terça-feira, 15 de julho de 2025

.: "O Nascimento do Vento" investiga a respiração como coreografia da vida


Espetáculo de Bruno Moreno será apresentado no Sesc Pinheiros, com trilha ao vivo executada por sexteto de sopros. Foto: Milton Zan

O espetáculo "O Nascimento do Vento", de Bruno Moreno, estreia no Sesc Pinheiros nesta terça-feira, dia 15 de julho, com apresentações no palco do Teatro Paulo Autran. A obra nasce da pesquisa iniciada no programa "Pivô Pesquisa 2024", partindo de um mergulho nas relações entre dança, morte e decomposição, atravessando referências que vão das "Danças Macabras" medievais ao Butô, passando pelo universo das práticas BDSM, que são deslocadas para criar um ambiente coreográfico que tensiona os limites entre vida e morte.

A cena se constrói a partir de uma cama a vácuo: dispositivo que imobiliza o corpo e evidencia unicamente o movimento da respiração. Nessa condição limítrofe entre imobilidade e presença o corpo se manifesta, enquanto uma nuvem de sinos o envolve. Ao mesmo tempo, um quarteto de sopros executa ao vivo uma versão reescrita da Sinfonia do Adeus, de Haydn, sob a direção musical de Felipe Botelho. A música acompanha o ritmo da respiração e vai se esvaindo ao longo da apresentação.

O trabalho explora a respiração como elemento central da coreografia e mostra um corpo em trânsito pelos tempos da vida, da morte e de um espaço intermediário onde essas dimensões se cruzam. O espetáculo combina movimento, imobilidade e som para criar uma atmosfera de suspensão e transformação, convidando o público a vivenciar esse estado de tensão e renovação.


Sobre Bruno Moreno
Nasceu em 1988, em São Paulo. Vive entre a capital paulista e Teresina/PI, onde é artista residente no CAMPO Arte Contemporânea. Performer e coreógrafo formado em Artes Cênicas pela USP, colabora desde 2014 com a plataforma Demolition Incorporada, de Marcelo Evelin, integrando obras como "Batucada", "Dança Doente", "A Invenção da Maldade" e "UIRAPURU", apresentadas em festivais nacionais e internacionais.


Ficha técnica 
Espetáculo "O Nascimento do Vento"
Concepção, coreografia e performance: Bruno Moreno
Arranjos e direção musical: Felipe Botelho
Quarteto de sopros: Beto Sporleder (clarone e sax soprano), Catherine Santana (oboé), Léo Muniz (clarinete) e Tahyná Oliveira (flauta)
Concepção e operação de luz: Luana Gouveia
Direção visual: Beatriz Id e Bruno Moreno
Figurino: Beatriz Id
Cenotécnica: Dinho Weidson e Tobias Barleta
Produção e direção técnica: Andrez Ghizze
Registro em vídeo: Igor Marotti
Registro fotográfico: Mayra Azzi
Residência de criação: Pivô Pesquisa
Realização: CAMPO Arte Contemporânea


Serviço
Espetáculo "O Nascimento do Vento"
De 15 a 17 de julho - terça a quinta-feira, às 20h00
Teatro Paulo Autran – Sesc Pinheiros
Classificação: 12 anos
Duração: 40 minutos
Preços: R$ 50,00 (inteira), R$ 25,00 (meia-entrada) e R$ 15,00 (credencial plena)
Sesc Pinheiros – Rua Paes Leme, 195   Estacionamento com manobrista: Terça a sexta, das 10h00 às 21h30; sábados das 10h00 às 21h00; domingos e feriados das 10h00 às 18h00.

.: Clubes de Leitura On-line da Biblion reúnem obras para todos os gostos


A leitura como experiência coletiva tem ganhado força no ambiente digital. Prova disso é a nova temporada de clubes de leitura da BibliON - Biblioteca digital gratuita do estado de São Paulo. Em julho e agosto, seis encontros virtuais estão programados, com obras que percorrem diferentes faixas etárias, gêneros e temas, da delicadeza poética de Aline Bei ao pensamento filosófico de Luiz Felipe Pondé, passando por clássicos como "O Livro da Selva" e "Frankenstein: o Prometeu Moderno"

Os encontros são mediados por especialistas, acontecem por videoconferência e oferecem espaço para troca de impressões, escuta ativa e debates horizontais. Todos os livros estão disponíveis gratuitamente na própria plataforma da BibliON. A temporada começa em 28 de julho com "O Peso do Pássaro Morto", premiado romance de estreia de Aline Bei, escolhido para o Clube de Leitura BibliON. Em linguagem lírica e fragmentada, a autora retrata as dores do crescimento, da perda e da sobrevivência ao longo de três décadas na vida de uma mulher comum.
 
No dia seguinte, 29 de julho, a escritora ruandesa Scholastique Mukasonga será tema do Clube de Leitura 60+, com "Baratas", obra em que recupera memórias da infância marcada pelo genocídio de Tutsis. À noite, o Clube Infantojuvenil convida leitores mais jovens a redescobrir "O Livro da Selva", de Rudyard Kipling, em uma edição acessível e envolvente.
 
Já o Clube Pensadores da Atualidade, em 30 de julho, traz uma conversa sobre "Você É Ansioso?", do filósofo Luiz Felipe Pondé, propondo uma análise direta e bem-humorada sobre angústias da vida contemporânea e os desafios emocionais do século XXI.
 
Em agosto, dois novos encontros ampliam a diversidade da programação. No dia 7, o Clube de Leitura Poesia destaca "Maya Angelou - Poesia Completa", reunindo versos da autora norte-americana reconhecida por sua voz firme e inspiradora sobre temas como negritude, feminilidade e resistência. Já no dia 13, o Clube Vozes Femininas revisita o clássico "Frankenstein: o Prometeu Moderno", de Mary Shelley, abrindo espaço para refletir sobre autoria feminina, ciência, ética e humanidade. Para participar dos clubes é necessário fazer o cadastro na BibliON e seguir o clube para receber as notificações.


Programação completa:

Clube de Leitura BibliON
📖  "O Peso do Pássaro Morto", de Aline Bei
🗓 28 de julho, das 19h00 às 20h30
 

Clube 60+
📖"Baratas", de Scholastique Mukasonga
🗓 29 de julho, das 16h00 às 17h00
 

Clube Infantojuvenil
🗓 29 de julho, das 19h00 às 20h00
 

Clube Pensadores da Atualidade
🗓 30 de julho, das 19h00 às 20h30
 

Clube de Poesia
📖 "Maya Angelou - Poesia Completa"
🗓 7 de agosto, das 19h30 às 20h30
 

Clube Vozes Femininas
📖 "Frankenstein: o Prometeu Moderno", de Mary Shelley
🗓 13 de agosto, das 18h00 às 19h00

.: MAM São Paulo exibe mostra inédita de videoarte na Cinemateca Brasileira


Sessão única no dia 16 de julho apresenta obras de artistas como Cinthia Marcelle, Carmela Gross e Lucas Bambozzi; programação celebra a doação de 75 vídeos da coleção Chaia ao acervo do museu. 
Lia Chaia, Aleph (frame do vídeo). Coleção Museu de Arte Moderna de São Paulo. Still_ Marina Paixão

O MAM - Museu de Arte Moderna de São Paulo realiza nesta quarta-feira, dia 16 de julho, uma sessão especial gratuita na Cinemateca Brasileira para apresentar ao público uma seleção de videoartes recém-incorporadas ao seu acervo. Com curadoria de Cauê Alves, curador-chefe do MAM, e do professor da área de Ciências Sociais da PUC-SP Miguel Chaia, a mostra MAM na Cinemateca: corpo e cidade em movimento reúne, em 1h17, 14 vídeos recém integrados ao acervo do museu, a partir de uma doação da coleção Chaia.

A escolha da Cinemateca como local da exibição reforça a histórica ligação entre as instituições: foi dentro do MAM que nasceu, em 1954, a filmoteca que deu origem à Cinemateca Brasileira, hoje um dos principais centros de preservação da memória audiovisual do país. “Neste momento em que o museu está temporariamente fora de sua sede no Parque Ibirapuera, por conta da reforma da marquise, temos levado nosso acervo a outras instituições parceiras. Apresentar esse conjunto potente de vídeos na Cinemateca reforça não só uma conexão histórica, mas também o compromisso compartilhado com a preservação e difusão da memória audiovisual e da arte contemporânea”, afirma Cauê Alves, curador-chefe do MAM São Paulo.
 
“Parcerias como esta são de importância fundamental para ampliar o acesso a obras cinematográficas que encontram pouca visibilidade ou circulação nos circuitos tradicionais. A colaboração com o MAM, cuja experiência e olhar apurado para as videoartes enriquecem enormemente o diálogo com outras linguagens e formatos, fortalece a missão da Cinemateca Brasileira de preservar, valorizar e difundir o cinema e audiovisual brasileiros em toda a sua riqueza, complexidade e pluralidade”, completa César Turim, gerente de Difusão da Cinemateca Brasileira.
 

Programação
A sessão principal acontece às 19h00 e será precedida por uma sessão com acessibilidade de legendas, janela Libras e audiodescrição, às 17h00. A obra que dá início às exibições é "Cruzada" (2010), de Cinthia Marcelle, uma vídeo-performance em que 16 músicos marcham pelas ruas até se encontrarem num cruzamento, criando uma poderosa coreografia sonora e urbana. Em seguida, a seção "Retratos Poéticos" traz obras que exploram a corporeidade e as identidades com lirismo e força visual, como "Faces", de Lia Chaia; Dandara, de Rafaela Kennedy; "Via de Mãos Dadas", de Thiago Rivaldo; e "Translado", de Sara Ramo, em que elementos cotidianos ganham contornos simbólicos e políticos.

Na sequência, a seção "Paisagens Políticas" reúne vídeos como "Aleph", de Lia Chaia; "Luz del Fuego", de Carmela Gross, obra que rememora a figura histórica da artista e ativista homônima; "Etrom uo Aicnêdnepedni", de Guilherme Peters; e "Americano", de Berna Reale, conhecida por seus vídeos que confrontam a violência institucional. A mostra segue com o bloco "Experiências da Linguagem", em que as obras tensionam a própria estrutura do vídeo. São apresentados "Odiolândia", de Giselle Beiguelman, uma crítica ao discurso de ódio nas redes sociais; "Pamonha", de Marcelo Cidade; "Love Stories", de Lucas Bambozzi; e "Monólogo", de Nicole Kouts. Por fim, encerrando a sessão, o vídeo "Sin Peso", de Cao Guimarães, traz imagens lentas e poéticas em que gestos simples ganham densidade sensível, convidando à contemplação.
 
A mostra marca a celebração da doação de 75 videoartes ao MAM São Paulo, feita por Vera e Miguel Chaia, professores da Faculdade de Ciências Sociais da PUC-SP e colecionadores de arte contemporânea desde a década de 1970. Fundadores do Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política da mesma universidade, em 1997, o casal reuniu ao longo das décadas um dos mais amplos e relevantes recortes do vídeo contemporâneo, abarcando 40 artistas de diferentes gerações, vertentes e regiões do Brasil e do mundo. A doação ao MAM inclui obras em vídeo e videoinstalações que ampliam significativamente o acervo audiovisual do museu, que contava com 41 obras em vídeo até então.
 
“A doação de Vera e Miguel Chaia inaugura um novo momento para o acervo do museu ao quase triplicar a coleção de vídeos do MAM. A mostra na Cinemateca é um modo não apenas de dar visibilidade para a coleção, mas também de reflexão crítica dessa produção contemporânea em um formato de exibição diferente da sala de exposições”, diz Cauê Alves.

“Parcerias como esta são de importância fundamental para ampliar o acesso a obras cinematográficas que encontram pouca visibilidade ou circulação nos circuitos tradicionais. A colaboração com o MAM, cuja experiência e olhar apurado para as videoartes enriquecem enormemente o diálogo com outras linguagens e formatos, fortalece a missão da Cinemateca Brasileira de preservar, valorizar e difundir o cinema e audiovisual brasileiros em toda a sua riqueza, complexidade e pluralidade”, completa César Turim, gerente de Difusão da Cinemateca Brasileira.
 

Sobre o MAM São Paulo
Fundado em 1948, o Museu de Arte Moderna de São Paulo é uma sociedade civil de interesse público, sem fins lucrativos. Sua coleção conta com mais de cinco mil obras produzidas pelos mais representativos nomes da arte moderna e contemporânea, principalmente brasileira. Tanto o acervo quanto as exposições privilegiam o experimentalismo, abrindo-se para a pluralidade da produção artística mundial e a diversidade de interesses das sociedades contemporâneas. O MAM têm uma ampla grade de atividades que inclui cursos, seminários, palestras, performances, espetáculos musicais, sessões de vídeo e práticas artísticas. O conteúdo das exposições e das atividades é acessível a todos os públicos por meio de visitas mediadas em libras, audiodescrição das obras e videoguias em Libras. O acervo de livros, periódicos, documentos e material audiovisual é formado por 65 mil títulos. O intercâmbio com bibliotecas de museus de vários países mantém o acervo vivo.

O MAM está temporariamente fora de sua sede no Ibirapuera desde agosto de 2024 devido à reforma da marquise, realizada pela Secretaria do Verde e Meio Ambiente da Prefeitura de São Paulo, e o retorno do museu ao Parque está previsto para o segundo semestre de 2025. A programação de exposições do primeiro semestre está sendo apresentada em instituições parceiras como o Centro Cultural Fiesp e o Sesc São Paulo. Acompanhe as atividades do MAM através do site (www.mam.org.br) e pelas redes sociais (@mamsaopaulo).
 

Sobre a Cinemateca Brasileira
A Cinemateca Brasileira, maior acervo de filmes da América do Sul e membro pioneiro da Federação Internacional de Arquivo de Filmes – FIAF, foi inaugurada em 1949 como Filmoteca do Museu de Arte Moderna de São Paulo, tornando-se Cinemateca Brasileira em 1956, sob o comando do seu idealizador, conservador-chefe e diretor Paulo Emílio Sales Gomes. Compõem o cerne da sua missão a preservação das obras audiovisuais brasileiras e a difusão da cultura cinematográfica. Desde 2022, a instituição é gerida pela Sociedade Amigos da Cinemateca, entidade criada em 1962, e que recentemente foi qualificada como Organização Social. O acervo da Cinemateca Brasileira compreende mais de 40 mil títulos e um vasto acervo documental (textuais, fotográficos e iconográficos) sobre a produção, difusão, exibição, crítica e preservação cinematográfica, além de um patrimônio informacional online dos 120 anos da produção nacional. Alguns recortes de suas coleções, como a Vera Cruz, a Atlântida, obras do período silencioso, além do acervo jornalístico e de telenovelas da TV Tupi de São Paulo, estão disponíveis no Banco de Conteúdos Culturais para acesso público.
 

Serviço
MAM na Cinemateca: corpo e Cidade em Movimento
De 16 de julho de 2025, das 19h00 às 21h30 (sessão acessível às 17h00)
Curadoria: Cauê Alves e Miguel Chaia
Realização: MAM São Paulo e Cinemateca Brasileira
Local: Cinemateca Brasileira (Largo Sen. Raul Cardoso, 207 - Vila Clementino)
Evento gratuito

.: Teatro-X revisita história do escritor Lima Barreto no Centro Cultural Olido


Com dramaturgia de Luís Alberto de Abreu e direção de Paulo Fabiano, espetáculo promove diálogo entre a vida do homenageado, momentos da escrita do romance ‘Triste Fim de Policarpo Quaresma’ e uma crítica à sociedade que marginalizou esse grande autor negro. Foto: Allan Bravos
 


Dono de uma literatura militante e engenhosa, Lima Barreto (1881-1922) não apenas ficou conhecido como um dos maiores nomes da nossa literatura, como viveu às margens dessa sociedade racista e desigual que tanto combateu em suas obras. E a genialidade desse grande autor negro é visitada pelo grupo Teatro-X em "Lima Barreto, Ao Terceiro Dia", com dramaturgia de Luís Alberto de Abreu e direção de Paulo Fabiano. O espetáculo estreia em curta temporada no Centro Cultural Olido, na Sala Sala Paissandú, de 18 de julho a 3 de agosto, com sessões gratuitas, às sextas e aos sábados, às 19h30, e aos domingos, às 18h00. 

A montagem trata do período em que o escritor e jornalista esteve em sua segunda internação no Hospício Dom Pedro II para tratar sua dependência de álcool e os problemas de saúde.  A peça é um mergulho poético e visceral nos pensamentos finais do autor. Na trama, aos 41 anos, durante o período em questão, Lima revive memórias de sua juventude e o processo de escrita de “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, que ele publicou como folhetim no Jornal do Commercio em 1911, e, mais tarde, em 1915, foi lançada em livro em uma edição bancada pelo próprio autor.

Entre delírios e a lucidez, ele fantasia encontros com os personagens que criou, como se eles próprios viessem cobrar, consolar ou confrontar seu criador. A peça ainda escancara as marcas de um Brasil racista, elitista e hipócrita que empurrou o autor à margem. A trama é narrada em três planos: o do presente, no qual vemos Lima internado compulsoriamente em 1919 por alcoolismo; o do passado, quando ele escreve sua obra-prima; e o da ficção, no qual se desenvolvem trechos da história de Policarpo e outros personagens do autor. 

A ideia é propor um diálogo urgente entre passado e presente, revelando o abismo entre o gênio literário de Lima e o grave abandono e a falta de reconhecimento que ele sofreu em vida. Além disso, em consonância com a luta antimanicomial, o trabalho denuncia as internações em hospícios como forma de controle social, processo que vitimou uma massa de pessoas pretas, incluindo o próprio escritor.


Sobre Lima Barreto
Filho de um tipógrafo e de uma professora negros, Afonso Henriques de Lima Barreto nasceu em 1881, no Rio de Janeiro, e era apadrinhado por Visconde de Ouro Preto, senador do Império. Sua mãe morreu quando ele tinha apenas seis anos. 

Seus primeiros escritos começam cedo, em 1900, com registros de suas impressões sobre o Rio de Janeiro e da vida urbana em seu “Diário Íntimo”, publicado postumamente. Em 1905, começa a trabalhar na imprensa ao escrever reportagens publicadas no Correio da Manhã. Em 1907, torna-se secretário da revista Fon-Fon, que tinha grande circulação na época.

Em 1911, publicou em folhetim o romance “Triste Fim de Policarpo Quaresma” no Jornal do Commercio. E essa obra tão importante para a literatura brasileira só ganhou formato de livro em 1915, em uma edição bancada pelo próprio autor. 

Por ser um homem negro e por conta de sua literatura combativa e suas críticas aos costumes, às hipocrisias e às desigualdades sociais, foi excluído da crítica literária e teve suas obras praticamente ignoradas. Marginalizado e vítima do racismo, sofreu com a desvalorização de seu trabalho, alcoolismo e depressão, que resultaram em duas internações em manicômios. Morreu em 1922, aos 41 anos, por conta de um colapso cardíaco. 

Além de “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, Lima Barreto escreveu outras grandes pérolas da literatura brasileira, como “Recordações do escrivão Isaías Caminha” (1909), “Numa e a Ninfa” (1915), “Clara dos Anjos” (1922/1948 - póstumo) e “Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá” (1919), além de contos, crônicas, memórias e correspondências e peças de teatro. Compre os livros de Lima Barreto neste link.


Ficha técnica
Espetáculo "Lima Barreto, Ao Terceiro Dia"
Dramaturgo: Luis Alberto de Abreu
Direção: Paulo  Fabiano
Criação de luz:  Décio  Filho
Criação musical:  Ivan  Silva
Operação de luz: Flávia  Servidone
Criação de figurino: Paulo  de  Moraes  e  Claudia  Mitsue  Petroff
Cenografia: Paulo Fabiano   
Cenotécnica e adereços: Eduardo Mena e Emerson Fernandes   
Produção geral: Tamires  Santana e Andréia  Manczyk
Elenco: Alda   Machado, Cléo  de  Moraes, Estefane  Barros, Paulo Fabiano, Baraúna, Ulisses  Sakurai, Jon  Marquez, Marcelo Sousa, Sérgio  Fabi, Airton Reno, Paulo de  Moraes e Rodrigo Cristalino SUBS  Ricardo  Sequeira e Valmir Santana
Preparação vocal: Gleiziane  Pinheiro
Preparação corporal: Inês  Aranha
Criação audiovisual e fotografia: Alexandre  Mercki
Assessoria Tupi Guarani: Claudio Vera
Assessoria de imprensa: Pombo  Correio
Design gráfico: MANCZYK
Mídias  sociais: Jon Marquez
Entrevistados: Estefânia  Ventura, Eduardo  Silva, Luis  Alberto  de  Abreu e Rui Ricardo Dias
Agradecimentos: EMEI Regente Feijó: Andrea  Angelotti e Maria Bamonte ; Teatro Studio Heleny Guariba : Dulce  Muniz  e Roberto Sullivan


Serviço
Espetáculo "Lima Barreto, Ao Terceiro Dia"
Classificação: 16 anos
Duração: 120 minutos
Centro Cultural Olido - Sala Paissandú
Av. São João, 473 - Centro Histórico de São Paulo, São Paulo
Temporada: 18 de julho a 3 de agosto de 2025
Às sextas e aos sábados, às 19h30; e aos domingos, às 18h
Ingressos: Grátis (Reservas antecipadas Sympla - link: Lima Barreto ao Terceiro Dia em São Paulo - Sympla  ) Distribuição de ingressos a partir de 1h antes do inicio do espetaculo *espaço sujeito à lotação
Capacidade: 139 lugares
Acessibilidade:  acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida (SIM) // Domingo, 03 de Agosto terá intérprete de libras

.: "Estratagemas Desesperados" estreia dia 17 de julho no Sesc 24 de Maio


Personagens que desafiam arquétipos da mulher estão no espetáculo baseado em contos de horror das autoras ibero-americanas: Mariana Enriquez (Argentina), María Fernanda Ampuero (Equador) e Layla Martinez (Espanha), em dramaturgia original. Foto: Mayra Azzi


Quatro mulheres dentro de uma casa compartilham histórias que tensionam os limites entre o desejo e o horror. As personagens são inspiradas na obra das autoras contemporâneas Mariana Enriquez (Argentina), María Fernanda Ampuero (Equador) e Layla Martinez (Espanha). A direção é de Amanda Lyra e Juuar, que também assinam a dramaturgia.  O espetáculo tem sua temporada de estreia de 17 de julho a 10 de agosto, no Sesc 24 de maio. No elenco, além de Lyra, estão Carlota Joaquina, Monalisa Silva e Stella Rabello.

“Lemos e ouvimos histórias todos os dias de mulheres em situações de violência doméstica, mulheres que são abusadas, estupradas e assassinadas. Que mudança aconteceria no nosso imaginário se as histórias que ouvimos e contamos sobre violência não fossem apenas sobre a mulher que sofre e a mulher que morre, mas também sobre a mulher que responde à violência? A mulher que tem desejos violentos intrínsecos e viscerais?”, indaga a diretora Amanda Lyra ao explicar a perspectiva adotada pela peça.

Essas autoras exploram, por meio do horror, um olhar radical sobre o feminino e a violência de gênero, além de desafiar os arquétipos tradicionais da mulher em suas histórias. São personagens complexas, dúbias, que fogem dos padrões morais. Juuar, que também assina a direção da peça, elabora: “Ao revirar o material dessas autoras ficamos frente a frente com mulheres que agem e vão até as últimas consequências do desejo, o que nos coloca diante de um constante trânsito entre o assombro e a atração, o nojo e o tesão. Ao provocar em nós a habitação desses sentimentos aparentemente avessos, essas mulheres parecem nos libertar de qualquer julgamento moral e revelar, a partir de ações violentas e radicais, a possibilidade de debater e existir fora do campo de um desejo prescrito, aceito socialmente. Nesse sentido, o próprio gênero do horror nos apresenta a mesma questão ao abordar temas sociais que são constantemente evitados em debates públicos”.

A ideia da casa como cenário no espetáculo é contrapor o espaço doméstico - esse lugar historicamente destinado às mulheres, espaço familiar e de cuidado, normalmente associado à felicidade - às histórias terríveis que essas personagens contam. Na peça, é a casa que se assombra com essas histórias de amor, obsessão, delírio e vingança. A trilha sonora original (Azulllllll e Lello Bezerra), a cenografia (Valdy Lopes) e a iluminação (Sarah Salgado) são usadas para distorcer sua imagem convencional e, criando uma atmosfera assombrada, ajudam a transformar a casa em uma espécie de quinto personagem da peça. A equipe de criação conta, ainda, com Danielli Mendes (direção de movimento) e Diogo Costa (figurino). 

O texto foi construído em uma residência ao longo de sete semanas no CPT (Centro de Pesquisa Teatral do Sesc-SP) em julho e agosto de 2024, em uma iniciativa em parceria com o Festival Mirada. Na ocasião, além de ler e discutir várias obras de escritoras latino- americanas contemporâneas, as artistas se debruçaram sobre os gêneros cinematográficos do terror e do horror.


Sobre as autoras
 Mariana Enriquez (Buenos Aires, 1972) é conhecida por sua obra literária que explora temas de horror e violência. Seu estilo combina elementos do realismo com o sobrenatural, criando narrativas que revelam as tensões sociais e políticas da Argentina contemporânea. Ela é autora de vários livros de contos e romances, incluindo “As coisas que perdemos no fogo” e “Nossa parte da noite”. Seu trabalho tem sido reconhecido tanto em seu país natal quanto no exterior, e recebeu vários prêmios literários que destacam sua contribuição inovadora para a literatura contemporânea, como o Prêmio Herralde, o Prêmio da Crítica Argentina, entre outros. 

María Fernanda Ampuero (Equador, 1976) explora temas de violência, opressão e desigualdade em sua obra literária. Seu último livro, “Briga de Galos”, foi um dos dez livros do ano do The New York Times em Espanhol e já foi traduzido para vários idiomas. É uma das escritoras latinoamericanas mais importantes dos últimos anos, de acordo com a revista Gatopardo. “Briga de Galos” recebeu o prêmio Joaquín Gallegos Lara 2018 como melhor livro de contos do ano.  

Layla Martinez (Espanha, 1987) é escritora, cientista política e mestre em sexologia. Coordenou e ministrou oficinas de literatura, ciclos de cinema e palestras sobre a história das mulheres e dos movimentos sociais. “Cupim”, seu romance de estreia, lançado em 2021, tornou-se um fenômeno na Espanha, com direitos de publicação vendidos em mais de 15 países.


Ficha Técnica
Espetáculo "Estratagemas Desesperados"
Idealização: Amanda Lyra
Direção e dramaturgia: Amanda Lyra e Juuar
A partir dos textos: “Nada de Carne Sobre Nós” e “Onde Está Você Coração?”, de Mariana Enriquez; “Crias” de María Fernanda Ampuero; e trecho adaptado do romance “Cupim”, de Layla Martinez
Elenco: Amanda Lyra, Carlota Joaquina, Monalisa Silva e Stella Rabello
Direção musical e trilha sonora original: Azulllllll e Lello Bezerra
Direção de movimento: Danielli Mendes
Cenografia: Valdy Lopes
Figurino: Diogo Costa
Iluminação: Sarah Salgado
Assistente de direção e de produção: Vini Silveira
Assistente de cenografia: Cris Cortilio 
Produção de  cenografia: Marília Dourado
Cenotécnico: Pelé Leonarchick
Contrarregra: Cezar Renzi
Modelista: Edson Honda
Engenheiro e operador de som: Murilo Gil
Operação de luz: Pâmola Cidrack
Design gráfico: Estúdio M-CAU
Fotos: Mayra Azzi
Assessoria de imprensa: Pombo Correio
Coordenação geral e produção: Amanda Lyra | Troca produções
Direção de produção: Aura Cunha | Elephante Produções


Serviço
Espetáculo "Estratagemas Desesperados"
Dir. Amanda Lyra e Juuar
Temporada: 17 de julho a 10 de agosto de 2025
Quintas, às 19h00. Sextas, às 20h00. Sábados, às 17h00 e 20h00. Domingos, às 18h00.
*Sessões com interpretação em Libras nos dias 7, 8, 9 e 10 de agosto
Sesc 24 de Maio, Rua 24 de Maio, 109, São Paulo – 350 metros da estação República do metrô
Ingressos: https://www.sescsp.org.br/programacao/estratagemasdesesperados/  ou através do aplicativo Credencial Sesc SP a partir do dia 8/7 e nas bilheterias das unidades Sesc SP a partir de 10/7 - R$60 (inteira), R$30 (meia) e R$18 (Credencial Sesc).
Classificação: 14 anos
Duração: 90 minutos
Acessibilidade: espaço acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida
Serviço de van: transporte gratuito até as estações de metrô República e Anhangabaú. Saídas da portaria a cada 30 minutos, de terça a sábado, das 20h00 às 23h00, e aos domingos e feriados, das 18h00 às 21h00.

.: São Paulo recebe a 16ª Edição do Bazar das Bruxas - Especial Deusas


Evento gratuito celebra o sagrado feminino neste sábado, 19 de julho, no Clube Atlético Ypiranga. Foto: divulgação


Prepare seu amuleto, escolha sua roupa mais mágica e sinta o chamado: neste sábado, dia 19 de julho, São Paulo será palco da 16ª edição do Bazar das Bruxas, um evento único e consagrado que já faz parte do calendário esotérico da cidade. Com entrada gratuita, a edição deste ano traz o tema "Especial Deusas" e acontece das 11h00 às 20h00 no tradicional Clube Atlético Ypiranga, localizado na Rua do Manifesto, 475, a apenas 15 minutos da Estação Ipiranga.

Mais do que uma feira, o "Bazar das Bruxas" é uma verdadeira celebração da espiritualidade, da ancestralidade e do poder feminino. Um espaço para vivenciar a energia das deusas de diferentes culturas e tradições, com uma programação intensa que inclui vivências místicas, atendimentos com oraculistas, rodas de conversa, palestras, rituais coletivos, apresentações artísticas, além de uma feira com expositores especializados em artigos esotéricos, como cristais, incensos, tarôs, velas, ervas, amuletos, vestuário e muito mais.

Esse é o lugar ideal para quem vibra com astrologia, sente a força dos elementos da natureza, cultiva rituais de autocuidado e conexão espiritual e deseja reencontrar sua própria essência sagrada. O evento convida mulheres – e também homens que respeitam e valorizam o feminino – a entrarem em contato com a Deusa interior, em um ambiente acolhedor, mágico e transformador. Seja você uma bruxa experiente, uma curiosa iniciada, ou alguém em busca de sentido e pertencimento, o Bazar das Bruxas é um convite para se reconectar com sua espiritualidade, sua intuição e com uma comunidade vibrante que acredita no poder do autoconhecimento. Vista-se como uma deusa e venha celebrar! Leve suas amigas, sua mãe, sua filha, sua irmã. Celebrem juntas a magia de ser mulher em todas as suas fases.

Serviço
16ª Edição do Bazar das Bruxas - Especial Deusas

Sábado, 19 de julho de 2025, das 11h00 às 20h00
Clube Atlético Ypiranga – Rua do Manifesto, 475 – São Paulo
A apenas 15 minutos da Estação Ipiranga. Gratuita. Livre.

segunda-feira, 14 de julho de 2025

.: Espetáculo “Navalha na Carne” celebra os 90 anos de Plínio Marcos


Dirigida por Fernando Aveiro, versão do núcleo CaTI reestreia em SP e atualiza a presença feminina no clássico escrito em 1967. Foto: Kaligari


No ano em que se comemora os 90 anos de nascimento do dramaturgo santista Plínio Marcos (1935-1999), o núcleo CaTI (Caxote Teatro Íntimo) reestreia o clássico “Navalha na Carne” em 24 de julho, no Teatro Manás Laboratório, localizado na Bela Vista, zona central de São Paulo. Onze anos após sua primeira montagem da peça, intitulada "Por Acaso, Navalha", o grupo atualiza as questões sociais e humanas de um dos textos mais potentes da dramaturgia brasileira.

A opressão vivida pela personagem Neusa Sueli, interpretada por Bárbara Salomé, é um dos destaques da dramaturgia original. Na nova montagem, se por um lado a prostituta ainda segue no centro do “ringue”, de onde não consegue sair e vive inúmeros tipos de violência, por outro se insere em um novo contexto, em que a voz da mulher ganha protagonismo. 

Fernando Aveiro, diretor do núcleo, lembra que uma simples frase dita pela personagem, como “Um dia a casa cai viu, pode crer!", hoje ganha outro peso na voz de Salomé. “Embora a Neusa tenha consciência do que está vivendo, ela não consegue sair desse lugar, e isso pode acontecer com qualquer pessoa, por diferentes motivos", comenta. “A violência está em outros patamares: ela é verbal, moral, psicológica, e não só física, aliás esse último aspecto é o que menos existe na versão do CaTI. Optamos por um caminho que revela os abusos silenciosos do texto", completa Humberto Caligari, que assina a produção ao lado de Camila Biondan e também interpreta o personagem Veludo.

O diretor relembra a atualidade do texto e o fato de não se fixarem em uma adaptação realista. “Existe um mistério para além do que é dito na trama, que aparece muito no tempo dilatado da encenação, nos silêncios, no pensamento dos personagens. Não existe aqui uma Neusa resignada, até mesmo os silêncios e olhares dela têm uma densidade cortante", completa Aveiro.

O núcleo CaTI foi criado em 2013 com o objetivo de investigar o teatro na linguagem contemporânea. Ao longo de sua trajetória, dedica-se à releitura de textos clássicos e à exploração de novas proposições dramatúrgicas. Seus espetáculos buscam unir diferentes linguagens, enquanto investigam o espaço alternativo e a relação intimista entre o público e a cena. Em montagens como “Ex-Gordo”, “Obras Sobre Ruínas”, “Flores para Los Muertos” e o próprio “Navalha na Carne”, o CaTI se aprofunda no protagonismo de personagens quase invisíveis à sociedade, dando voz a esses indivíduos esquecidos e provocando reflexões sobre as desigualdades e exclusões que permeiam nosso cotidiano.


Sinopse “Navalha na Carne”
A peça narra a história de Neusa Sueli, uma prostituta (Bárbara Salomé) confrontada por seu cafetão, Vado (Murilo Inforsato), ao retornar de uma noite de trabalho. Em meio a acusações e tensões, ela é forçada a lidar com o abuso, a violência e a desconfiança, enquanto a luta pela sobrevivência se torna um jogo brutal de poder e verdade. Uma obra crua e contundente sobre os limites da dignidade humana e as relações de dominação.


Ficha técnica
Espetáculo "Navalha na Carne"
Texto original: Plínio Marcos
Direção: Fernando Aveiro
Assistente de direção: Camila Biondan
Elenco: Bárbara Salomé como Neusa Sueli, Murilo Inforsato como Vado, Humberto Caligari como Veludo
Figurinos: Rosângela Ribeiro
Cenografia e Iluminação: CaTI - Caxote Teatro Íntimo
Produção: Humberto Caligari e Camila Biondan
Fotos: Kaligari Fotografia
Assessoria de imprensa: Katia Calsavara
Coordenação geral: Fernando Aveiro
Idealização: Caxote Coletivo Produções


Serviço
Espetáculo “Navalha na Carne”
Estreia quinta, 24 de julho, às 21h; 31 de julho, às 21h. E todas as terças de agosto, às 21h.
Teatro Manás Laboratório (Rua Treze de Maio, 222, Bela Vista, SP/SP)
Ingressos: de R$ 40,00 (meia-entrada) a R$ 80,00 (inteira)
Ingressos via Sympla: https://www.sympla.com.br/evento/navalha-na-carne/3020680

.: Entrevista com Andrea Jundi: a estreia de uma autora que recusa o cinismo


Por Helder Moraes Miranda, especial para o portal Resenhando.com. Foto: divulgação.

Há quem diga que todo livro é um abrigo provisório - desses que acolhem até que a vida volte a caber dentro da gente. Em “O Menino e o Livreiro”, publicado pela editora E-Galáxia, Andrea Jundi não escreve apenas um romance de estreia: ela consegue erguer, página por página, uma morada sensível para os órfãos de afeto, para os que foram deixados na estação errada e para os que, apesar de tudo, ainda esperam um trem que os leve a algum lugar que mereça ser chamado de casa.

Roteirista com mais de 20 anos de mercado, Andrea estreia na literatura com a segurança de quem conhece o ritmo das imagens, mas aposta na delicadeza da palavra como potência transformadora. O protagonista do romance, Carlos, é um menino abandonado que não se torna estatística, mas personagem - não por negação da realidade, mas por uma escolha radical: a de escrever esperança sem anestesiar a dor.

Em tempos em que cinismo virou sinônimo de lucidez, a autora faz o movimento inverso e se arrisca onde poucos ousam: acredita no afeto, investe na escuta, escolhe a ternura como campo de batalha. Nesta entrevista exclusiva ao Resenhando.com, ela fala sobre infância e abandono, sobre roteiros e reinvenções, sobre literatura como gesto de reparação. E, principalmente, sobre os livros que salvam - mesmo quando ninguém mais parece disposto a tentar. Compre o livro "O Menino e o Livreiro", de Andrea Jundi, neste link.


Resenhando.com - Você escolheu contar uma história de abandono sem cair na tragédia anunciada. Como autora, que riscos você correu ao optar por uma narrativa esperançosa em um país em que a infância é diariamente sacrificada?
Andrea Jundi - A escrita para mim acontece enquanto escrevo. Quando comecei a escrever "O Menino e o Livreiro", não sabia qual seria o caminho a percorrer, não tinha um final definido e tampouco sabia todos os personagens que fariam parte da história. Carlos se mostrou para mim desde o início como um menino cheio de amor e de vida e, como um novelo, conforme ia puxando o fio, fui sendo guiada por esse caminho do afeto das relações. Escrever qualquer tipo de história sempre envolve o risco de não ser bem aceito. É algo que os escritores lidam diariamente, não importa o tamanho de seu sucesso já conquistado. Mas quando escrevemos com verdade, sempre haverá público. "O Menino e o Livreiro" trata de um tema muito difícil que me toca profundamente, e a tendência à tragédia, na minha opinião, é mais óbvia do que o caminho da esperança. Mas quando se trata de crianças, se nós adultos não conseguirmos ajudá-los a encontrar uma saída, o que resta?


Resenhando.com - "O Menino e o Livreiro" surgiu de uma imagem mental vívida. O que mais a sua cabeça anda projetando? Você costuma confiar nos delírios criativos como ponto de partida ou prefere o planejamento racional da estrutura?
Andrea Jundi - Adorei o “delírios criativos” (risos). Sim, eles são sempre meu ponto de partida. Não sou uma escritora que cria toda a estrutura com começo, meio e fim, antes de começar a escrever. Eu parto de uma cena que está muito clara em minha mente e a partir daí começo a desenvolver a personagem principal, sua trama central. Depois disso é natural que outros personagens comecem a surgir para suprir essa trama. A escrita estruturada para mim acontece quando escrevo roteiro de longa metragem. Aí, sim, preciso ter a curva dramática traçada antes de mergulhar no roteiro em si. Já a escrita literária é onde me permito ser livre na criação, onde me sinto mais à vontade no desordem. Não que não haja ordem alguma, mas ela vai nascendo a partir de um entrelaçado e não de uma linha. Nesse momento estou dedicada a escrever meu próximo livro e ele também surgiu de uma cena muito vívida em minha cabeça, um delírio criativo. Já encontrei a trama central e estou agora descobrindo a trilha das duas protagonistas. Sentindo dores e amores com elas, me entristecendo e me deslumbrando com cada etapa. Às vezes me sinto como numa mata intocada, perdida, mas vou insistindo no caminho e é como se elas me sussurrassem para onde seguir até encontrar um novo rastro para seguir.

Resenhando.com - Você fala de “cargas nos vagões” e escolhas impostas - quais dessas cargas você mesma ainda carrega e quais precisou deixar para escrever esse livro?
Andrea Jundi - Carrego uma carga enorme e linda que foi meu trabalho como assistente de direção no audiovisual. Ele que me trouxe ao longo de mais de vinte anos quase toda minha experiência em contar histórias e me colocou em contato com universos diversos que enriqueceram o meu, me deram repertório. Saí dessa estação mas levei a carga comigo. A maior carga que tive que deixar foi a síndrome de impostora, essa porque nunca agregou. Sempre escrevi pra mim mesma, não mostrava para ninguém, mas quando decidi escrever para os outros lerem, tive que enfrentar o medo do julgamento, medo do olhar dos outros sobre mim. Não sei se consegui deixar mesmo essa carga para trás, mas tenho conseguido ressignificá-la como parte de quem eu sou e me dando o direito de mudar e melhorar sempre.

Resenhando.com - Ao transformar um menino rejeitado em protagonista de uma jornada afetiva e simbólica, você também desafia a lógica de que a dor precisa ser exibida com crueza. A literatura brasileira está pronta para histórias ternas ou ainda prefere o chicote?
Andrea Jundi - Não escrevi com ternura de forma racional, mas durante a escrita, quando precisei fazer escolhas da narrativa, algo me impedia de ser cruel com o Carlos. Ele é um personagem que traz uma carga enorme de abandono em diferentes camadas, mas teve a sorte de encontrar pessoas que o ajudaram a seguir. Existem muitas histórias assim, de crianças que encontram uma mão no meio do caminho e outras tantas crianças como o João, irmão de Carlos, que são engolidos pelo sistema cruel. A existência do João tem a importância não só de representar essa dureza, mas também de enxergarmos as várias camadas que todos têm. Carlos enxerga nos olhos de João as camadas do irmão, sua bondade ressecada pela falta de amor e de cuidado e através desse olhar de Carlos, entendemos que ninguém é bom ou ruim e só, mas que somos moldados por situações externas que muitas vezes não escolhemos viver e ainda assim, estamos tentando fazer o melhor que podemos com o que nos restou. Às vezes, quase nada. A literatura brasileira é riquíssima e diversa e tem espaço para todo tipo de narrativa. Desde que lancei o livro recebo mensagens profundas de pessoas que se emocionaram muito com a história e que foram tocadas de uma forma que fazia tempo não sentiam. Estamos vivendo tempos muito difíceis e acho que histórias afetivas tem sido bem recebidas.


Resenhando.com - O livreiro e o assistente que acolhem Carlos parecem quase figuras arquetípicas — guardiões da palavra. Em quem você se inspirou para criar esses personagens que, em outro tempo, talvez fossem chamados de “mestres”?
Andrea Jundi - No caso de Romeo, o livreiro, ele e Carlos se conectam através de suas faltas, de seus vazios. Romeo tem um papel de mestre porque, ao permitir que sua solidão seja invadida, percebe que esse é o único papel que lhe compete; guiar esse menino. Não há outro papel para ele na vida de Carlos que não seja o de acolhê-lo. Tive avôs muito presentes em minha vida e talvez se forma inconsciente, tenha um pouco de cada um em Romeo. Já Pietro agrega com sua própria experiência de abandono, que é diferente da de Carlos, mas que também tem uma carga suficiente para moldar sua personalidade. Vejo mais o Pietro sendo guiado pelo Carlos do que o contrário, porque a dor do abandono de Carlos coloca o Pietro em movimento para também tentar entender sua própria história.


Resenhando.com - Você veio do audiovisual, um território coletivo e visual, e passou para a literatura, solitária e silenciosa. O que se ganha - e o que se perde - ao fazer essa travessia?
Andrea Jundi - Por vezes sinto bastante falta da coletividade do audiovisual. Sou uma pessoa que sempre andou em grupo e trabalhar nessa área é tão intenso, que as equipes acabam ficando muito ligadas umas às outras. Por outro lado, apesar de ser bastante social, sempre tive prazer no silêncio e em ficar sozinha. Ainda muito nova percebi essa necessidade e desde adolescente já escrevia fechada no quarto, ou ficava ouvindo música. Minha cabeça está o tempo todo criando cenas e imagens, acho que a minha solidão também é um pouco barulhenta rsrs. Fui encontrando saídas para o excesso de solidão que a escrita impõe e há um tempo faço parte de um grupo de escrita literária aqui em Lisboa, a Amora, uma forma de me cercar de pessoas criativas e também exercitar a escrita em grupo. Eu me mantive no audiovisual através da escrita de roteiros e para além de ficar perto dessa arte que amo, ainda posso trabalhar em equipe de tempos em tempos. Em roteiro, sempre acabo fazendo algum laboratório online com encontros semanais, onde lemos e opinamos nos projetos uns dos outros, enriquecendo o trabalho e dando um tempo na solidão quando ela pesa. Mas no geral, gosto desse silêncio da escrita.


Resenhando.com - A infância é quase sempre narrada por adultos. Como foi acessar uma voz infantil sem resvalar no tom professoral ou nostálgico? O que o menino Carlos ensinou a você que a roteirista Andrea ainda não sabia?
Andrea Jundi - Eu amo crianças, tenho um profundo respeito por essas mini pessoas, seus conhecimentos simples e leves muitas vezes tão mais profundos que os nossos. Tenho dois filhos, hoje com oito e 11 anos e somos muito ligados. Amo receber os amigos deles, viajar com amigos que têm filhos e observar essa interação entre eles, ouvir suas teorias sobre as questões da vida, as dúvidas que têm e como no geral pensam de forma tão mais límpida, mais simples. Acho que o tom afetuoso do livro tem muito a ver com a ingenuidade da criança. Apesar de não ser narrado em primeira pessoa, o olhar inocente de Carlos permeia a história. Uma vez ouvi uma menina em situação de guerra responder à pergunta de uma repórter sobre o que ela sonhava em ser quando crescesse, e ela disse que ali eles não sonhavam. Nunca mais esqueci aquilo, como pode uma criança não sonhar? Como podemos nós, como adultos, permitir que crianças não sonhem? Carlos me deu o dever de encontrar uma saída para ele e precisei enxergar através dos seus olhos o que ele precisava.

Resenhando.com - Morando em Portugal, você publicou por uma editora brasileira. Essa geografia afetiva da escrita - entre Brasil, Londres e Lisboa - impacta no modo como você observa e escreve suas personagens?
Andrea Jundi - Morar fora do Brasil me fez entender que muitas histórias e sentimentos são universais, mas tenho uma alma brasileira e através do meu trabalho no audiovisual, pude conhecer vidas muito diferentes da que eu cresci inserida. Amo gente, gosto de conversar e escutar histórias diversas, morei em uma vila de pescadores muito pobre no nordeste do Brasil para filmar um longa metragem e algumas daquelas crianças só tinham água com açúcar para enganar a fome. Filmei em comunidades, sentei no sofá de moradores e ouvi sobre seus medos e suas conquistas. Filmei com refugiados sírios e conheci os sonhos de seus filhos pequenos. Conheci quem voltou a ouvir pela primeira vez depois de anos surdo, quem ganhou seu primeiro cão guia que seria seus olhos a partir dali, presenciei o primeiro dia de dois irmãos chegando à sua nova casa com seus pais adotivos. Tudo isso no Brasil. Acredito que meus personagens terão sempre alma de brasileiro, minha gente, que eu conheço e entendo melhor que qualquer outro povo.

Resenhando.com - Seu livro fala sobre “quem parte e quem escolhe ficar”. Se pudesse revisitar os roteiros da sua própria vida, de quais personagens você teria partido antes, e para quais teria ficado mais tempo?
Andrea Jundi - No geral sou bem resolvida com as minhas escolhas. Gosto de me relacionar com as pessoas, aprofundar amizades, criar bases seguras. Tenho tendência a ser da turma que escolhe ficar e prefiro pensar que fiz o meu melhor antes de partir. Têm amizades e parceiros de trabalho que ficaram pelo caminho e sei que foi melhor assim porque não somavam na minha vida, mas conforme vou mudando de estação sempre dou um jeito de arrastar uns comigo. Sou apegada (risos). E se for para ficar, tem que fazer valer a pena.


Resenhando.com - Há um momento em que Romeo pergunta a Carlos sobre as cargas que ele escolhe levar. Qual foi a carga mais pesada que você precisou transformar em literatura para que não te esmagasse na vida real?
Andrea Jundi - Qualquer coisa que relacione criança à dor me machuca em um lugar profundo. No Brasil, mais de 5,5 milhões de crianças não têm pai na certidão de nascimento e outros tantos só tem o nome do pai na certidão, mas não os tem na vida real. Milhares de casas são lideradas por mulheres, mas numa sociedade que não olha por elas com o respeito e cuidado necessários. Na ponta final, quem sofre de muitos tipos de abandonos, são as crianças. O Estado vira a cara para essas crianças toda vez que não cuida de suas mães, toda vez que cerceia a liberdade às mulheres sobre seus próprios corpos e que as pune por crimes cometidos pelos homens. Acho que o tom afetivo do livro é o meu próprio afeto querendo gritar mais alto do que a raiva que sinto desse abandono imposto.

.: HBO dá início à produção de "Harry Potter" e anuncia novidades no elenco


A série revela novos integrantes da trama, incluindo os intérpretes de Neville Longbottom, Duda Dusley, professora Rolanda Hooch e Garrick Ollivander. Foto: Reprodução/Instagram
 

O mundo bruxo voltou aos holofotes nesta semana com a divulgação da primeira imagem oficial da nova série de "Harry Potter". Publicada no Instagram da HBO Max, a foto mostra o jovem ator Dominic McLaughlin caracterizado como o icônico bruxo. A imagem movimentou as redes sociais e reacendeu o entusiasmo dos fãs, que agora aguardam ansiosos pela estreia da série, prevista para 2027. A produção promete recontar, com fidelidade e profundidade, os sete livros da saga, explorando detalhes que ficaram de fora das adaptações cinematográficas.

Ainda sem data exata de estreia, a série será produzida pelo selo Max Originals e terá envolvimento de J.K. Rowling como produtora executiva. A autora garantiu que a adaptação será fiel à essência dos livros. O elenco será completamente novo, e as gravações devem começar em breve. A expectativa é que os personagens clássicos como Harry, Hermione e Ron ganhem novas interpretações, o que já vem gerando debates nas redes sociais. Para os fãs, a volta a Hogwarts é também uma chance de reviver a emoção do universo mágico com uma nova geração de atores e novos recursos visuais.
 
A repercussão da série vai além do entretenimento. Segundo a Minds Idiomas, rede especializada no ensino de inglês, fenômenos culturais como Harry Potter têm um papel importante no estímulo ao aprendizado de línguas. Quando uma produção conquista o público, especialmente os jovens, ela se torna uma ponte para o idioma original. Os alunos começam a se interessar por assistir sem legenda, entender feitiços, nomes e expressões, o que naturalmente acelera o aprendizado. “Esses lançamentos sempre movimentam as salas de aula de inglês, porque os alunos se empolgam com o que já gostam, nos dando uma excelente oportunidade de conectar o conteúdo à realidade deles. Quando o aluno assiste algo que ama e entende uma palavra, uma frase, ou até um feitiço, ele se sente parte daquilo, e isso é extremamente motivador. Todas essas novidades em inglês ajudam os professores a criar links práticos com o aprendizado, tornando o ensino mais leve, atual e envolvente”, explica Augusto Jimenez, psicólogo e CMO da Minds Idiomas.
 
Com a chegada da nova série, o universo de Harry Potter volta a inspirar não apenas a imaginação dos fãs, mas também o interesse pelo conhecimento. Para escolas de idiomas, esse tipo de conteúdo se transforma em ferramenta poderosa de ensino, mostrando que aprender pode — e deve — ser uma experiência envolvente, conectada com o que acontece no mundo e com o que os alunos realmente amam.


Novidades no elenco
A produção da nova série original da HBO baseada no universo de "Harry Potter" já começou nos estúdios da Warner Bros. em Leavesden, no Reino Unido. A estreia está prevista para 2027, na HBO e na HBO Max. Além disso, a tão aguardada produção anunciou novos nomes no elenco: Rory Wilmot interpretará Neville Longbottom; Amos Kitson assume o papel de Duda Dursley; Louise Brealey será a Madame Rolanda Hooch e Anton Lesser dará vida a Garrick Olivaras.  

Também foram revelados os profissionais que lideram os departamentos criativos da série, responsáveis pela magia por trás das câmeras: o diretor de fotografia Adriano Goldman, a designer de cabelo e maquiagem Cate Hall, o coordenador de dublês Paul Herbert, o supervisor de efeitos especiais Mark Holt, a designer de produção Mara LePere-Schloop, a decoradora de set Naomi Moore, o supervisor de criação de criaturas John Nolan, o supervisor de efeitos visuais Alexis Wajsbrot, o produtor de VFX Dom Sidoli, além da designer de figurino Holly Waddington, anunciada anteriormente. 

A série é produzia pela HBO em parceria com a Brontë Film and TV e Warner Bros. Television. O roteiro e produção são de Francesca Gardiner, com Mark Mylod na produção executiva e direção de vários episódios. Também estão na produção executiva J.K. Rowling, Neil Blair e Ruth Kenley-Letts, da Brontë Film and TV, e David Heyman, da Heyday Films.

.: "Meu Remédio”, espetáculo solo de Mouhamed Harfouch, chega a São Paulo


Sucesso de público e crítica há mais de seis meses no Rio de Janeiro, o monólogo reúne memória, ancestralidade e música em uma reflexão que diverte e emociona sobre identidade e aceitação. Foto: Claudia Ribeiro


Após conquistar o público mineiro e carioca, o monólogo autobiográfico “Meu Remédio” estreia pela primeira vez em São Paulo, no Teatro Santos Augusta, no dia 30 de agosto, para uma curta temporada com ingressos já à venda pelo site da Sympla. Escrito, produzido e protagonizado por Mouhamed Harfouch, e com direção de João Fonseca, o espetáculo parte da premissa de que “todo nome guarda uma história pra contar” - e, a partir dela, mergulha em memórias, identidades e afetos. 

A peça estreou em 2024, em Juiz de Fora (Minas Gerais), com três apresentações especiais, e seguiu para o Rio de Janeiro, onde permaneceu por mais de seis meses em cartaz, passando por cinco diferentes palcos da cidade - uma jornada marcada por casas cheias, críticas positivas e fortes conexões com o público. O espetáculo propõe um mergulho pessoal, mas com ressonância coletiva: com doses equilibradas de humor e drama, Harfouch revisita momentos marcantes de sua trajetória, explorando temas como identidade, pertencimento, ancestralidade e autoaceitação. 

A obra marca também um momento especial de reinvenção artística e pessoal, celebrando os 30 anos de carreira do ator, que acumula mais de 40 produções teatrais, além de novelas como “Pé na Jaca”, “Cordel Encantado”, “Amor à Vida” e “Órfãos da Terra”, séries como “Rensga Hits” e “Betinho - No Fio da Navalha”, e filmes como “Uma Pitada de Sorte” e “Nosso Lar 2”. Sua trajetória inclui ainda musicais como “Querido Evan Hansen”, vencedor do prêmio de Destaque Elenco no Prêmio Destaque Imprensa Digital 2024, e “Ou Tudo ou Nada”, que lhe garantiu uma indicação ao Prêmio Bibi Ferreira de Melhor Ator em 2016.

“‘Meu Remédio’ nasce da minha vontade de entender e compartilhar a relação com o meu nome, com minha história de vida, com a mistura de culturas que carrego. Sou filho de imigrantes – sírios por parte de pai e portugueses por parte de mãe. Crescer com um nome tão emblemático em um Brasil dos anos 70, em que o preconceito e a dificuldade de aceitação eram muito presentes, não foi fácil. A peça é uma comédia, mas carrega uma reflexão sobre aceitação e pertencimento, sobre entender que, muitas vezes, o maior remédio é aceitar quem somos", explica Harfouch, que busca, com o espetáculo, tocar o coração do público ao falar sobretudo, como cada ser é único e especial em sua individualidade, origem e essência.

A ideia da peça começou a germinar ainda durante as gravações da novela “Órfãos da Terra”, da TV Globo, quando o ator foi levado a revisitar suas raízes e encarar memórias profundas. Mas foi durante a turnê com a peça “Quando Eu For Mãe Quero Amar Desse Jeito”, ao lado de Vera Fischer, que esse processo se intensificou, levando-o a necessidade de transformar tudo isso em arte. O mergulho em suas camadas mais íntimas resultou em meses de escrita intensa e no enfrentamento de um novo desafio: somar, à entrega emocional do palco, a coragem de assumir também a produção do próprio espetáculo.

“Já tinha produzido no começo da minha carreira, mas agora, com mais maturidade, eu me senti mais preparado para enfrentar esse desafio. Produzir e atuar ao mesmo tempo é uma tarefa árdua. A maior dificuldade foi lidar com as duas funções e ainda me manter fiel à ideia que queria transmitir. Mas, com o apoio de grandes amigos e parceiros como Tadeu Aguiar e Eduardo Bakr, senti que tínhamos força para fazer isso acontecer”, revela ele.

A parceria com o diretor João Fonseca foi decisiva para o tom do espetáculo. Com um histórico de montagens de grandes biografias musicais nacionais e internacionais, como Tim Maia, Cazuza, Cássia Eller, Elvis Presley, Tom Jobim e Djavan, Fonseca foi o responsável por equilibrar delicadeza e comicidade. "João Fonseca é um amigo e um grande diretor. Ele segurou a minha barra de maneira sensível e honesta, e acreditou no meu projeto desde o início. Sem ele, não sei se teria conseguido fazer essa transição entre o autor e o ator de forma tão tranquila", comenta Harfouch, com quem já havia trabalhado anteriormente no monólogo on-line “Homem de Lata”, fruto da pandemia.

Misturando elementos autobiográficos e ficcionais, a peça, que já na escolha do título faz referência a uma situação vivida com o seu nome de batismo - e que é explicada em cena -, apresenta um monólogo íntimo, costurado a algumas canções, entre hits e paródias, cantadas e tocadas ao vivo por ele, marcando transições importantes da narrativa, onde o autor recria personagens que representam figuras significativas nas duas primeiras décadas da sua vida, mantendo, ao mesmo tempo, a privacidade de sua própria história. 

Com uma abordagem sensível e profunda, a obra convida o público a refletir sobre a importância da autocompreensão e do existir de cada um. "Meu Remédio" destaca como o nome, muitas vezes imposto, carrega histórias que conectam o indivíduo ao passado e iluminam seu futuro, e convida a todos a olhar para dentro, entender melhor a própria caminhada e perceber como a arte pode ser um remédio. Como ele mesmo afirma: “Um nome nunca é só um nome. É uma jornada, fala dos que vieram e dos que virão. Poder enxergar melhor os caminhos de fora e nossos desejos é algo que me move. ‘Meu Remédio’ foi um ponto de partida, pois aceitar quem somos é curativo e a arte salva”, finaliza.


Ficha técnica
Espetáculo solo "Meu Remédio"
Idealização, produção e texto: Mouhamed Harfouch
Elenco: Mouhamed Harfouch
Direção: João Fonseca
Figurinos: Ney Madeira e Dani Vidal
Iluminação: Daniela Sanchez
Cenógrafo: Nello Marrese
Produtora executiva: Valéria Meirelles
Coordenação Geral: Edmundo Lippi
Assessoria: GPress Comunicação


Serviço
Espetáculo solo "Meu Remédio"
Local: Teatro Santos Augusta
Alameda Santos, 2159 - Jardim Paulista, São Paulo - SP, 01419-100
Temporada: 30 de agosto a 28 de setembro
Sessões: Sábado às 20h00 | Domingo às 18h00
Valor: Plateia R$ 120,00 (inteira) e R$ 60,00 (meia-entrada) | Balcão R$ 100,00 (inteira) e R$ 50,00 (meia-entrada)
Vendas: Bilheteria Local e site Sympla
Duração: 75 minutos
Classificação: 10 anos

domingo, 13 de julho de 2025

.: Valdir Alvarenga: o poeta que recusou o pedestal e escolheu a calçada


Por 
Helder Moraes Miranda, especial para o portal Resenhando.com. Foto: divulgação 

Morreu neste sábado, dia 12 de julho, aos 74 anos, o poeta e editor santista Valdir Alvarenga. Vítima de um AVC, Alvarenga deixa não só um legado literário, mas uma postura diante da cultura que se tornou cada vez mais rara: a de quem acredita que a poesia se escreve para pessoas.

Valdir nasceu no Morro da Penha e passou a vida movido por uma espécie de fidelidade à sua origem. Isso não significa exaltação romântica da periferia, mas consciência social. Poeta sem afetação, editor sem patrocínio, funcionário público desde os anos 1980, ele se notabilizou por fazer da precariedade uma estética — e da persistência, uma política cultural.

Foi idealizador do Projeto Leia Santos, projeto de fomento à leitura que leva livros gratuitamente à população. Também criou o Varal de Poesia, que literalmente pendurava versos nas ruas da cidade, e do Ciclo de Poesia Falada, que motivou muita gente a expor textos. Iniciativas que não dependiam da vontade do poder público, mas da disposição de Alvarenga de furar o asfalto com papel.

À frente da revista Mirante desde 1982 manteve por mais de quatro décadas uma publicação artesanal, independente, resistente e desinteressada em agradar aos círculos literários. Publicava tanto autores famosos quanto desconhecidos do grande público. 

Valdir não terminou a faculdade de Letras. Mas falava com precisão sobre Camus, Hesse e Sartre - esse último, lido não como fetiche de intelectual, mas como instrumento de leitura do mundo. Seu livro favorito, "Demian", de Hermann Hesse, foi descrito por ele como um companheiro de adolescência - uma fase em que não conversava com ninguém, a não ser com seu mundo interior.

Casado com a poeta Irene Estrela Bulhões, dividiu com ela não apenas os últimos anos de vida, mas a autoria de "Dupla Face", um dos seus últimos livros. Não teve filhos. Plantou árvores e escreveu poemas — mais de uma vez afirmou que isso bastava.

A cultura de Santos perde uma de suas vozes mais autênticas. E, talvez, um dos poucos que ainda compreendiam que fazer literatura é menos sobre falar bonito e mais sobre dizer o que precisa ser dito.


Velório

Funerária Santa Casa de Santos

Sala: Velório Nº 04

Início: domingo, 13 de julho de 2025, das 7h30 às 13h30

Sepultamento

Cemitério da Filosofia - Santos/SP

Domingo,  dia 13 de julho de 2025, às 13h30

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