terça-feira, 22 de julho de 2025

.: Cinemateca Brasileira exibe títulos raríssimos da Vera Cruz nos dias 26 e 27


Cartaz Floradas na Serra. Crédito: BCC Acervo Cinemateca Brasileira

Com curadoria de Donny Correia, que fará masterclass sobre a Companhia Cinematográfica Vera Cruz, serão apresentados cinco longas na Cinemateca Brasileira neste fim de semana: "Caiçara", "Ângela", "Appassionata", "Veneno" e "Floradas na Serra" e dois curtas-metragens "Santuário" e "Painel". Há 75 anos, a Companhia Cinematográfica Vera Cruz, idealizada por Francisco Matarazzo Sobrinho e Franco Zampari, lançava no circuito nacional uma nova forma de pensar e fazer filmes. 

Com produções suntuosas, estrelas do calibre de Tônia Carrero, Ziembinski, Eliane Lage, Anselmo Duarte, entre outros, e técnicos internacionais recrutados por Alberto Cavalcanti, o projeto visava a fazer frente aos filmes carnavalescos cariocas que inundavam as salas do Brasil. Em pouco tempo, ficou claro que a megalomania das aspirações de Matarazzo e Zampari faria o enorme complexo de estúdios em São Bernardo do Campo fracassar. Os filmes eram emocionantes, vistosos, imponentes, mas internacionais demais. Não agradavam o público e muito menos a crítica.

Somente por volta de 1952 é que a empresa compreendeu que era preciso trabalhar com ideias menos europeias e mais populares ao gosto do brasileiro. Foi por essa época que surgiu o fenômeno "Mazzaropi e O Cangaceiro", de Lima Barreto, ganhou o mundo. Porém já era tarde. Quatro anos apenas após seu nascimento, a Vera Cruz, como havia sido pensada originalmente, colapsou. Mas, para além das megaproduções e da relativa projeção internacional, a empresa também realizou filmes mais modestos, voltados exclusivamente ao mercado interno e à tentativa de um cinema de gênero, tendo o cosmopolitismo da classe média paulistana como foco.

Esta breve retrospectiva apresenta alguns filmes muito menos lembrados da Vera Cruz, que oferecem um panorama da diversidade e do potencial que este grande momento do cinema brasileiro precisa reverenciar. A cada sessão será apresentado, como aperitivo ao programa principal, um curta-metragem documental de Lima Barreto, para que o espectador sinta um pouco do clima original daquelas sessões nos anos 1950.


Cinemateca Brasileira
Largo Senador Raul Cardoso, 207 – Vila Mariana
Horário de funcionamento
Espaços públicos: de segunda a segunda, das 08 às 18h
Salas de cinema: conforme a grade de programação.
Biblioteca: de segunda a sexta, das 10h00 às 17h00, exceto feriados

Sala Grande Otelo (210 lugares + 4 assentos para cadeirantes)
Sala Oscarito (104 lugares)
Retirada de ingresso uma hora antes do início da sessão

Sábado, 26 de julho
15h00 às 16h30 – Masterclass: Vera Cruz, a epopeia de um cinema interrompido, por Donny Correia
17h00 Caiçara, de Adolfo Celi (1950, 92min)
19h00 Painel, de Lima Barreto (1951, 16min)
Ângela, de Tom Payne e Abílio Pereira de Almeida (1951, 95min)

Domingo, 27 de julho
15h00 Santuário, de Lima Barreto (1952, 19 min)
Appassionata, de Fernando de Barros (1952, 80min)
17h30 Santuário, de Lima Barreto (1952, 19 min)
Veneno, de Gianni Pons (1952, 80min)
20h00 Painel, de Lima Barreto (1951, 16 min.)
Floradas na Serra, de Luciano Salce (1954, 100min)

.: 1ᵃ edição em português de "Estudos Africanos de Gênero" é lançada em SP


Nesta terça-feira, dia 22 de julho, às 19h00, o Itaú Cultural sedia o encontro de lançamento da primeira tradução em português do livro "Estudos Africanos de Gênero" (WMF Martins Fontes), organizado pela socióloga nigeriana de origem iorubá Oyèrónké Oyewùmí. A ação - que leva o selo do Ancestralidades (ancestralidades.org.br), plataforma realizada pelo Itaú Cultural em parceria com a Fundação Tide Setubal - tem como proposta difundir o pensamento e olhares de autores e pesquisadores africanos, trazendo outras perspectivas para os referenciais eurocentristas na maioria das referências bibliográficas.

Além da autora, o lançamento tem a participação da escritora Ana Maria Gonçalves, da filósofa Sueli Carneiro e do músico Tiganá Santana, que integram o conselho do Ancestralidades, e mediação da escritora e jornalista Bianca Santana. O público presente no evento receberá um exemplar da publicação. A programação conta, ainda, com transmissão ao vivo pelo YouTube do Itaú Cultural www.youtube.com/itaucultural em duas modalidades: uma com tradução simultânea para o português e outra com o áudio original, em inglês.

Como todas as atividades do Itaú Cultural, os ingressos podem ser reservados pela plataforma INTI, com acesso pelo site www.itaucultural.org.br. Quem não conseguir fazer a reserva, pode comparecer no dia do evento e tentar adquirir um possível tíquete remanescente. Uma hora antes do início é formada uma fila de espera por ordem de chegada, para distribuir os ingressos que tiveram desistência.Compre o livro "Estudos Africanos de Gênero" neste link.


Base continental
O livro "Estudos Africanos de Gênero" é uma coletânea na qual Oyèrónké Oyewùmí reúne textos sobre a temática de gênero, assinados por autores e autoras africanos, vindos de diferentes etnias, nacionalidades, perspectivas teóricas e idiomas.

Esse panorama mostra diversas reflexões sobre o tema, que vêm sendo feitas no continente africano. As temáticas estão divididas por capítulos, cujas abordagens vão de questões de gênero sob aspectos como corpo e espiritualidade até decolonialidade, pós-colonialidade, epistemologias, matriarcado, cosmologias, identidades, casamento, preconceitos, liderança, sexualidade, cultura impressa, desenvolvimento, teoria, produção acadêmica e as definições de mulher.

O livro teve tradução para o inglês em 2005 e agora ganha a primeira versão em português dentro da coleção Plataforma Ancestralidades. Um dos estímulos para esta iniciativa foi a recorrente citação à versão da obra em inglês nas referências bibliográficas dos projetos selecionados na primeira edição do edital Programa Ancestralidades de Valorização à Pesquisa, de 2022.


Sobre a autora
Oyèrónké Oyewùmíé cientista social, teórica e feminista. De importante linhagem iorubá, nasceu em 1957, na cidade de Ògbọ́mọ̀sọ́, no Estado de Oyó, na Nigéria. É também professora de Sociologia na Faculdade de Artes e Ciências na Stony Brook University, na Califórnia, nos Estados Unidos.

Na academia, fez o curso superior de Ciência Política na University of Ibadan, na Nigéria. Concluiu o doutorado em Sociologia em 1993, na University of California, em Berkeley, defendendo a tese Mothers Not Women: Making an african sense of western gender discourses (Mães e Não Mulheres: Criando um sentido africano para os discursos de gênero ocidentais, em tradução livre do inglês), publicada como The invention of women: making an african sense of western gender discourses (A Invenção das Mulheres: Construindo um sentido africano para os discursos ocidentais de gênero).


Sobre a Ancestralidades
A plataforma Ancestralidades foi criada em 2021 pelo Itaú Cultural e a Fundação Tide Setubal, com a proposta de difundir, gerar intercâmbios e potencializar diversos conteúdos sobre a temática que dá nome ao projeto. Ela é composta pelos eixos temáticos Arte e Cultura, Democracia e Direitos Humanos, Religiosidade e Espiritualidade e Ciência e Tecnologia, disponibilizando, ainda, verbetes sobre as raízes afro-brasileiras em um acervo que será atualizado ao longo do tempo.

Com o objetivo de formar e criar repertórios sobre o assunto, a plataforma apresenta biografias e trajetórias de personalidades negras e suas histórias. Também disponibiliza listagem de marcos históricos desde o início do século XVI e conceitos sobre o tema, como raça, gênero, quilombo e afrofuturismo, entre outros.


Serviço
Lançamento do livro "Estudos Africanos de Gênero" (WMF Martins Fontes)
Com participação da autora Oyèrónké Oyewùmí, e da escritora Ana Maria Gonçalves, a filósofa Sueli Carneiro e o músico Tiganá Santana. Mediação: Bianca Santana
Sala Itaú Cultural (piso térreo)
Classificação indicativa: livre
Transmissão ao vivo pelo YouTube do Itaú Cultural www.youtube.com/itaucultural
Entrada gratuita. Reservas de ingressos a partir do dia 15 de julho (terça-feira), a partir das 12h, na plataforma INTI – acesso pelo site do Itaú Cultural www.itaucultural.org.br
Todos os presentes receberão gratuitamente um exemplar do livro.


Protocolos / Sala Itaú Cultural
- É necessário apresentar o QR Code do ingresso na entrada da atividade até 10 minutos antes do seu início. Após esse período, o ingresso será invalidado e disponibilizado na bilheteria.
- Se os ingressos estiverem esgotados, uma fila de espera presencial começará a ser formada 1 hora antes da atividade. Caso ocorra alguma desistência, os lugares vagos serão ocupados por ordem de chegada.
- O mezanino é liberado mediante ocupação total do piso térreo.
- A bilheteria presencial abre uma hora antes do evento começar.


Devolução de ingresso
Até duas horas antes do início da atividade, é possível cancelar o ingresso diretamente na página da INTI, assim outra pessoa poderá utilizá-lo. Na área do usuário, selecione a opção “Minhas compras” no menu lateral, escolha o evento e solicite o cancelamento no botão disponível.

Programação sujeita a cancelamento
O Itaú Cultural informa que sua programação poderá ser cancelada em virtude de questões extraordinárias. Nesse caso, os ingressos adquiridos perdem a validade. O público que reservou o ingresso será notificado por e-mail. Um eventual reagendamento da programação ficará a exclusivo critério do IC, de acordo com a disponibilidade de agendas, sem preferência para quem adquiriu os ingressos anteriormente.


Itaú Cultural
Avenida Paulista, 149, próximo à estação Brigadeiro do metrô
De terça-feira a sábado, das 11h00 às 20h00. Domingos e feriados, das 11h00 às 19h00.
Informações: pelo telefone (11) 2168.1777 e wapp (11) 9 6383 1663
E-mail: atendimento@itaucultural.org.br
Acesso para pessoas com deficiência física
Estacionamento: entrada pela Rua Leôncio de Carvalho, 108.
Com manobrista e seguro, gratuito para bicicletas.

.: "Pais & Filhas - Uma Relação Lírica" no Teatro Sérgio Cardoso


Sarau musical une solistas, piano e narração em reflexões líricas sobre vínculos familiares a partir das óperas. Na imagem, Andres Santos Jr. Foto: divulgação

Emoções intensas, afeto, desafios e poesia. O espetáculo "Pais & Filhas - Uma Relação Lírica" chega ao palco do Teatro Sérgio Cardoso, na próxima terça-feira, dia 29 de julho, às 19h00, como parte do projeto Loucos por Criação – Um Sarau Psi. Com formato híbrido entre concerto e performance cênica, a apresentação costura trechos de óperas, narração de palco e música ao vivo para abordar uma das relações mais complexas e universais da existência humana: a entre pais e filhas.

Com direção cênica de Andres Santos Jr. e roteiro de José Paulo Fiks, o sarau traz no elenco os solistas Raquel Paulin (soprano), Johnny França (barítono) e o pianista e preparador musical Flavio Lago. O público é convidado a revisitar grandes obras do repertório operístico sob um olhar afetivo e contemporâneo, que destaca figuras paternas marcantes e as trajetórias de jovens mulheres corajosas, apaixonadas ou desafiadoras, sempre atravessadas por intensas emoções.

Ficha técnica
Espetáculo "Pais & Filhas - Uma Relação Lírica"
Concepção e narração: Andres Santos Jr.
Piano e preparação musical: Flavio Lago
Roteiro e iluminação: José Paulo Fiks
Soprano: Raquel Paulin
Barítono: Johnny França

Serviço
Espetáculo "Pais & Filhas - Uma Relação Lírica"
Projeto Loucos por Criação – Um Sarau Psi
Data: terça-feira, dia 29 de julho, às 19h00
Local: Teatro Sérgio Cardoso – Sala Paschoal Carlos Magno | Rua Rui Barbosa, 153 – Bela Vista / São Paulo
Ingressos: R$ 140,00 (inteira) | R$ 70,00 (meia-entrada) | Sympla
Duração: 90 minutos
Classificação: 10 anos

segunda-feira, 21 de julho de 2025

.: Romeu Benedicto já foi o diabo, salvou animais e leva fúria para a guerra do sol


Por Helder Moraes Miranda, especial para o portal Resenhando.com. Foto: Rebecca Wesolowski

Sem filtros, sem retoques e, felizmente, sem medo de sujar os pés em uma indústria que premia o excesso de filtros e o déficit de conteúdo, o ator Romeu Benedicto segue na contramão: atua como quem tem terra debaixo das unhas, suor na memória e um pacto silencioso com a verdade. Agora, ele surge como Tonhão, um militar aposentado e inflamável na novela "Guerreiros do Sol", disponível no Globoplay, provando que ainda há personagens que sangram de verdade e não apenas repetem frases de efeito com cara de comercial de banco.

Romeu Benedicto é ator, mas poderia ser cronista das entranhas do Brasil. Filho do Mato Grosso profundo, já vendeu manga em carrinho de mão, plantou grama, salvou bichos queimados no Pantanal e teve que se perdoar por ter escolhido a arte em vez da estabilidade. Hoje, aos 59 anos, transforma o sertão em palco e a vingança de Tonhão em um ritual quase ancestral. Nesta entrevista exclusiva para o portal Resenhando.com, ele fala sobre cangaço, bastidores sufocantes, a força do chão queimada pela história - e confessa que sua maior cena talvez ainda esteja por vir. 


Resenhando.com - Você já plantou grama, vendeu manga, campeou gado e hoje interpreta patriarcas tomados por vingança em novelas de época. O que ainda há de selvagem - ou de rural - no Romeu que pisa no set?
Romeu Benedicto - Muito bom. O que há em mim são as experiências vividas, as memórias que tenho, o aprendizado que trago e isso me serve como recursos que posso usar nos personagens quando piso no set. Todas essas memórias fazem parte de mim. 

Resenhando.com - Tonhão entra em “Guerreiros do Sol” com a fúria de um homem que teve tudo arrancado. Qual foi a sua tragédia pessoal mais difícil de não transformar em ódio?
Romeu Benedicto - Graças a Deus não tive nenhuma tragédia pessoal como a do Tonhão ou próximo a isso, ainda bem, mas imaginar a possibilidade é apavorante, e foi nessa possibilidade que eu fui de cabeça. A única coisa que me veio na memória foi quando meu pai morreu: um dia antes eu passei o dia com ele, a Monica, minha esposa, grávida de oito meses da Fernanda, e a noite quando fui pra casa ele me pediu pra dormir com ele... Eu disse que não podia, tinha que dormir na minha casa, e ficar com a Monica. À noite, quando recebi a ligação da minha irmã, saí correndo desesperado pra casa do meu pai, veio uma voz, dizendo "calma, ele está bem, está em paz". Cheguei em casa e a ambulância já tinha saído com ele e minha irmã. Aí fui atras, e no caminho eu encontrei a ambulância parada. O médico me olhou e balançou a cabeça, minha irmã chorando, aí ele me falou que não podia levar o corpo ao pronto-socorro, por quando pegaram ele já estava em óbito. Eu me revoltei com aquilo, tive que carregar meu pai morto, colocá-lo no banco de trás do meu carro, que era um Gol, foi um horror ver aquilo. Só de lembrar, eu me emociono. E levamos eu e minha irmã o corpo dele ao pronto-socorro.

Resenhando.com - No sertão onde a trama foi gravada, o tempo mandava mais que a direção. No teatro da vida, quem manda em você hoje: a intuição ou a necessidade?
Romeu Benedicto - A intuição é um dos meus guias, sempre dá certo quando a ouço. Ela me impulsiona e a razão ajuda a lidar com a incerteza de hoje ter, amanhã não ter, porque a necessidade bate à porta todo mês.


Resenhando.com - Você estudou depoimentos de ex-cangaceiros e vítimas de um Brasil bruto. Qual foi o relato mais cruel - ou mais poético - que ainda ecoa na sua cabeça?
Romeu Benedicto - Quando nós chegamos no local onde a equipe de produção, se não estou enganado, montaram a casa da Rosa ou o QG numa propriedade locada para as gravações. Esse local era onde Corisco executou uma família: mulher, crianças e tinha um local onde ele cortou a cabeça do pai na frente das crianças e depois fez o mesmo com cada um. A energia daquele lugar era brutal de pesada, dava pra sentir um calafrio quando eu olhava pros locais, e imaginar aquelas crianças vendo e esperando sua vez. 

Resenhando.com - Você foi o Diabo de Gil Vicente aos 16 anos. De lá pra cá, já teve que negociar sua arte com algum "Anjo da Barca"?
Romeu Benedicto - Eu acredito que nossa dignidade não tem preço, mas às vezes o mais difícil é perceber quando estamos sendo usados. Eu sou do tipo que prefiro confiar primeiro, eu confio nas pessoas, mas uma vez traída essa confiança não consigo mais ser o mesmo e procuro afastar da minha convivência. Já passei por isso, e não negócio o que eu mais amo fazer. Minha arte é parte de mim e tem que ser feita de forma leve, porque é pra alma. 


Resenhando.com - Seu pai dizia que arte não enche barriga. Se pudesse tê-lo como plateia por uma noite, qual cena da sua carreira você gostaria que ele visse - e o que espera que ele dissesse no fim? 
Romeu Benedicto - Primeiro, eu iria querer que ele conhecesse meus filhos. Ele ia amá-los. Eu gostaria que ele visse esse momento da minha carreira e que ele percebesse que estou mantendo um equilíbrio entre ter e ser e que é possível. Então ele me diria: “Filho siga seu sonho e seja feliz, eu te liberto e te autorizo”. E na primeira fileira ele levantasse e gritasse: “Bravo!”, e falasse: “Esse é meu filho!”


Resenhando.com - Entre um cavalo sem sela e um set em que o tempo fecha como em Londres, qual foi o perrengue mais cinematográfico da sua vida fora das câmeras?
Romeu Benedicto - Foi numa travessia de barco da Barra da Lagoa até a ilha do Campeche em Florianópolis, estávamos eu, minha esposa grávida do meu filho Heitor, e eu com minha filha no colo de um ano e meio. Na ida, foi uma tranquilidade, mas na volta, meu Deus do céu, o tempo fechou, o céu escureceu, e as ondas ficaram gigantescas. Elas cresciam ao lado do barco em uma altura de mais de três metros e jogava o barco para cima e para o lado. Eu agarrava com minha filha e, ao mesmo tempo, segurava minha esposa tentando com que ela não sentisse tanto o baque no barco quando caía. Foi um desespero. Eu vi aquele barco virar, rezei muito pra que chegássemos em terra firme o mais rápido possível. Aquela viagem parecia interminável. Foi aterrorizante, só de falar ainda sinto o frio na barriga. Quando chegamos, foi um alívio. Nunca mais fiz passeio de barco. No cavalo sem cela a gente tem um certo controle, mas do tempo, não temos e ficamos reféns. Reconhecer a grandeza do tempo, da natureza, e sua força é fundamental. Somos pequenos diante dela. 

Resenhando.com - Você já salvou bichos queimados no Pantanal. A atuação, de certa forma, também o salvou?
Romeu Benedicto - Sim, por causa dela sou quem eu sou hoje. Acreditar que é possível e não desistir me salvou de não ser raso, de não ser inteiro. No ofício de ser ator, posso ser pleno.


Resenhando.com - Belarmino guiava o público por caminhos à beira do lago. Se hoje você fosse convidado a fazer um monólogo chamado "Tonhão", qual seria o território cênico ideal: um campo de guerra, um confessionário ou uma mesa de boteco?
Romeu Benedicto - Seria um confessionário (risos). Haja ouvido! Tonhão teria muitos pecados a confessar porque apesar de toda a tragédia em sua vida, ele ainda poderia escolher o caminho do bem. Sempre temos escolhas, mas ele foi tomado pela cegueira do ódio e da vingança. E matou, bateu, aliou-se ao diabo, Arduino, o cavalo Cão.


Resenhando.com - Se a Globo decidisse filmar sua biografia em formato de novela épica, qual seria o título, o seu par romântico ideal e a cena final?
Romeu Benedicto - Nossa que sonho (risos)! Não sei nem o que falar aqui (risos). Mas seria "Do Pantanal Profundo às Telenovelas", com uma mulher de cabelos cacheados, vinda do Paraná, Londrina, e uma cena final com o pôr do sol belíssimo do Pantanal.

.: Preta Gil: a trajetória multifacetada e o legado que transcende gerações


Preta Gil, a voz que rompeu barreiras e coloriu a cultura brasileira com coragem e autenticidade. Foto: Globo/ Maurício Fidalgo

A morte precoce de Preta Gil aos 50 anos representa um momento de profunda tristeza para a cultura brasileira. Filha do músico Gilberto Gil e da empresária Sandra Gadelha, Preta nunca se deixou limitar pelo peso de um sobrenome histórico. Pelo contrário, criou uma carreira multifacetada, em que a música, a atuação, o ativismo e o empreendedorismo se entrelaçaram para compor a singularidade de sua obra e personalidade.

Preta Maria Gadelha Gil Moreira nasceu no Rio de Janeiro em 8 de agosto de 1974, em um momento histórico singular - dois anos depois do retorno de seu pai do exílio na ditadura militar. O nome da artista carrega a simbologia da resistência: o tabelião que se recusou a registrar apenas “Preta” como nome próprio impôs a inclusão de “Maria”, uma marca das barreiras sociais e raciais que atravessaram sua vida.

Antes de se lançar como cantora, Preta Gil trabalhou nos bastidores da indústria musical, com destaque para a direção de videoclipes de artistas consagradas como Ivete Sangalo e Ana Carolina. O ingresso na carreira artística foi aos 28 anos, com o álbum "Prêt-à-Porter" (2003), cuja capa em que posou nua, fotografada por Vania Toledo, simbolizava um renascimento pessoal e artístico. Apesar da repercussão da imagem, a cantora sempre reforçou que o foco deveria ser a música e a arte, e não o impacto midiático.

A discografia de Preta Gil reúne quatro álbuns de estúdio - "Prêt-à-Porter" (2003), "Preta" (2005), "Sou Como Sou" (2012) e "Todas as Cores" (2017) - que exploram temas como identidade, amor, diversidade e autoaceitação. Além disso, atuou no teatro, televisão e internet, mostrando versatilidade e capacidade de diálogo com diferentes públicos. A experiência como atriz inclui personagens marcantes, como a vilã Helga na novela "Caminhos do Coração" (2007), e o monólogo "Mais Preta que Nunca!" (2019), que consolidou sua presença nos palcos. 

Em televisão, destacou-se como apresentadora e comentarista, aproximando-se ainda mais do público. No carnaval, lançou e consolidou o Bloco da Preta, evento que reuniu multidões e se tornou referência de celebração da diversidade e da cultura popular. Em 2017, Preta Gil cofundou a agência Mynd, que revolucionou o marketing de influência, a gestão de imagem e o entretenimento no Brasil. Com clientes de peso como Natura, Coca-Cola, Itaú e até o "Big Brother Brasil".

Em 2023, Preta Gil revelou seu diagnóstico de câncer no intestino, enfrentando a doença com transparência e coragem. Sua experiência pública contribuiu para desmistificar o tema e fortalecer o diálogo sobre saúde, superação e acolhimento. Além disso, a postura aberta dela em relação à bissexualidade e pansexualidade, bem como o ativismo em defesa dos direitos LGBTQIA+, consolidaram sua posição como uma das vozes mais importantes na luta pela diversidade e pela inclusão no Brasil.

A morte de Preta Gil não significa o fim de sua presença na cultura brasileira. Pelo contrário, a artista e empresária legou um acervo rico e plural que exige cuidado, respeito e compromisso para ser preservado e potencializado. O legado dela é um convite para que a memória cultural do país se fortaleça, reconhecendo a importância de artistas que, como ela, romperam barreiras e abriram espaços.

.: Últimas apresentações da montagem vertiginosa do clássico "7 Gatinhos"


Na imagem, os atores Zizi Yndio do Brasil 
e Marina Wisnik. Foto: Cafira Zoé

As duas últimas apresentações do espetáculo "7 Gatinhos", clássico de Nelson Rodrigues com direção de Joana Medeiros, serão nesta terça e quarta-feira, dias 22 e 23 de julho,  às 20h00, no Teatro Oficina. No espetáculo, o autor sintoniza a hipocrisia das relações no núcleo colonial originário, a Família, instituição patriarcal secular herdada de geração em geração, e nos convida a olhar para as suas entranhas. O teatro se transforma em um cenário de traições e revelações terríveis que culminam em um crime brutal. A peça se passa em um ambiente tenso, onde os membros da família revelam suas verdadeiras faces.

No espetáculo, Seu Noronha, morador do Grajaú, tradicional bairro da Zona Norte carioca é continuo da Câmara dos Deputados, onde serve cafezinho aos parlamentares. Aracy, sua esposa, a quem chama de Gorda, vive na mais completa solidão. O casal tem cinco filhas, quatro das quais prostitutas. Seu Noronha faz vista grossa para o comportamento de Débora, Arlete, Aurora e Hilda, desde que todas contribuam para o enxoval da caçula. Silene com quinze anos, interna num colégio de rígida disciplina, é um símbolo de pureza, mantida fora do ambiente familiar e preservada para o casamento.

Um dia ela é expulsa da escola por ter matado uma gata prenha. Noronha não acredita na versão dada pelo diretor. Mais tarde após muita discussão, a família descobre que Silene está grávida. Noronha abandona a Câmara e transforma o lar num bordel, achando que as filhas ganhariam mais trabalhando em casa. Desmoralizado, o chefe de família torna-se presença incômoda no bordel.

“Nos sete gatinhos, a religião é um disfarce na máscara atarantada das aparências. Lutamos para enxergar nossa verdadeira cara no mundo, nosso nome real na sociedade. Também está presente o sentido de classe: quem se sente humilhado no trabalho humilha em casa. É uma lei humana. O tema da homossexualidade feminina aparece atravessado por um pai abusador. As filhas projetam sua pureza na irmã mais nova que, por sua vez, desenvolve uma liberdade, um ódio profundo, violento e frio por uma estrutura familiar tacanha. Vivemos uma visão tremenda, 1957 se transpõe para 2025. E nós vamos com coragem rasgar nossa loucura velada com o sangue puro selvagem e imutável do desejo!”, diz  Joana Medeiros, diretora do espetáculo.

Joana encenou recentemente "O Ovo e Galinha", de Clarice Lispector, texto visceral e feiticeiro da literatura brasileira em um rito-performático com a atriz Ana Hartmann, e a primeira aparição performática de "7 Gatinhos" no Natal de 2024, em sessão única a partir da encenação do 3º ato dessa dramaturgia tropical macabra, ambas com casa lotada.


Ficha técnica
Espetáculo "7 Gatinhos"
De Nelson Rodrigues
Criação Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona
Direção: Joana Medeiros
Ass. de direção: Chico Barbosa, João Estevão
Atuantes: Ana Clara Cantanhede, Bianca Terraza, Gii Lisboa, Henrique Maria, Joana Medeiros, Marina Wisnik, Maurilio Domiciano, Vick Nefertiti, Victor Rosa, Viviane Clara Bomfim, Zizi Yndio do Brasil
O Ponto: Artur Medeiros
Banda: Adriano Salhab, Jefferson Placido
Iluminação: Angel Taize
Operação de foco móvel: Victória Pedrosa, Felipe Soares
Desenho e operação de som: Julia Ávila
Direção de cena: Gii Lisboa
Contrarregras: Mayara Gonçalves, Rafael Castilho
Maquinaria: Maurilio Domiciano
Figurino: Arianne Vitale
Cinegrafia: Cafira Zoé, Diego Arvate, Lufe Bollini
Operação de vídeo: Diego Arvate
Câmera ao vivo: Helena Toledo, Lufe Bollini
Arte gráfica: Bianca Terraza, Bruna Zanqueta, Cafira Zoé, Pedro Martins, Zizi Yndio do Brasil
Redes sociais, vídeo divulgação e mídia tática: Cafira Zoé
Fotografia: Cafira Zoé, Pedro Martins e Antonio Simas
Produção: Sônia Esper, Bruli
Ass. de produção: João Estevão, Zizi Yndio do Brasil
Produtor Associado: Guilherme Gil de Oliveira
Assessoria de imprensa: Adriana Monteiro
Bombeira: Amanda Aguiar
Apoio: Aboud Shawarma Comida Árabe, Viação Cometa
Realização: Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona


Serviço
Espetáculo "7 Gatinhos"
Uma criação Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona
Direção Joana Medeiros
Datas: 10 de junho a 23 de julho (terças e quartas), sempre às 20H
Ingressos à venda pela Sympla: https://bileto.sympla.com.br/event/106243
R$ 70,00 (inteira) e R$ 35 (meia-entrada)
Classificação indicativa: 16 anos
Duração: 2h30

Amantes do Teatro Oficina têm direito à meia-entrada (válido para todos os planos exceto Vento Forte prum Papagaio Subir. compre on-line a meia-entrada pela sympla e apresente sua carteirinha de amante do Teatro Oficina na entrada)

Ainda não é amante? Nunca é tarde: https://www.evoe.cc/parceiro/amantes-do-teatro-oficina/bem-vindo

domingo, 20 de julho de 2025

.: Humberto Werneck desafia o tempo e reencena a crônica como gênero vivo


Por 
Helder Moraes Miranda, especial para o portal Resenhando.com. Foto: Luiza Sigulem

Sentado no meio-fio da memória brasileira, Humberto Werneck acende um cigarro imaginário e convida o leitor a conversar - sem pressa, mas com precisão. Aos 80 anos, o mineiro que já rabiscou reportagens, biografias e dicionários de lugares-comuns, lança "Viagem no País da Crônica" e transforma o que era um acervo digital em um passeio literário que atravessa estações, feriados, goleadas e golpes de Estado.

Werneck não só comenta Clarice Lispector, Rubem Braga e Fernando Sabino como se estivesse em um bate-papo informal - ele os costura com o cuidado de quem também é parte do tecido. Entre crônicas sobre uísque, chuva, fotografia e República, o jornalista transforma o gênero “maleável e indefinido” em mapa e espelho de um Brasil realista e fantástico, às vezes no mesmo parágrafo.

Nesta conversa exclusiva ao rés do chão com o Resenhando.com, Werneck fala do patinho feio da literatura, dos jogos de futebol com poetas e das dores e delícias de ser cronista em um país que parece sempre em véspera de alguma coisa. E prova, mais uma vez, que escrever bem é mais que talento: é saber escutar a rua com os ouvidos de quem consegue interpretar as entrelinhas da vida. Compre o livro "Viagem no País da Crônica" neste link.

Resenhando.com - Se a crônica é o patinho feio da literatura, quem seria o cisne da vez - o romance autoficcional ou o livro de autoajuda disfarçado de literatura?
Humberto Werneck - O cisne da vez pode ser um desses dois, ou ambos. O primeiro, tão em moda, me sugere anemia criadora. O segundo, nem isso.

Resenhando.com - Entre o meio-fio e a torre de marfim: como foi sobreviver a décadas de jornalismo sem ceder ao clichê do cronista que vira personagem de si mesmo?
Humberto Werneck - O jornalismo, ao contrário da literatura, busca ser objetivo e impessoal. Talvez isso explique que alguns jornalistas, na hora de serem cronistas, vão à forra, concentrando-se na observação do próprio umbigo. 

Resenhando.com - Tem alguma crônica que você se arrepende de não ter escrito - ou pior, alguma que gostaria de ter assinado no lugar de Clarice Lispector, Rubem Braga ou Fernando Sabino?
Humberto Werneck - Arrependimento? Nenhum. Mas perdi a conta das crônicas alheias que me enchem de inveja benigna. “Viúva na Praia”, de Rubem Braga, por exemplo. “Esquina”, de Mário de Andrade. “O Amor Acaba”, de Paulo Mendes Campos. “O Inventor da Laranja”, de Fernando Sabino. “Canção de Homens e Mulheres Lamentáveis”, de Antônio Maria.
 

Resenhando.com - Ao organizar essa “viagem” literária de janeiro a dezembro, que estação do ano você acha que o Brasil definitivamente não sabe viver?
Humberto Werneck - O Brasil se dá bem com todas as estações do ano, até porque, na barafunda climática cada vez maior, as quatro têm estado muito parecidas.

Resenhando.com - Carnaval, uísque, fé e futebol: qual desses temas envelheceu melhor nas crônicas?
Humberto Werneck - Talvez o futebol tenha envelhecido melhor - embora não me pareça hoje nem remotamente merecedor de um Nelson Rodrigues.

Resenhando.com - Qual foi a maior mentira já contada sobre a crônica brasileira - e por que ela ainda sobrevive?
Humberto Werneck - A crônica sobrevive porque todos nós gostamos de uma conversa boa. Quanto às mentiras... bem, estou pensando aqui em Alceu Amoroso Lima, um crítico para quem “uma crônica, num livro, é como um passarinho afogado”. E tem o Ledo Ivo, que falou da crônica como sendo ”esse gênero anfíbio que, pertencendo simultaneamente ao jornalismo e à literatura, assegura notoriedade e garante o esquecimento”. A frase, aliás, está num livro dele que se chama "O Ajudante de Mentiroso".

 
Resenhando.com - No fim das contas, escrever sobre o cotidiano com humor é mais sobre rir do mundo - ou sobre disfarçar o próprio desespero?
Humberto Werneck - Talvez seja uma tentativa de consertar o mundo e as coisas.

Resenhando.com - O que dói mais: a pressa do deadline de um jornal ou a lentidão do reconhecimento da crônica como gênero literário legítimo?
Humberto Werneck - Cronistas como Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Antônio Maria passaram anos escrevendo para o jornal do dia seguinte, e nesse regime brabo produziram textos capazes de atravessar o tempo. Com isso, se deram melhor do que muito contista e romancista que visava a eternidade, e cuja obra acabou não tendo a sobrevida de alguns recortes de jornal ou revista. O reconhecimento está chegando, mas ainda tem muito nariz cronicamente torcido para a crônica...

Resenhando.com - Ao costurar crônicas sobre a Revolução de 30, o golpe de 64 e a construção de Brasília, não deu vontade de escrever também sobre o golpe do PIX, o Enem da redação nula e a CPI do fim do mundo? A crônica ainda dá conta do Brasil de hoje?
Humberto Werneck - Para o bom cronista não há assunto que não sirva. Até mesmo a falta de assunto rendeu pérolas de mestres como Rubem Braga, Drummond ou Vinicius de Moraes. Drummond, aliás, deliciou os leitores com uma crônica sobre o que fazer com os pelos das orelhas. Por que o golpe do PIX, o Enem da redação nula e a CPI do fim do mundo não renderiam coisa boa de ler? A dificuldade não está no tema, mas da capacidade de tratá-lo sem que daí venha, em vez de crônica, um artigo ou editorial.

Resenhando.com - Se a crônica é uma conversa no meio-fio, o que fazer quando o leitor está com fone de ouvido, olhando pro celular e atravessando a rua sem olhar? Ainda dá pra puxar papo?
Humberto Werneck - Assim como acontece com o autor, não é sempre que o leitor está brilhante. Mas pode se dar também uma coincidência feliz, aquela em que, numa ponta e na outra, haja quem adore uma conversa boa.

.: Valter Hugo Mãe lança "Educação da Tristeza", um testemunho íntimo


Um dos escritores mais celebrados da literatura de língua portuguesa, Valter Hugo Mãe apresenta ao público seu novo livro, Educação da tristeza: uma obra visceral, delicadamente ilustrada pelo próprio autor, que faz da ausência matéria-prima para repensar a vida. A escrita de "Educação da Tristeza", lançado pela editora Biblioteca Azul, surge de duas perdas centrais: a morte precoce de seu sobrinho Eduardo - mesma figura que inspirou "O Filho de Mil Homens" - e a morte da grande amiga Isabel Lhano, artista plástica e companheira de geração. Diante dessas ausências, Valter se instala numa antiga casa em reformas: entre paredes abertas e canos expostos, ergue uma narrativa que é também uma tentativa de reconstrução interior.

Mais do que um livro sobre o luto, "Educação da Tristeza" é uma reflexão poderosa sobre envelhecer e encarar a própria mortalidade. Ao relembrar Isabel e Eduardo, Valter fala sobre chegar aos 50 anos - o medo do fim e a urgência de celebrar o tempo que ainda resta. No livro, o cotidiano fragmenta-se em lembranças, confissões, epifanias, observações e diálogos imaginários com quem partiu. São páginas com cheiro de café, rumor de gatos vadios, calor de uma lareira improvisada - tudo se mistura ao tom confessional do autor, que se recusa a deixar que a morte roube a alegria de quem fica.

Entre cartas, sonhos e reflexões que misturam delicadeza e brutalidade, Educação da tristeza toca o essencial: o amor, a saudade e a arte de permanecer humano mesmo quando tudo parece ruir. Um livro que faz da tristeza uma escola - e da memória, um lugar de festa. O livro, que está em pré-venda, marca o retorno de Valter Hugo Mãe à FLIP — a Festa Literária Internacional de Paraty, 14 anos após a estreia histórica no evento. O autor participa de uma mesa mediada por Walter Porto (Folha de S.Paulo) no dia 1º de agosto, com apoio da Netflix, que também celebra a adaptação de "O Filho de Mil Homens". Em seguida, Valter fará um lançamento com sessão de autógrafos em São Paulo. Compre o livro "Educação da Tristeza", de Valter Hugo Mãe, neste link.
 

Serviço
FLIP - Festa Literária Internacional de Paraty
Mesa extra "Escritor de Dois Mundos", com Valter Hugo Mãe. Mediação de Walter Porto, da Folha de S.Paulo
Sexta-feira, 1º de agosto, às 13h30 - Auditório da Matriz
Apoio: Netflix, com destaque para o filme inspirado em "O Filho de Mil Homens" (presença do diretor Daniel Rezende).
Ingressos à venda a partir de 17 de julho no site oficial da FLIP.

Lançamento em São Paulo
Segunda-feira, 4 de agosto, às 19h00
Livraria Martins Fontes Paulista - Av. Paulista, 509 - Bela Vista / São Paulo

.: "O Conto da Ilha Desconhecida", teatro inspirado na obra de José Saramago


Com direção e dramaturgia da premiada Cristiane Paoli Quito, espetáculo é encenado em cima de um quadrado com 4m x 4m e convida o público a pensar sobre o desconhecido. Foto: Caio Oviedo

“Como criar algo que não existe? Como buscar aquilo que já se achou? Como procurar uma ilha desconhecida se não há mais ilhas desconhecidas?”. Inquietações como estas são apresentadas ao público no espetáculo "O Conto da Ilha Desconhecida", com direção e dramaturgia da premiada encenadora Cristiane Paoli Quito, a partir da obra homônima do escritor português José Saramago (1922-2010). O espetáculo está em cartaz no Sesc Ipiranga até dia 7 de setembro.

O trabalho surgiu do encontro da diretora com três ex-alunos na Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo (EAD/ECA/USP): Camila Cohen, Lucas Corbucci e Luiz Felipe Bianchini, que são os intérpretes-criadores. E Josí Neto, que assina a direção musical e toca um piano de meia cauda em cena, completa o time. Esse nosso encontro rendeu outros trabalhos dirigidos por Quito, os espetáculos "Só Eles o Sabem" (2014), com texto de Jean Tardieu; "Idiotxs Magníficxs" (2018). Além disso, o grupo passou a frequentar o treinamento conduzido pela diretora com a máscara de palhaço. 

“A partir dessas experiências e encontros surgiu o desejo de prosseguir vivenciando a poética teatral e práticas artísticas desenvolvidas por  ela, como o compêndio (jogo de palavras), o movimento-imagem-ideia e o treinamento com a máscara do palhaço”, revela a atriz Camila Cohen. "O Conto da Ilha Desconhecida" foi uma proposta trazida por Quito, principalmente pelo fato das palavras de José Saramago apresentarem ritmos e cadências sugestivas ao jogo teatral, bem como pela continuidade do trabalho da diretora com a adaptação literária para o teatro. 

O texto convida a plateia a pensar sobre o desconhecido, por meio da história de um homem que, com notável atrevimento, bate à porta do rei e pede um barco para partir em busca de uma ilha desconhecida. A peça é encenada em um espaço reduzido, um quadrado de 4m x 4m e a poética da encenação explora justamente esse jogo de palavras e os desenhos corporais dos artistas.

E, sobre a encenação, a Quito explica: “A maneira como estamos levando à cena o texto de Saramago busca solucionar as questões de modo muito ‘simples’. Apesar de um cuidado estético bastante apurado e delicado, a ideia é que o corpo, a palavra e o espaço sejam essenciais.  E há o piano de meia cauda, de sonoridade sofisticada, palavras e corpos de sons de nossa pianista a brincar no espaço”

“Inspirados na forma como as crianças brincam com extrema liberdade de serem o que quiserem em uma história inventada, aqui os narradores estabelecem um jogo em um espaço exíguo, com desenhos do corpo e essas relações com o jogo das vozes e imagens criadas pelos corpos no espaço para a comunicação das ideias e da diversão proposta pelo texto. A utilização dos panos e a criação de uma pequena embarcação/ilha são construídas brincando com a possibilidade do ‘faça você mesmo’", acrescenta.

O espetáculo é voltado para pessoas de todas as idades e não busca simplificar o significado de palavras e expressões inusitadas articuladas por Saramago. A ideia é justamente brincar com a sonoridade desses termos e lidar com o material como um parceiro criativo no estabelecimento de jogos cênicos. Compre o livro "O Conto da Ilha Desconhecida", de José Saramago, neste link.


Ficha técnica
Espetáculo "O Conto da Ilha Desconhecida"
Direção geral, concepção e dramaturgia: Cristiane Paoli Quito 
Direção de arte (cenário, figurino e concepção gráfica): Lucas Corbucci
Diretora assistente e preparadora corporal: Ana Noronha 
Intérpretes criadores: Camila Cohen, Lucas Corbucci e Luiz Felipe Bianchini
Direção musical e música de cena: Josí Neto 
Design de luz: Marisa Bentivegna
Produção: Luciana Venâncio (Movicena Produções)
Fotografias: Caio Oviedo e Débora Peccin
Costureiras: Silvana Carvalho e Larissa Slongo
Cenotécnico: Zito Rodrigues 
Agradecimentos: Cristina Mira, Duda Machado, Erica Montanheiro, Flavia Burcatovsky, Gabi Gonçalves, Graciane Diniz Fiori, José Pedro Ferraz, Lu Favoreto, Lucyana Semensatto, Luiz Fernando Marques Lubi, Renato Ghelfond, Vanessa Bruno, Victor Palomo, Turma de Terça e Quarta do palhaço.
Apoio: Espaço Mirabilis e Estúdio Oito Nova Dança


Serviço
Espetáculo "O Conto da Ilha Desconhecida"
Temporada: até dia 7 de setembro*
Domingos, às 11h00
*Sessão do dia 27/7 contará com intérpretes de Libras
Sesc Ipiranga - Rua Bom Pastor, 822, Ipiranga
Ingressos: R$40 (inteira), R$20 (meia-entrada)*, R$12 (credencial plena) e grátis (para crianças de até 12 anos)
Venda on-line em https://www.sescsp.org.br/programacao/o-conto-da-ilha-desconhecida
Venda presencial nas unidades do Sesc
*Têm direito à meia-entrada estudantes, servidores de escola pública, idosos, aposentados e pessoas com deficiência
Classificação: livre
Duração: 60 minutos
Acessibilidade: espaço acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida

.: "Macuco" entrelaça memória e debate socioambiental no Sesc Pinheiros


Montagem com dramaturgia de Victor Nóvoa e direção de Luiz Fernando Marques (Lubi) aborda questão climática e ancestralidade a partir da jornada de um entregador. Foto: Noelia Nájera


Memória, ancestralidade e resistência conduzem a trama de "Macuco", espetáculo que está em cartaz no auditório do Sesc Pinheiros. Com dramaturgia de Victor Nóvoa e direção e cenografia de Luiz Fernando Marques (Lubi), a montagem é protagonizada por Edgar Castro e Vitor Britto, e conta com a participação especial da atriz Cleide Queiroz em vídeos e direção de produção de Helena Cardoso. A temporada segue até 30 de agosto com sessões às quintas, sextas e sábados, às 20h00.

Na peça, Sebastião é um entregador de aplicativo que se aproxima da velhice enquanto carrega memórias que insistem em reaparecer. Um incêndio criminoso ocorrido há mais de 50 anos o forçou a deixar a vila de pescadores onde nasceu. Em sonho, uma revoada de macucos - pássaros da Mata Atlântica ameaçados de extinção - anuncia que sua mãe, Cleide do Ilhote, está em risco por causa de um novo incêndio. A partir daí, ele inicia uma jornada de retorno à ilha onde cresceu, confrontando o apagamento de sua ancestralidade, a destruição de sua comunidade tradicional e as marcas da repressão sofrida na infância, incluindo sua relação homoafetiva com Bernardo.

Com forte preocupação socioambiental, a montagem também se destaca por reunir em sua equipe criativa artistas oriundos de diversas partes do litoral brasileiro, territórios diretamente atravessados pelas questões retratadas em cena. “Das inúmeras urgências do nosso tempo, penso que o teatro precisa refletir os problemas socioambientais - e Macuco discute isso a partir da destruição da Mata Atlântica e das comunidades tradicionais que ali vivem”, afirma o dramaturgo Victor Nóvoa, descendente do bairro Macuco, em Santos, que ficcionaliza memórias de seus familiares caiçaras. “A personagem central é atravessada por camadas de violência, identidade, desejo e pertencimento. É um retorno ao território e à memória afetiva — e também uma crítica à transformação da ilha em um resort.”

A cenografia, também assinada por Lubi, é marcada por um grande mastro com uma vela de barco que gira 360 graus e serve de suporte para projeções. “Essa vela que se movimenta o tempo todo é como o próprio tempo da peça - contínuo, incontrolável, e que nos lembra que precisamos agir antes de sermos levados pela correnteza”, comenta Helena Cardoso, diretora de produção e assistente de direção do espetáculo. A trilha, os sons do mar e o canto do macuco compõem uma ambiência sensorial que dissolve as fronteiras entre sonho e realidade. O desenho de luz é de Matheus Brant; figurinos de Rogério Romualdo; adereços de Beatriz Mendes; e automação de cenário de Djair Guilherme. A filmagem fica a cargo de Paulo Celestino.

Macuco reúne elementos do teatro narrativo e da experimentação audiovisual para construir uma encenação contemporânea composta por memórias pessoais e coletivas, ancestralidade e fabulação. Para Lubi, a proposta estética também é um gesto político. “O cinema nasceu do teatro. Hoje, ele virou símbolo da era das telas - passiva, individual. Quando misturo os dois, crio atrito, falha, espaço para o público se reposicionar e reconstruir a experiência. Não quero só a atenção de quem assiste, quero a participação”, explica o diretor. Essa fricção entre linguagens serve como metáfora para o convite coletivo que o espetáculo propõe. “A questão climática é uma tirania do homem sobre a natureza que volta contra nós. O teatro nos permite provocar o ‘ai de mim’ coletivo, que leva à ação: quem colocamos no poder, o que valorizamos, como reagimos. Só o coletivo nos tira desse sufocamento”


Ficha técnica
Espetáculo "Macuco"
 
Idealização e dramaturgia: Victor Nóvoa
Direção e cenografia: Luiz Fernando Marques (Lubi)
Direção de produção e assistência de direção: Helena Cardoso
Elenco: Edgar Castro e Vitor Britto
Atriz convidada (em vídeo): Cleide Queiroz
Figurinos: Rogério Romualdo
Aderecista: Beatriz Mendes
Cenotécnica: Ronaldo Gonçalves Alves (Colab Ateliê)
Automação de cenário: Djair Guilherme
Desenho de luz: Matheus Brant
Assistência de iluminação: Letícia Nanni
Música instrumental: Marcos Coin
Colaboração de movimento: Ana Vitória Bella
Imagens projetadas: excertos das obras "Homenagem a Turner" (2002), "Herança" (2007) e "Ocean/Atlas" (2014) de Thiago Rocha Pitta
Registros na Ilha Diana: filmagem de Paulo Celestino e montagem de Luiz Fernando Marques (Lubi)
Assistente de produção - Filmagem: Giuliana Maria
Fotos: Noelia Nájera
Assessoria de imprensa: Adriana Balsanelli
Redes sociais: Jorge Ferreira
Espaço de ensaio: Vila Ouro Preto


Serviço
Espetáculo "Macuco"
 
De 17 de julho a 30 de agosto, de quinta a sábado, às 20h00.
Duração: 70 minutos
Classificação indicativa: 12 anos
Ingressos: R$ 50,00 (inteira); R$ 25,00 (meia) e R$ 15,00 (credencial plena)
Sesc Pinheiros – Rua Paes Leme, 195   
Estacionamento com manobrista: Terça a sexta, das 10h00 às 21h30; sábados das 10h00 às 21h00; domingos e feriados das 10h00 às 18h00. Mais informações: www.sescsp.org.br

.: "Argila" questiona herança violenta das invasões coloniais aos colapsos


Projeto Teatro Mínimo recebe “Argila”, obra-instalação que escava as urgências do presente, espetáculo de Áurea Maranhão tem como ponto de partida provocações trazidas pelo livro “Sonho Manifesto”, do escritor e neurocientista Sidarta Ribeiro. Foto: Chuseto


Em “Argila”, uma atriz, uma musicista e uma cidade em miniatura em cena contam histórias de ancestralidade e uma sociedade adoecidas pelo sistema, com direção, dramaturgia e performance de Áurea Maranhão. O espetáculo, trazido de São Luís do Maranhão, é atração do projeto Teatro Mínimo do Sesc Ipiranga e tem sua temporada de estreia até dia 10 de agosto, com sessões às sextas-feiras, às 21h30; e aos sábados e domingos, às 18h30.

A peça é protagonizada por uma equipe diversa de artistas residentes em São Luís do Maranhão. Além da diretora, dramaturga e performer, estão no time Valda Lino, responsável pela direção musical e performance musical; Luty Barteix, pela direção de movimento e assistência de direção; Renato Guterres, pelo desenho de luz; Eli Barros, pela direção de arte e figurino: Tathy Yazigi, pela provocação e orientação; e Amanda Travassos, identidade visual e designer (projeto); social media.

O trabalho é uma espécie de ritual cênico, no qual palavra, barro e música respiram juntos. Essa travessia sensorial começa na penumbra de um símbolo de justiça e termina num grito coletivo por reinvenção. Cada gesto sobre o barro questiona a herança violenta que carregamos, e propõe uma ética radical do cuidado. A dramaturgia é livremente inspirada em obras literárias que abordam questões cruciais da existência humana e do futuro do planeta, como "Sonho Manifesto", do neurocientista Sidarta Ribeiro, e os livros de Ailton Krenak, como "O Amanhã Não Está à Venda""A Vida Não É Útil" e "Ideias Para Adiar o Fim do Mundo"

Esses trabalhos oferecem reflexões profundas sobre a importância da reconexão com a natureza e a sabedoria ancestral para uma vida mais sustentável, criticando o paradigma do progresso a qualquer custo e destacam a necessidade de uma abordagem mais consciente e inclusiva para o desenvolvimento humano. “Apesar dos desafios apresentados, tanto Ribeiro quanto Krenak oferecem perspectivas otimistas e inspiradoras, convidando à ação e à transformação social. Suas vozes ressoam como faróis de esperança e inspiração, apontando para um caminho de renovação e transformação em meio aos desafios e incertezas do presente”, revela a idealizadora da montagem Áurea Maranhão.

Com um cenário de cidade em miniatura feito de argila, e complementado por uma iluminação e trilha sonora original, a peça convida o público a refletir sobre a transformação pessoal e coletiva necessária para nossa sobrevivência e prosperidade. A argila não é apenas um mineral, mas foi trazida como um símbolo poderoso de resiliência, adaptação e renascimento. “Nosso trabalho com a argila busca ser uma ferramenta visceral para recuperar a escuta do corpo e curar as mazelas da contemporaneidade, como a solidão causada pelo excesso de virtualidade e a falta de intimidade com nossos próprios desejos”.

A produtora-coletivo Terra Upaon Açu Filmes, sediada em São Luís do Maranhão, nasce desse mesmo impulso: valorizar a criação autoral, a força artística do Norte e Nordeste e a conexão entre memória, território e futuro. Em "Argila", moldar a matéria é também reimaginar o mundo, gesto por gesto, cena por cena, reflete Maranhão.

Essa narrativa costura texto falado, narrativas em off, trilha original percutida ao vivo por Valda Lino (que também assina a direção musical) e uma coreografia de luz que lentamente “escava” o palco. Em cena, a performer alterna narrativa épica e confissão íntima, atravessando temas como sonho coletivo, justiça climática e resistência feminina. Poesia física, som imersivo e discurso afiado, "Argila" transforma sala, auditório ou palco italiano em arena de diálogo entre espectadores e as grandes perguntas do nosso tempo: quem fomos? quem somos? e quem ainda podemos ser, se ousarmos sonhar juntos?


Ficha técnica
Espetáculo "Argila"
Direção geral, dramaturgia e performance: Áurea Maranhão (@aurea.maranhao)
Direção e performance musical: Valda Lino (@valdalinoartista)
Direção de movimento: Luty Barteix (@lutybarteix)
Desenho de luz: Renato Guterres (@renatoguterres)
Operação de luz: Bruno Garcia
Direção de arte, figurino e assistência de produção: Eliane Barros (@eelibarros)
Contrarregragem: Guira Bará, Mateus Rodrigues e Julia Calegari
Designer e identidade visual (projeto); social media: Amanda Travassos (@amandatravassos)
Provocação e orientação artística: Tathy Yazigi (@tathyyazigi)
Fotos: Chuseto (@chuseto) e Taciano Brito (@tacianodbrito)
Produção (São Luis): Terra Upaon Açú Filmes LTDA (@terraupaonfilmes)
Produção (São Paulo): Ricardo Henrique (@richenriques)
Assessoria de imprensa: Pombo Correio Assessoria de Comunicação - Douglas Picchetti e Helô Cintra 


Serviço
Espetáculo "Argila"
Temporada: até dia 10 de agosto de 2025
Às sextas-feiras, às 21h30; e aos sábados e domingos, às 18h30
Sesc Ipiranga - Rua Bom Pastor, 822, Ipiranga
Ingressos: R$ 50,00 (inteira), R$ 25,00 (meia-entrada) e R$ 15,00 (credencial plena)
Vendas on-line pelo site sescsp.org.br
Classificação: 12 anos
Duração: 55 minutos
Capacidade: 60 lugares
Acessibilidade: teatro acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida

.: "xs CULPADXS" em temporada gratuita no Teatro Arthur Azevedo


Espetáculo volta em cartaz de 10 a 27 de julho e questiona a linguagem teatral a partir de um thriller violento, regado a música sertaneja dos anos 1980; Carlos Canhameiro assina a encenação e dramaturgia. Foto: Mari Chama


Um cenário que divide o palco em dois andares: embaixo um bar, onde se passa o drama da cidadezinha e, em cima, num ambiente familiar, de aparência refinada, ficam músicos que costuram a trama com canções sertanejas femininas de sucesso. Uma família se muda para uma pequena cidade do interior e é vítima de um massacre após ser acusada de infectar os habitantes daquela localidade com uma doença fatal. Esse é o argumento do novo espetáculo adulto de Carlos Canhameiro, "xs CULPADXS", que faz apresentações gratuitas no Teatro Arthur Azevedo, até dia 27 de julho de 2025, com apresentações de quinta a sábado, às 21h00, e aos domingos, às 19h00. No elenco estão Daniel Gonzalez, Marilene Grama, Nilcéia Vicente, Yantó, Rui Barossi e Paula Mirhan.

A dramaturgia, assinada por Canhameiro, nasceu em maio de 2020 e foi publicada pela editora Mireveja em 2022. “Minha intenção não era refletir sobre a pandemia de Covid-19, até porque ela ainda estava muito no começo, mas sim escrever uma espécie de thriller sobre o horror do desconhecido e ao mesmo tempo sobre as diversas formas de se fazer teatro, entre o drama, o épico e o pastelão!”, comenta.

A peça "xs CULPADXS" acompanha a chegada de um casal com três filhos a uma pequena cidade. Aos poucos, o ambiente se torna tenso: a suspeita de que uma das filhas está gripada desencadeia o medo nos vizinhos, levando a uma série de acontecimentos trágicos. O que se segue é uma sucessão de mortes, tentativas frustradas de acalmar os ânimos e, por fim, uma onda de violência extrema que culmina na morte dos pais e de um dos filhos.

O público acompanha o andamento das investigações e como todos esses acontecimentos impactam os envolvidos e a vida das crianças sobreviventes. Em paralelo, vez por outra os atores assumem um certo papel de ombudsman e fazem comentários sobre as cenas, criticando as estruturas da peça. “Eu gostaria de mostrar como o teatro dramático não dá conta de retratar uma realidade tão complexa, como o de uma pandemia, por exemplo. Na verdade, mostrar como o teatro não precisa se render às representações de situações reais como uma forma de explicá-las", diz o dramaturgo.

No fim das contas, é um espetáculo centrado na culpa. Canhameiro sente-se culpado por escrever um drama, os policiais procuram um culpado para os assassinatos e os habitantes da cidade buscam um culpado pelas mortes que começam a ocorrer quando os novos vizinhos chegam. E para embalar tanta culpa a escolha da trilha sonora executada ao vivo é por músicas sertanejas femininas que fazem sucesso desde a década de 1980. Tem canções de As Marcianas, as Irmãs Galvão, Roberta Miranda, Sula Miranda, Marília Mendonça, Simone & Simaria e outras.

“Há algo nessas músicas, no modo como elas são cantadas, nos tipos de culpa que apresentam: ciúmes, a acusação do outro pelo fim de um relacionamento, a infidelidade, o ressentimento... Há algo que embala uma maneira de ser, de se relacionar, de amar que me parece dialogar com a peça”, defende Canhameiro, que também dirige "xs CULPADXS". “A música não é culpada de nada nessa peça, ela cria uma fricção entre as condições narrativas e suas autocríticas explícitas”.

O cenário de José Valdir Albuquerque é formado por dois andares. Na parte de cima estão os músicos, numa espécie de ambiente doméstico de aparência refinada, na parte de baixo há um bar dos anos 80, onde se desenrola todas as cenas dramáticas da peça. Atores e músicos transitam pelos dois ambientes. O bar, elemento constituinte da sociabilidade brasileira, vira palco para uma tentativa de confrontar o medo do que não se entende.


Ficha técnica
Espetáculo "xs CULPADXS"
Encenação e dramaturgia: Carlos Canhameiro
Elenco: Daniel Gonzalez, Marilene Grama, Nilcéia Vicente, Yantó, Rui Barossi e Paula Mirhan
Trilha Sonora e música ao vivo: Paula Mirhan, Rui Barossi e Yantó
Cenário: José Valdir Albuquerque e Carlos Canhameiro
Figurinos: Bianca Scorza (acervo Godê)
Técnico de som: Pedro Canales
Técnico de luz: Cauê Gouveia
Produção: Corpo Rastreado
Assessoria de imprensa: Canal Aberto
Prêmio Zé Renato de Teatro - Prefeitura de São Paulo


Serviço
Espetáculo "xs CULPADXS"
Duração: 90 minutos | Classificação: 14 anos
Teatro Arthur Azevedo
Data: 10 a 27 de julho, quinta a sábado, às 21h e aos domingos, às 19h.
Av. Paes de Barros, 955 - Alto da Mooca, São Paulo - SP
Ingressos: gratuitos | Retirada com 1 hora de antecedência
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