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quarta-feira, 19 de agosto de 2026

.: Crítica: "O Convite" faz convocação claustrofóbica para reavaliar a relação


Cartaz de "O Convite"

Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em agosto de 2026


Baseada no filme e peça "Sentimental", do cineasta Cesc Gay, a comédia dramática "O Convite" é uma intrincada armadilha emocional que percorre desentendimentos surpreendentes para permitir que casal reavalie a relação. Ambientado num apartamento bem espaçoso (até que as conversas começam a afunilar os debates), a produção dirigida por Olivia Wilde, apresenta um casal em crise que recebe os vizinhos do andar de cima, o que torna o jantar caótico e totalmente hilário.

De um lado, em meio ao desgaste afetivo e o tédio conjugal, estão os donos do apartamento, Joe (Seth Rogen) e Angela (Olivia Wilde), que "aguardam" a chegada dos visitantes. Numa implicância silenciosa, os dois recebem o casal ardente Pinã (Penélope Cruz) e Hawk (Edward Norton). De fato, Joe fica incomodado com os sons das festas sexuais dos vizinhos e, acaba sendo levado a verbalizar tamanho desagrado.

Em meio a cutucadas provocativas e bastantes claustrofóbicas que vão além das paredes daquele apartamento como cenário, surgem diálogos inteligentes regando o desconforto do casal com a curiosidade e vontade de sair do marasmo que mergulharam. Assim, o público embarca, mesmo que com receio, na tensão e humor bem balanceados de um relacionamento longo.

O filme que transita na contramão do moralismo, tem um roteiro reflexivo e maduro para uma trama conflitante e tão humana a ponto de permitir que o público, por vezes, consiga se identificar com determinados episódios de uma vida a dois. Sem forçar um desfecho, "O Convite" tem seus minutos finais em silêncio, deixando livre a interpretação do público, se ocorreu uma reconciliação ou apenas o término pacífico do casamento. Vale muito a pena conferir!


"O Convite" (The Invite). Gênero: Comédia, drama, romance. Direção: Olivia Wilde. Roteiro: Rashida Jones, Will McCormack e Cesc Gay. Duração: 1h 47 minutos. Classificação Indicativa: 16 anos. Distribuição: Diamond Filmes. Elenco:  Seth Rogen (Joe), Olivia Wilde (Angela), Penélope Cruz (Piña) e Edward Norton (Hawk). Sinopse: Joe e Angela formam um casal preso na rotina e com o relacionamento à beira de um colapso. A dinâmica muda quando eles decidem convidar os enigmáticos vizinhos do andar de cima, Hawk e Piña, para um jantar casual. O que seria uma noite tranquila transforma-se em um encontro repleto de revelações, constrangimentos e discussões sobre intimidade e desejos reprimidos.

Trailer de "O Convite" 





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terça-feira, 18 de agosto de 2026

.: Crônica: um simples adeus para Laura Cardoso e Glória Menezes

Por: Mary Ellen Farias dos Santos

Em agosto de 2026


E num dia 18 de agosto de 2026, amargo por se lamentar a partida da talentosa Laura Cardoso que entregou tanto aos longo de seus 98 anos, morre a atriz Glória Menezes aos 91. Algo que faz lembrar a morte de seu marido, Tarcísio Meira, que faleceu no dia seguinte da morte de Paulo José, também em agosto, mas no dia 12, em 2021.

Com menos de 24 horas de diferença, assim se foram dois grandes nomes do teatro e da televisão brasileira. Agora da ala feminina, tiradas de cena por conta da passagem implacável do tempo. Aos admiradores fica o prazer de sempre poder revisitar personagens inesquecíveis que marcaram e marcarão gerações. 

Uma com um legado de vilãs que botava meda até no Diabo, como por exemplo, a mãe de Ruth e Raquel, a má Dona Isaura de "Mulheres de Areia", a austera Dona Guiomar, de "A Viagem", a beata moralista Doroteia de "Gabriela" ou a rígida matriarca de "Caminho das Índias", Laksmi Ananda. Enquanto que em meio a tantos personagens também icônicos, Glória Menezes se destaca com a vilania inesquecível de Laurinha Figueiroa de "Rainha da Sucata".

Enquanto que com Laura Cardoso eu tive a chance de saber que estive por perto, mas não a vi perfeitamente. Afinal, era a saída de uma peça de teatro, os atores num alvoroço carinhoso e muita gente em torno daquela velhinha. Só descobri com maridão que era ela bem quando perguntamos o que estava causando tamanho fervor que tinha se distanciado bastante. E, claro, Glória Menezes eu ainda tinha esperança de ao menos vê-la numa plateia de teatro. Ainda mais que já tinha visto Tarcísio Meira em "O Camareiro".

Aos admiradores de tamanho talento na atuação, de cada um dos quatro nomes citados, fica a sensação de vazio e perda, mas também a alegria de saber que tivemos o prazer de testemunhar a atuação destes monstros da interpretação (mesmo que pela telinha da televisão ou da telona do cinema). 

.: Com Marlon Brando, "Sua Excelência, o Embaixador" expõe erros da diplomacia


Drama político de George Englund, lançado em 1963, chega ao Belas Artes à La Carte e recupera uma história sobre poder, nacionalismo e arrogância diplomática

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

O ator Marlon Brando assume o papel de um diplomata americano em "Sua Excelência, o Embaixador", filme de 1963 que chega ao streaming Belas Artes À La Carte e soa absolutamente atual diante das circunstâncias em que o Brasil vem enfrentando diante dos Estados Unidos. Dirigido por George Englund, o filme coloca o astro no centro de uma trama política ambientada em Sarkhan, país fictício do Sudeste Asiático marcado por conflitos internos, disputa ideológica e crescente tensão com os Estados Unidos. 

O roteiro é de Stewart Stern e adapta o romance homônimo publicado em 1958 por William J. Lederer e Eugene Burdick. O livro tornou-se um fenômeno editorial nos Estados Unidos e entrou no debate político da Guerra Fria ao questionar a atuação diplomática americana no sudeste asiático. O impacto da obra literária foi tão grande que John F. Kennedy demonstrou interesse pelo livro e chegou a enviar exemplares a senadores americanos, segundo registros históricos. A criação do Corpo da Paz durante seu governo também costuma ser relacionada ao ambiente político provocado pelo sucesso da publicação.

No elenco, Brando interpreta Harrison MacWhite, enquanto Eiji Okada vive Deong, líder oposicionista local, que já havia alcançado reconhecimento internacional por "Hiroshima, Meu Amor", de Alain Resnais, lançado em 1959. Também fazem parte do filme os atores Sandra Church, Pat Hingle, Arthur Hill, Jocelyn Brando, Reiko Sato e Kukrit Pramoj completam o elenco principal. A história gira em torno de Harrison Carter MacWhite, um intelectual experiente que sobrevive a uma tumultuada sabatina no Senado americano antes de ser nomeado embaixador. Ao chegar a Sarkhan, encontra uma realidade bem diferente daquela imaginada em Washington.

A população local reage à presença americana, enquanto o país enfrenta uma guerra civil iminente. Para MacWhite, porém, o cenário parece se resumir ao confronto entre Estados Unidos e comunismo. A dificuldade do personagem está em compreender que o sentimento contrário aos americanos também pode representar uma luta por autonomia e identidade nacional. A partir daí, suas decisões provocam consequências cada vez mais graves e colocam em xeque a maneira como Washington enxerga seus aliados e adversários.

A adaptação cinematográfica surgiu de uma experiência do próprio diretor do filme no sudeste asiático. Segundo o catálogo do American Film Institute, Englund e Brando viajaram juntos pela região em um programa de assistência técnica das Nações Unidas. A experiência despertou no diretor o interesse em realizar uma produção sobre a área e acabou levando-o ao romance de Lederer e Burdick. Outro detalhe curioso está em Kukrit Pramoj. Político e intelectual tailandês, ele participou da produção como consultor cultural e interpreta o primeiro-ministro de Sarkhan. Anos depois, em 1975, Pramoj se tornaria primeiro-ministro da Tailândia. O filme ainda teve cenas realizadas em Bangkok, inclusive na Universidade Chulalongkorn.

Sarkhan, a nação inventada pela história, funciona como uma composição de diferentes realidades do sudeste asiático. A escolha permitiu que os autores discutissem a política externa americana sem transformar a trama em um retrato direto de um único país. O próprio filme acompanha o choque entre projetos de desenvolvimento, interesses geopolíticos e as demandas da população local. Na época do lançamento, a recepção foi dividida. O jornal The New York Times reconheceu a força da atuação de Brando e apontou a complexidade do diplomata interpretado pelo ator, embora tenha criticado o rumo que o roteiro toma depois de um início promissor. O filme também teve desempenho modesto nas bilheterias e não recebeu indicação ao Oscar.

No Brasil, o filme foi originalmente lançado como "Quando Irmãos se Defrontam", título registrado em documentos cinematográficos brasileiros da época.  Não deixa de ser um capítulo curioso da filmografia de Brando: um filme político no qual o ator deixa de lado personagens explosivos para interpretar um homem convencido de que conhece a realidade de um país estrangeiro até descobrir que está errado. Com duas horas de duração, "Sua Excelência, o Embaixador" preserva o interesse de uma produção que olha para a política externa americana em plena Guerra Fria e mostra que o modus operandi norte-americano continua o mesmo. 

Ficha técnica
"Sua Excelência, o Embaixador" | "The Ugly American" (título original)
Gênero: drama, thriller político e aventura. Duração: 120 minutos. Classificação indicativa: 14 anos no lançamento brasileiro de 1963. Ano de produção: 1963. Data de lançamento: 2 de abril de 1963 nos Estados Unidos. Idioma: inglês. Direção: George Englund. Roteiro: Stewart Stern, baseado no romance de William J. Lederer e Eugene Burdick. Elenco: Marlon Brando, Eiji Okada, Sandra Church, Pat Hingle, Arthur Hill, Jocelyn Brando, Kukrit Pramoj, Judson Pratt, Reiko Sato, George Shibata, Judson Laire, Philip Ober, Yee Tak Yip, Carl Benton Reid, Simon Scott e Frances Helm. Distribuição no Brasil: Universal. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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segunda-feira, 17 de agosto de 2026

.: "Perigo Diabolik" esquece a moralidade clássica e abraça a psicodelia


O mestre das HQs italianas ganha vida na obra-prima psicodélica de Mario Bava, com trilha inesquecível de Ennio Morricone e o charme imortal do crime em Technicolor. Foto: divulgação

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Se o cinema dos anos 1960 teve uma cara e uma atitude, ela passa inevitavelmente pelas lentes psicodélicas de Mario Bava em "Perigo: Diabolik". O longa, que acaba de desembarcar no catálogo da plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, é o tipo de produção que não apenas envelheceu como um bom vinho, mas ganhou um contorno quase mítico com o passar das décadas. Trata-se da adaptação definitiva dos fumetti neri, os quadrinhos adultos que abalaram as estruturas da Itália conservadora na década de 1960, idealizados pelas irmãs Angela e Luciana Giussani.

Na trama, Diabolik (John Phillip Law) é um mestre dos disfarces e assaltante sem vestígios de escrúpulos morais que, ao lado da sua estonteante companheira Eva Kant (Marisa Mell), transforma o crime em um verdadeiro espetáculo estético. O roteiro, assinado por uma equipe de peso que inclui o próprio Bava, Dino Maiuri, Brian Degas e Tudor Gates, gira em torno das tentativas cada vez mais desesperadas do inspetor Ginko (Michel Piccoli) em encurralar a dupla. Mas o anti-herói está sempre três passos à frente, seja zombando de ministros com gás do riso ou arquitetando o roubo de uma barra de ouro de vinte toneladas.

A história dos bastidores é um show à parte. O lendário produtor Dino De Laurentiis entregou o projeto a Bava após demitir a equipe anterior. Consta que De Laurentiis colocou à disposição um orçamento pomposo para os padrões italianos, mas Bava, mestre absoluto do improviso e dos efeitos práticos, usou apenas uma fração do dinheiro. O cineasta fez milagres com truques de lente, pedaços de vidro pintados e cenários fotográficos, criando uma caverna futurista e aparatos tecnológicos que parecem custar milhões. John Phillip Law assumiu o papel principal meio por acaso, aproveitando as brechas na agenda de "Barbarella" - outra grande produção de De Laurentiis -, enquanto Marisa Mell entrou no set para substituir ninguém menos que Catherine Deneuve, dispensada após se recusar a rodar cenas de nudez e não se alinhar com a visão do diretor.

A cereja do bolo é a trilha sonora do mestre Ennio Morricone. O compositor entregou uma das suas criações mais inspiradas, uma mistura alucinante de jazz, rock psicodélico, órgãos orgiásticos e guitarras com efeito wah-wah que ditam a energia cinética do filme. Curiosamente, o longa-metragem dividiu a crítica em sua estreia em 1968 e teve uma bilheteria modesta na Itália, o que fez Bava recusar veementemente a ideia de uma sequência. O tempo, contudo, fez justiça. O visual arrebatador influenciou de Roman Coppola a videoclipes dos Beastie Boys, tornando a fita uma referência obrigatória do cinema pop. "Perigo: Diabolik" é puro entretenimento visceral, um banquete visual debochado que captura como poucos o espírito rebelde de uma época.


Ficha técnica
"Perigo: Diabolik" | "Diabolik" (título original)
Gênero: ação / crime / policial. Duração: 105 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1968. Data de lançamento: 24 de janeiro de 1968. Idioma: italiano / francês. Direção: Mario Bava. Roteiro: Dino Maiuri, Brian Degas, Tudor Gates e Mario Bava (baseado em história de Angela Giussani, Luciana Giussani, Dino Maiuri e Adriano Baracco). Elenco: John Phillip Law, Marisa Mell, Michel Piccoli, Adolfo Celi, Claudio Gora, Mario Donen, Renzo Palmer, Caterina Boratto, Lucia Modugno, Annie Gorassini, Carlo Croccolo, Lidia Biondi, Andrea Bosic, Federico Boido, Tiberio Mitri, Terry-Thomas. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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.: Curta “Encanto Quebrado” lança feitiço amoroso e transforma vizinho idiota


Curta de Luan Filippo combina horror e humor ao acompanhar uma bruxa que se arrepende do próprio feitiço quando descobre quem é o homem por quem se apaixonou. Foto: divulgação

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

O amor pode até ser mágico, mas conviver com a pessoa errada pode transformar qualquer encantamento em uma grande roubada. É justamente dessa situação que parte “Encanto Quebrado”, curta-metragem escrito e dirigido por Luan Filippo, que segue em cartaz na plataforma de streaming Reserva Imovision como parte da coleção “Pequenas Jornadas - Curtas-Metragens”. A produção reúne Victória Brusco, Felipe de Carolis e Gilda Nomacce em uma história que mistura horror, fantasia e humor para brincar com uma velha obsessão romântica: encontrar alguém especial e descobrir, tarde demais, que talvez fosse melhor ter ficado sozinho.

Na trama, uma bruxa do século XXI decide lançar um feitiço de amor para o vizinho. O problema aparece quando o encantamento funciona e ela percebe que o sujeito por quem se apaixonou é, simplesmente, um idiota. Arrependida, tenta desfazer a magia, mas existe uma complicação nada conveniente: o feitiço é irreversível. A premissa dá ao curta uma leitura divertida sobre desejo, paixão e escolhas ruins, colocando uma personagem acostumada ao sobrenatural diante de uma situação bastante humana. A graça está justamente no desespero de alguém que conhece magia suficiente para criar o próprio problema, mas não encontra uma saída para consertá-lo.

“Encanto Quebrado” tem uma trajetória ligada ao cinema fantástico. O filme integrou a programação do 16º Cinefantasy – Festival Internacional de Cinema Fantástico, na Mostra Brasil Fantástico, ao lado de produções nacionais que exploram horror, fantasia, ficção científica e outras vertentes do gênero. O catálogo do festival registra a obra com 16 minutos e 45 segundos de duração e classifica a produção como ficção e horror.

A produção também aparece internacionalmente com o título original “Bitchcraft”, trocadilho que combina a ideia de bruxaria com uma expressão de forte carga irônica. O curta foi identificado em materiais do Cinefantasy com esse título, enquanto a produção brasileira mantém “Encanto Quebrado” como título nacional.

A relação do filme com a Imovision também é curiosa. Segundo Victória Brusco, que protagoniza a produção, “Encanto Quebrado” foi a primeira produção oficial da distribuidora e teve sua estreia no Festival de Cinema Internacional Fantaspoa, em 2024. A atriz também passou a apresentar conteúdos da Imovision relacionados aos filmes distribuídos pela empresa. O curta-metragem foi produzido pela Chá Cinematográfico e tem Luan Filippo na direção e no roteiro. A ficha técnica divulgada pelo Cinefantasy confirma ainda Victória Brusco, Felipe de Carolis e Gilda Nomacce no elenco. Uma opção rápida para quem gosta de histórias fantásticas com humor ácido e personagens que descobrem, da pior maneira possível, que mexer com magia pode trazer consequências bem inconvenientes.


Ficha técnica
“Encanto Quebrado” (título original)
Gênero: ficção/horror. Duração: 16min45s. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 2024. Data de lançamento: 11 de abril de 2024, no Brasil. Idioma: português. Direção: Luan Filippo. Roteiro: Luan Filippo. Elenco: Victória Brusco, Felipe de Carolis e Gilda Nomacce. Distribuição no Brasil: Imovision. Cenas pós-créditos: não informadas. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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domingo, 16 de agosto de 2026

.: " João, Joãozinho, Joãozito" transforma infância de Guimarães Rosa em musical


"João, Joãozinho, Joãozito" estreia em 29 de agosto e revisita os primeiros anos de Guimarães Rosa em uma montagem que mistura literatura, música, bonecos e cultura popular brasileira. Foto: Alê Catan

A criança curiosa que descobria o mundo entre livros, animais, histórias e brincadeiras ganhou um novo lugar na cena paulistana. "João, Joãozinho, Joãozito", musical inédito inspirado no livro "João Joãozinho, Joãozito - O Menino Encantado", de Claudio Fragata, estreia em 29 de agosto no Teatro do Sesi-SP, no Centro Cultural Fiesp. Com direção artística, texto e adaptação de Marcio Araújo, a montagem acompanha os primeiros anos de João Guimarães Rosa (1908-1967), antes de o menino de Cordisburgo se tornar um dos nomes fundamentais da literatura brasileira.

A temporada segue até 13 de dezembro de 2026, com sessões às quintas e sextas, às 11h00, e aos sábados e domingos, às 15h. Aos fins de semana, todas as apresentações contam com interpretação em Libras e audiodescrição. A produção foi idealizada por Daniel Palmeira e nasceu de sete anos de pesquisa dedicados a construir uma linguagem capaz de aproximar o universo de Guimarães Rosa do público infantil. 

A história parte da infância do escritor em Minas Gerais e acompanha sua trajetória desde o nascimento até a mudança para Belo Horizonte. Livros, bichos, natureza, línguas, brincadeiras e as histórias que circulavam em sua cidade natal formam o território de descobertas do pequeno João. A montagem transforma essas experiências em uma aventura musical sobre curiosidade, imaginação e conhecimento.

A relação entre o menino e o futuro escritor também aparece na dramaturgia por meio de referências ao universo literário de Rosa. Elementos associados a "Grande Sertão: Veredas" e um amigo imaginário inspirado em Miguilim entram na narrativa como pistas para quem já conhece a obra do autor e como primeiras portas de entrada para crianças que ainda vão descobrir sua literatura.

Um dos aspectos mais interessantes da encenação está na maneira como João é construído em cena. Os nove integrantes do elenco se alternam na interpretação do protagonista, fazendo com que a figura do menino passe de um corpo a outro. A escolha amplia a ideia de que a infância pertence a todos e transforma o próprio personagem em uma construção coletiva.

“Queremos que toda criança se veja no palco, que possa imaginar que também pode ser cientista, médica, escritora, viajar pelo mundo ou aprender outras línguas. Independentemente de onde venha, ela precisa acreditar que seu futuro também lhe pertence”, afirma Marcio Araújo. A gravata-borboleta, elemento associado à imagem pública de Guimarães Rosa, também ganha função cênica. Ao circular entre os artistas como laço, presilha ou gravata, o objeto funciona como elo entre as diferentes interpretações de João e reforça a ideia de identidade compartilhada. Compre o livro "João Joãozinho, Joãozito - O Menino Encantado", de Claudio Fragata, neste link.

Música que vem da cultura popular
A trilha sonora original, assinada por Tato Fischer e Marcio Araújo, reúne nove canções e mergulha em manifestações tradicionais brasileiras. Folia de Reis, cururu, catira, cantos populares, viola caipira e sanfona ajudam a criar o ambiente sonoro da montagem. A direção musical e os arranjos são de Dagoberto Feliz. A música acompanha a trajetória do personagem e estabelece uma ponte entre as experiências da infância e as tradições culturais que atravessam o interior brasileiro.

No aspecto visual, a montagem aposta em bonecos artesanais, brinquedos antigos e objetos associados à infância do interior do país, especialmente de Minas Gerais. O cenário criado por Bruno Anselmo é formado por estruturas que mudam de função ao longo da apresentação, deixando espaço para que a imaginação do público complete as imagens.

Os figurinos de Clau Carmo seguem a mesma lógica e buscam referências em colchas de retalhos e brinquedos artesanais, criando uma atmosfera de memória e afetividade. Ao todo, são 19 bonecos criados por Jésus Sêda, conhecido também pelo trabalho em "Castelo Rá-Tim-Bum". Em cena, os nove artistas acumulam funções: atuam, cantam, tocam instrumentos, dançam e manipulam bonecos. Integram o elenco Beatriz Amado, Conrado Caputo, Daniel Aureliano, Elix, João Paulo Bienermann, Neusa de Souza, Rita Almeida, Thiago Claro França e Thiago Mota.

Para Tais Lara, diretora do Centro Cultural Fiesp, a montagem aproxima crianças e famílias da trajetória de Guimarães Rosa ao mesmo tempo em que amplia o contato do público com a literatura brasileira. A proposta está alinhada ao compromisso do Sesi-SP com a oferta gratuita de programação cultural e com a formação de novos públicos.

Uma infância antes do escritor
"João, Joãozinho, Joãozito"
olha para Guimarães Rosa antes do reconhecimento, dos livros consagrados e da carreira diplomática. É o menino que observa, pergunta, coleciona descobertas e encontra nos livros uma forma de ampliar o mundo ao redor. A montagem utiliza essa perspectiva para apresentar a infância como um período decisivo na formação do artista. A curiosidade do personagem, sua relação com a natureza e o contato com diferentes linguagens aparecem como elementos que ajudam a compreender o escritor que surgiria anos depois.

A proposta também encontra na cultura popular uma maneira de aproximar o universo roseano das crianças. Em vez de apresentar Guimarães Rosa como uma figura distante da literatura, o espetáculo recupera o menino que existiu antes do autor de Grande Sertão: Veredas e transforma suas primeiras experiências em matéria de teatro.


Ficha técnica
Peça teatral "João, Joãozinho, Joãozito", a partir do livro de Claudio Fragata

Texto e adaptação: Marcio Araújo
Direção artística: Marcio Araújo
Músicas compostas: Tato Fischer/Marcio Araújo
Direção musical/arranjos: Dagoberto Feliz
Assistente de direção: Adriana Salcedo
Elenco/músicos: Rita Almeida, João Paulo Bienermann, Daniel Aureliano, Neusa de Souza, Elix, Conrado Caputo, Beatriz Amado, Thiago Claro França e Thiago Mota
Paisagista sonoro: Marcelino Ziggy
Desenho de som: Labsom – Kleber Marques, Juma e Marcelino Ziggy
Microfonista: Juma (Juliana Maria)
Técnico de som: Kleber Marques
Iluminador/desenho de luz: Guilherme Bonfanti
Operador de luz: Felipe Bonfante
Cenografia: Bruno Anselmo
Cenotécnico: Reserva Cênica
Design: Leandro Madeiros
Figurino: Clau Carmo
Costureira/modelista: Salomé Abdala
Aderecista: Nilton Araújo
Bonequeiro: Jésus Sêda
Visagista: Jonathan Faria
Projeto gráfico: André Kitagawa
Fotógrafo: Ale Catan
Assistente de fotografia: Rafael Sá
Vídeos: Sucata Filmes – Vinícius Faé
Preparação corporal: João Paulo Bienermann
Preparação de manipulação de bonecos: Eduardo Alve
Direção de palco: Marco Loureiro
Maquinista: Atila Quirino (Chin)
Contrarregra: Arthur Gerizani
Camareira: Cris Quirino
Assessoria de imprensa: Canal Aberto Comunicação
Mídias sociais: Tatiana Machado
Intérprete de Libras: Fabiano Campos
Áudio-descrição: Ver com Palavras
Produção executiva: William Gibson
Direção de produção: Daniel Palmeira
Coordenação financeira: Cleo Chaves
Assessoria contábil: DW Gonzalez Contábil
Assessoria jurídica: Marcelo Mayer
Coordenação geral/produção: Penta Querobin Produções


Serviço
Peça teatral "João, Joãozinho, Joãozito"
Temporada: 29 de agosto a 13 de dezembro de 2026
Sessões: quintas e sextas, às 11h; sábados e domingos, às 15h
Atenção: Libras e audiodescrição em todos os sábados e domingos da temporada
Local: Centro Cultural Fiesp - Teatro Sesi-SP | Av. Paulista, 1.313, em frente à estação Trianon-Masp do Metrô
Ingressos: gratuitos, com reservas pelo site www.sesisp.org.br/eventos
Classificação indicativa: livre, indicado para todas as idades

.: "O Fim da Rua" conquista quase 90% de aprovação no Rotten Tomatoes


Com Anne Hathaway e Ewan McGregor no elenco, produção mistura aventura, suspense e criaturas pré-históricas. Foto: divulgação

Com Anne Hathaway e Ewan McGregor nos papéis principais, "O Fim da Rua" está em cartaz nos cinemas brasileiros cercado por uma recepção bastante positiva da crítica internacional. O novo longa-metragem de ação conquistou quase 90% de aprovação no Rotten Tomatoes, considerando 91 avaliações registradas até o momento. A produção também vem chamando atenção pelas referências ao cinema de aventura produzido pela Amblin Entertainment, especialmente à tradição iniciada por filmes como "Jurassic Park". Críticos destacam que, embora dialogue diretamente com esse universo de aventuras e criaturas pré-históricas, o longa encontra caminhos próprios para desenvolver sua narrativa.

Para Jake Kleinman, do Polygon, o filme recupera o espírito das aventuras clássicas da Amblin, daquelas produções capazes de prender o espectador diante da televisão até os créditos finais. Alexander Zalben, do Comic Book Club, também ressaltou o equilíbrio entre humor, suspense e reviravoltas, classificando a obra como uma sucessora à altura da franquia Jurassic. David Ehrlich, do IndieWire, aproximou a atmosfera de "O Fim da Rua" de títulos marcantes dos anos 1980, como "Gremlins" e "Os Goonies". Para o crítico, a produção combina aventura e humor ácido ao recuperar uma espécie de ameaça familiar característica daquele período do cinema.

A ambientação também foi destacada por Gemma Wilson, do Seattle Times. Segundo a crítica, levar criaturas pré-históricas para um bairro residencial cria um contraste especialmente perturbador, transformando espaços cotidianos e familiares em cenários de perigo. Alison Willmore, da Vulture, chamou atenção para a escolha de investir em uma superprodução original e brincou com a presença de Hathaway em sequências de ação, incluindo momentos em que a atriz enfrenta dinossauros armada com um rifle.

Produzido pela Warner em parceria com Bad Robot, Good Fear Content, Jackson Pictures e Tommy Harper Productions, O Fim da Rua acompanha uma família que vive nos anos 1980 e tem sua rotina completamente transformada após um fenômeno cósmico transportar o bairro onde mora para um local desconhecido. Isolados e diante de uma realidade que foge completamente de seu controle, os integrantes da família Platt percebem que a sobrevivência dependerá da capacidade de permanecerem unidos enquanto tentam compreender o que aconteceu.

Além de Anne Hathaway e Ewan McGregor, o elenco reúne Maisy Stella, Christian Convery, Chris Coy, P. J. Byrne, Bethany Anne Lind, Denitra Isler e Hudson Meek. Com direção e roteiro de David Robert Mitchell, de Corrente do Mal, O Fim da Rua está em cartaz nos cinemas brasileiros.

.: “Detetive” coloca Godard diante do crime, do dinheiro e do próprio cinema


Filme de Jean-Luc Godard transforma investigação policial em um jogo de pistas, referências e personagens presos a dívidas. Foto: divulgação

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

O crime está em um hotel parisiense, mas Jean-Luc Godard parece muito mais interessado em investigar o próprio cinema. “Detetive de Godard” (“Détective”), produção francesa de 1985, chega ao catálogo da plataforma de streaming Belas Artes À La Carte recuperando uma das obras mais particulares da fase dos anos 1980 do cineasta franco-suíço. No centro da trama estão um assassinato ocorrido dois anos antes, uma dívida milionária, uma luta de boxe, um casamento em crise e uma pequena multidão de personagens que circula pelo mesmo hotel como se todos escondessem alguma coisa.

Laurent Terzieff interpreta William Prospero, antigo detetive do hotel que retorna ao local determinado a esclarecer o assassinato de um hóspede conhecido como Príncipe. Jean-Pierre Léaud vive seu sobrinho, o inspetor Neveu, enquanto Aurelle Doazan interpreta Arielle. Do outro lado dessa intricada rede estão Françoise Chenal, personagem de Nathalie Baye, e seu marido Émile, vivido por Claude Brasseur. O casal enfrenta dificuldades financeiras e pressiona Jim Fox Warner, empresário de boxe interpretado pelo cantor e ator Johnny Hallyday. Para complicar ainda mais a situação, Jim também deve dinheiro à máfia. Alain Cuny aparece como o velho mafioso, enquanto Emmanuelle Seigner e Julie Delpy completam o elenco principal.

A investigação, portanto, rapidamente deixa de ser uma questão policial convencional. Godard espalha as pistas pelo cenário, pelas falas, pelos objetos e pela montagem. O hotel torna-se um tabuleiro em que detetives, boxeadores, amantes, mafiosos e devedores circulam em diferentes combinações. O espectador precisa montar as peças enquanto o diretor embaralha deliberadamente as expectativas de quem espera uma narrativa policial tradicional.

O roteiro é assinado por Alain Sarde e Philippe Setbon, com participação de Jean-Luc Godard nos diálogos e na adaptação ao lado de Anne-Marie Miéville, segundo a Cinemateca Portuguesa. A própria ficha do Festival de Cannes credita Sarde e Setbon pelo roteiro. A escolha do gênero policial tinha uma razão bastante concreta. “Detetive” nasceu de uma encomenda do produtor Alain Sarde, interessado em aproximar Godard de um projeto com potencial comercial. A estratégia reunia atores conhecidos do público francês, como Baye, Brasseur, Hallyday, Terzieff e Cuny, e colocava o diretor diante dos códigos do filme noir. O resultado, porém, conserva o gosto de Godard por desmontar convenções e fazer do próprio mecanismo cinematográfico parte da história.

A imprensa especializada percebeu justamente esse jogo. O crítico Vincent Canby, do “The New York Times”, definiu a produção como uma homenagem fragmentada e divertida ao film noir, enquanto o “Los Angeles Times” observou que Godard reduziu a narrativa ao essencial e carregou cada sequência de referências e associações, exigindo do público uma postura investigativa para compreender personagens e acontecimentos. O filme também marcou a estreia de Julie Delpy no cinema. Aos 14 anos, a atriz aparece em uma participação pequena, anos antes de conquistar reconhecimento internacional por trabalhos como “Antes do Amanhecer”, dirigido por Richard Linklater.

Outro detalhe curioso está na própria formação do elenco. Johnny Hallyday, uma das maiores estrelas da música francesa, assume o papel de um empresário de boxe envolvido com dívidas e negócios escusos. Já Jean-Pierre Léaud, figura fundamental da nouvelle vague e presença recorrente no cinema de Godard, interpreta um detetive de energia quase descontrolada. O contraste entre essas personalidades ajuda a criar a atmosfera peculiar da produção.

“Detetive” ainda foi exibido em competição no Festival de Cannes de 1985, ao lado de filmes como “Paris, Texas”, “Mishima” e “O Beijo da Mulher-Aranha”, entre outros títulos daquele ano. A presença de Godard na competição reforçava sua relação histórica com o festival, que acompanhou diversas fases de sua carreira. O filme é dedicado a três cineastas que Godard admirava: John Cassavetes, Edgar G. Ulmer e Clint Eastwood. A homenagem ajuda a iluminar o caminho escolhido pelo diretor: partir do crime, do gangster, do detetive e das convenções do cinema popular para criar uma obra que brinca com esses elementos enquanto questiona a maneira como uma história policial é construída. Com 95 minutos de duração, “Detetive” permanece uma experiência especialmente interessante para quem gosta de cinema que exige atenção aos detalhes. A trama oferece assassinato, dinheiro, sexo, boxe e máfia, mas Godard acrescenta citações literárias, música clássica, referências cinematográficas e uma montagem que transforma cada cena em uma nova pista. É uma oportunidade de reencontrar um Godard menos celebrado, porém cheio de provocações, inclusive contra as próprias regras do gênero que decidiu explorar.

Ficha técnica
“Detetive de Godard” | “Détective” (título original)

Gênero: comédia, crime e drama. Duração: 95 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1985. Data de lançamento: 10 de maio de 1985. Idioma: francês, com registros de inglês e italiano. Direção: Jean-Luc Godard. Roteiro: Alain Sarde, Philippe Setbon e Jean-Luc Godard, com adaptação de Alain Sarde, Philippe Setbon, Anne-Marie Miéville e Jean-Luc Godard. Elenco: Laurent Terzieff, Jean-Pierre Léaud, Nathalie Baye, Claude Brasseur, Johnny Hallyday, Alain Cuny, Aurelle Doazan, Stéphane Ferrara, Emmanuelle Seigner e Julie Delpy. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.



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.: Curta “Os Mortos-Vivos” transforma desaparecimento em inquietante terror


Curta de Anita Rocha da Silveira acompanha rapaz que procura a namorada desaparecida e encontra no vazio das relações uma fonte inesperada de horror. Foto: divulgação

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

“Os Mortos-Vivos”, curta-metragem escrito, dirigido, montado e produzido por Anita Rocha da Silveira, segue em cartaz na plataforma de streaming Reserva Imovision como parte da coleção “Pequenas Jornadas – Curtas-Metragens”. Realizado em 2012, o filme acompanha João, interpretado por João Pedro Zappa, que espera pela ficante Bia diante do banheiro feminino durante uma noite no Rio de Janeiro. Ela desaparece sem explicação, deixando o rapaz entre hipóteses que vão da morte ao sequestro, passando pela possibilidade bem mais banal e dolorosa de ter se apaixonado por outra pessoa. 

A premissa aparentemente simples ganha contornos de terror psicológico quando o desaparecimento de Bia passa a reorganizar a percepção de João. O curta trabalha com uma ideia particularmente contemporânea para uma produção de 2012: alguém pode desaparecer da vida de outra pessoa e continuar existindo nas telas, nas mensagens enviadas e nas tentativas frustradas de estabelecer contato. A frase “Bia está off-line. As mensagens enviadas serão entregues quando Bia estiver on-line” resume o jogo criado por Anita e transforma uma situação cotidiana em uma espécie de pesadelo digital.

Clarice Lissovsky interpreta Bia, enquanto Natália Lebeis, Pedro Tambellini, Anita Chaves, Maria Clara Contrucci, Amanda Lebeis, Raphael Martins e Bruna Lousada completam o elenco. João Atala assina a direção de fotografia; Felippe Mussel responde pelo som direto; Bernardo Uzeda, pela edição de som; Constanza de Córdova e Betina Monte-Mór, pela direção de arte; e Anita Rocha da Silveira também assume a montagem.

A diretora constrói uma atmosfera estranha a partir de situações reconhecíveis da juventude carioca: festas, praias, encontros, flertes e a expectativa por algum tipo de conexão afetiva. Ao redor dessa rotina aparecem elementos que deslocam a narrativa para o fantástico, como pirâmides e esfinges urbanas, além de efeitos visuais que incluem raios coloridos sobre a Catedral do Rio de Janeiro. 

“Os Mortos-Vivos” também ocupa um lugar significativo na trajetória de Anita Rocha da Silveira. O curta foi selecionado para a Quinzena dos Cineastas do Festival de Cannes em 2012, depois de a cineasta realizar “O Vampiro do Meio-Dia” (2008) e “Handebol” (2010). “Handebol” recebeu o Prêmio FIPRESCI no Festival Internacional de Curtas de Oberhausen, enquanto “Os Mortos-Vivos” consolidou a presença da realizadora carioca no circuito internacional.

A filmografia posterior ajuda a dimensionar a importância desse curta-metragem. Anita estreou no cinema de longa-metragem com “Mate-me por Favor”, selecionado para a mostra Orizzonti do Festival de Veneza de 2015, e depois dirigiu “Medusa”, que chegou à Quinzena dos Cineastas de Cannes em 2021. A Academia Brasileira de Cinema registra ainda que Anita passou a integrar, em 2023, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.

Em “Os Mortos-Vivos”, o terror nasce de uma situação íntima: a sensação de perder alguém sem compreender exatamente quando, como ou por quê. O desaparecimento de Bia abre uma espécie de buraco na experiência de João, e Anita explora esse desconforto com uma narrativa que mistura horror, fantasia e retrato de juventude.


Ficha técnica
“Os Mortos-Vivos” | “The Living Dead” (título internacional).
Gênero: ficção, terror, fantasia. Duração: 19 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. Ano de produção: 2012. Data de lançamento: 19 de maio de 2012, na França, durante o Festival de Cannes. Idioma: português. Direção: Anita Rocha da Silveira. Roteiro: Anita Rocha da Silveira. Elenco: João Pedro Zappa, Natália Lebeis, Clarice Lissovsky, Pedro Tambellini, Anita Chaves, Maria Clara Contrucci, Amanda Lebeis, Raphael Martins e Bruna Lousada. Distribuição no Brasil: Reserva Imovision, em streaming. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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sexta-feira, 14 de agosto de 2026

.: “A Divina Sarah Bernhardt” torna lenda do teatro em mulher de carne e osso


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Sarah Bernhardt já havia se tornado uma celebridade mundial antes de o mundo aprender a fabricar celebridades em escala industrial. No fim do século XIX, o rosto dela estampava cartazes, o nome cruzava fronteiras e as aparições mobilizavam multidões. Em uma época sem televisão, redes sociais ou cinema, a atriz francesa transformou a própria existência em espetáculo. É essa mulher gigantesca, extravagante, apaixonada e extremamente contraditória que Sandrine Kiberlain interpreta no filme “A Divina Sarah Bernhardt”, dirigido por Guillaume Nicloux.

Ambientado inicialmente em Paris, em 1896, o longa-metragem acompanha Sarah no auge da fama. Considerada por muitos a primeira grande celebridade internacional da era moderna, ela circulava entre artistas, escritores, políticos e amantes com a mesma desenvoltura com que ocupava os palcos. A produção, porém, escolhe olhar para a personalidade que existia por trás da imagem pública. O resultado é uma cinebiografia que prefere os bastidores, os afetos, as brigas e as fragilidades à reconstituição convencional de uma carreira.

O roteiro de Nathalie Leuthreau concentra boa parte da narrativa na relação de Sarah com Lucien Guitry, interpretado por Laurent Lafitte. Os dois mantêm durante anos uma relação amorosa marcada por idas e vindas, ciúmes, outros parceiros e uma intimidade que parece sobreviver até mesmo quando o romance já não funciona da maneira esperada. A escolha é interessante porque permite que a personagem seja observada em situações nas quais não precisa convencer uma plateia a respeito da própria genialidade. 

O filme mostra muito pouco da atriz efetivamente atuando. A grandeza de Sarah é constantemente anunciada por quem a cerca, pelas personalidades que a admiram e pelo peso do nome dela, mas raramente isso é demonstrado em cena. Guillaume Nicloux parece interessado na distância entre a mulher e o mito. Sarah pode ser arrogante, generosa, cruel, divertida, manipuladora, apaixonada e consciente do poder que exercia sobre os outros. Sandrine Kiberlain abraça todas essas contradições sem tentar transformar a personagem em uma santa. Na interpretação dela o espectador enxerga uma mulher expansiva, teatral mesmo quando está longe dos palcos, capaz de transformar uma conversa íntima em uma espécie de espetáculo particular. O corpo, a voz, os gestos e principalmente o olhar fazem da personagem uma presença que domina cada ambiente em que entra.

A trajetória também passa por um dos episódios mais dramáticos da vida da artista. Em 1905, durante uma apresentação de “Tosca”, no Rio de Janeiro, Sarah sofreu uma grave lesão no joelho após uma queda no palco. O problema se agravaria ao longo dos anos e levaria à amputação da perna direita em 1915. O acontecimento aparece como parte fundamental da narrativa e ajuda a estabelecer um contraste curioso: a mulher que construiu uma imagem pública de força precisa lidar com um corpo que passa a impor limites àquela existência acelerada.

A passagem pelo Brasil acrescenta uma camada particularmente interessante à história. Sarah Bernhardt esteve no país em diferentes momentos e chegou a ser admirada por Dom Pedro II. O filme recupera essa dimensão internacional e evoca também a proximidade com nomes como Victor Hugo, Oscar Wilde, Émile Zola e Sigmund Freud. Sarah viveu num período em que a circulação internacional de artistas ainda exigia viagens longas e complexas. Mesmo assim, conseguiu transformar as turnês em acontecimentos capazes de mobilizar públicos em diferentes continentes.

Sarah Bernhardt compreendeu, antes de a indústria cultural desenvolver suas ferramentas modernas, que uma estrela também precisava saber administrar a própria imagem. Fotografias, cartazes, aparições públicas, histórias sobre sua vida e a maneira como era comentada contribuíam para ampliar a fama dela. Nesse sentido, a personagem parece antecipar uma figura que hoje seria imediatamente reconhecida como uma celebridade global.

Nicloux evita transformar tudo isso em uma biografia cronológica. O tempo se organiza por lembranças e saltos temporais, aproximando diferentes momentos da vida de Sarah. A estrutura permite que passado e presente se contaminem, embora também possa provocar certa sensação de fragmentação. O filme aposta mais na memória e na personalidade da protagonista do que na apresentação organizada de acontecimentos históricos. Visualmente, “A Divina Sarah Bernhardt” encontra uma de suas maiores forças na reconstituição de época. Figurinos, cenários, objetos e direção de arte recriam uma Belle Époque exuberante, marcada pelo luxo e pela teatralidade. A fotografia de Yves Cape acompanha essa atmosfera e ajuda a estabelecer uma diferença visual entre o período de glória e os anos posteriores da protagonista.

O filme ainda se permite uma liberdade que combina com a própria personagem. Sarah Bernhardt aparece como uma figura quase maior do que a realidade, cercada por animais exóticos, festas, admiradores e personalidades célebres. Em vez de desmontar completamente o mito para encontrar uma verdade definitiva, Guillaume Nicloux parece aceitar que Sarah também foi uma invenção de si mesma. Essa liberdade tem um preço. Ao privilegiar a vida afetiva, o filme deixa de explorar diversas dimensões de uma carreira extraordinária. Sarah interpretou mais de uma centena de papéis, administrou teatros, comandou companhias e ajudou a redefinir a relação entre artista, imprensa e público. A produção poderia ter mostrado mais do talento que justificou tamanha devoção. Em determinados momentos, fica a impressão de que o filme está tão interessado na mulher que acaba esquecendo a atriz.

Ainda assim, existe uma inteligência na escolha de apresentar Sarah pelas contradições. Ela é inconveniente, vaidosa, impulsiva e, muitas vezes, insuportável. Ao mesmo tempo, possui uma liberdade que impressiona quando observada a partir do período histórico em que viveu. A vida amorosa, a relação com o próprio corpo e a postura diante das convenções sociais ajudam a explicar porque o nome dela continua provocando interesse mais de um século depois da morte dela.

Ficha técnica
“A Divina Sarah Bernhardt” | “Sarah Bernhardt, La Divine” (Título original)

Gênero: drama, romance, biografia. Duração: 98 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 2024. Data de lançamento: 16 de julho de 2026. Idioma: francês. Direção: Guillaume Nicloux. Roteiro: Nathalie Leuthreau. Elenco: Sandrine Kiberlain, Laurent Lafitte, Amira Casar, Pauline Etienne, Mathilde Ollivier, Laurent Stocker, Grégoire Leprince-Ringuet, Clément Hervieu-Léger, Sébastien Pouderoux, Sylvain Creuzevault, Arthur Mazet e Arthur Igual. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.



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.: "Caça e Caçador" faz de Son Ye-jin uma perigosa femme fatale


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

O cinema sul-coreano tem uma habilidade particular para transformar crimes aparentemente pequenos em motores de tensão. Em "Caça e Caçador", dirigido e roteirizado por Lee Sang-gi, o alvo da vez são os batedores de carteira. O longa-metragem de 2008 chega ao catálogo da plataforma de streaming Belas Artes À La Carte com uma trama policial que coloca frente a frente um investigador obstinado e uma criminosa que sabe exatamente como desaparecer no meio da multidão.

Protagonizado por Kim Myung-min e Son Ye-jin, o filme acompanha Jo Dae-yeong, policial especializado em investigar roubos e furtos relacionados à Yakuza. Sua rotina muda quando ele cruza o caminho de Baek Jang-mi, líder de uma organização internacional de batedores de carteira. Depois de atuar em Osaka, no Japão, ela retorna à Coreia do Sul determinada a ampliar os negócios e recrutar uma das profissionais mais respeitadas do meio, Kang Man-ok, interpretada por Kim Hae-sook. A perseguição ganha contornos pessoais quando Dae-yeong descobre quem realmente é a mulher que havia ajudado.

A escolha de Son Ye-jin para viver Baek Jang-mi chama atenção pela mudança de registro da atriz, então muito associada a romances e personagens de forte carga dramática. Em "Caça e Caçador", ela assume uma figura calculista, sedutora e perigosa, capaz de comandar uma quadrilha e disputar espaço com homens acostumados a controlar esse tipo de atividade. O jornal sul-coreano The Korea Times destacou, na época do lançamento, a transformação da atriz e a tensão sexual presente no longa-metragem, embora tenha considerado irregular o desenvolvimento de alguns elementos dramáticos. O filme também se beneficia de um assunto pouco explorado pelo cinema policial: a organização profissional do furto. A produção acompanha métodos, hierarquias e estratégias utilizadas pelos criminosos para agir em meio a grandes concentrações de pessoas.

A relação entre a gangue e a Yakuza amplia o alcance da investigação. A história começa em Osaka, onde a quadrilha liderada por Baek Jang-mi chama a atenção das autoridades japonesas após uma série de furtos. De volta a Seul, a personagem abre uma loja de tatuagem como fachada enquanto reorganiza suas atividades criminosas. A investigação policial passa a acompanhar seus movimentos, criando uma perseguição que alterna ação, investigação e disputas internas pelo controle do território. 

O título original, "Mubangbi-dosi", pode ser traduzido literalmente como "cidade desprotegida" ou "cidade indefesa", enquanto "Open City" tornou-se o título internacional pelo qual o filme circulou em diversos mercados. No Brasil, a produção recebeu o título "Caça e Caçador". Para Lee Sang-gi, o filme marcou a estreia na direção de um filme de longa-metragem. A proposta chamou atenção justamente por combinar um elenco de grande apelo com um universo criminal pouco habitual. A imprensa sul-coreana reconheceu essa tentativa de explorar o cotidiano de uma rede de batedores de carteira, ainda que a recepção crítica tenha apontado problemas na segunda metade da narrativa.

No elenco, além de Son Ye-jin e Kim Myung-min, estão Kim Hae-sook, Son Byung-ho e Shim Ji-ho. Kim Hae-sook interpreta Kang Man-ok, uma veterana do furto que se torna peça cobiçada na disputa entre organizações criminosas. A produção ainda reúne Kim Byeong-ok, Ji Dae-han, Lee Won-jong e outros nomes do cinema sul-coreano. Uma oportunidade de revisitar uma fase particularmente fértil do cinema policial sul-coreano, quando investigações, violência urbana e personagens moralmente ambíguos começaram a ganhar espaço em produções que buscavam fugir do policial convencional. 


Ficha técnica
"Caça e Caçador" | "Mubangbi-dosi" (Título original | "Open City" (Título internacional)
Gênero: policial, ação e crime. Duração: 112 minutos. Classificação indicativa: 16 anos no Brasil; 15 anos na Coreia do Sul. Ano de produção: 2008. Data de lançamento: 10 de janeiro de 2008, na Coreia do Sul. Idioma: coreano. Direção: Lee Sang-gi. Roteiro: Lee Sang-gi. Elenco: Son Ye-jin, Kim Myung-min, Kim Hae-sook, Son Byung-ho, Shim Ji-ho, Kim Byeong-ok, Ji Dae-han, Lee Won-jong, Kim Jung-tae e outros. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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sábado, 8 de agosto de 2026

.: Marilyn Monroe decide mudar o jogo em "Nunca Fui Santa" e transforma


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

A estreia de "Nunca Fui Santa" na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte resgata um momento decisivo na trajetória de Marilyn Monroe. Lançado em 1956, com direção de Joshua Logan e roteiro de George Axelrod, baseado na peça homônima de William Inge, o longa-metragem coloca a estrela em um terreno menos confortável, onde charme não basta. Na trama, o caubói Beauregard “Bo” Decker (Don Murray), jovem, teimoso e completamente despreparado para relações afetivas, cruza o caminho de Cherie (Monroe), cantora de saloon que sonha com uma vida melhor. Um encontro breve vira obsessão. Convencido de que encontrou a futura esposa, ele decide levá-la para seu rancho em Montana - com ou sem consentimento. A viagem de ônibus, interrompida por uma nevasca, força os dois a encarar o que há de mais incômodo: expectativas desencontradas, desejo de liberdade e a dificuldade de reconhecer o outro como sujeito.

Joshua Logan, vindo da Broadway, conduz o filme com atenção ao comportamento dos personagens, sem pressa de resolver conflitos. O texto de Axelrod amplia a peça original e cria situações que expõem o ridículo e a fragilidade de Bo, ao mesmo tempo em que permite a Cherie escapar do estereótipo da “loira ingênua”. Monroe aproveita cada fresta. Após estudar no Actors Studio com Lee e Paula Strasberg, ela constrói uma personagem com sotaque sulista carregado, gestos contidos e um desleixo calculado no visual. A decisão de usar pouca maquiagem e abandonar o glamour habitual foi uma estratégia e tanto.

A crítica da época percebeu. Bosley Crowther, do The New York Times, escreveu que Monroe finalmente se afirmava como atriz de verdade. A indicação ao Globo de Ouro veio no mesmo embalo. Don Murray, em sua estreia no cinema, recebeu indicação ao Oscar de ator coadjuvante, sustentando com energia um personagem difícil de defender. No elenco, Arthur O’Connell e Betty Field completam o quadro com segurança, enquanto Hope Lange também inicia nesse filme a trajetória nas telas.

Nos bastidores, a produção teve tensão. Logan desconfiava da disciplina de Monroe, famosa por atrasos e inseguranças. Mudou de opinião ao longo das filmagens, chegando a compará-la a Charlie Chaplin pela capacidade de equilibrar humor e emoção. O filme também marca o retorno da atriz após um período de afastamento de Hollywood, quando rompeu com a 20th Century Fox, mudou-se para Nova York e criou a Marilyn Monroe Productions, exigindo maior controle sobre sua carreira.

"Nunca Fui Santa" não resolve todas as contradições - o romance central incomoda, a condução narrativa por vezes acelera soluções - mas permanece como registro de uma virada. O público encontra ali uma Monroe que não quer mais ser apenas imagem. Quer ser levada a sério. E, por boa parte do filme, consegue.


Ficha técnica
“Nunca Fui Santa” | "Bus Stop" (título original) | "Paragem de Autocarro" (título em Portugal).
Gênero: comédia dramática, romance. Duração: 96 minutos. Classificação indicativa: livre. Ano de produção: 1956. Data de lançamento: 1956. Idioma: inglês. Direção: Joshua Logan. Roteiro: George Axelrod, baseado na peça de William Inge. Elenco: Marilyn Monroe, Don Murray, Arthur O'Connell, Betty Field, Eileen Heckart, Hope Lange. Distribuição no Brasil: Belas Artes à La Carte. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.

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