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segunda-feira, 21 de setembro de 2026

.: "As Cores do Tempo" costura passado e presente com arte, família e memória


Filme de Cédric Klapisch acompanha quatro primos que investigam a história de uma ancestral na Paris de 1895 e estreia no streaming Belas Artes À La Carte

Uma casa abandonada na Normandia, fotografias antigas, pinturas, cartas e uma família numerosa que mal se conhece. É desse conjunto de pistas que Cédric Klapisch parte em "As Cores do Tempo", comédia dramática francesa e belga que coloca quatro primos diante de uma história familiar que começa muito antes de eles nascerem. Depois da passagem pelos cinemas brasileiros e da exibição no 2º Festival de Cinema Europeu Imovision, o filme chega ao streaming Reserva Imovision. O longa-metragem teve sua estreia mundial fora de competição no Festival de Cannes de 2025.

A trama acompanha Seb, Guy, Céline e Abdel, quatro parentes entre mais de trinta herdeiros ligados à mesma família. Eles recebem a tarefa de investigar uma antiga propriedade na Normandia, praticamente intocada desde a década de 1940. No interior da casa aparecem vestígios da vida de Adèle Vermillard, jovem que deixou a região em 1895, aos 20 anos, rumo a Paris, onde pretendia encontrar a mãe.

A investigação contemporânea abre espaço para a segunda linha narrativa do filme. Klapisch leva o público à Paris do final do século XIX, período de grandes mudanças tecnológicas e artísticas, quando a fotografia ganhava força e o Impressionismo modificava a relação entre pintura e realidade. O cineasta contou ao Festival de Cannes que escolheu colocar 1895 e o presente em diálogo justamente por reconhecer semelhanças entre dois momentos de forte transformação tecnológica e cultural.

Suzanne Lindon interpreta Adèle e ocupa uma posição central nessa viagem temporal. A atriz, filha de Vincent Lindon e Sandrine Kiberlain, ganhou projeção com "Jovens Amantes" e aparece cercada por nomes como Abraham Wapler, Vincent Macaigne, Julia Piaton, Zinedine Soualem, Paul Kircher, Vassili Schneider, Sara Giraudeau e Cécile de France. O elenco ainda reserva participações de figuras históricas ligadas à vida cultural francesa, entre elas Claude Monet, Victor Hugo, Sarah Bernhardt e Félix Nadar.

O roteiro é assinado por Klapisch em parceria com Santiago Amigorena, colaborador de longa data do diretor. A fotografia de Alexis Kavyrchine e a direção de arte de Marie Cheminal têm papel particularmente importante na construção das duas épocas. O filme foi rodado em diferentes localidades da Normandia e da região de Île-de-France, além dos jardins e da casa de Claude Monet em Giverny, cenário que combina naturalmente com a aproximação do filme ao universo impressionista.

A produção também utilizou um trem Nomad durante uma viagem entre Paris e Le Havre para algumas cenas. A escolha das locações ajuda a construir uma França de fim de século que ainda preservava áreas rurais próximas à capital, ao mesmo tempo em que experimentava eletricidade, fotografia, novas formas de transporte e outras novidades que alteravam a vida cotidiana.

A presença de Monet não fica restrita à decoração de época. O pintor aparece em momentos diferentes da narrativa, numa brincadeira com o próprio tempo e com a maneira como os personagens contemporâneos passam a enxergar o passado. A relação com a arte, portanto, não serve somente para deixar a produção mais bonita: fotografias, pinturas e objetos antigos funcionam como peças de investigação para os descendentes de Adèle.

A imprensa francesa percebeu essa combinação de leveza, fantasia e reconstrução histórica. Le Monde destacou a maneira como Klapisch articula as duas épocas sem recorrer ao tradicional recurso dos flashbacks, enquanto a TF1 classificou o filme como uma comédia moderna construída a partir dos encontros entre passado e presente.

O resultado tem o conhecido interesse de Klapisch pelas relações humanas, mas aqui a família ganha uma dimensão particular: os personagens precisam conhecer uma mulher que morreu muito antes de eles nascerem para compreender melhor a própria origem. E, como costuma acontecer quando alguém resolve mexer em caixas antigas, uma fotografia nunca é apenas uma fotografia quando existe uma história escondida atrás dela.

A crítica de Mary Ellen Farias dos Santos, editora e criadora do Resenhando.com, também chamou atenção para a força visual da produção. Em sua análise, ela descreveu "As Cores do Tempo" como um filme de fotografia contemplativa, marcado pela relação entre arte, memória e passagem do tempo, e destacou a construção em duas linhas temporais, entre 1895 e 2024/2025. Leia a crítica completa neste link.

O filme teve boa recepção popular na França, onde alcançou quase 1 milhão de espectadores, segundo dados divulgados pela Imovision e repercutidos pelo Resenhando.com. No Brasil, chegou aos cinemas em 30 de julho de 2026, depois da passagem pelo Festival de Cinema Europeu Imovision. Agora, com a chegada ao streaming, "As Cores do Tempo" oferece uma viagem cinematográfica em que uma casa velha guarda fotografias, pinturas e cartas capazes de aproximar uma família contemporânea de uma jovem que, em 1895, decidiu descobrir de onde vinha. No caminho, aparecem Paris, Monet, fotografia, Impressionismo, amores, escolhas e uma boa dose da delicadeza que costuma acompanhar os filmes de Klapisch.


Ficha técnica
"As Cores do Tempo" | "La Venue de l'avenir" (título original) | "Colours of Time" (título internacional)
Gênero: comédia dramática. Duração: 126 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2025. Data de lançamento: 22 de maio de 2025, na França; 15 de janeiro de 2026, em Portugal; 30 de julho de 2026, nos cinemas brasileiros. Idioma: francês. Direção: Cédric Klapisch. Roteiro: Cédric Klapisch e Santiago Amigorena. Elenco: Suzanne Lindon, Abraham Wapler, Vincent Macaigne, Julia Piaton, Zinedine Soualem, Paul Kircher, Vassili Schneider, Sara Giraudeau, Cécile de France, Olivier Gourmet, Claire Pommet, Fred Testot, François Berléand, Philippine Leroy-Beaulieu e Vincent Pérez. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.

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.: "O Futuro Espera" leva a Paris ocupada para o confinamento de uma família


Drama de Nils Tavernier, inspirado na história real de Tauba Zylbersztejn, acompanha dois anos de uma família escondida em uma pequena dependência sob os telhados de Paris durante a ocupação nazista

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

A Paris de 1942 aparece em "O Futuro Espera" por uma perspectiva bastante particular: a de quem praticamente não pode sair do lugar. Dirigido por Nils Tavernier, o filme franco-belga que acaba de chegar ao catálogo do streaming Belas Artes À La Carte acompanha Tauba Zylbersztejn e seus pais, judeus poloneses que escapam da perseguição aos judeus em Paris e encontram abrigo em uma pequena dependência sob os telhados da cidade. O que deveria ser uma solução provisória acaba se prolongando por cerca de dois anos, enquanto a família convive com o medo de ser descoberta.

Inspirado em uma história real, o filme tem como protagonista a adolescente Tauba, interpretada por Violette Guillon. Guillaume Gallienne e Adeline d’Hermy vivem seus pais, Moshe e Rywka, enquanto Sandrine Bonnaire interpreta Rose Dinanceau, uma das pessoas que ajudam a família a permanecer escondida. O roteiro é assinado por Tavernier ao lado de Guy Birenbaum e Laurent Bertoni.

O caso que deu origem à produção é especialmente impressionante pela duração do confinamento. Segundo o "Le Parisien", Tauba, seus pais e o casal francês que os ajudou passaram 765 dias ligados àquele pequeno espaço. A família havia escapado da batida policial associada à Rafle du Vél’ d’Hiv, em julho de 1942, e conseguiu se esconder no número 209 da Rue Saint-Maur, no 10º arrondissement de Paris.

A história chegou ao cinema a partir do testemunho da própria Tauba. Em 1997, ela relatou sua experiência em uma entrevista que integra o trabalho de preservação de depoimentos de sobreviventes da Shoah associado ao projeto de Steven Spielberg. O material serviu de base para a construção do filme e também para o livro homônimo escrito por Guy Birenbaum, filho de Tauba e um dos roteiristas da produção.

A ligação de Birenbaum com a história dá ao projeto uma dimensão familiar bastante particular. Tauba era sua mãe, e o roteiro parte justamente das lembranças e do testemunho dela. Em entrevista ao CRIF, o escritor contou que a equipe chegou a reproduzir cuidadosamente o espaço onde sua família permaneceu durante os 765 dias. A reconstituição do pequeno cômodo foi um dos elementos centrais da produção.

Tavernier utiliza o espaço reduzido para construir uma narrativa marcada pela tensão da espera. A família precisa administrar o medo, a falta de liberdade e as mudanças na relação entre seus integrantes, enquanto os acontecimentos da guerra chegam por sons, notícias e breves vislumbres do mundo exterior. Para Tauba, entretanto, pequenas possibilidades de liberdade ganham outro peso: um piano desenhado no chão e a vista de Paris pelas janelas tornam-se formas de manter a imaginação em movimento.

A produção também investiu na reconstrução histórica de Paris. O cenário da Rue Saint-Maur e o pequeno espaço ocupado pela família foram recriados com atenção aos detalhes, enquanto imagens de arquivo ajudam a aproximar a experiência particular dos personagens dos acontecimentos que tomavam conta da cidade. O projeto recebeu apoio da Fondation pour la Mémoire de la Shoah, instituição dedicada à preservação e transmissão da memória do Holocausto.

É uma produção que parte de uma história familiar para recuperar um dos períodos mais sombrios da história europeia. O filme já havia estreado nos cinemas franceses em fevereiro de 2025 e apresenta Nils Tavernier, filho do também cineasta Bertrand Tavernier, diante de uma narrativa baseada em uma experiência vivida e registrada pela própria sobrevivente.

Ficha técnica
"O Futuro Espera" | "La Vie Devant Moi" (título original) |"The Future Awaits" (título internacional)
Gênero: drama, biografia. Duração: 93 minutos. Classificação indicativa: a definir no Brasil. Ano de produção: 2024. Idioma: francês. Direção: Nils Tavernier. Roteiro: Nils Tavernier, Guy Birenbaum e Laurent Bertoni. Elenco: Violette Guillon, Guillaume Gallienne, Adeline d’Hermy, Sandrine Bonnaire, Laurent Bateau, Claude Mathieu, Rod Paradot e Bernard Le Coq. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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.: “Feito Pipa” mostra um cinema que deixou o eixo Rio-São Paulo para trás


Filme de Allan Deberton leva Quixadá ao Oscar e ajuda a revelar uma produção audiovisual que cresce fora dos grandes centros, com políticas públicas, festivais, produtoras independentes e histórias que encontram no território a matéria-prima para chegar ao mundo. Foto: divulgação

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Quando “Feito Pipa” chegar aos cinemas brasileiros, no dia 5 de novembro, o público encontrará na tela um pedaço do Ceará que já fez uma viagem considerável. O filme de Allan Deberton surgiu de memórias de infância em Russas, foi rodado em Quixadá, estreou na Berlinale, recebeu dois dos principais prêmios da mostra Generation Kplus, passou por outros festivais internacionais, conquistou quatro Kikitos e uma Menção Honrosa em Gramado e agora representa o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar 2027. 

A trajetória de “Feito Pipa” tem uma particularidade que merece atenção: ela começa longe do eixo Rio-São Paulo, onde durante décadas se concentraram boa parte das estruturas, dos profissionais e das oportunidades do cinema brasileiro. O mapa, porém, mudou. Os números mais recentes da Agência Nacional do Cinema ajudam a enxergar essa mudança. Em 2025, o Brasil registrou 3.981 obras audiovisuais, recorde histórico, e as regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste tiveram crescimento de 9% na produção. 

No mesmo ano, 367 filmes brasileiros chegaram aos cinemas, levando 11,12 milhões de espectadores às salas e movimentando R$ 214,99 milhões em renda. Os números não significam que a velha concentração tenha desaparecido, mas que existe mais coisa acontecendo fora dela.


O Ceará que virou cenário, escola e fábrica de cinema
Allan Deberton nasceu em Russas, no interior do Ceará, mas precisou sair do estado para estudar Cinema. Quando entrou na Universidade Federal Fluminense, em Niterói, ainda não havia um curso superior de Cinema no Ceará. O retorno veio pelas próprias histórias. Foi em Russas que o cineasta filmou “Doce de Coco”, seu primeiro curta-metragem, e também “Pacarrete”, o filme que o projetou nacionalmente e conquistou oito Kikitos no Festival de Gramado. 

A trajetória seguinte trouxe “Feito Pipa”, novamente ligado ao interior cearense, e consolidou uma carreira construída em torno de personagens e histórias que carregam a marca de seu território. Existe uma diferença importante entre filmar fora do eixo e simplesmente levar uma equipe para filmar em outro lugar. A própria Deberton Filmes mantém sede em Fortaleza e é liderada por Allan Deberton e pelo produtor Marcelo Pinheiro, profissional formado no ambiente audiovisual cearense. 

Pinheiro participa da produtora desde 2020 e esteve envolvido em projetos como “Pacarrete”, “Transversais”, “O Melhor Amigo” e “Feito Pipa”. Cinema não nasce quando alguém grita “ação”. Antes disso, existe formação profissional, roteiro, produção, captação de recursos, preparação de elenco, locação, fotografia, montagem, som, pós-produção, distribuição e uma quantidade considerável de gente que precisa pagar as contas enquanto espera o próximo projeto.


A importância das políticas públicas
“Feito Pipa” teve apoio da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, da PNAB Ceará, do Governo do Ceará, do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul, do Fundo Setorial do Audiovisual, da Ancine e do Ministério da Cultura. Não se trata de uma informação burocrática escondida nos créditos finais. O financiamento ajuda a explicar como uma produção independente consegue existir, contratar profissionais, filmar em uma cidade do interior, finalizar o material e levá-lo para um circuito internacional.

O próprio Allan Deberton resumiu essa relação em entrevista ao C7nema ao falar sobre “Feito Pipa”: “Sem política pública, um filme como 'Feito Pipa' não acontece”. A frase ganha dimensão maior quando colocada diante da estrutura que vem sendo construída no Ceará. Em 2026, o estado abriu o 16º Edital Ceará de Cinema e Audiovisual, com um conjunto de ações que soma R$ 34 milhões para fortalecer a cadeia produtiva local. Desse total, R$ 25 milhões vêm do Fundo Setorial do Audiovisual e R$ 9 milhões do Fundo Estadual de Cultura. 

O programa contempla produção e finalização de curtas, desenvolvimento de roteiros, difusão e outras modalidades, além de editais específicos para produção de longa-metragem para salas de cinema e conteúdos para TV e vídeo sob demanda. O estado também deu outro passo em 2025, quando a Assembleia Legislativa aprovou a criação da Empresa Cearense do Audiovisual, vinculada à Secretaria da Cultura. 

A legislação prevê atuação em produção, distribuição, promoção e difusão de conteúdos, atração de investimentos, formação, pesquisa, film commission e articulação de políticas públicas para o setor. A expressão “novo cinema brasileiro”, portanto, começa a ganhar uma dimensão que vai além de estética ou geração.


Uma rede que começa antes do filme

Quem acompanha o cinema brasileiro pelos lançamentos costuma encontrar o resultado final: o cartaz, o trailer, o festival, a crítica, os atores conhecidos e, quando tudo dá certo, a indicação a um prêmio. O caminho até ali costuma ser bem menos glamouroso. No Ceará, essa cadeia passa por equipamentos como o Cinema do Dragão e o Cineteatro São Luiz, por editais de produção, difusão e festivais, por cineclubes e por iniciativas de formação. 

O Panorama do Ecossistema Audiovisual publicado pelo Ministério da Cultura registra essa estrutura e mostra também conexões do Ceará com outros estados por meio dos chamados Arranjos Regionais. A lógica dos Arranjos Regionais é especialmente interessante porque mexe numa velha dificuldade do audiovisual brasileiro: produzir fora dos centros tradicionais sem deixar o produtor regional sozinho diante de uma indústria concentrada. 

Em 2025, o Comitê Gestor do Fundo Setorial do Audiovisual aprovou R$ 242 milhões para suplementação dos Arranjos Regionais. O planejamento estabeleceu percentuais específicos para diferentes regiões e manteve mecanismos de descentralização dos investimentos. A política pública, nesse caso, tenta fazer com que dinheiro e produção circulem por mais lugares.


O Nordeste não é um gênero cinematográfico
Existe uma armadilha na maneira de falar sobre a produção audiovisual nordestina: tratar tudo como se fosse parte de uma mesma estética. Um filme rodado no Ceará não precisa falar de seca. Uma produção baiana não precisa ter carnaval. Um diretor pernambucano não precisa carregar a obrigação de representar Pernambuco a cada plano. 

O que existe é uma multiplicidade de cinematografias produzidas em territórios que durante muito tempo tiveram menos acesso aos mecanismos de produção e circulação. “Feito Pipa” está profundamente ligado ao Ceará, mas sua história não depende de o espectador conhecer Quixadá, Russas ou a paisagem da região. Gugu é um menino específico, numa família específica, vivendo um conflito específico. 


De Quixadá para Berlim

A passagem de “Feito Pipa” pela Berlinale ajuda a dimensionar o que significa essa produção. O filme chegou à mostra Generation Kplus e recebeu o Urso de Cristal, concedido pelo Júri Infantil e Juvenil, além do Grande Prêmio do Júri Internacional. Depois, seguiu para outros festivais e chegou a Gramado já carregando uma trajetória internacional. A recepção também mostra outra característica dessa circulação.

O filme não precisou abandonar sua identidade regional para entrar no circuito internacional. Ao contrário: foi justamente carregando uma história situada no Ceará que encontrou espectadores em outros países. Durante a Berlinale, Allan Deberton contou que André Araújo, roteirista de “Feito Pipa”, é seu conterrâneo e que a história nasceu de um lugar íntimo. É uma informação pequena, mas reveladora: dois profissionais que cresceram no mesmo estado transformaram lembranças em roteiro, roteiro em filme e filme em uma produção exibida na Alemanha. O mapa da criação cinematográfica pode ser muito maior do que o mapa da indústria.

Essa cadeia ainda enfrenta dificuldades de distribuição, formação, financiamento e acesso ao público. A própria Ancine aponta que o fortalecimento da produção regional continua entre os desafios do setor e vem utilizando instrumentos como os Arranjos Regionais para ampliar os investimentos. Em 2025, a agência também registrou crescimento das produções do Centro-Oeste, Norte e Nordeste. Enquanto isso, novos editais continuam surgindo.

Em agosto de 2026, o Ceará abriu inscrições para seu 16º Edital de Cinema e Audiovisual. Entre as modalidades está a produção de longas-metragens para salas de cinema, em parceria com MinC, FSA e BRDE. Isso significa que “Feito Pipa” pode ser visto de duas maneiras: como uma história de sucesso de um filme específico e como parte de uma estrutura que tenta fazer com que outros filmes também possam existir.


Dossiê Resenhando.com - Novo Cinema Brasileiro

domingo, 20 de setembro de 2026

.: Filme "O Império do Desejo" escancara a alma libertária de Carlos Reichenbach


Filme de Carlos Reichenbach chega à Reserva Imovision com mistura de erotismo, humor, política e espírito anárquico, além de uma história marcada pelo confronto com a censura durante a ditadura militar

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Carlos Reichenbach gostava de misturar coisas que, em mãos menos inquietas, não cabiam no mesmo filme. Em "O Império do Desejo", que chega à plataforma de streaming Reserva Imovision em um momento de redescoberta da obra do diretor, cineasta que se tornou um dos nomes mais particulares da chamada Boca do Lixo paulistana. Ele junta erotismo, chanchada, política, humor, aventura, música e uma galeria de personagens excêntricos para acompanhar Sandra (Meiry Vieira), uma viúva que vai ao litoral recuperar a casa de praia deixada pelo marido, ocupada por grileiros. 

No caminho, ela dá carona a um casal de hippies e, depois de retomar a propriedade com a ajuda do advogado Dr. Carvalho (Benjamin Cattan), convida os dois para cuidar do imóvel. A partir desse encontro, a casa vira ponto de encontro para personagens que se envolvem física e emocionalmente em uma trama que passa pelo desejo, pela liberdade e pela provocação política. Roberto Miranda interpreta Nicolau em um elenco que reúne Márcia Fraga, Orlando Parolini, Aldine Müller, Nádia Destro, Marta Anderson, José Luiz França e outros nomes ligados ao cinema brasileiro daquele período. 

Nascido em Porto Alegre e criado em São Paulo, Carlos Reichenbach estudou na Escola Superior de Cinema São Luiz, onde integrou a segunda turma da instituição e teve entre seus mestres nomes como Roberto Santos, Anatol Rosenfeld, Paulo Emílio Salles Gomes, Mário Chamie, Décio Pignatari e Luiz Sérgio Person. A carreira começou ainda no ambiente da Boca do Lixo, com trabalhos como "As Libertinas" e "Audácia! - A Fúria dos Desejos". 

Depois, Reichenbach construiu uma filmografia que transitou por diferentes gêneros e combinou referências populares e eruditas. "A Ilha dos Prazeres Proibidos", lançado em 1978, já apresentava características que se tornariam recorrentes em seu cinema: alegorias políticas, personagens intelectuais e militantes, ironia, erotismo e uma aproximação entre elementos da cultura popular e referências eruditas. "O Império do Desejo" pertence a essa mesma fase de experimentação.

A estrutura do filme ajuda a entender o método de Reichenbach. A premissa aparentemente simples da viúva que deseja recuperar uma casa de praia abre espaço para uma sucessão de encontros, desejos, conflitos e situações absurdas. A casa deixa de ser apenas cenário e passa a concentrar uma espécie de microcosmo em que diferentes personagens e ideias convivem, enquanto o diretor brinca com convenções do cinema erótico e da comédia popular.

A mistura de gêneros não acontece por acaso. Reichenbach buscava em "O Império do Desejo", que foi realizado na esteira do sucesso comercial de "A Ilha dos Prazeres Proibidos", manipular clichês narrativos, subverter o repertório do cinema erótico e comercial, misturar gêneros e utilizar a música como elemento narrativo. O histórico com a censura acrescenta outra camada à trajetória da produção. A Cinemateca Brasileira registra certificados de censura emitidos em 1980 e 1981, incluindo um certificado do Conselho Superior de Censura. O filme chegou a ser interditado em todo o território nacional sob a acusação de ser subversivo e atentatório à moral e aos bons costumes, antes de ser liberado integralmente pelo recém-criado Conselho Superior de Censura com a classificação de "espetáculo pornográfico".

O próprio Reichenbach explicou, anos depois, a ligação que enxergava entre desejo e política. Em entrevista à Abraccine, o cineasta afirmou que não conseguia separar essas duas dimensões e definiu "O Império do Desejo" como um filme em que a questão do desejo era eminentemente política. Também contou que a produção foi convidada para festivais de cinema anarquista em Melbourne e Lyon.

Essa trajetória internacional não ficou restrita a esses eventos. O International Film Festival Rotterdam apresentou o longa-metragem em 2012, em uma nova cópia em 35 mm, depois de um período em que a obra permaneceu praticamente inacessível e pouco lembrada. O festival também registra a participação de Roberto Miranda, Benjamin Cattan, Márcia Fraga, Meiry Vieira, Orlando Parolini, José Luiz França e Nádia Destro no elenco principal.

"O Império do Desejo" permanece como uma peça curiosa da filmografia de Reichenbach por concentrar características que acompanham seu cinema: personagens marginais, provocação política, erotismo, humor, referências culturais diversas e uma vontade permanente de escapar das fórmulas convencionais. O filme pertence a um período específico do cinema brasileiro, mas conserva uma energia própria, especialmente pela maneira como Carlos Reichenbach transforma as limitações de produção em matéria para a invenção.

O diretor morreu em 2012, aos 67 anos. Ao longo da carreira, escreveu e dirigiu mais de 20 filmes, entre longas-metragens, curtas e episódios de antologias, além de trabalhar como diretor de fotografia, professor, músico, fotógrafo, crítico, ator e ensaísta. A partir de filmes como "Alma Corsária", "Filme Demência", "Garotas do ABC" e "Falsa Loura", sua obra ganhou novas leituras e voltou a despertar interesse entre espectadores e pesquisadores do cinema brasileiro. É cinema de uma época, com as marcas do tempo, mas também um retrato bastante claro da liberdade criativa que Reichenbach perseguia.


Ficha técnica
"O Império do Desejo" (título original)
Gênero: comédia dramática, erótico. Duração: 110 minutos. Classificação indicativa: 18 anos. Ano de produção: 1980. Data de lançamento: 30 de março de 1981, em São Paulo. Idioma: português. Direção: Carlos Reichenbach. Roteiro: Carlos Reichenbach. Elenco: Meiry Vieira, Roberto Miranda, Benjamin Cattan, Márcia Fraga, Orlando Parolini, Aldine Müller, Nádia Destro, Marta Anderson, José Luiz França, Mii Saki, Dino Arino, Genésio de Carvalho, Felipe Donovan, Maristela Moreno e Cavagnole Neto. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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.: "Plenty" revisita guerra, desencanto e uma mulher incapaz de voltar ao normal


Com Meryl Streep no centro de um drama escrito por David Hare, "Plenty - O Mundo de Uma Mulher" acompanha duas décadas da vida de Susan Traherne, ex-integrante da Resistência Francesa que descobre, depois da Segunda Guerra Mundial, que a paz pode ser muito menos excitante do que imaginava

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Meryl Streep encara uma das personagens mais desconfortáveis da carreira em "Plenty - O Mundo de uma Mulher", drama dirigido por Fred Schepisi que chega ao catálogo do streaming Belas Artes À La Carte. O filme acompanha Susan Traherne desde mensageira da Resistência Francesa, durante a Segunda Guerra Mundial, até os anos seguintes ao conflito, quando a vida que deveria representar liberdade, estabilidade e prosperidade começa a parecer pequena demais para alguém que se acostumou ao risco.

O roteiro de David Hare, adaptado da própria peça teatral escrita por ele em 1978, percorre quase duas décadas da vida da protagonista. Susan retorna à Inglaterra depois da guerra esperando encontrar um país renovado e uma existência à altura dos ideais pelos quais lutou. O problema é que o cotidiano tem pouco interesse em corresponder às expectativas de quem acabou de sobreviver a uma guerra.

Na França ocupada, Susan viveu uma experiência marcada pelo perigo, pela urgência e por um romance breve com Lazar (Sam Neill), agente britânico que chega de paraquedas para auxiliar a Resistência. O encontro dura pouco, mas permanece na memória dela durante anos. De volta à Inglaterra, Susan passa por empregos, relacionamentos e situações que parecem incapazes de preencher o espaço deixado por aquela juventude vivida em condições extraordinárias.

É nesse período que entram Raymond Brock (Charles Dance), diplomata com quem ela se casa, Alice Park (Tracey Ullman), amiga e companheira de moradia, e Mick (Sting), homem que Susan procura numa tentativa pouco convencional de realizar o desejo de ser mãe. John Gielgud e Ian McKellen completam o elenco principal como figuras ligadas ao universo diplomático que cerca Raymond.

A atuação de Meryl Streep foi bastante observada pela crítica na época do lançamento. Roger Ebert, em crítica publicada no Chicago Sun-Times em setembro de 1985, chamou atenção para a sutileza com que a atriz constrói Susan, uma mulher autodestrutiva, difícil de compreender e ainda mais difícil de acompanhar emocionalmente. Para o crítico, a personagem poderia ter sido reduzida a um conjunto de sintomas, mas Streep consegue lhe dar personalidade e contradições.

O filme também dividiu opiniões. A crítica da revista "The New Yorker", assinada por Pauline Kael, destacou o mal-estar político e emocional presente no texto de David Hare e descreveu Susan como uma personagem marcada pela perda do idealismo juvenil. Já a "Los Angeles Times" enxergou na produção uma investigação sobre o preço cobrado pelo idealismo romântico, elogiando particularmente a interpretação de Streep.

A relação de "Plenty" com o teatro merece atenção. A montagem original da Broadway estreou em 6 de janeiro de 1983, no Plymouth Theatre, e permaneceu em cartaz por 92 apresentações. A peça recebeu indicações ao Tony, incluindo Melhor Peça, Melhor Atriz para Kate Nelligan e Melhor Ator para Edward Herrmann.

Nelligan, aliás, foi a primeira intérprete de Susan Traherne nos palcos de Londres e Nova York. Para o cinema, a personagem passou para Meryl Streep, que já havia construído uma carreira de enorme prestígio e vinha de "A Escolha de Sofia". A troca provocou discussões sobre o que se ganhava e o que se perdia quando uma personagem originalmente associada ao teatro britânico passava a ser interpretada por uma estrela de Hollywood.

A própria estrutura do filme ajuda a explicar algumas das reações tão diferentes. "Plenty" não conta a trajetória de Susan de maneira convencional: a narrativa avança e recua no tempo, acompanhando diferentes momentos de sua vida e colocando suas experiências pessoais ao lado de acontecimentos da história britânica do pós-guerra, incluindo a coroação de Elizabeth II e a Crise de Suez. A crítica da "Time Out" observou que a adaptação cinematográfica desloca o ponto de vista entre personagens, ampliando a dimensão social da peça original.

O título ganha um sentido particularmente irônico quando se considera a passagem da austeridade do pós-guerra para um período de maior prosperidade material. Susan, porém, parece cada vez menos capaz de aproveitar aquilo que deveria representar uma vida confortável. Quanto mais a sociedade avança em direção à estabilidade, maior fica a distância entre o que ela esperava do futuro e aquilo que efetivamente encontra.

O resultado é um filme centrado numa mulher difícil, contraditória e muitas vezes desagradável, mas justamente por isso interessante. Susan não se encaixa facilmente no papel de heroína, vítima ou vilã, e Meryl Streep aceita o desconforto de interpretar alguém cuja inquietação contamina o casamento, as amizades e a própria percepção que ela tem de si mesma.


Ficha técnica
"Plenty - O Mundo de Uma Mulher" | "Plenty" (título original) | "Plenty, Uma História de Mulher" (título em Portugal)
Gênero: drama. Duração: 124 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1985. Data de lançamento: 20 de setembro de 1985. Idioma: inglês. Direção: Fred Schepisi. Roteiro: David Hare. Elenco: Meryl Streep, Charles Dance, Tracey Ullman, John Gielgud, Sting, Ian McKellen, Sam Neill, Burt Kwouk e Pik-Sen Lim. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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.: “Feito Pipa” leva o sertão ao Oscar e provoca o novo cinema brasileiro


Escolhido para representar o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar 2027, filme de Allan Deberton transforma memórias do interior do Ceará em uma história sobre infância, afeto, família, preconceito e pertencimento, depois de conquistar prêmios em Berlim, Cartagena e Gramado


Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Um menino de quase 12 anos que gosta de futebol. Uma avó que o criou com liberdade e carinho. Um pai com quem a relação está longe de ser simples, uma cidade do sertão cearense e, ao redor de tudo isso, as ruínas de um lugar que desapareceu debaixo d’água. É desse universo que “Feito Pipa”, de Allan Deberton, parte para tentar chegar ao Oscar 2027. Escolhido pela Academia Brasileira de Cinema para representar o Brasil na disputa por uma vaga na categoria de Melhor Filme Internacional, o filme chega ao posto depois de construir uma trajetória que começou muito antes do anúncio feito em 16 de setembro. 

A produção estreou mundialmente no Festival de Berlim, conquistou o Urso de Cristal de Melhor Filme e o Grande Prêmio do Júri Internacional da mostra Generation Kplus, passou por festivais internacionais e chegou ao Festival de Gramado como uma das produções brasileiras de maior repercussão do ano. Agora, o caminho é outro. “Feito Pipa” ainda precisa passar pela seleção da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas para entrar na lista de indicados ao Oscar. A shortlist será divulgada em dezembro e os indicados, em janeiro de 2027. A cerimônia está marcada para 14 de março.



Um cinema com sotaque próprio
Allan Deberton nasceu em Russas, no interior do Ceará, e construiu uma carreira que passa pelos curtas-metragens, pelos festivais e por histórias ligadas ao lugar de onde veio. Formado em Cinema pela Universidade Federal Fluminense, o diretor teve trabalhos exibidos em mais de 150 festivais nacionais e internacionais, acumulando 76 prêmios, segundo a Academia Brasileira de Cinema. Em 2019, estreou no cinema como diretor de longa-metragem com “Pacarrete”. Ambientado em Russas, o filme acompanha uma bailarina aposentada que decide preparar uma apresentação para presentear a população durante as comemorações dos 200 anos da cidade.

No Festival de Gramado, levou oito Kikitos, incluindo os de Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Roteiro. Sete anos depois, Deberton voltou ao festival com “Feito Pipa”. Voltou com força suficiente para levar novamente Melhor Direção, além dos prêmios de Melhor Atriz para Teca Pereira, Melhor Ator Coadjuvante para Lázaro Ramos e Melhor Filme pelo Júri Popular. Yuri Gomes, intérprete de Gugu, recebeu Menção Honrosa. Se “Pacarrete” já colocava uma cidade do interior no centro da narrativa, “Feito Pipa” amplia essa escolha. Quixadá aparece como cenário e como parte da história. A produção nasceu de memórias da infância vivida por Deberton e pelo roteirista André Araújo em Russas, mas foi filmada em Quixadá. O resultado é um filme profundamente ligado ao Ceará sem precisar transformar a paisagem em cartão-postal.


Um menino, uma avó e uma cidade submersa
Gugu (Yuri Gomes) tem quase 12 anos e vive com a avó Dilma (Teca Pereira). É apaixonado por futebol, dança e pela liberdade que encontrou naquela casa. A chegada do pai, porém, ameaça mudar a rotina e colocar em xeque a relação que construiu com a avó. Como se a família já não tivesse problemas suficientes, Dilma enfrenta uma doença que compromete suas lembranças.

Ao redor deles existe a barragem de Araújo Lima. Depois de um período de seca, o recuo das águas revela as ruínas de uma antiga cidade submersa. Enquanto Gugu tenta lidar com a possibilidade de perder a avó e deixar para trás a vida que conhece, o cenário devolve ao presente aquilo que ficou escondido durante anos. A ideia de memória percorre o filme e está na relação entre Gugu e Dilma, na paisagem e na própria história daquele lugar.


Mais de 600 crianças para encontrar Gugu
Uma das apostas do filme estava na escolha do protagonista. Mais de 600 crianças foram testadas até Yuri Gomes ser escolhido para interpretar Gugu: foi a estreia do jovem ator no cinema. Ao lado dele estão Teca Pereira, Lázaro Ramos, Carlos Francisco e Georgina Castro. A escolha acabou rendendo frutos durante a circulação do filme pelos festivais. 

Em Gramado, Yuri recebeu Menção Honrosa. Teca Pereira levou o prêmio de Melhor Atriz e Lázaro Ramos foi reconhecido como Melhor Ator Coadjuvante. O garoto que precisou passar por uma peneira de mais de 600 candidatos terminou no centro das atenções de um dos principais festivais de cinema do país. Nada mal para uma primeira experiência diante das câmeras.


De Berlim a Gramado
Antes de conquistar os Kikitos, “Feito Pipa” já havia recebido uma apresentação de respeito no circuito internacional. A estreia mundial aconteceu no Festival de Berlim, na mostra Generation Kplus. O filme saiu de lá com dois prêmios: o Urso de Cristal de Melhor Filme, concedido pelo Júri Jovem, e o Grande Prêmio do Júri Internacional.

A produção também passou por Guadalajara e Cartagena das Índias, onde recebeu outros reconhecimentos, incluindo prêmios de atuação para Yuri Gomes e Teca Pereira. Em Berlim, o filme ainda participou da disputa pelo Teddy Award, tradicional premiação dedicada ao cinema queer. A trajetória internacional, portanto, já estava em andamento quando o filme entrou na corrida brasileira pelo Oscar.


15 filmes, muitos Brasis
Quando a Academia Brasileira de Cinema abriu a disputa pelo representante brasileiro no Oscar 2027, “Feito Pipa” estava entre 15 produções de diferentes gerações, regiões e propostas. A lista reunia “100 Dias”, de Carlos Saldanha; “A Conspiração Condor”, de André Sturm; “A Fabulosa Máquina do Tempo”, de Eliza Capai; “A Natureza das Coisas Invisíveis”, de Rafaela Camelo; “Ato Noturno”, de Marcio Reolon e Filipe Matzembacher; “Cinco Tipos de Medo”, de Bruno Bini; “Dolores”, de Maria Clara Escobar e Marcelo Gomes; “Feito Pipa”, de Allan Deberton; “Herança de Narcisa”, de Clarissa Appelt e Daniel Dias; “Nosso Segredo”, de Grace Passô; “O Rei da Internet”, de Fabrício Bittar; “Quando Vira a Esquina”, de Chris Alcazar; “Malês”, de Antonio Pitanga; “Papagaios”, de Douglas Soares; e “Vicentina Pede Desculpas”, de Gabriel Martins.

Seis avançaram para a etapa seguinte: “100 Dias”, “A Fabulosa Máquina do Tempo”, “A Natureza das Coisas Invisíveis”, “Feito Pipa”, “Nosso Segredo” e “Vicentina Pede Desculpas”. Em 16 de setembro, “Feito Pipa” foi escolhido como o representante brasileiro. A comissão de seleção destacou a capacidade da produção de apresentar uma história de alcance universal mantendo uma identidade fortemente brasileira, ligada a uma cidade do interior do Ceará. O filme olha para uma comunidade específica e, ao fazer isso, encontra questões que ultrapassam qualquer fronteira geográfica.

É uma das características que ajudam a aproximar “Feito Pipa” de um movimento maior do cinema brasileiro contemporâneo: histórias locais encontrando espaço em circuitos nacionais e internacionais sem abandonar sua origem. “Feito Pipa” estreia comercialmente em 5 de novembro, com distribuição da Paris Filmes. Antes disso, participa do Festival do Rio, na mostra Première Brasil: Hors Concours.

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

.: “Um Sonho de Domingo” traz família e arte sob o sol de Bertrand Tavernier


Filme de Bertrand Tavernier acompanha um domingo de verão de 1912 e transforma uma reunião familiar aparentemente tranquila em um delicado acerto de contas com o tempo, as escolhas e aquilo que ficou pelo caminho


Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Um domingo de verão pode parecer o cenário perfeito para uma reunião familiar: comida, conversa, crianças correndo pelo jardim e aquela coleção de pequenas implicâncias que só parentes sabem produzir com tanta eficiência. Em “Um Sonho de Domingo”, que estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, o diretor Bertrand Tavernier pega esse material aparentemente banal e encontra nele uma história sobre envelhecimento, arte, frustrações e escolhas que continuam incomodando mesmo quando já não há muito tempo para corrigi-las.

O filme francês de 1984 acompanha Monsieur Ladmiral (Louis Ducreux), um pintor aposentado que vive no campo desde a morte da esposa. Como acontece praticamente todos os domingos, ele recebe o filho Gonzague (Michel Aumont), a nora Marie-Thérèse (Geneviève Mnich) e os três netos. A rotina, cuidadosamente conhecida por todos, ganha outra temperatura quando chega Irène (Sabine Azéma), filha do pintor e mulher independente, inquieta e pouco afeita às convenções familiares.

A presença de Irène mexe com o pai porque ela representa uma possibilidade de vida que ele próprio deixou escapar. Ladmiral alcançou reconhecimento como artista, mas começa a olhar para a própria trajetória com certa desconfiança. Enquanto conversa com a filha sobre pintura, percebe que talvez tenha sido conservador demais justamente no campo em que poderia ter arriscado mais. Tavernier constrói o filme a partir desses pequenos deslocamentos. Não há necessidade de grandes acontecimentos para que as relações familiares revelem suas rachaduras. Um comentário, uma lembrança, uma caminhada ou uma conversa aparentemente despretensiosa carregam aquilo que os personagens nem sempre conseguem dizer diretamente.

A história se passa em 1912, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, mas o filme não se entrega ao peso histórico do período. A atenção está concentrada naquela casa, no jardim, nos personagens e na passagem das horas. A câmera de Bruno de Keyzer explora a luminosidade do interior francês e cria imagens que remetem à pintura impressionista, reforçando a ligação entre a forma do filme e o universo artístico de Ladmiral. A trilha sonora segue o mesmo caminho de delicadeza. A produção utiliza peças de música de câmara de Gabriel Fauré, ao lado de trabalhos associados a Louis Ducreux e Marc Perrone, criando uma atmosfera íntima para aquela reunião familiar.

“Um Sonho de Domingo” adapta o romance “Monsieur Ladmiral va Bientôt Mourir”, publicado por Pierre Bost em 1945. O roteiro foi escrito por Bertrand Tavernier e a filha dele, Colo Tavernier. A adaptação preserva a estrutura concentrada da obra literária e acompanha os personagens durante poucas horas, deixando que passado e presente se encontrem nas conversas e nas lembranças. Louis Ducreux, conhecido também pela atuação no teatro e pelo trabalho como compositor e dramaturgo, encontra em Monsieur Ladmiral um personagem de poucas explosões e muitas contradições. Sabine Azéma, por sua vez, injeta energia na produção como Irène, personagem que chega carregando uma liberdade que incomoda o irmão e fascina o pai.

A recepção crítica ajudou a transformar “Um Sonho de Domingo” em uma das obras mais lembradas da filmografia de Tavernier. O filme competiu pela Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1984 e o diretor recebeu o prêmio de Melhor Direção. No César, a produção levou os prêmios de Melhor Atriz, para Sabine Azéma, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Fotografia, de Bruno de Keyzer.

A própria estrutura do filme pode dividir opiniões. Para alguns espectadores, o ritmo contemplativo e a ausência de grandes reviravoltas fazem parte de seu encanto; para outros, a mesma característica pode exigir uma dose extra de paciência.  Esse contraste combina com a proposta de Tavernier. “Um Sonho de Domingo” observa uma família durante um único dia e deixa que as pequenas tensões façam o trabalho pesado. O pai olha para os filhos e, ao mesmo tempo, parece enxergar versões diferentes de si próprio. Gonzague representa a vida organizada, previsível e socialmente aprovada. Irène chega com independência, desejo e uma certa desordem atributos que o pai admira e talvez inveje um pouco.

O filme sabe encontrar drama onde a vida costuma escondê-lo: nas visitas que se repetem, nas escolhas que parecem definitivas, nas conversas que chegam tarde e naquela incômoda sensação de que algumas possibilidades ficaram para trás. Tavernier filma tudo isso com elegância, humor discreto e uma melancolia que nunca precisa levantar a voz.


Ficha técnica
“Um Sonho de Domingo” | “Un Dimanche à la Campagne” (título original) | “Um Domingo no Campo” (título em Portugal) | “A Sunday in the Country” (título internacional).
Gênero: drama. Duração: 90 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1984. Data de lançamento: 11 de abril de 1984, na França. Idioma: francês. Direção: Bertrand Tavernier. Roteiro: Bertrand Tavernier e Colo Tavernier, baseado no romance “Monsieur Ladmiral va bientôt mourir”, de Pierre Bost. Elenco: Louis Ducreux, Michel Aumont, Sabine Azéma, Geneviève Mnich, Monique Chaumette, Thomas Duval, Quentin Ogier e Katia Wostrikoff. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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domingo, 13 de setembro de 2026

.: “Ópera! - Canção para Um Eclipse” leva Orfeu em delírio de música e fantasia


Produção dirigida por Paolo Gep Cucco e Davide Livermore reinventa o mito de Orfeu e Eurídice com Vincent Cassel, Fanny Ardant e Rossy de Palma, misturando grandes árias, música pop, moda e efeitos digitais. Fotos: divulgação

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Um casamento termina em tragédia quando Eurídice é atingida por um tiro e sua alma é levada para o reino dos mortos. Orfeu, devastado pela perda, parte em busca da mulher que ama e encontra no caminho uma versão bastante particular do inferno: o Grand Hades Hotel, conduzido por um Caronte que, em vez de barqueiro, aparece como um taxista interpretado por Vincent Cassel. Essa é a premissa de “Ópera! - Canção para Um Eclipse”, produção de 2024 dirigida por Paolo Gep Cucco e Davide Livermore, que estreia na plataforma de streaming Reserva Imovision.

A dupla parte de uma das histórias de amor mais conhecidas da mitologia grega para criar um musical cinematográfico de vocação grandiosa, recheado de fantasia, referências artísticas e uma coleção de canções que passeia pela tradição da ópera e pela música popular. O resultado reúne no mesmo universo Puccini, Händel, Verdi, Gluck e Vivaldi ao lado de “The Power of Love”, do Frankie Goes to Hollywood.

A proposta chamou atenção desde a passagem pelo Festival de Cinema de Roma, onde “The Opera! - Arie per un’eclissi” foi exibido em sessão especial em 2024. A organização do festival descreveu o filme como uma ópera-musical de linguagem imersiva e transmídia, ambientada entre uma Paris parcialmente submersa e o palco do Teatro Regio de Turim. No filme, Valentino Buzza interpreta Orfeu e Mariam Battistelli vive Eurídice. Vincent Cassel assume Caronte, enquanto Fanny Ardant aparece como Proserpina, Rossy de Palma interpreta Atropos, Caterina Murino vive a concierge do hotel e Erwin Schrott encarna Plutão. Angela Finocchiaro completa o elenco como Calíope, mãe de Orfeu.

Davide Livermore traz para o cinema uma experiência acumulada em mais de duas décadas de trabalho com grandes casas de ópera. Paolo Gep Cucco, por sua vez, tem trajetória ligada ao video design para espetáculos líricos. A parceria, construída nos palcos, migra para o cinema com uma proposta que trata cada ambiente como uma espécie de palco gigantesco.

A fotografia de Gareth Munden e a direção de arte apostam em cenários digitais para construir o universo de Hades. Boa parte da produção foi realizada em ambientes virtuais, recurso que permite colocar os personagens em espaços impossíveis, com água, arquitetura monumental e paisagens que parecem saídas de um sonho febril. A estética ainda dialoga com referências do cinema, da pintura e das artes visuais. Uma das mais evidentes aparece na partida de xadrez entre Orfeu e Mephistopheles, evocando “O Sétimo Selo”, de Ingmar Bergman.

A moda também entra em cena. A Dolce & Gabbana participou da produção e assinou os figurinos, ajudando a estabelecer uma identidade visual luxuosa, teatral e deliberadamente extravagante. O filme cruza ópera, cinema, moda e artes visuais com a intenção de atualizar uma história conhecida há séculos. A música ocupa um espaço central nessa aventura. As árias clássicas ganham arranjos contemporâneos e convivem com referências da música pop, criando uma trilha que pode surpreender tanto quem chega ao filme pela ópera quanto quem não costuma frequentar esse universo. “Nessun Dorma”, uma das peças mais reconhecíveis do repertório lírico, tem papel decisivo na narrativa: na versão dos diretores, Orfeu precisa cantá-la sem perder de vista a razão de estar cantando para conseguir salvar Eurídice.

A escolha estética explica boa parte da personalidade de “Ópera! - Canção para Um Eclipse”. O filme não economiza em cenários, figurinos, efeitos visuais e referências. O Grand Hades Hotel parece saído de uma fantasia de luxo decadente, enquanto a presença constante da água cria imagens de beleza e estranhamento. Em vez de esconder sua teatralidade, a produção a coloca no centro da experiência.

O mito de Orfeu e Eurídice ganha, assim, uma roupagem contemporânea sem abandonar sua estrutura essencial: um homem disposto a desafiar o reino dos mortos para recuperar a mulher amada. A diferença está no caminho. Em vez de uma descida convencional ao submundo, Orfeu atravessa um universo pop-operístico em que taxistas são guias do além, hotéis funcionam como passagem para os mortos e grandes clássicos da música lírica dividem espaço com canções populares. 

A produção também pode funcionar como uma porta de entrada para a ópera, já que transforma algumas de suas composições mais conhecidas em parte da aventura de Orfeu. No fundo dessa extravagância toda permanece uma história bastante antiga: um homem perde a pessoa que ama e decide enfrentar o impossível para trazê-la de volta. O resto fica por conta de Livermore, Cucco, Cassel, Buzza, Battistelli e companhia — e de uma quantidade generosa de ópera, fantasia, água, luxo, xadrez e delírio visual.

Ficha técnica
“Ópera! - Canção Para Um Eclipse” | “The Opera!” (título original)
Gênero: musical, drama, fantasia e romance. Duração: 106 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2024. Data de lançamento: 20 de janeiro de 2025 na Itália; estreia na Reserva Imovision em setembro de 2026. Idiomas: inglês, italiano e francês. Direção: Paolo Gep Cucco e Davide Livermore. Roteiro: Paolo Gep Cucco e Davide Livermore. Elenco: Valentino Buzza, Mariam Battistelli, Vincent Cassel, Fanny Ardant, Caterina Murino, Erwin Schrott, Rossy de Palma, Angela Finocchiaro, Charlotte Gentile, Linda Gennari, Sergio Bernal e outros. Distribuição no Brasil: Imovision. Cenas pós-créditos: não identificadas. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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.: "O Declínio do Império Americano" expõe desejos e a crise de uma geração


Comédia dramática de Denys Arcand chega ao Belas Artes à La Carte e reúne professores universitários para uma noite em que sexo, política, casamento e hipocrisia entram no cardápio. Foto: divulgação

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Antes de existir aplicativo de relacionamento, antes de o sexo virar assunto de algoritmo e antes de qualquer reunião de amigos terminar com alguém dizendo que o outro precisa “fazer terapia”, Denys Arcand já colocava intelectuais em volta de uma mesa para falar sobre desejo, casamento, traição, política e as pequenas mentiras que ajudam a manter uma vida aparentemente organizada. Em "O Declínio do Império Americano", produção canadense de 1986 que estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, a conversa é longa, afiada e, vez ou outra, inconveniente.

O ponto de partida parece simples. Quatro professores universitários se reúnem em uma casa de campo para preparar um jantar. Enquanto cozinham, conversam sobre mulheres, sexo, relacionamentos e aventuras extraconjugais. Em outro lugar, quatro mulheres ligadas a eles passam a tarde em um clube de exercícios e fazem praticamente a mesma coisa: falam dos homens, dos próprios desejos e das relações que insistem em complicar aquilo que deveria ser simples. Quando os dois grupos finalmente se encontram, o jantar vira uma espécie de tribunal informal das relações humanas.

Arcand, que também assina o roteiro, constrói o filme praticamente em cima da palavra. São personagens que pensam, argumentam, provocam, exageram e, principalmente, falam demais. E justamente aí está uma das graças da produção. O cineasta não tem pressa para chegar ao conflito. Prefere deixar que os personagens revelem quem são pelo que dizem e, principalmente, pelo que falam quando acreditam estar entre pessoas que pensam como eles.

O resultado é uma comédia dramática bastante particular, com humor ácido e uma dose generosa de cinismo. Sexo aparece por todos os lados, mas não como simples provocação. As conversas sobre amantes, casamento, fidelidade, homossexualidade, fantasias e relações paralelas servem para expor a distância entre aquilo que os personagens defendem intelectualmente e a maneira como conduzem a própria vida.

A ironia fica ainda melhor porque todos parecem saber muito sobre o comportamento humano. São professores, intelectuais, leitores, homens e mulheres acostumados a teorizar sobre a sociedade. Quando o assunto chega à própria intimidade, porém, a erudição começa a escorregar. Saber explicar o mundo, afinal, nunca garantiu competência para viver dentro dele. No centro dessa engrenagem está Rémy, interpretado por Rémy Girard, personagem que reapareceria em "As Invasões Bárbaras", de 2003. Casado com Louise, vivida por Dorothée Berryman, ele representa uma geração formada sob o discurso da liberdade sexual e das rupturas com os valores tradicionais. O problema é que liberdade, na prática, costuma cobrar uma conta que a teoria não prevê.

Dominique Michel, Dorothée Berryman, Louise Portal e Pierre Curzi lideram um elenco que também conta com Rémy Girard, Yves Jacques, Geneviève Rioux, Daniel Brière e Gabriel Arcand. A atuação depende muito da naturalidade dos diálogos, já que Arcand coloca os personagens em situações nas quais conversar é praticamente uma modalidade de combate. A estrutura também ajuda a criar uma espécie de duelo entre homens e mulheres. Os dois grupos parecem estar separados geograficamente, mas discutem praticamente os mesmos assuntos. Homens falam das mulheres, que falam dos homens e todos falam de sexo enquanto ninguém parece especialmente interessado em admitir que seja parte do problema.

O título "O Declínio do Império Americano" carrega uma provocação que vai muito além dos Estados Unidos. A expressão serve como metáfora para a deterioração de determinados valores associados à sociedade ocidental: casamento, família, fidelidade, religião, moral e uma ideia mais tradicional de organização social. Arcand olha para esse processo com uma mistura de ironia e desencanto, sem transformar os personagens em simples porta-vozes de uma tese.

Produzido em meados dos anos 1980, o filme também registra uma época bastante específica. O surgimento da Aids, as mudanças nos costumes, o avanço das discussões sobre liberdade sexual e a ressaca das utopias políticas das décadas anteriores fazem parte do ambiente em que esses personagens circulam. O próprio filme parece interessado em observar o que acontece quando uma geração que passou a juventude questionando regras precisa descobrir como viver depois que algumas dessas regras já não parecem tão sólidas.

A produção teve uma trajetória internacional expressiva. Foi exibida na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes em 1986 e recebeu o Prêmio FIPRESCI. No ano seguinte, tornou-se o primeiro filme canadense indicado ao Oscar na categoria de Filme em Língua Estrangeira. O filme também ajudou a colocar Denys Arcand no circuito internacional e preparou o terreno para "As Invasões Bárbaras", que retomaria personagens e conflitos 17 anos depois. A continuação ganhou o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira em 2004.

O filme costuma ser associado a uma trilogia informal de Arcand, completada por "A Era da Inocência", de 2007. Não existe um nome oficial para esse conjunto, mas os três filmes compartilham o interesse do cineasta pelas transformações sociais, pelo desencanto e pelas contradições da vida contemporânea. Outro detalhe curioso está na própria construção do filme. Arcand reuniu o elenco antes das filmagens para longas conversas sobre política, sexo e costumes, experiência que contribuiu para a naturalidade buscada nos diálogos. A estratégia combina perfeitamente com uma produção em que a palavra ocupa tanto espaço quanto os personagens.

Quase quatro décadas depois, muita coisa mudou, mas a dificuldade de conciliar desejo e compromisso permanece intacta. As ferramentas mudaram, as palavras mudaram e os costumes ganharam novas embalagens. A velha confusão entre aquilo que se deseja, aquilo que se promete e aquilo que efetivamente se faz continua firme.


Ficha técnica
"O Declínio do Império Americano" | "Le Déclin de l'empire américain" (título original) | "The Decline of the American Empire" (título internacional)
Gênero: comédia dramática. Duração: 101 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1986. Data de lançamento: 19 de junho de 1986, no Canadá. Idioma: francês. Direção: Denys Arcand. Roteiro: Denys Arcand. Elenco: Dominique Michel, Dorothée Berryman, Louise Portal, Pierre Curzi, Rémy Girard, Yves Jacques, Geneviève Rioux, Daniel Brière e Gabriel Arcand. Distribuição no Brasil: Belas Artes à La Carte, em estreia na plataforma de streaming. Cenas pós-créditos: não. A duração oficial de 101 minutos e os créditos principais são confirmados pelo Library and Archives Canada e pela Cinemateca de Québec. O título usado em Portugal também aparece na programação oficial da Cinemateca Portuguesa. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.

.: Crítica: livro “Eu Disse Não!” coloca a democracia no cockpit e revisita a crise


Em “Eu Disse Não! - Uma Trincheira Antigolpista”, Carlos Baptista Junior abandona a distância confortável dos livros de história e conta, por dentro da Aeronáutica, como os meses entre 2021 e 2023 colocaram disciplina, hierarquia e democracia numa rota de colisão

Um país pode chegar muito perto de um golpe sem que um tanque precise atravessar a avenida. Às vezes, a crise acontece em salas fechadas, reuniões de comando, telefonemas, conversas reservadas e decisões tomadas por homens acostumados a obedecer até o momento em que obedecer pode significar colocar a própria Constituição em risco. É nesse terreno que Carlos Baptista Junior coloca o leitor em “Eu Disse Não! - Uma Trincheira Antigolpista”, publicado pela Editora Autêntica. O título já entrega a posição do autor, mas o livro é mais interessante quando deixa de ser uma declaração de princípios e passa a contar como esse “não” foi construído, sustentado e, sobretudo, quanto custou para mantê-lo.

Tenente-brigadeiro, piloto de caça, com mais de 4.500 horas de voo e quase cinco décadas de carreira na Força Aérea Brasileira, Baptista Junior comandou a Aeronáutica entre abril de 2021 e janeiro de 2023. Portanto, não escreve sobre os acontecimentos olhando para fotografias antigas. Ele estava dentro da foto. E, para alguém acostumado a voar, a expressão “cockpit”, termo em inglês usado para designar a cabine de comando de uma aeronave, ganha aqui uma dimensão curiosa: Baptista Junior estava no cockpit de uma das instituições colocadas sob pressão durante a crise.

O primeiro capítulo, “Doze Horas na Polícia Federal”, por exemplo, começa longe da solenidade dos grandes acontecimentos nacionais. O autor está com o neto, fala da rotina familiar, passa por situações corriqueiras e, de repente, a narrativa o leva para um episódio que ajuda a explicar como aquele homem chegou ao centro de uma das maiores crises institucionais da história recente do país. A estratégia aproxima o leitor do personagem antes de colocá-lo novamente diante do uniforme.

Baptista Junior escreve a partir de uma formação em que palavras como “disciplina” e “hierarquia” têm peso concreto. Só que existe uma terceira palavra que se torna decisiva: Constituição. O livro ganha densidade quando essas três ideias deixam de caber confortavelmente na mesma frase. A crise de 2021 aparece como um ponto de inflexão. A troca do ministro da Defesa, a substituição dos comandantes das Forças Armadas e a reorganização do alto comando militar revelam um ambiente em que a política já não podia ser tratada como assunto externo aos quartéis. 

Jair Messias Bolsonaro havia chegado ao poder com uma relação particular com os militares, e o livro acompanha a deterioração dessa convivência até o momento em que o papel institucional das Forças Armadas passa a ser testado de maneira brutal. O autor não precisa inventar um thriller, já que a realidade brasileira daquele período já havia feito esse trabalho com competência assustadora. A eleição de 2022 ocupa boa parte do relato e mostra uma engrenagem em movimento: questionamentos sobre as urnas, pressão política, reuniões, manifestações, expectativas dentro e fora dos quartéis e o comportamento das cúpulas militares diante da derrota de Bolsonaro. 

A narrativa acompanha os acontecimentos até a posse de Luiz Inácio Lula da Silva e chega ao ponto em que a democracia brasileira parecia estar sustentada por uma quantidade desconfortavelmente pequena de bom senso. O livro desmonta, com detalhes, aquela impressão posterior de que a tentativa de ruptura teria sido uma maluquice improvisada por meia dúzia de exaltados. O autor descreve um ambiente em que a possibilidade de golpe foi discutida, estimulada e considerada por setores que tinham acesso real às estruturas de poder. 

“Eu Disse Não!” é um livro sobre o limite da obediência, questão capaz de incomodar quem enxerga as Forças Armadas como guardiãs naturais da política. Baptista Junior apresenta uma instituição composta por pessoas, disputas, interesses, avaliações e diferentes compreensões sobre até onde poderia ir a atuação militar. A democracia, no livro, não aparece protegida por uma entidade abstrata chamada “instituições”, mas depende de indivíduos tomando decisões.

O mérito da obra está em mostrar que uma ruptura institucional exige mais do que discursos sobre democracia. Em determinados momentos, alguém precisa estabelecer um limite e aceitar as consequências de fazê-lo. O relato ganha interesse quando o autor também se permite olhar para a própria trajetória. Piloto de caça, comandante e homem formado dentro da FAB, ele conhece profundamente o universo que descreve. O leitor percebe a linguagem, os códigos e a lógica de funcionamento de uma organização em que a cadeia de comando pode determinar o destino de uma instituição inteira.

O livro acerta ao não transformar esse gesto em fantasia heroica de história em quadrinhos. Mesmo quando o autor assume claramente um lado, permanece a sensação de que está reconstruindo um período complicado, cheio de zonas de tensão e escolhas difíceis. O leitor acompanha os bastidores e percebe que o país esteve perto de uma situação cuja dimensão fica mais nítida quando os episódios são colocados em sequência.

Existe ainda uma ironia involuntária e bastante brasileira em tudo isso. Um país que passou décadas discutindo o papel dos militares na política chegou ao século XXI diante de uma pergunta quase primitiva: o que faz um militar quando recebe ou percebe uma ordem que entra em choque com a Constituição?

“Eu Disse Não!” ganha força quando deixa de lado a caricatura do herói solitário e permite que apareçam o homem dentro da farda, o comandante dentro da instituição e a instituição dentro de uma crise política que extrapolou os muros dos quartéis. É uma leitura especialmente interessante para quem acompanhou os acontecimentos de 2021 e 2022 e ficou com a impressão de que faltavam algumas peças do quebra-cabeça. Compre o livro "Eu Disse Não", de Carlos Baptista Junior, neste link.

sábado, 12 de setembro de 2026

.: Crítica: "A Estranha na Cama", romance mais apimentado de Raphael Montes


Novo romance de Raphael Montes mistura sexo, ambição, mentira e vingança numa história em que ninguém permanece inocente por muito tempo. Foto: divulgação

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Novo romance de Raphael Montes, “A Estranha na Cama”, começa com uma mulher, Laura, chegando à delegacia com sangue nas roupas. Ela está com um casamento em ruínas e uma história que parece pronta para ser contada. Na sala ao lado, Diego, advogado criminalista e marido dela, também presta depoimento. O problema é que os dois contam histórias diferentes. E, como o autor sabe muito bem, em uma investigação policial a história bem contada pode ser tão perigosa quanto a sentença final.

Publicado pela Companhia das Letras, o romance tem gosto de escândalo de classe média alta: um casal carioca, bonito, rico, socialmente bem relacionado e aparentemente feliz resolve apimentar o casamento com uma terceira pessoa. A experiência termina com a morte de Julia, amante de Diego. A partir daí, entram em cena chantagens, traições, vídeos íntimos, dinheiro, violência e uma quantidade bastante razoável de gente interessada em salvar a própria pele. Raphael Montes  poderia se contentar com esse cardápio. Prefere, porém, preparar outra conversa.

A estrutura em depoimentos é um dos grandes acertos do livro. Laura e Diego apresentam versões dos acontecimentos que se chocam e se corrigem mas, sobretudo, levantam novas suspeitas. A delegada Patrícia Custódio Revoredo funciona como uma espécie de editora implacável da história: pergunta, volta ao ponto anterior, percebe contradições e deixa os personagens se enforcarem com as próprias argumentações. O efeito é eficiente porque o leitor passa a desconfiar até daquilo que acabou de ler.

Laura é a personagem mais interessante do romance. Vinda de uma família pobre, marcada por uma relação familiar violenta e acolhida pelo universo confortável da família Guimarães Prata, ela constrói uma vida que parece saída de uma propaganda de sabonete caro: cobertura em Ipanema, viagens, festas, contatos influentes, marido bem-sucedido e uma floricultura para chamar de sua. Aos poucos, porém, fica evidente o preço daquele cenário. O casamento, afinal, tem seus contratos. Alguns estão no papel, outros são erguidos entre expectativas, dependências e concessões.

O romance também acerta ao colocar a imprensa e a exposição pública dentro da engrenagem do crime. O julgamento se transforma em espetáculo, com jornalistas, fotógrafos, curiosos, fofocas e vídeos íntimos circulando como combustível para uma história que já perdeu qualquer possibilidade de privacidade. O thriller conversa, assim, com uma época em que uma investigação pode acontecer simultaneamente na delegacia, no tribunal e nas redes sociais.

Raphael Montes sabe esconder as cartas. Uma informação aparentemente banal pode ganhar outro significado algumas dezenas de páginas depois,. O leitor acompanha as versões, suspeita de uma, abandona outra e, quando acredita ter entendido o jogo, descobre que talvez tenha prestado atenção à pergunta errada.

“A Estranha na Cama” também fala sobre pessoas que passam tempo demais tentando representar aquilo que acreditam que os outros esperam delas. Laura representa a esposa perfeita. Diego, o marido bem-sucedido. A família, a respeitabilidade. A imprensa, por sua vez, procura a verdade enquanto devora o escândalo. Raphael Montes escreve com velocidade, mas não confunde rapidez com pressa. O texto avança porque sempre existe alguma coisa esperando nas páginas adiante. 

O livro reafirma Raphael Montes como um escritor que entende muito bem o prazer popular do suspense sem tratar o leitor como alguém que precisa receber tudo mastigado. O livro quer divertir, provocar, chocar e, de quebra, brincar com a vontade quase infantil de descobrir quem está mentindo. Compre “A Estranha na Cama”, novo romance de Raphael Montes, neste link.

.: "Barbarella", ficção científica com Jane Fonda, é um delírio psicodélico e sensual


Produção de Roger Vadim leva Jane Fonda ao espaço em uma aventura que mistura erotismo, humor, exagero e uma boa dose de maluquice

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

No ano 40.000, as guerras ficaram para trás e a humanidade vive em uma sociedade pacificada. O problema é que alguém resolveu mexer nessa tranquilidade. Quando o cientista Durand Durand desenvolve uma arma capaz de provocar uma destruição em escala interplanetária, Barbarella (Jane Fonda) recebe do Presidente da Terra (Claude Dauphin) a missão de encontrá-lo e impedir que o invento caia nas mãos erradas. Dirigido por Roger Vadim e lançado em 1968, "Barbarella" , que estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, parece ter sido concebido depois de uma reunião em que alguém sugeriu colocar ficção científica, quadrinhos, erotismo, humor camp - aquele que celebra o exagero, a teatralidade e a artificialidade de forma irônica e consciente -, cenários psicodélicos e Jane Fonda dentro de um mesmo foguete. O resultado é tão peculiar que tentar enquadrá-lo nos padrões tradicionais do gênero pode ser uma atividade perigosa.

Quase seis décadas depois, o filme continua sendo uma cápsula espacial dos anos 1960: leva para o futuro as fantasias, os exageros e as contradições de seu próprio tempo. E Jane Fonda, no centro de tudo, permanece como a comandante perfeita para essa viagem tão extravagante quanto impossível de levar completamente a sério. Baseado na personagem criada pelo francês Jean-Claude Forest, o filme acompanha uma heroína espacial de aparência exuberante e comportamento quase ingênuo.

Barbarella percorre planetas, enfrenta vilões, encontra criaturas estranhas e passa por situações que transformam o erotismo em uma espécie de linguagem oficial daquele futuro. A sexualidade está espalhada por praticamente todos os cantos da produção. A famosa abertura, com Jane Fonda despindo-se enquanto os créditos aparecem, ajudou a transformar a atriz em símbolo sexual e continua sendo uma das imagens mais lembradas do filme. A personagem, contudo, também apresenta uma curiosa combinação de sensualidade e inocência: para Barbarella, o prazer não carrega o peso moral que costuma acompanhar personagens femininas em aventuras desse tipo.

Essa liberdade sexual, vista hoje, permite uma leitura dupla. De um lado, existe uma personagem feminina que circula por um universo no qual o desejo não precisa ser tratado como pecado. De outro, a câmera masculina de Vadim encontra inúmeras oportunidades para explorar o corpo de Fonda. A fantasia futurista pode ser libertária, mas também revela bastante sobre os desejos de quem estava atrás das câmeras. E o filme não economiza na imaginação visual. Cenários coloridos, figurinos extravagantes, objetos futuristas e criaturas que parecem ter escapado de uma história em quadrinhos compõem um universo deliberadamente artificial. A direção de arte e a fotografia de Claude Renoir ajudam a sustentar essa estética, que prefere o desenho, a textura e o exagero aos efeitos especiais sofisticados.

A produção foi realizada em uma época em que "2001: Uma Odisseia no Espaço" também chegava aos cinemas, o que torna inevitável a comparação. Só que as ambições são bem diferentes. "Barbarella" não pretende construir uma experiência científica ou filosófica. Roger Vadim abraça o absurdo e trata a ficção científica como uma extensão dos quadrinhos, com humor, erotismo e uma estética deliberadamente exagerada. Essa escolha explica parte da permanência do filme. "Barbarella" envelheceu mal em alguns aspectos técnicos e narrativos, mas sobreviveu de maneira curiosamente interessante em outros. A precariedade de determinados efeitos, que pode provocar risadas involuntárias, também contribui para o charme de uma produção que nunca parece interessada em ser discreta.

A quantidade de roteiristas ajuda a explicar a sensação de irregularidade. Terry Southern escreveu uma primeira versão, enquanto Roger Vadim, Jean-Claude Forest e outros nomes aparecem nos créditos finais. A história passou por sucessivas intervenções durante a produção. Jane Fonda, por sua vez, encontrou em Barbarella uma personagem que se tornaria inseparável de sua imagem naquele período. Antes dela, outras atrizes foram consideradas para o papel, entre elas Brigitte Bardot, Virna Lisi e Sophia Loren. Fonda inicialmente demonstrou dúvidas, mas acabou convencida por Vadim, então seu marido.

O curioso é que a atriz não fica reduzida à função de enfeite espacial. A Barbarella dela possui uma ingenuidade quase infantil diante das situações que encontra, enquanto o mundo ao redor parece empenhado em sexualizar tudo o que se move. Esse contraste ajuda a sustentar o humor da produção e impede que a personagem seja apenas uma sucessão de poses sensuais. Também existe uma boa coleção de bizarrices no caminho: o anjo cego Pygar (John Phillip Law), a Rainha Negra (Anita Pallenberg), o Professor Ping (Marcel Marceau), o revolucionário Dildano (David Hemmings) e o cientista Durand Durand (Milo O'Shea) formam uma galeria de figuras tão excêntricas quanto os cenários que habitam. A cidade de Sogo, inclusive, brinca com a referência bíblica a Sodoma e Gomorra.

A recepção crítica sempre oscilou entre o encanto e a irritação. Algumas avaliações enxergam em "Barbarella" uma fantasia adulta refrescante, visualmente inventiva e assumidamente camp. Outras encontram uma narrativa frouxa, humor irregular e uma exploração excessiva da sensualidade de Fonda. Essa combinação explosiva transformou o filme em objeto de culto. "Barbarella" pode ser lento, exagerado, sexualmente datado e narrativamente irregular. Também pode ser colorido, inventivo, divertido e estranhamente fascinante. Depende bastante do quanto o espectador aceita entrar na brincadeira.


Ficha técnica
"Barbarella" (título original) 
Gênero: Ficção científica, aventura, comédia e fantasia. Duração: 98 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1968. Data de lançamento: 25 de dezembro de 1968, no Brasil. Idioma: nglês.
Direção: Roger Vadim. Roteiro: Terry Southern, Roger Vadim, Claude Brulé, Vittorio Bonicelli, Clement Biddle Wood, Brian Degas, Tudor Gates e Jean-Claude Forest. Elenco: Jane Fonda, John Phillip Law, Anita Pallenberg, Milo O'Shea, Marcel Marceau, David Hemmings, Ugo Tognazzi e Claude Dauphin.
Distribuição no Brasil: Paramount Pictures. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.

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