sexta-feira, 8 de junho de 2018

.: Realidade: professor não é lixo, mas é tratado como

Por: Mary Ellen Farias dos Santos
Em junho de 2018




Analisando bem toda a situação, a única sentença que não deixa de martelar a minha mente é a de uma antiga campanha publicitária da Fiat: "Xi! Está na hora de você rever os seus conceitos". De fato, em plena modernidade e com o Brasil afundado numa crise medonha, tudo está de pernas para o ar, completamente sem sentido.

O fato é que estou à procura de mais aulas. Portanto, do final de 2017 ao primeiro mês de 2018, entreguei meu currículo -eu e meu marido, também professor-, em escolas de Santos e São Vicente. Para dar mais sorte, na nossa mente, deixávamos os dois documentos juntinhos, alternando a ordem.

Eis que 2018, considerando tal busca, está sendo um ano surpreendente, no pior sentido do imprevisto. Por quê? Simplesmente fiz entrevistas de emprego lamentáveis, provavelmente para cumprir cota. Uma foi da escola que fica pertinho de casa, em São Vicente. Após ser recepcionada pela coordenadora e outra professora, um quiproquó para ligar o ar-condicionado do lugar, a coordenadora que, visivelmente, deu uma "passada de olhos" em meu currículo, pouco perguntou. Apenas demonstrou grande apreço em saber o endereço de duas escolas em Santos, das quais trabalhei. Ainda não entendi!

Na vez da professora fazer perguntas básicas em inglês, não pude falar a verdade sobre o que eu fazia para exercitar o meu inglês. Respondi que dava aula e assistia muitas séries. E parei por ali. Ok! Quantas e quantas vezes ligo o computador e coloco em algum canal gringo? Entretanto, não pude citar, de fato, o que acompanho, por streaming gringo. Como eu poderia dizer que madrugo para assistir "American Horror Story", "American Crime Story" e que as minhas noites de quintas-feiras são de "RuPaul´s Drag Race"?

A primeira é sanguinolenta, a outra, que estava na segunda temporada, era sobre Versace e estabelece certa relação com RPDR: homossexualidade. "Educadores" adoram encher a boca sobre ter a mente aberta, mas quem convive nas salas dos professores, sabe que não é bem assim. O julgamento ao outro é o que impera. Imagine uma coordenadora? Eis que a própria trouxe a cereja do bolo e pediu que eu apresentasse a aula teste. Fiquei sem reação, pois a secretária que marcou a entrevista comigo não mencionou qualquer teste. Escola organizada, não é mesmo?

É vida que segue e a entrega de currículo em dupla, continuou. Fomos até a Avenida Presidente Wilson, no colégio localizado ao final. Dessa vez, deixamos o currículo de meu marido em cima do meu. Antes mesmo que saíssemos da escola, o porteiro nos chamou. Voltamos. Era preciso retornar às 15 horas para uma entrevista. Contudo, a secretária nem mesmo se deu ao trabalho de folhear o que lhe foi entregue. Apenas viu o documento que estava acima. Informamos que o meu estava logo abaixo, assim, a entrevista terminou por me incluir.

Chegamos no horário, sendo que logo em seguida iríamos à minha dentista para extrair um siso. A coordenadora se apresentou de um modo efusivo e nos mandou subir as escadas até a sala dela. Mantive certa distância, para que meu marido fosse entrevistado e permaneci fora. Ela mandou que eu entrasse e me sentasse ao lado dele. Fiquei incrédula! Fiz uma mini "entrevista" ao lado do marido. Não se tratava de uma dinâmica em grupo. 

No fim, aquela presepada de nos fazer retornar no horário da tarde, foi resumida em dizermos os dias disponíveis e nada mais. A coordenadora comentou que a diretora estava em férias e que a professora já estava para deixar o colégio por ter sido chamada na escola pública. No entanto, após uma semana, o chamamento para preencher a vaga foi mantido na fanpage da escola. Encorajei meu marido, para que ligasse. Mantendo a falta de educação e tato, após saber que ele não era o amigo do professor de quem ela esperava ligação, disse separando sílabas: "A vaga não foi preenchida".

Algum tempo depois, fui até Santos, na Benjamin Constant. Fiz uma excelente entrevista, a coordenadora me explicou o método de ensino e a tecnologia de ponta usada em sala de aula, além de me deixar com os olhos cheios pelo excelente salário. No entanto, após toda a conversa, comentou que aquela conversa seria repassada ao diretor e aconteceria uma nova entrevista, além de um período de adaptação, tudo isso, somente no caso de os professores da casa não conseguirem conciliar o afastamento da professora de português. Pois é!

Entretanto, a melhor de todas foi a que aconteceu exatamente dia 4 de junho, meu aniversário. O telefone de casa tocou, não reconheci o número. Não! Não era alguém para me dar os parabéns, mas o Verde (!?). Conclui qual escola era, mas convenhamos que excesso de confiança é tudo. Do outro lado da linha alguém queria saber se eu estava interessada em participar do processo seletivo. Disse que sim e quis saber seria. O melhor veio muito antes de eu saber os horários das aulas: "Olha a gente faz uma entrevista por telefone mesmo, dependendo do nível, a gente nem continua!", finalizando com uma risada debochada.

Então, amiguinhos, o professor não é tratado como lixo? Em um Brasil gigante como o nosso, os formadores dos diversos profissionais são mal remunerados, quando o são. Muitos mendigam por seus pagamentos que são atrasados, normalmente por serem desconsiderados. Sem deixar de citar membros escolares que humilham os professores, o que endossa ainda mais o desrespeito dos alunos. 

Não bastando tal massacre no meio de trabalho, governantes engravatados e seus entendidos de educação mexem e remexem nas regras para anular as conquistas dessa classe desrespeitada. Alguns lançam lindos livros, pelo único fato de nunca ter pisado numa sala de aula. Outros até conhecem o ambiente escolar, mas de uma época em que o professor chegava na porta e todos os alunos se levantavam, em silêncio, para recebê-lo e os pais eram presentes nas vidas dos filhos. 

O professor não quer louros, apenas respeito, dignidade ao desempenhar tamanha profissão desgastante. Consideração dentro da sala de aula, com outros docentes e o salário decente. Diante dos "milenials", pais que largam os filhos nas escolas e a completa inversão de "conceitos", ser professor não é fácil, antes de tudo é preciso estar com a autoestima em dia. Do contrário, a depressão é certeira. 

Você que sonha com a profissão que só é bela nos filmes da "Sessão da Tarde"ainda quer ser professor? 


*Mary Ellen Farias dos Santos é criadora e editora do portal cultural Resenhando.com. É formada em Comunicação Social - Jornalismo, pós-graduada em Literatura e licenciada em Letras pela UniSantos - Universidade Católica de Santos. Twitter: @maryellenfsm


Abaixo a carta de um professor, divulgada há mais de 10 anos, que traduz a desvalorização de quem leciona.


Aos meus alunos, aos Pais dos meus alunos, aos professores e a todos os meus concidadãos, incluindo os nossos governantes e o Senhor Presidente da República

Tenho cinquenta e tal anos de idade, trinta e muitos dos quais como docente no ensino secundário e no ensino superior. 

Fiz a Licenciatura com 16 valores, o Estágio Pedagógico com 18 e um mestrado em Ciências da Educação com Muito Bom. 

Dediquei a minha vida à Escola Pública. Fui Presidente do Conselho Executivo (dois mandatos) orientador de estágio pedagógico (3 anos), delegado de grupo/coordenador de departamento (dois mandatos), Presidente do Conselho Pedagógico (um mandato) e director de turma durante vários anos. 

Nos últimos tempos leccionei no ensino superior, com ligação permanente à formação de professores. Desempenhei vários cargos pedagógicos, participei em múltiplos projectos e desenvolvi dois trabalhos de elevado valor científico. 

Entretanto, regressei ao ensino secundário e à minha escola de origem. 

Alguns dos antigos colegas, embora mais novos do que eu e com menos tempo de serviço (compraram o tempo, explicaram-me depois) já se tinham reformado. Eu também já tinha idade, mas faltavam-me alguns meses para o tempo necessário quando mudaram as regras do jogo.

E como se não bastasse a alteração dessas regras, é aprovado, entretanto, um novo estatuto para a carreira docente. E logo de seguida é aberto o concurso para professores titulares. Um concurso para uma nova categoria onde eu não tinha lugar!

Não reunia condições. Mesmo com um Mestrado em Ciências da Educação e sem ter dado uma única falta nos últimos sete anos, o meu curriculum valia, apenas, 93 pontos! Faltavam 2 pontos para o mínimo exigido a quem estivesse no 10º escalão. 

Com as novas regras, o meu departamento passou a ser coordenado, a partir do presente ano lectivo, por um professor titular. Um professor que está posicionado no 8º escalão. Tem menos 15 anos de serviço do que eu. Foi meu aluno no ensino secundário e, mais tarde, meu estagiário. Fez um bacharelato com média de 10 valores e no estágio pedagógico obteve a classificação de 11 valores. Recentemente concluiu a licenciatura numa estabelecimento de ensino privado, desconhecendo a classificação obtida.

É um professor que nunca exerceu qualquer cargo pedagógico, à excepção de director de turma. Nos últimos sete anos deu 84 faltas, algumas das quais para fazer 15 dias de férias na República Dominicana (o atestado médico que utilizou está arquivado na secretaria da escola, enquanto os bilhetes do avião e a factura do hotel constam de um outro processo localizável). 

O seu curriculum vale 84 pontos, menos 9 pontos do que o meu. Contudo, este docente foi nome a do professor titular. 

De acordo com o Senhor Primeiro Ministro e demais membros do seu Governo, com o apoio do Senhor Presidente da República e, agora, com o apoio dos dirigentes sindicais, este professor está em melhores condições do que eu para integrar “(…) um corpo de docentes altamente qualificado, com mais experiência, mais formação e mais autoridade, que assegure em permanência as funções de organização das escolas, para a promoção do sucesso educativo, a prevenção do abandono escolar e a melhoria da qualidade das aprendizagens.

A conclusão, embora absurda, é clara: se eu estivesse apenas no 9º escalão, e com os mesmos pontos, seria considerado um docente altamente qualificado, com mais experiência, mais formação e mais autoridade. Como estou no 10º escalão, e não atingindo os 95 pontos, eu já não sou nada.

Isto é o resultado de uma selecção feita com base na “(…) aplicação de uma grelha de critérios objectivos, observáveis e quantificáveis, com ponderações que permitam distinguir as experiências profissionais mais relevantes (…) [onde se procurou] reduzir ao mínimo as margens de subjectividade e de discricionariedade na apreciação do currículo dos candidatos, reafirmando-se o objectivo de valorizar e dar prioridade na classificação aos professores que têm dado provas de maior disponibilidade para assumir funções de responsabilidade.” É assim que “reza” o DL 200/2007, de 22 de Maio. Admirável!

Agora consta-se por aí (e por aqui) que aquele professor (coordenador do meu departamento) me irá avaliar… 

Não, isso não será verdade. Esse professor irá, provavelmente, fazer de conta que avalia, porque só pode avaliar quem sabe, quem for mais competente do que aquele que se pretende avaliar. 

O título de “titular” não é, só por si, suficiente. Mesmo que isto seja só para fazer de conta…

Conhecidos que são os meus interesses, passo ao principal objectivo desta carta, que é, simplesmente, pedir perdão!

Pedir perdão, em primeiro lugar, aos meus alunos. Pedir perdão a todos os Pais dos meus alunos. Pedir perdão porque estou de professor, mas sem me sentir professor. Tal como milhares de colegas, humilhado se desencorajados, sinto-me transformado num funcionário inútil, à espera da aposentação.

Ninguém consegue ser bom professor sem um mínimo de dignidade. Ninguém consegue ser bom professor sem um mínimo de paixão. 

As minhas aulas eram, outrora, coloridas, vivas e muito participadas. Com acetatos, diaporamas, vídeos, power point, etc. Hoje é, apenas, o giz e o quadro. Só a preto e branco, com alguns cinzentos à mistura. Sinto-me desmotivado, incapaz de me empenhar e de estimular. Receio vir a odiar a sala de aulas e a própria escola. Receio começar a faltar para imitar o professor titular e coordenador do meu departamento (só não irei passar férias para a República Dominicana porque tenho outras prioridades…). Receio que os professores deste País comecem a fingir que ensinam e a fingir que avaliam. Sim, porque neste país já tudo me parece a fingir.

Cumprimentos.

(Um professor anónimo e humilhado, tal como milhares de outros professores)

Fonte da carta: CARTA-DE-UM-PROFESSOR-HUMILHADO

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