilíbrios emocionais.

Curiosamente, embora a reunificação alemã seja um dos acontecimentos mais importantes do século XX, Emily Atef evita transformá-la em tema central. O processo histórico surge em pequenos detalhes: novos produtos vindos do Ocidente, mudanças de comportamento, sonhos de prosperidade e incertezas sobre o futuro. 

Entre referências literárias, paisagens de rara beleza e uma história de amor destinada ao conflito, "Um Dia Nossos Segredos Serão Revelados" convida o espectador a percorrer os territórios contraditórios do desejo. O resultado é um retrato íntimo de uma geração que testemunhava o fim de um mundo enquanto tentava compreender os próprios sentimentos.

Ficha técnica
"Um Dia Nossos Segredos Serão Revelados" | "Irgendwann werden wir uns alles erzählen" (título original) | "Um Dia Havemos de Contar Tudo Uns aos Outros" (título em Portugal)
Gênero: drama, romance, histórico. Duração: 129 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 2023. Idioma: alemão. Direção: Emily Atef. Roteiro: Emily Atef, Daniela Krien e Josune Hahnheiser. Elenco: Marlene Burow, Felix Kramer, Cedric Eich, Silke Bodenbender, Florian Panzner, Jördis Triebel, Christian Erdmann, Christine Schorn e Peter Schneider.
Distribuição no Brasil: Imovision. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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.: "Crime de Amor" transforma romance operário em poderosa crítica social


Entre máquinas barulhentas, corredores de fábrica e apartamentos modestos da Itália industrial dos anos 70, “Crime de Amor”, dirigido por Luigi Comencini e em cartaz na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, transforma uma história de amor aparentemente simples em algo muito mais devastador. É um filme sobre amor, mas também sobre trabalho, desigualdade, insegurança, além de preconceito e a tentativa de preservar afeto e dignidade em um mundo cada vez mais duro.

Nullo, interpretado por Giuliano Gemma, é um jovem operário do norte da Itália que se apaixona por Carmela, vivida por Stefania Sandrelli, uma trabalhadora siciliana ligada a tradições familiares e religiosas muito fortes. O relacionamento entre os dois surge de forma delicada em meio à rotina pesada da fábrica. Mas aos poucos o filme vai revelando que aquele romance também carrega grandes tensões sociais. 

Existe um choque constante entre o norte industrializado e politizado da Itália e o sul mais conservador e tradicional representado por Carmela. E tudo isso aparece de forma muito natural dentro da relação dos personagens. Ao mesmo tempo, o ambiente de trabalho vai ganhando um peso cada vez maior na narrativa. As condições tóxicas da fábrica começam a afetar diretamente a saúde de Carmela, e o filme passa então a mostrar como aquele amor tenta sobreviver num sistema brutal, desumano e indiferente ao sofrimento dos trabalhadores. 

O mais bonito em “Crime de Amor” é a maneira como Luigi Comencini mistura romance e crítica social sem transformar os personagens em símbolos ou discursos ambulantes. Tudo parece muito vívido e próximo da realidade, e isso torna o impacto emocional ainda mais forte. Apresentado em competição no Festival de Cannes de 1974, o filme reúne dois rostos importantíssimos do cinema italiano daquela época. Giuliano Gemma, conhecido principalmente pelos faroestes italianos, mostra nesse filme um lado muito mais sensível e contido. Já Stefania Sandrelli entrega uma atuação delicada e extremamente emocionante, daquelas que permanecem na memória muito depois do final. 

Ficha técnica
"Crime de Amor" | "Delitto d'amore" (título original) | "Delito de Amor" (título em Portugal)
Gênero: drama, romance. Duração: 108 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1974. Idioma: italiano. Direção: Luigi Comencini. Roteiro: Luigi Comencini e Ugo Pirro. Elenco: Giuliano Gemma, Stefania Sandrelli, Brizio Montinaro, Renato Scarpa, Rina Franchetti, Emilio Bonucci, Pippo Starnazza, Walter Valdi, Bruno Cattaneo, Luigi Antonio Guerra e Carla Mancini. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.

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terça-feira, 23 de junho de 2026

.: Crítica: "Toy Story 5" aborda realidade provocando a emoção do público

Cartaz de "Toy Story 5"

Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em junho de 2026


Quem poderia imaginar que a história dos brinquedos do pequeno Andy ganhariam tantos capítulos, ou melhor, tantos desdobramentos a ponto de ter cinco sequências? Eis que em junho de 2026 nas telas de cinema está em cartaz "Toy Story 5" presenteando o público com duas cenas pós-créditos. Uma que funciona como complemento do desfecho, enquanto que a última é uma número musical dos brinquedos.

Sem Andy, toda a história acontece em torno da pequena Bonnie, a garotinha que herdou todos os brinquedos do jovem que foi para universidade. Ainda encantada como o universo da imaginação, ela cria situações diversas, mas quando tenta um contato com os irmãos gêmeos da casa vizinha, é tomada pela timidez.

Assim, a vaqueira Jessie segue como a dona do coração da menina que também faz a boneca ser par romântico do astronauta Buzz Lightyear (é bom se preparar para uma invasão massiva do herói, gerando boas sequências e risadas). Sem amigos e muito envergonhada, surge uma tábua de salvação para que Bonnie crie elos com seus amigos: o eletrônico Lilypad, um tablet tecnológico que acaba assumindo o posto de vilã da trama.

Contudo, "Toy Story" mergulha na realidade do isolamento social em que todos se "conhecem" sem se ver e realmente conversar, reforçando o quanto Bonnie continua sem amigas mesmo tendo uma Lilypad e passando por uma festa do pijama com as meninas que nunca lhe deram bola. Em tempo, a cena de Bonnie mostrando o tablet para as "amigas" faz lembrar a de Lilo mostra a Xepa para as garotas em "Lilo & Stitch". Embora sejam situações distintas, o desinteresse das meninas pela garotinha e seu item termina quase que igual.

Desta vez, o foco da trama de "Toy Story" está no isolamento e o medo do abandono, refletido não somente em Bonnie, mas também em Jessie. Aliás, o peso da carga emocional vem também da vaqueira que recorda da primeira dona, a garota Emily. Por obra do destino, a boneca faz um volta ao passado que  agora está alterado e um pouco modernizado. No entanto, tal arco na trama se faz importante para  que Bonnie alcance o maior objetivo: fazer amizade.

Com o vibrante e encantador colorido Disney "Toy Story 5" emociona ao entrelaçar a história de Bonnie e Jessie, resgata Woody e Betty Bop para dar uma forcinha e solucionar um problema, traz o Garfinho agora casando, enquanto insere novos personagens, como por exemplo, o incrivelmente divertido Amigo Rolinho e, com sabedoria faz refletir ao chamar a atenção do público a respeito das conturbadas e distantes relações atuais. Imperdível!


"Toy Story 5" (Toy Story 5). Gênero: Animação, Comédia e Aventura. Direção: Andrew Stanton e McKenna Harris. Roteiro: Andrew Stanton e McKenna Harris. Duração: 1h 40 minutos. Classificação Indicativa: 6 anos. Distribuição: Walt Disney Pictures. Elenco: Woody: Tom Hanks (EUA) / Marco Ribeiro (BR), Buzz Lightyear: Tim Allen (EUA) / Guilherme Briggs (BR), Jessie: Joan Cusack (EUA) / Mabel Cezar (BR), Lilypad (O Tablet - Vilã): Greta Lee (EUA) / Maisa Silva (BR), Amigo Rolinho: Conan O'Brien (EUA) / Rafael Infante (BR). Sinopse: O trabalho de Buzz, Woody, Jessie e do resto da turma fica exponencialmente mais difícil quando eles enfrentam uma nova ameaça na hora da brincadeira.

Trailer de "Toy Story 5"




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segunda-feira, 22 de junho de 2026

.: Clássico, "O Império dos Sentidos" reacende debate sobre sexo e poder


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Entre os filmes mais vistos da plataforma de streaming Reserva Imovision, o drama erótico “O Império dos Sentidos” ainda testa os limites do olhar. Lançado originalmente em 1976, o filme dirigido por Nagisa Ôshima volta vem sendo redescoberto pela nova geração e confirma a vocação de colocar os espectadores em um lugar incômodo. Ambientado no Japão de 1936, o longa-metragem acompanha Sada Abe (Eiko Matsuda), ex-prostituta que passa a trabalhar como empregada na hospedaria de Kichizō Ishida (Tatsuya Fuji). A relação entre os dois cresce rápido, alimentada por desejo, posse e um impulso que não encontra freio. O que poderia ser apenas mais uma história de paixão se transforma em um mergulho radical na obsessão, conduzido até um desfecho que a própria história real já havia tornado célebre.

Ôshima, figura central da nouvelle vague japonesa, concebeu o projeto em parceria com o produtor francês Anatole Dauman, conhecido por trabalhos com Alain Resnais e Jean-Luc Godard. A coprodução entre Japão e França foi a saída encontrada para contornar a censura japonesa, que à época impunha cortes severos à representação do corpo e da sexualidade. Filmado no Japão e finalizado na França, o longa chegou ao público sem fazer nenhum tipo de concessão, o que explica tanto a notoriedade do filme quanto a série de proibições que a produção enfrentou ao redor do mundo.

A repercussão em Cannes, em 1976, dá a medida do impacto. A procura foi tamanha que o festival organizou sessões extras para dar conta do público. A curiosidade vinha acompanhada de escândalo: tratava-se de um filme com cenas de sexo explícito integradas à narrativa, algo raro no circuito de prestígio. Nos anos seguintes, “O Império dos Sentidos” seria banido em diversos países, enquanto outros o liberariam pouco depois, já sem cortes. No Japão, o próprio Ôshima enfrentou um processo judicial, encerrado apenas em 1982, com a absolvição dele.

O roteiro, também assinado por Ôshima, parte de depoimentos reais de Sada Abe, registrados pela polícia, e de relatos que circularam após o crime. A escolha dá ao filme uma base documental que contrasta com a encenação rigorosa. Cada gesto, cada repetição, cada deslocamento entre os corpos é pensado como parte de uma construção dramática que dispensa ornamentos. O diretor elimina distrações e concentra a ação em poucos espaços, criando um clima de confinamento que acompanha a escalada da relação.

Eiko Matsuda, vinda do teatro experimental, sustenta o filme com uma presença que oscila entre fragilidade e domínio. A personagem dela conduz o ritmo da relação, deslocando o eixo tradicional do olhar no cinema erótico. Tatsuya Fuji, por sua vez, compõe um parceiro que se entrega por completo, num jogo que se intensifica a cada cena. O que se vê é a insistência de um desejo levado até as últimas consequências.

A fotografia e o uso das cores dialogam com tradições visuais japonesas, especialmente o teatro kabuki. Tons de vermelho atravessam figurinos e objetos, marcando o ambiente e sugerindo uma tensão constante. Cada elemento parece colocado para amplificar o que está em cena. Reduzir “O Império dos Sentidos” a rótulos simplistas empobrece a experiência. O filme se constrói como um estudo sobre controle, entrega e destruição, articulando corpo e poder de maneira direta e que ainda desafia convenções e incomoda expectativas.

Quase cinquenta anos depois, a obra mantém sua capacidade de dividir plateias. Há quem veja ali um marco do cinema moderno; há quem rejeite o filme pela forma como expõe seus personagens. Entre uma reação e outra, permanece um trabalho que insiste em ser visto, discutido e reavaliado — e que, ao reaparecer em circuito, reafirma a força de um cinema que não se acomoda.

Ficha técnica
“O Império dos Sentidos” | “Ai no Korîda” (título original)
Gênero: drama erótico. Duração: 109 minutos. Classificação indicativa: 18 anos. Ano de produção: 1976. Idioma: Japonês. Direção: Nagisa Ôshima. Roteiro: Nagisa Ôshima. Elenco: Eiko Matsuda, Tatsuya Fuji, Aoi Nakajima, Yasuko Matsui, Meika Seri, Taiji Tonoyama. Distribuição no Brasil: Imovision (catálogo e relançamentos). Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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.: Suspense de 1956, "A Sombra" retorna para provocar novas leituras


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Produzido durante o chamado “degelo” político na Polônia, quando a censura afrouxava discretamente, “A Sombra” encontrou terreno para lidar com temas delicados. O filme chega à plataforma de streaming Belas Artes À La Carte como um título que precisa ser redescoberto. Dirigido por Jerzy Kawalerowicz e escrito por Aleksander Ścibor-Rylski, o longa-metragem polonês de 1956 parte de um corpo lançado de um trem para construir um enigma difícil de ser decifrado. A investigação conduzida por policiais, agentes de segurança e um legista se fragmenta em três versões, situadas em momentos distintos: a Segunda Guerra Mundial, o imediato pós-guerra e a Polônia dos anos 1950. O filme, que tem no elenco os atores Zygmunt Kęstowicz, Adolf Chronicki e Tadeusz Jurasz, organiza o suspense a partir de relatos que se contradizem e se contaminam. Cada depoimento desloca o espectador, que passa a lidar com identidades instáveis e intenções ambíguas. 

A estrutura lembra o jogo de perspectivas popularizado por “Rashomon”, de Akira Kurosawa, mas Kawalerowicz prefere expandir o dispositivo: em vez de revisitar um único acontecimento, ele costura histórias que ecoam entre si, criando uma espécie de mosaico moral. A pergunta sobre quem foi o homem morto se transforma, aos poucos, em outra: o que define alguém em um cenário de vigilância, medo e lealdades frágeis? A câmera de Jerzy Lipman aposta em enquadramentos fechados e ângulos baixos, valorizando rostos tensos e ambientes carregados. O filme avança com movimento, perseguições e sequências envolvendo trens que imprimem ritmo e risco. Em algumas dessas cenas, os próprios atores dispensaram dublês.

Críticos da época reagiram com desconfiança ao retrato de um mundo povoado por agentes secretos e inimigos invisíveis, leitura que dialogava com o imaginário do stalinismo. O filme, no entanto, segue por outra via e expõe a fragilidade das certezas: heroísmo e traição mudam conforme o ponto de vista. Exibido no Festival de Cannes de 1956, o longa-metragem integra o movimento conhecido como Polish Film School, responsável por renovar a linguagem cinematográfica no país ao abordar as consequências da guerra com maior liberdade estética e densidade moral. Kawalerowicz, que mais tarde assinaria obras como “Madre Joana dos Anjos” e “Faraó”, já demonstrava aqui um domínio formal que chamaria atenção fora da Polônia, ainda que a filmografia dele permaneça menos difundida do que merece.


Ficha técnica
“A Sombra” | "Cień" (título original)
Gênero: drama, ação, suspense. Duração: 98 minutos. Classificação indicativa: não informada.
Ano de produção: 1956. Idioma: polonês. Direção: Jerzy Kawalerowicz. Roteiro: Aleksander Ścibor-Rylski. Elenco: Zygmunt Kęstowicz, Adolf Chronicki, Tadeusz Jurasz, Emil Karewicz, Ignacy Machowski, Bolesław Płotnicki, Bohdan Ejmont, Marian Łącz, Halina Przybylska, entre outros.
Distribuição no Brasil: não informada. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.

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domingo, 21 de junho de 2026

.: “Muito Mais que um Crime” reafirma o vigor político de Costa-Gavras


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Lançado em 1989, “Muito Mais que um Crime” reestreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte com a assinatura firme de Costa-Gavras, cineasta que construiu carreira investigando as zonas de atrito entre poder, memória e justiça. Nesse filme, ele conduz um drama judicial que se move com tensão de thriller, sem recorrer a excessos formais, sustentado por um roteiro que prefere a revelação gradual ao choque fácil. A trama acompanha Ann Talbot (Jessica Lange), advogada respeitada que aceita defender o próprio pai, Mike Laszlo (Armin Mueller-Stahl), acusado de ter participado de crimes de guerra na Hungria durante a Segunda Guerra Mundial. 

O que começa como um gesto de lealdade familiar se transforma em um percurso incômodo, à medida que o tribunal expõe testemunhos, documentos e informações que colocam em xeque a imagem construída dentro de casa. O roteiro de Joe Eszterhas, inspirado em experiências pessoais - o pai dele foi acusado de colaboração com o regime nazista -, evita simplificações e constrói um embate moral que não se resolve com facilidade. A escrita aposta na ambiguidade e sustenta o conflito central: até onde vai a fidelidade a alguém quando a verdade ameaça desmoronar tudo o que se acreditava sólido? 

Jessica Lange conduz o filme com uma atuação de alta voltagem emocional, reconhecida com indicação ao Oscar de Melhor Atriz. Sua Ann oscila entre convicção e dúvida, sem perder a densidade. Ao seu lado, Armin Mueller-Stahl compõe um pai que alterna afeto, orgulho e um jeito difícil de decifrar, elemento essencial para manter a tensão em cena. O elenco conta ainda com Frederic Forrest e Lukas Haas, reforçando um conjunto que sustenta o peso dramático sem dispersão.

Premiado com o Urso de Ouro no Festival de Berlim, o longa-metragem confirma a habilidade de Costa-Gavras em tratar temas espinhosos com firmeza na condução da história. Conhecido por títulos como “Z” e “Missing”, o diretor retoma aqui o interesse por estruturas de poder e pelas marcas que a história deixa nos indivíduos, sem recorrer a discursos didáticos. O julgamento funciona como motor dramático, mas o filme cresce nos momentos em que desloca o foco para o impacto íntimo das descobertas.

Há também um detalhe simbólico que marca a narrativa: a caixa de música do título original (“Music Box”). O objeto, aparentemente inofensivo, guarda pistas que se revelam decisivas. A escolha do nome não é gratuita e aponta para a ideia de memória guardada e, em algum momento, exposta. Entre as curiosidades, nomes como Kirk Douglas e Walter Matthau foram cogitados para o papel de Mike Laszlo, mas Costa-Gavras optou por Mueller-Stahl, cuja origem europeia acrescenta autenticidade ao personagem. Também se comenta que Jane Fonda chegou a ser considerada para o papel de Ann, antes da escolha por Jessica Lange.

Sem recorrer a grandes manobras estéticas, “Muito Mais que Um Crime” aposta na força da narrativa e na densidade de seus conflitos. O filme mantém o espectador atento até o desfecho, quando as peças finalmente se encaixam. O impacto não vem de um truque, mas daquilo que sempre esteve ali, à espera de ser encarado.


Ficha técnica
“Muito Mais que um Crime” | “Music Box” (título original) | “O Enigma da Caixa de Música” (título em Portugal)
Gênero: drama, suspense. Duração: 124 minutos. Classificação indicativa: 13 anos. Ano de produção: 1989. Idioma: inglês. Direção: Costa-Gavras. Roteiro: Joe Eszterhas. Elenco: Jessica Lange, Armin Mueller-Stahl, Frederic Forrest, Lukas Haas, Donald Moffat. Distribuição no Brasil: não especificada. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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sábado, 20 de junho de 2026

.: Crítica: "Uma Infância Alemã" é história de amadurecimento e devoção


Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em junho de 2026


Em busca de realizar o desejo da mãe, garotinho Nanning (Jasper Billerbeck) descobre que além do rio há uma realidade ainda mais cruel e capaz de fazê-lo romper a inocência diante da escassez de itens comuns como a farinha de trigo, por exemplo. Ambientado na primavera de 1945, "Uma Infância Alemã" (Amrum), apresenta uma aventura épica na ilha isolada de Amrum, no Mar do Norte.

O drama que acontece ainda nas semanas finais da Segunda Guerra Mundial, leva o menino de 12 anos que aguarda o retorno do pai do front, a protagonizar uma verdadeira jornada do herói com uma trajetória emocionante, que o faz caçar focas, pescar à noite, trabalhar no campo para sustentar a mãe grávida e até o faz cair no erro de cometer alguns delitos. 

O longa exibido no Festival de Cinema Europeu IMOVISION 2026, baseado em memórias reais que pincelam o fim da guerra e segredos familiares profundos, entrega uma perspectiva emocional e psicológica sobre a Segunda Guerra Mundial. Logo, "Uma Infância Alemã" é um retrato delicado sobre o amadurecimento diante da realidade, assim como o impacto do fascismo e do trauma por meio dos olhos de uma criança criada dentro da ideologia nazista.

"Uma Infância Alemã" (Amrum). Gênero: Drama. Direção: Fatih Akin. Roteiro: Fatih Akin e Hark Bohm. Duração: 1h 33 minutos. Classificação Indicativa: 14 anos. Distribuição: Imovision. Elenco: Laura Tonke, Jasper Billerbeck e Diane Kruger. Sinopse: drama histórico que acompanha a perda da inocência de um garoto durante o colapso do Terceiro Reich. 


Trailer de "Uma Infância Alemã"


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