Por Cláudia Brino, escritora, ativista cultural e editora da Costelas Felinas
Os poemas que compõem o livro funcionam como um memorial poético às mulheres assassinadas pela violência de gênero. Cada verso carrega a dor interrompida, o silêncio imposto, os sonhos abortados. Maia escreve a partir da urgência: seus poemas não pedem licença, não ornamentam a tragédia, não transformam a violência em espetáculo. Pelo contrário, expõem o horror cotidiano que muitas vezes é naturalizado, reduzido a números frios ou notícias efêmeras.
A linguagem direta e, por vezes, áspera, é uma escolha ética e estética. Ao evitar eufemismos, o autor recusa qualquer forma de complacência com a violência. Sua poesia é denúncia, mas também é luto coletivo. É o reconhecimento de que cada mulher assassinada representa uma falha social, política e cultural. Nesse sentido, o livro ultrapassa o campo individual da dor e aponta para estruturas históricas de opressão, machismo e silenciamento.
"Poesias Polêmicas 2" também se constrói como um gesto de resistência. Ao dar voz às que foram caladas Maia transforma a palavra poética em ato político. Há, nos poemas, uma tentativa de resgatar humanidade onde houve brutalidade, de devolver nome, corpo e memória a quem foi reduzida à estatística. A poesia surge, assim, como ferramenta de enfrentamento e de permanência: enquanto se escreve, a violência não é esquecida.
Mais do que um livro de poesia, a obra é um chamado à consciência. O autor convoca o leitor a sair da posição confortável de espectador e a refletir sobre seu papel diante dessa realidade persistente. Ler "Poesias Polêmicas 2" é aceitar o desconforto e compreender que a literatura pode - e deve - intervir no mundo.
Essencial e necessário, o livro de Amador Maia, Costelas Felinas Editora, Reafirma o poder da poesia como instrumento de denúncia social e transformação. É um lembrete contundente de que a palavra, quando comprometida com a vida, pode manter acesa a memória das mulheres que partiram cedo demais e fortalecer a luta por justiça, dignidade e igualdade.













Que ideia linda! Parabéns 👏👏👏
ResponderExcluirBom demais.
ResponderExcluirUtilíssimo e agradável. Um ornamento de cultura e "utilidade pública" . Muito bom!
ResponderExcluirA vida é um jogo. Ou uma batalha.
ResponderExcluir"Poesias polêmicas", de Amador Maia, chega para dizer de uma inquietação que perdura por séculos; para falar que no tabuleiro da sociedade as peças devem respeitar a Rainha, cujo poder intrínseco herdou o direito divino de ir e vir, em quaisquer sentidos, e que a sua posição ao lado do "rei-homem" não é um adorno no esquema da vida, mas um aviso de que, em face de um perigo iminente, ela pode, com proeminência, inverter o jogo.
H. Francisconi