quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

.: Entrevista com Maurício de Almeida, escritor e roteirista

"...toda obra é autobiográfica na medida em que os autores doam aos personagens os sentimentos", Maurício de Almeida.

Por Mary Ellen Farias dos Santos com a colaboração dHelder Moraes Miranda, em fevereiro de 2018.


Jovem e talentoso, o paulistano Maurício de Almeida é antropólogo e escritor brasileiro, autor das obras "Beijando Dentes: Contos" (2008) - que lhe rendeu o Prêmio Sesc de Literatura (2007) - e "A Instrução da Noite" (2016) - que lhe rendeu o Prêmio São Paulo de Literatura (2017). Nós do Portal Resenhando.com o conhecemos pelo Twitter (@mauricioalmeida) e conhecemos mais desse roteirista nesta entrevista exclusiva. Confira!


RESENHANDO - Em 2007 você ganhou o Prêmio Sesc. Dez anos depois, você vence o Prêmio São Paulo de Literatura. O que separa, e o que une, o escritor de dez anos atrás e o atual?
MAURÍCIO ALMEIDA - O principal elemento que separa o escritor de 2007 do escritor de 2017 é uma consciência um pouco maior da literatura e do fazer literário. Em 2007, quando venci o Prêmio Sesc de Literatura na categoria contos com o livro “Beijando Dentes”, estava iniciando meu trajeto, experimentando formas e linguagens. Então, tanto a literatura (no sentido amplo, todos os elementos que compõem o campo literário) quanto o fazer literário (a escrita, o estilo, as soluções etc) estavam em processo de descoberta. É possível notar essa característica nos contos de “Beijando Dentes”, sobretudo no que diz respeito às questões formais: se, por um lado, funcionam enquanto projeto de livro, por outro lado explicitam também um autor em busca da experimentação, testando formas e estilos. Dez anos depois, após o lançamento de meu primeiro romance, “A Instrução da Noite”, que venceu o Prêmio São Paulo de Literatura 2017 (categoria autor estreando abaixo de 40 anos), acredito ter acumulado um conhecimento maior tanto do meio quanto do fazer literário. 


RESENHANDO - Chegou a publicar nesse período?
MAURÍCIO ALMEIDA - Apesar de não ter publicado nesse intervalo (mas participei de antologias, etc), esse período foi de intenso aprendizado, no qual pude conhecer melhor o funcionamento de editoras, publicações, festivais literários e outros elementos que rodeiam a literatura e, sobretudo, e um período no qual investiguei como fazer a literatura que gostaria de fazer. Trata-se não só de uma transição entre os contos e o romance, mas de descoberta e afirmação do escritor, naquilo que pode ser entendido por estilo e também no desenvolvimento de um projeto literário.


RESENHANDO - Que conselhos você daria para um escritor que tem por objetivo vencer esses prêmios?
MAURÍCIO ALMEIDA - O primeiro e único conselho que daria para um escritor que tem por objetivo vencer esses prêmios é não ter tal objetivo. Penso que o objetivo do escritor seja escrever o melhor livro que é capaz de escrever – o restante é consequência. Além disso, por mais importantes que sejam, prêmios não bastam à carreira de um escritor, são passageiros, facilmente esquecidos. Com sorte, o que restará são os livros, por isso penso que todo investimento do escritor deve ser na obra.


RESENHANDO - O que há de autobiográfico em sua obra?
MAURÍCIO ALMEIDA - Responderei com máxima mundialmente conhecida do escritor francês Gustave Flaubert: "Emma Bovary c'est moi". Ao afirmar ser Emma Bovary, Flaubert está dizendo que se doou integralmente à personagem e, no entanto, a adúltera Emma pouco tem da imagem (ou vida) de Flaubert. Quero dizer que toda obra é autobiográfica na medida em que os autores doam aos personagens os sentimentos, as experiências, e não necessariamente o nome, as características pessoais ou as situações. 


RESENHANDO - E no livro "A Instrução da noite"?
MAURÍCIO ALMEIDA - O narrador de “A Instrução da Noite” não sou eu e, ao mesmo tempo, não poderia ser mais eu, pois, da mesma forma que jamais vivi as situações descritas no livro, coloquei no livro minhas sensações e sentimentos (a solidão, o desespero, o medo, a necessidade etc). É por compartilhar essas sensações e sentimentos comuns a todos (todos nós já sentimos solidão, desespero, medo, necessidade etc) que o diálogo entre autor e leitor se torna possível, é nesse chão comum que nos encontramos. Afinal, se acaso eu descrevesse qualquer situação de minha vida, que identificação poderia ter com um leitor? Que impacto causaria um livro que descreve minha vida? Acredito que nenhum.


RESENHANDO - Nos seus textos, em que você mais se expõe e o que tenta esconder?
MAURÍCIO ALMEIDA - Tento expor os sentimentos que julgo comuns a todos, pois eles são a base que permite o encontro entre autor e leitores. Portanto, escondo aquilo que julgo inútil à literatura, isto é, o autor enquanto pessoa.



RESENHANDO - Você também é autor de peças de teatro e roteiros de curta-metragem. Quais são as diferenças entre escrever teatro, cinema e livros?
MAURÍCIO ALMEIDA - São gêneros muito distintos entre si. Em termos gerais, a dramaturgia está pautada no diálogo e na ação, o texto precisa caminhar apenas sobre aquilo que os personagens dizem e fazem; os roteiros de cinema são peças técnicas, voltadas a guiarem as filmagens. Cada um desses gêneros tem formas específicas de expressão e desafios. Gosto de transitar por essas áreas porque sempre aprendo algo que pode enriquecer a literatura, uma vez que me entendo muito mais escritor que dramaturgo ou roteirista. 


RESENHANDO - Quais aprendizagens resultaram do transitar entre gêneros?
MAURÍCIO ALMEIDA - As experiências que tive nesses outros gêneros me ajudam a superar dificuldades e desafios impostos pela escrita literária. Creio ser possível perceber essa relação no conto “Duelo” (do livro “Beijando Dentes”), que é basicamente um diálogo entre dois personagens marcado por rubricas de movimentações deles, ou no romance “A Instrução da Noite”, que, por vezes, se pauta exclusivamente na movimentação dos personagens ou nos diálogos que travam.


RESENHANDO - As questões familiares são muito comuns em seus textos. Por quê?
MAURÍCIO ALMEIDA - A família é o primeiro núcleo de pessoas com o qual temos contato – e são relações profundas, intensas, cheias de significados. As questões familiares são interessantes justamente por serem tão fortes e, ao mesmo tempo, serem tão contingentes quanto quaisquer outras relações. Por isso, creio que o tema família seja um terreno propício e muito fecundo para explorar sentimentos universais tais como a solidão, o desespero, o medo, a necessidade e assim por diante. Como um indivíduo pode lidar com a falta de resposta desse núcleo? Com o esfacelamento dele? Com a ausência desse núcleo? A solidão (e o desespero, o medo, a necessidade) implicada nessa situação é exemplar na busca daquilo que é humano – e talvez seja esse meu projeto literário – pois aquilo que é humano explicita-se por meio da solidão, do desespero, do medo, da necessidade.



RESENHANDO - Em qual autor você se inspira e por quê? Que nomes da literatura lhe influenciaram na escrita?
MAURÍCIO ALMEIDA - Tenho algumas referências fundamentais, autores que me formaram enquanto autor. Dessas referências, cito nominalmente Clarice Lispector, Lúcio Cardoso, Osman Lins e Raduan Nassar. Penso serem autores que investigaram o indivíduo a partir do universo interno. E, para tal, compuseram livros particulares e intensos, que se propõem pensar o ser humano a partir daquilo que há de mais terrivelmente humano em cada ser.


RESENHANDO - O que pode nos adiantar sobre seus novos projetos, o livro de conto e o romance?
MAURÍCIO ALMEIDA - Estou finalizando dois projetos, um livro de contos e um romance. O livro de contos se chama "Equatoriais" e pude arrematá-lo no período que fiz uma residência literária em Paraty, iniciativa concebida e realizada pelo Prêmio Off Flip de Literatura (ao qual agradeço a toda a equipe na figura de Ovídio Poli Junior e da Olga Yamashiro). Passei o mês de outubro do ano passado em Paraty exclusivamente dedicado ao livro de contos, que está praticamente pronto. 


RESENHANDO - Sobre o que vai tratar?
MAURÍCIO ALMEIDA - O tema que perpassa os contos de "Equatoriais" é viagens pelo Brasil. De modo geral, as personagens estão fora de seus lugares de origem e devem lidar com o estranhamento de estarem em locais que não conhecem e lidar com hábitos distintos. Alguns desses contos tiveram origem em viagens que fiz, por conta de minha formação como antropólogo e servidor da Fundação Nacional do Índio - Funai. 



RESENHANDO - E o romance?
MAURÍCIO ALMEIDA - Neste momento, estou me dedicando à conclusão do romance "Contudo, Setembro". O livro trata uma relação familiar e, de alguma forma, dialoga com “A Instrução da Noite”, embora se distancie pelo fato das personagens estarem dedicados a eventos externos a eles. Assim, ao contrário de “A Instrução da Noite”, no qual as ações são intensamente internas, "Contudo, Setembro" extrapola esse limite e coloca os personagens no mundo. O livro é sobre dois irmãos com rotinas e vivências completamente distintas que têm os caminhos distorcidos e são colocados em contato após uma situação limite interromper a rotina deles.


RESENHANDO - Como autor contemplado em prêmios cobiçados do mercado editorial brasileiro, responda: quais características devem ter um conto e um romance perfeito?
MAURÍCIO ALMEIDA - O conto ou o romance perfeito é aquele que mais se aproxima do conto ou romance que o autor tem na cabeça, o ideal que ele sonha e pretende concretizar. Quase sempre o desfecho dessa intenção é aquela frase do muralista do filme "Decameron", de Pier Paolo Pasolini, ao terminar o mural que pintava: “Por que criar uma obra de arte se sonhar com ela é tão mais doce?”. Tão mais doce porque mais completa, perfeita em relação àquilo que conseguimos concretizar. Além disso, quero dizer que o conto ou romance (ou poesia ou música ou tela) deve responder à demanda do autor, isto é, deve responder unicamente às regras e expectativas do autor e não a demandas externas.


RESENHANDO - O mundo de hoje - escancaradamente repleto de corrupção e imposição do politicamente incorreto - ainda pode ser inspirador para escrever? Por quê?
MAURÍCIO ALMEIDA - O mundo é sempre um desafio a ser encarado e creio que uma das expectativas dos escritores seja confrontá-lo para compreendê-lo. A inspiração (entidade na qual não acredito) é aquilo que provoca e, por incomodar, nos faz pensar. Um mundo repleto de corrupção, por exemplo, é algo potencialmente instigante por explicitar uma faceta do humano que instintivamente julgamos errado, repulsivo. Se é errado (por que é errado?) e repulsivo (por que causa ojeriza?), por que continua acontecendo? O que há de tão humano na corrupção que não conseguimos evitá-la? Pois corrupção é tanto o desvio de milhões de reais quanto não corrigir o troco errado da padaria ou estacionar em lugar proibido. Eis algo instigante aos escritores, pois deve ser explorado não apenas em termos legais, mas em termos humanos.



RESENHANDO - Você foi um dos autores convidados a participar de uma coletânea de contos inspirados nas músicas da banda Legião Urbana. Como foi essa experiência?
MAURÍCIO ALMEIDA - Foi incrível e pude voltar a um período importante de minha vida. Sempre digo que escrevo prosa porque sou um músico (e poeta) frustrado, pois minha história com a palavra começou com a música: feito todo adolescente (ao menos os adolescentes de minha época), eu tinha uma banda de garagem com meus amigos e resolvemos que escreveríamos nossas próprias canções. Assim foi minha primeira tentativa em escrever algo, de me expressar por meio da palavra. E a Legião Urbana era uma grande influência para mim, sobretudo as letras de Renato Russo. Quando fui convidado a participar da antologia, julguei ser uma forma de prestar homenagens a esse início de carreira. A música sempre esteve presente em minha vida literária. 


RESENHANDO - Foi convidado para  antologias semelhantes?   
MAURÍCIO ALMEIDA - Além da antologia “Como se não houvesse amanhã”, participei também das antologias “O Livro Branco” (contos inspirados por músicas dos Beatles) e “Cobain” (contos inspirados em músicas do Nirvana). De alguma forma, consegui contemplar mais ídolos musicais da adolescência: Renato Russo, John Lennon e Kurt Cobain.


RESENHANDO - Você tem um ritual na hora de escrever?
MAURÍCIO ALMEIDA - Não tenho muitos rituais. Na verdade, escrever não tem muito segredo senão ler e escrever. De qualquer forma, acho importante, na medida do possível, desligar os meios que convocam cada vez mais (telefone, redes sociais e afins) e escrever. Outra espécie de ritual é ler um autor que me sirva feito um diapasão, que me dê o tom e o ritmo da escrita. Não se trata exatamente de ler um livro, mas ler para pegar embalo, pois algumas leituras suscitam o ânimo para a escrita. O antropólogo francês Lévi-Strauss fazia algo parecido: muito mais pelo ritmo e pela poética do que pelo conteúdo propriamente dito, ele lia “O 18 Brumário de Luís Bonaparte”, de Karl Marx, para suscita tal ânimo e escrever.


RESENHANDO - Quando começou a escrever? 
MAURÍCIO ALMEIDA - Meu primeiro contato com a escrita enquanto forma de expressão foi por meio da música. Quando minha banda de garagem resolveu escrever as próprias canções, arrisquei algumas composições, que não eram boas. No entanto, esse primeiro exercício me levou à descoberta da poesia. Arrisquei então uma série de poemas, que também não eram muito bons. No entanto, esse trajeto me encaminhou à prosa, que comecei a praticar sem qualquer parâmetro, apenas escrevendo textos que não correspondiam a nenhum gênero. Tratavam-se, antes, de uma mistura de diários, sensações e uma forma ainda incipiente de ficção. Com posse desses textos, participei da oficina literária do escritor paulistano João Silvério Trevisan – e nesse momento a escrita se tornou algo ‘consciente’, comecei a escrever meus primeiros contos já pensando em forma, conteúdo, intenções, todos esses elementos que compõem a escrita ficcional. 


RESENHANDO - O que a literatura representa em sua vida?

MAURÍCIO ALMEIDA - Desde as primeiras composições até meus trabalhos mais recentes, a literatura representa minha forma de interpretar e lidar com a vida, uma forma de organizar o mundo. Uma tarefa tão bispo-rosariana assim só poderia contar com um instrumento tão potente quanto a expressão artística.



RESENHANDO - Um escritor também gosta de ler. Hoje, qual livro está lendo? Comente.
MAURÍCIO ALMEIDA - Estou lendo “Pai, Pai”, novo livro de João Silvério Trevisan (eis uma feliz coincidência nessa entrevista). Trata-se de um relato autobiográfico sobre o processo de compreensão (e perdão) da relação entre João, o filho, e José, o pai. Composto por fragmentos que seguem cronologicamente a vida do autor, “Pai, Pai” se organiza como uma espécie de diário de campo do autor, ao longo do trajeto de reconstrução e reelaboração da figura paterna, José Trevisan. A força do livro não está exatamente nas situações que descreve (apesar de serem fortes e exemplares), mas no impacto que causa no leitor, ser convocado a realizar o próprio processo. Talvez por lançar mão de situações, dilemas e dores elementares, “Pai, Pai” é capaz de enredar o leitor em vasculhar a própria história de vida. Ao menos, minha leitura está sendo dessa forma. Recomendo fortemente “Pai, Pai”.


RESENHANDO - Qual é o seu estilo literário preferido?
MAURÍCIO ALMEIDA - Embora escreva prosa e minhas grandes referências sejam prosadores, meu gênero literário preferido é a poesia. Os poetas estão entre minhas principais e mais intensas leituras. Creio que meus livros representem isso de alguma forma.



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2 comentários:

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