segunda-feira, 8 de outubro de 2018

.: Crítica: "Caio Fernando Abreu - Contos Completos" é o lançamento do ano


Por Helder Moraes Miranda, em outubro de 2018.


As 765 páginas do livro "Caio Fernando Abreu - Contos Completos", lançamento da Companhia das Letras, não negam: ele, mesmo depois de morto há mais de 22 anos, continua sendo o maior escritor da atualidade. Finalmente, uma editora lança, em uma edição caprichada e cheio de textos extras, todos os livros de contos do escritor, anteriormente publicados indivudualmente entre as décadas de 1970 e 1990. 

Caio Fernando Abreu foi redescoberto a partir de citações nas redes sociais e vem sendo celebrado a cada novo leitor que passa a conhecê-lo. Até hoje, é considerado o autor mais visceral da contracultura brasileira, mas a literatura dele, maciçamente, fala sobre o amor, seja ele o que se nutre pelos outros, correspondido ou não, intenso ou não, fugaz, ou não. A obra demonstra que muitos escritores contemporâneos, mesmo os que não assumem, bebem da fonte dele para escrever o que antes era considerado transgressor e hoje é considerado, sem ser (porque Caio já fez antes), um sopro de novidade.

Ao todo são seis livros - "Inventário do Ir-remediável" (1970), "O Ovo Apunhalado" (1975), "Pedras de Calcutá" (1977), "Morangos Mofados" (1982), "Os Dragões Não Conhecem o Paraíso" (1988) e "Ovelhas Negras" (1995). As novidades são os dez contos avulsos, sendo quatro escritos nos anos 70, três dos anos 90 e os três inéditos em livro "O Meu Travessseiro Tem Um Ramo de Trigo do Lado Esquerdo, Mas o Diário de Kafka Está com a Capa Rasgada", "Angie" e "As Quatro Irmãs (Uma Antropologia Fake)".

Entre os contos, destacam-se o inesquecível "Aqueles Dois", em que dois homens que se apaixonam são perseguidos pelas maledicências dos colegas de expediente, "Terça-feira Gorda", que retrata uma cena de sexo casual na praia e o preconceito gerado a partir dela, "Corujas" e "Uma História de Borboletas", sobre a existência e seus vazios. Mas destacar somente alguns contos de Caio Fernando Abreu de uma obra tão extensa é limitá-la. O livro abre com "Os Cavalos Brancos de Napoleão", sobre um homem que descobre a existência de cavalos nas nuvens e enlouquece, ou é isso que querem que pensem sobre as pessoas que vêem além. 

Todos os personagens dos contos escritos por Caio Fernando Abreu não são inocentes. Eles estão ali por algum motivo, nunca são colocados sem nenhum objetivos. Densos ou leves, sempre têm algo a dizer, a fazer pensar, a conduzir ao ir-além. A temática coloca como protagonistas, na maioria das vezes, homossexuais românticos em épocas em que ainda não se falava em "lugar de fala" ou empoderamento, ou que as causas dos homossexuais nem eram discutidas ou levadas em consideração. Só por essa ótica, a pura e simples escrita de Caio Fernando Abreu é militante e pioneira, mas não é só isso. Ele é profundo quando fala do reencontro sem intimidade do filho soropositivo com a mãe que não lhe faz perguntas em um dos emblemáticos contos que compõem a obra.


Há, ainda, textos que explicam a breve, e inesquecível trajetória desse autor, por outros autores, como Ítalo Moriconi ("A Literatura Como Vingança e Redenção"). Alexandre Vidal Porto ("O Homem do Imediato") e Heloísa Buarque de Hollanda ("Hoje Não É Dia de Rock). Há, também, uma cronologia sobre esse que, até hoje, é o grande nome da prosa moderna. É de uma alegria imensa presenciar a coragem de uma editora em relançar um autor, de uma maneira tão respeitosa e completa, presenteando os fãs da obra de Caio Fernando Abreu e apresentando esse autor para uma geração que ainda não o conhece. É, sem dúvida, o lançamento do ano e permanecerá assim por muito tempo.



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Um comentário:

  1. Essa é a Bíblia da cultura e sabedoria. Livro extenso e completo. É para ter e ler várias vezes.

    Breno Freitas

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