quinta-feira, 22 de outubro de 2026

.: Manual Crônico: A praça, o homem de bronze e o outro homem


Thiago Sobral é escritor e autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", publicado pela Editora Patuá. Também publica semanalmente a coluna "Ao rés-do-chão" no Substack.


Em minha aldeia, há uma praça. Muitos nem percebem, mas, em minha aldeia, há uma praça e nela, há uma estátua. E como muitos mal ou nem percebem, em minha aldeia, há uma estátua que fica numa praça.

Essa praça serve de passagem para aqueles que cruzam a avenida, depois de ladear a Matriz, para alcançarem a Prefeitura na rua de trás. E muitos que chegam à Prefeitura na rua de trás nem percebem que, no meio do caminho, há uma praça e que nela mora uma estátua.

Essa estátua que mora na praça é de um homem. Talvez essa estátua de um homem seja — ou tenha sido — de bronze, embora o homem, quando era de carne, tenha sentido dor, mas não se deixou desatinar por ela.

Esse homem, antes de ser estátua, foi poeta, foi soldado, foi amante, foi menino. Esse menino recebeu nos lábios o seio de sua mãe, que o alimentou e fez dele um ser de carne, amante, soldado, poeta e, por fim, estátua talvez de bronze — que foi parar numa praça de minha aldeia.

Os homens e mulheres e meninos de minha aldeia são de carne. Seus olhos embaçados de fuligem e fumaça correm pelas ruas e não chegam a alcançar o homem de bronze. E, por não o alcançarem, não sabem como se chama.

Do mesmo modo, é provável que não saibam como se chama a praça pela qual passam diariamente. Por certo, o tal homem, que emprestou as formas à estátua de bronze fincada na praça, tem alguma relação com o nome da praça. Os homens de carne da minha aldeiam não desconfiam disso. Mas sei que ambos se referem à Lusitânia, pois um dia passaram por mares nunca dantes navegados e por cá aportaram.

Também nós aportamos por estas terras há algum tempo. Espremidos entre a serra e o mar, disputamos espaço com as fábricas e chaminés. E, ainda que haja, no centro da cidade, uma praça e um homem que vieram de sotaques distantes, o cantar das falas que por aqui se ouve traz outro tom. O tom das terras do nordeste, quentes e fervorosas, que sempre salvam a nação.

O homem de bronze que está na praça e que um dia foi de carne lutou e foi prisioneiro, nadou e escreveu versos. Os homens que aqui vivem, um dia migraram e ergueram estradas, trabalharam e construíram fábricas. E um desses homens, ébrio de paixão e talvez cachaça, caminheiro numa noite abafada, reparou no homem de bronze da praça. Diante dele, calou-se, de Alexandre e de Trajano, a fama das vitórias que tiveram, pois o homem daqui queria falar. E falou ao homem que um dia fora de carne e que agora está na praça:

— Caraio, um gigante de ouro! — Os olhos arregalados, lançados para cima, fitaram a estátua da praça.

Alguns segundos de silêncio. Uma genuflexão, mãos no peito e depois postas. Dedo na testa, no peito, ombro esquerdo, direito, beijinho na lateral do indicador dobrado. Os homens, agora, ficaram de pé.

— Ela vai voltar, não vai? Traz ela pra mim, meu santinho! — O homem de baixo suplicou.

Deu alguns passos para trás, sem tirar os olhos da estátua. Depois, virou-se para o lado da Prefeitura e seguiu seu caminho. Por certo sentia que a vida é um andar solitário entre a gente, pois, distante de sua amada, transforma-se o amador na cousa amada, por virtude do muito imaginar. E imaginou. E imaginamos.

Pois aqui, ainda que nossas armas e barões não sejam assinalados, somos terra onde canta o coração, onde vivem as paixões, ainda que não reconheçamos o poeta.

Queria eu reconhecer o amador que se encaminhou em direção à Prefeitura, saber de sua amada, saber o seu nome. Mas não pude… Restou-me saber os outros nomes: o da praça, Portugal; o da estátua de bronze, Luís de Camões; e o da minha aldeia, Cubatão.
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