Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no Substack. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", publicado pela Editora Patuá.
Os meus dois ou três fiéis leitores já devem ter me ouvido dizer que eu, se pudesse, não trabalhava nunca. Ter de se lançar ao mundo e estar entre as gentes para — vejam bem — para produzir algo é, no mínimo, fazer das tripas coração (o ditado vem a calhar porque, por ora, não se apresenta outro melhor). Isso quando se tem coração para tal, ou quando ainda restam tripas. Como precisamos produzir a nossa existência, nos submetemos à tortura diária em troca de algum cobre que nos permita encher a barriga e, quem sabe, tirar algum prazer no que resta de vida.
Os meus dois ou três fiéis leitores já devem ter me ouvido dizer que eu, se pudesse, não trabalhava nunca. Ter de se lançar ao mundo e estar entre as gentes para — vejam bem — para produzir algo é, no mínimo, fazer das tripas coração (o ditado vem a calhar porque, por ora, não se apresenta outro melhor). Isso quando se tem coração para tal, ou quando ainda restam tripas. Como precisamos produzir a nossa existência, nos submetemos à tortura diária em troca de algum cobre que nos permita encher a barriga e, quem sabe, tirar algum prazer no que resta de vida.
Que não pedimos pela vida, é certo. Que não escolhemos o próprio contexto, todos sabemos. Agora, que teríamos de trabalhar para prover o próprio sustento? Ah, vá! Adão, seu filho de uma serpente! Eva, sacripanta do Éden! Posto isso, as eras vão avançando, e cá estamos nós, a pagar pelo crime alheio. É preciso construir todo um circo em torno de si para que se cumpra a pena. E, pasmem, nos definimos por isso. “Quem é você?”, perguntarão; “Apresente-se, por favor”, será solicitado. “Sou fulano de tal, professor — ou marceneiro, ou médico, ou advogado, ou deputado —, doutor no raio que o parta, seu criado”, poderá se responder, como se disso as maiores conclusões pudessem ser alcançadas.
Porque o trabalho tem dessas. Ocupa muito mais espaço que o coração e nos obriga a vestir a camisa até ela virar mortalha, ainda que reste algum fiapo de vida. Pois foi isso que vi um dia desses. E vi com esses meus olhos sorumbáticos de sexta-feira. Explico.
Era segunda-feira — há de se registrar. Mas os olhos eram de sexta, posso garantir. E eu que, se pudesse, não trabalhava nunca, vinha do trabalho. Era tarde, muito tarde — também há de se registrar. As mãos automáticas guiavam o volante no rumo de casa. Conformado pela existência produzida, puxei o freio de mão. Casa, para que te quero, senão para habitá-la por algumas horinhas depois do labor? Pois bem, fui à casa.
Mas antes de cruzar o portão, vinha um ônibus. Vinha um ônibus, e havia um homem. Estava sentado o homem no degrau do comércio fechado, alguns palmos (ou metros?) distante do local de parada do coletivo. Cabeça curvada, apontada para as mãos, talvez com os ouvidos tampados. Ergueu-se de súbito, à cata de um tiro que vinha. Lançou-se ao meio-fio, ocupou um dos bolsos, ergueu o outro braço, esticou o indicador. Tarde demais. Apenas poeira e vento alcançaram seus dedos. Restou-lhe bater as asas nos flancos e agitar a cabeça.
Agora, havia apenas um homem com olhos no chão. O andar mocorongo, no mesmo rumo do ônibus que passou. Certamente saía do trabalho. Certamente estava cansado. Certamente, se pudesse, também não trabalhava nunca. E, caso lhe perguntassem, certamente se definiria: “Sou fulano de tal, empregado no entreposto, doutor em malabarismos e milagres, seu criado.” Encerramos assim, ele e eu, o nosso dia, sorumbáticos da existência. Porque, para produzir a própria vida é preciso entregar o corpo, a alma e, se bobear, até o recibo.













0 comments:
Postar um comentário
Deixe-nos uma mensagem.