sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

.: #VivoLendo: “A Noite do Futuro”, de Murilo Alonso de Oliveira


Por 
Vieira Vivo, escritor e ativista cultural.

... percebi que a grande noite havia chegado.

Segunda metade do Século XXI, o planeta assiste horrorizado a grande catástrofe denominada “tomada” ou a elevação acentuada do nível do mar sobre extensas regiões do globo terrestre. Cidades inteiras e suas populações submergem diante das avalanches aquáticas e das alterações climáticas e o que resta da  humanidade passa a sobreviver num círculo restrito à pesca, caça, trabalhos braçais e pequenos comércios alojados em  casebres incrustados nos povoamentos construídos nos picos mais altos dos morros, fora do alcance das águas. 

Essa inquietante ficção distópica nos alerta de forma direta e oportuna sobre como os rumos de uma civilização consumista e poluidora poderão resultar em uma involução de nossa sociedade. O livro “A Noite do Futuro” de Murilo Alonso de Oliveira, publicado pela Editora Costelas Felinas, retrata a cidade de Santos submersa, com a pequena população sobrevivente isolada e totalmente desassistida por um governo federal omisso, distante e centralizado. As escolas presenciais desaparecem e os estudos são conduzidos através de intra-redes em pequenos aparelhos eletrônicos e o assistencialismo social é protagonizado apenas pelas pequenas igrejas evangélicas. A comunicação entre as ilhas remanescentes é feita através de rústicas embarcações denominadas “navegáveis”, construídas de lona, cordas e garrafas plásticas. 

Neste cenário ingrato, o autor desenvolve a lida diária dos personagens litorâneos, suas angústias, carências e convivência familiar. A resignação coletiva diante da realidade potencialmente avassaladora nos remete a situações encontradas em outros textos em que Santos e seus habitantes são cruamente retratados, tais como Plínio Marcos, Afonso Schmidit e a prosa de Vicente de Carvalho. Um livro merecedor de maior visibilidade pelo conteúdo, pela estrutura e pela complexidade narrativa e, ainda, nos deixa perplexos quanto ao que poderá advir após a última página.
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