segunda-feira, 23 de março de 2026

.: Iara Rennó e Thalma de Freitas leem "Macunaíma" na piscina do Sesc


Atividade gratuita do projeto "Ler à Luz da Lua" convida o público a acompanhar a performance de dentro da água ou do mirante da unidade. Na foto: Iara Rennó (créditos: José de Holanda) e Thalma de Freitas (Caroline Bittencourt)  

 
Nesta quarta-feira, dia 25 de março, às 20h00, o Sesc 24 de Maio promove uma experiência literária inédita: a leitura pública de trechos do clássico "Macunaíma, o Herói Sem Nenhum Caráter", de Mário de Andrade, por Iara Rennó e Thalma de Freitas. A atividade integra o projeto “Ler à Luz da Lua”, realizado no 13º andar da unidade, na área da piscina, ao ar livre, com vista panorâmica para o centro de São Paulo. A proposta inclui também uma experiência singular: parte do público poderá acompanhar a leitura de dentro da piscina, em boias. 

O acesso à água possui vagas limitadas e requer traje de banho e exame dermatológico válido. Os ingressos para a área molhada serão distribuídos a partir das 18h00, com possibilidade de realização de exame dermatológico gratuito no local, válido exclusivamente para a atividade. Para a área seca (cadeiras e almofadas ao redor da piscina), os ingressos serão distribuídos a partir das 19h00.

Publicado em 1928, Macunaíma narra as aventuras fantásticas de um anti-herói que vive em uma tribo amazônica, onde ganha um amuleto da sorte que acaba caindo nas mãos do gigante Piaimã, comedor de gente. Para recuperar a pedra mágica, ele viaja a São Paulo e se vê diante do caos urbano. A leitura reúne duas artistas cujas trajetórias dialogam diretamente com o universo do livro. Cantora, compositora e pesquisadora, Iara Rennó desenvolve há mais de duas décadas uma investigação artística sobre a obra de Mário de Andrade, iniciada no álbum "Macunaíma Ópera Tupi" e aprofundada no projeto "Makuná_ímã". Já Thalma de Freitas, atriz e cantora, integrou em 2010 o espetáculo "Macunaíma Ópera Baile", no Teatro Oficina, interpretando a personagem Macunawoman.
 
O projeto "Ler à Luz da Lua" apresenta leituras públicas mensais de obras literárias conduzidas por artistas de diversas áreas da cena cultural, explorando a oralidade, a presença cênica e o encontro entre literatura e outras linguagens. Desde sua estreia, em janeiro, já contou com participações de Letrux, Lilia Guerra e Ana Flavia Cavalcanti. A próxima edição, em 15 de abril, reúne Aretha Sadick e Verónica Valenttino para a leitura de As Malditas, de Camila Sosa Villada.
 

Serviço 
Iara Rennó e Thalma de Freitas leem "Macunaíma", de Mário de Andrade 
Data: 25 de março de 2026, quarta-feira, às 20h00
Local: Sesc 24 de Maio, Rua 24 de Maio, 109, São Paulo – 350 metros da estação República do metrô
Classificação: 14 anos
Grátis 

Informações importantes de acesso 
Como a atividade ocupa a área da piscina, existem duas formas de assistir:
Dentro da Piscina: Obrigatório traje de banho e realização de exame dermatológico (feito no local). Retirada de ingressos e avaliação médica a partir das 18h, no dia do evento. Não precisa de credencial plena.
No Entorno (Deck): Cadeiras e almofadas disponíveis por ordem de chegada. Retirada de ingressos a partir das 19h00.
Duração: 60 minutos
Serviço de van: transporte gratuito até as estações de metrô República e Anhangabaú. Saídas da portaria a cada 30 minutos, de terça a sábado, das 20h às 23h, e aos domingos e feriados, das 18h00 às 21h00.

.: Drica Moraes fala sobre prazer, saúde mental e rejeição no "Provoca"


Atriz defende teatro e terapia como caminhos para o bem-estar e comenta liberdade, envelhecimento e vida pessoal. Foto: Ana Paula Santos/Acervo TV Cultura

Nesta terça-feira, dia 24 de março, Marcelo Tas recebe Drica Moraes no "Provoca". Considerada uma das atrizes mais talentosas e versáteis da dramaturgia brasileira, ela construiu uma carreira sólida ao longo de mais de quatro décadas, com trabalhos marcantes no teatro, na televisão e no cinema. A entrevista vai ao ar na TV Cultura, às 22h30. Durante a conversa, Drica fala sobre ter prazer e libido na vida, critica entrevistas engessadas por pautas prontas e defende o papel das artes cênicas e da terapia na saúde mental.

A atriz comenta os temas que diz não suportar mais abordar: “Parece que você acorda com pauta. Das sete às oito eu vou viver a pauta envelhecimento, aí das dez ao meio-dia eu vou fazer a pauta mãe de filho adolescente, depois eu vou dar um tempinho para pauta saúde, depois exercícios físicos, depois assim, sexo na terceira idade, e aí depois eu pego...a vida toda é misturada de pauta, gente (...) eu não gosto de pauta, não faço entrevista com pauta”.

Drica também destaca a importância de ter prazer na vida. “Eu adoro transar. Transar mais velho é muito melhor (...) você vai para o jogo, você se conhece, conhece o seu corpo, sabe o que você gosta, sabe pedir (...) minha mãe me ensinou, ensinou a nós todos. 'Sejam pessoas do bem, trabalhem, ganhem o dinheiro de vocês e tenham prazer'. Porque a vida é para ter prazer".

 A artista ainda fala sobre a relevância das artes cênicas e da terapia para a saúde mental. “Eu tenho pena das pessoas que não fazem teatro, terapia. Tenho pena mesmo (...) eu acho que são pessoas que não conseguem soltar a franga, sabe? Eu acho que soltar a franga é um negócio muito importante. Soltar os bichos para fora”.

.: Leitura Miau: "Ferro Velho" e a estética da sustentabilidade em versos


Por Cláudia Brino, escritora, ativista cultural e editora da Costelas Felinas

O livro "Ferro Velho", do autor Emanuel Lima, publicado pela Costelas Felinas Editora, é uma coletânea de 28 poemas, escritos entre 1970 e 1998, que oferece uma ampla diversidade temática e estilística. Essa obra literária não apenas reflete as várias fases da vida do autor, como também exibe suas diferentes influências e inspirações ao longo de quase três décadas.

Seus poemas transitam entre paixões juvenis, carregadas de intensidade e reflexões místicas, ampliando a experiência do leitor e criando uma ponte entre o pessoal e o universal. Tal variedade de sentimentos faz de Ferro Velho uma leitura rica em camadas, com temas que tocam o íntimo e ao mesmo tempo dialogam com questões sociais mais amplas.

Entre os temas mais marcantes da obra, destacam-se a preocupação ambiental e social, que atravessam muitos dos poemas. Lima, ao abordar o desrespeito à natureza e à dignidade humana, imprime em seus versos uma crítica sutil, porém contundente, ao comportamento da sociedade em relação ao meio ambiente. Esses versos não são apenas reflexões poéticas, mas também um alerta que continua extremamente relevante nos dias atuais.

A musicalidade dos poemas de "Ferro Velho" também merece destaque. Alguns dos versos ganharam vida além da página, sendo gravados em CDs, o que reforça a versatilidade do autor. Mesmo na simplicidade de suas composições, Lima consegue impregnar seus poemas com ternura e acessibilidade, conquistando tanto leitores jovens quanto maduros.

Um dos pontos altos da obra é o conjunto de poemas dedicados às máquinas e objetos inanimados, com ênfase especial no poema que dá título ao livro. Esse tributo ao progresso industrial do século XX é, ao mesmo tempo, um reconhecimento do avanço tecnológico e uma reflexão crítica sobre o impacto desse progresso na vida humana e no meio ambiente.

.: Bruna Martiolli lança o livro "É Tempo de Morangos" nesta terça em São Paulo


A escritora Bruna Martiolli celebra o lançamento do primeiro livro, "É Tempo de Morangos - Reflexões Sobre Livros", em sessão de autógrafos em São Paulo nesta terça-feira, dia 24 de março, na Livraria Martins Fontes, no bairro Bela Vista. A partir das 19h00, o evento começa com um bate-papo entre a autora e Carol Jesper, mestre em Educação pela USP. 

Nessa obra de estreia, publicada pela Editora Intrínseca, a professora e doutoranda que conquistou centenas de milhares de seguidores nas redes sociais apresenta um misto de guia literário e romance de formação, em que compartilha memórias da infância, adolescência e vida adulta. Ao mostrar como a literatura pode guiar as pessoas em momentos de desamparo, dúvida e também de paz e felicidade, Bruna valoriza o poder revolucionário dos livros e revela como a ficção é um gênero importante para o autoconhecimento. Compre o livro "É Tempo de Morangos", de Bruna Martiolli, neste link.


Sobre o livro
Quando criança, Bruna Martiolli brincava de dar aulas para suas bonecas. Mais tarde, ela se tornou professora e encontrou seu lugar no mundo graças aos livros. E eles ainda a levariam a muitos outros encontros: hoje, Bruna fala sobre o poder da literatura para mais de 700 mil pessoas, entre seguidores de redes sociais e ouvintes de seu podcast, além de se dedicar a pesquisar o tema como doutoranda em Portugal. A história de como a leitura mudou a sua vida é o cerne de "É Tempo de Morangos", obra de estreia assinada por ela. Em um misto de livro de memórias e guia literário, Bruna reflete sobre o papel crucial da literatura em nossa formação e amadurecimento.

A leitura entrou na vida de Bruna aos oito anos não como obrigação escolar, mas, em suas palavras, quando “as cobranças foram substituídas por um carinho ou biscoitinho de vó”.  Entendendo desde cedo o valor afetivo dos livros, deixou que eles a guiassem durante uma infância pouco convencional e ao longo da adolescência, quando pendurava na parede do quarto fotos de Lygia Fagundes Telles e Eça de Queiroz. No ensino médio, conheceu Clarice Lispector através de "A Hora da Estrela" e, com Macabéa, a protagonista, descobriu o medo de levar uma vida na qual se sentisse anulada, o que moldaria muitos de seus próximos passos.

Ao longo da obra, Bruna relata como os livros permearam suas escolhas e a ampararam nos momentos difíceis. Foi a leitura de Saramago que a fez enxergar seu apego a relações destrutivas e ter forças para sair delas. A Tetralogia Napolitana, de Elena Ferrante, se tornou dolorida após o esmorecimento de uma grande amizade. E tantos outros nomes a inspiraram a tomar decisões corajosas, como não desistir da carreira ou se mudar para outro país. 

Neste manifesto de devoção aos livros, em especial os de língua portuguesa, Bruna Martiolli lembra sobre a importância de encontrar aquilo que nos atravessa de verdade e que a boa literatura, como quase tudo na vida, não precisa agradar à primeira vista. Além disso, apresenta uma obra essencial para descobrir histórias e curiosidades literárias e obter excelentes dicas de leitura. Compre o livro "É Tempo de Morangos", de Bruna Martiolli, neste link.


Sobre a autora
Bruna Martiolli é professora e doutoranda em Estudos de Cultura e Interartes pela Universidade do Porto, em Portugal. A pesquisa e atuação profissional dela estão profundamente enraizadas na literatura de língua portuguesa. Também desenvolve um trabalho inspirador na internet, onde compartilha reflexões literárias, críticas culturais e conteúdos educativos. É criadora do podcast "É Tempo de Morangos", em que aborda temas como literatura, memória e imaginário. "É Tempo de Morangos" é seu livro de estreia.

Serviço
Sessão de autógrafos de "É Tempo de Morangos", de Bruna Martiolli
Terça-feira, dia 24 de março, a partir de 19h00
Livraria Martins Fontes - Avenida Paulista, 509 - Bela Vista / São Paulo
Entrada franca

sábado, 21 de março de 2026

.: Juca de Oliveira deixa o Brasil sem um de seus intérpretes mais lúcidos


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com. Na imagem, Juca Chaves abraçado com Jô Soares durante gravação de entrevista para o programa "Jô Soares Onze e Meia". Foto: Moacyr dos Santos


O ator, diretor e dramaturgo Juca de Oliveira morreu na madrugada deste sábado, dia 21 de março, aos 91 anos, em São Paulo. Ele estava internado no Hospital Sírio-Libanês desde o dia 13 de março, tratando uma pneumonia associada a uma condição cardiológica. A morte ocorreu cinco dias após o artista completar aniversário. Nascido em São Roque, em 1935, José Juca de Oliveira Santos iniciou a formação em Direito na Universidade de São Paulo, mas abandonou o curso para ingressar na Escola de Arte Dramática de São Paulo, onde se formou ator. 

No início da carreira, integrou o Teatro Brasileiro de Comédia e, posteriormente, o Teatro de Arena, período em que trabalhou com nomes como Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri. Durante a ditadura militar, chegou a se autoexilar na Bolívia em razão de sua militância política. A trajetória na televisão começou na TV Tupi, com participações em teleteatros, e ganhou projeção nacional a partir da década de 1970. Entre seus papéis mais marcantes está o personagem João Gibão, da novela Saramandaia. Ao longo das décadas seguintes, consolidou-se como um dos principais atores da televisão brasileira, com atuações em produções como "Fera Ferida", "O Clone" e "Avenida Brasil". 

No teatro, a principal base de atuação dele, participou de mais de 60 montagens e também se destacou como autor. Entre os textos que escreveu e encenou estão comédias de grande alcance de público, como "Meno Male" e "Caixa Dois". Ao longo da carreira, recebeu prêmios importantes, incluindo o Prêmio Molière, o Prêmio APCA e o Kikito do Festival de Gramado. Juca de Oliveira também teve atuação no cinema, com participações em filmes como "O Caso dos Irmãos Naves" e "Bufo & Spallanzani". 

Na televisão, seguiu ativo até os anos recentes, com trabalhos em novelas como "Flor do Caribe" e "O Outro Lado do Paraíso". Em nota, o SBT lamentou a morte do artista e destacou sua contribuição para a dramaturgia brasileira. “Seu talento enriqueceu de modo exemplar o repertório cultural do país”, afirmou a emissora. Juca de Oliveira deixa a esposa, Maria Luiza, com quem foi casado por mais de cinco décadas, e a filha Isabela. A trajetória dele atravessa diferentes fases da televisão e do teatro no Brasil, com personagens que se tornaram referência para o público e para a própria história da dramaturgia nacional.

.: Filme “Uma Segunda Chance” aposta no perdão e desafia a rever julgamentos


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com. Foto: divulgação

A adaptação de um fenômeno editorial costuma carregar um peso duplo: o da expectativa dos leitores e o da necessidade de traduzir em imagens aquilo que, no papel, já nasceu íntimo. É sob esse risco que estreia “Uma Segunda Chance”, versão cinematográfica do best-seller de Colleen Hoover, que está em cartaz na Rede Cineflix e nos cinemas brasileiros cercado por uma campanha que aposta na emoção como força motriz e, sobretudo, como promessa.

Dirigido por Vanessa Caswill, o longa adapta “Reminders of Him”, romance que consolidou Hoover como um dos nomes mais populares da literatura contemporânea. O roteiro é assinado pela própria autora em parceria com Lauren Levine, movimento que revela uma tentativa clara de preservar a essência do material original. Não por acaso, o filme se ancora em temas caros ao público da escritora: culpa, luto, maternidade e a difícil arquitetura do perdão.

Na trama, acompanhamos Kenna Rowan, interpretada por Maika Monroe, uma mulher que retorna à cidade natal após anos na prisão, carregando o peso de um erro irreversível. O reencontro com o passado não oferece redenção imediata: sua filha, Diem, cresce sob os cuidados dos avós, que resistem à reaproximação. É nesse terreno hostil que surge Ledger, vivido por Tyriq Withers, ex-jogador da NFL e dono de um bar, cuja empatia rompe a lógica do julgamento coletivo e abre espaço para um vínculo que oscila entre o afeto e o risco.

O elenco amplia a densidade dramática com nomes como Lauren Graham, Bradley Whitford e Rudy Pankow, além da cantora Lainey Wilson, cuja presença indica uma tentativa de dialogar com diferentes públicos. Nos bastidores divulgados pela Universal Pictures, chama atenção a ênfase na construção de química entre os protagonistas um elemento decisivo para sustentar a narrativa, que depende menos de reviravoltas e mais da intensidade emocional.

Outro dado relevante é a formação de uma equipe criativa majoritariamente feminina, o que se reflete na condução do olhar sobre a protagonista. Longe de romantizar o erro, o filme parece interessado em tensionar o julgamento social e explorar as zonas cinzentas entre culpa e possibilidade de recomeço - um caminho já apontado por críticas especializadas ao romance original, como as publicadas por veículos tradicionais como Kirkus Reviews e Publishers Weekly, que destacaram a complexidade emocional da obra.

Produzido pelas companhias Heartbones Entertainment e Little Engine, “Uma Segunda Chance” se insere no movimento recente de adaptações de romances contemporâneos voltados ao grande público, seguindo a trilha de outros sucessos de Hoover. A aposta é clara: transformar dor em narrativa compartilhável e, mais do que isso, em experiência coletiva de catarse. Resta saber se, diante das expectativas infladas por milhões de leitores, o filme conseguirá fazer o mais difícil: convencer que algumas histórias, mesmo marcadas por erros irreparáveis, ainda merecem ser contadas outra vez.

Ficha técnica:
“Uma Segunda Chance” | “Reminders of Him” (título original)
Gênero: drama / romance
Duração: 1h54
Classificação indicativa: 16 anos
Ano de produção: 2026
Idioma: inglês
Direção: Vanessa Caswill
Roteiro: Colleen Hoover e Lauren Levine
Elenco: Maika Monroe, Tyriq Withers, Lauren Graham, Bradley Whitford, Rudy Pankow, Lainey Wilson, Zoe Kosovic
Distribuição no Brasil: Universal Pictures
Cenas pós-créditos: não 

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As principais estreias da semana podem ser assistidas na rede Cineflix CinemasPara acompanhar as novidades da Cineflix mais perto de você, acesse a programação completa da sua cidade no app ou site a partir deste link. No litoral de São Paulo, as estreias dos filmes acontecem no Cineflix Santos, que fica no Miramar Shopping, à rua Euclides da Cunha, 21, no Gonzaga. Consulta de programação e compra de ingressos neste link: https://vendaonline.cineflix.com.br/cinema/SANO Resenhando.com é parceiro da rede Cineflix Cinemas desde 2021.

"Uma Segunda Chance" no Cineflix Miramar | Santos | Sala 4
De 19 da 25 de março | Sessões no idioma original | 15h30, 18h00 e 20h30 
No Miramar Shopping | Rua Euclides da Cunha, 21 - Gonzaga - Santos / São Paulo. 
Ingressos neste link

.: Nacional, “O Velho Fusca” usa carro abandonado para reconstruir vínculos


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com. Foto: divulgação

“O Velho Fusca” está em cartaz na Rede Cineflix e em cinemas de todo o Brasil, apostando em uma narrativa que combina humor, afeto e conflitos geracionais para dialogar com o público. Dirigido por Emiliano Ruschel e com roteiro de Bill Labonia, o longa-metragem chega ao circuito nacional com distribuição da A2 Filmes e produção da Ruschel Studios, consolidando mais um capítulo da parceria entre o diretor e produtores que já atuaram juntos em títulos como “Hidden Memories” e “Secrets”.

Ambientado no Rio de Janeiro, o filme acompanha o embate entre gerações a partir da relação entre um avô endurecido pela vida e um neto em busca de identidade. Interpretado por Tonico Pereira, o avô carrega traumas de uma juventude marcada pela guerra e sustenta uma visão crítica sobre o mundo contemporâneo. Do outro lado, o jovem Junior, vivido por Caio Manhente, tenta compreender esse passado enquanto projeta o próprio futuro. O elo entre eles surge de forma simbólica: um fusca abandonado na garagem, que se transforma em projeto de restauração e, ao mesmo tempo, em tentativa de reconstrução afetiva.

A narrativa se expande com a presença de um elenco que reúne nomes como Cleo Pires e Danton Mello, que voltam a contracenar após quase duas décadas, agora como os pais do protagonista. Também integram o filme Giovanna Chaves, Christian Malheiros, Isaías Silva, Yuri Marçal, Rodrigo Ternevoy, Leandro Lucca e Priscila Vaz. O conjunto de personagens contribui para ampliar os conflitos familiares e reforçar o tom de comédia dramática que estrutura o longa.

Um dos destaques da produção está na construção do ambiente carioca, que ultrapassa o papel de cenário para assumir função narrativa. Locações como a Urca ajudam a compor uma atmosfera solar e afetiva, enquanto a trilha sonora reforça a identidade cultural do filme ao reunir vozes como Jorge Aragão, Teresa Cristina, Diogo Nogueira, Xande de Pilares e Péricles, além de Jorge Vercillo e do rapper PK, criando um equilíbrio entre tradição e contemporaneidade. Conhecido por sua atuação em produções internacionais e por transitar entre o cinema brasileiro e o mercado norte-americano, Emiliano Ruschel imprime ao filme um olhar voltado ao entretenimento popular, sem abrir mão de temas como memória, trauma e reconciliação. 

Ficha técnica
“O Velho Fusca” (título original)
Gênero: comédia, família.
Duração: 97 minutos.
Classificação indicativa: 12 anos.
Ano de produção: 2026.
Idioma: português.
Direção: Emiliano Ruschel.
Roteiro: Bill Labonia.
Elenco: Caio Manhente, Tonico Pereira, Cleo Pires, Danton Mello, Giovanna Chaves, Isaías Silva, Christian Malheiros, Yuri Marçal, Rodrigo Ternevoy, Leandro Lucca, Priscila Vaz, Emiliano Ruschel.
Distribuição no Brasil: A2 Filmes.
Cenas pós-créditos: não. 

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"O Velho Fusca" no Cineflix Miramar | Santos | Sala 2
De 19 da 25 de março | Sessões no idioma original | 14h10, 16h20 e 18h30 
No Miramar Shopping | Rua Euclides da Cunha, 21 - Gonzaga - Santos / São Paulo
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.: "Devorador de Estrelas": Ryan Gosling enfrenta o fim do sol e redefine herói


Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com.

A adaptação cinematográfica de "Devorador de Estrelas" chega à Rede Cineflix e aos cinemas de todo o Brasil impulsionada por uma combinação que a indústria aprendeu a reconhecer como aposta segura: ciência de alto conceito, protagonista carismático e uma narrativa que equilibra tensão existencial e humor. Baseado no best-seller de Andy Weir, o mesmo escritor de "Perdido em Marte", o filme transforma em imagens a jornada improvável de um professor do ensino fundamental lançado ao espaço profundo para salvar a humanidade.

Na trama, Ryland Grace, interpretado por Ryan Gosling, desperta sozinho em uma espaçonave, sem memória e cercado por cadáveres. Aos poucos, as lembranças retornam e revelam uma missão desesperada: investigar por que o Sol está morrendo e impedir a extinção da vida na Terra. O roteiro, assinado por Drew Goddard, preserva a estrutura fragmentada do romance original, alternando o presente claustrofóbico da nave com flashbacks que reconstroem o Projeto Fim do Mundo. A direção fica a cargo da dupla Phil Lord e Christopher Miller, conhecida por imprimir ritmo ágil e inventividade visual a narrativas complexas.

A produção mantém o compromisso com a ciência que consagrou o livro de Weir, incorporando conceitos de astrofísica e biologia interestelar sem abrir mão da acessibilidade - uma marca que críticos de veículos como The New York Times e The Guardian já destacavam na obra literária. Há também uma dimensão emocional que amplia o alcance do filme: o isolamento extremo de Ryland é atravessado por uma inesperada relação de amizade, elemento que desloca a narrativa do puro suspense científico para um território mais humano e sensível.

Curiosamente, o projeto ganhou força em Hollywood antes mesmo da publicação do livro, em um movimento semelhante ao que ocorreu com "Perdido em Marte". O envolvimento de Gosling como produtor, além de protagonista, reforça o caráter de aposta pessoal no material. Outro ponto que chama atenção é o desafio técnico de representar em tela uma comunicação não humana, aspecto central da história e tratado como um dos grandes trunfos do filme. Sem abrir mão do espetáculo visual, "Devorador de Estrelas" investe na inteligência do público, apostando que equações, hipóteses científicas e dilemas éticos podem coexistir com emoção e suspense. 

Ficha técnica
“Devorador de Estrelas” | “Project Hail Mary” (título original)

Gênero: Ficção científica, suspense
Duração: aproximadamente 140 minutos
Classificação indicativa: 14 anos
Ano de produção: 2026
Idioma: inglês
Direção: Phil Lord e Christopher Miller
Roteiro: Drew Goddard
Elenco: Ryan Gosling
Distribuição no Brasil: Sony Pictures
Cenas pós-créditos: não

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"Devoradores de Estrelas" no Cineflix Miramar | Santos | Sala 3
De 19 da 25 de março | Sessões no idioma original | 14h00, 17h10 e 20h20 
No Miramar Shopping | Rua Euclides da Cunha, 21 - Gonzaga - Santos / São Paulo
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.: Com "Narciso", Jeferson De ressignifica mito e expõe feridas contemporâneas


Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com.

O cinema brasileiro contemporâneo volta a tensionar mito e realidade com a estreia de “Narciso”, novo longa-metragem dirigido por Jeferson De, que está em cartaz na Rede Cineflix e nos cinemas brasileiros. Conhecido por obras como "Bróder" e "M8 - Quando a Morte Socorre a Vida", o diretor retoma um tema que já havia explorado no curta “Narciso Rap”, de 2004, agora ampliado em escala e ambição estética. O resultado é um filme que combina realismo fantástico e drama social para discutir identidade, pertencimento e as fraturas que atravessam a infância negra no Brasil.

Inspirado no mito clássico de Narciso - aquele que se apaixona pela própria imagem refletida -, o longa-metragem subverte a matriz original para deslocar o conflito do campo da vaidade para o da invisibilidade. Aqui, Narciso é um menino negro, órfão, que enfrenta a rejeição ao ser devolvido por uma família adotiva às vésperas do aniversário. Interpretado por Arthur Ferreira, o protagonista encontra na fantasia um possível refúgio: uma bola de basquete “mágica” promete realizar seu maior desejo. A partir desse dispositivo narrativo, o filme constrói uma travessia simbólica entre dois mundos: o da escassez afetiva e o da abundância ilusória.

O roteiro, assinado por Jeferson De em parceria com Cristiane Arenas, articula essa jornada com uma condição dramática central: o protagonista não pode ver o próprio reflexo, sob pena de perder tudo o que conquistou. A premissa ecoa tanto o mito quanto referências pictóricas, como a obra do pintor Caravaggio, cuja estética de luz e sombra dialoga com o contraste entre desejo e identidade que o filme propõe.

No elenco, além de Arthur Ferreira, destacam-se Bukassa Kabengele e Ju Colombo, que interpretam os responsáveis pelo lar temporário onde Narciso vive, compondo figuras de cuidado atravessadas por limites concretos. O filme ainda reúne nomes como Faiska Alves, Diego Francisco e Fernanda Nobre, além de participações especiais de Seu Jorge, Juliana Alves e Marcelo Serrado. A presença de Seu Jorge como o gênio que concede o desejo ao menino reforça a dimensão alegórica da narrativa, sem abrir mão de uma ancoragem emocional.

Antes de chegar ao circuito comercial, “Narciso” percorreu festivais internacionais, passando pelo Vancouver Black Independent Film Festival e pelo Montreal Independent Film Festival, onde recebeu menção honrosa. O filme também integra a seleção oficial do Pan African Film Festival, ampliando sua circulação em circuitos voltados à produção negra global.

Produzido pela Buda Filmes e distribuído pela Elo Studios, o filme reafirma a trajetória de Jeferson De como um dos principais articuladores de um cinema afro-brasileiro comprometido com representatividade e linguagem. Idealizador do manifesto Dogma Feijoada, o diretor mantém, aqui, sua preocupação em tensionar quem conta as histórias e de que lugar elas são contadas.


Ficha técnica
“Narciso”(título original)
Gênero: drama / fantasia
Duração: 1h30
Classificação indicativa: 12 anos
Ano de produção: 2026
Idioma: português
Direção: Jeferson De
Roteiro: Jeferson De e Cristiane Arenas
Elenco: Arthur Ferreira, Bukassa Kabengele, Ju Colombo, Faiska Alves, Diego Francisco, Fernanda Nobre, com participações de Seu Jorge, Juliana Alves e Marcelo Serrado
Distribuição no Brasil: Elo Studios
Cenas pós-créditos: não 

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"Narciso" no Cineflix Miramar | Santos | Sala 1
De 19 da 25 de março | Sessões no idioma original | 19h00 e 21h00 
No Miramar Shopping | Rua Euclides da Cunha, 21 - Gonzaga - Santos / São Paulo
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sexta-feira, 20 de março de 2026

.: Crítica musical: Rush em "2112" há 50 anos, a redenção da banda


Por
 Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural

Há 50 anos, o trio canadense Rush vivia um dilema. Pressionados pela fraca vendagem dos segundo e terceiro álbuns ("Fly By Night" e "Caress of Steel"), os músicos Geddy Lee (baixo e vocal), Alex Lifeson (guitarra) e Neil Peart (bateria) receberam um ultimato dos executivos de sua gravadora na época: ou produziam um álbum com potencial radiofônico ou então seria o  fim da linha para eles. Foi exatamente nesse panorama que eles lançaram o álbum "2112", que se tornou o segundo mais vendido de toda a carreira do grupo.

Nesse processo foi importante o papel do empresário Ray Danniels, que convenceu os executivos a aguardarem o lançamento de mais um disco da banda antes de tomarem uma medida mais drástica. E o Rush conseguiu vencer o desafio da forma mais improvável. A faixa que abre o disco tem simplesmente 20 minutos, divididos em sete partes que ocupavam todo o lado A do disco. O enredo idealizado por Neil Peart foi inspirado em um livro da escritora Ayn Rand, intitulado A Nascente; Essa faixa mostra todo o potencial da banda para compor peças conceituais, narrando uma aventura futurista de um personagem que se vê sem condições de exercer sua individualidade e criatividade em um universo opressor.

O lado B abre com "A Passage to Bangkok", que se tornou um clássico do repertório da banda bastante executado nos shows ao vivo. E segue com "Twllight Zone" composta em homenagem a série famosa de TV americana homônima, que no Brasil se chamava Além da Imaginação. A faixa seguinte ("Lessons") foi composta por Lifeson enquanto que a bela balada "Tears" foi feita por Geddy Lee. O disco se encerra com "Something For Nothing", composta com letra de Peart e arranjada bem ao estilo que consagrou o Rush.

O álbum "2112" é apontado como um ponto de virada na carreira do grupo, que  passaria não só a contar com o apoio da gravadora como também se apresentariam em locais com maior capacidade de público nos anos seguintes.

"2112"

"A Passage to Bangkok"

"Something for Nothing"

.: “Falso Antigo”: Mario Adnet e Chico Adnet lançam álbum de inéditas


Por
 Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

Chegou nas plataformas o álbum “Falso Antigo”, projeto de composições inéditas, fruto da parceria dos irmãos Mario Adnet e Chico Adnet.  As nove faixas fazem uma ode bem humorada e afetiva ao passado da música popular brasileira, com canções inéditas que soam como se sempre tivessem existido. Entre invenção e homenagem, as músicas têm arranjos que recriam a estética da era do rádio com um toque de contemporaneidade.

O projeto conta com convidados especiais. Tem Roberta Sá em "Falso Baiano" e Mônica Salmaso no choro "Acende o Lampião".  Mosquito canta em "Samba Réquiem"; Pedro Miranda em "Fake Falso" e "Fred Astaire do Samba", e Pedro Paulo Malta em "Santinha". E tem ainda uma gravação da Jards Macalé em um dueto com Marcelo Adnet no samba de breque ‘De Aniceto ao Acetato’.

Em tons de crônica e ironia, as criações da dupla contam histórias. No samba de breque “De Aniceto ao Acetato”, os convidados Marcelo Adnet e Jards Macalé ecoam o último malandro Moreira da Silva: “O rei da voz é meu cliente...”, falando na compra e venda de canções, praticada entre compositores pobres e cantores cada vez mais conhecidos pelas ondas do rádio nascente, e, logo, pela indústria fonográfica.

O álbum conta também com participações de Ana Rabello (cavaquinho), Jorge Helder (baixo acústico), Marcelo Martins (sax), Everson Moraes (trombone, bombardino e oficleide) e Aquiles Moraes (trompete), além de Marcos Nimrichter (acordeon), Edu Neves (flautas e sax), Rogério Caetano (violão de 7 cordas) e Marcus Thadeu (percussão).

"Falso Baiano"

"Astronauta no Asfalto"

"Samba Réquiem"

.: Manual Crônico: Palavras, sem o Brasil o português não seria tão belo


Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", a ser publicado pela Editora Patuá.

Que a Língua nos prega peças sabemos desde muito cedo. Eu, por exemplo, tropeço até hoje na palavra “exigência”. É um trava-língua dos diabos! Sempre me atravanca o caminho. No dia da criação das palavras, foi de uma leviandade pachorrenta colocar um “x” – com som de “z”, há de se frisar – ao lado de um “g”. Maldades da fonética. A minha hábil língua, nessa hora, bamboleia dentro da boca ao tentar modular o famigerado vocábulo; por fim, sibila em notas parecidas, samba, sapateia e enuncia qualquer coisa que seja próxima à pronúncia que se espera.

Se a criação das palavras também é obra de Deus, certamente sete dias não foram suficientes, e talvez por isso o Gênesis não esteja tão certo assim. Sabendo que o criador é alguém bastante ocupado, deve ter relegado à sua milícia tal tarefa. Estes, querendo um título a mais, deram-se o nome de lexicógrafos; ou dicionaristas, ainda que esse livro não existisse; pode ser que tenham desejado o nome de gramáticos, pois previam os ecos que a erudição da língua lhes traria. De todo modo, as palavras estão aí, belas e várias, para serem faladas, usadas e abusadas, ainda que não tão bem pronunciadas.

Vejamos.

Meu pai, por exemplo, gostava de lançar suas sentenças em alta velocidade. Suas falas pareciam jaculatórias apressadas de senhorinhas que rezam o Terço, embora ele tivesse um pouco de ojeriza dessa tão salutar devoção. “Repete coisa demais”, dizia. Não discordo. Inclusive, a Ave Maria sempre se torna mais graciosa quando se reza “bendita suas voz entre as mulheres”. Assim, a prece deve chegar mais perto dos céus, e quase me resgata a fé.

A Helena, por sua vez, durante o seu período de aprendizagem da fala, brindava o mundo com inúmeros neologismos. Costumava fiscalizar as “bernugas” que eu vestia para ir à padaria. Hoje, ela já está crescida, com seus quase dez anos, e raramente cria palavras. Custa-me muito lembrar de suas pérolas e me arrependo bastante de não ter feito um glossário das coisas que dizia.

Alguns amigos meus são muito bons com as palavras e com as situações que as envolvem. Um deles esbarrou nos limites da convivência entre idiomas. Estávamos no Sul, em uma cidade de colonização italiana, e por lá, o idioma de Dante Alighieri grassava por todos os cantos e bocas. Fomos tomar café da tarde numa casinha bem tradicional. A nonna, solícita, estendeu-lhe uma bandeja: “Formaggio, frei?”. Ele montou uma carranca de surpresa e sem pestanejar, perguntou: “Uai, não é queijo?.” Já um outro amigo se deliciava, rindo à solta, sempre que ouvia uma piada. Dizia ele “Não guento o Carlinhos com essas medótas!”. Medótas iam, medótas vinham, e as anedotas afluíam noite adentro, tirando-nos risos e gargalhadas.

Pode ser que os fiscais da Língua e os puritanos da linguagem (falemos baixo para não atrair os gramáticos, melhor afugentar os conservadores) não se agradem muito do meu texto e me julguem ainda mais por eu ser professor de Língua Portuguesa. Não faz mal, não gosto muito deles. Dou pouca monta aos frutos de seus trabalhos, somente o necessário para que meus alunos aprendam a escrever memorandos, requerimentos, e-mails e uma redaçãozinha para o Enem. Mas há palavras que soam muito mais atrativas e gostosas quando subvertem a ortografia ou a fonética.

Vai dizer que você não abre um sorriso largo ao ouvir que é preciso limpar o imbigo do bebê? O pedreiro, depois de revestir um piso, a fim de evitar que o seu trabalho seja avacalhado, diz-nos: “Se for passar pra lá, pisa naquela tauba ali, pra não deixar marca”. Ou ainda, ao comprar um sorvete de casquinha, num dia quente. Percebendo que ele começa a derreter, não há melhor advertência que: “Lembe logo isso daí, antes que caia tudo no chão!”. Não existem palavras mais autênticas que estas: imbigo, tauba e lember. Uso-as sempre, que chego a esquecer da ortografia e da fonética oficiais delas. Pouco me importam, cada um que cuide de seu imbigo.

Uma amiga, professora de criancinhas em fase de alfabetização, já me contou inúmeras histórias e causos de sala de aula. Os pequenos dão show de criatividade e coragem a despeito da ortografia. Pisam sem dó na fonética e tornam nosso idioma ainda mais lindo. Eis o melhor deles:

— Tia, “xu” é com “x” ou com “ch”? – a pequena abordou a mestra.

— Depende, meu amor. Que palavra você quer escrever? – respondeu a professora, curiosa.

— Xujeira.

Ah, as crianças, como as adoro! Desde cedo, o nosso talento para abrilhantar a língua lusitana e torná-la ainda mais bela e brasileira se manifesta por todos os cantos.
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