quarta-feira, 16 de setembro de 2026

.: “Um Sonho de Domingo” traz família e arte sob o sol de Bertrand Tavernier


Filme de Bertrand Tavernier acompanha um domingo de verão de 1912 e transforma uma reunião familiar aparentemente tranquila em um delicado acerto de contas com o tempo, as escolhas e aquilo que ficou pelo caminho


Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Um domingo de verão pode parecer o cenário perfeito para uma reunião familiar: comida, conversa, crianças correndo pelo jardim e aquela coleção de pequenas implicâncias que só parentes sabem produzir com tanta eficiência. Em “Um Sonho de Domingo”, que estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, o diretor Bertrand Tavernier pega esse material aparentemente banal e encontra nele uma história sobre envelhecimento, arte, frustrações e escolhas que continuam incomodando mesmo quando já não há muito tempo para corrigi-las.

O filme francês de 1984 acompanha Monsieur Ladmiral (Louis Ducreux), um pintor aposentado que vive no campo desde a morte da esposa. Como acontece praticamente todos os domingos, ele recebe o filho Gonzague (Michel Aumont), a nora Marie-Thérèse (Geneviève Mnich) e os três netos. A rotina, cuidadosamente conhecida por todos, ganha outra temperatura quando chega Irène (Sabine Azéma), filha do pintor e mulher independente, inquieta e pouco afeita às convenções familiares.

A presença de Irène mexe com o pai porque ela representa uma possibilidade de vida que ele próprio deixou escapar. Ladmiral alcançou reconhecimento como artista, mas começa a olhar para a própria trajetória com certa desconfiança. Enquanto conversa com a filha sobre pintura, percebe que talvez tenha sido conservador demais justamente no campo em que poderia ter arriscado mais. Tavernier constrói o filme a partir desses pequenos deslocamentos. Não há necessidade de grandes acontecimentos para que as relações familiares revelem suas rachaduras. Um comentário, uma lembrança, uma caminhada ou uma conversa aparentemente despretensiosa carregam aquilo que os personagens nem sempre conseguem dizer diretamente.

A história se passa em 1912, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, mas o filme não se entrega ao peso histórico do período. A atenção está concentrada naquela casa, no jardim, nos personagens e na passagem das horas. A câmera de Bruno de Keyzer explora a luminosidade do interior francês e cria imagens que remetem à pintura impressionista, reforçando a ligação entre a forma do filme e o universo artístico de Ladmiral. A trilha sonora segue o mesmo caminho de delicadeza. A produção utiliza peças de música de câmara de Gabriel Fauré, ao lado de trabalhos associados a Louis Ducreux e Marc Perrone, criando uma atmosfera íntima para aquela reunião familiar.

“Um Sonho de Domingo” adapta o romance “Monsieur Ladmiral va Bientôt Mourir”, publicado por Pierre Bost em 1945. O roteiro foi escrito por Bertrand Tavernier e a filha dele, Colo Tavernier. A adaptação preserva a estrutura concentrada da obra literária e acompanha os personagens durante poucas horas, deixando que passado e presente se encontrem nas conversas e nas lembranças. Louis Ducreux, conhecido também pela atuação no teatro e pelo trabalho como compositor e dramaturgo, encontra em Monsieur Ladmiral um personagem de poucas explosões e muitas contradições. Sabine Azéma, por sua vez, injeta energia na produção como Irène, personagem que chega carregando uma liberdade que incomoda o irmão e fascina o pai.

A recepção crítica ajudou a transformar “Um Sonho de Domingo” em uma das obras mais lembradas da filmografia de Tavernier. O filme competiu pela Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1984 e o diretor recebeu o prêmio de Melhor Direção. No César, a produção levou os prêmios de Melhor Atriz, para Sabine Azéma, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Fotografia, de Bruno de Keyzer.

A própria estrutura do filme pode dividir opiniões. Para alguns espectadores, o ritmo contemplativo e a ausência de grandes reviravoltas fazem parte de seu encanto; para outros, a mesma característica pode exigir uma dose extra de paciência.  Esse contraste combina com a proposta de Tavernier. “Um Sonho de Domingo” observa uma família durante um único dia e deixa que as pequenas tensões façam o trabalho pesado. O pai olha para os filhos e, ao mesmo tempo, parece enxergar versões diferentes de si próprio. Gonzague representa a vida organizada, previsível e socialmente aprovada. Irène chega com independência, desejo e uma certa desordem atributos que o pai admira e talvez inveje um pouco.

O filme sabe encontrar drama onde a vida costuma escondê-lo: nas visitas que se repetem, nas escolhas que parecem definitivas, nas conversas que chegam tarde e naquela incômoda sensação de que algumas possibilidades ficaram para trás. Tavernier filma tudo isso com elegância, humor discreto e uma melancolia que nunca precisa levantar a voz.


Ficha técnica
“Um Sonho de Domingo” | “Un Dimanche à la Campagne” (título original) | “Um Domingo no Campo” (título em Portugal) | “A Sunday in the Country” (título internacional).
Gênero: drama. Duração: 90 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1984. Data de lançamento: 11 de abril de 1984, na França. Idioma: francês. Direção: Bertrand Tavernier. Roteiro: Bertrand Tavernier e Colo Tavernier, baseado no romance “Monsieur Ladmiral va bientôt mourir”, de Pierre Bost. Elenco: Louis Ducreux, Michel Aumont, Sabine Azéma, Geneviève Mnich, Monique Chaumette, Thomas Duval, Quentin Ogier e Katia Wostrikoff. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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