Filme de Allan Deberton leva Quixadá ao Oscar e ajuda a revelar uma produção audiovisual que cresce fora dos grandes centros, com políticas públicas, festivais, produtoras independentes e histórias que encontram no território a matéria-prima para chegar ao mundo. Foto: divulgaçãoPor Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.
Quando “Feito Pipa” chegar aos cinemas brasileiros, no dia 5 de novembro, o público encontrará na tela um pedaço do Ceará que já fez uma viagem considerável. O filme de Allan Deberton surgiu de memórias de infância em Russas, foi rodado em Quixadá, estreou na Berlinale, recebeu dois dos principais prêmios da mostra Generation Kplus, passou por outros festivais internacionais, conquistou quatro Kikitos e uma Menção Honrosa em Gramado e agora representa o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar 2027.
A trajetória de “Feito Pipa” tem uma particularidade que merece atenção: ela começa longe do eixo Rio-São Paulo, onde durante décadas se concentraram boa parte das estruturas, dos profissionais e das oportunidades do cinema brasileiro. O mapa, porém, mudou. Os números mais recentes da Agência Nacional do Cinema ajudam a enxergar essa mudança. Em 2025, o Brasil registrou 3.981 obras audiovisuais, recorde histórico, e as regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste tiveram crescimento de 9% na produção.
No mesmo ano, 367 filmes brasileiros chegaram aos cinemas, levando 11,12 milhões de espectadores às salas e movimentando R$ 214,99 milhões em renda. Os números não significam que a velha concentração tenha desaparecido, mas que existe mais coisa acontecendo fora dela.
O Ceará que virou cenário, escola e fábrica de cinema
Allan Deberton nasceu em Russas, no interior do Ceará, mas precisou sair do estado para estudar Cinema. Quando entrou na Universidade Federal Fluminense, em Niterói, ainda não havia um curso superior de Cinema no Ceará. O retorno veio pelas próprias histórias. Foi em Russas que o cineasta filmou “Doce de Coco”, seu primeiro curta-metragem, e também “Pacarrete”, o filme que o projetou nacionalmente e conquistou oito Kikitos no Festival de Gramado.
A trajetória seguinte trouxe “Feito Pipa”, novamente ligado ao interior cearense, e consolidou uma carreira construída em torno de personagens e histórias que carregam a marca de seu território. Existe uma diferença importante entre filmar fora do eixo e simplesmente levar uma equipe para filmar em outro lugar. A própria Deberton Filmes mantém sede em Fortaleza e é liderada por Allan Deberton e pelo produtor Marcelo Pinheiro, profissional formado no ambiente audiovisual cearense.
Pinheiro participa da produtora desde 2020 e esteve envolvido em projetos como “Pacarrete”, “Transversais”, “O Melhor Amigo” e “Feito Pipa”. Cinema não nasce quando alguém grita “ação”. Antes disso, existe formação profissional, roteiro, produção, captação de recursos, preparação de elenco, locação, fotografia, montagem, som, pós-produção, distribuição e uma quantidade considerável de gente que precisa pagar as contas enquanto espera o próximo projeto.
A importância das políticas públicas
“Feito Pipa” teve apoio da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, da PNAB Ceará, do Governo do Ceará, do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul, do Fundo Setorial do Audiovisual, da Ancine e do Ministério da Cultura. Não se trata de uma informação burocrática escondida nos créditos finais. O financiamento ajuda a explicar como uma produção independente consegue existir, contratar profissionais, filmar em uma cidade do interior, finalizar o material e levá-lo para um circuito internacional.
O próprio Allan Deberton resumiu essa relação em entrevista ao C7nema ao falar sobre “Feito Pipa”: “Sem política pública, um filme como 'Feito Pipa' não acontece”. A frase ganha dimensão maior quando colocada diante da estrutura que vem sendo construída no Ceará. Em 2026, o estado abriu o 16º Edital Ceará de Cinema e Audiovisual, com um conjunto de ações que soma R$ 34 milhões para fortalecer a cadeia produtiva local. Desse total, R$ 25 milhões vêm do Fundo Setorial do Audiovisual e R$ 9 milhões do Fundo Estadual de Cultura.
O programa contempla produção e finalização de curtas, desenvolvimento de roteiros, difusão e outras modalidades, além de editais específicos para produção de longa-metragem para salas de cinema e conteúdos para TV e vídeo sob demanda. O estado também deu outro passo em 2025, quando a Assembleia Legislativa aprovou a criação da Empresa Cearense do Audiovisual, vinculada à Secretaria da Cultura.
A legislação prevê atuação em produção, distribuição, promoção e difusão de conteúdos, atração de investimentos, formação, pesquisa, film commission e articulação de políticas públicas para o setor. A expressão “novo cinema brasileiro”, portanto, começa a ganhar uma dimensão que vai além de estética ou geração.
Uma rede que começa antes do filme
Quem acompanha o cinema brasileiro pelos lançamentos costuma encontrar o resultado final: o cartaz, o trailer, o festival, a crítica, os atores conhecidos e, quando tudo dá certo, a indicação a um prêmio. O caminho até ali costuma ser bem menos glamouroso. No Ceará, essa cadeia passa por equipamentos como o Cinema do Dragão e o Cineteatro São Luiz, por editais de produção, difusão e festivais, por cineclubes e por iniciativas de formação.
O Panorama do Ecossistema Audiovisual publicado pelo Ministério da Cultura registra essa estrutura e mostra também conexões do Ceará com outros estados por meio dos chamados Arranjos Regionais. A lógica dos Arranjos Regionais é especialmente interessante porque mexe numa velha dificuldade do audiovisual brasileiro: produzir fora dos centros tradicionais sem deixar o produtor regional sozinho diante de uma indústria concentrada.
Em 2025, o Comitê Gestor do Fundo Setorial do Audiovisual aprovou R$ 242 milhões para suplementação dos Arranjos Regionais. O planejamento estabeleceu percentuais específicos para diferentes regiões e manteve mecanismos de descentralização dos investimentos. A política pública, nesse caso, tenta fazer com que dinheiro e produção circulem por mais lugares.
O Nordeste não é um gênero cinematográfico
Existe uma armadilha na maneira de falar sobre a produção audiovisual nordestina: tratar tudo como se fosse parte de uma mesma estética. Um filme rodado no Ceará não precisa falar de seca. Uma produção baiana não precisa ter carnaval. Um diretor pernambucano não precisa carregar a obrigação de representar Pernambuco a cada plano.
O que existe é uma multiplicidade de cinematografias produzidas em territórios que durante muito tempo tiveram menos acesso aos mecanismos de produção e circulação. “Feito Pipa” está profundamente ligado ao Ceará, mas sua história não depende de o espectador conhecer Quixadá, Russas ou a paisagem da região. Gugu é um menino específico, numa família específica, vivendo um conflito específico.
De Quixadá para Berlim
A passagem de “Feito Pipa” pela Berlinale ajuda a dimensionar o que significa essa produção. O filme chegou à mostra Generation Kplus e recebeu o Urso de Cristal, concedido pelo Júri Infantil e Juvenil, além do Grande Prêmio do Júri Internacional. Depois, seguiu para outros festivais e chegou a Gramado já carregando uma trajetória internacional. A recepção também mostra outra característica dessa circulação.
O filme não precisou abandonar sua identidade regional para entrar no circuito internacional. Ao contrário: foi justamente carregando uma história situada no Ceará que encontrou espectadores em outros países. Durante a Berlinale, Allan Deberton contou que André Araújo, roteirista de “Feito Pipa”, é seu conterrâneo e que a história nasceu de um lugar íntimo. É uma informação pequena, mas reveladora: dois profissionais que cresceram no mesmo estado transformaram lembranças em roteiro, roteiro em filme e filme em uma produção exibida na Alemanha. O mapa da criação cinematográfica pode ser muito maior do que o mapa da indústria.
Essa cadeia ainda enfrenta dificuldades de distribuição, formação, financiamento e acesso ao público. A própria Ancine aponta que o fortalecimento da produção regional continua entre os desafios do setor e vem utilizando instrumentos como os Arranjos Regionais para ampliar os investimentos. Em 2025, a agência também registrou crescimento das produções do Centro-Oeste, Norte e Nordeste. Enquanto isso, novos editais continuam surgindo.
Em agosto de 2026, o Ceará abriu inscrições para seu 16º Edital de Cinema e Audiovisual. Entre as modalidades está a produção de longas-metragens para salas de cinema, em parceria com MinC, FSA e BRDE. Isso significa que “Feito Pipa” pode ser visto de duas maneiras: como uma história de sucesso de um filme específico e como parte de uma estrutura que tenta fazer com que outros filmes também possam existir.
Dossiê Resenhando.com - Novo Cinema Brasileiro