sexta-feira, 28 de agosto de 2026

.: "Depois que Abri a Porta do Mar" leva Gabriela Curry à Bienal do Livro de SP


Autora transforma 25 anos entre Brasil e Portugal em crônicas sobre identidade, preconceito, feminismo, amadurecimento e as experiências que ajudam a construir uma trajetória

A escritora, jornalista e publicitária Gabriela Curry participa pela primeira vez da Bienal do Livro de São Paulo, que acontece de 4 a 13 de setembro, para apresentar "Depois que Abri a Porta do Mar - Crônicas entre Dois Continentes", publicado pela Editora Lacre. O livro reúne crônicas inspiradas nos 25 anos em que a autora viveu entre Brasil e Portugal, depois de deixar o Espírito Santo, em 2001. "Eu estou em êxtase! Nem nos meus sonhos mais loucos imaginei que teria o meu metro quadrado na Bienal", conta Gabriela.

No dia 6 de setembro, a autora participa de um bate-papo no Espaço Escreva Garota, ao lado de Kika Gama Lobo e Manika Apsara. Com o tema "O que uma mulher precisa atravessar para contar a própria história?", o encontro aborda assuntos como silenciamentos, autorização para escrever, envelhecimento e carreira. Depois da conversa, as três autoras permanecem no espaço para conversar com o público, vender e autografar os livros.

"Foi justamente através de um impulsionamento da Kika que surgiu a ideia de criar o livro", explica Gabriela. Para transformar a proposta em publicação, ela resgatou textos escritos desde a adolescência e passou um mês em cafeterias do Rio de Janeiro reunindo materiais produzidos ao longo de duas décadas.

O título surgiu depois, a partir de uma imagem que traduz a relação afetiva da autora com os dois países. "Esse Atlântico tem uma porta. Imaginária, poética, mas muito real para mim. Eu a abro e chego em casa, em Portugal. Abro-a de novo e retorno para casa, no Brasil. Há 25 anos vivo nesse vai e vem atravessando essa porta sempre aberta e construindo, entre as duas margens, o meu caminho. E casa não é forçosamente um espaço físico, é mais um sentimento. Eu encontro abrigo nos dois lugares", afirma.

As experiências dessa travessia aparecem em diferentes momentos do livro. Gabriela recupera os primeiros anos de adaptação em Portugal, as impressões provocadas pela escola e a experiência de crescer longe do país onde nasceu. Também revisita o retorno ao Brasil, aos 34 anos, justamente a idade em que a mãe havia emigrado para Portugal.

"Há muitos textos que narram os primeiros anos de adaptação: as impressões, os sentimentos e as situações vividas nas escolas. Alguns contam como eu e minha irmã nos emancipamos tão cedo e a importância da confiança e educação da nossa mãe para enfrentarmos muitas coisas. Existem outros sobre os primeiros anos da minha volta ao Brasil, aos 34 anos — a mesma idade em que minha mãe emigrou para Portugal. É uma mistura interessante, porque o leitor acompanhará dois processos vividos em momentos e idades muito diferentes da minha vida", explica.

A escrita acompanha Gabriela desde cedo. Formada em Jornalismo pela Universidade do Porto, ela conta que sempre ouviu de pessoas próximas que deveria seguir carreira na comunicação. "Sou naturalmente midiática: crio, escrevo, capto, edito e tenho pouquíssima dificuldade em falar diante de uma câmera. Claro que ninguém nasce sabendo; vamos aprimorando, errando e aprendendo ao longo do caminho. Mesmo nos curtos períodos em que não tinha vínculos empregatícios, eu roteirizava, captava e editava meus próprios conteúdos para o Instagram", relata.

Depois da graduação, concluída em 2017, Gabriela tomou uma decisão ousada: comprou uma passagem só de ida para o Brasil com o objetivo de trabalhar como repórter. O destino foi o Rio de Janeiro. Em 2018, entregou um currículo na sede da Band e pouco tempo depois foi contratada. A passagem pela emissora durou alguns meses e é definida por ela como uma experiência "intensa e impactante".

A trajetória profissional, porém, encontrou novos caminhos na publicidade. Gabriela passou a construir carreira na área e se especializou em gestão de atendimento, atividade que reúne organização, visão estratégica e compreensão ampla do marketing. "Aos poucos, fui construindo minha carreira nessa área. Acabei me encontrando dentro da gestão de atendimento, uma área essencialmente relacional, que exige muita organização, visão estratégica e uma compreensão 360º do marketing. Minha primeira grande experiência em uma empresa global foi na Ogilvy Brasil, e ela foi uma verdadeira escola. Trabalhei com grandes marcas, processos altamente dinâmicos e desafios complexos. Foi uma base muito sólida e forte para a construção da minha carreira", conta.

Essa trajetória entre diferentes áreas e países também está presente nas páginas de "Depois que Abri a Porta do Mar". Aos 15 anos, Gabriela chegou a Portugal e passou a experimentar o cotidiano sob a perspectiva da cultura portuguesa. No lugar de Machado de Assis, conheceu Luiz de Camões. Antes do almoço e do jantar, incorporou o hábito português de tomar sopa. Entre costumes, descobertas e adaptações, construiu uma identidade marcada pela mistura das duas culturas.

Aos 16 anos, começou a trabalhar em telemarketing, uma experiência que, somada às viagens pela Europa e ao contato precoce com o universo profissional, ajudou a moldar sua personalidade. "Trabalhar tão cedo moldou traços da minha personalidade, como esse meu lado tão social e extrovertido. Trabalhar, e conviver com adultos já formados, inclusive em dado momento com a minha própria mãe, que pagavam boletos e tinham suas próprias responsabilidades, me deu muito cedo um senso de compromisso e responsabilidade com tudo o que faço", afirma.

A convivência entre Brasil e Portugal também provocou questionamentos sobre pertencimento. Gabriela passou por momentos em que não sabia exatamente como definir sua identidade ou explicar de onde era. "Hoje, é uma diversão que conduzo com leveza, mas houve momentos de crise, sem saber exatamente de onde eu era, a que lugar pertencia ou como deveria escrever. Eu não sabia nem como me apresentar. 'Mas és brasileira ou portuguesa?', 'onde você nasceu?'. Decidi incorporar tudo: sou brasileira, lusa, escrevo e falo tudo misturado. Atualmente, quando estou em Portugal, falo como uma portuguesa; quando estou no Brasil, falo como uma brasileira", relata.

O sentimento de não pertencimento também esteve relacionado a episódios de xenofobia que a autora vivenciou e transformou em matéria literária. O preconceito contra brasileiras na Europa aparece em uma das crônicas do livro, assim como uma situação envolvendo a irmã de Gabriela, que aos 13 anos reagiu a uma ofensa preconceituosa dentro da escola. "Sofri com estereótipos, rótulos, preconceitos. 25 anos atrás, para muita gente na Europa, brasileira era vista apenas como prostituta ou manicure. Até você explicar que não há problema algum em ser qualquer uma das duas, a conversa costumava ser longa, ou terminava em tapa (risos). Uma das minhas crônicas, inclusive, fala de um caso em que minha irmã, aos 13 anos, voou na jugular de um sujeito que gritou no corredor da escola: 'Lá vêm as brasileiras, filhas da put&!'. Ela respondeu na hora: 'Da minha mãe você não fala!'", lembra.

A experiência pessoal acabou dando à autora uma perspectiva mais ampla sobre temas como preconceito, feminismo, racismo e os direitos da população LGBTQIAPN+. Para Gabriela, a escrita também representa uma forma de não permanecer em silêncio diante dessas questões. "São causas que não pertencem a um grupo específico; elas devem ser olhadas e defendidas ativamente por todos nós. Escrevo sobre elas porque não posso passar omissa diante das inúmeras barbáries cometidas todos os dias contra mulheres, pretos e pessoas LGBTQIAPN+. Se você se cala, pode até não cometer o crime, mas se torna cúmplice daquilo que permite que continue acontecendo", finaliza.


Sobre Gabriela Curry
Nascida em 1985, no Espírito Santo, Gabriela Curry é licenciada em Jornalismo pela Universidade do Porto, em Portugal, e também construiu carreira na área de Publicidade. Anualmente, colabora com a revista portuguesa I Love Brides, mantendo a ligação com o universo da escrita e da comunicação. Ao longo da experiência entre diferentes culturas, lugares e encontros, Gabriela passou a compartilhar nas redes sociais crônicas escritas durante boa parte da vida. Aos poucos, conquistou leitores e consolidou seu trabalho autoral.

A partir de uma inquietação da escritora Kika Gama Lobo, começou a desenvolver "Depois que Abri a Porta do Mar - Crônicas entre Dois Continentes", publicado pela Editora Lacre. Além da trajetória literária, Gabriela atua há nove anos como publicitária, com passagens por algumas das principais agências do mercado, entre elas Ogilvy, BETC Havas e Rock World. Ao longo desse período, desenvolveu projetos para grandes marcas e consolidou experiência em comunicação e gestão de contas.

Sem abandonar o jornalismo, escreve desde 2022 para a revista I Love Brides, em Portugal. Também produz roteiros, edita e cria conteúdos autorais de viagens para o Instagram, além de ter participado de diferentes projetos editoriais. No Brasil, trabalhou como repórter na TV Bandeirantes.


Serviço
Bienal do Livro de São Paulo 2026
Evento: Bate-papo "O que uma mulher precisa atravessar para contar a própria história?"
Participantes: Gabriela Curry, Kika Gama Lobo e Manika Apsara
Data: 6 de setembro de 2026
Local: Espaço Escreva Garota
Livro: "Depois que Abri a Porta do Mar – Crônicas Entre Dois Continentes"
Editora: Lacre
Onde comprar: Editora Lacre
Instagram: @gabycurry
← Postagem mais recente Postagem mais antiga → Página inicial

0 comments:

Postar um comentário

Deixe-nos uma mensagem.

Tecnologia do Blogger.