quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

.: Entrevista com Frann Ferraretto, atriz do espetáculo "A Minicostureira"

Frann Ferraretto está em cartaz com o imperdível espetáculo "A Minicostureira", que fala de maneira sutil sobre temas pouco apresentados para crianças. Foto: Fabio Audi

Por Helder Moraes Miranda, em fevereiro de 2019.

Frann Ferraretto tem uma força inexplicável, seja no palco ou nas telas do cinema e da televisão. Tal entrega às artes faz com que seja impossível não torcer ou sentir empatia pelos personagens que defende com unhas e dentes. Nessa trajetória de sucesso, lançou na mostra internacional de cinema o filme "O Pequeno Mal" ("Petit Mal") e acabou de estrear na MTV o seriado "Feras", com a personagem Mirella. 

Além disso, foi atriz-pesquisadora da cia. Club Noir por quase cinco anos, quando atuou em mais de 12 espetáculos de teatro, dirigidos por Roberto Alvim e Juliana Galdino. Foi atriz do Núcleo de Artes Cênicas por dois anos e participou do primeiro espetáculo profissional dirigido por Lee Taylor.

Agora, está em cartaz nas tardes de sábados e domingos no Teatro Porto Seguro com a peça "A Minicostureira", em que contracena com Antoniela Canto, Bruno Ribeiro e Mateus Monteiro, e é dirigida por Cynthia e Débora Falabella. O espetáculo, livremente inspirado em um texto de Marina Colasanti trata com muita sensibilidade temas que falam tanto com crianças, como com adultos. A temporada é curta: só até 17 de março. Por isso, corra para o Teatro Porto Seguro e permita-se sentir. 

RESENHANDO - Com muita delicadeza, vocês abordam um tema espinhoso: relacionamento abusivo. Como é falar disso para crianças? 
FF - O projeto de "A Minicostureira" carrega muitos objetivos, desde os mais subjetivos até os mais concretos. O termo "relacionamento abusivo" é dado e observado por nós adultos, principalmente mulheres, que rapidamente fazemos um paralelo com a realidade atual, onde o feminismo veio dizer: "Basta!". Para o universo das crianças ali, a gente suavisou, colocando outras razões (não menos óbvias) que aquela relação (da peça) não estava sendo legal.


RESENHANDO - Como é ser dirigida pelas irmãs Cynthia e Débora Falabella? 
FF - É uma festa (risos), mas com muitas responsabilidades. As meninas são muito minhas amigas, a gente divide a vida, intimidade... Quando o texto chegou, era óbvio que teriam de ser elas as diretoras. Na época, eu estava mais próxima da Debinha, que aceitou de cara, e trouxe a Cyn, pra minha alegria e gratidão eterna. 


RESENHANDO - Como é ser dirigida em uma peça que você mesma escreveu?
FF - Estar atuando pela primeira vez num texto que eu própria escrevi, foi no mínimo esquizofrênico (risos), precisei demais delas como farol.


RESENHANDO - O que a personagem Clara, "A Minicostureira", tem a ver com você como pessoa?
FF - Nossa! Ela é uma parcela minha muito viva, onde aliás repousa o meu aspecto criativo, com certeza.


RESENHANDO - Por que discutir o autoconhecimento desde cedo, como a peça faz, é tão importante - sobretudo nos dias de hoje?
FF - Eu fui uma criança muito curiosa e questionadora, que por conta dos padrões da época, as coisas não eram faladas, ou eram escondidas até. Sinto que isso deixou marcas em mim, e depois criou uma vontade muito grande de dar o que eu não tive. A peça pra mim, não responde nada, mas abre espaço para a Clara (personagem de "A Minicostureira") perceber seus sentimentos reais, em contradição inclusive. Acredito que isso é observação própria, que gera experiência, que chamam de autoconhecimento. As crianças são capazes, muito capazes, eu só me surpreendo nesse sentido; onde elas mais me ensinam como assimilar algo, do que o contrário. Precisamos só apresentar as coisas como são a elas, sem subestimar. Talvez tenhamos adultos menos frustrados daqui a um tempo (risos).


RESENHANDO - Como lidar com a interação das crianças quando não se espera a interferência delas em cena? Por exemplo, um comentário espontâneo, e alto, para não rir em cena?
FF - Ah, eu amo! É tudo muito vivo num infantil, né? Elas comentam mesmo. E sempre, ou quase sempre que posso tento fazer algum gancho, e trazê-las pra dentro. É um limiar, onde quero que elas se sintam ouvidas, mas também não posso deixar de seguir a história e perder o fio. Sempre dá certo. É o melhor público, o mais generoso, o mais cruel, o mais fofo, o mais transformador. Ah...


RESENHANDO - Você atua na peça que escreveu. Como artista, você acredita que exista uma espécie de autobiografia nas escolhas artísticas que faz? Por quê?
FF - Com certeza! É muita exposição, né? Mas vale a pena na medida que você vê outras tantas pessoas se identificando com algo. Tudo fica mais poderoso se algum aspecto íntimo seu caminha junto do profissional, na verdade nem sei se é possível separar.


RESENHANDO - Quando você se expõe mais ao escrever - e, também, interpretar?
FF - A escrita é uma coisa nova, muito, muito recente, né? Ainda tô descobrindo. Tendo a dizer que, "não é que o palco te desnude, ele te deixa em carne viva".


RESENHANDO - Fazer teatro infantil em um país que não valoriza a arte é um desafio? Por quê?
FF - Fazer arte em geral. Somos "luxo" para muita gente. Como é que alguém vai levar o filho no Teatro, se a criança não tem escola, comida? Tá tudo errado, e desde lá atrás. O problema não somos nós. As pessoas confundem. A gente tá aqui sendo resistência, propondo pensamento, mudança, cumprindo o papel do artista. O problema é a miséria que vem aumentando, nível da educação que só cai, entende? É revoltante e, ao mesmo tempo, desolador. Passar num farol, por exemplo, e ver uma criança que poderia estar assistindo um espetáculo, um filme -onde muita coisa poderia despertar -e tudo que o país dá para ele é aquele cenário tão desigual...



RESENHANDO - Qual foi o maior desafio de adaptar uma peça inspirada em um texto - com tantas questões - como o da escritora Marina Colasanti? Por que essa escolha?
FF - Foi dentro de um processo de autoconhecimento que a carta do tarô egípcio "A Tecelã" apareceu. Foi imediato. Sabia que era aquilo e naquele momento. Apesar de parecer milagroso, o processo da escrita foi trabalho e  mais trabalho, e eu devo muito à minha amiga e musa da dramaturgia, Silvia Gomez, que tanto fez pelo meu processo. Sabe anjo?


RESENHANDO -
 Qual é o lado da Frann Ferraretto que ninguém conhece?
FF - Ihhh. Vários. Vou contar um: sou chata, insistente, disciplinada, tipo CDF no trabalho, sabe? Ascendente em virgem. Entendedores entenderão.


"A Minicostureira"
De 2 de fevereiro a 17 de março – Sábados e domingos, às 15h.
Ingressos: Plateia: R$ 50 / Balcão e frisas: 40.
Classificação: livre.
Duração: 60 minutos.
Gênero: comédia infantil

Teatro Porto Seguro
Al. Barão de Piracicaba, 740 – Campos Elíseos – São Paulo.
Telefone: (11) 3226.7300.
Bilheteria: de terça a sábado, das 13h às 21h e domingos, das 12h às 19h.
Capacidade: 496 lugares.
Formas de pagamento: cartão de crédito e débito (Visa, Mastercard, Elo e Diners).
Acessibilidade: 10 lugares para cadeirantes e 5 cadeiras para obesos.
Estacionamento no local: Estapar R$ 20 (self parking) - Clientes Porto Seguro têm 50% de desconto.

Serviço de Vans: Transporte gratuito Estação Luz – Teatro Porto Seguro – Estação Luz. O Teatro Porto Seguro oferece vans gratuitas da Estação Luz até as dependências do Teatro. Como pegar: Na Estação Luz, na saída Rua José Paulino/Praça da Luz/Pinacoteca, vans personalizadas passam em frente ao local indicado para pegar os espectadores. Para mais informações, contate a equipe do Teatro Porto Seguro.
Bicicletário – grátis.

Vendas: http://www.tudus.com.br
Facebook: facebook.com/teatroporto
Instagram: @teatroporto

Sobre o entrevistador
*Helder Moraes Miranda é bacharel em jornalismo e licenciado em Letras pela UniSantos - Universidade Católica de Santos, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura, pela USP - Universidade de São Paulo, e graduando em Pedagogia, pela Univesp - Universidade Virtual do Estado de São Paulo. Participou de várias antologias nacionais e internacionais, escreve contos, poemas e romances ainda não publicados. É editor do portal de cultura e entretenimento Resenhando.



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