Clássico de Henry Hathaway coloca Marilyn Monroe no centro de uma trama de desejo, adultério e assassinato e chega ao catálogo da plataforma Belas Artes À La Carte
Antes de se tornar uma das maiores estrelas de Hollywood, Marilyn Monroe precisou provar muito que poderia sustentar personagens além da imagem de loira sedutora que o cinema começava a construir para ela. Em “Torrentes de Paixão”, produção de 1953 dirigida por Henry Hathaway, a atriz encontrou uma oportunidade decisiva: Rose Loomis, uma mulher ardilosa que planeja assassinar o marido, George, vivido por Joseph Cotten, com a ajuda do amante. A produção chega ao streaming pela plataforma Belas Artes À La Carte, ampliando a circulação de um clássico que já percorreu festivais e recebeu reconhecimento internacional e, além disso, é um dos trabalhos fundamentais da fase inicial da carreira da loira.
O filme acompanha dois casais hospedados nas proximidades das Cataratas do Niágara. Rose e George vivem um casamento em ruínas, enquanto Polly e Ray Cutler, interpretados por Jean Peters e Max Showalter, estão em uma lua de mel tardia. O encontro entre os quatro transforma uma viagem aparentemente tranquila em uma história de ciúme, traição e morte. O roteiro de Charles Brackett, Richard L. Breen e Walter Reisch surgiu de uma ideia do produtor Charles Brackett, que queria uma produção ambientada nas Cataratas do Niágara. Reisch propôs transformar o cenário turístico associado a casais em lua de mel em palco para um mistério de assassinato. A escolha deu ao filme uma combinação pouco habitual de romance, suspense e film noir.
As Cataratas são tratadas como presença constante na história do filme. Henry Hathaway aproveita passarelas, túneis, torres, barcos e os próprios pontos turísticos da região para construir situações de perigo. A fotografia de Joe MacDonald também contribuiu para o caráter particular da produção. Em vez do preto e branco associado ao imaginário clássico do noir, “Torrentes de Paixão” aposta no Technicolor, explorando cores fortes, sombras e contrastes. O resultado aproxima a exuberância turística das cataratas da atmosfera de ameaça que domina o casamento dos Loomis.
Marilyn recebeu o maior destaque nos créditos de “Niagara”, decisão que ajudou a consolidar o status dela como estrela. Segundo a TCM, o papel de Rose Loomis foi ampliado depois que os executivos da Fox perceberam o potencial da atriz, transformando o que seria uma simples participação em uma personagem central. O filme também marcou a estreia dela como protagonista em uma produção colorida. Depois de renegociar o contrato com o estúdio, Monroe passou a exigir que seus filmes fossem realizados em cores.
Jean Peters chegou ao elenco depois da saída de Anne Baxter, inicialmente escolhida para viver Polly Cutler. A personagem de Peters havia sido concebida como uma das figuras centrais da história, mas a ascensão de Monroe fez com que “Torrentes de Paixão” se tornasse um veículo para a nova estrela da 20th Century-Fox. Joseph Cotten interpreta George, marido atormentado, ciumento e emocionalmente instável de Rose. A combinação entre a fragilidade do personagem e a frieza calculada da mulher produz o núcleo mais sombrio da trama. O próprio Hathaway teria preferido James Mason para o papel, mas o ator recusou a participação.
Entre as imagens mais conhecidas está a sequência em que Rose aparece com um vestido rosa e canta “Kiss”, música composta por Lionel Newman, com letra de Haven Gillespie, ambos sem crédito no filme, e interpretada por Monroe. A canção retorna como elemento narrativo na trama do assassinato planejado por Rose e seu amante. A produção também deixou uma marca fora do cinema. Uma fotografia promocional de Marilyn feita para “Niagara” serviu de base, quase uma década depois, para “Marilyn Diptych”, de Andy Warhol, uma das obras mais conhecidas do artista.
Com Marilyn Monroe no primeiro grande momento de protagonismo no cinema, Joseph Cotten como o marido consumido pelo ciúme e Jean Peters como a recém-casada que acaba envolvida na trama, “Torrentes de Paixão” permanece como um capítulo importante da transformação de Monroe em estrela. No fim das contas, é uma história de assassinato filmada diante de uma das paisagens naturais mais famosas do mundo... contada de maneira bastante atrativa.
Ficha técnica
“Torrentes de Paixão” | “Niagara” (título original)
Gênero: drama, suspense, filme noir. Duração: 1h32min. Classificação indicativa: 12 anos. Ano de produção: 1953. Data de lançamento: fevereiro de 1953, nos Estados Unidos. Idioma: inglês. Direção: Henry Hathaway. Roteiro: Charles Brackett, Walter Reisch e Richard L. Breen. Elenco: Marilyn Monroe, Joseph Cotten, Jean Peters, Max Showalter, Denis O'Dea, Richard Allan, Don Wilson, Lurene Tuttle, Russell Collins e Will Wright. Distribuição no Brasil: 20th Century Fox. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.
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