sábado, 6 de junho de 2020

.: Música atemporal: Sam Cooke e a luta contra o preconceito


Por Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico musical.

As recentes manifestações realizadas nos Estados Unidos e em países da Europa parecem trazer de novo o espírito do movimento pelos direitos civis ocorrido nos anos 60 na América do Norte. E analisando a produção musical dos anos 60, parece incrível constatar que muitas das canções feitas naquela ocasião permanecem atuais ainda hoje.

Uma dessas canções mais emblemáticas é "A Change Is Gonna Come", do cantor e compositor de soul Sam Cooke, cuja  família já havia sentido os efeitos do preconceito racial nos anos 40. Seus pais se mudaram do Sul dos Estados Unidos para Chicago, em busca de uma via mais próspera e sem tantas barreiras raciais para serem superadas.

Cooke começou cantando em coro de igrejas motivado pelo pai, que era pastor protestante. Integrou o grupo vocal Soul Stirrers ainda nos anos 50. E a partir de 1957 desenvolveu uma carreira solo que terminou de forma trágica e repentina em dezembro de 1964, assassinado a tiros em condições obscuras e pouco esclarecidas.

"A Change Is Gonna Come" foi gravada em janeiro de 1964. Praticamente dois meses após o assassinato do presidente John F. Kennedy . Mas a gravação só foi lançada em 1965, após a morte de Sam Cooke.

Uma referência importante nessa composição de Cooke foi Bob Dylan, que na época começava a despontar como poeta da contracultura e da chamada geração beat no rock. As letras profundas de Dylan serviram como fonte de inspiração para Cooke abordar a questão da luta contra o preconceito.

Como artista, Cooke  também teve uma contribuição significativa nesse processo ao não aceitar cantar para públicos segregados, separados pela cor da pele. Ele foi pioneiro a fundar sua própria gravadora (SAR Records) e lançar vários artistas de música soul, como Mel Carter e Johnnie Taylor.

A interpretação de Cooke em "A Change Is Gonna Come" é tão intensa que até hoje é considerada definitiva, ainda que algumas releituras interessantes tenham sido feitas por outros grandes nomes, como Aretha Franklin e Al Green, só para citar dois exemplos. Ninguém jamais conseguiu chegar perto do feeling que Cooke demonstrou nessa gravação, cujo arranjo instrumental também é considerado antológico.

Infelizmente em dezembro de 1964 Cooke foi morto a tiros por uma gerente de um motel de Los Angeles. As condições do crime nunca foram esclarecidas de fato pelas autoridades. Coincidência ou não, no ano seguinte o ativista negro Malcom X foi assassinado em fevereiro de 1965 em Nova Iorque. E o reverendo Martin Luther King, outro ativista negro importante na época, teve o mesmo destino em abril de 1968. A sucessão desses acontecimentos resultaram em violentas manifestações em várias cidades dos Estados Unidos.

O mais importante hoje é constatar dois fatos fundamentais: se por um lado a mensagem da canção continua atual, a sua essência, que passa pelo reconhecimento do irmão de cor negra como um ser humano sem quaisquer tipos de preconceitos ou diferenças, também permanece intacta. A luta de Sam Cooke continuará viva em qualquer lugar onde houver  o preconceito racial.




Sam Cooke - A Change Is Gonna Come (Official Lyric Video)


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