Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com.
Publicado por Jack El-Hai, o romance "O Nazista e o Psiquiatra", que inspirou o filme "Nuremberg", em cartaz na Rede Cineflix e em cinemas de todo oBrasil, mergulha em um dos episódios mais inquietantes do pós-guerra: o encontro entre o alto escalão do regime nazista e a tentativa científica de compreender a mente por trás de crimes que desafiam qualquer noção de humanidade. Inspirado nos bastidores dos julgamentos de Nuremberg, o livro publicado pela Editora Planeta articula história e psicologia para investigar uma pergunta incômoda: o mal é uma exceção ou uma possibilidade latente em todos nós?
Preso em 1945, ao final da Segunda Guerra Mundial, Hermann Göring foi conduzido a um centro de detenção sob controle norte-americano, em Luxemburgo. Mesmo diante da derrota, mantinha traços de ostentação e controle: carregava dezenas de malas com objetos que iam de medalhas e pedras preciosas a itens pessoais triviais, como roupas íntimas e uma bolsa de água quente. Entre esses pertences, escondia um segredo fatal - cápsulas de cianeto de potássio, guardadas em frascos de latão dentro de uma simples lata de café. O detalhe não é apenas curioso: antecipa o desfecho trágico e revela uma mente que jamais abriu mão da própria autonomia, nem mesmo diante da iminência do julgamento.
Ao seu redor, reunia-se uma galeria sombria de figuras centrais do nazismo: Karl Dönitz, Wilhelm Keitel, Alfred Jodl, Robert Ley, Hans Frank e Julius Streicher, entre outros. Cinquenta e dois prisioneiros compunham aquele microcosmo do horror recente, homens que haviam ocupado posições de poder e agora aguardavam julgamento por crimes contra a humanidade. Ainda assim, entre todos, Göring se destacava: articulado, carismático e perigosamente convincente, exercia influência até mesmo no cativeiro.
É nesse cenário que entra Douglas McGlashan Kelley, capitão do Exército dos Estados Unidos encarregado de avaliar a sanidade dos réus para que pudessem ser julgados. Ambicioso e intelectualmente instigado pelo desafio, Kelley enxergou ali uma oportunidade única: investigar se aqueles homens eram monstros fora da curva ou expressões extremas de traços humanos comuns. A missão dele, no entanto, rapidamente ultrapassa os limites da observação clínica e adentra um território ético delicado.
A convivência diária com os prisioneiros dá origem a uma relação tão fascinante quanto perturbadora. Kelley não apenas entrevista e aplica testes: ele escuta, dialoga, observa gestos, hesitações e estratégias discursivas. Aos poucos, percebe-se envolvido por uma proximidade que desafia sua própria objetividade. Contra todas as expectativas, passa a compreender e, em certa medida, a se afeiçoar a alguns daqueles homens. Nenhum deles, porém, o intriga tanto quanto Göring, cuja inteligência e habilidade retórica tensionam constantemente a linha entre lucidez e manipulação.
O que Jack El-Hai constrói, com base em documentos inéditos e registros médicos, não é apenas uma narrativa histórica, mas um estudo inquietante sobre os limites da empatia. O livro expõe o risco de se aproximar demais do objeto de análise, sobretudo quando esse objeto é o próprio mal em forma humana. Ao iluminar essa relação ambígua entre médico e paciente, ciência e fascínio, razão e sedução, a obra convida o leitor a encarar uma hipótese desconfortável: a de que a crueldade não pertence apenas aos outros: pode ser compreendida, racionalizada e, em certos contextos, até normalizada. Com isso, o livro propõe uma reflexão urgente sobre responsabilidade, consciência e os mecanismos psicológicos que permitem que indivíduos comuns participem de sistemas extraordinariamente violentos. Compre o livro "O Nazista e o Psiquiatra", de Jack El-Hai, neste link.
"Nuremberg" (título original)
Duração: 2h28min.
Classificação indicativa: 16 anos.
Ano de produção: 2026.
Idioma: inglês.
Direção: James Vanderbilt.
Roteiro: James Vanderbilt e Jack El-Hai.
Elenco: Russell Crowe, Rami Malek, Michael Shannon, Richard E. Grant.
Distribuição no Brasil: Diamond Filmes.
Cenas pós-créditos: não.
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