Clássico dirigido por Joseph L. Mankiewicz chega ao Belas Artes à La Carte com Audie Murphy e Michael Redgrave em um triângulo amoroso cercado por disputas políticas, colonialismo e interesses estrangeiros
O cinema gosta de revisitar as próprias feridas, às vezes com uma elegância que chega a ser desconfortável. É o caso de “O Americano Tranquilo”, produção de 1958 dirigida por Joseph L. Mankiewicz que estreia no catálogo do streaming Belas Artes À La Carte. Adaptado do romance homônimo de Graham Greene, o filme mergulha na Saigon de 1952 para acompanhar a relação entre um jornalista britânico experiente, um jovem americano cheio de convicções e uma vietnamita que se torna o centro de uma disputa afetiva e política.
Michael Redgrave interpreta Thomas Fowler, correspondente britânico que conhece bem as engrenagens da Indochina e prefere observar os acontecimentos com uma dose generosa de cinismo. Audie Murphy vive o americano, personagem chamado Alden Pyle no romance, mas que permanece sem nome no filme. Giorgia Moll interpreta Phuong, jovem vietnamita envolvida com Fowler e, depois, também com o recém-chegado americano. Claude Dauphin completa o quarteto principal como o inspetor Vigot.
A trama começa com a descoberta do corpo do americano e recua no tempo para mostrar como aquela morte foi construída pelas relações entre os personagens. O que poderia se limitar a um triângulo amoroso ganha proporções maiores quando as ideias políticas de Pyle entram em choque com a experiência de Fowler. O americano acredita em uma espécie de “terceira força” capaz de reorganizar a região, enquanto o jornalista desconfia cada vez mais das boas intenções de quem chega de fora com soluções prontas.
A diferença entre o romance de Greene e o filme de Mankiewicz é uma das partes mais interessantes dessa história. No livro, publicado em 1955, Alden Pyle é um agente americano ligado à CIA e a intervenção estrangeira aparece sob uma perspectiva bastante crítica. A adaptação mudou radicalmente esse desenho: o personagem passou a ser apresentado como um civil ligado a uma organização de ajuda internacional, o que suavizou sua relação com o governo dos Estados Unidos. O Film at Lincoln Center observa que essa alteração provocou a reação de Greene, enquanto a mesma mudança acabou fortalecendo, para alguns críticos, o conflito dramático entre Pyle e Fowler.
Graham Greene não gostou da brincadeira. O escritor considerou que Mankiewicz havia alterado o sentido político de sua história. O British Film Institute lembra que o cineasta modificou o desfecho da trama de maneira significativa, invertendo a responsabilidade pelos atentados que aparecem na narrativa. No romance, a participação americana está no centro da violência; no filme, a explicação apresentada segue outro caminho.
A mudança não aconteceu por acaso. Hollywood ainda carregava as marcas do macarthismo e da perseguição a artistas acusados de simpatias comunistas. O próprio ambiente político da época ajuda a compreender por que um romance tão desconfiado da intervenção americana ganhou uma adaptação com posições diferentes das de Greene. Existe ainda uma figura curiosa nos bastidores: Edward Lansdale, oficial de inteligência americano que colaborou sem crédito no roteiro. O envolvimento dele ajudou a alimentar a associação entre o personagem e a atuação americana no Sudeste Asiático. A presença de Lansdale na produção tornou a história ainda mais curiosa, sobretudo porque o filme trata de uma região que poucos anos depois estaria no centro de uma intervenção militar americana de proporções muito maiores.
A escolha de Audie Murphy também acrescenta uma camada peculiar ao filme. Herói de guerra condecorado e uma das grandes celebridades militares americanas da época, Murphy carregava para a tela uma imagem pública muito diferente daquela de um ator convencional. Mankiewicz chegou a considerar Montgomery Clift para o papel, enquanto Laurence Olivier estava ligado inicialmente ao personagem de Fowler. Com a saída de Clift por problemas de saúde, Olivier também deixou o projeto, e Michael Redgrave assumiu o papel.
É Redgrave, aliás, quem acaba dominando boa parte do filme. A interpretação de Fowler recebeu elogios desde o lançamento e continua sendo apontada como um dos grandes trunfos da produção. As imagens de Saigon são outro capítulo à parte. “O Americano Tranquilo” foi o primeiro filme de Hollywood filmado no Vietnã, e parte significativa das cenas externas foi realizada em Saigon. Mercados, cerimônias religiosas e ruas da cidade foram incorporados à produção, dando ao filme uma dimensão documental rara para uma obra hollywoodiana daquele período. O restante das filmagens foi realizado nos estúdios Cinecittà, em Roma.
As filmagens vietnamitas renderam situações quase cinematográficas demais para serem verdadeiras. A equipe precisava evitar o meio-dia por causa da luz intensa, teve dificuldades para conseguir autorização para filmar em um templo budista e acabou registrando, sem saber, uma manifestação política que a polícia local acreditava ser uma cena de figuração. A produção pensou estar diante de uma procissão religiosa; depois descobriu que se tratava de um protesto.
A fotografia em preto e branco de Robert Krasker reforça essa atmosfera. Responsável também pela cinematografia de “O Terceiro Homem” e “Desencanto”, Krasker cria uma Saigon de contrastes fortes, em que a movimentação das ruas convive com a tensão permanente entre os personagens. O resultado tem o peso visual do cinema clássico, mas registra uma cidade que ainda estava longe de se tornar o cenário conhecido mundialmente pela Guerra do Vietnã.
O filme acabou ficando em uma posição curiosa na história do cinema. Foi recebido com atenção, mas enfrentou críticas pela distância em relação ao romance de Greene e não se transformou em grande sucesso comercial. Décadas depois, ganhou uma nova leitura, especialmente porque o que parecia uma disputa política distante passou a ser visto à luz dos acontecimentos que se seguiriam no Vietnã.
Jean-Luc Godard chegou a defender a produção de Mankiewicz e a considerá-la um dos grandes filmes de 1958. Em 2002, Philip Noyce voltou ao romance de Greene com Michael Caine, Brendan Fraser e Do Thi Hai Yen. Essa segunda versão é considerada mais fiel ao livro e ajuda a perceber o tamanho das mudanças feitas por Mankiewicz. As duas adaptações podem ser vistas quase como respostas cinematográficas diferentes para a mesma pergunta: até onde vai a ingenuidade de quem acredita estar ajudando um país estrangeiro e quando essa suposta ajuda começa a produzir consequências que ninguém consegue controlar?
Ficha técnica
“O Americano Tranquilo” | “The Quiet American” (título original)
Gênero: drama, romance, suspense e guerra. Duração: 122 minutos. Classificação indicativa: não informada no Brasil; produção originalmente classificada como Approved nos Estados Unidos. Ano de produção: 1958. Data de lançamento: 8 de fevereiro de 1958, nos Estados Unidos. Idiomas: inglês, francês e vietnamita. Direção: Joseph L. Mankiewicz. Roteiro: Graham Greene (romance) e Joseph L. Mankiewicz; Edward Lansdale colaborou sem crédito. Elenco: Audie Murphy, Michael Redgrave, Claude Dauphin, Giorgia Moll, Bruce Cabot, Fred Sadoff, Kerima e Richard Loo. Distribuição no Brasil: Belas Artes à La Carte, em estreia na plataforma. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.
Gênero: drama, romance, suspense e guerra. Duração: 122 minutos. Classificação indicativa: não informada no Brasil; produção originalmente classificada como Approved nos Estados Unidos. Ano de produção: 1958. Data de lançamento: 8 de fevereiro de 1958, nos Estados Unidos. Idiomas: inglês, francês e vietnamita. Direção: Joseph L. Mankiewicz. Roteiro: Graham Greene (romance) e Joseph L. Mankiewicz; Edward Lansdale colaborou sem crédito. Elenco: Audie Murphy, Michael Redgrave, Claude Dauphin, Giorgia Moll, Bruce Cabot, Fred Sadoff, Kerima e Richard Loo. Distribuição no Brasil: Belas Artes à La Carte, em estreia na plataforma. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.
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