segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

.: #LeituraMiau: as sequência de "Poesias Polêmicas" de Amador Maia


Por Cláudia Brino, escritora, ativista cultural e editora da Costelas Felinas

Em "Poesias Polêmicas 2", Amador Maia reafirma a poesia como território de confronto, denúncia e memória. A obra se debruça sobre uma das feridas mais abertas da sociedade contemporânea - o feminicídio - e o faz sem suavizações, sem metáforas confortáveis ou distanciamento estético. Trata-se de um livro que não busca apenas emocionar, mas inquietar, desestabilizar e exigir posicionamento.

Os poemas que compõem o livro funcionam como um memorial poético às mulheres assassinadas pela violência de gênero. Cada verso carrega a dor interrompida, o silêncio imposto, os sonhos abortados. Maia escreve a partir da urgência: seus poemas não pedem licença, não ornamentam a tragédia, não transformam a violência em espetáculo. Pelo contrário, expõem o horror cotidiano que muitas vezes é naturalizado, reduzido a números frios ou notícias efêmeras.

A linguagem direta e, por vezes, áspera, é uma escolha ética e estética. Ao evitar eufemismos, o autor recusa qualquer forma de complacência com a violência. Sua poesia é denúncia, mas também é luto coletivo. É o reconhecimento de que cada mulher assassinada representa uma falha social, política e cultural. Nesse sentido, o livro ultrapassa o campo individual da dor e aponta para estruturas históricas de opressão, machismo e silenciamento.

"Poesias Polêmicas 2" também se constrói como um gesto de resistência. Ao dar voz às que foram caladas Maia transforma a palavra poética em ato político. Há, nos poemas, uma tentativa de resgatar humanidade onde houve brutalidade, de devolver nome, corpo e memória a quem foi reduzida à estatística. A poesia surge, assim, como ferramenta de enfrentamento e de permanência: enquanto se escreve, a violência não é esquecida.

Mais do que um livro de poesia, a obra é um chamado à consciência. O autor convoca o leitor a sair da posição confortável de espectador e a refletir sobre seu papel diante dessa realidade persistente. Ler "Poesias Polêmicas 2" é aceitar o desconforto e compreender que a literatura pode - e deve - intervir no mundo.

Essencial e necessário, o livro de Amador Maia, Costelas Felinas Editora,  Reafirma o poder da poesia como instrumento de denúncia social e transformação. É um lembrete contundente de que a palavra, quando comprometida com a vida, pode manter acesa a memória das mulheres que partiram cedo demais e fortalecer a luta por justiça, dignidade e igualdade.

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4 comentários:

  1. Que ideia linda! Parabéns 👏👏👏

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  2. Utilíssimo e agradável. Um ornamento de cultura e "utilidade pública" . Muito bom!

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  3. A vida é um jogo. Ou uma batalha.
    "Poesias polêmicas", de Amador Maia, chega para dizer de uma inquietação que perdura por séculos; para falar que no tabuleiro da sociedade as peças devem respeitar a Rainha, cujo poder intrínseco herdou o direito divino de ir e vir, em quaisquer sentidos, e que a sua posição ao lado do "rei-homem" não é um adorno no esquema da vida, mas um aviso de que, em face de um perigo iminente, ela pode, com proeminência, inverter o jogo.

    H. Francisconi

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