terça-feira, 12 de novembro de 2019

.: Entrevista com Fabricio Pietro, ator, dramaturgo e revolucionário


Por Helder Moraes Miranda e Mary Ellen Farias dos Santos, editores do Resenhando.

Fabricio Pietro sentiu um vazio desesperador e uma vontade de resgatar uma certa "sensação de vida" depois de assistir ao filme "Foi Apenas Um Sonho", baseado no romance "Revolutionary Road", de Richard Yates. Depois de algum tempo, sentiu que os desejos mais genuínos foram minados pelo comodismo e algo importante se perdeu: a própria coragem e autenticidade. 


Comprou o romance e se debruçou sobre ele inúmeras vezes para escrever a versão teatral de "Jardim de Inverno" (crítica neste link), em cartaz para as últimas apresentações até dia 17 de novembro no Teatro Raul Cortez, em São Paulo. No espetáculo, ele interpreta um marido machista e divide a cena como Andréia Horta, uma mulher à frente do seu tempo em uma era pré-feminista.


A adaptação tem enfoque na reflexão sobre o sufocamento dos desejos, a massificação dos valores, o desperdício dos potenciais individuais em virtude de um único modelo de família próspera e feliz estabelecido por interesses econômicos. Mas, antes de tudo, esta história carrega questões femininas urgentes, expostas muito claramente pela protagonista e que lamentavelmente 60 anos depois (o romance foi escrito em 1961) seguem devastando mulheres em todo o mundo.



RESENHANDO - Como surgiu a ideia de adaptar para os palcos o romance "Revolutionary Road"?
FABRICIO PIETRO - Há exatos dez anos, em 2009, vou ao cinema assistir o reencontro de Kate Winslet e Leo DiCaprio na telona, depois de “Titanic”. O filme era “Foi Apenas um Sonho” ("Revolutionary Road"), a história de um homem e uma mulher com dois filhos, que constroem uma vida estabelecida por padrões da época ao mesmo tempo que massacram suas potências individuais, desejos e sonhos. Quando assisti ao filme, senti o mesmo vazio desesperador e vontade de resgatar uma certa “sensação de vida” que April, a protagonista, sentiu. Corri atrás do romance original e o li seguidas vezes até me convencer de escrever a versão teatral e levá-la aos palcos.

RESENHANDO - Por que o romance "Revolutionary Road" mexeu tanto com você a ponto de resolver adaptá-lo para o teatro?

F.P. - Eu vinha de uma fase onde conforto e estabilidade eram meus objetivos de vida. Com o passar dos anos, meus desejos mais genuínos foram minados pelo comodismo e algo importante se perdeu, minha coragem e autenticidade. O filme me fez enxergar isto.

RESENHANDO - Quais os pontos que ainda fazem dessa peça, escrita no início dos anos 60, algo atual?

F.P. - A peça adaptada por mim foca na reflexão sobre o sufocamento dos desejos, a massificação dos valores, o desperdício dos potenciais individuais em virtude de um modelo padrão de família próspera e feliz estabelecido por interesses econômicos. Em seu cerne, a história carrega questões femininas urgentes, como o direito ao aborto, expostas muito claramente pela protagonista e que lamentavelmente 60 anos depois (o romance é de 1961) seguem devastando as mulheres. Não é a favor do aborto, não o faça, mas não interfira na intimidade de outra mulher. Deixe que ela decida isto com seu parceiro. A interferência do Estado e da Igreja cria pré-conceitos e incita a violência.

RESENHANDO - Se você tivesse a oportunidade, o que você aconselharia para o personagem que interpreta neste espetáculo? E para a personagem de Andréia Horta?

F.P. - Frank, veja além do óbvio.  April, tome posse das rédeas da sua própria vida.


RESENHANDO - Quando a masculinidade pode ser tóxica e o que fazer para combatê-la?
F.P. - Ouvi de uma amiga ativista das questões femininas que este termo "masculinidade tóxica" não favorece a luta sobre a violência contra a mulher. Concordo. Ela é acusatória. É preciso ser empático com os homens para entender porque eles se sobrepõem as mulheres. É preciso chegar com amor quando se exige amor. Quantos aos homens, como eu, que trazem em seu DNA estas células machistas, precisamos ouvir diariamente o que tantas mulheres dizem. Ouvir. Ouvir. Ouvir. E finalmente entender o que nos faz responsáveis pela desgraça alheia.

RESENHANDO - A personagem April, interpretada pela Andréa Horta em uma atuação muito sensível, a princípio seria interpretada por Regiane Alves. Por que se deu essa mudança?

F.P. - Regiane Alves foi uma parceira e tanto durante o processo de viabilização do projeto, no entanto a agenda dela ficou incompatível com período de temporada da peça. Ficamos tristes, é claro, mas ela mesma fez fortes recomendações sobre a Andréia, que veio com grande desejo de iluminar as questões da April e se lançou lindamente no papel.

RESENHANDO - Como foi trabalhar com Andréia Horta nesse projeto?

F.P. - Não nos conhecíamos, sabia pouco do trabalho dela, mas minha equipe de direção e produção tinham grande admiração pela atriz. Ao longo do trabalho, fomos nos conectando suavemente, organicamente e o prazer desta troca e convivência só cresceu. Descobrimos algo potente em comum, adoramos jogar e tornar vivo cada encontro no palco. É um duelo delicioso e único a cada dia.

RESENHANDO - Um ator sempre está em busca de novas histórias. Quais são as histórias mais urgente que o Fabricio Pietro, como ator e como ser humano, pretende contar e por quê?

F.P. - Já estou em pesquisa há um ano com a atriz e diretora Fernanda Stefanski, co-fundadora da Cia Hiato. Nosso projeto vai abordar esta dicotomia dos dramas pessoais e caseiros que tiram nosso sono versus as tragédias que eclodem a todo instante do lado de fora das nossas casas e apartamentos. Enquanto estamos cercados por grades e câmeras de segurança, janelas anti-ruído e vidros blindados, existe um mundo lá fora. Queremos falar sobre a nossa responsabilidade sobre tudo o que existe na sociedade que construímos todos os dias, todos nós.

RESENHANDO - Qual é o personagem de seus sonhos? Por quê?

F.P. - Vou ser cafona. O personagem dos meus sonhos é o próximo, contanto que ele despeje poesia e incômodo no espectador.

Serviço:

"Jardim de Inverno" - Até 17 de novembro. Sexta 21h30, sábado 21h e domingo 20h.
Teatro Raul Cortez - Rua Dr. Plínio Barreto, 285 - Bela Vista, São Paulo.
Bilheteria: de terça a quinta, das 15h às 19h; e de sexta a domingo, das 15h até o início do espetáculo (não abre aos feriados). Vendas online: https://www.sympla.com.br/. Capacidade: 520 lugares. Informações: (11) 3254-1633. E-mail: teatro.raulcortez@fecomercio.com.br


Foto: Danilo Borges

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