sábado, 17 de agosto de 2019

.: "Arco de Fogo": entrevista com João Carlos Borda e Edson Sousa

Por Letícia Santiago, em agosto de 2019.


Entrevista com os autores do livro "Arco de Fogo: Um Relato Sobre Uma das Maiores Operações Policiais em Região Amazônica". João Carlos Borda à esquerda e Edson Geraldo de Souza à direita. Foto: Andrea Ferreira

“Uma guerra quase invisível no coração da Amazônia” é o subtítulo que chama a atenção para o livro "Arco de Fogo", escrito pelo jornalista João Carlos Borda e o delegado Edson Geraldo de Souza. A história retrata a rotina vivida pelo doutor Edson e equipes policiais durante uma missão nas regiões de Floresta Amazônica com ênfase no desmatamento ilegal em regiões como Santarém, é um romance policial de ficção, porém envolvendo o leitor em fotos e documentos reais da missão e cativando-o em momentos de suspense, ação e muita emoção.

A obra trata o tema de fiscalização madeireira e políticas ambientais conscientizando o leitor e fazendo-o refletir sobre esquemas ilegais na floresta, entretendo com um roteiro cativante do começo ao fim. Tivemos a oportunidade de conversar com os autores sobre o livro, a experiência e o que eles esperam com a publicação deste exemplar denunciando as tentativas de contenção de crimes ao meio ambiente. O livro "Arco de Fogo" já está disponível nas livrarias brasileiras e em formato eBook. Os autores da obra estarão na Bienal do Livro, no próximo dia 31, às 18h, recebendo os leitores para bate-papo e autógrafos.

RESENHANDO: O nome do livro, “Arco de Fogo”, faz referência à operação policial ocorrida na Amazônia e vivenciada pelo Dr. Edson Geraldo de Souza. O que a operação e o livro significaram para vocês?
EDSON GERALDO DE SOUZA - O nome "Arco de Fogo" se refere a uma operação que foi mantida por anos pela Polícia Federal, por meio de uma força tarefa composta também por Ibama e Força Nacional. Havia bases estrategicamente localizadas em áreas identificadas como de alto risco para o meio ambiente, especialmente no chamado arco do desmatamento, que é uma região onde a Amazônia sofre maior ação predadora. Trabalhar na operação foi uma experiência intensa e diferente de tudo o que já havia feito, fornecendo uma visão completamente diferente do que seja Lei, Estado e visão social sobre prioridade. Escrever o livro, em conjunto com o João Carlos Borda, foi, ao mesmo tempo, um exercício literário e uma realização pessoal.
JOÃO CARLOS BORDA - Significam um limite estratégico e geográfico da Polícia Federal para combater os crimes ambientais na Amazônia. Mas, a título de conscientização, representa uma alavanca para remodelar as nossas concepções sobre a fragilidade de um sistema ambiental, frequentemente ameaçado.

RESENHANDO: Há algum acontecimento específico que não esteja no livro ou toda a experiência está relatada ali?
E.G.S. - Quando traçamos o que queríamos escrever sobre os fatos, decidimos que queríamos uma literatura policial ágil, dinâmica e objetiva. Um livro que fosse a essência, condensado para ser rápido e visual, dispensando qualquer elemento, descrição ou fato que não estivesse diretamente ligado à narrativa. Então, o essencial ao enredo está lá. Poderíamos escrever um livro de mil páginas, mas, neste caso, teríamos falhado no objetivo de apresentar uma obra literária revestida de linguagem dinâmica e leitura rápida. Não dá tempo do leitor respirar, não pode perder a atenção, o foco. Se o fizer, terá que voltar algumas páginas para ler de novo.
J.C.B - O que havíamos planejado está contemplado. É claro que, além da objetividade no relato dos fatos, prepondera também uma subjetividade literária que, em muitos casos, julgo, ganha densidade por conta da leitura pessoal de cada um.

RESENHANDO: Além da experiência pessoal dos policiais federais envolvidos na operação, houve alguma outra inspiração para que o livro fosse publicado?
E.G.S. -   Sou fã de literatura, cinema e música - acredite, o livro tem trilha sonora composta especialmente para ele - e pensamos em misturar um pouco de tudo: linguagem visual, enredo consistente, ausência de ordem cronológica linear, diálogos fortes e constantes. Com inspiração em Giuseppe Tornatore, Tarantino, Guy Ritchie, Javier Moro, Henry Charriere e muito indie rock, entregamos a obra Arco de Fogo aos leitores.
J.C.B - Quando a criação e a tinta entram em convergência, ou seja, quando damos forma a ideia, transformando fatos em literatura, somos impelidos a construir um mundo. O Dr. Edson viveu a realidade, esteve à frente de tudo, e captou com os olhos e o coração o que hoje o leitor assiste como se estivesse diante de uma tela do cinema.

RESENHANDO: Qual mensagem vocês esperam que os leitores possam receber desta obra?
E.G.S. - O prazer da leitura, uma história inspirada em fatos reais, muita adrenalina e a consciência de como as coisas realmente são no coração da Amazônia.
J.C.B - A consciência de preservação não brota do simples convite ao ativismo. A gente só preserva, aquilo que conhece. Espero que o livro abra essa janela e através dela conduza o leitor a essa prática de luta pela preservação da Amazônia.

RESENHANDO: Na capa do livro, por que vocês denominam a operação como “uma guerra quase invisível”?
E.G.S. - Desde há muito se fala em desmatamento, em perda de espaços cada vez maiores de vegetação nativa, em áreas correspondentes a tantos campos de futebol a menos, em destruição do habitat natural de inúmeras espécies, em extinção de espécies e, parece-me, que isso se tornou normal, aceitável, acadêmico, técnico, distante das conversas cotidianas. Preservação e sustentabilidade se tornaram, para a maioria, palavras atreladas a marketing institucional de empresas. Não me parece algo que esteja ocorrendo de verdade. Todos sabem que há uma luta pela preservação, mas que luta é essa, onde ocorre, como ocorre? É quase como se não ocorresse, não existisse, "quase invisível". Se não fosse o livro você teria conhecimento que houve uma operação denominada "Arco de Fogo"?
J.C.B - Está nos labirintos da compreensão da grandeza da Amazônia e nos conflitos de quem luta contra os crimes ambientais, como o faz a Polícia Federal, a invisibilidade da imensidão da selva e a sua complexa leniência para se manter em pé. Nem sempre o que os olhos não captam é inexiste. Pelo contrário.

RESENHANDO: Como identificar o real e o fictício no livro?
E.G.S. - A história está romanceada por inteira, mas fortemente inspirada em fatos. O que é real e o que é ficção na obra deixamos para o leitor descobrir. Há referência a datas, locais e fotos. O leitor terá em mãos um livro que pode ser usado como referência, fonte de informação ou apenas uma obra escrita com muito esmero para divertir toda sorte de fã de literatura, com ação, emoção, suspense e alguma dose de humor autêntico.
J.C.B - O Dr. Edson conseguiu, com maestria, criar essa atmosfera envolvente que faz o leitor andar sobre uma corda bamba, pela qual transitam, de forma simultânea, o real e o quase real.

RESENHANDO: Como o Dr. Edson G. de Souza se envolveu na operação Arco de Fogo?
E.G.S. - Fui designado para trabalhar por um período em uma das diversas base da operação, as quais ficam na linha de frente do trabalho da Polícia Federal na luta contra os crimes ambientais e o crime organizado que atua no desmatamento. Não foi uma escolha, e sim o cumprimento de uma ordem da instituição. Mas, não há pontas soltas no livro, está tudo lá, inclusive a ordem e a reação ao recebê-la.

RESENHANDO: Qual a sensação de escrever este romance policial e saber que vivenciou tudo isso?
E.G.S. - Ao escrevermos queríamos que o leitor vivenciasse cada fato, cada experiência, queríamos colocar o leitor dentro da operação, da base, dos fatos. Então, o leitor vai estar em uma experiência 4D, dentro do teatro de operações. O que eu senti, o leitor vai sentir também. Temos certeza disso. Alguns leitores nos relataram adrenalina, palpitação, sonhos com a história.

RESENHANDO: Quais os prejuízos e consequências ocasionados por esse desmatamento ilegal na região?
E.G.S. - Quando falamos de Amazônia, estamos falando de 49% do território nacional, de um bioma que abriga 20% das espécies de animais do planeta. Acredita-se que a Terra tenha 11 biomas. O Brasil tem seis deles terrestres e um marítimo. Um deles é a Amazônia. Estamos falando de uma riqueza biológica que abrange flora e fauna, sem contar a riqueza mineral da região amazônica. Todo e qualquer estrago ali representa um prejuízo patrimonial natural irrecuperável. No romance há passagens específicas sobre isso.
J.C.B - Não é só Amazônia o prejuízo. É para o Brasil e o mundo.

RESENHANDO: Quais suas opiniões sobre as políticas ambientais atuais e o que vocês sugerem de mudança para reverter o quadro de aumento do desmatamento na região amazônica?
E.G.S. - Embora a experiência do Borda quanto ao jornalismo investigativo e denunciativo sobre crimes ambientais e a minha experiência descrita no romance, não queremos - não podemos e tampouco devemos - ser vistos como ativistas, ambientalistas ou especialistas. Há pessoas estudando, trabalhando e dedicando sua vida inteira a essa causa. Nossa visão é de colaboradores, de pessoas comuns que querem levar às pessoas igualmente comuns, distante desse tema, uma visão verdadeira, única e fácil de assimilar. Um romance, uma obra literária divertida, dinâmica, escrita sobre um cenário extraordinariamente verdadeiro. Não é um manual, não é um relato jornalístico. É uma autêntica obra literária, um romance policial. E, com muita autocrítica, é um bom livro.
J.C.B - Eu, particularmente, entendo que este governo jogou uma banana de dinamite bem no coração da Amazônia. Como um Nero dos tempos modernos, o presidente Bolsonaro assiste a selva se transformando em cemitério de carvão.


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