Por Cláudia Brino, escritora, ativista cultural e editora da Costelas Felinas
Ao longo do livro, o autor constrói atmosferas narrativas marcadas por um delicado equilíbrio entre estranhamento e familiaridade. Situações aparentemente banais são lentamente contaminadas por acontecimentos improváveis, gestos simbólicos e imagens de forte carga metafórica. Esse deslocamento sutil da realidade não busca o espetáculo do absurdo, mas a criação de um espaço literário em que o leitor é convidado a suspender certezas e aceitar novas formas de sentido. Em Amores Improváveis, o fantástico não serve como fuga, mas como lente de ampliação da realidade emocional e subjetiva.
JC. Sibila apresenta uma linguagem simbólica e metafórica, utilizando-a como ferramenta central de construção narrativa. Cada conto opera como uma espécie de alegoria aberta, permitindo múltiplas camadas de leitura e interpretação. Os símbolos não são fechados nem didáticos; ao contrário, permanecem em estado de tensão, convocando o leitor a participar ativamente do processo de significação. Há, nesses textos, uma clara recusa de respostas prontas, o que confere à obra uma densidade reflexiva rara e instigante.
Embora dialogue com a tradição do realismo mágico latino-americano, o autor não se limita à reverência estética. Sua escrita revela uma apropriação autoral, reinterpretando-o à luz de inquietações contemporâneas e de uma sensibilidade própria. O nonsense, quando aparece, não funciona como mero jogo formal, mas como expressão legítima das contradições do desejo, da memória e da afetividade. O resultado é uma literatura que transita entre o poético e o psíquico, explorando zonas de ambiguidade onde o racional já não dá conta da experiência humana.
Os contos de "Amores Improváveis" sugerem, de maneira recorrente, um mergulho no inconsciente. Personagens são frequentemente confrontados com forças que escapam à lógica convencional, como se o texto encenasse conflitos internos, afetos reprimidos e lembranças fragmentadas sob a forma de acontecimentos mágicos ou inexplicáveis. O improvável, nesse contexto, torna-se não apenas possível, mas necessário: é por meio dele que a obra alcança uma compreensão mais profunda e poética da existência.
Outro aspecto relevante da coletânea é sua abordagem dos afetos. O amor, longe de ser tratado de forma idealizada ou romântica, aparece como experiência ambígua, por vezes desconcertante, atravessada por ausências, estranhamentos e desencontros. São amores que desafiam expectativas, normas e certezas — amores que, justamente por sua improbabilidade, revelam verdades íntimas e universais. A escrita de JC. Sibila captura essas experiências com delicadeza, evitando excessos sentimentais e apostando na sugestão, no silêncio e na entrelinha.
Mais do que contar histórias, "Amores Improváveis" constrói um ritmo de leitura que exige entrega e contemplação. O livro se posiciona contra a pressa interpretativa e a lógica do consumo rápido, propondo uma experiência literária mais lenta e reflexiva. Cada conto deixa ressonâncias, perguntas em aberto e imagens persistentes, prolongando-se para além da última página. A leitura se transforma, assim, em um processo de escuta sensível e de disponibilidade ao enigma.
Ao final, a obra se revela como um convite à percepção do invisível que habita o cotidiano. Amores Improváveis sugere que a magia não está nos eventos extraordinários em si, mas na forma como aprendemos a olhar para aquilo que não compreendemos plenamente. Com uma escrita precisa, elegante e profundamente evocativa, JC. Sibila oferece ao leitor um livro que desestabiliza suavemente, provoca reflexão e reafirma o poder da literatura como espaço de mistério, descoberta e ampliação da experiência humana. Aquisição: https://catalogocostelasfelinaseditora.blogspot.com/2025/04/conto-amores-improvaveis-jc-sibila.html









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