segunda-feira, 19 de outubro de 2026

.: Benito de Paula, o adeus do amigo do Charlie Brown


A Música Brasileira perdeu  um de seus talentos mais originais. Benito di Paula, cantor e compositor de vários sucessos faleceu no ílnal de semana. Tinha 85 anos e tratava de um câncer de próstata. Foto: Murilo Alvesso

Por Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

Benito di Paula, nome artístico de Uday Veloso, nasceu em 28 de novembro de 1941, em Nova Friburgo, na região serrana do Rio de Janeiro. Cantor, compositor e pianista, construiu uma das trajetórias mais singulares da música popular brasileira, tornando-se um dos grandes responsáveis por aproximar o samba de uma sonoridade romântica, marcada pelo piano, por interpretações intensas e por melodias que conquistaram milhões de brasileiros.

Filho de uma família musical, Benito desenvolveu desde cedo sua relação com os instrumentos e com a canção popular. Ainda jovem, começou a trabalhar como crooner, apresentando-se em casas noturnas do Rio de Janeiro. Posteriormente, passou por Santos e São Paulo, onde encontrou um ambiente decisivo para o desenvolvimento de sua carreira. Foi na noite paulistana que consolidou sua identidade artística e conquistou o público com uma maneira própria de cantar e tocar samba ao piano.

Sua projeção nacional ganhou força no início da década de 1970, quando assinou com a gravadora Copacabana e passou a lançar discos que rapidamente encontraram grande repercussão comercial. Em 1973, a canção “Retalhos de Cetim” tornou-se um dos maiores marcos de sua carreira. Com sua interpretação emotiva, o piano em primeiro plano e uma melodia de forte apelo popular, a música se transformou em um clássico da canção brasileira, atravessando gerações e recebendo gravações de outros intérpretes.

A partir daí, Benito emplacou uma sequência de sucessos que consolidaram sua presença no imaginário popular. “Charlie Brown”, “Mulher Brasileira”, “Do Jeito Que a Vida Quer”, “Se Não For Amor”, “Vai Ficar na Saudade”, “Tudo Está no Seu Lugar”, "Ah, como eu Amei" e “Proteção às Borboletas” estão entre as canções que ajudaram a definir sua obra. Suas composições combinavam romantismo, cotidiano, humor, sentimento e observação da vida brasileira, sempre com uma assinatura musical facilmente reconhecível.

Seu diferencial estava, sobretudo, na maneira de colocar o piano no centro do samba. Em uma tradição frequentemente identificada com o violão, o cavaquinho e os instrumentos de percussão, Benito desenvolveu uma estética em que o teclado harmônico conduzia a interpretação e estabelecia uma relação particular com a voz. Suas apresentações eram marcadas por gestos expressivos, forte presença cênica e uma entrega emocional que aproximava o artista de seu público.

Benito também rompeu barreiras entre diferentes segmentos da música popular. Sua obra dialogava com o samba tradicional, a canção romântica e elementos do jazz, sem perder o vínculo com a comunicação direta e com a experiência cotidiana dos ouvintes. Essa combinação contribuiu para que alcançasse públicos diversos e se tornasse um fenômeno de popularidade nas décadas de 1970 e 1980.

Embora tenha construído grande parte de sua trajetória a partir de composições próprias, Benito manteve relações importantes com outros criadores e intérpretes da música brasileira. Entre seus parceiros de composição estavam Chico Anysio, Adoniran Barbosa e Márcio Brandão, nomes que representam diferentes experiências e tradições da canção popular e também Jota Velloso, Ney Velloso e Ana Carolina Velloso (irmãos de Benito).

Sua obra também ultrapassou as fronteiras de seu próprio repertório. Composições de Benito foram gravadas por artistas como Roberto Carlos, Maria Bethânia e Alcione, demonstrando a capacidade de suas canções de encontrar novas interpretações e circular por diferentes universos musicais. “Retalhos de Cetim”, em particular, ganhou leituras de outros intérpretes brasileiros e estrangeiros, ampliando o alcance de sua criação.

O reconhecimento de sua música por artistas de gerações distintas reafirmou a força de um repertório que não dependia apenas da presença do próprio compositor para continuar vivo. Suas canções passaram a integrar o patrimônio afetivo da música brasileira, sendo revisitadas por intérpretes do samba, do pagode e da nova geração da MPB.

Nos últimos anos, Benito aprofundou o diálogo entre sua trajetória e a renovação da música popular por meio de seu filho, o cantor e pianista Rodrigo Vellozo. Juntos, lançaram o projeto O Infalível Zen, em 2021, aproximando a experiência musical do pai de outras referências estéticas e de uma perspectiva contemporânea. A parceria também simbolizou a transmissão de um legado artístico entre gerações. 

Benito di Paula deixa uma obra que pertence à memória afetiva de diferentes gerações. Suas canções continuam a contar histórias de amor, saudade, alegria e cotidiano, revelando a força de uma música popular que encontra no sentimento uma de suas maiores formas de comunicação. Com certeza, o seu amigo "Charlie Brown" deve se sentir agradecido pelo fato de você ter apresentado para ele as nossas belezas naturais esse sentir nossa musica.

"Retalhos de Cetim"

"Charlie Brown"

"Amigo do Sol, Amigo da Lua"
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