domingo, 23 de fevereiro de 2020

.:Entrevista: André Ramiro, ator e rapper, contra o racismo: "Somos a maioria"


Por Helder Moraes Miranda, editor do Resenhando. Fotos: Carlos Sales.

De segunda a sexta-feira, André Ramiro pode ser visto na tela da Globo como um professor de escola na novela "Malhação - Toda Forma de Amar". Um negro fazendo um professor na TV é ainda, e sempre, motivo de comemoração. Ator e rapper, André Ramiro era bilheteiro de cinema e foi descoberto pela equipe do "Tropa de Elite", filme que o alçou ao estrelato. Hoje ele faz teatro, TV e cinema. Até há pouco estava em cartaz no teatro musical com "O Frenético Dancin Days", de Nelson Motta.  


RESENHANDO - Ator e rapper, como essas profissões tão diferentes se complementam entre si?
ANDRÉ RAMIRO - Acredito que toda as expressões artísticas se complementam e se encaixam entre elas. A profissão de ator exige que você seja completo neste sentido. Todo ator e atriz em busca do autoconhecimento e sucesso em sua trajetória deve aprender a dançar, cantar, praticar esportes, entre outras coisas. O ideal é sair da zona de conforto, valorizando o preparo pra viver novos personagens e não ficar limitado. A cultura hip hop me preparou e ajudou muito na minha formação, não só como rapper mas também como ator. Posso afirmar que sim, embora distintas, essas duas artes se complementam assim como todas as outras. 


RESENHANDO - De bilheteiro de cinema a artista de sucesso conhecido nacionalmente. Como aconteceu?
AR - Nos meses finais de 2005, recebi uma ligação da Zazen Produções me chamando para fazer teste para o filme "Tropa de Elite". Me disseram que o ator João Velho tinha dado meu telefone e me indicado. Nessa época, trabalhava como porteiro de cinema e participava das batalhas de MC's no bairro da Lapa, aqui no Rio de Janeiro, onde conheci o João e nos tornamos amigos. Aceitei fazer o convite do teste para o filme sem pretensão alguma. Gostaram do que apresentei e, desde então, faz 13 anos que trabalho como ator. É importante expressar a minha gratidão ao João Velho, José Padilha e Fátima Toledo, por terem confiado em mim e no meu talento. Por me darem a oportunidade de viver e trabalhar com essa profissão que amo. 



RESENHANDO - Tem alguma história de bastidor do filme "Tropa de Elite"? 
AR - Na época, era tudo muito novo pra mim. Foi uma descoberta a cada dia. O mais importante a dizer é que senti que estava no lugar, na hora e no caminho certos. Nos bastidores o mais interessante foi conhecer os policiais que nos treinaram no cotidiano. Entender seus conflitos perante sua profissão junto às questões da sociedade. 



RESENHANDO - "Tropa de Elite" se tornou um clássico do cinema nacional e é falado até hoje. Na época da gravação, já havia essa aura de clássico? 
AR - Já dava pra sentir no set que estávamos fazendo um grande projeto e que o filme iria entrar pra história do cinema nacional - por abordar temas polêmicos e importantes para a sociedade. Falar sobre segurança pública e política social é delicado. Esses temas, entre outros, nos afeta há muito tempo. 


RESENHANDO - Você imaginava o sucesso que esse filme faria? 
AR - Embora sentindo o que senti na época, não tinha como mensurar o sucesso que teríamos e como isso tudo iria mudar a minha vida. 


RESENHANDO - Como foi participar do  "O Frenético Dancin Days"? 
AR - Foi muito importante ter trabalhado e passado pelo processo de montagem e ensaios com Deborah Colker. Aprendi muito com ela sobre a importância do treino árduo, da repetição, sobre se jogar sem medo e experimentar novos caminhos. Foi meu primeiro musical, um novo passo e um novo desafio em minha carreira. Confesso que no início fiquei um pouco inseguro com a Dança e o canto, mas me sinto vitorioso por ter vencido a mim mesmo, grato pela ajuda dos meus companheiros de palco e toda equipe que nos ajudaram nos ensaios. Além da honra de ser dirigido por Deborah, tive o prazer de trabalhar com Nelson Motta e Patrícia Andrade, para dar vida a um texto que retrata uma das décadas mais mágicas existentes: a década de 1970.

RESENHANDO - O mundo avançou ou regrediu dos anos 70 para cá?
AR - O espetáculo, além de ter um tom de chanchada teatral, aborda o conceito libertário e a alegria de ser você mesmo em meio a ditadura militar. Foi uma época difícil, mas de muitas descobertas artísticas e humanitárias. Considero que muita coisa mudou sim, de lá pra cá, mas ainda temos muito a aprender com relação ao respeito às diferenças e empatia pela dor do próximo. Estamos no caminho. 


RESENHANDO - Na época de "Dancin Days" havia uma atmosfera libertária que vem se perdendo para ceder lugar ao conservadorismo. Você concorda ou discorda?  
AR - O que não concordo é com a imposição de um novo padrão de comportamentoseja ele qual for, sem dar ouvidos e voz a quem necessita. Como no caso do direito das mulheres, das mulheres pretas, do povo preto, dos índios, do nordestinos, da classe LGBTQ, do direito à liberdade religiosa e por aí vai...  Estamos tão preocupados com a moral, os bons costumes e a economia do país que entra governo, sai governo, e sempre dizem que "está avançando". Mas não temos saúde pública de qualidade, as escolas continuam sucateadas, ainda temos grande parte da população vivendo em estado de miséria. Nossa água está contaminada, não preservamos a natureza e, em prol do “tal crescimento econômico” desmatamos a Amazônia. Não valorizamos a fauna e a flora, a violência continua a crescer, os direitos dos moradores das favelas não são respeitados e, de fato, a corrupção não deixou de existir em nosso país. Enquanto isso, o salário dos nossos governantes só aumentam, nunca atrasam e não há cortes em seus privilégios e auxílios. Não é de hoje que estamos pagando impostos caríssimos e a conta de tudo isso. Será que, em consequência de prestarmos mais atenção em todos esses quesitos e valorizarmos o “bem estar alheio”, ou seja, “da população” de um maneira geral, a nossa economia não melhoraria de maneira saudável ou, pelo menos, um pouco mais igualitária a todos? Tá aí para todo mundo ver... as críticas desenfreadas, o julgamento, a falta de respeito, o preconceito de grande parte da classe privilegiada, a reprodução disso por parte da população que, sem informação, reproduz o discurso e as atitudes do opressor, a falta de responsabilidade social, de projetos sociais, de empatia e ação de melhora quando o problema não te afeta, mas afeta a maioria. O problema é: estamos todos brigando e fazendo inimizades por causa da política, mas quando o assunto são os direitos e os deveres dos nossos governantes, muito se discute, muito se fala, pouco se ouve e nada se faz. 



RESENHANDO - Quais os maiores desafios que um negro enfrenta hoje na dramaturgia?
AR - O maior desafio para mulheres e homens negros de uma maneira geral (não só como ator e atriz) é vencer a falta de recursos e oportunidades. Ter que se preparar para uma sociedade injusta e meritocrática, em um mercado que é competitivo, que exige qualidade e preparo. Mesmo que em algum momento a oportunidade, como num passe de mágica, apareça, como vou ser competente e me firmar com segurança em qualquer mercado de trabalho quando não tive a vida inteira as ferramentas e os recursos necessários? Como vou buscar e fazer as oportunidades acontecerem sem conhecimento para isso? Essas são perguntas que sempre fazemos a nós mesmos. Dependemos apenas da nossa resiliência, do nosso próprio esforço, da nossa força de vontade para mudarmos a nossa realidade. Isso tudo infelizmente ainda é um reflexo do atraso e da divisão que a escravidão gerou no mundo e, principalmente, no nosso país. E isso explica o porquê de não termos nascido no berço do privilégio. Conhecimento é poder e poder gera oportunidades, no caso do povo preto, além de sermos obrigados a ter paciência com quem diz que tudo isso é "mi-mi-mi" e ter que ficar explicando, ensinando a nossa sociedade como não ser racista, e ainda temos que encarar o fato do negro no século XXI ainda não fazer parte das esferas de poder de decisão na nossa sociedade. Se estamos conquistando isso de alguma maneira -e hoje em dia há uma ascensão do homem e da mulher preta na mídia- não é porque nos deram isso de presente. Mas, sim, porque somos a maioria, porque somos os maiores consumidores do mercado, porque  damos muito lucro, porque já estava ficando feio ter uns dois ou três apenas representando a maioria na tela. Isso não pega bem diante da opinião pública. É porque estamos nos unindo cada vez mais e valorizamos a nossa beleza, a nossa cultura afrodescendente. Ainda falta muito mais, sempre dá pra melhorar e estamos aqui para fazer a diferença. Já foi o tempo que o povo preto dependia apenas de ser artista ou jogador de futebol pra ganhar seu lugar de direito na sociedade. 



RESENHANDO - O estereótipo colocado nos negros na dramaturgia ainda é um problema, ou estamos evoluindo?
AR - Estamos evoluindo, mas é óbvio e evidente que ainda existe e ainda é um grande problema. O que explica isso é que vivemos numa sociedade assim: mesmo eu sendo conhecido, se eu chegar em um restaurante no Leblon pra jantar, eu ainda posso ser confundido com o funcionário do restaurante e não com o gerente ou até mesmo o dono. Em muitos dos casos, não nos dão nem um bom dia e saem te pedindo informações como se, pelo fato de estarem pagando sua estada no estabelecimento, você fosse obrigado a servi-los da maneira que bem entendem, sem o mínimo de educação por parte dessas pessoas. Quando sento à mesa, não vejo quase ninguém do mesmo perfil que eu consumindo nesse restaurante, mas se olho para a cozinha ou para quem está servindo as mesas, vejo a maioria entre eles parecida comigo. Se a maioria esmagadora dos negros e negras ainda vivem nas periferias e favelas e não frequentam os lugares considerados de alta classe ou até mesmo as faculdades, isso significa que ainda existe apartheid. Quanto a ascensão dos negros e negras no meio artístico, o que explica é o talento individual, o autodidatismo, e a força de vontade. Mas ainda falta muito para chegarmos a um lugar de igualdade. 



RESENHANDO - Fazer um professor de História nesta temporada de "Malhação" representa um avanço na teledramaturgia?
AR - Interpretar  um professor de história negro no Brasil significa um novo olhar, uma nova perspectiva e uma realidade que existe, mas que as pessoas ainda não estão habituadas  a presenciar. É necessário explorar e compreender muito mais sobre a inserção e o protagonismo negro de varias formas na nossa sociedade. Não existe um só padrão de beleza e tão pouco um só padrão de perfil para esse tipo de personagem. Faço votos que tenhamos cada vez mais artistas e cidadãos negros ocupando seu lugar e exercendo seus protagonismos. Já passou da hora de quebrarmos o tabu e o pensamento atrasado de que o negro só serve pra escravo ou subalterno. No mais, estou feliz em estar interpretando o professor Celso em "Malhação". Essa profissão tão linda e necessária para o crescimento de qualquer nação. Gratidão a Adriano Mello, a toda equipe de "Malhação" e a Rede Globo pela oportunidade! 


André Ramiro - "Nicotina"

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