domingo, 2 de abril de 2017

.: O fingerstyle apaixonante de Tiago Iorc (a crítica do show)

Foto: Diana Arnold
Por Helder Bentes*, em abril de 2017.

Acabo de chegar do show do Tiago Iorc em Belém do Pará. E estou impressionado! Mas se vc, preconceituosinho de merda, acha que é só porque ele é um gato que deixa mulheres e gays enlouquecidos, equivocou-se.

Por trás daquela beleza sui generis e daquele charme único, há um músico de primeira grandeza, que estuda e sabe fazer solos incríveis, dominando o violão com técnicas que os especialistas em música vão chamar de  avançadas, mas que eu prefiro chamar de criativas.

Sou paraense de Belém, onde bons músicos são obrigados a conviver com uma indústria cultural que vende marteladas como se fossem músicas. 

Minha formação profissional em letras, no entanto, não me permite ignorar as propriedades rítmicas da linguagem, tampouco a música como um meio de expressão artística que alcança mais facilmente as pessoas. Então é lógico que música de qualidade vai exercer efeitos múltiplos sobre meu espírito.

Voltei pra casa fascinado e pensando: "Como é que pode alguém ser tão genuíno em cena?". Tiago toca e canta entre a razão e a emoção,  tem criatividade no palco, e é isso que dá qualidade profissional ao show de voz e violão que ele faz. Durante o show, observei que ele faz a base e o solo simultaneamente, usando as cordas e o corpo do violão como percussão, demonstrando conhecer cada som produzido por cada parte do instrumento.

Essa intimidade com o violão é metaforizada em vários momentos do show, mas se torna metonímica, catacrética, sinestésica e extrassensorial quando ele sensualiza tocando Bang, sucesso de Anita que é despido de toda breguice na voz performática dele.

Gente, fiquei tão impressionado, que como não tinha como descobrir o whatsapp do Tiago (hahaha...), fui pesquisar na net que coisa era aquela. E descobri que o nome disso é Fingerstyle, uma técnica secular de tocar a harmonia e a melodia e que remonta à época em que música e poesia nem eram ainda artes autônomas. Lógico que, naquele tempo, o violão, tal qual o conhecemos hoje, ainda não existia.

Mas certamente quem o inventou, deve tê-lo criado de modo a ampliar o potencial sonoro do instrumento, porque quem estuda música, sobretudo a erudita, sabe que pensar harmonia e melodia simultaneamente é um pré-requisito para ser um bom músico.

Essa técnica foi absorvida e aperfeiçoada em ritmos como o Blues e o Country. Mas acho que, no Brasil, quem trouxe isso para o Pop foi o Tiago mesmo. Ele usa tanto a mão direita, quanto a esquerda para tocar e, com afinações variadas, imprime mais qualidade aos acordes e às cordas mais graves do violão.

E assim, com um único violão e aquela voz linda de tenor, ele consegue fazer a melodia, a harmonia, os baixos, e o ritmo pensado para aqueles versos cheios de poesia. Eu juro que, se eu não estivesse vendo aquilo com meus olhinhos brilhantes e emocionados, eu pensaria que havia mais de um músico no palco.

Pena que o público grita muito, e a gente acaba não apreciando ao máximo toda essa riqueza sonora! Mas dá pra perceber que Tiago Iorc tem mundiaudiência (capacidade de ouvir o mundo, para além da afinação das notas). E isso confere originalidade tanto a seu trabalho autoral quanto às interpretações. Ele improvisa adequadamente e parece ser simultâneo ao compor e tocar. Enfim, tanta dedicação à música, dá até vontade da gente libertar talentos outros que a gente talvez tenha e nem saiba! Eu agora o amo muito mais!

Próximo show de Tiago Iorc em Cuiabá:


*Helder Bentes é crítico de artes e pesquisador em ciências da arte e da linguagem.

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