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quinta-feira, 10 de setembro de 2026

.: "Banho de Sangue" transforma disputa por herança em carnificina à moda de Mario Bava


Clássico italiano de 1971 antecipa o slasher, coleciona mortes criativas e deixa "Sexta-Feira 13" com uma dívida considerável

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Antes de Jason Voorhees aparecer para atormentar adolescentes em acampamentos, Mario Bava já tinha descoberto que uma propriedade isolada, um punhado de pessoas gananciosas e uma quantidade generosa de sangue poderiam render uma bela carnificina. É nesse território que chega ao catálogo da plataforma de streaming Belas Artes À La Carte o filme "Banho de Sangue", produção italiana de 1971 que permanece como uma das obras mais influentes do cinema de horror.

Dirigido por Bava, o filme parte de uma premissa simples: a morte da condessa Federica Donati abre uma disputa pela propriedade situada em uma baía isolada. O que poderia render uma briga familiar, algumas reuniões de herdeiros e um processo judicial ganha contornos muito mais definitivos quando os interessados começam a morrer um atrás do outro. Bava não entrega ao público um assassino único, metódico e interessado em construir uma carreira. A cobiça movimenta praticamente todos os personagens, e cada um parece carregar uma razão particular para eliminar quem estiver no caminho. A matança vira uma reação em cadeia, como anuncia um dos títulos originais do filme, "Reazione a Catena".

O título original, porém, é "Ecologia del delitto", algo próximo de "Ecologia do Crime". E a escolha faz algum sentido: naquela baía, gente, dinheiro, natureza e propriedade estão envolvidos numa espécie de cadeia alimentar em que a espécie dominante costuma ser aquela que consegue matar primeiro. Com Claudine Auger, Luigi Pistilli, Laura Betti, Claudio Camaso, Isa Miranda, Leopoldo Trieste, Brigitte Skay e outros nomes do cinema italiano, Bava monta um elenco de personagens pouco preocupados com princípios. Auger, conhecida internacionalmente por "007 Contra a Chantagem Atômica", vive Renata Donati, uma das figuras diretamente envolvidas na disputa pela herança. Pistilli interpreta Alberto, enquanto Claudio Camaso aparece como Simon, personagem ligado aos mistérios da propriedade.

O roteiro reúne Mario Bava, Giuseppe Zaccariello, Filippo Ottoni, Dardano Sacchetti e outros colaboradores, com uma trama que mistura elementos do giallo - um subgênero do cinema italiano, especialmente popular entre as décadas de 1960 e 1970, que mistura mistério policial, suspense, terror, investigação e violência gráfica - e aquilo que posteriormente seria reconhecido como a cartilha do slasher. O Museu de Arte Moderna de Nova York, ao apresentar o filme em sua programação, destacou precisamente essa importância histórica: luvas pretas, assassino anônimo, jovens imprudentes e objetos cortantes transformados em instrumentos de morte aparecem entre os elementos que ajudaram a estabelecer as convenções do subgênero.

A influência sobre "Sexta-Feira 13" é particularmente evidente. A famosa sequência em que dois amantes são mortos juntos por uma lança durante o ato sexual reaparece em "Sexta-Feira 13 - Parte 2". A comparação entre as duas cenas é recorrente em estudos e textos sobre a genealogia do slasher. Bava também contou com um nome que se tornaria lendário em outro campo do cinema: Carlo Rambaldi, responsável pelos efeitos de maquiagem. Décadas depois, o italiano ganharia três Oscars, incluindo os prêmios por "Alien, o Oitavo Passageiro" e "E.T. - O Extraterrestre". Em "Banho de Sangue", o trabalho dele ajudou a transformar as mortes em atrações próprias, com direito a machadadas, facadas, decapitações e empalações.

São 13 mortes em uma sucessão que transforma o assassinato em espetáculo visual. O curioso é que a violência não elimina a ironia. Pelo contrário: Bava parece se divertir com a ideia de colocar seus personagens uns contra os outros até que praticamente ninguém reste para reivindicar a propriedade. A abertura já dá o tom. Uma condessa é assassinada e o crime é montado para parecer suicídio. Pouco depois, o homem responsável pela morte também vira vítima. A partir daí, a lógica convencional do suspense começa a escorregar pelo ralo. Quem mata quem? Quem está interessado na herança? Quem pretende explorar comercialmente a baía? Quem apareceu ali por acaso e quem já chegou com a faca escondida?

Essa estrutura ajuda a explicar por que o filme é frequentemente apontado como precursor fundamental do slasher. O próprio material reunido sobre a produção registra a quantidade de títulos internacionais que recebeu, entre eles "A Bay of Blood", "Twitch of the Death Nerve", "Bloodbath" e "Carnage". O IMDb identifica "Ecologia del delitto" como título original e registra duração de 1h24. Outro detalhe saboroso é que Bava, além de dirigir, assumiu a fotografia. A câmera acompanha a paisagem da baía com interesse quase tão grande quanto dedica aos corpos que vão surgindo pelo caminho. 

O resultado cria um contraste curioso: a beleza do cenário e a brutalidade dos assassinatos convivem no mesmo quadro. O filme consegue ser visualmente elegante enquanto seus personagens fazem coisas que dificilmente seriam recomendadas por qualquer manual de boa convivência. A produção foi filmada na região de Sabaudia, ao sul de Roma, incluindo a casa de praia do produtor, segundo registros sobre a obra. 

O orçamento modesto não impediu Bava de apostar em soluções visuais bastante inventivas, uma característica que ajuda a explicar por que "Banho de Sangue" envelheceu como referência cinematográfica, mesmo quando sua narrativa parece disposta a testar a paciência de quem tenta acompanhar todas as relações de parentesco, interesses imobiliários e planos criminosos. 

O filme sabe o que quer entregar: atmosfera, mortes inventivas, humor ácido e uma sucessão de reviravoltas. Bava parece olhar para a ganância de seus personagens com uma sobrancelha levantada. Para quem conhece "Halloween" e "Sexta-Feira 13" antes de chegar aos seus ancestrais italianos, "Banho de Sangue" funciona como uma visita à árvore genealógica do horror. Para quem já conhece Mario Bava, é uma oportunidade de rever um cineasta que transformava limitações de produção em invenção visual.


Ficha técnica
"Banho de Sangue" | "Ecologia del delitto" (título original) | "Baía Sangrenta" (título em Portugal). "A Bay of Blood" (título internacional)
Gênero: terror, giallo, slasher. Duração: 84 minutos. Classificação indicativa: 18 anos. Ano de produção: 1971. Data de lançamento: 8 de setembro de 1971, na Itália. Idioma: italiano. Direção: Mario Bava.
Roteiro: Mario Bava, Giuseppe Zaccariello, Filippo Ottoni, Dardano Sacchetti, Franco Barberi e Gene Luotto. Elenco: Claudine Auger, Luigi Pistilli, Claudio Camaso, Laura Betti, Leopoldo Trieste, Isa Miranda, Anna Maria Rosati, Brigitte Skay, Chris Avram, Paola Montenero, Nicoletta Elmi, Renato Cestiè, Guido Boccaccini, Roberto Bonanni e Giovanni Nuvoletti. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.

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quarta-feira, 9 de setembro de 2026

.: "Um Homem com Uma Câmera" ganha vida com trilha sonora ao vivo no MIS


Clássico de Dziga Vertov será exibido pelo Cinematographo em sessão com acompanhamento do pianista e compositor Anselmo Mancini. Foto: divulgação


O MIS - Museu da Imagem e do Som de São Paulo resgata a experiência das antigas sessões de cinema no dia 13 de setembro, quando o programa Cinematographo apresenta "Um Homem com Uma Câmera", clássico documentário dirigido por Dziga Vertov em 1929. A sessão terá trilha sonora executada ao vivo pelo pianista e compositor Anselmo Mancini, que recriará musicalmente a atmosfera da produção soviética. Considerado um dos grandes documentários da história do cinema, o filme acompanha 24 horas na vida dos moradores de uma cidade grande. Do amanhecer ao anoitecer, um cinegrafista percorre diferentes espaços com a câmera no ombro e registra o movimento urbano, o trabalho, o lazer e a rotina cotidiana.

A proposta de Vertov revolucionou a linguagem documental ao transformar a própria câmera em personagem e explorar possibilidades de montagem, ritmo e enquadramento. Quase um século depois, o filme ganha uma nova camada de experiência no MIS com a música criada e executada ao vivo por Mancini. Os ingressos custam R$ 40,00 (inteira) e R$ 20,00 (meia-entrada) e podem ser adquiridos pela plataforma Megapass ou na bilheteria física do MIS.

A programação é uma realização do Ministério da Cultura, Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas de São Paulo, e Museu da Imagem e do Som, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, ProAC e Promac. O MIS tem patrocínio institucional da Livelo, Vivo, Goldman Sachs, Ituran e Goodstorage e apoio institucional das empresas Delboni, EAÍ?! Marketing, Unisys, Volkswagen Caminhões e Ônibus, Unipar, Campari, Colégio Albert Sabin, PWC, Pirelli, Alcaçuz, Telium, Kaspersky, Gabriel e Play Audiovisual. 


Sobre o convidado
Anselmo Mancini
é doutor e mestre em audiovisual e bacharel em composição musical pela Universidade de São Paulo (USP). Com mais de 24 anos de trajetória profissional, atua como compositor e pesquisador, reunindo experiência em diferentes áreas relacionadas à música e ao audiovisual. Mancini ministra cursos, oficinas e workshops sobre trilha sonora em instituições como o Centro de Pesquisa e Formação do SESC, as Oficinas Culturais do Estado de São Paulo e a Academia Internacional de Cinema. Também participa como palestrante convidado e integra bancas de trabalhos de conclusão de curso e defesas de mestrado nos departamentos de Música, Audiovisual e Rádio e TV da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP) e da FMU-FIAM-FAAM.

Sobre o Cinematographo
O Cinematographo é um programa mensal do MIS dedicado a recuperar o clima das antigas sessões de cinema, com um detalhe que muda completamente a experiência: músicos convidados criam e executam a trilha sonora ao vivo durante a exibição. A cada edição, filmes de diferentes períodos ganham acompanhamento musical pensado para a sessão, aproximando cinema e música em uma experiência que transforma a relação do público com a obra.

Serviço | Cinematographo – "Um Homem com Uma Câmera"
Domingo, dia 13 de setembro, às 15h00
Auditório MIS (168 lugares)
Ingresso: R$ 40,00 (inteira) e R$ 20,00 (meia). Ingressos disponíveis na plataforma Megapass e na bilheteria do MIS
Classificação: 14 anos

.: Nova versão de "Emmanuelle" revisita o erotismo dos anos 1970


"Emmanuelle" leva Noémie Merlant a Hong Kong em uma viagem de negócios marcada por desejo, poder e encontros misteriosos

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

O desejo ganhou endereço novo em "Emmanuelle", que estreia na plataforma de streaming Reserva Imovision. Dirigido por Audrey Diwan, o filme leva a personagem criada pela escritora Emmanuelle Arsan para Hong Kong e troca o imaginário tropical da produção de 1974 por hotéis de luxo, corredores sofisticados, quartos de alto padrão e uma protagonista profissionalmente segura, mas em busca de alguma coisa que parece ter ficado pelo caminho.

Na trama, Emmanuelle (Noémie Merlant) trabalha como responsável pela qualidade de uma rede hoteleira de luxo. Ela viaja sozinha para Hong Kong com a missão de avaliar o desempenho de um hotel administrado por Margot (Naomi Watts). O trabalho, porém, ganha contornos pessoais quando a protagonista passa a experimentar novas relações e conhece Kei (Will Sharpe), um homem enigmático que parece escapar de suas tentativas de aproximação. É uma busca por um prazer perdido em meio a encontros intensos e novas experiências.

A escolha de Audrey Diwan dá ao projeto uma curiosa camada de expectativa. A diretora venceu o Leão de Ouro no Festival de Veneza por "O Acontecimento", adaptação do livro de Annie Ernaux sobre uma jovem francesa que enfrenta uma gravidez indesejada nos anos 1960. Em "Emmanuelle", ela volta a colocar uma mulher e sua relação com o próprio corpo no centro da narrativa, desta vez a partir de um personagem que já chega ao cinema carregado por décadas de memória.

O filme é baseado no romance "Emmanuelle", publicado em 1967 por Emmanuelle Arsan, e funciona como uma nova versão cinematográfica da personagem que ficou mundialmente conhecida com o filme dirigido por Just Jaeckin em 1974, estrelado por Sylvia Kristel. A nova produção foi apresentada na abertura do Festival de San Sebastián, em setembro de 2024, antes de chegar aos cinemas franceses.

Uma das diferenças mais evidentes está no cenário. A história abandona Bangkok e se instala em Hong Kong, cidade que também participa ativamente da composição visual do filme. Parte das filmagens aconteceu na cidade, inclusive em Chungking Mansions, complexo que ficou conhecido entre cinéfilos por sua presença marcante em "Amores Expressos", de Wong Kar-wai. Audrey Diwan escolheu o local por sua admiração pelo filme de 1994.

Noémie Merlant assume uma personagem que se move entre reuniões, avaliações profissionais e experiências íntimas. A atriz, conhecida por "Retrato de uma Jovem em Chamas", divide o elenco com Naomi Watts, Will Sharpe, Jamie Campbell Bower, Chacha Huang e Anthony Wong. O roteiro é assinado por Audrey Diwan e Rebecca Zlotowski, a partir do romance de Arsan.

A produção também carrega uma curiosidade de bastidor. Léa Seydoux chegou a ser anunciada para interpretar Emmanuelle, mas deixou o projeto e foi substituída por Noémie Merlant em 2023. As filmagens começaram em Paris naquele ano e depois seguiram para Hong Kong.

A recepção crítica foi dividida, com avaliações que elogiaram a fotografia, a direção de arte e a tentativa de atualizar o material, enquanto outras apontaram problemas no roteiro e uma distância entre a proposta sensual e o resultado.  Audrey Diwan parece interessada em retirar a personagem do lugar de fantasia sexual que marcou sua história cinematográfica e colocá-la diante de uma pergunta menos confortável: o que resta do desejo quando uma mulher já conquistou independência, dinheiro, profissão e liberdade para escolher? A resposta pode dividir opiniões. 
Ficha técnica


Ficha técnica
"Emmanuelle" (título original)
Gênero: drama, romance, erótico. Duração: 105 minutos. Classificação indicativa: 18 anos. Ano de produção: 2024. Data de lançamento: 10 de julho de 2025 no Brasil. Idioma: inglês e francês. Direção: Audrey Diwan. Roteiro: Audrey Diwan e Rebecca Zlotowski. Elenco: Noémie Merlant, Naomi Watts, Will Sharpe, Jamie Campbell Bower, Chacha Huang, Anthony Wong, Carole Franck, Isabella Wei, Adam Pak e outros. Distribuição no Brasil: Imovision. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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.: "Sid e Nancy: o Amor Mata" transforma o amor punk em sentença de morte


Cultuado desde os anos 1980, filme de Alex Cox chega ao Belas Artes à La Carte com Gary Oldman e Chloe Webb em uma das histórias de amor mais caóticas da história do rock

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Sexo, drogas, brigas, heroína, Sex Pistols e um romance que parecia ter sido escrito por alguém com uma queda preocupante por finais infelizes. "Sid & Nancy: o Amor Mata" retorna ao catálogo brasileiro pela plataforma de streaming Belas Artes À La Carte para revisitar a história de Sid Vicious e Nancy Spungen, casal que virou símbolo do lado mais destrutivo do punk em um retrato cru e perturbador da breve e incendiária trajetória de Sid Vicious e Nancy Spungen.

Dirigido por Alex Cox, o filme acompanha Sid Vicious, baixista dos Sex Pistols interpretado por Gary Oldman, e Nancy Spungen, vivida por Chloe Webb. A trama parte da passagem da banda pelos Estados Unidos, em 1978, e acompanha a deterioração do relacionamento entre os dois, enquanto drogas, violência e dependência passam a ocupar cada vez mais espaço na vida do casal. A produção também traz David Hayman como Malcolm McLaren, Andrew Schofield como Johnny Rotten e uma participação de Courtney Love, em uma de suas primeiras experiências no cinema.

Cox escreveu o roteiro ao lado de Abbe Wool. O diretor já vinha do irreverente "Repo Man" e decidiu tratar Sid e Nancy com uma liberdade que incomodou bastante gente ligada aos Sex Pistols. O próprio Cox explicou, anos depois, que a recepção americana do filme, entendido como uma história de amor trágica, estava mais próxima da intenção original do que a leitura britânica que o classificava simplesmente como um filme sobre o movimento punk.

A produção também ganhou força graças ao trabalho de Gary Oldman. O ator emagreceu para interpretar Sid e incorporou postura, voz e gestos do músico. Uma das curiosidades mais saborosas da produção é que Oldman usou durante as filmagens o colar que pertenceu ao próprio Sid Vicious. A mãe do músico, Anne Beverley, entregou a peça ao ator depois de conhecer a produção. Chloe Webb constrói uma Nancy menos fácil de encaixar na caricatura da groupie problemática. A atriz mergulha na instabilidade da personagem e acompanha a transformação de uma relação amorosa em uma espécie de pacto de autodestruição. O resultado incomoda porque o filme não oferece personagens particularmente fáceis de admirar.

A decadência aparece em primeiro plano, com o uso de drogas e a dependência tratados de maneira bastante dura. O filme também carregou uma velha briga com John Lydon, o Johnny Rotten dos Sex Pistols. O vocalista atacou publicamente a produção e reclamou da ausência de sua versão dos acontecimentos durante o processo de realização. Em entrevista ao The Guardian, anos depois, Lydon continuava classificando o filme de forma bastante pouco diplomática.

O incômodo faz algum sentido: Cox nunca pretendeu fazer uma reconstituição histórica convencional. A própria produção assumiu uma abordagem estilizada, misturando acontecimentos reais, memória e imaginação cinematográfica. O diretor chegou a admitir posteriormente que gostaria de ter tornado o final mais duro, deixando ainda mais evidente a dimensão trágica do desperdício das vidas de Sid e Nancy.

A trilha sonora ajuda a explicar por que o filme ganhou vida própria dentro da cultura punk. Joe Strummer, do The Clash, compôs "Love Kills", canção que acabou batizando a produção em diferentes materiais internacionais. A trilha ainda reúne The Pogues, John Cale, Steve Jones, Circle Jerks, Pray for Rain e o próprio Gary Oldman cantando "My Way". Outro detalhe curioso envolve Courtney Love. "Sid e Nancy" marcou uma de suas primeiras experiências no cinema, anos antes de ela conquistar reconhecimento como atriz por "O Povo contra Larry Flynt". No filme de Cox, ela aparece em um papel secundário, quando ainda era uma figura distante da celebridade cinematográfica que viria a se tornar.

A produção não foi um fenômeno comercial. Feita com orçamento estimado em US$ 4 milhões, arrecadou cerca de US$ 2,85 milhões mundialmente. A matemática, portanto, não ajudou. O tempo, entretanto, resolveu ser mais generoso: "Sid e Nancy" ganhou status de clássico cult e passou a ser lembrado como uma das cinebiografias musicais mais particulares dos anos 1980. A recepção crítica também ajudou a preservar o filme. 

Ficha Técnica
"Sid e Nancy: o Amor Mata" | "Sid and Nancy" (título original)
Gênero: drama biográfico, musical e romance. Duração: 112 minutos. Classificação indicativa: 18 anos. Ano de produção: 1986. Data de lançamento: 7 de agosto de 1987 (Brasil). Idioma: inglês. Direção: Alex Cox. Roteiro: Alex Cox e Abbe Wool. Elenco: Gary Oldman, Chloe Webb, David Hayman, Andrew Schofield, Perry Benson, Tony London e Courtney Love. Distribuição no Brasil: Belas Artes à La Carte. Cenas pós-créditos: não há cena pós-créditos propriamente dita. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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terça-feira, 8 de setembro de 2026

.: "Jacques Tati, Caído da Lua" revela gênio quase destruído por "PlayTime"


Documentário de Jean-Baptiste Péretié revisita a trajetória do criador e mostra como perfeccionismo, ambição e uma cidade construída do zero ajudaram a produzir uma obra-prima - e uma ruína financeira

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico cultural, especial para o portal Resenhando.com

Jacques Tati tinha um problema sério com limites. Para fazer cinema, precisava controlar o enquadramento, o movimento dos atores, o cenário, os ruídos e até aquilo que o espectador deveria descobrir sozinho. Em "Jacques Tati, Caído da Lua", documentário dirigido por Jean-Baptiste Péretié, essa obsessão aparece como uma das chaves para entender tanto a grandeza quanto a derrocada do cineasta francês. A produção estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, e percorre a carreira de Tati por meio de imagens de arquivo, cenas de filmes, entrevistas e registros pouco conhecidos de seu processo criativo.

Com 60 minutos de duração, o documentário acompanha a trajetória do artista desde os primeiros trabalhos no music-hall até o sucesso internacional e o desastre financeiro provocado por "PlayTime". A narração é de Denis Podalydès, ator da Comédie-Française, e o elenco de imagens de arquivo reúne, entre outros, o próprio Tati e nomes como Marcel Amont, Brigitte Bardot, Olivia de Havilland e Charles de Gaulle.

O título original, "Jacques Tati, Tombé de la Lune", traduz a ideia de alguém que parece ter chegado de outro planeta para observar o mundo. A expressão combina perfeitamente com Monsieur Hulot, personagem que Tati transformou em uma espécie de alter ego: alto, desajeitado, educado, distraído e quase sempre deslocado diante das engenhocas, dos costumes e da velocidade do mundo moderno. A diferença é que Hulot tropeça nas situações enquanto Tati parecia arquitetar cada tropeço com régua, compasso e uma paciência quase criminosa.

Péretié recupera um aspecto essencial dessa filmografia: Tati fez da observação cotidiana uma forma particular de comédia. O diretor preferia Buster Keaton a Charlie Chaplin e chegou a criticar Chaplin por concentrar demais a comicidade no protagonista. Tati caminhou em outra direção, espalhando a gag pelo quadro e permitindo que personagens aparentemente secundários participassem da engrenagem humorística. 

O som também ocupa lugar central. Tati pertence ao cinema falado, mas muitas vezes parece trabalhar como se estivesse reinventando o cinema mudo. Portas, motores, passos, máquinas, campainhas, copos, telefones e ruídos urbanos assumem funções que normalmente seriam entregues aos diálogos. A comicidade nasce tanto do que se vê quanto do que se escuta. Em seus filmes, uma porta pode ter personalidade e uma máquina pode parecer mais humana do que quem a opera.

Essa obsessão alcança uma escala quase delirante em "PlayTime". Para filmar a produção de 1967, Tati construiu uma enorme cidade cenográfica conhecida como Tativille, com prédios, escritórios, ruas e interiores concebidos para que o diretor pudesse organizar sua coreografia visual. O projeto consumiu anos de trabalho e extrapolou sucessivamente o orçamento. O resultado hoje é tratado como uma das grandes obras-primas do cinema, mas sua recepção inicial foi bem menos generosa. O fracasso comercial levou Tati a uma crise financeira que envolveu a liquidação de sua empresa e a perda do controle sobre seus filmes, já que ele praticamente apostou a própria vida em uma obra que o público da época não estava preparado para receber. 

O cineasta chegou a hipotecar a casa e outros bens para sustentar a produção. O projeto, concebido com uma ambição monumental, acabou contribuindo para sua ruína. Décadas depois, a história tratou de devolver a "PlayTime" o lugar que Tati imaginava que merecia. O documentário também ajuda a reposicionar o cineasta diante da modernidade. Tati não tratava a tecnologia apenas como vilã. O que o interessava era o modo como os seres humanos se comportavam diante dela. 

Esse olhar continua particularmente atual. A arquitetura padronizada, a obsessão pela eficiência, a proliferação de dispositivos e a dificuldade de estabelecer relações em meio a ambientes cada vez mais automatizados poderiam facilmente alimentar uma comédia contemporânea. Tati percebeu esse mundo quando ele ainda estava começando a tomar forma. Talvez por isso Monsieur Hulot continue parecendo perdido: o problema é que nós também estamos.

"Jacques Tati, Caído da Lua" funciona como uma porta de entrada para uma filmografia pequena em quantidade e enorme em influência. O documentário não precisa transformar Tati em santo da comédia para demonstrar sua importância. Basta acompanhar o homem que começou no music-hall, criou um dos personagens mais reconhecíveis do cinema, ganhou o Oscar por "Meu Tio", construiu uma cidade para realizar "PlayTime" e terminou pagando uma conta brutal por sua própria ambição. Tati morreu em 1982, aos 75 anos, mas sua obra continuou crescendo depois dele. 

O melhor elogio que se pode fazer a "Jacques Tati, caído da Lua" talvez seja lembrar que o cineasta permanece difícil de encaixar. Ele é comediante, ator, roteirista, diretor, mímico e arquiteto de situações. É francês, mas seu humor atravessou fronteiras porque dependia pouco de idioma. É herdeiro de uma tradição burlesca, mas não cabe confortavelmente nela. E criou um personagem que parecia estar sempre alguns segundos atrasado em relação ao mundo, porque Tati estiva, na verdade, alguns anos à frente.


Ficha técnica
"Jacques Tati, caído da Lua" | "Jacques Tati, Tombé de la Lune" (título original)
Gênero: documentário. Duração: 60 minutos. Classificação indicativa: a confirmar no lançamento brasileiro. Ano de produção: 2021. Data de lançamento: a confirmar para a estreia na Belas Artes à La Carte. Idioma: francês. Direção: Jean-Baptiste Péretié. Roteiro: Jean-Baptiste Péretié. Elenco: Jacques Tati, Denis Podalydès (narração), Marcel Amont, Brigitte Bardot, Olivia de Havilland, Charles de Gaulle, entre outros, em imagens de arquivo. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.

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sábado, 5 de setembro de 2026

.: "Nino" torna diagnóstico de câncer em jornada íntima pelas ruas de Paris


Drama de Pauline Loquès acompanha jovem que recebe uma notícia devastadora e ganha dois dias para reorganizar a própria vida antes de iniciar o tratamento

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Depois de chegar aos cinemas brasileiros, "Nino" encontra uma nova janela de exibição na plataforma de streaming da Reserva Imovision, onde apresenta ao público brasileiro o primeiro filme de ficção de Pauline Loquès. No centro da história está Nino, interpretado por Théodore Pellerin, um jovem parisiense que descobre ter câncer na garganta quando deveria estar preocupado com assuntos bem menos dramáticos.

A partir do diagnóstico, os médicos dão ao rapaz duas tarefas antes do início do tratamento. O que poderia parecer apenas uma contagem regressiva médica ganha contornos de uma jornada pessoal pelas ruas de Paris, enquanto Nino tenta entender o que fazer com a notícia, como contar para a mãe e os amigos e, principalmente, como continuar vivendo diante de uma realidade que mudou de repente. A própria apresentação oficial do filme resume essas missões como uma oportunidade para o personagem se reconectar com o mundo e consigo mesmo.

A estrutura concentra a narrativa em poucos dias e transforma a capital francesa em parte essencial da experiência de Nino. A cidade aparece como espaço de encontros, lembranças, afetos e pequenas decisões, enquanto o protagonista tenta administrar o medo, a confusão e as relações que havia deixado pelo caminho. A comparação com "Cléo das 5 às 7", clássico de Agnès Varda, surge naturalmente pela maneira como o filme acompanha uma personagem diante da perspectiva de uma doença e usa a cidade como extensão de sua inquietação. A própria recepção ao filme também destacou essa relação entre deslocamento urbano, espera e descoberta pessoal.

Estreante na direção de ficção, Loquès também assina o roteiro, com colaboração de Maud Ameline. Antes de "Nino", a cineasta havia dirigido o documentário "La Vie d'une Jeune Fille", de 2018. O filme nasceu de um processo de desenvolvimento iniciado em 2020 e foi rodado em Paris no segundo semestre de 2024. Théodore Pellerin é o grande trunfo do elenco. A interpretação como Nino rendeu ao ator o Prêmio Fundação Louis Roederer de Revelação na Semana da Crítica do Festival de Cannes de 2025. 

O reconhecimento não parou em Cannes. "Nino" venceu o César de Melhor Primeiro Filme e Pellerin levou o prêmio de Melhor Revelação Masculina na edição de 2026. A produção também passou pelo Festival Internacional de Toronto, na competição Platform, e acumulou prêmios em eventos como Deauville, Roma, Varsóvia e Namur. No elenco, Pellerin divide a cena com William Lebghil, Salomé Dewaels e Jeanne Balibar, além de participações de Camille Rutherford, Estelle Meyer, Victoire Du Bois e Mathieu Amalric.

A produção francesa chegou aos cinemas brasileiros em 7 de maio de 2026 e agora pode ser encontrada na Reserva Imovision. Com 96 minutos, o filme aposta na intimidade, no humor pontual e nos encontros fortuitos para construir uma história sobre juventude, amizade, família e a necessidade quase urgente de reaprender a olhar para a própria vida.


Ficha técnica
"Nino" (título original)
Gênero: drama. Duração: 96 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2025. Data de lançamento: 7 de maio de 2026 no Brasil; 9 de abril de 2026 em Portugal. Idioma: francês. Direção: Pauline Loquès. Roteiro: Pauline Loquès, com colaboração de Maud Ameline. Elenco: Théodore Pellerin, William Lebghil, Salomé Dewaels, Jeanne Balibar, Camille Rutherford, Estelle Meyer, Victoire Du Bois, Balthazar Billaud, Mathieu Amalric, Nahéma Ricci, Alexandre Desrousseaux e outros. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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.: “Duelo na Riviera Francesa” faz da traição de 40 anos um acerto de contas


Comédia francesa de Ivan Calbérac chega ao Belas Artes À La Carte com André Dussollier, Sabine Azéma e Thierry Lhermitte em uma história na qual o ciúme envelhece, mas aparentemente não prescreve


Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico cultural, especial para o portal Resenhando.com

Descobrir uma traição quarenta anos depois pode parecer um excelente motivo para deixar o passado quieto. Para o personagem François Marsault, definitivamente não. Em “Duelo na Riviera Francesa”, comédia francesa de Ivan Calbérac que estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte., um general aposentado resolve transformar uma velha infidelidade conjugal em assunto de primeira ordem - porque, para ele, certas ofensas têm prazo de validade semelhante ao vinho francês: aparentemente, quanto mais antigas, mais inflamáveis.

Interpretado por André Dussollier, François é casado há cinco décadas com Annie, vivida por Sabine Azéma. O casamento segue firme quando ele encontra, no sótão, cartas apaixonadas que revelam um caso extraconjugal ocorrido quatro décadas antes. Annie admite o romance e tenta argumentar que o episódio pertence a uma época tão distante que já deveria ter prescrito. François, contudo, não está interessado em jurisprudência sentimental. Decide pedir o divórcio e localizar Boris, o antigo amante da mulher, para acertar as contas pessoalmente.

A missão leva o casal até Nice, na Côte d’Azur, onde o passado reaparece na figura de Boris, vivido por Thierry Lhermitte. O sujeito não parece exatamente disposto a colaborar com a paz matrimonial: ainda guarda sentimentos por Annie e volta a cortejá-la. O que poderia ser apenas uma briga de casal ganha proporções familiares quando os três filhos entram na equação, transformando a viagem numa espécie de excursão involuntária pelos problemas, segredos e afetos de uma família que já deveria saber se comportar melhor.

Calbérac escreve e dirige uma comédia apoiada no choque entre a rigidez de François e a capacidade de Annie de enxergar a situação com alguma distância. A premissa tem uma boa dose de absurdo: um homem de 73 anos decide fazer justiça pelas próprias mãos por causa de algo que aconteceu quando ainda era jovem. O curioso é que o filme não trata o personagem simplesmente como um velho ciumento. A crise acaba servindo para colocar em xeque a maneira como ele passou décadas comandando a própria família.

A dupla André Dussollier e Sabine Azéma acrescenta uma camada particularmente saborosa ao projeto. Os dois atores voltam a interpretar um casal depois de inúmeras colaborações, entre elas “Tanguy”, “On Connaît la Chanson”, “Cœurs” e “Les Herbes Folles”, trabalhos associados, em boa parte, ao cineasta Alain Resnais. Para “Duelo na Riviera Francesa”, essa história compartilhada ajuda a vender uma intimidade que o roteiro precisa construir rapidamente. A própria imprensa francesa chamou atenção para a 12ª colaboração cinematográfica entre os dois.

Thierry Lhermitte entra como o ingrediente capaz de incendiar novamente a situação. Boris é o antigo amante que, quatro décadas depois, ainda conserva uma queda por Annie. O encontro entre os três produz a faísca central da comédia: enquanto François está preocupado em defender uma honra conjugal que já atravessou quatro décadas, Boris parece muito mais interessado em descobrir se uma velha paixão pode ganhar uma segunda temporada.

A origem da história também tem um quê de roteiro pronto. Segundo as informações de produção divulgadas sobre o filme, Calbérac teve a ideia depois de ler uma notícia sobre um italiano com mais de 90 anos que pediu o divórcio ao descobrir antigas cartas de amor endereçadas à esposa. A anedota real acabou virando uma comédia sobre memória, casamento, orgulho e aquela velha mania humana de transformar uma questão encerrada há décadas em emergência nacional.

Lançado na França em 24 de abril de 2024, “Duelo na Riviera Francesa” teve uma abertura expressiva: alcançou 34.020 espectadores no primeiro dia, ficando atrás apenas de “Back to Black” entre os lançamentos daquele dia. Na semana de estreia, acumulou 234.009 espectadores e chegou ao fim de sua passagem francesa com cerca de 594 mil entradas. O filme também circulou internacionalmente com o título “Riviera Revenge”, chegando a outros mercados europeus e à Austrália.

“Duelo na Riviera Francesa” parece interessado em observar o ridículo de homens que levam a própria honra a sério demais e mulheres que já descobriram que determinadas guerras conjugais simplesmente não merecem munição. No fim, a viagem para a Riviera deixa de ser apenas uma perseguição ao amante do passado. François precisa encarar a mulher com quem passou 50 anos, os filhos que conhece menos do que imagina e, sobretudo, a possibilidade incômoda de que uma vida inteira não cabe nas versões que cada integrante da família construiu dela. É uma comédia sobre casamento, velhice e ciúme em que ninguém parece exatamente inocente.


Ficha técnica
“Duelo na Riviera Francesa” | “N’avoue Jamais” (título original) | “Nunca Confesses” (título em Portugal) | “Riviera Revenge” (título internacional)
Gênero: comédia. Duração: 94 minutos. Classificação indicativa: não localizada em fonte oficial brasileira até o momento; na França, o filme recebeu classificação “Tous publics” (livre para todos os públicos). Ano de produção: 2024. Data de lançamento: setembro de 2026 no Belas Artes À La Carte; estreia original na França em 24 de abril de 2024. Idioma: francês. Direção: Ivan Calbérac. Roteiro: Ivan Calbérac. Elenco: André Dussollier (François Marsault), Sabine Azéma (Annie Marsault), Thierry Lhermitte (Boris Pelleray), Joséphine de Meaux (Capucine Marsault), Sébastien Chassagne (Adrien Marsault), Gaël Giraudeau (Amaury Marsault), Eva Rami (Mika), Michel Boujenah (Clément Fontaine), Solal Bouloudnine (Mourad), Frédéric Deleersnyder (tenente Théo), Christiane Conil (Sophie Désenclos), Jacques Brunet (almirante) e Marie Fabre (Marjorie Marsault). Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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quinta-feira, 3 de setembro de 2026

.: Resenha crítica: "O Sorveteiro" é trash colorido com muito sangue jorrando

Cartaz de "O Sorveteiro"


Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em setembro de 2026


O terror slasher "O Sorveteiro" é o tipo de filme com baixo orçamento que até tem uma boa premissa e tenta apresentar uma história assustadora (dentro das possibilidades). Assim, a aposta no elenco infanto-juvenil para protagonizar uma trama que tinha grande chance de se tornar um clássico do gênero, cai com facilidade, diretamente, no trash de colorido encantador na telona de cinema com muito sangue jorrando.

Sem querer agradar, a produção do diretor Eli Roth ("Cabana do Inferno" e "O Albergue") foca no diálogo com quem aceita a sua proposta despojada e o ritmo de diversão violenta. Numa história de vingança da figura pavorosa de um sorveteiro, o longa que soma 1 hora e 27 minutos de duração, o público que admira o terror tradicional ou busca diversão é levado a Bayleen Bay.

Calma! Não se trata de um flerte com o clássico "Os Pássaros", embora tudo aconteça numa baía e tenha nos seus primeiros minutos um campo aberto com crianças, como acontece em "A Bolha Assassina". A nova produção sanguinolenta traça um caminho próprio entregando um toque do seriado "The Walking Dead" e de filme para TV.

A película que poderia ser apenas um episódio do seriado "American Horror Stories", devidamente aproveitado (considerando a premissa) ou daqueles que só servem para retomar o hiato e que ninguém sabe a motivação de ter sido produzido (considerando o filme entregue), apresenta três jovens que não comeram o sorvete amaldiçoado distribuído pelo misterioso sorveteiro e tentam impedir que a carnificina acabe com o local idílico.

"O Sorveteiro" é uma super opção quando se considera o longa pelo lado do terrir e trash como um resgate do cinema B raiz dos anos 1980 pelo uso de efeitos práticos e humor macabro. Vale destacar que o longa apresenta uma cena pós-créditos. Assista por sua conta e risco!


"O Sorveteiro" (Ice Cream Man). Gênero: TerrorEli Roth. Roteiro: Noah Belson e Eli Roth. Duração: 1h 26 minutos. Classificação Indicativa: 16 anos. Elenco: Eli Roth, Ari Millen, Charlie Zeltzer e Snoop Dogg. Sinopse: Tudo acontece em torno de um misterioso e simpático sorveteiro ambulante. Ele passa a distribuir sorvetes e picolés amaldiçoados para as crianças locais.

Trailer de "O Sorveteiro"



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terça-feira, 1 de setembro de 2026

.: "Dias de Trovão" acelera em sequência com Tom Cruise e Anne Hathaway


Produção que resgata Cole Trickle quase quatro décadas depois do filme de 1990 será dirigida por Jonathan Levine e terá cenas pensadas para IMAX

Quase quatro décadas depois de colocar Tom Cruise atrás do volante de um carro da Nascar, o filme "Dias de Trovão" está pronto para voltar às pistas. A Paramount confirmou oficialmente a sequência do filme de 1990, novamente com Cruise no papel de Cole Trickle e Anne Hathaway como a nova protagonista feminina. A estreia está prevista para 2 de junho de 2028. 

A produção terá direção de Jonathan Levine, responsável por "Meu Namorado é um Zumbi" e "Casal Improvável". Cruise também assume a produção ao lado de Jerry Bruckheimer e Tommy Harper. Bruckheimer, aliás, retorna à franquia décadas depois de participar do primeiro filme e reforça a ligação com a trajetória cinematográfica do astro.

Ainda cercada por mistério, a trama terá Hathaway como uma engenheira e proprietária de uma equipe de corrida. A personagem será uma novidade no universo de Cole, que volta às pistas depois de uma longa pausa. Os detalhes do roteiro permanecem guardados a sete chaves, mas a combinação de um piloto veterano e uma mulher que comanda uma equipe promete mudar a dinâmica da história original.


De volta à velocidade
No filme de 1990, Cruise interpreta Cole Trickle, jovem piloto talentoso, impulsivo e bastante convencido de que nasceu para vencer. Ele recebe a oportunidade de competir na principal categoria da Nascar e passa a contar com a experiência de Harry Hogge, vivido por Robert Duvall, para transformar velocidade e arrogância em habilidade de verdade.

A grande rivalidade acontece com Rowdy Burns, personagem de Michael Rooker. Depois de um grave acidente envolvendo os dois pilotos, Cole precisa lidar com o medo de voltar a correr e encontra apoio na neurocirurgiã Claire Lewicki, interpretada por Nicole Kidman. O romance entre os personagens divide espaço com corridas, egos inflados e uma boa dose de adrenalina.

A história culmina na tradicional Daytona 500, quando Cole precisa provar que amadureceu e enfrentar um novo adversário nas pistas. A fórmula pode até parecer familiar, mas a mistura de automobilismo, romance, rivalidade e o magnetismo de Cruise ajudou "Dias de Trovão" a conquistar seu espaço entre os filmes cult ligados às corridas.


Uma produção que saiu do controle
O primeiro "Dias de Trovão" também ficou conhecido pelo tamanho da operação nos bastidores. As filmagens começaram em 1989 e passaram por diferentes autódromos utilizados pela Nascar. Para conseguir imagens mais realistas, a equipe espalhou câmeras pelas pistas e chegou a colocar carros da produção em corridas reais. Dezenas de veículos foram utilizados e destruídos durante o processo.

Os problemas de produção fizeram o orçamento subir consideravelmente. A estimativa inicial de aproximadamente US$ 35 milhões teria chegado a algo próximo de US$ 60 milhões, em meio a atrasos, refilmagens e mudanças constantes no roteiro. Apesar das críticas pouco entusiasmadas na época, o filme conseguiu uma respeitável carreira comercial. Foram cerca de US$ 157,9 milhões arrecadados mundialmente, diante de um orçamento estimado em US$ 60 milhões. Com o passar dos anos, a produção ganhou status cult, especialmente entre admiradores de automobilismo e fãs de Cruise.


O romance que atravessou as pistas
"Dias de Trovão" ainda tem um capítulo particularmente curioso na história de Hollywood. Foi durante as filmagens que Tom Cruise e Nicole Kidman se conheceram. Os dois começaram um relacionamento, casaram-se em dezembro de 1990 e permaneceram juntos até 2001. Kidman, então no início da carreira internacional, interpretou Claire Lewicki e voltaria a dividir o elenco com Cruise em "Um Sonho Distante" e "De Olhos Bem Fechados". Ou seja: além de acelerar carros, "Dias de Trovão" também colocou em movimento um dos casamentos mais conhecidos de Hollywood nos anos 1990.

A escolha de Anne Hathaway, porém, já provocou uma reação nada discreta. Randy Quaid, que integrou o elenco do filme original, criticou publicamente a escalação da atriz e afirmou que Nicole Kidman seria uma escolha mais adequada para contracenar com Cruise na sequência. Em declaração publicada nas redes sociais, Quaid atacou o perfil político de Hathaway e associou a atriz ao movimento "woke", alegando que ela não corresponderia ao público ligado a "Dias de Trovão" e à Nascar. 

O comentário também defendeu um eventual retorno de Kidman à franquia. A opinião do ator, naturalmente, está longe de representar uma decisão oficial da produção. Hathaway já está confirmada no elenco, enquanto Kidman não foi anunciada para a sequência.


Nostalgia monetizada
A estratégia da Paramount lembra uma receita que já deu muito certo para Tom Cruise. Depois de décadas, "Top Gun: Maverick" mostrou que uma continuação tardia pode transformar nostalgia em fenômeno cinematográfico. Agora, "Dias de Trovão" tenta repetir a dose, trocando os caças por carros de corrida.

A nova produção será filmada para IMAX e também está prevista para formatos como Dolby Cinema e 4DX. A ideia é transformar as corridas em um espetáculo de grande escala e colocar o público novamente ao lado de Cole Trickle, agora diante de uma Nascar bastante diferente daquela que encontrou em 1990.

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

.: “Banquete Coutinho” devolve a palavra a Eduardo Coutinho e serve cinema puro


Documentário de Josafá Veloso parte de uma entrevista realizada em 2012 para revisitar a obra, as ideias e as inquietações de um dos maiores cineastas brasileiros

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Eduardo Coutinho tinha talento para conversar e uma alergia saudável à pose de gênio. Em determinado momento de “Banquete Coutinho”, resume a própria existência com a secura bem-humorada de quem dispensava monumentos: “Eu fumo e faço uns filmes”. A frase parece pequena diante de uma filmografia que modificou a maneira de registrar pessoas comuns no cinema brasileiro. Talvez seja esse o charme. Coutinho sabia que uma câmera, uma cadeira e alguém disposto a contar a própria história podiam produzir terremotos.

Dirigido e roteirizado por Josafá Veloso, “Banquete Coutinho” chega à plataforma de streaming da Reserva Imovision, depois de percorrer festivais brasileiros e internacionais. Realizado a partir de um encontro filmado com Coutinho em 2012, dois anos antes da morte do cineasta, o documentário usa aquela conversa como espinha dorsal para passear por sua obra e por algumas obsessões que o acompanharam durante décadas: vida, morte, trabalho, cinema, ética, religião, relações de poder e o curioso território criado entre quem pergunta e quem aceita ser filmado. 

A provocação que move Veloso é boa: teria Eduardo Coutinho passado a carreira inteira realizando, de algum modo, o mesmo filme? A pergunta conduz um percurso que alcança títulos fundamentais como “Cabra Marcado para Morrer”, “Santo Forte”, “Babilônia 2000”, “Edifício Master”, “O Fim e o Princípio” e “Jogo de Cena”. A montagem de Eugenio Puppo e Gustavo Vasconcelos aproxima trechos dessas obras da entrevista de 2012 e permite perceber uma espécie de parentesco entre personagens, métodos e preocupações espalhados pela filmografia. A fotografia do novo material é de Ticão Okada, enquanto Veloso assina também a música.

O próprio Coutinho ocupa o centro da cena, posição curiosa para alguém que construiu boa parte da carreira olhando para os outros. A inversão rende sabor ao filme. O homem que perguntava passa a responder, embora continue escapando das certezas, desconfiando das teorias muito arrumadinhas e tratando o cinema com aquela mistura peculiar de rigor, humor e desencanto. Pela tela passam suas ideias sobre o ofício e fragmentos de uma trajetória que começou longe da imagem consagrada do mestre documentarista.

Antes de “Cabra Marcado para Morrer” se tornar um marco, Coutinho experimentou a ficção, trabalhou como roteirista, integrou o “Globo Repórter” e passou anos construindo uma linguagem documental baseada no encontro, no conflito e na singularidade de cada pessoa diante da câmera. “Cabra Marcado para Morrer”, iniciado como ficção em 1964 e interrompido após o golpe militar, seria retomado anos depois sob outra forma, misturando o material antigo ao reencontro com seus participantes. Lançado em 1984, recebeu, entre outros prêmios, o Fipresci no Festival de Berlim e tornou-se peça central de sua carreira.

Veloso ainda recupera uma curiosidade quase arqueológica: “Le Téléphone”, curta de 1959 realizado por Coutinho durante seus estudos no Institut des Hautes Études Cinématographiques, o IDHEC, na França. Esse retorno às primeiras experiências ajuda a desmontar a impressão de que o cineasta nasceu pronto, barba branca, cigarro na mão e perguntas afiadas. Houve ficção, televisão, roteiros para outros diretores, tropeços, mudanças de rota e muito trabalho antes da fase que consolidaria títulos como “Santo Forte”, “Edifício Master” e “Jogo de Cena”.

“Banquete Coutinho” foi o primeiro filme dirigido por Josafá Veloso, historiador formado pela USP, mestre pela Universidade Federal Fluminense e com estudos de documentário na Escuela Internacional de Cine y Televisión de San Antonio de los Baños, em Cuba. A estreia ocorreu em 2019, na abertura da oitava edição do Olhar de Cinema - Festival Internacional de Curitiba. Depois, o documentário passou pela Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Festival do Rio, Doclisboa, Festival Internacional del Nuevo Cine Latinoamericano, CineOP, Cinecipó e forumdoc.bh, entre outros eventos.

A força da proposta aparece quando Coutinho simplesmente fala. A ironia seca, a inteligência quase impaciente e a capacidade de desmontar solenidades continuam vivas na gravação. Veloso dispõe esse material ao lado dos filmes e deixa que uma obra converse com outra. O resultado também sugere algo delicioso: talvez a pergunta sobre Coutinho ter realizado repetidamente “o mesmo filme” diga bastante sobre a coerência de um artista que passou décadas interessado no ser humano quando ele deixa de caber no estereótipo. O título “Banquete Coutinho” cai bem. Há muita coisa na mesa: memória, política, ética, religião, fracasso, vaidade, morte, trabalho e cinema. No centro dela está um sujeito que preferia conversar com gente a fabricar estátuas de si próprio. Para alguém que dizia fumar e fazer uns filmes, Eduardo Coutinho deixou uma tremenda quantidade de assunto.


Ficha técnica
“Banquete Coutinho” (título original) | “A Treat of Coutinho” (título internacional)
Gênero: documentário. Duração: 74 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. Ano de produção: 2019. Data de lançamento: 5 de junho de 2019, no Brasil. Idioma: português. Direção e roteiro: Josafá Veloso. Elenco: Eduardo Coutinho. Produção: Eugenio Puppo. Direção de fotografia: Ticão Okada. Montagem: Eugenio Puppo e Gustavo Vasconcelos. Música: Josafá Veloso. Produção: Heco Produções. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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.: "Aventura de Férias" embaralha férias, memória e família sob o sol da Sardenha


Filme de Sophie Letourneur, destaque do Festival do Rio, acompanha viagem de uma família francesa pela Sardenha e chega ao Brasil pelo Belas Artes à La Carte

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Destaque na programação do Festival do Rio 2025, "Aventura de Férias" chega ao Brasil pelo streaming Belas Artes À La Carte com uma proposta que parece simples até a família colocar o pé na estrada: passar as férias de verão na Sardenha. O problema é que férias em família raramente obedecem ao roteiro imaginado antes de fechar as malas. Dirigido por Sophie Letourneur, o filme acompanha Claudine, uma menina que está prestes a completar 11 anos e decide registrar as histórias da viagem enquanto percorre a ilha italiana de carro com a mãe, Sophie, o padrasto, Jean-Philippe, e o irmão caçula, Raoul, de três anos. Entre passeios, refeições, pequenas descobertas, discussões e as inevitáveis trapalhadas provocadas por uma criança que parece ter energia para abastecer uma cidade inteira, a viagem vai ganhando contornos muito menos turísticos.

Selecionado para a mostra Panorama Mundial do Festival do Rio, "Aventura de Férias" chamou atenção pela maneira como transforma o cotidiano familiar em matéria cinematográfica. O filme acompanha situações aparentemente banais e encontra nelas humor, desconforto, ternura e uma certa melancolia. A proposta está longe da comédia familiar convencional, aquela em que cada confusão precisa desembocar em uma lição edificante antes dos créditos finais. Nesse filme, a família pode discutir, perder a paciência, rir, irritar e continuar junta. Como acontece na vida real, para desespero de quem esperava uma viagem perfeitamente organizada.

A estrutura do filme tem uma particularidade saborosa: as conversas familiares são fundamentais para a construção da narrativa. Letourneur utiliza gravações realizadas durante viagens feitas em 2016 como matéria-prima para o projeto. Segundo informações divulgadas sobre a produção, ela registrou aquelas conversas sem saber exatamente, naquele momento, qual seria o destino do material. Anos depois, as gravações passaram a alimentar a escrita do filme.

O resultado cria uma curiosa mistura de ficção e experiência pessoal. As falas carregam uma naturalidade desconcertante, enquanto a encenação organiza aquilo que poderia parecer apenas um amontoado de lembranças de férias. A própria diretora já havia trabalhado com procedimento semelhante em "Voyages en Italie", de 2023, primeiro filme de uma trilogia dedicada aos relacionamentos e às viagens pela Itália. "A Aventura" é o segundo capítulo desse projeto.

E o título não é por acaso. "Aventura de Férias" faz uma referência direta a "L'Avventura", clássico de Michelangelo Antonioni lançado em 1960. A brincadeira já havia aparecido no filme anterior de Letourneur, "Voyages en Italie", uma alusão evidente a "Viagem à Itália", de Roberto Rossellini. O cinema italiano, portanto, está no retrovisor, embora a família de Letourneur esteja ocupada demais tentando sobreviver às férias para prestar muita atenção à cinefilia.

A comparação com Antonioni, porém, serve mais como provocação cinéfila do que como indicação de que os filmes tenham propostas semelhantes. O clássico de 1960 é uma obra fundamental do cinema moderno, enquanto a produção de Letourneur mergulha no cotidiano, nas relações familiares e na memória. A ligação está principalmente no título e no desejo de transformar uma viagem em uma experiência de observação.

"Aventura de Férias" também carrega uma trajetória internacional respeitável. O filme abriu a programação da ACID no Festival de Cannes 2025, uma das importantes seções paralelas dedicadas ao cinema independente. Depois, passou por outros festivais, entre eles o Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro. A imprensa francesa destacou a combinação entre humor, intimidade e situações corriqueiras. O jornal "Le Monde" chamou atenção para a maneira como Letourneur transforma episódios triviais - refeições, passeios, praias, caprichos infantis e pequenas tensões - em material para refletir sobre a passagem do tempo e as transformações dentro de uma família.

Claudine observa tudo com a curiosidade de quem ainda está descobrindo os adultos e suas contradições. Ao registrar as conversas da família, ela transforma a viagem em memória antes mesmo de ela terminar. É como se a menina soubesse que aquelas pequenas confusões, que naquele momento parecem intermináveis, um dia serão as histórias que todos vão querer lembrar.

Com humor agridoce, uma dose generosa de desconforto e um olhar bastante particular para a vida cotidiana, Sophie Letourneur faz de "Aventura de Férias" uma viagem que interessa menos pelo destino turístico do que pelas pessoas dentro do carro. A Sardenha está lá, bonita como cartão-postal. A família, felizmente, trata de estragar um pouco a fotografia.


Ficha técnica
"Aventura de Férias" | "L'Aventura" (título original)
Gênero: comédia dramática. Duração: 1h40min. Classificação indicativa: 12 anos. Ano de produção: 2025. Data de lançamento: 2 de julho de 2025, na França; 2 de julho de 2026, em Portugal. Idioma: francês. Direção: Sophie Letourneur. Roteiro: Sophie Letourneur e Laetitia Goffi. Elenco: Sophie Letourneur, Philippe Katerine, Bérénice Vernet e Esteban Melero. Fotografia: Jonathan Ricquebourg. Montagem: Sophie Letourneur. Música: Laure Arto e Carole Verner. Produção: Sophie Letourneur, Tristan Vaslot, Thomas Verhaeghe e Mathieu Verhaeghe. Produtoras: Tourne Films, Atelier de Production e Sacré Vendredi Productions. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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domingo, 30 de agosto de 2026

.: Crítica: "As Cores do Tempo" é espiral constante de vivências geracionais


Por 
Mary Ellen Farias dos Santos, editora e criadora do Resenhando.com

Heranças sempre trazem labirintos a serem decifrados. Na produção francesa e belga "As Cores do Tempo" ("La Venue de L'avenir"), há complicações maravilhosas que, ao longo de 2 horas e 4 minutos, entrega poesia visual de perfeita contemplação. Exibido no 2º Festival de Cinema Europeu Imovision, o longa-metragem dirigido por Cédric Klapisch ("O Próximo Passo") entrega drama, enquanto transita pela comédia. O filme chega ao catálogo de streaming da Reserva Imovision, a maior plataforma de filmes independentes da América Latina.

Em "As Cores do Tempo" um grupo de mais de trinta herdeiros, no tempo presente, descobre estar conectado por laços familiares, uma vez que cada um é descendente de Adèle Meunier (Suzanne Lindon, de "Jovens Amantes"), mulher que deixou uma casa de família na Normandia, fechada desde 1944. Reunidos pelo interessado na compra do terreno com a antiga casa com previsão para ser estacionamento de um grande shopping, alguns herdeiros acabam se aproximando por conta de uma pintura que chama a atenção do professor Abdelkrim (Zinedine Soualem, de "Bonecas Russas").

No filme de fotografia belíssima e contemplativa, é um retrato impressionista que desenha a trama que envolve do início ao fim, incluindo o pintor Claude Monet e a prostituta Odette (Sara Giraudeau, de "O Destino de Haffmann") para formar a narrativa de Adèle Meunier. Ora saindo do presente para o passado, entrelaça duas linhas temporais (1895 e 2024/2025). 

Enquanto num tempo distante, uma jovem sai de um vilarejo, após a morte da avó, em busca da mãe na grande Paris, em tempos mais modernos, seus descendentes decidem o que será feito de seu imóvel fechado desde os anos 40. Com delicadeza, "As Cores do Tempo" constrói constantemente um espiral em que as vivências de gerações distintas se sobrepõem, relacionando a arte, a memória e a passagem do tempo. Imperdível!

Ficha técnica
"As Cores do Tempo" | La Venue de L'avenir (título original).
Gênero: Drama, Comédia.
Direção: Cédric Klapisch. Roteiro: Cédric Klapisch. Duração: 2h 06min. Distribuição: Imovision. Elenco: Suzanne Lindon: Adèle Meunier (1895), Paul Kircher: Anatole (2025), Vassili Schneider: Lucien, Abraham Wapler: Seb / Claude Monet (1874), Olivier Gourmet: Claude Monet (1895), Philippine Leroy-Beaulieu: Sarah Bernhardt, Vincent Pérez: Tio Théophraste, Cécile De France: Calixte de La Ferrière, Vincent Macaigne: Guy, Julia Piaton: Céline. Sinopse: O filme destaca a transição da ancestral Adèle, de 20 anos, que sai da Normandia para Paris no final do século XIX, conectando sua história com a de seus descendentes. A trama é descrita como um épico familiar com o estilo humanista do diretor. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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.: Chris Marker mostra como Kurosawa construiu “Ran” em documentário


Documentário de Chris Marker acompanha Akira Kurosawa durante a realização de “Ran” e revela o método obsessivo, a escala monumental e os bastidores de uma das produções mais ambiciosas da carreira do cineasta japonês; filme estreia no Belas Artes À La Carte

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

“Ran” significa “caos”, e o título de um filme nunca pareceu tão apropriado. Em 1985, enquanto Akira Kurosawa colocava em movimento uma das produções mais ambiciosas da carreira dele, Chris Marker estava por perto, observando. O resultado desse encontro é “A.K. Akira Kurosawa - Os Segredos de 'Ran'”, documentário francês que acompanha o cineasta japonês durante as filmagens de “Ran” e está no catálogo do streaming Belas Artes À La Carte, juntamente ao clássico dirigido por Kurosawa. A programação foi anunciada pelo Belas Artes como uma celebração especial da obra do diretor.

Marker, autor de filmes como “La Jetée” e “Sans Soleil”, não transforma o registro em um making of convencional, daqueles que explicam cada departamento da produção como se o espectador estivesse diante de um manual de instruções. O interesse está no homem que dirige, espera, observa, corrige e decide. O Festival de Cannes selecionou “A.K.” para a mostra Un Certain Regard em 1985, ano em que o documentário chegou ao festival.

O documentário acompanha Kurosawa no trabalho de construção de “Ran”, adaptação da tragédia "Rei Lear", de William Shakespeare,, transposta para o Japão feudal. O senhor feudal Hidetora decide dividir seus domínios entre os três filhos, Taro, Jiro e Saburo. Parece uma boa ideia até o momento em que os herdeiros percebem que dividir um reino é muito menos interessante do que tomar posse dele inteiro. É aí que a tragédia começa a ganhar espadas, cavalos, castelos, incêndios e uma quantidade considerável de problemas familiares. Kurosawa substitui as três filhas de Lear pelos três filhos de Hidetora e constrói uma narrativa em que poder, velhice, orgulho e violência se misturam em proporções pouco saudáveis.

“A.K.” observa esse processo de perto. Marker registra Kurosawa, a equipe do filme e os gigantescos preparativos de “Ran” sem transformar o diretor em uma espécie de celebridade entrevistada diante de uma câmera. A atenção recai sobre os gestos, as esperas, os ensaios, os deslocamentos dos figurantes e a maneira como o cineasta organiza uma produção de dimensões extraordinárias. O catálogo do Yamagata International Documentary Film Festival descreve o filme como um registro dos pequenos comportamentos de Kurosawa e da equipe dele, construído de maneira diferente de um making of convencional.

Kurosawa tinha 75 anos quando dirigiu “Ran” e já enfrentava sérios problemas de visão. Durante aproximadamente uma década, preparou o filme por meio de desenhos e storyboards, muitos deles pintados pelo próprio diretor. O material servia como referência para a equipe, que precisava compreender com precisão os enquadramentos, as cores, a posição dos personagens e os movimentos das cenas. A pesquisa reunida no arquivo confirma que os desenhos foram fundamentais para a preparação das filmagens. O documentário mostra essa obsessão em funcionamento. 

Kurosawa podia passar horas esperando a combinação certa de luz, vento ou nuvens. Uma produção que reunia centenas de figurantes e cavalos dependia de uma logística quase militar, enquanto o diretor continuava perseguindo a imagem que tinha imaginado anos antes. O próprio material de pesquisa destaca o modo como Marker registra essas esperas e até uma cena preparada durante um dia inteiro que acabou descartada pelo diretor na montagem.

A dimensão de “Ran” ajuda a entender o tamanho da empreitada. O filme utilizou cerca de 1.400 figurantes e 200 cavalos, e o castelo destruído em uma das sequências mais famosas foi construído especialmente para a produção. A cena do incêndio não nasceu de uma maquete: Kurosawa mandou construir a fortaleza e colocou fogo nela para registrar a destruição. O resultado está entre as imagens mais impressionantes da filmografia do diretor.

O cuidado visual também aparece nos figurinos. Centenas de peças foram confeccionadas manualmente durante cerca de dois anos, trabalho que rendeu a Emi Wada o Oscar de Melhor Figurino em 1986. “Ran” recebeu ainda indicações ao Oscar de Melhor Diretor, Direção de Arte e Fotografia. As cores dos exércitos funcionam quase como personagens dentro da composição de Kurosawa. Amarelo, vermelho e azul ajudam o espectador a identificar as facções e remetem à tradição visual do teatro Nô. O cuidado cromático transforma as batalhas em grandes pinturas em movimento, mas a beleza nunca consegue esconder o desastre humano que acontece dentro delas.

Marker também encontra espaço para observar a relação entre o diretor e aquilo que está ao seu redor. “A.K.” não pretende explicar Kurosawa de maneira definitiva. O espectador percebe um cineasta meticuloso, econômico nas palavras e capaz de coordenar uma máquina gigantesca sem perder de vista a imagem que carrega na cabeça. A produção de “Ran” ainda foi marcada por uma tragédia pessoal. Yōko Yaguchi, esposa de Kurosawa por 39 anos, morreu durante as filmagens. Segundo o material reunido sobre o documentário, o diretor interrompeu a produção por apenas 24 horas e voltou ao trabalho no dia seguinte.

A escolha de Marker para registrar esse momento não poderia ser mais adequada. O cineasta francês também tinha uma relação muito particular com o documentário, trabalhando frequentemente na fronteira entre observação, ensaio e reflexão sobre a própria natureza da imagem. Em “A.K.”, ele encontra um personagem perfeito para esse método: um diretor que pensa cinema até quando parece simplesmente esperar.

A chegada ao Belas Artes À La Carte cria uma oportunidade particularmente boa para assistir aos dois filmes em sequência. Primeiro, “A.K.” mostra a engrenagem. Depois, “Ran” entrega o resultado dessa obsessão em forma de tragédia. É quase como acompanhar a construção de um castelo sabendo, desde o começo, que alguém vai colocar fogo nele.


Ficha técnica
“A.K. Akira Kurosawa – Os Segredos de 'Ran'” | “A.K.” (título original) | “A.K. (Akira Kurosawa)” (título em Portugal)
Gênero: documentário, história, biografia. Duração: 75 minutos. Classificação indicativa: livre. Ano de produção: 1985. Data de lançamento: 20 de maio de 1985, na França. Idioma: francês e japonês. Direção e roteiro: Chris Marker. Fotografia: Frans-Yves Marescot. Música: Tōru Takemitsu. Elenco: Akira Kurosawa, Tatsuya Nakadai, Ishirō Honda, entre outros. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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