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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

.: "Solte os Cachorros", estreia de Adélia Prado na prosa, volta às livrarias


"Solte os Cachorros",
livro que marca a estreia de Adélia Prado na prosa e no qual a poeta mineira se apresenta como uma narradora feroz, consciente de sua voz e sem receio de se impor para retratar a vida das mulheres de sua geração, volta às livrarias pela Editora Record. Quase 50 anos após a publicação original, o livro permanece surpreendentemente atual, não apenas pelos temas que aborda, mas pela liberdade com que Adélia encara o corpo, a fé, o desejo e o tempo.

A nova edição traz capa assinada pelo premiado designer Leonardo Iaccarino, a partir de obras do artista plástico Pedro Meyer, reforçando o diálogo entre literatura e artes visuais e atualizando o livro para novos leitores. A narrativa que dá título ao livro apresenta uma mulher “na metade da vida”, figura central na obra de Adélia. Amparada pela experiência, ela observa o mundo com alguma contundência, mas sempre com afeto. A voz da personagem se alterna conforme o assunto - ora reflexiva, ora divertida, ora desesperada ou esperançosa - compondo um retrato complexo e profundamente humano da mulher madura.

Na segunda parte do livro, em um exercício de concisão que denuncia a origem poética da autora, Adélia flerta com o miniconto. São narrativas enxutas, de linguagem coloquial e ritmo preciso, que expõem a beleza e a musicalidade do português falado, transformado em matéria literária de alta voltagem. "Solte os Cachorros" é, assim, uma celebração de uma língua inventada por Adélia Prado - ao mesmo tempo doméstica e metafísica - e do universo que ela criou para retratar a mulher de meia-idade, que, apesar do mundo, do tempo e das interdições, não desistirá de desejar.

Aos 90 anos, Adélia Prado segue reconhecida como uma das maiores escritoras brasileiras de todos os tempos, vencedora de prêmios como Camões, Machado de Assis, Griffin, Jabuti e Biblioteca Nacional. Em 2014, foi condecorada pelo Governo Brasileiro com a Ordem do Mérito Cultural, coroando uma trajetória que uniu rigor literário, espiritualidade e profunda escuta do cotidiano.

Em recente entrevista ao podcast Casa do Livro, Adélia falou sobre sua relação com o mistério, elemento central da obra dela. “Eu vivo de mistérios, dou graças a Deus pelos mistérios existirem, desde o mistério da Santíssima Trindade ao mistério da encarnação de Deus, até a física quântica. Dá uma energia, esse mundo desconhecido, que eu não sei como é, o além, o depois disso”, afirmou. Ao refletir sobre o passar do tempo e as transformações no modo de escrever, foi ainda mais contundente: “Por dentro, ainda tenho as mesmas curiosidades, as mesmas dificuldades, os mesmos sofrimentos, as mesmas perguntas de quando eu tinha 18”. Compre o livro "Solte os Cachorros", de Adélia Prado, neste link.


Sobre a autora
Adélia Luzia Prado de Freitas nasceu em 13 de dezembro de 1935, em Divinópolis, Minas Gerais, cidade onde vive até hoje e que se tornou cenário recorrente de sua obra. Começou a escrever versos aos 15 anos, após a morte da mãe, experiência que marcaria profundamente sua relação com a palavra e com o sagrado. Formou-se no Magistério em 1953 e iniciou a carreira como professora em 1955. Em 1958, casou-se com José Assunção de Freitas, com quem teve cinco filhos.

Antes do nascimento da filha caçula, Adélia e o marido ingressaram no curso de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Divinópolis, formando-se em 1973, um ano após a morte do pai da escritora. Poucos anos depois, enviou seus poemas ao crítico e escritor Affonso Romano de Sant’Anna, que os submeteu à leitura de Carlos Drummond de Andrade. Impressionado, Drummond classificou os textos como “fenomenais” e recomendou sua publicação ao editor Pedro Paulo de Sena Madureira, da Editora Imago.

O resultado foi o lançamento de "Bagagem", em 1976, no Rio de Janeiro, em um evento que reuniu nomes como Antônio Houaiss, Rachel Jardim, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Affonso Romano de Sant’Anna e Nélida Piñon. Desde então, a obra de Adélia Prado consolidou-se como um dos pilares da literatura brasileira contemporânea, abrangendo poesia, contos, romances, livros infantis e teatro - sempre marcada por uma escrita que une o sagrado e o profano, o cotidiano e o absoluto, o riso e a dor. Compre os livros de Adélia Prado neste link.



terça-feira, 27 de janeiro de 2026

.: Entre fios, fé e desejo, "Filandras" reúne o universo feminino de Adélia Prado


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com.

Relançamento da Editora Record, o livro "Filandras", escrito por Adélia Prado, reúne 43 contos curtos que se debruçam sobre a vida cotidiana de mulheres comuns, aquelas que aprendem a se mover, sonhar, desejar e sofrer no espaço íntimo da casa, entre as obrigações miúdas de todos os dias e os anseios acumulados ao longo de uma existência inteira. São narrativas que nascem do aparentemente banal, mas que revelam, pouco a pouco, a densidade emocional, moral e espiritual de personagens femininas atravessadas pelo tempo, pelo corpo e pela fé. Ao traçar múltiplos retratos dessas mulheres, os contos se interligam e constroem um contexto maior, formando um painel delicado, íntimo e profundamente humano da experiência feminina.

Publicado originalmente em 2001, o livro traz para a prosa os temas mais caros à obra de Adélia Prado: a religiosidade cotidiana, o amor vivido entre culpa e entrega, o desejo feminino muitas vezes silenciado, a inocência, a morte e a consciência aguda da finitude. Tudo aparece entrelaçado por fios finíssimos, como sugere o título do livro, mas fios que podem, a qualquer momento, se estreitar em nós fatais. É dessa tessitura sensível que se constrói o universo ficcional da autora, capaz de transformar histórias aparentemente pequenas em verdadeiros épicos da vida comum.

Entre as personagens, estão Ester, deprimida em meio às transformações físicas e emocionais da menopausa; Calixtinha, que engravida após um namoro secreto com Otavianinho; e a jovem sonhadora que vê no casamento com um funcionário da rede ferroviária a promessa de “solidez e conforto”. São mulheres impactadas por expectativas sociais, desejos íntimos e frustrações silenciosas, sempre narradas com empatia, humor contido e uma profunda compreensão da condição humana. A nova edição traz capa do premiado designer Leonardo Iaccarino sobre obras do artista plástico Pedro Meyer.

Enquanto boa parte dos grandes contistas brasileiros da segunda metade do século XX voltou seu olhar para as mazelas da urbanização acelerada e da vida nas grandes metrópoles, Adélia segue na direção oposta. O foco dela está no interior, no microcosmo da pequena cidade, onde os grandes dramas se revelam nas miudezas. É ali que o humano se manifesta com mais nitidez. Personagens como Dona Ceres, Olinda e Célia, recorrentes na obra da escritora, andam de ônibus de linha, trocam conselhos na calçada, receitam remédios caseiros, emprestam açúcar a quem bate palma diante do portão. Gestos simples que, sob a escrita da autora, ganham espessura simbólica e poética.

O livro também resgata figuras emblemáticas, como Dona Doida, personagem que remete à peça encenada por Fernanda Montenegro nos anos 1980. Aqui, ela surge como uma mulher humilde e cômica, levada ao hospital por causa do “istrés”, termo que, em sua deformação popular, revela tanto humor quanto fragilidade. A linguagem de Adélia Prado, aliás, valoriza essas falas imperfeitas, esses deslizes do idioma que dizem muito sobre quem fala e sobre o mundo que as cerca.

No plano estilístico, "Filandras" se destaca tanto pela força do que é dito quanto pela potência do que permanece em silêncio. A escrita é contida, precisa, mas profundamente sugestiva. Em uma “terra de donasmarias”, a visão católica se manifesta não como doutrina rígida, mas como angústia metafísica, dúvida existencial e tentativa permanente de conciliação entre o corpo e o espírito. O mundo que emerge dessas narrativas, como define uma das narradoras do livro, é simultaneamente “maravilhoso e imperfeito”- definição que poderia servir de síntese para toda a obra de Adélia Prado. Compre o livro "Filandras", de Adélia Prado, neste link.

Sobre a autora
Adélia Luzia Prado de Freitas nasceu em 13 de dezembro de 1935, em Divinópolis, Minas Gerais, cidade onde vive até hoje e que se tornou cenário recorrente de sua obra. Começou a escrever versos aos 15 anos, após a morte da mãe, experiência que marcaria profundamente sua relação com a palavra e com o sagrado. Formou-se no Magistério em 1953 e iniciou a carreira como professora em 1955. Em 1958, casou-se com José Assunção de Freitas, com quem teve cinco filhos.

Antes do nascimento da filha caçula, Adélia e o marido ingressaram no curso de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Divinópolis, formando-se em 1973, um ano após a morte do pai da escritora. Poucos anos depois, enviou seus poemas ao crítico e escritor Affonso Romano de Sant’Anna, que os submeteu à leitura de Carlos Drummond de Andrade. Impressionado, Drummond classificou os textos como “fenomenais” e recomendou sua publicação ao editor Pedro Paulo de Sena Madureira, da Editora Imago.

O resultado foi o lançamento de "Bagagem", em 1976, no Rio de Janeiro, em um evento que reuniu nomes como Antônio Houaiss, Rachel Jardim, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Affonso Romano de Sant’Anna e Nélida Piñon. Desde então, a obra de Adélia Prado consolidou-se como um dos pilares da literatura brasileira contemporânea, abrangendo poesia, contos, romances, livros infantis e teatro - sempre marcada por uma escrita que une o sagrado e o profano, o cotidiano e o absoluto, o riso e a dor. Compre os livros de Adélia Prado neste link.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

.: "Reunião de Condomínio", a coletânea de contos de Alexandre Lino


Ninguém é santo em uma "Reunião de Condomínio", título que dá nome ao livro de Alexandre Lino. O morador do segundo andar, sempre que briga com alguém no grupo do prédio, deixa um “presente” na porta dessa pessoa. Já a idosa de outro apartamento chegou à assembleia para criticar seu vizinho que colocou um desenho na porta, e isso a incomodava por algum motivo. Sem falar do homem que faz festas até altas horas da noite, e não tem reclamação que resolva o problema.

Essas experiências divertidas estão presentes no conto “Condomínio” e trazem as principais características que definem toda a obra. Com narrativas que transitam entre o cômico e o trágico, o cotidiano e o extraordinário, o autor constrói um universo literário no qual todos os personagens estão conectados de alguma forma, através dos laços inexplicáveis do destino.

Em uma cidade tão genérica que nem nome tem, porque pode ser qualquer lugar, cada história gira em torno de um narrador diferente. Há Thiago, o dono de uma empresa que jura que não vai ser como os outros empresários, e Ferraz, um trabalhador decidido a pedir demissão. Também há Abílio, um idoso multimilionário apaixonado pela vida simples de Luiz Américo e este, por sua vez, é na verdade um agiota fingindo ter uma vida pacata para não ser descoberto. Já Angelique prega que o foco é suficiente para encontrar sucesso, mas tem uma dívida enorme com Luiz Américo.

Ao recorrer a diferentes ângulos acerca das vivências dos personagens, Alexandre Lino une o conhecimento de sua formação em Psicologia com o fazer literário para apresentar o mundo como ele é. Distantes de um olhar dicotômico, os contos retratam como a humanidade reside nas nuances, nas contradições e nos dilemas que constituem a existência.

“'Reunião de Condomínio' é minha primeira oportunidade de mostrar um pouco de como a desordem de meus pensamentos se formam, e como eu interpreto a vida: não existem vilões, não existem heróis, e no fim das contas é difícil simplesmente ser quem a gente é. A vida é cheia de contradições e pequenas hipocrisias. As personagens em sua maioria são pessoas comuns, que vivemos e vemos por aí todos os dias”, explica o autor. Compre o livro "Reunião de Condomínio", de Alexandre Lino, neste link.

Trecho do livro
Se a empresa era tão boa, isso precisava ser dito ao mundo. Fechou contratos com agências de marketing para divulgar prêmios de "Melhor Lugar para Trabalhar", com fotos do escritório e discursos sobre inovação. Os clientes precisavam enxergar o diferencial. Os funcionários precisavam saber quão legal era a empresa deles. Só que um dos maiores clientes era um banco. E banco gostava de certas formalidades. A vestimenta precisou se adequar. Nada grave, só ajustes. E já que as contas não batiam, o expediente de sexta-feira, antes meio período, passou a ser integral. (Reunião de condomínio, p. 21-22)


Sobre o autor
Alexandre Lino
é psicólogo formado pela Universidade Federal da Bahia, pós-graduado em Gamificação pela Unifacs e trabalha com a produção e o desenvolvimento de jogos. Tem mais de 15 anos de experiência na área de recursos humanos, atuando com projetos de gamificação, desenvolvimento de pessoas, treinamento e gestão. Agora, faz sua estreia como escritor com o livro Reunião de Condomínio. Compre os livros de Alexandre Lino neste link.

domingo, 25 de janeiro de 2026

.: Aos 74 anos, finalista do Prêmio LeYa Portugal transforma perdas em arte


Jozias Benedicto encontrou na literatura um novo caminho de criação e expressão após os 60, e seu novo livro mistura realismo fantástico e memória para falar de tempo, família e reconstrução. Foto: divulgação


Artista visual e escritor, Jozias Benedicto transforma perdas pessoais e memórias familiares em ficção no romance “As Vontades do Vento”, publicado pelo Caravana Grupo Editorial, finalista do Prêmio LeYa Portugal de Literatura 2024. O autor maranhense - que começou a publicar depois dos 60 anos -  simboliza uma geração de criadores que encontram na maturidade o auge da experimentação e da liberdade artística. O autor, que já publicou nove livros, também já conquistou outras premiações como o Prêmio de Literatura do Governo de Minas Gerais, o Prêmio da Fundação Cultural do Maranhão e o Prêmio de Literatura do Estado do Pará.

Em sua prosa, a vida, a morte e o tempo se confundem em vozes múltiplas que revelam o Brasil profundo e suas heranças emocionais. “O autor, com domínio absoluto da linguagem e da técnica narrativa, transpõe a estrutura do conto para a narrativa longa. O romance traz, na singularidade de cada capítulo, as diversas vozes, os lugares, cheiros e ambientações - tanto de um vilarejo do interior quanto das grandes cidades modernas - sem perder o contexto geral do que se quer contar”, ressalta Andreia Fernandes, escritora, na orelha do livro.

Neste novo trabalho, o artista visual e escritor maranhense apresenta um romance inquietante que mergulha nas entranhas de uma família envolta em segredos do clero, prostituição e herança escravocrata. Narrada por múltiplas vozes, a história ganha contornos de realismo fantástico ao incluir as perspectivas daqueles que já partiram, mas que seguem essenciais para o desfecho de uma trama que atravessa gerações. 

Segundo Jozias, o livro reflete as contradições entre o Brasil tradicional e o país em busca de modernização, abordando os efeitos do desenvolvimento desigual, como a violência e o rompimento de vínculos familiares. “Nunca quis escrever ensaio ou não ficção, nem um romance realista e engajado - meu caminho foi o oposto: desenvolver esses temas por meio da ficção e de suas vertentes mágicas e fantasiosas”, afirma o autor. Compre o livro “As Vontades do Vento”, de Jozias Benedicto, neste link.

Vozes que se cruzam, memórias que se desfazem
Dividido em três partes - "O Interior", "A Travessia" e "A Capital" - o romance reúne 49 capítulos narrados em primeira pessoa por diferentes personagens. O núcleo central é composto pelo pai, mascate (vendedor de porta em porta), a mãe e os três filhos - Joaquim, Pedro e Bento - além de figuras que orbitam o cotidiano da família, como Mocinha, a empregada, e Elisa, a cafetina. A avó materna e seu irmão, o já falecido Monsenhor - tido como santo no vilarejo - são peças-chave no desenlace do enredo, situado em uma pequena cidade do norte do país, nos anos 1950.

O ponto de partida é a morte da mãe e a promessa dos filhos de cumprir seu último desejo. Antes da viagem, porém, o livro retorna ao passado e desvenda o percurso da família: da ascensão social vertiginosa à desolação que precipita a queda dos herdeiros.

A estrutura polifônica é o grande trunfo de “As vontades do vento”. Ao alternar os narradores, Jozias costura as pontas soltas e revela tanto o contexto dos acontecimentos quanto as motivações de cada personagem. Os episódios vistos sob diferentes ângulos ampliam a força dramática das cenas e sustentam um ritmo ao mesmo tempo compassado e instigante. O desfecho, de impacto emocional, confirma a sagacidade e a singularidade do escritor-artista. Compre os livros de Jozias Benedicto neste link.


Trajetória consolidada e uma coleção de prêmios
Nascido em São Luís (MA), em 1950, Jozias Benedicto mudou-se aos 15 anos para o Rio de Janeiro, onde viveu a maior parte da vida. Entre 2006 e 2010, residiu em Brasília e, desde 2022, divide seu tempo entre o Brasil e Lisboa. Formado em Tecnologia da Informação, atuou na área entre 1970 e 2010. Após os 60 anos, decidiu dedicar-se integralmente às artes - especialmente à interseção entre literatura e artes visuais.

Cursou duas pós-graduações na PUC-Rio - Literatura, Arte e Pensamento Contemporâneo (2014-2015) e Corpo e Palavra nas Artes da Cena e da Imagem (2021-2022) - e trabalhou como editor na Apicuri (2010–2016). Também atua como curador e produtor de textos críticos para exposições de arte e escreve crônicas e resenhas para o portal luso-brasileiro Estrategizando.

Estreou na literatura em 2013 com "Estranhas Criaturas Noturnas" (Editora Apicuri) e, desde então, publicou nove livros, entre contos, poesia e romance. Acumula distinções como o Prêmio de Literatura do Governo de Minas Gerais, Prêmio Moacyr Scliar, Prêmio da Fundação Cultural do Estado do Maranhão e do Prêmio de Literatura do Estado do Pará, além de ter sido finalista do Prêmio Sesc de Literatura e do Prêmio LeYa Portugal com o romance agora lançado.

O autor revela que o processo de escrita também o ajudou a atravessar perdas pessoais, como a morte da mãe e um incêndio em seu apartamento. “Ainda que o livro tenha me ajudado a superar traumas, não é o efeito terapêutico que me move como artista. O que importa é saber se a obra atinge o leitor”, pondera. Compre o livro “As Vontades do Vento”, de Jozias Benedicto, neste link.

.: Especialista em Saúde Mental escreve romance que fala sobre abandono


Perita em temas relacionados à saúde mental, a enfermeira Pós-Doutora em Saúde Pública Adriana Moro nos apresenta um romance repleto de camadas e dono de um olhar sensível sobre dois problemas cotidianos: a solidão e as formas de abandono, e os dobramentos desses na saúde mental do indivíduo, na forma como ele se relaciona com o mundo. Foi pensando nessas demandas que a autora escreveu "Não Me Chame de Mãe", romance de estreia lançado pela editora Urutau.

O livro mergulha na dura realidade de uma mulher que se vê sozinha para enfrentar os desafios da maternidade durante a pandemia de Covid-19. “Não Me Chame de Mãe” nasce impactante e desconstrói a visão romantizada da maternidade ao narrar, de forma crua e sensível, a luta de uma jovem mãe sem renda, sem rede de apoio e com uma filha recém-diagnosticada no espectro autista.

“A ideia para escrever este livro veio com a prática diária dos meus mais de 23 anos trabalhando no Sistema Único de Saúde, atendendo mulheres 'mães' de crianças e adolescentes atípicos, que por sua vez quase sempre enfrentam a dura demanda do cuidado integral sozinhas. Muitas não têm rede de apoio e uma grande parte é abandonada pelo companheiro após o diagnóstico. Nestas situações há um duplo abandono, abandono do outro e o abandono de si. Estas mulheres tem adoecido e pouco a sociedade tem olhado para isso”, afirma Adriana Moro, escritora e Pós-doutora em saúde pública

O abandono do companheiro, a dificuldade em suprir as necessidades básicas e a pressão emocional de cuidar de uma criança neurodivergente em meio ao isolamento social são temas que atravessam a obra, tornando-a uma leitura urgente e necessária. Adriana Moro constrói um enredo que não só documenta a rotina de muitas mulheres invisibilizadas pela sociedade, mas também convida o leitor a refletir sobre o peso da solidão e do julgamento que recai sobre as mães solo.

O retrato principal de “Não Me Chame de Mãe” é estarrecedor e mostra um lado da sociedade que muitas vezes desejamos que não seja verdade: Segundo estudos do Instituto Baresi, cerca de 78% a 80% dos pais abandonam os filhos com deficiência ou doenças raras antes dos cinco anos de idade. Mais do que um romance, temos na obra um choque de realidade, um convite à empatia e uma voz para tantas histórias que nunca são contadas.

“A escrita desse livro é atravessada pelo meu dia a dia e a minha própria maternidade – mesmo eu não sendo uma mãe atípica - e as histórias que já acompanhei. A maioria das cenas são constituídas por elementos reais e a própria personagem principal é uma soma de várias mulheres que já passaram por minha vida, por meus atendimentos. Trabalhar com saúde mental diariamente me fez querer escrever esta história para auxiliar a sociedade a alcançar um tema tão sensível e necessário”, afirma Adriana Moro. Compre o livro "Não Me Chame de Mãe", de Adriana Moro, neste link.


Sobre a autora
Adriana Moro
é enfermeira, escritora e pesquisadora. Pós-doutora em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/FIOCRUZ) e doutora em Políticas Públicas pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), com estágio doutoral no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, Portugal. Possui mestrado em Desenvolvimento Regional e Políticas Públicas e especializações em Enfermagem com Ênfase em Cuidados Intensivos Neonatais, Enfermagem em Saúde Mental e Psiquiatria e Acupuntura.

Na literatura, Adriana traz um olhar sensível e aprofundado sobre as complexidades da vida cotidiana. Seu primeiro romance, "Não Me Chame de Mãe", se destaca pela força narrativa e pela capacidade de provocar reflexões profundas no leitor. Compre o livro "Não Me Chame de Mãe", de Adriana Moro, neste link.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

.: Em "Louca Normalidade", Plácido Berci estreia na ficção saúde mental


Obra mescla suspense psicológico e drama familiar, inspirada na figura do pai do autor, e chega às livrarias pela Editora Mondru


O jornalista e escritor Plácido Berci lança seu primeiro romance ficcional, “Louca Normalidade”, pela Editora Mondru. A obra mergulha em temas profundos como saúde mental, laços familiares e a passagem do tempo, narrando a história de Francisco Solano, um jornalista investigativo aposentado com um quadro psiquiátrico misterioso que, após sofrer um AVC, passa a registrar tudo em blocos de notas para preservar sua memória.

A trama ganha contornos de mistério quando Francisco acorda com uma anotação enigmática sobre uma mulher, uma praia e uma sequência de letras e números. Entre flashbacks, sonhos e investigações solitárias, o protagonista tenta decifrar se testemunhou um crime ou se sua mente fragilizada criou realidades paralelas. A narrativa alterna entre a terceira pessoa e as anotações íntimas de Francisco, recurso que aproxima o leitor do confuso universo mental do personagem. “Meu objetivo foi gerar reflexão sobre o preconceito em relação a quem é visto como fora dos padrões por questões ligadas à saúde mental”, comenta Plácido.

Inspirado na figura de seu pai, Pedro Berci Filho, o autor começou a escrever o livro em 2018, observando o hábito paterno de anotar tudo após um AVC. “O personagem principal, Francisco Solano, é praticamente todo inspirado no meu pai, fisicamente e, principalmente, em termos de comportamento e personalidade”, revela. A morte do pai durante o processo de escrita acrescentou novas camadas emocionais à obra, tornando-a também um exercício de luto e elaboração.

“É uma história sobre reflexão, aceitação e libertação; para o personagem, para o autor e, porque não, para o meu pai também”, define. Com cinco anos de escrita e mais dois até a publicação, “Louca Normalidade” dialoga com referências cinematográficas de diretores como Alfred Hitchcock e Martin Scorsese, e literárias de autores como Daniel Galera e Raphael Montes.

Além do suspense, o romance aborda com sensibilidade dinâmicas familiares complexas, especialmente a relação entre avô, filho e neto. “O livro também filosofa sobre outros temas como a brevidade da vida, luto, solidão, amor e saudade”, completa o autor. A obra chega com projeto gráfico cuidadoso e já desperta interesse para adaptações audiovisuais. “Acho que o livro tem potencial para um filme ou uma minissérie. Procurei escrever cenas detalhadas e visualmente ricas com a intenção de transportar o leitor para o Rio de Janeiro colapsado de Francisco Solano”, adianta Plácido, que atua como repórter e apresentador esportivo da TV Globo em São Paulo. Compre o livro “Louca Normalidade”, de Plácido Berci, neste link.


Sobre o autor
Plácido Berci, 36 anos, é jornalista formado pela PUC-Campinas e atua como repórter e apresentador da editoria de esporte da TV Globo desde 2015. Natural de Araraquara e criado em São Carlos, já morou em cidades como Campinas, Rio de Janeiro, Manchester (Inglaterra) e Nairóbi (Quênia), onde foi o primeiro correspondente esportivo brasileiro. É autor dos livros “Paixão: Uma Viagem Pelo Futebol Inglês” e “Nuvem de Terra: Relatos do Primeiro Correspondente Esportivo Brasileiro no Quênia”. “Louca Normalidade” marca sua estreia na ficção e é publicado pela editora Mondru. Compre os livros de Plácido Berci neste link.

.: Américo Barbosa lança o livro “Bhára - Um Monge num Café de Paris”, em SP


Com mais de 1,5 milhão de seguidores e 250 milhões de visualizações em redes sociais, o pesquisador da consciência e comunicador Américo Barbosa, criador do canal AutoFelicidade, lança no dia 6 de fevereiro, em São Paulo, o aguardado “Bhára - Um Monge num Café de Paris”. A tarde de autógrafos será realizada na Cafeteria Santo Grão, na Vila Madalena, em São Paulo, a partir das 17h00. O local, segundo Barbosa, não é uma coincidência. “Uma cafeteria chamada Santo Grão tem tudo a ver com o livro”, brinca o autor. A obra propõe uma jornada de autocura por meio de meditação, práticas emocionais e espiritualidade aplicada. É um daqueles raros livros que muda a vida de quem o lê, imperdível para quem busca bem-estar e elevação da consciência.

Combinando filosofia contemporânea, narrativas poéticas e exercícios práticos, o livro reúne 100 capítulos independentes, cada um estruturado como uma chave de cura emocional. Os textos trazem reflexões, histórias simbólicas, mantras, mudrás e práticas breves de autoconsciência, oferecendo ao leitor uma experiência direta de transformação. “Cada capítulo é um pequeno remédio para as dores da alma. Algo simples, direto e possível para qualquer pessoa”, afirma Américo. Sem seguir ordem linear, a obra pode ser aberta em qualquer página - um formato que facilita o acesso imediato a alívio, direcionamento e acolhimento, especialmente em momentos de ansiedade, tristeza, inquietação ou vazio interior.

Bhára - palavra em sânscrito que significa para o autor “responsabilidade pelo mundo” - simboliza, na obra, o processo de transformar o peso da existência em sabedoria. Para Américo, o personagem Bhára representa a voz interior de todos que buscam sentido, direção e profundidade espiritual. Os mantras e mudrás apresentados no livro funcionam como ferramentas acessíveis de reorganização emocional, ajudando o leitor a reconectar-se com sua própria Luz interior. Esse enfoque já consolidou Américo Barbosa como uma das maiores referências brasileiras em espiritualidade aplicada e autocura.

Américo Barbosa é uma das vozes mais influentes do país na disseminação contemporânea de práticas espirituais e meditativas. Com mais de 1.100 vídeos publicados, é referência no ensino de mantras, mudrás e práticas de expansão da consciência. O que é mantra: Mantra é uma fórmula sonora ancestral que, quando entoada, organiza a mente, harmoniza emoções e induz estados profundos de concentração e presença. Mais que palavras, são vibrações que atuam como instrumentos de transformação interior.

O que é mudrá: é um gesto feito com as mãos que atua sobre o sistema nervoso central e emocional, usada há milênios para estimular estados de equilíbrio, foco e expansão da consciência. Cada gesto funciona como um “atalho energético” que influencia mente e corpo por meio de posturas simples e precisas. “Oferecer a quem se quer bem um livro em forma de Luz, Amor, Conhecimento e Cura é mais do que um presente; é dar a si mesmo e aos outros um novo sentido para a vida”, afirma Américo. O livro “Bhára - Um Monge num Café de Paris” pode ser adquirido em:


Sobre Américo Barbosa
Américo Barbosa é escritor, pesquisador da Consciência, PhD em Comunicação e Semiótica e doutor em Campos Mântricos. Especialista nos efeitos do som, da vibração e dos mantras sobre os campos sutis e emocionais, integra espiritualidade, ciência e comunicação em seu método de ensino e expressão. Criador do canal AutoFelicidade, é seguido por 1,5 milhão de pessoas em suas redes sociais e já ultrapassou 250 milhões de visualizações com seus vídeos sobre autoconhecimento, linguagem espiritual, mantras, mudrás e expansão da consciência. Iniciou sua jornada meditativa aos oito anos e estuda, há décadas, tradições espirituais da Índia, Tibete, China e Japão. É coautor de dois livros esgotados na área de sustentabilidade e foi apresentador por 13 anos do programa de rádio “Limiar de um Novo Tempo”.


Serviço
Lançamento do livro “Bhára - Um Monge num Café de Paris”.
Data: 6 de fevereiro de 2026
Horário: 17 horas
Local: Cafeteria Santo Grão
Endereço: Rua Natingui, 862, Vila Madalena / São Paulo

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

.: “Ecos do Antropoceno”: livro de Luiz Villares expõe o custo real do progresso


"Ecos do Antropoceno - Legados, Interesses e Caminhos", publicado pela Editora Casa Matinas, é o resultado de quase três décadas de trabalhos, aprendizados, estudos e reflexões do ambientalista Luiz Villares. Ele reuniu sua longa experiência que começa com a militância pela defesa do Parque Estadual de Ilhabela, passa pelo Conselho Estadual do Meio Ambiente de São Paulo, e chega à FAS (Fundação Amazônia Sustentável), a maior organização sem fins lucrativos no Brasil pela conservação da Amazônia, da qual foi diretor financeiro por 16 anos.

Além de trazer um panorama atualizado (que inclui os resultados da recente COP30, realizada em Belém, em novembro de 2025) das grandes questões ambientais contemporâneas, Ecos do Antropoceno analista os fenômenos do aquecimento global, das catástrofes climáticas, do desmatamento e destruição da natureza, entre outros, pelo diapasão central da macroeconomia: sem transformações profundas nos modelos de crescimento econômico e na “financeirização” dominante na economia global, a transição imprescindível para um mundo sustentável não se realizará.

“Este é o paradoxo contemporâneo: quanto mais cresce o PIB global, mais crescem os desastres ambientais e ecológicos - e pior: em velocidade maior do que as soluções que poderiam mitigar os problemas”, afirma Villares. A obra demonstra claramente e com abundância de números que investimentos em prevenção dos desastres ecológicos são mais baratos (e mais sensatos) do que os dispendiosos custos — em um cenário de Estados-nações endividados — de reparação desses desastres; e que, se uma parcela dos ainda gigantescos investimentos em fontes de energia fóssil ou em armamentos fosse empregada na transição para energias limpas, poderíamos atingir com mais celeridade os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Segundo o autor, o mundo gasta mais de US$ 2,3 trilhões em armamentos. "A metade desse valor seria mais do que suficiente para o financiamento das necessidades de adaptação climática no mundo". Luiz Villares, em um dos pontos fundamentais do livro, sublinha que o desequilíbrio ambiental contribui decisivamente para o aumento da desigualdade social: as populações mais pobres sofrem mais as consequências devastadoras do aquecimento global e dos desastres climáticos, embora sejam as faixas de população que menos contribuem para a emissão de carbono, por exemplo. Nesse sentido, os mais pobres são, de maneira perversa, duplamente penalizados na época em que homens passaram a se dedicar à destruição da natureza. Desigualdade gera mais desigualdade.

Outro ponto de atenção do livro é para a mudança profunda sobre a questão ambiental que está ocorrendo na China. De maior poluidora do mundo ela está se transformando em liderança global em políticas ambientais. Na vanguarda da utilização da energia solar, na eletrificação dos carros, no uso das bicicletas como meio de transporte, na construção de data centers no fundo do mar (abastecidos por energia eólica), o programa do Estado chinês chamado de “Civilização Ecológica” é o mais planejado e estruturado de que se tem notícia. O país tem 1.100 usinas que processam 800 mil toneladas de lixo, gerando renda onde só havia desperdício; a poluição do ar diminuiu sensivelmente nos últimos 15 anos; o programa Grande Muralha Verde é o mais ambicioso em termos de se devolver matas e florestas em solo degradado.

 Antropoceno é uma palavra relativamente nova. A Humanidade precisou criá-la para classificar o período geológico que se iniciou com a Revolução Industrial, na Inglaterra, no século XVIII. Como diz o ambientalista Luiz Villares, ele marca a idade “em que começamos a extrair da natureza mais do que ela é capaz de nos oferecer”. Ou seja, o oposto da sustentabilidade, que é a capacidade de atender às necessidades do presente sem comprometer as condições de vida do futuro.

Ao lado de temas mais conhecidos sobre o ambientalismo, o livro nos apresenta conceitos que ajudam a compreender os fenômenos e ideias para superá-los, como o green new deal e o ecocentrismo. A diplomacia e a justiça climáticas, a água valendo mais do que o petróleo, as novas demandas por energia dos hiper data centers, o desaparecimento das abelhas, a morte dos recifes de corais, o ativismo jovem, além das oportunidades que se apresentam para o Brasil pós COP30, são outros assuntos abordados neste livro.

Luiz Villares é ambientalista, com formação em gestão internacional e extenso trabalho em organizações socioambientais; foi Conselheiro Estadual do Meio Ambiente de São Paulo e do primeiro time da Fundação Amazônia Sustentável, a maior organização sem fins lucrativos dedicada à Amazônia. Autor de estudos acadêmicos sobre sustentabilidade e blockchain, é colaborador de publicações internacionais. Também velejador e músico, baterista da banda Lost in Translation, liderada pelo escritor Marcelo Rubens Paiva, autor de Ainda estou aqui.

"Ecos do Antropoceno" é o primeiro livro lançado pela Casa Matinas, que se dedica a reedição de livros imperecíveis no sistema de impressão sob demanda (POD). A editora modificou seu projeto editorial pelas afinidades com as ideias defendidas no livro de Luiz Villares. Além de evitar desperdício de papel e de combustível fóssil na distribuição com o print-on-demand, a casa matinas usa o papel Polén Natural e a impressão em tinta a base de água. As capas minimalistas, o projeto gráfico limpo e a economia em uso de fontes tipográficas (criadas por artista tipográfico brasileiro) também foram pensadas para nos furtarmos aos esperdícios comuns na produção de livros.

domingo, 18 de janeiro de 2026

.: “Spectrophilia”, de Shajara Bensusan, obra híbrida sobre memória e existência


“Spectrophilia” é um livro que trabalha com a ideia de memória e espectro, circulando entre filosofia e ficção sem se fixar em um gênero específico. Mais do que um autor no sentido tradicional, Shajara Néehilan Bensusan aparece como uma autoria atravessada por vozes, mitos e experiências que ampliam os limites do pensamento filosófico. Lançado pela Editora Cultura e Barbárie, o livro propõe um experimento literário que mistura reflexão teórica, imaginação e desejo, em um território que o próprio texto insiste em manter instável.

A obra se organiza como um percurso em três movimentos, atravessado por questões de gênero, vida, morte, política e pertencimento. Em “Spectrophilia”, a morte não surge como oposição à vida, mas como parte constitutiva dela - incômoda, erótica, afetiva. Ao situar esse debate em espaços simbólicos como Chungara (ex-América Latina), o livro articula reflexão filosófica e conflito político, sugerindo que tanto a vida quanto a morte são atravessadas por disputas de poder e modos de existir.


Sobre o autor
Shajara Néehilan Bensusan
é professor associado do Departamento de Filosofia da Universidade de Brasília. Doutor pela University of Sussex, atuou como pesquisador e professor visitante em diversas universidades no Brasil e no exterior. Autor de extensa produção acadêmica e ensaística, publicou, entre outros títulos, Spectrophilia (Cultura e Barbárie, 2025), Memory Assemblages (Bloomsbury, 2024) e História Sul-Americana da Imortalidade (Cultura e Barbárie, 2024).

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

.: Mary Del Priore desmistifica a imagem de Chica da Silva em novo livro


Em "Meu Nome É Francisca - Uma história de Chica da Silva", publicado pela Editora José Olympio, a historiadora Mary Del Priore revisita a trajetória da mulher à frente de seu tempo, desmistificando a imagem polêmica que ficou eternizada pelo audiovisual. Com uma linguagem original que destaca os falares africanos em Minas Gerais no Brasil Colônia, a autora se debruça sobre Francisca desde a infância, e mostra como ela e muitas outras mulheres negras viveram como donas de casa, cuidando dos filhos, dedicadas aos companheiros em relações consensuais que não passavam pela Igreja, e constituindo o segundo grupo mais rico da região.

Neste livro, Mary Del Priore apresenta Francisca sob uma nova luz - não a figura folclórica ou sexualizada, mas a mulher histórica: mãe de 13 filhos, esposa dedicada, piedosa, proprietária de bens, senhora de centenas de escravizados e integrante de irmandades religiosas de elite. Assim como nos perfis anteriores de Tarsila do Amaral, da imperatriz Leopoldina e da filha, Maria da Glória, em Meu nome é Francisca a historiadora Mary Del Priore assume a narração em primeira pessoa, aliando sua vasta leitura crítica ao refinamento de seu estilo literário. 

O resultado é um texto primoroso, em que nos acercamos dos fatos históricos sem perder de vista as emoções que essa personagem icônica nos revela sobre o Brasil Colônia e seus desafios econômicos e morais. Mulher negra nascida escravizada, Chica da Silva foi alforriada e se tornou a mulher mais rica do Brasil. O amor foi o motivo de sua ascensão. Ela se apaixonou pelo seu senhorio e contratador de diamantes da região, João Fernandes de Oliveira, com o qual viveu uma relação amorosa intensa que marcou para sempre a história do Arraial do Tijuco, atual Diamantina, nas Minas Gerais. 

O casamento casamento deles, contudo, nunca pôde ser oficializado, pois as leis racistas da época não permitiam a união entre um branco e uma negra. Vivendo em concubinato, Chica da Silva e João Fernandes tiveram 13 filhos e do companheiro ela herdou toda a fortuna. Em "Meu Nome É Francisca", é possível compreender as complexidades do poder, do dinheiro, da influência e, sobretudo, dos papéis sociais que levaram uma mulher negra à posição de poder incomum para os padrões de sua época. A edição traz ainda um caderno de imagens.

Ao recuperar falares africanos, a autora reconstitui o cotidiano de mulheres negras que, por meio de uniões consensuais, alcançaram mobilidade social e segurança financeira. O livro também destaca um aspecto pouco explorado: o papel surpreendentemente ativo dos pais, atentos ao futuro e à proteção material de suas famílias. Francisca pertenceu ao segundo grupo economicamente mais rico das Minas Gerais coloniais - o das ex-escravizadas. E, como mostra a obra, não houve apenas uma Francisca: foram muitas. Compre o livro "Meu Nome É Francisca - Uma história de Chica da Silva" neste link.

Trecho do livro
“Passada a visita pastoral que o acusou de bigamia, meu senhor resolveu me vender. Vendas eram comuns quando o senhor empobrecia ou morria e seus parentes preferiam se desfazer da escravaria. Ou quando ele tinha dívidas e o cativo entrava como parte do pagamento. Ou, ainda, quando o cativo era doente, desobediente ou fujão. Ou quando o visitador exigia 'lançar fora' de casa a concubina escrava. O valor de cada cativo era determinado por sexo, idade, doenças e lesões. Ruim seria ser vendida para outra casa longe do Tijuco, onde eu conhecia tanta gente. Eu sabia de muitas histórias de escravos que se rebelavam e fugiam quando eram separados de familiares ou amigos. O senhor novo ofereceu bom preço? O senhor velho preferiu ficar com Francisca? Nunca soube os pormenores, mas fui vendida por 800 mil réis e minha vida mudou.”


Sobre a autora
Mary Lucy Murray Del Priore
(Rio de Janeiro/RJ, 1952) é historiadora, professora e escritora. Lecionou nos departamentos de história da Universidade de São Paulo (USP) e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Fez pós-doutorado em ciências sociais na École des Hautes Études, na França. Colabora com dezenas de jornais e revistas nacionais e estrangeiras. Entre outras distinções recebidas, foi vencedora do Prêmio Jabuti – Ciências Humanas, em 1998, por História das mulheres no Brasil (Unesp/Contexto); do Prêmio APCA – Não Ficção, em 2008, por "O Príncipe Maldito" (Objetiva); e do Prêmio Fundação Biblioteca Nacional, em 2009, por "Condessa de Barral" (Objetiva). Desde 2022, é membro da Academia Paulista de Letras. Lançou pela Editora José Olympio os volumes biográficos "Tarsila" (2022) e "Leopoldina" e "Maria da Glória" (2024). Compre os livros de Mary Del Priore neste link.

.: Filósofo Marcelo Perine propõe leitura da felicidade como prática inventiva


Por que somos infelizes? Essa foi a pergunta que levou o filósofo Marcelo Perine a escrever "Felicidade Prisioneira: Ensaio de Filosofia Moral", obra recém-lançada pela PUCPRESS – editora da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). O livro se insere no debate contemporâneo sobre ética e moralidade, propondo uma reflexão sofisticada e original sobre o sentido do bem viver, articulando a tradição filosófica às urgências do presente.

“Em poucas palavras, somos infelizes porque podemos fracassar na realização de nossos interesses e na satisfação de nossos legítimos desejos, que consistem, em última análise, em libertar-nos do descontentamento; somos infelizes porque somos e sabemos que somos finitos, contingentes, numa palavra, mortais”. A proposta do autor é compreender a felicidade não como um estado conclusivo, mas como uma prática em constante reinvenção - marcada pela incompletude e pela inventividade. Para desenvolver essa ideia, a obra apresenta-se como um ensaio que reúne dissertações livres e profundas sobre a condição humana, a moralidade e a possibilidade de uma felicidade vivida com consciência.

Perine, professor associado da PUC-SP e referência nacional em Filosofia, revisita criticamente autores clássicos e modernos para construir uma narrativa filosófica que entrelaça razão, liberdade e criação. Com linguagem acessível e rigor filosófico, ele propõe uma “moral viva” que articula a doutrina ética que afirma que a felicidade é o fim supremo da vida humana, alcançado através do exercício da razão e da prática das virtudes – o eudemonismo aristotélico –, a ética do dever kantiana, o imperativo da responsabilidade de Hans Jonas e o “dever de ser feliz” de Eric Weil.

A analogia final com as esculturas inacabadas de Michelangelo é emblemática: a felicidade não se realiza na plenitude, mas na forma que emerge da matéria, no gesto inacabado que revela o sentido. "Contentamento na liberdade" é a expressão que sintetiza a proposta filosófica de Perine, que se contrapõe à concepção utilitarista e performática da felicidade dominante na cultura contemporânea. Compre o livro "Felicidade Prisioneira: Ensaio de Filosofia Moral", de Marcelo Perine, neste link.


Sobre o autor
Marcelo Perine
é professor associado da PUC-SP, com sólida formação acadêmica em Filosofia e Teologia, tendo obtido os títulos de mestre e doutor pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Com ampla atuação na graduação e na pós-graduação, destaca-se pela expressiva produção intelectual, que inclui 89 artigos, 49 capítulos de livros, 18 trabalhos em anais, sete livros autorais e outros sete organizados. Sua contribuição acadêmica também se evidencia na orientação de dezenas de trabalhos em diversos níveis, incluindo mestrado, doutorado e pós-doutorado. Foi coordenador da área de Filosofia da Capes em dois triênios e mantém colaboração internacional com o Institut Eric Weil da Université de Lille, coordenando um acordo de cooperação firmado em 2020. Compre os livros de "Felicidade Prisioneira: Ensaio de Filosofia Moral" neste link.

.: #VivoLendo indica o livro "Canções Ciganas Para Uma Mulher Noturna"


Por 
Vieira Vivo, escritor e ativista cultural.
o poeta é feito de firmamento

A noite desnuda o improvável através da opacidade nebulosa das controvérsias interiores. Canções plangentes repletas de melancólicas melodias e suas íntimas referências complementam-se a versos fortes reveladores de incógnitas, descaminhos e misteriosos desvãos onde o poeta movimenta-se qual espectro de desejos inconcebíveis através de poemas fluídos, quase monólogos, repletos de conjecturas, questionamentos e rupturas ao trivial da realidade cotidiana.

Envolto em uma nebulosa consciência alterada por extrema inventividade poética, no livro "Canções Ciganas Para Uma Mulher Noturna", publicado pela Editora Xará, o escritor Guilherme Andretta Pompermayer constrói um universo noturno, onírico e psicodélico com inúmeras pinceladas de anseios, musicalidade e inquietude onde os versos alimentam-se de suas próprias inquietações e procuras a nos remeter aos poetas beats, ao underground, à literatura das angústias, da solidão noturna e das canções revestidas no mais profundo arcabouço da alma humana onde a anti-realidade utópica de seres mágicos ganham voz e alento: entre imaginação e memória, existe uma divisória?

Em "Canções Ciganas Para Uma Mulher Noturna" ( Editora Xará), Andretta destila sua imagética através de versos sonoros e viajantes envoltos em um diálogo constante consigo mesmo e, ainda, incorpora referências à canções de Tom Waits, Jeff Buckley e Curt Cobain a engrandecer e a expandir a dimensão de sua obra poética, além de nos revelar o caos mental fragmentado em que o livro navega, flutua e nos alimenta. Poesia intensa, atemporal e reveladora para aqueles que nutrem o hábito de se sentirem preenchidos pelos descaminhos aleatórios da poesia personal banhada na marginalidade literária e na estrita e mágica vivência pessoal: é assim que o sabor acre deságua em versos. Compre o livro "Canções Ciganas Para Uma Mulher Noturna", de Guilherme Andretta Pompermayer, neste link.


quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

.: Love Story: a biografia não autorizada da boate que marcou a noite paulistana


Durante mais de 20 anos, a Love Story foi um endereço que não cabia em rótulos. Mais do que uma boate, funcionou como ponto de encontro, refúgio momentâneo, lugar de fuga e, para muitos, espaço de pertencimento. Quem atravessava as portas da boate sabia que ali valiam outras regras, ou nenhuma. Agora, essa história ganha registro no livro "A Casa de Todas as Casas. Love Story", biografia não autorizada que se propõe a contar o que raramente ficou registrado sobre um dos símbolos mais controversos e fascinantes da noite de São Paulo.

Escrito pelos jornalistas Katia Simões e Roberto Prioste, o livro começou a ser elaborado a partir de um convite do empresário Luiz Paulo Fogguetti, personagem conhecido da cena paulistana e profundo conhecedor das memórias do centro da cidade. A proposta, desde o início, era clara: não se tratava de construir uma versão oficial nem de controlar o tom da narrativa. O convite foi justamente o oposto - mergulhar na história da Love Story sem filtros, sem censura e sem compromisso com idealizações.

O resultado é um livro-reportagem que cruza memória, jornalismo e comportamento urbano. A Love Story marcou épocas, costumes e contradições, localizada entre a Boca do Lixo e a Boca do Luxo, zonas que ajudam a entender o tipo de mistura que marcou sua trajetória. A narrativa se constrói a partir de mais de 25 horas de depoimentos. Estão ali artistas, empresários, jornalistas, personagens da noite, frequentadores anônimos e figuras públicas que circularam pela Love Story em momentos distintos, cada um carregando sua própria lembrança daquele espaço.

Os relatos revelam um lugar onde fama e anonimato conviviam de forma quase paradoxal. A atriz Luana Piovani lembra da casa como um raro espaço de liberdade musical e comportamental em meio à padronização da noite paulistana: “O Love era diferente porque tocava todo tipo de música. Era três degraus acima da loucura de qualquer trilha sonora de festa. Ali dava para se divertir de verdade”.

A chef Janaína Torres, hoje referência na gastronomia brasileira, fala da Love Story como um lugar onde hierarquias simplesmente não importavam: “Eu ia à Love para espairecer, dançar. Muitas vezes chegava direto do trabalho, com roupa de cozinheira, toda engordurada. E o tratamento era exatamente o mesmo”. Já a empresária Aritana Maroni associa a boate à mistura real de corpos, desejos e trajetórias: “Ali você entrava e via pessoas famosas escondidas, travestis, gente da noite, todo mundo junto. Era miscigenação de verdade”.

O livro também registra passagens discretas, quase cinematográficas, de figuras internacionais. O ator Chadwick Boseman passou uma noite inteira na Love Story sem ser reconhecido, protegido pelo acordo silencioso de discrição que a casa mantinha com seus frequentadores. O escritor Ari Behn, então marido da princesa Märtha Louise, da Dinamarca, chegou a gravar cenas de um programa europeu dentro da boate.

Essa relação delicada com a fama aparece também nos bastidores. Para preservar a privacidade de quem entrava, seguranças revistavam frequentadores e controlavam rigidamente o uso de câmeras. Alguns artistas, inclusive, evitavam o local com receio de virar pauta de colunas sociais. O cantor Thiaguinho é citado como alguém que preferia ir embora ao perceber que poderia ser exposto.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

.: Gaía Passarelli lança "Deslumbre" na Livraria Ponta de Lança em São Paulo


Nesta quinta-feira, 15 de janeiro, a partir das 19h00, a escritora Gaía Passarelli lança "Deslumbre - Histórias de Obsessão Musical" na Livraria Ponta de Lança em São Paulo. A autora conversa com Camilo Rocha, autor de “Bate-Estaca: como DJs, Drag Queens e Clubbers Salvaram a Noite de São Paulo”, e Rodrigo Carneiro, autor de “Crônicas de Paixão, Política e Cultura Pop”. A mediação é da jornalista Camila Yahn, que tem larga experiência na cobertura de noite, música e moda e é uma das personagens do livro de Gaía. Editor: Marcelo Viegas. Projeto gráfico: Renata Coelho. Ilustração: Tiago Lacerda.

Do mítico Espaço Retrô ao Peel Acres, passando pelo histórico after-hours Hell’s Club e pelos corredores da MTV Brasil, Gaía traça uma verdadeira linha do tempo dos gostos e descobertas da Geração X paulistana: crianças nos anos 1980, jovens nos anos 1990 e adultos nos anos 2000, atravessando as intensas transformações tecnológicas, sociais e comportamentais da virada do século. Entre cada capítulo, as seções Backstage ampliam o universo do livro com listas pessoais de músicas, discos, filmes e livros que marcaram época — referências que vão de Joy Division, Bauhaus e The Cure a Sonic Youth, Guided by Voices, Underworld, Björk, Aphex Twin, Prodigy, Battles e Crystal Castles.

“Esse é um exemplo do encanto de Deslumbre: quanto mais música Gaía descobre, mais ela descobre sobre si mesma. Com habilidade, a escrita maneja um constante zoom in e zoom out entre a pessoa Gaía, suas sensações, seus sentimentos e fases da vida, e a paisagem cultural mais ampla do momento. O livro consegue ser ao mesmo tempo um relato muito pessoal e um panorama da vida alternativa em São Paulo entre o fim e o início do segundo milênio” , afirma o mediador Camilo Rocha.

Em "Deslumbre - Histórias de Obsessão Musical", Gaía Passarelli mergulha na própria formação cultural para contar como a música atravessou e moldou sua vida. Com prefácio de Camilo Rocha e ilustrações de Tiago Lacerda, o livro mistura memória, jornalismo e crônica cultural para revisitar quatro momentos decisivos da trajetória musical da autora, que atuou como repórter e apresentadora.


Serviço
Lançamento de “Deslumbre: Histórias de Obsessão Musical”, de Gaía Passarelli
Com Camilo Rocha, Rodrigo Carneiro e Camila Yahn (mediação).
Nesta quinta-feira, dia 15 de janeiro, das 20h00 às 21h30
Livraria Ponta de Lança - R. Aureliano Coutinho, 26, Vila Buarque / São Paulo


Sobre a autora
Gaía Passarelli
é escritora, repórter e curadora de conteúdo. Desde muito jovem aprendeu que a música podia ser um mapa. Foi VJ da MTV Brasil, repórter de viagens, colaboradora de veículos como Folha de S.Paulo e Marie Claire, além de autora de "Mas Você Vai Sozinha?" (Globo Livros, 2016) e Tá Todo Mundo Tentando (Editora Nacional, 2024). Publica newsletters, apresenta podcasts e escreve ensaios sobre cultura e comportamento. Em "Deslumbre: histórias Sobre Obsessão Musical", Gaía revisita artistas, sons e cenas que moldaram sua vida – do rock alternativo dos anos 1990 às pistas de dança do início da internet. Nascida e criada em São Paulo, a autora mora em um apartamento antigo na região central da cidade com os gatos Meia-Noite, Jezebel e Café.

.: Ricardo Domeneck retorna a seu muso inspirador em nova combustão poética


Depois de "Homem com Homem", a Editora Ercolano retoma a parceria com Ricardo Domeneck e lança "Memorando: Maximin". Domeneck, poeta cuja obra ocupa lugar central na lírica contemporânea em língua portuguesa, retorna aqui ao território afetivo e delirante que o consagrou, expandindo o gesto iniciado em "Odes a Maximin" (Garupa, 2018) e erguendo um dos seus livros mais intensos, sensuais e formalmente ousados.

Em "Memorando: Maximin", a paixão é uma força que se serve largamente da ironia, do humor e de um pathos vibrante, revelando uma linguagem que é ao mesmo tempo clássica e anárquica. O livro aprofunda o relacionamento do poeta com Maximin, figura mítica que atravessa uma Berlim imaginada, onde seu magnetismo contagia os homens e provoca o desejo à sua volta. As novas odes conduzem o leitor de clubes noturnos à penumbra dos quartos, dos jogos de sedução à consumação amorosa. Em cada poema, Domeneck explora um erotismo que transita entre o melodrama e a austeridade, sem jamais ser leviano — um erotismo que recupera, subverte e ilumina uma forma de amor sui-generis: a das relações de interesse, tensão e fascínio entre o “velhote” e o “novinho”.

A obra também traz uma poderosa seção em prosa, que funciona como um contracanto aos versos. Segundo Matheus Guménin Barreto, autor do posfácio, esta edição se lê como “uma combustão da língua e do corpo”: o fogo que arde nos poemas agora se alastra pelas margens da prosa, revelando a maturidade de um poeta que construiu um “hábitat próprio” dentro da literatura contemporânea. "Memorando: Maximin" reafirma Domeneck como um autor raro, capaz de articular erotismo, mitologia pessoal, invenção formal e humor num registro profundamente singular. O livro chega para renovar o campo poético brasileiro com sua franqueza, sua inteligência e sua delícia de excessos.


Sobre o autor
Ricardo Domeneck
é poeta, performer e escritor, autor de mais de dez livros de poemas e contos. Em 2024, conquistou o Prêmio Jabuti e o Prêmio Alphonsus de Guimaraens de Poesia, da Biblioteca Nacional, com "Cabeça de Galinha no Chão de Cimento" (Editora 34). Organizou a antologia Homem com homem: Poesia homoerótica brasileira no século XXI, publicada pela Ercolano. Vive e trabalha em Berlim, onde desenvolve pesquisa poética e performática reconhecida internacionalmente.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

.: Romance de Fabiane Secches, "Ilhas Suspensas" equilibra ensaio e ficção


Estreia de Fabiane Secches no romance, "Ilhas Suspensas", publicado pela Companhia das Letras, equilibra ensaio e ficção para contar não apenas uma história sobre saudade e solidão, como também sobre amor, família e amizade. No livro, Mariana tem encarado a maternidade sob diferentes formas: primeiro, com a morte de sua mãe; depois, com a frustração de várias fertilizações in vitro malsucedidas; por fim, com o distanciamento da própria língua materna, quando se vê migrando com o marido para um país cujo idioma, "composto de fonemas desconhecidos", ela não compreende. A dinâmica de constantes perdas leva Mariana a um quadro depressivo que só é aliviado pela companhia dos livros e de seu cachorro, Quincas.

Entre se adaptar ao novo bairro, acostumar-se ao clima estranho e se moldar à atual rotina do marido - que, devido ao trabalho, se ambientou às mudanças com muito mais facilidade -, Mariana se dedica à escrita de sua tese de doutorado, sobre a presença de animais na literatura, enquanto coleciona trechos das obras de Donna Haraway, Susan Sontag e Carola Saavedra, entre outras, na tentativa de encontrar algum tipo de resposta para as suas inquietações. De fato, é na literatura que ela experimenta esse acalanto, mas é ao lado de um grupo de amigas imigrantes que a possibilidade de recomeçar se apresenta. Compre o livro "Ilhas Suspensas", de Fabiane Secches, neste link. 
 

O que disseram sobre o livro

"Lendo 'Ilhas Suspensas', o leitor desbrava com a protagonista um caminho promissor: o do esforço, atento e compassivo, pela transposição das barreiras sensíveis -- do Umwelt, para citar um dos conceitos que irrigam o texto -- entre os diferentes seres e pessoas. Com uma voz narrativa que combina ficção e ensaio, ternura e lucidez, este belo romance de Fabiane Secches nos convida a encarar os impasses da vida contemporânea de olhos bem abertos, ávidos por enredamentos possíveis." - Daniel Galera 

"Entre espécies, países e línguas, Fabiane Secches encontra o lugar terno e candente onde a solidão de uma mulher cabe nas palavras. Ilhas suspensas não parece um romance de estreia, parece mais um retorno -- o retorno de uma longa viagem à devastação da perda, à renúncia da maternidade. Uma longa viagem a si própria, cuja estação de chegada e de partida é a mesma: a literatura." - Natalia Timerman


Sobre a autora
Fabiane Secches nasceu em Minas Gerais, em 1980. Psicanalista, tradutora e pesquisadora, fez mestrado em teoria literária e literatura comparada na Universidade de São Paulo. É colaboradora dos jornais Folha de S.Paulo e das revistas Cult e Quatro cinco um, entre outros veículos. Ilhas suspensas é seu primeiro romance. Compre os livros de Fabiane Secches neste link. 

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

.: Brasil passa a ler Ricardo Reis de forma integral em “Obra Completa”

Em homenagem aos 90 anos da morte de Fernando Pessoa, a Tinta-da-China Brasil, selo editorial da Associação Quatro Cinco Um, lançou a "Obra Completa de Ricardo Reis", o mais recente volume da Coleção Pessoa. O livro reúne pela primeira vez no Brasil toda a prosa e a poesia do primeiro heterônimo criado por Fernando Pessoa, incluindo textos inéditos, novas leituras críticas e imagens dos manuscritos originais. 

Com edição rigorosa, paratextos e estabelecimento de texto de Jerónimo Pizarro e Jorge Uribe, o leitor brasileiro terá acesso a textos clássicos de Reis - como as famosas odes e o prefácio aos poemas de Alberto Caeiro - na grafia original de Pessoa, tudo embalado em capa dura serigrafada com o design inconfundível de Vera Tavares.

Fernando Pessoa (1888-1935) é reconhecido como um dos principais escritores modernos e pilar fundamental da literatura em língua portuguesa. Sua obra revolucionou a concepção do que significa ser autor, ao criar uma variedade de personalidades literárias - os heterônimos, como Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis - cada um com seu estilo, biografia e visão de mundo próprios. Pessoa não se limitou a usar pseudônimos: inventou autores completos, com obras independentes e coerentes. Essa multiplicidade faz dele um autor indispensável para compreender a literatura do século XX, dialogando com as vanguardas europeias enquanto mantinha uma singularidade inconfundível. 

Após a morte do poeta aos 47 anos, foram descobertos em seu apartamento mais de 30 mil papéis, escritos em três idiomas e atribuídos a uma centena de autorias diferentes. E, mesmo conhecido na cena literária de Lisboa em vida, Pessoa não chegou a ver o interesse mundial que um dia cercaria a sua obra, publicada quase toda postumamente. Com curadoria e edição de Jerónimo Pizarro, maior especialista nos manuscritos de Fernando Pessoa, a Coleção Pessoa traz para o Brasil livros ainda inéditos que oferecem novas perspectivas sobre o poeta português. 

Iniciada em 2013, a coleção é dirigida por Pizarro e conta com a colaboração de especialistas de Portugal e de outros países, distinguindo-se pelo rigor crítico exemplar e pela qualidade editorial. 136 pessoas de Pessoa (2017) apresentou pela primeira vez os 136 autores fictícios com que Pessoa assinou seus textos, mapeando de forma inédita a vastidão do heteronimismo pessoano a partir de pesquisa minuciosa nas 30 mil folhas do espólio. "Ler Pessoa" (2023), ensaio crítico de Jerónimo Pizarro, oferece em menos de duzentas páginas um guia completo para desvendar os heterônimos e a multiplicidade do autor, em diálogo sofisticado com a tradição crítica. Também em 2023, a coleção trouxe o "Livro do Desassossego", obra máxima da prosa pessoana, numa edição de referência que se destaca pelo rigor na organização e pela beleza do projeto gráfico. 

Em 2025, foram lançadas as "Cartas de Amor", edição crítica que revisa datas, atualiza a grafia e revela documentos inéditos sobre os relacionamentos de Pessoa com Ofélia Queiroz e a misteriosa inglesa Madge Anderson. Agora, com a "Obra Completa de Ricardo Reis", a coleção consolida-se como referência essencial para o estudo e a fruição da obra de Fernando Pessoa no Brasil — e segue sendo atualizada. Compre os livros da Coleção Pessoa neste link.

.: Juíza do TJDF lança livro baseado em histórias reais de violência


"Invisíveis Marias" mistura realidade e ficção de forma sutil e capaz de denunciar e trazer reflexão sobre a dura realidade vivida por muitas brasileiras

A Procuradoria Especial da Mulher do Senado Federal e a Juíza do TJDFT, Rejane Suxberger irão promover o lançamento da segunda edição do livro “Invisíveis Marias: histórias Além das Quatro Paredes” , publicado pelo Grupo Editorial Caravana, na Biblioteca do Senado Federal. O livro foi escrito em forma de contos, entrelaça realidade e ficção para dar voz às Marias que, dentro de casa, viveram aquilo que deveria ser amor, mas se tornou dor. Entre relatos de audiências e ecos de histórias reais, o livro expõe as marcas que não desaparecem com a sentença. Mais do que literatura, é denúncia, memória e resistência, um convite à reflexão sobre a violência invisível que atravessa lares e gerações.

“Eu tenho um enorme carinho por esse livro. Ele representa a superação de muitas dores transformadas em força e aprendizado. Cada etapa concluída reafirma a importância de dar voz às mulheres e suas histórias. Acredito que ele poderá servir como um alerta poderoso, mostrando que a violência muitas vezes começa de forma sutil. Espero que inspire outras mulheres a reconhecer sinais de abuso e buscar ajuda. Que sirva também de incentivo para romper o silêncio e acreditar em um recomeço possível”, afirma a juíza e escritora

Ao longo de 10 mil processos examinados durante dez anos, Rejane nunca teve a oportunidade de se deparar com uma vítima inteira. Todas se apresentavam dilaceradas não era apenas o físico, mas a alma dessas mulheres estava mortificada pelo julgamento que faziam de si mesmo. A sociedade, segundo a autora, se encarregava de desqualificar o resto. As vítimas que protagonizam de forma indireta “Invisíveis Marias”, traziam consigo, ideias ultrapassadas de feminilidade e masculinidade como “justificativa” para os atos de violência. De um lado a mulher apresentada como coisa, propriedade tendo sua fala totalmente desqualificada; do outro lado, o agressor, fossem homens ou mulheres, se mostravam “injustiçados” pela Lei Maria da Penha, pois não era “bandidos”.

“Invisíveis Marias: histórias Além das Quatro Paredes” traz relatos de sofrimento, dor e angústia que se transportaram da cadeira das vítimas, testemunhas e réus, para a cadeira da juíza. “As angústias dos que se sentavam à minha frente, por diversas vezes, me escoltaram até minha casa e passaram a ser companheiras de noites de insônia”, relata Dra. Rejane. “É a violência mais silenciosa que existe, sem a presença de expectadores, ou melhor, quando presentes, estes eram os filhos das mulheres. Os enredos eram os mesmos, mudavam apenas os protagonistas”, finaliza. Compre o livro  “Invisíveis Marias: histórias Além das Quatro Paredes”, de Rejane Suxberger, neste link.


Sobre a autora
Rejane Jungbluth Suxberger é juíza de direito do TJDFT, presidente da Comissão de Assédio do TRE-DF e integrante do grupo Candangas. Máster em gênero e igualdade pela Universidad Pablo de Olavide (Sevilla/Espanha) e mestra em direito pelo UniCEUB, é vice-líder do Grupo de Pesquisa em Política Pública e Justiça Criminal do CEUB, na linha “Políticas Públicas de Gênero e Estudos Feministas”. Compre os livros de Rejane Jungbluth Suxberger  neste link.


 

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

.: Psicóloga trans lança livro de histórias de cura e acolhimento de minorias

Para muitos considerado uma minoria descartável, as travestis são precursores em praticar o acolhimento aos seus pares. Nas ruas, os corpos desumanizados e as potências que reinventaram o cuidado muito antes de ele virar política pública ganha destaque no livro da psicóloga especialista em redução e danos Julia Bueno. “Nas Esquinas do Cuidado: Brenda Lee e a Redução de Danos” é fruto de sua tese de mestrado e que, agora, ganha as livrarias pela Editora Telha.

“Nas Esquinas do Cuidado” investiga as narrativas de pessoas trans e travestis sobre Redução de Danos, cuidado e transfobia, ampliando o debate sobre saúde e direitos humanos. A partir de uma perspectiva construcionista e feminista, a obra analisa como a Redução de Danos é entendida não apenas como tecnologia de saúde, mas como estratégia de sobrevivência que confronta as encruzilhadas do gênero e da vulnerabilidade social.

“Para mim foi muito importante perceber como existe uma narrativa que insiste em ver pessoas trans apenas como sujeitas marginalizadas que “precisam de cuidado”. Quando vamos a fundo na história, encontramos Brenda Lee, Cláudia Wonder, Jovana Baby e tantas outras que foram centrais na construção de políticas públicas e na transformação cultural do país. São trajetórias potentes, mas sistematicamente apagadas — quase como um projeto para nos expulsar da história e negar até o nosso direito à memória.” , afirma Julia Bueno, psicóloga e escritora

O livro discute como a transfobia permeia até mesmo espaços que se definem pela promoção de direitos, apontando a necessidade de abordar saúde de forma interseccional, considerando as condições estruturais que vulnerabilizam corpos trans. Ao iluminar essas experiências, a obra contribui para consolidar e expandir o campo da Redução de Danos, destacando a ética travesti como potência transformadora na promoção do cuidado.

“Nas Esquinas do Cuidado” também é uma homenagem à figura trans brasileira Brenda Lee, responsável por décadas atrás, tornar-se figura central no atendimento da população LGBTQIAPN+ antes mesmo dessa sigla ser criada. Seu cuidado, especialmente com pessoas soropositivas, foi um divisor de águas na atenção e no acolhimento dado a essa parcela da população ainda marginalizada em sua maioria. Compre o livro “Nas Esquinas do Cuidado”, de Julia Bueno, neste link.


Sobre a autora
Julia Bueno
é formada em Psicologia pelas Faculdades Integradas de Guarulhos-SP, especialista em Psicologia Política pela USP, mestra em Psicologia pela UFPE, doutoranda em Psicologia também na UFPE. É pesquisadora no GEMA (Grupo de estudos de gênero e masculinidades), também é redutora de danos, psicóloga clínica, poeta e escritora do livro de poesias “Amor & Revolta” e cofundadora do coletivo psicodelia baixo astral. Compre o livro “Nas Esquinas do Cuidado”, de Julia Bueno, neste link.

.: John Green expõe o mundo desigual em “Tudo É Tuberculose”

Autor de fenômenos editoriais como "A Culpa É das Estrelas" lança olhar único sobre infecção mais mortal de todos os tempos e mostra como ela moldou o passado e o presente da humanidade

John Green se tornou uma das vozes mais relevantes da literatura contemporânea com a publicação de romances como "A Culpa É das Estrelas" e "Cidades de Papel", que ganharam adaptações cinematográficas de sucesso e venderam mais de 5 milhões de exemplares no Brasil. Em janeiro, ele presenteia os leitores com uma obra singular, na qual lança seu olhar sensível sobre a doença infecciosa que mais mata pessoas em todo o mundo. Em "Tudo É Tuberculose: a História e a Reincidência da Nossa Infecção Mais Mortal", eleito Melhor Livro de Não Ficção no Goodreads Choice Awards 2025, Green entrelaça um panorama histórico e social da enfermidade à jornada emocionante de um jovem que enfrentou a doença.A tradução é de Cássio de Arantes Leite.

Em uma viagem a Serra Leoa, John Green conheceu Henry Reider, paciente do Lakka, hospital de referência no tratamento da tuberculose no país. Aos 17 anos, o jovem já havia passado uma década de sua vida lutando contra a doença. Apesar das dificuldades, fazia questão de animar os outros hospitalizados e comoveu o autor por lembrá-lo do filho, que tem o mesmo nome e jeito alegre. Impressionado com a história de Henry e com o imenso impacto da doença no país, Green se dedicou a pesquisar ostensivamente a enfermidade mais letal de todos os tempos.

O autor descobriu como a tuberculose esteve na raiz de grandes fatos históricos, que vão do início da Primeira Guerra Mundial à invenção do chapéu de caubói. Ele também destaca o papel de personagens importantes, como Sir Arthur Conan Doyle, o criador de Sherlock Holmes, que foi um dos médicos a pesquisar uma cura para a enfermidade, e o Dr. Alan Hart, homem trans, um dos pioneiros no uso da chapa de pulmão para diagnosticar a doença.

Ao retratar a história de Henry, Green demonstra como milhões de mortes poderiam ser evitadas anualmente com apoio financeiro para a prevenção e tratamento em países emergentes. Em Serra Leoa, por exemplo, além da indisponibilidade de medicamentos, a falta de alimentos, água e roupas quentes também compromete o tratamento dos pacientes. Por meio de dados e entrevistas com especialistas, o autor denuncia que a preservação de vidas é deixada de lado por órgãos governamentais e grandes corporações por não ser economicamente interessante.

Green também discute como o racismo e a xenofobia se apresentam como obstáculos para a difusão da cura. No passado, quando a tuberculose havia se disseminado entre a maior parte da população europeia, era considerada uma doença “lisonjeira”, que deixava os homens mais criativos e sensíveis e as mulheres com aparência mais desejável para os padrões da época  — pele pálida, rosto corado pela febre e magreza excessiva. Entretanto, com a popularização da cura no norte global, a tuberculose passou a ser associada a grupos marginalizados, como as populações pretas, asiáticas e LGBTQIAPN+.

“A doença de Henry, na verdade, não se devia ao bacilo de Koch, e sim às forças históricas com que nos deparamos ao longo deste livro. Henry era a encarnação da spes phthisica; um rapaz sensível e poético. No entanto, não era tratado como um poeta iluminado e belo condenado à morte pelas mesmas forças prodigiosas que o agraciaram com suas faculdades criativas. Sua doença era um produto do empobrecimento de Serra Leoa ao longo dos séculos, de um sistema de saúde esvaziado pela colonização, pela guerra e pelo ebola, de um mundo que parou de se importar com a tuberculose assim que ela deixou de representar uma ameaça para os ricos". Compre o livro "Tudo É Tuberculose", de John Green, neste link.


Sobre o autor
John Green é um dos escritores norte-americanos mais queridos pelo público jovem e igualmente festejado pela crítica. É autor best-seller do New York Times, premiado com a Printz Medal, o Printz Honor da American Library Association e o Edgar Award, e foi duas vezes finalista do prêmio literário do LA Times. Compre os livros de John Green neste link.


TUDO É TUBERCULOSE, de John Green




Páginas: 192


Editora: Intrínseca


Livro impresso: R$ 69,90


E-book: R$ 46,90

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