Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no Substack. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", publicado pela Editora Patuá.
Chave no contato. Giro. Partida. Dedo no botão: a Partida. Quinze, dezesseis minutos em que sou forçado a recriar na mente quatro linhas, círculo e semicírculos, traves, bola, toques, dribles, cabeçadas e chutes, que são desenhados no ar por alguém que não sei exatamente quem é. Tudo bem que os dribles não estão mais tão na moda assim, mas desejo muito imaginá-los. Caso contrário, qual seria a graça?
Há muito larguei as discussões acaloradas sobre o futebol. Há muito abandonei os gramados e talvez seja por isso que o hexa nunca vem. E há muito não ouvia uma partida pelo rádio. Ao colocar o dedo no botão, o jogo estava um a zero para nós. E os míseros quinze, dezesseis minutos de trajeto entre a escola, no fim do expediente noturno, e minha casa alojaram em meus ouvidos a nostalgia dos anos noventa.
Enquanto dirigia, o time adversário empatou. Diz o homem que desenhava as palavras no ar que Dairon Asprilla havia feito um golaço. Acreditei, incrédulo de meu pé-frio. Digo pé-frio porque me bailou na mente a última transmissão futebolística de rádio de que tenho memória. Não informo o time pelo qual torço por questão de privacidade. Mas o amigo vai entender.
O ano era 1998. E quem conheceu 98 sabe que a coisa não foi lá muita coisa para nós… Não só nós, mas todos nós (Zidane que o diga). Por pouco, não nos igualamos ao futuro, quando os alemães se fizeram em todos nós — não apenas em nós. Minha criança de dez anos ouviu aquela partida com olhos empoçados, imaginando cada um dos sete tentos lusitanos como marteladas no meu pequeno coração torcedor. No dia seguinte, o Globo Esporte calcificou minha imaginação para sempre.
Eis o ponto! A partida do presente levou-me à partida do passado, e as emoções se tornaram uma só. O coração acelerado ouviu o apito estridente e o desenhista das palavras no ar anunciar o pênalti. Foi? Não foi? A mão no câmbio do carro e a segunda entrou rasgando. Jonathan Calleri bateu no alto. Grito! Mão no câmbio novamente: a terceira deslizou. A imaginação cumpriu seu trabalho.
Melancolia do passado. Euforia do presente. Tudo construído através das palavras desenhadas pelas ondas sonoras, sentimento no ar. Não sei se bom ou ruim. Sei apenas que os meninos de dez anos de hoje talvez não terão essa chance, lá na frente. Porque o que há são imagens e cortes, canais e streamings. O palco é das telas. E o serviço está feito.
Só resta torcer.
Torcer como torceu o garotinho na final de 98, na França. Torcer e chorar como o menino que viu os lusos Émerson, César, Leandro, Carlinhos, Evandro, Ricardo Lopes e Da Silva alcançarem o número perfeito, ainda que enganado pelos tricolores Serginho e Marcelinho. Ou mesmo, como torceu o homem de hoje, ao ouvir novamente as palavras desenhadas no ar pelo locutor.
O jogo de agora teve um desfecho melhor: três a um e a nossa classificação para a próxima fase. Dessa vez, não recorri ao Globo Esporte para calcificar a imaginação. Preferi ficar com as palavras desenhadas no ar por alguém que não sei exatamente quem é.













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