sexta-feira, 2 de novembro de 2018

.: Ao mestre Maneco, com carinho - Por Luiz Gomes Otero


Por Luiz Gomes Otero*, em outubro de 2018.

Peço licença nesse espaço para escrever sobre um colega de profissão que nos deixou recentemente. Falo de Manuel Alves Fernandes, ou simplesmente Maneco para os amigos mais próximos.

A matéria a respeito de seu falecimento, ocorrido no dia 26 de novembro, já deu uma noção da importância de sua atuação como jornalista há mais de 40 anos em A Tribuna. Ele costumava dizer que tinha como fonte de inspiração mestres como Carlos Heitor Cony. Mas o fato é que ele mesmo acabou se tornando um mestre em contar histórias de nosso dia a dia. Uma simples cena do nosso cotidiano poderia virar um texto inspirado, cheio de informação e referências dos mais variados tipos.

A profissão de jornalista é muito individualista, principalmente no chamado jornalismo impresso. O repórter fica preso em frente a uma tela de computador tentando escrever algo que será lido por centenas, milhares de leitores. Isso acaba por estimular uma postura mais ácida e individualista no nosso cotidiano, apesar de convivermos diariamente com centenas de pessoas.

Maneco era o oposto de tudo isso. Não era um individualista. Fazia questão de compartilhar suas ideias e pontos de vistas. Era um debatedor nato, sempre com argumentos convincentes. Apesar da aparência sisuda, tinha um humor fino e inspirado. Além disso, tinha uma postura extremamente humana para com seus colegas. Fui testemunha disso em várias oportunidades.

Em uma delas, quando começava a trabalhar em A Tribuna, no final dos anos 90, surgiu um assunto ligado ao Litoral Sul que envolvia uma ação do Ministério Público, que acabara de ser divulgada. Quando me preparava para buscar fontes, o telefone do escritório tocou. Era o Maneco, perguntando se eu precisava de alguma orientação sobre o assunto. Ele ligou sem ninguém pedir, espontaneamente. Como tinha formação em Direito, ele me explicou todo o processo de recurso que poderia ser feito e os desdobramentos que poderiam acontecer no âmbito jurídico. Quando terminamos a conversa, tinha um norte seguro para escrever o texto sobre o assunto.

Em outra ocasião, no ano 2002, eu cobria suas férias na sucursal de Cubatão. Aí veio a confirmação de um credenciamento para o show da banda canadense Rush no Brasil, que viria ao Brasil pela primeira vez naquele ano. Pois ele apareceu em Cubatão, ficou sabendo do ocorrido e se dispôs a vir no dia do show, para que eu conseguisse fazer a tão desejada cobertura, no meio de suas férias. Um ato de coleguismo que contrasta com o sentimento de individualidade que nossa profissão passa para quem trabalha no ramo.

Para mim, a principal lição que o Maneco passou foi não ter medo de contar uma boa história, que aliás pode estar aqui bem perto de nós, em qualquer lugar. E que compartilhar conhecimentos pode e deve ser a essência da Comunicação Social. Agradeço a Deus pela oportunidade de conviver e aprender com esse mestre do jornalismo, que fará muita falta no nosso dia a dia.

*Luiz Gomes Otero é jornalista formado em 1987 pela UniSantos - Universidade Católica de Santos. Trabalhou no jornal A Tribuna de 1996 a 2011 e atualmente é assessor de imprensa e colaborador dos sites Juicy Santos, Lérias e Lixos e Resenhando.com. Criou a página no Facebook Musicalidades, que agrega os textos escritos por ele.

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