Mostrando postagens com marcador SetimaArte. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador SetimaArte. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

.: “A Divina Sarah Bernhardt” torna lenda do teatro em mulher de carne e osso


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Sarah Bernhardt já havia se tornado uma celebridade mundial antes de o mundo aprender a fabricar celebridades em escala industrial. No fim do século XIX, o rosto dela estampava cartazes, o nome cruzava fronteiras e as aparições mobilizavam multidões. Em uma época sem televisão, redes sociais ou cinema, a atriz francesa transformou a própria existência em espetáculo. É essa mulher gigantesca, extravagante, apaixonada e extremamente contraditória que Sandrine Kiberlain interpreta no filme “A Divina Sarah Bernhardt”, dirigido por Guillaume Nicloux.

Ambientado inicialmente em Paris, em 1896, o longa-metragem acompanha Sarah no auge da fama. Considerada por muitos a primeira grande celebridade internacional da era moderna, ela circulava entre artistas, escritores, políticos e amantes com a mesma desenvoltura com que ocupava os palcos. A produção, porém, escolhe olhar para a personalidade que existia por trás da imagem pública. O resultado é uma cinebiografia que prefere os bastidores, os afetos, as brigas e as fragilidades à reconstituição convencional de uma carreira.

O roteiro de Nathalie Leuthreau concentra boa parte da narrativa na relação de Sarah com Lucien Guitry, interpretado por Laurent Lafitte. Os dois mantêm durante anos uma relação amorosa marcada por idas e vindas, ciúmes, outros parceiros e uma intimidade que parece sobreviver até mesmo quando o romance já não funciona da maneira esperada. A escolha é interessante porque permite que a personagem seja observada em situações nas quais não precisa convencer uma plateia a respeito da própria genialidade. 

O filme mostra muito pouco da atriz efetivamente atuando. A grandeza de Sarah é constantemente anunciada por quem a cerca, pelas personalidades que a admiram e pelo peso do nome dela, mas raramente isso é demonstrado em cena. Guillaume Nicloux parece interessado na distância entre a mulher e o mito. Sarah pode ser arrogante, generosa, cruel, divertida, manipuladora, apaixonada e consciente do poder que exercia sobre os outros. Sandrine Kiberlain abraça todas essas contradições sem tentar transformar a personagem em uma santa. Na interpretação dela o espectador enxerga uma mulher expansiva, teatral mesmo quando está longe dos palcos, capaz de transformar uma conversa íntima em uma espécie de espetáculo particular. O corpo, a voz, os gestos e principalmente o olhar fazem da personagem uma presença que domina cada ambiente em que entra.

A trajetória também passa por um dos episódios mais dramáticos da vida da artista. Em 1905, durante uma apresentação de “Tosca”, no Rio de Janeiro, Sarah sofreu uma grave lesão no joelho após uma queda no palco. O problema se agravaria ao longo dos anos e levaria à amputação da perna direita em 1915. O acontecimento aparece como parte fundamental da narrativa e ajuda a estabelecer um contraste curioso: a mulher que construiu uma imagem pública de força precisa lidar com um corpo que passa a impor limites àquela existência acelerada.

A passagem pelo Brasil acrescenta uma camada particularmente interessante à história. Sarah Bernhardt esteve no país em diferentes momentos e chegou a ser admirada por Dom Pedro II. O filme recupera essa dimensão internacional e evoca também a proximidade com nomes como Victor Hugo, Oscar Wilde, Émile Zola e Sigmund Freud. Sarah viveu num período em que a circulação internacional de artistas ainda exigia viagens longas e complexas. Mesmo assim, conseguiu transformar as turnês em acontecimentos capazes de mobilizar públicos em diferentes continentes.

Sarah Bernhardt compreendeu, antes de a indústria cultural desenvolver suas ferramentas modernas, que uma estrela também precisava saber administrar a própria imagem. Fotografias, cartazes, aparições públicas, histórias sobre sua vida e a maneira como era comentada contribuíam para ampliar a fama dela. Nesse sentido, a personagem parece antecipar uma figura que hoje seria imediatamente reconhecida como uma celebridade global.

Nicloux evita transformar tudo isso em uma biografia cronológica. O tempo se organiza por lembranças e saltos temporais, aproximando diferentes momentos da vida de Sarah. A estrutura permite que passado e presente se contaminem, embora também possa provocar certa sensação de fragmentação. O filme aposta mais na memória e na personalidade da protagonista do que na apresentação organizada de acontecimentos históricos. Visualmente, “A Divina Sarah Bernhardt” encontra uma de suas maiores forças na reconstituição de época. Figurinos, cenários, objetos e direção de arte recriam uma Belle Époque exuberante, marcada pelo luxo e pela teatralidade. A fotografia de Yves Cape acompanha essa atmosfera e ajuda a estabelecer uma diferença visual entre o período de glória e os anos posteriores da protagonista.

O filme ainda se permite uma liberdade que combina com a própria personagem. Sarah Bernhardt aparece como uma figura quase maior do que a realidade, cercada por animais exóticos, festas, admiradores e personalidades célebres. Em vez de desmontar completamente o mito para encontrar uma verdade definitiva, Guillaume Nicloux parece aceitar que Sarah também foi uma invenção de si mesma. Essa liberdade tem um preço. Ao privilegiar a vida afetiva, o filme deixa de explorar diversas dimensões de uma carreira extraordinária. Sarah interpretou mais de uma centena de papéis, administrou teatros, comandou companhias e ajudou a redefinir a relação entre artista, imprensa e público. A produção poderia ter mostrado mais do talento que justificou tamanha devoção. Em determinados momentos, fica a impressão de que o filme está tão interessado na mulher que acaba esquecendo a atriz.

Ainda assim, existe uma inteligência na escolha de apresentar Sarah pelas contradições. Ela é inconveniente, vaidosa, impulsiva e, muitas vezes, insuportável. Ao mesmo tempo, possui uma liberdade que impressiona quando observada a partir do período histórico em que viveu. A vida amorosa, a relação com o próprio corpo e a postura diante das convenções sociais ajudam a explicar porque o nome dela continua provocando interesse mais de um século depois da morte dela.

Ficha técnica
“A Divina Sarah Bernhardt” | “Sarah Bernhardt, La Divine” (Título original)

Gênero: drama, romance, biografia. Duração: 98 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 2024. Data de lançamento: 16 de julho de 2026. Idioma: francês. Direção: Guillaume Nicloux. Roteiro: Nathalie Leuthreau. Elenco: Sandrine Kiberlain, Laurent Lafitte, Amira Casar, Pauline Etienne, Mathilde Ollivier, Laurent Stocker, Grégoire Leprince-Ringuet, Clément Hervieu-Léger, Sébastien Pouderoux, Sylvain Creuzevault, Arthur Mazet e Arthur Igual. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.



Assine a Reserva Imovision, a maior plataforma de filmes independentes da América Latina
A equipe do portal Resenhando.com acompanha os filmes por meio da plataforma de streaming Reserva Imovision, dedicada ao cinema independente e autoral. Para acessar o catálogo completo, conferir novidades e realizar sua assinatura, o aplicativo da plataforma ou o visite o site oficial neste link. A Reserva Imovision reúne filmes e séries cuidadosamente selecionados, ampliando o acesso a obras que valorizam a diversidade cultural, a reflexão e experiências cinematográficas diferenciadas. Você pode assinar a plataforma de streaming Reserva Imovision neste link.

.: "Caça e Caçador" faz de Son Ye-jin uma perigosa femme fatale


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

O cinema sul-coreano tem uma habilidade particular para transformar crimes aparentemente pequenos em motores de tensão. Em "Caça e Caçador", dirigido e roteirizado por Lee Sang-gi, o alvo da vez são os batedores de carteira. O longa-metragem de 2008 chega ao catálogo da plataforma de streaming Belas Artes À La Carte com uma trama policial que coloca frente a frente um investigador obstinado e uma criminosa que sabe exatamente como desaparecer no meio da multidão.

Protagonizado por Kim Myung-min e Son Ye-jin, o filme acompanha Jo Dae-yeong, policial especializado em investigar roubos e furtos relacionados à Yakuza. Sua rotina muda quando ele cruza o caminho de Baek Jang-mi, líder de uma organização internacional de batedores de carteira. Depois de atuar em Osaka, no Japão, ela retorna à Coreia do Sul determinada a ampliar os negócios e recrutar uma das profissionais mais respeitadas do meio, Kang Man-ok, interpretada por Kim Hae-sook. A perseguição ganha contornos pessoais quando Dae-yeong descobre quem realmente é a mulher que havia ajudado.

A escolha de Son Ye-jin para viver Baek Jang-mi chama atenção pela mudança de registro da atriz, então muito associada a romances e personagens de forte carga dramática. Em "Caça e Caçador", ela assume uma figura calculista, sedutora e perigosa, capaz de comandar uma quadrilha e disputar espaço com homens acostumados a controlar esse tipo de atividade. O jornal sul-coreano The Korea Times destacou, na época do lançamento, a transformação da atriz e a tensão sexual presente no longa-metragem, embora tenha considerado irregular o desenvolvimento de alguns elementos dramáticos. O filme também se beneficia de um assunto pouco explorado pelo cinema policial: a organização profissional do furto. A produção acompanha métodos, hierarquias e estratégias utilizadas pelos criminosos para agir em meio a grandes concentrações de pessoas.

A relação entre a gangue e a Yakuza amplia o alcance da investigação. A história começa em Osaka, onde a quadrilha liderada por Baek Jang-mi chama a atenção das autoridades japonesas após uma série de furtos. De volta a Seul, a personagem abre uma loja de tatuagem como fachada enquanto reorganiza suas atividades criminosas. A investigação policial passa a acompanhar seus movimentos, criando uma perseguição que alterna ação, investigação e disputas internas pelo controle do território. 

O título original, "Mubangbi-dosi", pode ser traduzido literalmente como "cidade desprotegida" ou "cidade indefesa", enquanto "Open City" tornou-se o título internacional pelo qual o filme circulou em diversos mercados. No Brasil, a produção recebeu o título "Caça e Caçador". Para Lee Sang-gi, o filme marcou a estreia na direção de um filme de longa-metragem. A proposta chamou atenção justamente por combinar um elenco de grande apelo com um universo criminal pouco habitual. A imprensa sul-coreana reconheceu essa tentativa de explorar o cotidiano de uma rede de batedores de carteira, ainda que a recepção crítica tenha apontado problemas na segunda metade da narrativa.

No elenco, além de Son Ye-jin e Kim Myung-min, estão Kim Hae-sook, Son Byung-ho e Shim Ji-ho. Kim Hae-sook interpreta Kang Man-ok, uma veterana do furto que se torna peça cobiçada na disputa entre organizações criminosas. A produção ainda reúne Kim Byeong-ok, Ji Dae-han, Lee Won-jong e outros nomes do cinema sul-coreano. Uma oportunidade de revisitar uma fase particularmente fértil do cinema policial sul-coreano, quando investigações, violência urbana e personagens moralmente ambíguos começaram a ganhar espaço em produções que buscavam fugir do policial convencional. 


Ficha técnica
"Caça e Caçador" | "Mubangbi-dosi" (Título original | "Open City" (Título internacional)
Gênero: policial, ação e crime. Duração: 112 minutos. Classificação indicativa: 16 anos no Brasil; 15 anos na Coreia do Sul. Ano de produção: 2008. Data de lançamento: 10 de janeiro de 2008, na Coreia do Sul. Idioma: coreano. Direção: Lee Sang-gi. Roteiro: Lee Sang-gi. Elenco: Son Ye-jin, Kim Myung-min, Kim Hae-sook, Son Byung-ho, Shim Ji-ho, Kim Byeong-ok, Ji Dae-han, Lee Won-jong, Kim Jung-tae e outros. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


Assine o Belas Artes À La Carte, o streaming para quem ama cinema de verdade
A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.

sábado, 8 de agosto de 2026

.: Marilyn Monroe decide mudar o jogo em "Nunca Fui Santa" e transforma


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

A estreia de "Nunca Fui Santa" na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte resgata um momento decisivo na trajetória de Marilyn Monroe. Lançado em 1956, com direção de Joshua Logan e roteiro de George Axelrod, baseado na peça homônima de William Inge, o longa-metragem coloca a estrela em um terreno menos confortável, onde charme não basta. Na trama, o caubói Beauregard “Bo” Decker (Don Murray), jovem, teimoso e completamente despreparado para relações afetivas, cruza o caminho de Cherie (Monroe), cantora de saloon que sonha com uma vida melhor. Um encontro breve vira obsessão. Convencido de que encontrou a futura esposa, ele decide levá-la para seu rancho em Montana - com ou sem consentimento. A viagem de ônibus, interrompida por uma nevasca, força os dois a encarar o que há de mais incômodo: expectativas desencontradas, desejo de liberdade e a dificuldade de reconhecer o outro como sujeito.

Joshua Logan, vindo da Broadway, conduz o filme com atenção ao comportamento dos personagens, sem pressa de resolver conflitos. O texto de Axelrod amplia a peça original e cria situações que expõem o ridículo e a fragilidade de Bo, ao mesmo tempo em que permite a Cherie escapar do estereótipo da “loira ingênua”. Monroe aproveita cada fresta. Após estudar no Actors Studio com Lee e Paula Strasberg, ela constrói uma personagem com sotaque sulista carregado, gestos contidos e um desleixo calculado no visual. A decisão de usar pouca maquiagem e abandonar o glamour habitual foi uma estratégia e tanto.

A crítica da época percebeu. Bosley Crowther, do The New York Times, escreveu que Monroe finalmente se afirmava como atriz de verdade. A indicação ao Globo de Ouro veio no mesmo embalo. Don Murray, em sua estreia no cinema, recebeu indicação ao Oscar de ator coadjuvante, sustentando com energia um personagem difícil de defender. No elenco, Arthur O’Connell e Betty Field completam o quadro com segurança, enquanto Hope Lange também inicia nesse filme a trajetória nas telas.

Nos bastidores, a produção teve tensão. Logan desconfiava da disciplina de Monroe, famosa por atrasos e inseguranças. Mudou de opinião ao longo das filmagens, chegando a compará-la a Charlie Chaplin pela capacidade de equilibrar humor e emoção. O filme também marca o retorno da atriz após um período de afastamento de Hollywood, quando rompeu com a 20th Century Fox, mudou-se para Nova York e criou a Marilyn Monroe Productions, exigindo maior controle sobre sua carreira.

"Nunca Fui Santa" não resolve todas as contradições - o romance central incomoda, a condução narrativa por vezes acelera soluções - mas permanece como registro de uma virada. O público encontra ali uma Monroe que não quer mais ser apenas imagem. Quer ser levada a sério. E, por boa parte do filme, consegue.


Ficha técnica
“Nunca Fui Santa” | "Bus Stop" (título original) | "Paragem de Autocarro" (título em Portugal).
Gênero: comédia dramática, romance. Duração: 96 minutos. Classificação indicativa: livre. Ano de produção: 1956. Data de lançamento: 1956. Idioma: inglês. Direção: Joshua Logan. Roteiro: George Axelrod, baseado na peça de William Inge. Elenco: Marilyn Monroe, Don Murray, Arthur O'Connell, Betty Field, Eileen Heckart, Hope Lange. Distribuição no Brasil: Belas Artes à La Carte. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.

Assine o Belas Artes À La Carte, o streaming para quem ama cinema de verdade
A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.

“Diva Futura” resgata império erótico e escancara o preço da fama nos anos 80


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.


“Diva Futura” chega à plataforma de streaming Reserva Imovision e encara um capítulo incômodo e fascinante da cultura pop italiana. Dirigido e roteirizado por Giulia Louise Steigerwalt, o longa-metragem recria os anos 1980 e 1990 a partir da figura de Riccardo Schicchi (Pietro Castellitto), fundador da agência que ajudou a transformar o erotismo em espetáculo midiático e produto de massa. Inspirado no livro “Non Dite Alla Mamma Che Faccio la Segretaria”, de Debora Attanasio, o filme acompanha os bastidores da ascensão de nomes como Ilona Staller, a Cicciolina (Lidija Kordic), e Moana Pozzi (Denise Capezza), personagens que atravessaram a fronteira entre entretenimento adulto e política institucional - Cicciolina chegou ao Parlamento italiano, enquanto Pozzi ensaiou uma candidatura à prefeitura de Roma. A narrativa se ancora no olhar de Debora (Barbara Ronchi), secretária da agência, que observa, de dentro, a engrenagem afetiva e profissional desse grupo improvável.

Steigerwalt, que já havia chamado atenção com “Settembre”, mantém aqui o interesse por personagens femininas em conflito com estruturas sociais rígidas. Ao revisitar a trajetória da Diva Futura, a diretora não se limita ao escândalo: investiga vínculos, disputas, fragilidades e o preço cobrado pela exposição pública. A produção teve estreia mundial em competição no Festival de Veneza 2024, reforçando o peso histórico do material que revisita.

A arte presente no escritório de Schicchi reproduz traços do quadrinista Milo Manara, referência italiana no erotismo ilustrado, e o título do filme só aparece nos créditos finais, gesto que desloca o olhar do espectador para os personagens antes da marca. Com fotografia de Vladan Radovic e trilha de Michele Braga, “Diva Futura” se constrói como um retrato de ambição, desejo e contradição, evitando simplificações sobre um período em que a mídia ampliou vozes e, ao mesmo tempo, moldou destinos.


Ficha técnica
“Diva Futura”
Gênero: drama. Duração: 125 minutos. Classificação indicativa: 18 anos. Ano de produção: 2024. Data de lançamento: 16 de julho de 2026. Idioma: italiano. Direção: Giulia Louise Steigerwalt. Roteiro: Giulia Louise Steigerwalt e Debora Attanasio. Elenco: Pietro Castellitto, Denise Capezza, Barbara Ronchi, Lidija Kordic, Tesa Litvan. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


Assine a Reserva Imovision, a maior plataforma de filmes independentes da América Latina
A equipe do portal Resenhando.com acompanha os filmes por meio da plataforma de streaming Reserva Imovision, dedicada ao cinema independente e autoral. Para acessar o catálogo completo, conferir novidades e realizar sua assinatura, o aplicativo da plataforma ou o visite o site oficial neste link. A Reserva Imovision reúne filmes e séries cuidadosamente selecionados, ampliando o acesso a obras que valorizam a diversidade cultural, a reflexão e experiências cinematográficas diferenciadas. Você pode assinar a plataforma de streaming Reserva Imovision neste link.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

.: Documentário “Lampião, Governador do Sertão” questiona o mito: herói?


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

“Lampião, Governador do Sertão” chega à plataforma de streaming Reserva Imovision com fôlego de investigação e gosto por contradição. Dirigido por Wolney Oliveira, que assina o roteiro ao lado de Margarita Hernández, o documentário encara de frente a figura de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, sem aliviar nem simplificar. O que se vê é um personagem que ainda provoca disputa de narrativas: herói popular para alguns, líder violento para outros, sempre no centro de um país que nunca resolveu completamente suas próprias tensões.

O longa-metragem costura imagens raras, documentos, depoimentos e registros orais para reconstituir uma trajetória que não cabe em rótulos fáceis. Lampião surge como produto de um tempo e, ao mesmo tempo, como invenção contínua da cultura brasileira. A câmera percorre territórios do Nordeste e recolhe histórias que mantêm o cangaço vivo na memória, na literatura de cordel, no artesanato e no cinema. Esse percurso, aliás, não nasceu agora: o diretor acumula anos de pesquisa e chegou a registrar cerca de 180 horas de material sobre o tema em projetos anteriores, como “Os Últimos Cangaceiros”.

Apresentado no 29º Festival É Tudo Verdade e exibido também no Cine Ceará, o filme ganhou impulso em circuito de festivais antes de encontrar o público mais amplo. A produção ainda coleciona prêmios no Fest Aruanda, incluindo melhor documentário, roteiro, som e edição — reconhecimento que ajuda a dimensionar o cuidado formal do projeto. A trilha original leva a assinatura de DJ Dolores (Helder Aragão), enquanto a fotografia de Rogério Resende acompanha o tom investigativo com rigor e sensibilidade.

Wolney Oliveira, cineasta cearense com formação em Cuba, sustenta uma relação antiga com o universo do cangaço. Há muita pesquisa histórica, relatos de ex-cangaceiros e da própria cultura popular nordestina. Em “Lampião, Governador do Sertão”, essa dedicação aparece sem pressa, deixando que o material respire e revele suas próprias tensões.


Ficha técnica
“Lampião, Governador do Sertão”
Gênero: Documentário. Duração: 90 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2024. Data de lançamento: 2025 (circuito e streaming). Idioma: Português. Direção: Wolney Oliveira. Roteiro: Wolney Oliveira e Margarita Hernández. Elenco: Depoimentos, imagens de arquivo e registros históricos de Virgulino Ferreira da Silva. Distribuição no Brasil: Kajá Filmes / Reserva Imovision (streaming). Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


Assine a Reserva Imovision, a maior plataforma de filmes independentes da América Latina
A equipe do portal Resenhando.com acompanha os filmes por meio da plataforma de streaming Reserva Imovision, dedicada ao cinema independente e autoral. Para acessar o catálogo completo, conferir novidades e realizar sua assinatura, o aplicativo da plataforma ou o visite o site oficial neste link. A Reserva Imovision reúne filmes e séries cuidadosamente selecionados, ampliando o acesso a obras que valorizam a diversidade cultural, a reflexão e experiências cinematográficas diferenciadas. Você pode assinar a plataforma de streaming Reserva Imovision neste link.

.: Peretjatko desafia bom senso e libera vampiros em “Vade Retro, Vampiro!”


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

“Vade Retro, Vampiro!” chega ao catálogo da plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, com gosto de provocação e deboche, apostando no exagero. Dirigido por Antonin Peretjatko, o longa-metragem francês gira em torno do mito do vampiro conduzido por um elenco que abraça o absurdo com Estéban à frente, ao lado de Pascal Tagnati, Yolène Gontrand, Alma Jodorowsky e Arielle Dombasle.

A trama acompanha Norbert, um vampiro aristocrata pressionado por regras familiares rígidas e anacrônicas: ele precisa encontrar uma mulher de “sangue puro” para garantir a continuidade da linhagem. A viagem ao Japão, planejada como solução, termina em naufrágio em Boulet Rouge, uma ilha isolada. O que se instala ali não é exatamente um conflito, mas um desfile de situações descontroladas, em que o nonsense se impõe e a narrativa se recusa a se comportar.

Peretjatko, que assina o roteiro ao lado de Masa Sawada e Laure Desmazières, reorganizou o projeto após a pandemia inviabilizar parte do financiamento internacional. O Japão saiu de cena, e a história foi reconfigurada a partir de referências visuais e geográficas da Ilha de La Réunion, território francês no Oceano Índico. A limitação orçamentária - cerca de 1 milhão de euros - faz com que o filme assuma uma estética assumidamente precária, que flerta com o cinema de gênero europeu das décadas de 1970 e 1980.

O humor oscila entre o escracho e a sátira, cutucando temas como pureza racial e dogmas religiosos a partir de uma lente torta e quase carnavalesca. A escolha de Estéban, conhecido pelo trabalho cômico na televisão francesa, reforça esse tom: o Norbert interpretado por ele é, ao mesmo tempo, patético e magnético. Já Alma Jodorowsky carrega no sobrenome um histórico que dialoga com o espírito do filme - neta de Alejandro Jodorowsky, ela parece perfeitamente à vontade nesse universo que beira o delírio. Arielle Dombasle, por sua vez, amplia o lado camp da narrativa. Há quem enxergue no filme uma comédia anárquica cheia de fôlego e invenção; outros se incomodam com o excesso e a falta de eixo. “Vade Retro, Vampiro!” assume o risco de ser indigesto para alguns e irresistível para outros. 


Ficha técnica
“Vade Retro, Vampiro!” | “Vade Retro” (título original)

Gênero: comédia, terror. Duração: 95 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2025. Data de lançamento: 31 de dezembro de 2025 (França). Idioma: francês. Direção: Antonin Peretjatko. Roteiro: Antonin Peretjatko, Masa Sawada, Laure Desmazières. Elenco: Estéban, Pascal Tagnati, Yolène Gontrand, Alma Jodorowsky, Arielle Dombasle, Pascal Légitimus. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.

Assine o Belas Artes À La Carte, o streaming para quem ama cinema de verdade
A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.

domingo, 2 de agosto de 2026

.: Da era “Bruceploitation”, filme “Jogo da Morte II”, traz Bruce Lee de volta

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

“Jogo da Morte II” chega à plataforma de streaming Reserva Imovision como um artefato curioso de um momento em que a indústria de Hong Kong ainda tentava lidar com a ausência de Bruce Lee e, ao mesmo tempo, explorava a imagem dele até o limite. Lançado em 1981, o longa-metragem dirigido por Ng See-yuen, com sequências supervisionadas por Sammo Hung e Corey Yuen, reorganiza fragmentos do astro em uma narrativa de vingança que rapidamente troca de protagonista para seguir com outro corpo em cena.

Na trama, Billy Lo “retorna” em imagens de arquivo enquanto investiga a morte suspeita do amigo Chin Ku. O roteiro, assinado por Ting Chak-luen e Ho Ting-sing, conduz a história por caminhos abruptos até eliminar o personagem e transferir o eixo dramático para Bobby Lo, interpretado por Tong Lung (na verdade Kim Tai-chung), um dos vários dublês associados ao fenômeno que ficou conhecido como “Bruceploitation” - nome dado a uma onda de filmes produzidos após a morte de Bruce Lee, nos anos 1970 e início dos 80, que exploravam a imagem e popularidade dele. Esses longas-metragens usavam dublês fisicamente parecidos, nomes artísticos semelhantes (como Bruce Li, Bruce Le, Dragon Lee) e até cenas reaproveitadas do próprio ator para simular sua presença. 

Era uma estratégia comercial para manter o público atraído pelo mito de Bruce Lee, muitas vezes com resultados irregulares, mas que acabou se tornando um subgênero cult do cinema de artes marciais. A partir daí, o filme assume de vez sua vocação de espetáculo físico, com combates coreografados que sustentam o ritmo mesmo quando a narrativa se mostra irregular. O elenco reúne nomes recorrentes do cinema de artes marciais da época, como Hwang Jang-lee, Roy Horan e Roy Chiao.

Nos bastidores, o projeto carrega a marca da Golden Harvest, produtora que capitalizou o legado de Bruce Lee após sua morte em 1973. Parte das cenas com o ator foi reaproveitada de “Operação Dragão”, estratégia que já havia gerado controvérsia em “Jogo da Morte” (1978), dirigido por Robert Clouse. Em "O Jogo da Morte 2", a montagem tenta integrar melhor esse material, ainda que o resultado revele suas costuras.

Há momentos que beiram o delírio - um caixão roubado por helicóptero durante um funeral, um palácio comandado por um vilão excêntrico cercado por leões - e que ajudam a explicar por que o filme ganhou status de peça cult entre fãs do gênero. Longe de ser unanimidade, “Jogo da Morte II” segue despertando curiosidade por aquilo que representa: um cinema que improvisa, recicla e insiste em transformar ausência em presença.


Ficha técnica
“Jogo da Morte II” | “Si Wang Ta” (título original) | “Torre da Morte” (título em Portugal)
Gênero: ação / artes marciais. Duração: 96 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 1981. Data de lançamento: 21 de março de 1981. Idioma: cantonês. Direção: Ng See-yuen, Sammo Hung, Corey Yuen. Roteiro: Ting Chak-luen, Ho Ting-sing. Elenco: Bruce Lee, Tong Lung (Kim Tai-chung), Hwang Jang-lee, Roy Horan, Roy Chiao. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


Assine a Reserva Imovision, a maior plataforma de filmes independentes da América Latina
A equipe do portal Resenhando.com acompanha os filmes por meio da plataforma de streaming Reserva Imovision, dedicada ao cinema independente e autoral. Para acessar o catálogo completo, conferir novidades e realizar sua assinatura, o aplicativo da plataforma ou o visite o site oficial neste link. A Reserva Imovision reúne filmes e séries cuidadosamente selecionados, ampliando o acesso a obras que valorizam a diversidade cultural, a reflexão e experiências cinematográficas diferenciadas. Você pode assinar a plataforma de streaming Reserva Imovision neste link.

.: "As Cores do Tempo", novo filme de Cédric Klapisch, em cartaz nos cinemas


Selecionado para o Festival de Cannes e sucesso de público na França, longa chega aos cinemas brasileiros com Suzanne Lindon no papel principal


O premiado cineasta francês Cédric Klapisch, diretor da aclamada trilogia formada por “O Albergue Espanhol”, “Bonecas Russas” e “O Enigma Chinês”, retorna às telas com "As Cores do Tempo", que estreia nos cinemas brasileiros em 30 de julho, com distribuição da Imovision. Selecionado para o Festival de Cannes, o longa conquistou o público francês ao vender quase 1 milhão de ingressos, consolidando-se como um dos destaques do cinema francês recente.

A protagonista é Suzanne Lindon, uma das jovens atrizes mais promissoras do cinema francês, conhecida por seu trabalho em “Jovens Amantes”. Filha do premiado ator Vincent Lindon e Sandrine Kiberlain, Suzanne conduz uma narrativa que transita entre diferentes épocas para refletir sobre herança, identidade e os laços invisíveis que conectam gerações.

Em "As Cores Do Tempo", quatro primos distantes se reencontram ao herdar uma antiga casa da família, preservada praticamente intacta desde 1940. Enquanto exploram o imóvel, encontram quadros, cartas e objetos da trajetória de Adèle, uma jovem de 20 anos que viveu ali em 1895 antes de partir para Paris em busca de um novo destino.

À medida que acompanham os passos dessa familia enigmática, passado e presente passam a dialogar de forma surpreendente. A investigação sobre a vida de Adèle revela segredos familiares esquecidos e proporciona uma viagem no tempo para a França da Belle Époque, com as contribuições das obras de grandes artistas como Claude Monét, estabelecendo paralelos entre os desafios enfrentados no final do século XIX e aqueles vividos pelos descendentes em 2025, em uma narrativa sensível sobre o universo artístico, memória e transformação.

Com seu olhar característico para as relações humanas, Cédric Klapisch constrói um filme que combina drama, emoção e delicadeza, reafirmando sua habilidade em retratar personagens em momentos decisivos de suas vidas. “Passado, presente e uma generosa dose de licença poética se fundem de forma divertida em As Cores do Tempo”, elogiou o veículo Screen Daily. Já a Variety afirmou que “o genial filme de Cédric Klapisch fala sobre arte e ancestralidade, com uma narrativa em duas linhas temporais, que agrada ao público”. 


Leia+

.: Crítica: "As Cores do Tempo" é espiral constante de vivências geracionais

.: Crítica: "O Próximo Passo" ensina a viver as vidas que a vida dá

.: Crítica: "O Renascimento" é imperdível comédia sobre arte e sua feitura

.: Crítica "A Musa de Bonnard" é delicadeza sobre Bonnard e Marthe

.: Crítica: "Sob as Estrelas" comove e inspira enquanto enche os olhos

.: Crítica: "O Sabor da Vida" é história de amor pela culinária e cozinheira

.: “Diabo no Corpo” expõe desejo, política e escândalo no cinema de Bellocchio


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Marco Bellocchio dirige “Diabo no Corpo” , filme que chega à plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, carregando a fama que atravessou décadas: a de obra que dividiu plateias, irritou setores conservadores e alimentou debates sobre erotismo, poder e representação no cinema europeu dos anos 1980. Lançado em 1986, o longa-metragem adapta o romance de Raymond Radiguet, publicado em 1923, e desloca a trama original para o clima tenso da Itália dos chamados anos de chumbo, período marcado por radicalização política, terrorismo e instabilidade social.

A história acompanha Andrea (Federico Pitzalis), um estudante que se envolve com Giulia (Maruschka Detmers), mulher mais velha e noiva de um militante preso por terrorismo. O encontro entre os dois evolui rapidamente para uma relação marcada por obsessão, impulsos destrutivos e uma dinâmica que desafia convenções morais. Bellocchio constrói esse vínculo com um olhar direto, sem recuos, o que ajuda a explicar tanto a repercussão quanto a rejeição que o filme provocou desde sua estreia no Festival de Cannes, em 1986.

Maruschka Detmers se tornou o centro das atenções à época. A atuação intensa da atriz, aliada à exposição física e às cenas explícitas, fez dela um símbolo sexual cult no cinema europeu. O figurino assinado por Giorgio Armani reforça a construção dessa personagem ambígua, ao mesmo tempo sofisticada e instável. A atriz, anos depois, admitiria certo arrependimento pela cena mais comentada do filme, a de sexo oral verdadeiro, que acabou ofuscando outras realizações da carreira dela.

O roteiro, assinado por Marco Bellocchio, Ennio De Concini e Enrico Palandri, amplia o alcance do material original ao inserir o romance em um contexto político mais explícito. O noivo de Giulia, ligado a grupos radicais de esquerda, funciona como pano de fundo para uma narrativa em que o desejo se mistura com a sensação de colapso social. A relação entre os protagonistas não se desenvolve isolada; ela responde a um ambiente em ebulição, em que instituições, famílias e certezas parecem frágeis.

A recepção crítica nunca encontrou consenso. Parte da imprensa enxergou ousadia e vigor na forma como Bellocchio articula erotismo e política; outra parte acusou o filme de recorrer ao choque como estratégia. O tempo, no entanto, consolidou “Diabo no Corpo” como um dos títulos mais lembrados da filmografia do diretor, seja pela coragem formal, seja pelo impacto cultural que provocou.

Ficha técnica
“Diabo no Corpo” | “Diavolo in Corpo” (título original)
Gênero: drama, romance. Duração: 1h54. Classificação indicativa: 18 anos. Ano de produção: 1986. Idioma: italiano. Direção: Marco Bellocchio. Roteiro: Marco Bellocchio, Ennio De Concini, Enrico Palandri. Elenco: Maruschka Detmers, Federico Pitzalis, Anita Laurenzi, Alberto Di Stasio, Riccardo De Torrebruna. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.

Assine o Belas Artes À La Carte, o streaming para quem ama cinema de verdade
A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.

quinta-feira, 30 de julho de 2026

.: Crítica: "Homem-Aranha: Um Novo Dia" é "absolute cinema" dos heróis

Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em julho de 2026


Sozinho e esquecido por aqueles que amava, o amigo da vizinhança agora vive no último andar de um prédio, antes em condições bastante precárias e transformado por Peter Parker (Tom Holland, "A Odisseia") num lar doce lar. Sem cursar uma graduação, ele trabalha em conjunto com a polícia combatendo o crime em Nova York. Em "Homem-Aranha: Um Novo Dia", lidando também conta o luto da tia May (Marissa Tomei) e a ausência dos amigos, o Teioso passa pelo processo de amadurecimento (aliado ao da mutação) diante dos olhos do público.

Sendo reconhecido pelo público como herói, o escalador de paredes acompanha à distância o sucesso escolar de Michelle Jones-Watson (Zendaya, "O Drama") e Ned Leeds (Jacob Batalon, "Novocaine: À Prova da Dor"). Com o retorno da dupla para a Grande Maçã, Peter faz uma visita que o deixa magoado e com a certeza de que o feitiço do Doutor Estranho não foi quebrado.

Contudo, o Cabeça de Teia esbarra num implacável ser repleto de vilanias capaz de entrar na mente de múltiplos indivíduos e superar a vontade de cada um. Até mesmo o clássico inimigo do Homem-Aranha, o Escorpião, acaba sendo manipulado. Mesmo com a mente ágil e o sentido aranha, o Miranha que não tem poder de impedir tamanha invasão, em "Homem-Aranha: Um Novo Dia" repele a telepatia da ainda iniciante Jean Grey (Sadie Sink, "Stranger Things" e "A Baleia").

Em meio as situações hilárias da categoria que só o Miranha é capaz de entregar, o ágil e repleto de ação "Homem-Aranha: Um Novo Dia" reserva uma boa e bem trabalhada dose de drama (provocando até lágrimas). Não somente por conta da solidão de Peter Parker, mas por ele enfrentar além dos poderosos vilões (até o Hulk aparece na sua essência, externando o seu lado ameaçador e bem distante de um integrante de "Os Vingadores"), a árdua passagem para uma nova etapa da vida sem tropeçar no desejo de vingança. 

O longa de 2 horas e 25 minutos de duração, com cena pós-créditos (que indicam a presença de uma variante do Homem-Aranha ou uma ponte para os próximos filmes dos Vingadores, no caso, "Guerras Secretas") entrega tudo, além de confrontos de "absolute cinema" dos filmes de heróis. Não só do Hulk, mas a sequência com os ninjas que é de deixar qualquer um boquiaberto. Perfeita, inclusivo nas cores na telona. Redondinho e sem deixar pontas soltas, mesmo com a grande responsabilidade por vir após o emocionante e marcante encontro dos três Miranhas, "Homem-Aranha: Um Novo Dia" consegue ser estupendo. Filmaço imperdível!


"Homem-Aranha: Um Novo Dia". (Spider-Man: Brand New Day). Diretor: Destin Daniel Cretton. Roteiro: Chris McKenna e Erik Sommers. Gênero: Ação, Aventura e Ação. Duração: 145 minutos (2h 25min). Elenco principal: Tom Holland (Peter Parker/Homem-Aranha), Zendaya, Jon Bernthal e Sadie Sink. Trilha Sonora: Ludwig Göransson. Sinopse: Após o mundo ter esquecido seu nome, Peter Parker inicia um novo capítulo em sua vida, conciliando as aulas da faculdade, um trabalho de meio período e sua responsabilidade como o Homem-Aranha. Mas quando uma força misteriosa começa a desmantelar a cidade de dentro para fora, Peter se vê preso entre inimigos poderosos, legados antigos e aliados inesperados.

Trailer de "Homem-Aranha: Um Novo Dia"



Leia+

.: "Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa" é filmaço de memória afetiva

.: Crítica: "Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa" versão estendida é melhor

.: Crítica: "Homem-Aranha: Através do Aranhaverso" é arte na telona Cineflix

.: Crônica: "Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa" no Cineflix Cinemas

.: Dia 10 de agosto é aniversário de Peter Parker e várias comemorações

.: Todos somos o Homem-Aranha. Saiba o porquê no aniversário do super-herói

.: Homem Aranha: lista de dez fatos que o tornam um super-herói único

.: "Homem-Aranha: Longe de Casa" em 11 motivos para ter em DVD

.: Crônica: "Homem-Aranha" e eu, por Mary Ellen Farias dos Santos

.: Stan Lee: para conhecer o legado do pai do Homem-Aranha

.: Crítica: "A Odisseia" é "absolute cinema" com epopeia clássica

.: Crítica: "O Drama" é a potencialização de possibilidades paranoicas

.: Crítica: "A Baleia" fisga do início ao fim e Fraser tem tudo para levar Oscar

terça-feira, 28 de julho de 2026

.: "Era Uma Vez Minha 1ª Vez": adaptação do livro de Thalita Rebouças no cinema


A produtora e distribuidora Na Paralela Filmes divulgou o cartaz e o trailer oficial do longa “Era Uma Vez Minha 1ª Vez”, filme baseado no livro homônimo da autora Thalita Rebouças. Estrelado por Castorine, Duda Matte, Letícia Braga e Lívia Silva, o filme chega aos cinemas no dia 17 de setembro. O título tem produção e distribuição da Na Paralela Filmes, codistribuição da A Fábrica com parceria de RioFilme, órgão que integra a Secretaria de Cultura da Prefeitura do Rio, coprodução da Warner Bros. Pictures e RioFilme, e investimento do BRDE, através do Fundo Setorial do Audiovisual e Ancine.

Com direção de Claudia Castro e roteiro de Thalita Rebouças e João Paulo Horta, o longa é uma adaptação para os cinemas do livro homônimo da escritora que aborda, de forma leve, madura e descomplicada, as descobertas e os ritos de passagem da juventude. Na trama, as amigas Teresa, Clara, Tuca e Patty vão descobrir juntas que o despertar da sexualidade acontece de forma única para cada uma. O filme traz uma narrativa sensível sobre expectativa, amizade e o limite entre pressa e descoberta. 

Longe de ser um manual didático, a história adota o tom característico que consagrou as obras de Thalita Rebouças: uma abordagem sensível, leve e extremamente bem-humorada sobre o cotidiano jovem, livre de tabus e focada no poder da amizade feminina. Além do quarteto principal, o elenco também traz Cauã Martins, Caian Zattar, Cintia Rosa, Pedro Ogata, JP Rufino e Duda Pimenta. Compre o livro "Era Uma Vez Minha Primeira Vez", que inspirou o filme, neste link.

.: "100 Dias": desafios e escolhas por trás da adaptação do livro de Amyr Klink


Filipe Bragança como Amyr Klink em “100 Dias”. Foto: Fabio Braga/ Pivô Audiovisual


Como transformar um relato autobiográfico em uma experiência cinematográfica sem perder a sua essência? Essa foi a principal reflexão que guiou o painel “100 Dias - Entre o Livro e o Filme: Os Caminhos para Transformar um Clássico da Literatura Brasileira em Experiência Cinematográfica”, realizado na última quinta-feira, dia 23 de julho, durante a 24ª Flip - Festa Literária Internacional de Paraty. Com mediação de Marcelo Tas, o encontro reuniu o navegador e escritor Amyr Klink, o diretor Carlos Saldanha, as roteiristas Elena Soarez e Thais Tavares para conversar sobre os caminhos percorridos na adaptação cinematográfica de "Cem Dias Entre Céu e Mar", livro que inspirou o longa-metragem "100 Dias". Ao final do painel, o ator Filipe Bragança, que interpreta o navegador no filme, fez uma participação para contar a experiência de interpretar uma lenda viva da navegação mundial.

Ao longo de uma hora de debate, diante de uma plateia lotada, a conversa se afastou das histórias já conhecidas da travessia do Atlântico realizada por Amyr, em 1984, para mergulhar nos bastidores da construção narrativa do filme — incluindo histórias curiosas que arrancaram risadas do público. Entre os temas abordados estiveram as escolhas feitas durante o processo de adaptação, os elementos do livro preservados na versão para o cinema e as transformações necessárias para a linguagem audiovisual.

Apesar dos desafios, Thais Tavares destacou a confiança que Amyr depositou na equipe desde o início do projeto. “Na nossa primeira reunião com o Amyr, conversamos que teríamos que adaptar algumas partes da história. Ele respondeu: ‘O barco é meu filho, o filme é filho de vocês. Então fiquem à vontade’. Ele deu total liberdade para que encontrássemos a melhor forma de contar essa história no cinema”, relembrou a roteirista. Mesmo com as adaptações necessárias, Amyr ressaltou o cuidado da equipe em preservar a essência da obra e das pessoas que fizeram parte de sua trajetória.

“Desde a caracterização dos personagens, como o Fúria e a Philippine, que está impressionantemente parecida com a minha mãe, até o sotaque. Houve um cuidado e uma sensibilidade por parte da produção e de todos os envolvidos para construir essa história emocionante”, afirmou o navegador. Já Carlos Saldanha comentou sobre o desafio de traduzir para as telas o aspecto mais subjetivo da travessia.

“Um dos maiores desafios da adaptação de 100 Dias Entre Céu e Mar foi traduzir para o cinema a poesia dessa jornada, indo além dos aspectos técnicos da travessia. Buscamos construir uma narrativa visual que refletisse a conexão do Amyr com o mar, os animais e a natureza ao seu redor, para transmitir ao público as sensações e reflexões que o livro desperta”, destacou o diretor. Na reta final do encontro, Filipe Bragança falou sobre a importância da obra em sua preparação para interpretar Amyr Klink, revelando que o livro se tornou um de seus favoritos durante o processo.

“Ao conhecer mais sobre o temperamento dele, seu senso de humor, seus medos, suas angústias e a forma como viveu essa travessia internamente, consegui me aproximar ainda mais da sua história. O livro foi um grande companheiro durante a preparação e me ajudou a compreender melhor um personagem tão complexo e inspirador”, contou o ator. Ao privilegiar a literatura como ponto de partida da conversa, o painel reforçou como "100 Dias" nasce do encontro entre diferentes formas de contar histórias. Mais do que reconstituir uma travessia histórica, o filme propõe uma nova leitura de uma obra que inspira leitores brasileiros há mais de quatro décadas, agora apresentada sob a perspectiva do cinema.

Dirigido por Carlos Saldanha, "100 Dias" estreia nos cinemas brasileiros em 29 de outubro e é inspirado em "Cem Dias Entre Céu e o Mar", clássico de Amyr Klink que narra a travessia solitária do Oceano Atlântico realizada pelo navegador em um barco a remo. No filme, sozinho em um pequeno barco desenhado por ele próprio, Amyr Klink desafia o Atlântico Sul a remo e escreve uma história inédita na navegação mundial. Dirigido por Carlos Saldanha e escrito por Elena Soarez e Thais Tavares, "100 Dias" conta a travessia entre a África e o Brasil se transforma em uma batalha contra o medo, a solidão e os próprios demônios. Enquanto o corpo resiste ao mar, a mente enfrenta memórias, conflitos familiares e escolhas que moldam quem ele é. Mais do que cruzar um oceano, Amyr precisa atravessar a si mesmo. 

Dirigido por Carlos Saldanha e estrelado por Filipe Bragança, o longa transforma uma das maiores aventuras da navegação mundial em uma experiência cinematográfica de grande escala. O elenco reúne a atriz francesa Philippine Leroy-Beaulieu ("Emily em Paris") no papel de Asa Klink, mãe do navegador, além de Felipe Camargo ("Além do Tempo") como Jamil Klink e João Vitor Silva (‘Impuros’) interpretando Tymur Klink, pai e irmão de Amyr, respectivamente.  O longa-metragem é produzido por Paula Cosenza, Justine Otondo e João Queiroz, pelo diretor e pelos produtores Denise Machado, Giuliano Cedroni e Marco Anton. O filme ainda reúne profissionais de destaque do audiovisual brasileiro e internacional, incluindo Rodrigo Monte (ABC) na direção de fotografia, Cassio Amarante (ABC) na direção de arte, Marcela Altberg na direção de elenco, Kika Lopes no figurino e Fernando Stutz na montagem. A trilha sonora original é assinada pelo compositor finlandês Tuomas Kantelinen.

O projeto é uma produção do Ventre Studio, com coprodução da Buena Vista International, Boipeba Filmes, Trema Filmes, O2 Filmes e Total Post em associação com Good Hand Film & TV. A distribuição é da Buena Vista International, selo da The Walt Disney Company. 100 DIAS’ foi produzido com recursos públicos geridos pela Agência Nacional do Cinema (ANCINE), além de apoio do Ministério da Cultura e do Governo do Estado de São Paulo, por meio da Lei Paulo Gustavo. A produção conta ainda com patrocínio de Havaianas, Itaú, C6 Bank, BNDES e Honda, além de apoio da Estapar, Nutrimental, RioFilme, Business Finland e Film Tampere Finland. Compre o livro "Cem Dias Entre Céu e Mar", de Amyr Klink, que inpirou o filme "100 Dias", neste link.

sábado, 25 de julho de 2026

.: “Infantaria” revela violência doméstica em narrativa densa e inquieta


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

O filme “Infantaria” chega à plataforma de streaming Reserva Imovision dentro da Mostra Pequenas Jornadas - Curtas-Metragens, apostando na potência do formato curto para lidar com temas espinhosos. Dirigido e escrito por Laís Santos Araújo, o curta coloca uma festa de aniversário no centro de um território instável: uma casa sem pai, desejos que se acumulam e uma presença inesperada que bagunça qualquer ideia de controle.

Joana, que completa dez anos, quer menstruar logo. O irmão, Dudu, deseja a volta do pai militar. A adolescente Verbena aparece sem convite e, a partir daí, o clima muda completamente. O que parecia rito de passagem vira algo pesado. A diretora conduz esse encontro com olhar atento para o feminino e para a violência que ronda relações familiares marcadas por ausências e autoridades mal-resolvidas.

No elenco, Ane Oliva se destaca ao lado de Ana Luiza Ferreira Santos, Karolayne Raissa e Francisco Nunes. A câmera de Wilssa Esser captura um Brasil úmido e denso, em que o ambiente participa ativamente da narrativa. A montagem, assinada pela própria diretora, sustenta o desconforto sem recorrer a atalhos, enquanto o desenho de som de Leo Bulhões amplia a tensão.

O curta não passou despercebido no circuito de festivais. Em Alagoas, virou protagonista na Mostra Sururu de Cinema ao conquistar sete prêmios, incluindo Melhor Filme pelo júri oficial e popular, além de reconhecimento técnico e de atuação . Também circulou por eventos como o Cine Ceará, onde rendeu à diretora o Troféu Mucuripe, e garantiu espaço em debates sobre o cinema feito fora do eixo tradicional.

Há um dado que chama atenção: Laís Santos Araújo já vinha acumulando trajetória consistente antes de “Infantaria”. Foi a primeira mulher em Alagoas a vencer um edital de longa-metragem no estado e teve projetos reconhecidos internacionalmente, como o roteiro de “Marina”, que passou por laboratórios e fundos estrangeiros . Esse percurso se reflete na segurança com que ela articula imagens, corpos e conflitos.

Filmado na Barra de São Miguel e finalizado em Maceió, o curta carrega o peso e a beleza de um cinema regional que não se limita ao rótulo. A produção contou com apoio da Lei Aldir Blanc, reforçando o impacto de políticas públicas no fortalecimento do audiovisual local. Em 24 minutos, “Infantaria” não resolve tudo, mas prefere provocar, deixar marcas e sair de cena com ecos difíceis de ignorar.


Ficha técnica
“Infantaria” (título original) 
Gênero: curta-metragem, drama. Duração: 24 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. Ano de produção: 2022. Idioma: português. Direção e roteiro: Laís Santos Araújo. Elenco: Ane Oliva, Ana Luiza Ferreira Santos, Karolayne Raissa, Francisco Nunes, José “Zé” Nunes, Renan Ferreira da Silva. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


Assine a Reserva Imovision, a maior plataforma de filmes independentes da América Latina
A equipe do portal Resenhando.com acompanha os filmes por meio da plataforma de streaming Reserva Imovision, dedicada ao cinema independente e autoral. Para acessar o catálogo completo, conferir novidades e realizar sua assinatura, o aplicativo da plataforma ou o visite o site oficial neste link. A Reserva Imovision reúne filmes e séries cuidadosamente selecionados, ampliando o acesso a obras que valorizam a diversidade cultural, a reflexão e experiências cinematográficas diferenciadas. Você pode assinar a plataforma de streaming Reserva Imovision neste link.
Postagens mais antigas → Página inicial
Tecnologia do Blogger.