terça-feira, 9 de junho de 2020

.: Celebrando Verissimo: um apanhado de cinco décadas do mestre da crônica


"É bom ter a liberdade de opinar sobre tudo, dentro dos limites da clareza e do bom senso que você mesmo se impõe. Eu comecei a ter um espaço assinado em jornal em 1969. Época do Médici, da censura à imprensa, dos assuntos proibidos. Sei bem como era." — Verissimo para a Folha de S.Paulo, janeiro de 2020.

Lemos as crônicas de Luis Fernando Verissimo desde os anos 1970, mais precisamente desde 19 de abril de 1969, quando ele estreou na coluna Informe Especial no Zero Hora. Desse início em plena ditadura militar, Verissimo passou pela redemocratização, viveu a revolução digital e as polarizações ideológicas, sempre produzindo crônicas oportunas e relevantes, reconhecidas pela capacidade de traduzir em poucas linhas a complexa natureza humana. 

"Verissimo Antológico" é todo dedicado a esse gênero em que ele desenvolveu plenamente sua capacidade de concisão e o humor ímpar que o tornaram um dos escritores mais importantes do Brasil. "Na escrita, aproveita-se de tudo. Uma frase pode sugerir uma cosmogonia inteira. O importante é saber aproveitar a ideia." — Verissimo para a Expressa, fevereiro de 2020.

Dividido por décadas, "Verissimo Antológico" traz mais de trezentos textos imperdíveis, alguns inéditos em livro ou que estão fora de circulação há mais de 40 anos. O livro está disponível em e-book, e a versão impressa será lançada em momento oportuno.

A crônica tem como uma de suas características registrar o momento. Está em seu DNA emitir opiniões sobre tudo o que acontece. A boa crônica atravessa o tempo com galhardia e mantém a atualidade não só porque desvela o passado, mas porque é boa literatura; e, não raro, volta a ser atual, mostrando que a história é também cíclica — são as ironias do tempo, diria Verissimo. Como um aperitivo do que você vai encontrar neste livro, escolhemos uma crônica de meados dos anos 1990, que depois foi republicada em 2000, um exemplo do talento de Verissimo.

Da timidez
Ser um tímido notório é uma contradição. O tímido tem horror a ser notado, quanto mais a ser notório. Se ficou notório por ser tímido, então tem que se explicar. Afinal, que retumbante timidez é essa, que atrai tanta atenção? Se ficou notório apesar de ser tímido, talvez estivesse se enganando junto com os outros e sua timidez seja apenas um estratagema para ser notado. Tão secreto que nem ele sabe. É como no paradoxo psicanalítico: só alguém que se acha muito superior procura o analista para tratar um complexo de inferioridade, porque só ele acha que se sentir inferior é doença.

Todo mundo é tímido, os que parecem mais tímidos são apenas os mais salientes. Defendo a tese de que ninguém é mais tímido do que o extrovertido. O extrovertido faz questão de chamar atenção para sua extroversão, assim ninguém descobre sua timidez. Já no notoriamente tímido a timidez que usa para disfarçar sua extroversão tem o tamanho de um carro alegórico. Daqueles que sempre quebram na concentração. Segundo minha tese, dentro de cada Elke Maravilha existe um tímido tentando se esconder e dentro de cada tímido existe um exibido gritando “Não me olhem! Não me olhem!”, só para chamar a atenção.

O tímido nunca tem a menor dúvida de que, quando entra numa sala, todas as atenções se voltam para ele e para sua timidez espetacular. Se cochicham, é sobre ele. Se riem, é dele. Mentalmente, o tímido nunca entra num lugar. Explode no lugar, mesmo que chegue com a maciez estudada de uma noviça. Para o tímido, não apenas todo mundo mas o próprio destino não pensa em outra coisa a não ser nele e no que pode fazer para embaraçá-lo.

O tímido vive acossado pela catástrofe possível. Vai tropeçar e cair e levar junto a anfitriã. Vai ser acusado do que não fez, vai descobrir que estava com a braguilha aberta o tempo todo. E tem certeza de que cedo ou tarde vai acontecer o que o tímido mais teme, o que tira o seu sono e apavora os seus dias: alguém vai lhe passar a palavra.

O tímido tenta se convencer de que só tem problemas com multidões, mas isto não é vantagem. Para o tímido, duas pessoas são uma multidão. Quando não consegue escapar e se vê diante de uma plateia, o tímido não pensa nos membros da plateia como indivíduos. Multiplica-os por quatro, pois cada indivíduo tem dois olhos e dois ouvidos. Quatro vias, portanto, para receber suas gafes. Não adianta pedir para a plateia fechar os olhos, ou tapar um olho e um ouvido para cortar o desconforto do tímido pela metade. Nada adianta. O tímido, em suma, é uma pessoa convencida de que é o centro do Universo, e que seu vexame ainda será lembrado quando as estrelas virarem pó.


Sobre o autor
Luis Fernando Verissimo nasceu em 1936, em Porto Alegre. É autor de best-sellers como "O Melhor das Comédias da Vida Privada" e criador de tipos marcantes como a velhinha de Taubaté, Ed Mort, o analista de Bagé e as cobras. Filho do romancista Erico Verissimo, escreve semanalmente para vários jornais e tem livros publicados em mais de 15 países.

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