quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

.: Manual Crônico, de Thiago Sobral: Crime hediondo


Se é crime, me submeterei ao julgamento, ouvirei a sentença, aceitarei a condenação.

Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_.


Há pecados, pecadinhos, pecadões. Há crimes e crimes, diriam os relativistas. Pecado é sempre pecado, ressoa até hoje minha grudenta herança católica. Suporta-se mais ou menos o crime alheio conforme ele diz algo sobre nós. Disso decorre a absolvição ou sentença do réu.

Cometo crimes há muito tempo. O primeiro foi nascer, diz a Palavra. A mancha original, herdada do primeiro homem, firmou-se em mim até o meu batismo, coisa que ocorreu quase dois anos depois que fui parido. Três jorros de água em minha careca infante, em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, amém, apagaram o pecado. Os banhos de mamãe, ainda que diários, não foram suficientes, tadinha.

Também cometi outros crimes mais ou menos dignos ou indignos, que talvez causem identificação no leitor. Já furei sinal vermelho, dormi sem escovar os dentes ou tomar banho, bebi água na boca da garrafa, furei fila, ouvi conversa alheia, etc., etc. Já até fui parar na delegacia. Mas há um crime do qual tenho muita vergonha (fazer faxina no nariz enquanto, no carro, espero o sinal abrir). Juro que é só de vez em quando, por isso não vou contar nunca, mas o amigo deve saber qual é.

Espero, de coração, que eu não seja o único pecador e criminoso deste século. Houve uma época em que tinha certeza da existência de outros… Havia gente que assassinava o semelhante, desviava dinheiro público, roubava o pertence alheio, difamava o irmão e tantas outras coisas. Crimes e pecados para todos os gostos e métodos. A depender da empatia dos demais, a sentença era dura ou branda — ou nem existia. Não sei se hoje ainda existem tais criminosos e seus pecados…

O fato é que o crime praticado nem sempre é transgressão. Pode ser um mero ato de sobrevivência, um protesto, uma subversão. A depender de quem o comete, a depender dos olhos que assistem, da cabeça que julga e da mão que condena, a condescendência, muita vez, é generosa, e deixamos passar. Afinal, um pecadinho a mais não deixará o inferno superlotado, e no céu há sempre espaço para mais um ladrão arrependido.

Há um pecado, porém, que não pode ser cometido nunca. Para ele não há perdão. É o maior e mais ofensivo que se pode praticar. Um verdadeiro crime hediondo, diz a minha experiência. E, para mim, não há saída, pois o cometo frequentemente. Dele não consigo me livrar. É um vício: habita minha alma, corre nas minhas veias e domina minhas sinapses cerebrais. Sempre que o cometo, recebo olhares atravessados, reações de espanto, caretas de repulsa. Pessoas que não estão presentes me enviam mensagens de advertência, julgamento e condenação, preocupadas com minha sanidade mental.

Devo deixar claro que, apesar de hediondo, esse crime não me incomoda. Minha alma, ainda que batizada, já está condenada a ele. Cometo-o sem peso na consciência, antes, muito consciente da culpa e do dolo. Desconfio que a repulsa por esse crime diga mais sobre os outros do que sobre mim. Por isso, aviso a todos, grito a plenos pulmões: VOU CONTINUAR COMETENDO ESTE CRIME, DOA A QUEM DOER. E f*d@-53.

Mas que crime é esse, meu patrão? Confesso que é grave, gravíssimo, diria José Dias. O crime, caro leitor, é ler na praia. Algumas páginas bobas, um livrinho qualquer, nada demais. Não consigo agir de outro modo. Sou um praticante inveterado dessa tipologia criminal, mas o povo não se acostuma. Insiste em me julgar, em querer condenar. Ficam abismados com o fato de eu não aproveitar a praia com outras coisas, enquanto estou nela. Não dão conta de tamanha ofensa.

Paciência, Iracema, paciência…, diria Adoniran. Se ler na praia é pecado, morrerei pecando. Se é crime, me submeterei ao julgamento, ouvirei a sentença, aceitarei a condenação.

Factum est.
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