quinta-feira, 6 de setembro de 2018

.: Réquiem para o Nacional: poema de Luiz Sampaio


A NOVA DA NOITE
                       
Réquiem para o Nacional

noite eterna
manhã sem amanhã
hoje é dia de cinzas
cinzas
       mortas
             menos que cinzas
sem chance de renascer

muito além do Museu
muito além da memória
     queimaram o futuro
            o presente
                       a história
queimaram o nacional
nossa esperança de ser

queimaram os colchões do berço esplêndido

as chamas acesas do descaso
condenam ao sono eterno
o nosso já tão descrente país do futuro

os raios do mal cruzaram tempo e espaço
torraram até o extraterrestre
além do internacional
     rochas dos astros
           vidas antigas em pedras eternizadas
     animais
           plantas ao sempre guardadas
     culturas
           vidas passadas
                   futuras
tudo rodou no roldão nacional
múmias vieram morrer no Nacional

o eterno condenado ao ocaso
não por acidente do acaso
mas pelo desmando fatal

calam-se as palavras estarrecidas
diante do presente destruído
do passado carbonizado
do futuro no escuro
do carro desgovernado

não há labaredas de palavras
capazes de extinguir
     o sangue
             fervente
                    vermelho
das labaredas do crime organizado
que incendiou nosso país

Quem pôs fogo no Brasil?
Nós e ninguém.
Quem destruiu o Brasil?
Nós e ninguém.

Nós elegemos o ninguém
     os caras
             que escondem as caras
                    no instante em que o fogo vem

logo agora
     na hora da reeleição
             na gula de votos
                     na ânsia
nossos ninguéns
precisam livrar-se das cinzas
precisam mostrar suas caras limpas
     rementir
             fazer preleção
postar-se ao largo dos desenganos
prometer plantios na terra queimada
     tratar-nos como gentios
             com sua assassina arrogância
que surrupia de nós o voto
e por mais quatro prósperos anos
nos relega a menos que nada

Este é um triste réquiem
para a esperança do meu país
para o que eles fizeram
nós fizemos
eu fiz.

Luiz Sampaio: poeta que prepara o lançamento de luizsampaio.com

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