sábado, 6 de abril de 2019

.: Crítica de "Rua Azusa - O Musical": do blackface à catarse coletiva

Por Helder Moraes Miranda
Em abril de 2019

Há duas maneiras de assistir ao espetáculo "Rua Azusa - O Musical", musical da Cia. de Artes Nissi em cartaz no Teatro Procópio Ferreira, em São Paulo - uma pela ótica do talento, cujas vozes e as habilidades de dança impressionam até os mais exigentes ouvidos e olhos - outra pela ótica da fé, em que as pessoas vão para fazer, diante desse musical, uma catarse coletiva.

O primeiro ato é voltado para aqueles que vão ao teatro com o objetivo de apreciar o belo mas, também, que querem se posicionar sobre assuntos importantes: o blackface é explicado de maneira brilhante pelos atores e fazem com que, finalmente, pessoas que não estão nesse "lugar de fala", entendam coisas que passam desapercebidas. As vozes, os passos de dança, a história, tudo milimetricamente realizado para ser perfeito. Não há uma desafinação ou um passo em falso, tudo é lindo em "Rua Azusa", principalmente a negritude de seu elenco.

O segundo ato é mais voltado para aqueles que, de alguma maneira, procuram em "Rua Azusa" uma espécie de redenção - tanto que é comum, durante as apresentações, pessoas do público não controlarem as emoções e deixarem palavras de afeto e validação da fé saírem de suas bocas, em uma manifestação de como a arte pode complementar a vida em diversas maneiras e tocar corações em busca de conforto.

Se há duas maneiras de assistir ao espetáculo, também existem duas histórias sendo contadas quase que simultaneamente no palco. A primeira, que permeia todo espetáculo, é a do preconceito racial sofrido pelos negros desde o primeiro momento, quando foram trazidos como escravos. O drama dos negros é enfatizado no início do século XX, quando a situação era tão ruim que só restava aos negros, tratados de maneira vexatória em um mundo dominado por brancos, apegarem-se a fé.

A segunda história se passa nos tempos atuais, quando "Rua Azusa" demonstra que o preconceito racial, embora velado, continua o mesmo. Um casal de atores brancos interpreta esse casal e é a partir deles que a peça ganha prosseguimento já que as histórias, embora independentes, estão interligadas.

Entre os 47 atores do elenco dividindo o palco, há nomes importantes da música gospel como Soraya Moraes, vencedora de prêmios Grammy Latino, Adhemar de Campos (William Seymour, que revolucionou o estilo na década de 80, Benner Jacks, que já se apresentou em concertos por toda Europa e Jéssica Augusto, cujo canal no YouTube soma mais de 7 milhões de visualizações.
Entre os destaques, há Thales César que, com a voz aveludada, promete ir além dos palcos e seguir uma carreira promissora. Ele é a cara do espetáculo: "Rua Azusa – O Musical" é  voz, é otimismo e é uma maneira de sair do teatro mais otimista com a vida.

Curiosidades"Rua Azusa – O Musical" foi criado por Caíque Oliveira, que se aprofundou em uma pesquisa sobre a segregação racial da época e no impacto que o movimento pentecostal ocasionou na vida de negros e brancos.  O roteiro foi desenvolvido em outubro de 2018 e novembro já estava pronto para os ensaios.

A atriz da Broadway Patrice Covington , do musical “The Color Purple”, foi preparadora de elenco e veio dos Estados Unidos exclusivamente para ensinar técnicas aos atores de "Rua Azusa". A direção geral é de Caíque Oliveira, diretor fundador da Cia. de Artes Nissi. Toda renda do musical, excluindo as despesas de produção, é revertida para a Aldeia Nissi.

Sinopse
Em 1906, em meio ao grande conflito da segregação que dividia os Estados Unidos, um homem negro, filho de escravos, chamado William Joseph Seymour é escolhido para liderar o movimento que quebrou barreiras raciais, criando um espaço onde não existia distinção entre brancos e negros. O movimento na Rua Azusa marcou gerações, e permanece vivo até os dias de hoje.

Essa história centenária serve de inspiração para Elizabeth nos dias de hoje. A jovem sonhadora, impossibilitada de gerar um filho, luta para que seu marido aceite a adoção de Maria, uma criança negra de oito anos que carrega as marcas de uma sociedade preconceituosa em sua história.

"Rua Azusa – O Musical"
Com Adhemar de Campos, Aline Menezes, Benner Jacks, Fabricio Bittencourt, Jéssica Augusto, Kaiky Mello, Otavio Menezes, Soraya Moraes, Thales César e grande elenco composto por 47 atores.
Teatro Procópio Ferreira (Rua Augusta, 2823 – Jardins, São Paulo)
Duração 180 minutos. Até dia 7 de abril.
Apresentações às sextas-feiras, às 20h, sábados, às 14h30 e 19h30, e domingos, às 14h30.
Classificação: 12 anos



*Helder Moraes Miranda é bacharel em jornalismo e licenciado em Letras pela UniSantos - Universidade Católica de Santos, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura, pela USP - Universidade de São Paulo, e graduando em Pedagogia, pela Univesp - Universidade Virtual do Estado de São Paulo. Participou de várias antologias nacionais e internacionais, escreve contos, poemas e romances ainda não publicados. É editor do portal de cultura e entretenimento Resenhando.


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