“A Vingança de Uma Mulher” (“La Vengeance d'une femme”), dirigido por Jacques Doillon, está em cartaz na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte. Lançado em 1990 e exibido na seleção oficial do 40º Festival Internacional de Cinema de Berlim, o longa-metragem parte de uma premissa simples e incômoda: uma viúva decide confrontar a amante do marido morto e, nesse encontro, reorganizar sua dor como método. Cécile, vivida por Isabelle Huppert, procura Suzy, interpretada por Béatrice Dalle, em Paris após o suicídio do marido. Convencida de que a amante tem responsabilidade na morte, ela constrói um jogo de aproximação e pressão emocional, em que cada palavra parece calculada para desestabilizar. O filme acompanha esse movimento com rigor, apostando em diálogos longos, olhares que se sustentam além do conforto e uma encenação que privilegia a presença física das atrizes.
O roteiro, assinado por Doillon em parceria com Jean-François Goyet, dialoga com a literatura de Fiódor Dostoiévski, especialmente “O Eterno Marido”, obra que investiga ciúme, ressentimento e obsessão. Essa base literária se traduz em uma narrativa concentrada, quase teatral, em que o conflito se desenrola pelo atrito constante entre as personagens. Isabelle Huppert conduz o filme com precisão e controle, explorando as ambiguidades de uma mulher que alterna acolhimento e agressividade com naturalidade inquietante. Béatrice Dalle responde com uma presença mais instintiva, criando um contraste que sustenta a tensão ao longo das mais de duas horas de duração. O restante do elenco - que inclui Jean-Louis Murat, Laurence Côte e Sebastian Roché - orbita esse confronto central, reforçando a atmosfera de instabilidade.
Outro dado que chama atenção é a forma como Doillon organiza o espaço cênico. Há uma economia de cenários e uma concentração nos corpos e nas vozes, o que aproxima o filme de uma experiência teatral filmada, sem abrir mão de uma mise-en-scène rigorosa. Críticos da época destacaram justamente esse caráter metódico da encenação, em que a vingança se constrói passo a passo, como se cada gesto obedecesse a um plano previamente traçado. Com 133 minutos de duração, “A Vingança de uma Mulher” exige do espectador disposição para acompanhar um ritmo deliberadamente controlado. A recompensa está na densidade das interpretações e na forma como o filme transforma um encontro em campo de guerra. Décadas depois, a obra permanece como um estudo incisivo sobre desejo, culpa e as formas silenciosas de violência que atravessam as relações íntimas.
Ficha técnica
“A Vingança de uma Mulher” | “La Vengeance d'une femme” (título original)
Gênero: drama. Duração: 133 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 1990. Idioma: francês. Direção: Jacques Doillon. Roteiro: Jacques Doillon e Jean-François Goyet, com base em “O Eterno Marido”, de Fiódor Dostoiévski. Elenco: Isabelle Huppert, Béatrice Dalle, Jean-Louis Murat, Laurence Côte, Sebastian Roché, David Léotard, Albert Le Prince, Brigitte Marvine, Pierre Amzallag, Jean-Pierre Bamberger. Distribuição no Brasil: não especificada. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.
Gênero: drama. Duração: 133 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 1990. Idioma: francês. Direção: Jacques Doillon. Roteiro: Jacques Doillon e Jean-François Goyet, com base em “O Eterno Marido”, de Fiódor Dostoiévski. Elenco: Isabelle Huppert, Béatrice Dalle, Jean-Louis Murat, Laurence Côte, Sebastian Roché, David Léotard, Albert Le Prince, Brigitte Marvine, Pierre Amzallag, Jean-Pierre Bamberger. Distribuição no Brasil: não especificada. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.
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