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terça-feira, 3 de novembro de 2026

.: Documentário impressionante registra vida de Fatma Hassouna sob as bombas


Documentário de Sepideh Farsi acompanha por videochamadas a rotina de uma fotojornalista palestina em Gaza e ganha outro significado após a morte da jovem

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Com a impossibilidade de entrar em Gaza, a cineasta iraniana Sepideh Farsi encontrou no celular uma maneira de se aproximar de quem vivia sob os bombardeios. Foi assim que conheceu Fatma Hassouna, jovem fotojornalista palestina que passou a registrar para Farsi o cotidiano de uma população submetida à guerra. Durante mais de 200 dias, as duas mantiveram contato por videochamadas, trocando imagens, fotografias, mensagens e impressões sobre uma realidade marcada pela destruição.

O resultado dessa relação está em “Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe”, documentário que chega à plataforma Reserva Imovision. A produção acompanha Fatma entre conversas pela internet e imagens que ela própria registrava em Gaza, enquanto Farsi, do outro lado da tela, tentava manter aberta uma ligação com uma jovem que se tornou os olhos dela naquela região. O formato, aparentemente limitado pelas telas de celulares e pela precariedade das conexões, acaba incorporando ao filme a própria distância física entre as duas.

Fatma fala sobre fotografia, família, alimentação, sonhos e sobre a vontade de conhecer outros lugares. Ao mesmo tempo, relata os efeitos dos ataques que atingem a região e fotografa os escombros ao redor de onde vive. O filme alterna a convivência entre a brutalidade da guerra e os momentos cotidianos das conversas e aproxima o público da experiência de Fatma por meio de assuntos que vão dos bombardeios e das mortes de familiares a poesia, café, roupas e esperanças pessoais.

A câmera de Farsi também permanece consciente da própria posição dela. Muitas imagens são feitas a partir da tela de outro celular, enquanto televisores ligados ao fundo exibem notícias do conflito. A precariedade do sinal, os congelamentos da imagem e o áudio irregular passam a integrar a experiência de assistir ao documentário. Em uma das conversas, quando Farsi manifesta a angústia por não conseguir ajudar a amiga, Fatma responde que o simples fato de ela estar ali, ouvindo, já significa alguma coisa. 

A trajetória de Farsi também ajuda a compreender a proximidade entre as duas. Nascida no Irã e radicada em Paris, a cineasta deixou seu país ainda jovem e construiu uma carreira que inclui documentários, ficção e animação. A filmografia dela é marcada pelo interesse por conflitos políticos e pelas experiências de pessoas submetidas a situações de violência e deslocamento.

O filme foi selecionado para a mostra ACID do Festival de Cannes de 2025. A notícia chegou a Fatma em 15 de abril daquele ano. No dia seguinte, ela foi morta, aos 25 anos, junto de familiares, em um ataque israelense contra sua casa, segundo a produtora do filme e o Instituto Moreira Salles. A circunstância altera profundamente a percepção do material registrado durante os meses anteriores: aquelas conversas passam a constituir também o registro de uma vida que foi interrompida.

A morte de Fatma aconteceu antes da estreia em Cannes, mas o documentário preserva sua presença em momentos que vão muito além da condição de vítima de uma guerra. Ela aparece como fotógrafa, jovem apaixonada pelo que fazia, mulher com planos para o futuro e alguém que ainda encontrava espaço para sorrir diante da câmera. É um filme pensado como retrato de uma jovem que também passa a carregar a dimensão de uma despedida.

A escolha estética de Sepideh Farsi dispensa uma estrutura convencional de reportagem. As imagens produzidas por Fatma, os registros feitos pela diretora e as chamadas virtuais constroem um documento marcado pela intimidade. É uma janela para a vida em Gaza durante os bombardeios, realizada a partir das conversas entre as duas. O filme também ganhou reconhecimento em festivais internacionais. Entre as premiações estão o prêmio de Melhor Documentário no Arab Film Festival e o Gold Hugo de Melhor Documentário no Chicago International Film Festival, além de outras seleções e indicações.

“Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe” mantém aberta a conversa entre Sepideh Farsi e Fatma Hassouna. O celular, que poderia ser apenas uma limitação diante da distância, torna-se o instrumento que permite preservar a voz, o rosto e as imagens de uma jovem fotojornalista que continuou fotografando enquanto tentava sobreviver em Gaza.


Ficha técnica
“Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe” | “Put Your Soul on Your Hand and Walk” (título original) | “Com a Alma na Mão, Caminha” (título em Portugal)
Gênero: documentário. Duração: 110 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2025. Data de lançamento: 15 de maio de 2025, no Festival de Cannes; lançamento comercial francês em 24 de setembro de 2025. Idioma: árabe, francês e inglês. Direção e roteiro: Sepideh Farsi. Elenco: Fatma Hassouna e Sepideh Farsi. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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segunda-feira, 26 de outubro de 2026

.: “Prazeres Desconhecidos”: a juventude perdida na China em transformação


Longa-metragem de Jia Zhangke acompanha dois jovens desempregados em Datong e registra, com humor seco e olhar documental, os desejos, frustrações e contradições de uma geração diante da modernização chinesa

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Dois jovens desempregados passam os dias andando de moto, jogando conversa fora, assistindo televisão e tentando descobrir o que fazer da própria vida. Em meio a uma China que acelera rumo à modernização, Xiao Ji (Wu Qiong) e Bin Bin (Zhao Weiwei) parecem ter ficado para trás. É desse aparente vazio que Jia Zhangke constrói “Prazeres Desconhecidos”, longa-metragem que chega à plataforma de streaming Reserva Imovision.

Terceiro longa dirigido pelo cineasta chinês, o filme acompanha os dois amigos em Datong, cidade industrial da província de Shanxi, durante 2001. O cenário ajuda a contar a história tanto quanto os personagens: prédios degradados, ruas em obras, fábricas, motocicletas, bares, karaokês e televisores ligados registram uma sociedade que começa a experimentar novas possibilidades econômicas e culturais. 

Xiao Ji se interessa por Qiao Qiao (Zhao Tao), cantora e dançarina que trabalha como garota-propaganda de uma empresa de bebidas alcoólicas. O problema atende pelo nome de Qiao San (Li Zhubin), namorado da moça, um sujeito envolvido com atividades criminosas e pouco disposto a aceitar a aproximação do rapaz. Bin Bin, por sua vez, vive uma relação cada vez mais distante com Yuan Yuan (Zhou Qingfeng), jovem que pretende deixar Datong para estudar comércio internacional em Pequim.

Enquanto os dois amigos perambulam pela cidade, a televisão anuncia acontecimentos que parecem pertencer a outro universo: a entrada da China na Organização Mundial do Comércio, a candidatura de Pequim aos Jogos Olímpicos de 2008, acontecimentos políticos e episódios de violência. A vida particular dos personagens segue em outra velocidade, quase como se eles assistissem ao próprio país avançar pela tela sem saber muito bem onde se encaixar. O filme registra uma geração influenciada pela televisão, pela cultura pop ocidental e pelo desejo de consumo, mas que ainda vive cercada por estruturas sociais e econômicas bastante precárias. 

O título original, “Ren Xiao Yao”, remete a um conceito associado ao filósofo taoista Zhuangzi e pode ser compreendido como uma ideia de liberdade diante das restrições. A expressão também aparece ligada a uma canção pop bastante conhecida entre os jovens chineses naquele período. O curioso é que a busca por liberdade dos personagens frequentemente esbarra em dívidas, desemprego, relacionamentos complicados, violência e falta de perspectivas. O prazer anunciado pelo título está sempre por perto, mas raramente ao alcance deles.

A relação com a cultura norte-americana aparece de maneira divertida e, ao mesmo tempo, reveladora. “Pulp Fiction”, de Quentin Tarantino, é citado pelos personagens, enquanto filmes, músicas, televisão e produtos estrangeiros compõem o imaginário de Xiao Ji e Bin Bin. Jia não trata essas referências como simples decoração: elas ajudam a mostrar como uma juventude de uma cidade provincial passa a construir seus desejos a partir de imagens vindas de um mundo muito maior.

A produção também guarda uma particularidade importante. “Prazeres Desconhecidos” foi o primeiro longa de Jia Zhangke filmado em vídeo digital. Segundo informações de produção reunidas pelo próprio diretor, a opção estava ligada às limitações de orçamento e tempo. O filme foi rodado em apenas 19 dias, e a câmera digital permitiu maior mobilidade para acompanhar as ruas de Datong.

A escolha estética combina com a história. Jia observa os personagens a uma certa distância, deixa as situações se desenvolverem e evita conduzir o espectador pela mão. Em vez de transformar cada conflito em grande acontecimento dramático, acompanha o cotidiano de pessoas que parecem não saber muito bem para onde ir. “Prazeres Desconhecidos” também encerra uma fase da carreira de Jia Zhangke. O longa é frequentemente associado a uma trilogia informal formada por “Xiao Wu”, “Plataforma” e este filme, dedicada a observar diferentes momentos de uma China em processo acelerado de mudança. A partir de “The World”, de 2004, o diretor passou a trabalhar dentro do sistema oficial de produção cinematográfica chinês.


Ficha técnica
“Prazeres Desconhecidos” | “Ren Xiao Vao” (título original)
Gênero: comédia dramática. Duração: 113 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2002. Data de lançamento no Brasil: 23 de outubro de 2026. Idioma: mandarim. Direção: Jia Zhangke. Roteiro: Jia Zhangke. Elenco: Zhao Weiwei, Wu Qiong, Zhao Tao, Zhou Qingfeng, Wang Hongwei, Bai Ru, Liu Xi'an e Li Zhubin. Distribuição no Brasil: Imovision, pela plataforma Reserva Imovision. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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sexta-feira, 23 de outubro de 2026

.: Confusões familiares e aposentadoria dão o tom de “Querendo ou Não"


Comédia italiana de Gianni Di Gregorio chega à Reserva Imovision depois de passar pelo Festival de Veneza e observa, com humor delicado, os incômodos e afetos que acompanham a vida em família

Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Um professor aposentado na casa dos 70 anos finalmente conquistou aquilo que imaginava ser uma espécie de prêmio pela passagem dos anos: uma vida organizada segundo os próprios interesses. Em “Querendo ou Não”, que estreia na plataforma de streaming Reserva Imovision, o ator e diretor Gianni Di Gregorio interpreta esse homem que encontrou prazer na rotina tranquila, entre amigos, leituras, escritos que avançam devagar e uma existência sem grandes sobressaltos. O problema é que família, como se sabe, costuma ter pouca consideração pelos planejamentos alheios.

A tranquilidade do professor muda quando sua filha Sofia (Greta Scarano) retorna da Alemanha depois de descobrir a traição do marido, Helmut (Tom Wlaschiha). Ela chega acompanhada dos dois filhos, Olga e Tommaso, e instala na casa do pai uma confusão que altera seus hábitos, sua privacidade e até a maneira como ele passa a enxergar os próprios dias. Dirigido por Di Gregorio, que também assina o roteiro ao lado de Marco Pettenello, o filme acompanha esse rearranjo familiar com humor discreto. 

A situação poderia facilmente escorregar para a comédia de conflitos domésticos, mas o cineasta prefere observar os personagens em suas pequenas contradições. O professor gosta da liberdade que tem, mas também se intromete na vida alheia quando lhe interessa. Sofia está fragilizada pela crise conjugal, mas nem por isso deixa de ser exigente. Os netos chegam como uma pequena força da natureza. Helmut, arrependido, tenta reconstruir a relação percorrendo um caminho bastante peculiar da Alemanha até Roma.

A premissa tem uma particularidade interessante: o homem que imaginava ter finalmente conquistado o direito de administrar o próprio tempo descobre que a aposentadoria, para os outros, pode significar exatamente o contrário. Quando Sofia lembra ao pai que ele é aposentado, a frase aparentemente banal carrega uma dose considerável de ironia. O trabalho confere uma espécie de legitimidade social aos compromissos, enquanto aquilo que alguém escolhe fazer por prazer pode ser tratado como tempo disponível para resolver problemas familiares.

Esse aspecto aproxima “Querendo ou Não” de uma tradição do cinema italiano interessada em encontrar humor nas pequenas engrenagens da convivência. Di Gregorio não precisa inventar grandes acontecimentos para movimentar a narrativa. A casa cheia, uma rotina interrompida, uma conversa atravessada ou a necessidade de dividir novamente espaços que pareciam definitivamente particulares já bastam para provocar situações engraçadas. O filme mantém essa atenção aos personagens comuns e aos pequenos embaraços da existência.

O romance também aparece nessa equação. O professor demonstra interesse por uma mulher e se permite flertar, lembrar que ainda existe desejo e imaginar uma possibilidade de relacionamento. A abordagem é discreta, sem transformar a velhice em sinônimo de ausência de interesse amoroso. Nesse ponto, o filme ganha uma conversa peculiar com outras produções recentes que colocam personagens mais velhos no centro de histórias de amor e desejo.Talvez exista, na comédia de Di Gregorio, alguma sabedoria nessa inconveniente matemática doméstica: certas coisas simplesmente chegam, ocupam espaço e nos obrigam a recalcular a rota.


Ficha técnica
“Querendo ou Não” | “Come Ti Muovi, Sbagli” (título original)
Gênero: comédia. Duração: 97 min. Classificação indicativa: 12 anos. Ano de produção: 2025. Data de lançamento no Brasil: 22 de outubro de 2026, na Reserva Imovision. Idiomas: italiano e alemão. Direção: Gianni Di Gregorio. Roteiro: Gianni Di Gregorio e Marco Pettenello. Elenco: Gianni Di Gregorio, Greta Scarano, Tom Wlaschiha, Iaia Forte, Anna Losano, Pietro Serpi e Alessandro Bedetti. Distribuição no Brasil: Imovision. Cenas pós-créditos: não identificadas nas fontes consultadas. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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sexta-feira, 9 de outubro de 2026

.: "Nós Acreditamos em Vocês" coloca a Justiça diante da palavra de uma mãe


Drama belga de Charlotte Devillers e Arnaud Dufeys, premiado na Berlinale, acompanha uma audiência de guarda marcada por acusações de violência sexual e chega com exclusividade à Reserva Imovision

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Alice chega ao tribunal sabendo que qualquer palavra pode interferir no destino dos filhos. A guarda das crianças está em discussão, o ex-marido está diante dela e a mãe precisa sustentar, perante uma juíza, a decisão de protegê-las. É a situação central de "Nós Acreditamos em Vocês" ("On vous croit"), drama belga dirigido por Charlotte Devillers e Arnaud Dufeys que estreia exclusivamente na plataforma Reserva Imovision nesta sexta-feira, dia 9 de outubro. O filme foi lançado nos cinemas brasileiros em julho, pela Filmes do Estação, e retorna agora ao streaming depois de conquistar espaço em festivais internacionais.

Myriem Akheddiou interpreta Alice, personagem que concentra praticamente toda a tensão da narrativa. Conhecida por trabalhos como "Titane" e pela colaboração com os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, a atriz divide o elenco com Laurent Capelluto, no papel do pai, e Natali Broods, como a juíza. Ulysse Goffin e Adèle Pinckaers completam o núcleo familiar, respectivamente como Etienne e Lila. A direção e o roteiro são assinados por Devillers e Dufeys, que realizam aqui o primeiro longa-metragem da carreira conjunta.

O ponto de partida é uma audiência de família na qual Alice tenta impedir que os filhos voltem a ficar sob os cuidados do pai, acusado de violência sexual contra uma das crianças. A mãe precisa apresentar sua versão diante de advogados e da magistrada, enquanto sua própria conduta passa a ser examinada pelo sistema judicial. O filme acompanha esse embate durante uma manhã e mantém a narrativa praticamente confinada ao ambiente do tribunal, fazendo da burocracia, dos questionamentos e das respostas uma fonte contínua de tensão.

A escolha formal é decisiva para esse efeito. "Nós Acreditamos em Vocês" foi realizado no formato 4:3, com enquadramentos próximos dos rostos, especialmente o de Myriem Akheddiou. Charlotte Devillers explicou que o formato surgiu também da necessidade de trabalhar com recursos reduzidos e que o rosto de Alice se tornou uma espécie de paisagem principal da produção. A diretora e Arnaud Dufeys queriam deixar espaço para a atuação e para a sensação de que aquela audiência estava acontecendo diante do espectador.

Uma das características mais particulares da produção está na extensa cena de audiência. Segundo a entrevista concedida por Akheddiou ao AlloCiné, a sequência principal tem cerca de 55 minutos e foi filmada em uma tomada, com três câmeras. A atriz também enfrentou um monólogo de aproximadamente 25 minutos, exigência que ajudou a transformar a interpretação de Alice no eixo físico e emocional da produção.

O resultado é um drama de tribunal que evita transformar a acusação em mero recurso para produzir reviravoltas. Os diretores concentram a atenção na maneira como uma mãe precisa organizar sua fala enquanto enfrenta perguntas, objeções e procedimentos jurídicos. A estrutura também coloca o espectador numa posição desconfortável, porque a dúvida institucional passa a disputar espaço com aquilo que Alice afirma estar tentando impedir: que os filhos sejam novamente expostos ao homem que ela acusa.

A origem do projeto ajuda a entender essa escolha. Charlotte Devillers é enfermeira e teve contato profissional com questões relacionadas à saúde sexual e a vítimas de violência. Em entrevistas, ela e Dufeys relatam que pesquisaram o funcionamento da Justiça e conversaram com vítimas e profissionais antes de desenvolver o roteiro. A preocupação dos realizadores era compreender o desgaste de mães que chegam às instituições depois de longos períodos tentando proteger os filhos e precisam, ainda assim, explicar repetidamente suas decisões.

O filme também ganhou atenção pela maneira como utiliza atores profissionais ao lado de pessoas ligadas ao universo jurídico. As advogadas Alisa Laub e Marion de Nanteuil, que atuam na defesa da proteção infantil na Bélgica, participam da produção, assim como Mounir Bennaoum no papel do advogado das crianças. Devillers contou que o texto destinado aos advogados recebeu tratamento diferente durante as filmagens: eles receberam as ideias centrais e puderam desenvolver seus argumentos durante a longa cena da audiência.

A repercussão internacional começou na Berlinale 2025, onde "On vous croit" participou da seção Perspectives e recebeu uma Menção Especial do júri na categoria de primeiro longa-metragem. O reconhecimento oficial da Berlinale confirma a distinção, concedida ao filme dirigido por Charlotte Devillers e Arnaud Dufeys.

A trajetória posterior ampliou a recepção da produção. "Nós Acreditamos em Vocês" acumulou premiações em festivais e, posteriormente, conquistou seis troféus na primeira edição do prêmio René du Cinéma, entre eles Melhor Filme e Melhor Direção. A atuação de Myriem Akheddiou também recebeu reconhecimento em diferentes festivais, reforçando a posição da atriz como principal força interpretativa da produção.

O título ganha sentido completo quando a audiência chega ao fim. "Nós Acreditamos em Vocês" se refere diretamente à necessidade de reconhecer a palavra de vítimas de violência e, ao mesmo tempo, expõe a distância entre o que uma pessoa vive e aquilo que precisa ser traduzido para dentro de uma estrutura jurídica. A produção encontra sua força justamente nessa fricção: Alice precisa falar, explicar, responder e insistir enquanto tenta impedir que a proteção dos filhos seja tratada como uma questão secundária.

Com 78 minutos, fotografia de Pépin Struye, montagem de Nicolas Bier, direção de arte de Mathilde Lejeune e música de Lolita Del Pino, "Nós Acreditamos em Vocês" constrói uma experiência concentrada, sustentada pela atuação de Myriem Akheddiou e pela decisão de manter o espectador dentro daquela audiência durante praticamente toda o filme.

Ficha técnica
"Nós Acreditamos em Vocês" | "On Vous Croit" (título original) | "Acreditamos em Ti" (título em Portugal)
Gênero: drama. Duração: 78 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2025. Idioma: francês. Direção: Charlotte Devillers e Arnaud Dufeys. Roteiro: Charlotte Devillers e Arnaud Dufeys. Elenco: Myriem Akheddiou, Laurent Capelluto, Natali Broods, Ulysse Goffin, Adèle Pinckaers, Alisa Laub, Marion de Nanteuil e Mounir Bennaoum. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.



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quarta-feira, 7 de outubro de 2026

.: “As Cores do Tempo” recupera história de família e aproxima 1895 de 2025


Filme de Cédric Klapisch  chega à Reserva Imovision depois de passagem pelos cinemas brasileiros e pelo 2º Festival de Cinema Europeu Imovision

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Uma casa abandonada na Normandia, fotografias antigas, objetos esquecidos e uma mulher que deixou sua terra natal em 1895 são os pontos de partida de “As Cores do Tempo”, novo filme de Cédric Klapisch, que estreia na Reserva Imovision nesta quinta-feira, dia 8 de outubro. Depois de dez semanas nos cinemas brasileiros e da participação no 2º Festival de Cinema Europeu Imovision, a produção franco-belga chega ao streaming da distribuidora para reencontrar o público em uma história que aproxima duas épocas e transforma uma investigação familiar em uma espécie de viagem pela memória.

Na trama, quatro primos distantes recebem uma herança inesperada: uma antiga casa que permanece intocada desde os anos 1940. Seb, Guy, Céline e Abdel são encarregados de examinar o imóvel e acabam encontrando fotografias, cartas, pinturas e outros vestígios ligados a Adèle, ancestral que viveu naquele lugar. Aos 20 anos, ela deixou a Normandia e partiu para Paris, onde entrou em contato com uma cidade em plena transformação cultural e tecnológica. A investigação dos descendentes estabelece uma ponte com 1895, período em que a fotografia ganhava força e o impressionismo modificava profundamente a pintura. O próprio Festival de Cannes, onde o filme foi exibido fora de competição, descreve a estrutura como um movimento entre 1895 e 2025 a partir dos vestígios encontrados na casa.

Suzanne Lindon interpreta Adèle e divide o elenco com Abraham Wapler, Vincent Macaigne, Julia Piaton, Zinedine Soualem, Paul Kircher, Vassili Schneider, Sara Giraudeau e Cécile de France. Olivier Gourmet aparece como Claude Monet, enquanto Fred Testot interpreta Félix Nadar. A produção ainda reúne François Berléand como Victor Hugo e Philippine Leroy-Beaulieu como Sarah Bernhardt, entre outras participações. A escalação chama atenção pela presença de vários nomes ligados a famílias conhecidas do cinema francês, questão que chegou a provocar comentários na imprensa especializada e foi respondida pelo próprio Klapisch durante a divulgação do filme.

A presença de Suzanne Lindon, filha dos atores Vincent Lindon e Sandrine Kiberlain, ganhou um capítulo próprio na trajetória do filme. A atriz foi indicada ao César 2026 na categoria de Melhor Revelação Feminina, enquanto “As Cores do Tempo” também concorreu nas categorias de Melhor Direção de Arte, para Marie Cheminal, e Melhor Figurino, para Pierre-Yves Gayraud. O Centro Nacional do Cinema da França confirmou as três indicações.

Klapisch assina a direção e o roteiro ao lado de Santiago Amigorena. Conhecido por construir histórias em torno de relações humanas, juventude e mudanças de fase, o cineasta encontra aqui uma maneira particularmente visual de trabalhar esses temas. A Paris do fim do século XIX aparece ligada à fotografia, à pintura e aos artistas que ajudaram a construir a imagem moderna da cidade. Claude Monet, Victor Hugo, Sarah Bernhardt, Félix Nadar, Paul Cézanne, Pierre-Auguste Renoir, Édouard Manet, Camille Pissarro e Alfred Sisley estão entre as figuras históricas incorporadas à narrativa.

A proposta também explica o título. As cores do tempo aparecem nas pinturas, nas fotografias e na própria maneira como o filme coloca passado e presente em relação. As duas épocas acabam funcionando como espelhos para personagens que, inicialmente, se encontram por obrigação e passam a compreender melhor suas próprias histórias à medida que investigam a trajetória de Adèle. Algumas avaliações internacionais destacaram justamente a forma como Klapisch aproxima a vida cotidiana do século XIX da experiência contemporânea, enquanto outras apontaram um ritmo deliberadamente sereno e uma inclinação sentimental que pode dividir o público.

Essa mistura de memória, família e arte também está no centro da recepção do filme. Críticas e comentários reunidos no IMDb destacam a fotografia, a reconstituição de Paris e a atuação de Suzanne Lindon, além da passagem entre 1895 e 2025. Há quem veja na produção uma reflexão delicada sobre a relação entre gerações e sobre a maneira como a arte pode modificar a percepção da própria vida; outros consideram que algumas ideias são explicadas de forma excessiva e que a duração poderia ser menor. A variedade de leituras combina com um filme interessado justamente em observar como diferentes pessoas olham para as mesmas lembranças.

O resultado é uma produção que usa uma herança familiar como porta de entrada para um período decisivo da cultura francesa. A casa esquecida, os objetos guardados durante décadas e a trajetória de Adèle dão aos personagens do presente a possibilidade de conhecer uma mulher que viveu em outro mundo, mas que deixou marcas capazes de chegar até eles. Ao aproximar os dois períodos, Klapisch encontra no cinema, na fotografia e na pintura instrumentos para falar daquilo que permanece quando as pessoas e as cidades mudam.

Para quem perdeu “As Cores do Tempo” nos cinemas ou deseja revê-lo, a chegada à Reserva Imovision amplia o percurso de um dos títulos franceses apresentados pela distribuidora em 2026. O filme participou do 2º Festival de Cinema Europeu Imovision, realizado entre 23 e 29 de abril, e integrou a seleção francesa ao lado de produções como “O Grande Arco de Paris”, “A Divina Sarah Bernhardt” e “E Seus Filhos Depois Deles”.


Ficha técnica
“As Cores do Tempo” | “La Venue de l’avenir” (título original)
Gênero: comédia dramática, drama e romance. Duração: 124 minutos. Classificação indicativa: 14 anos - contém conteúdo sexual, drogas e nudez. Ano de produção: 2025. Data de lançamento no Brasil: 30 de julho de 2026 nos cinemas. Idioma: francês. Direção: Cédric Klapisch. Roteiro: Cédric Klapisch e Santiago Amigorena. Elenco: Suzanne Lindon, Abraham Wapler, Vincent Macaigne, Julia Piaton, Zinedine Soualem, Paul Kircher, Vassili Schneider, Sara Giraudeau, Cécile de France, Olivier Gourmet, Claire Pommet (Pomme), Fred Testot, François Berléand, Philippine Leroy-Beaulieu, entre outros. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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terça-feira, 6 de outubro de 2026

.: Doc “Orlando, Minha Biografia Política” é Virginia Woolf em carta sobre gênero


Filme de Paul B. Preciado chega à Reserva Imovision quase um século depois de Virginia Woolf criar Orlando e reúne 26 pessoas trans e não binárias para reinventar o personagem

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Em 1928, Virginia Woolf publicou “Orlando”, romance em que o personagem principal muda de sexo no decorrer da história e atravessa diferentes épocas sem envelhecer da maneira convencional. Quase um século depois, o filósofo, escritor e ativista trans Paul B. Preciado responde à autora com cinema. Em “Orlando, Minha Biografia Política”, ele escreve uma carta filmada para Woolf e avisa que seu personagem saiu das páginas do livro para ganhar corpo, voz e experiências no mundo contemporâneo.

A produção francesa, que chega à plataforma de streaming Reserva Imovision, foi o primeiro filme dirigido por Preciado e construiu uma trajetória de destaque no circuito internacional de festivais. Em 2023, na Berlinale, recebeu o Teddy Award de Melhor Documentário, o Prêmio Especial do Júri da mostra Encounters, além de outras distinções. No Brasil, também conquistou o Prêmio Félix de Melhor Documentário no Festival do Rio e o Prêmio do Público de Melhor Longa-Metragem Internacional no Festival MixBrasil.

A ideia surgiu de uma proposta da ARTE France, rede pública de televisão e mídia franco-alemã, inicialmente interessada em um documentário sobre a trajetória de Preciado. Ele recusou fazer uma autobiografia convencional e sugeriu uma adaptação de “Orlando: Uma Biografia”, de Virginia Woolf. A brincadeira acabou virando filme. A partir daí, Preciado organiza um teste de elenco e reúne 26 pessoas trans e não binárias, de oito a 70 anos, para interpretar Orlando. 

O personagem deixa de pertencer a uma única pessoa e passa a existir em diferentes corpos, idades e experiências. Entre os participantes estão o próprio Preciado, Oscar S. Miller, Janis Sahraoui, Liz Christin, Elios Levy, Victor Marzouk, Kori Ceballos, Vanasay Khamphommala, Ruben Rizza, Julia Postollec, Amir Baylly, Naëlle Dariya, Jenny Bel'Air, Emma Avena, Lillie, Arthur, Eleonore, La Bourette, Noam Iroual, Iris Crosnier e Clara Deshayes.

O resultado mistura documentário, reconstituição, performance, autobiografia e adaptação literária. Em vez de simplesmente ilustrar o romance, Preciado cria uma relação direta entre a experiência de Orlando e as histórias daqueles que o interpretam. Os participantes falam de suas próprias vidas, enquanto também assumem as palavras e situações do personagem criado por Woolf.

É nessa combinação que o filme encontra sua personalidade. A literatura aparece como ponto de partida, mas as experiências contemporâneas modificam o sentido do personagem. As vozes individuais formam uma espécie de Orlando coletivo, capaz de conectar questões de identidade, gênero, corpo, documentação, psiquiatria, memória e reconhecimento social. O filme também recupera imagens e referências históricas relacionadas às experiências de pessoas trans ao longo do século XX. Preciado amplia, assim, a dimensão temporal do romance de Woolf: o Orlando que atravessa os séculos deixa de ser apenas uma invenção literária e passa a funcionar como uma figura capaz de reunir diferentes histórias de transformação.

A relação com Virginia Woolf permanece no centro da proposta. “Orlando” foi publicado em 1928 e acompanha um aristocrata inglês que, depois de viajar à Turquia, acorda transformado em mulher. A personagem continua vivendo ao longo dos séculos, enquanto o romance brinca com identidade, tempo, literatura e convenções sociais. Preciado parte justamente dessa liberdade para construir sua própria leitura do livro.

No filme, a separação entre depoimento e representação também perde importância. Uma pessoa pode falar de sua própria experiência e, no instante seguinte, assumir Orlando. A literatura se mistura à vida cotidiana; referências históricas convivem com situações atuais; a teatralidade divide espaço com relatos pessoais. O dispositivo deixa evidente que a identidade também pode ser narrada, encenada, reinventada e questionada.

Essa escolha aproxima “Orlando, Minha Biografia Política” de uma tradição de cinema ensaístico em que o realizador usa a própria experiência para investigar uma questão coletiva. Preciado, porém, desloca o centro da autobiografia. Sua história está presente, mas Orlando pertence a muitas pessoas. O filme ganha força justamente quando deixa de procurar uma única trajetória capaz de representar todas as outras.

A produção também chama atenção pela maneira como evita transformar uma discussão complexa em um documentário de formato convencional. O humor, a performance e a teatralidade convivem com assuntos como violência, patologização, transição de gênero e reconhecimento legal. A proposta nasceu de Virginia Woolf, mas chega a questões que pertencem diretamente ao presente.

A recepção internacional acompanhou a singularidade do projeto. Além dos prêmios conquistados em Berlim, “Orlando, Minha Biografia Política” passou por festivais como Toronto, Nova York, San Sebastián, Karlovy Vary, IDFA e Festival do Rio. O filme também foi exibido no Festival Varilux de Cinema Francês e entrou no circuito brasileiro em julho de 2024, distribuído pela Filmes do Estação. A provocação continua a mesma: quase cem anos depois de Woolf imaginar um Orlando capaz de mudar de sexo e atravessar os séculos, quantas outras formas esse personagem pode assumir?

“Orlando, Minha Biografia Política” parte de uma personagem literária para discutir pessoas reais. Paul B. Preciado transforma a carta destinada a Virginia Woolf em um filme coletivo, no qual literatura e experiência pessoal se encontram para atualizar uma personagem que continua encontrando novos corpos para existir.


Ficha técnica
“Orlando, Minha Biografia Política” | “Orlando, ma biographie politique” (título original)

Gênero: documentário, docuficção, cinema de arte. Duração: 98 minutos. Classificação indicativa: 14 anos - contém linguagem imprópria, nudez e temas sensíveis. Ano de produção: 2023. Idioma: Francês. Direção e roteiro: Paul B. Preciado Elenco: Paul B. Preciado, Oscar S. Miller, Janis Sahraoui, Liz Christin, Elios Levy, Victor Marzouk, Kori Ceballos, Vanasay Khamphommala, Ruben Rizza, Julia Postollec, Amir Baylly, Naëlle Dariya, Jenny Bel'Air, Emma Avena, Lillie, Arthur, Eleonore, La Bourette, Noam Iroual, Iris Crosnier, Clara Deshayes, Castiel Emery, Tristana Gray Martyr, Le Filip, Miss Drinks, Frédéric Pierrot, Nathan Callot, Pierre et Gilles, Tom Dekel, Virginie Despentes, Rilke & Pompom. Cenas pós-créditos: Não há indicação de cenas pós-créditos. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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segunda-feira, 5 de outubro de 2026

.: De Ryûsuke Hamaguchi, “O Mal Não Existe” confronta natureza e ganância


Vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza, drama japonês acompanha comunidade rural ameaçada pela instalação de um empreendimento de glamping e chega à Reserva Imovision

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Ryûsuke Hamaguchi troca a atmosfera urbana de seus trabalhos anteriores por uma comunidade rural japonesa em “O Mal Não Existe”, filme que chega ao streaming Reserva Imovision e coloca natureza, interesses econômicos e relações humanas em rota de colisão. Vencedor do Grande Prêmio do Júri, o Leão de Prata, no Festival de Veneza de 2023, o longa-metragem confirma a disposição do cineasta de seguir por caminhos bem diferentes depois do reconhecimento internacional de “Drive My Car”.

A história acompanha Takumi (Hitoshi Omika), pai de Hana (Ryo Nishikawa), uma menina de oito anos. Os dois vivem em Mizubiki, uma pequena vila cercada por florestas, onde o cotidiano segue um ritmo distante da pressa das grandes cidades. Takumi trabalha em diferentes serviços para os moradores e conhece profundamente a região, enquanto Hana circula pela mata e aprende com o pai a reconhecer árvores, animais e caminhos.

A rotina começa a sofrer pressão quando uma empresa apresenta aos moradores um projeto de glamping, modalidade que combina a experiência de acampamento com estrutura e conforto de hospedagem. A proposta pretende atrair visitantes interessados em uma temporada de contato com a natureza, mas esbarra em questões muito concretas: abastecimento de água, tratamento de esgoto, segurança e impacto sobre o ecossistema.

A reunião entre os representantes da empresa e os moradores é uma das passagens centrais do filme. Takahashi (Ryûji Kosaka) e Mayuzumi (Ayaka Shibutani) chegam à vila para apresentar o projeto e ouvir a comunidade, mas logo percebem que conhecem pouco sobre o lugar onde pretendem instalar o empreendimento. A conversa, conduzida com aparente cordialidade, ganha contornos cada vez mais incômodos à medida que os moradores apontam problemas que deveriam ter sido considerados antes da apresentação.

Hamaguchi não transforma os representantes da empresa em vilões simplórios. Depois da reunião, o roteiro acompanha Takahashi e Mayuzumi em momentos mais pessoais, especialmente durante uma viagem de carro, quando os dois falam sobre trabalho, relacionamentos e suas próprias insatisfações. A mudança de perspectiva ajuda a embaralhar a divisão entre bons e maus e dá ao conflito uma dimensão mais humana.

O diretor já havia demonstrado interesse por personagens que se revelam por meio das conversas, dos gestos e daquilo que deixam de dizer. Em “O Mal Não Existe”, porém, a natureza ocupa um espaço muito maior. A floresta aparece desde os primeiros minutos, acompanhada pela trilha de Eiko Ishibashi, e o filme dedica tempo ao cotidiano de Takumi, aos trabalhos manuais e aos caminhos percorridos por ele e pela filha.

A parceria entre Hamaguchi e Ishibashi começou antes do longa-metragem. A compositora, responsável pela trilha de “Drive My Car”, havia convidado o cineasta para criar imagens que acompanhassem uma apresentação musical ao vivo. O resultado foi “Gift”, projeto inicialmente concebido sem diálogos. Hamaguchi percebeu naquele material a possibilidade de desenvolver uma história e transformou a ideia em “O Mal Não Existe”.

A relação entre os dois projetos é fundamental para compreender a particularidade do filme. A música de Ishibashi não funciona simplesmente como acompanhamento das imagens: ela participa da construção do clima, alternando momentos de serenidade e inquietação. O próprio percurso visual também preserva algo da experiência contemplativa que estava na origem de “Gift”.

A escolha de Hitoshi Omika para interpretar Takumi tem uma história curiosa. Segundo Hamaguchi contou ao Los Angeles Times, o diretor conheceu o ator durante a busca por locações rurais para “Gift”. Omika dirigia o carro que levava Hamaguchi pelas regiões pesquisadas e acabou chamando a atenção do cineasta. Quando recebeu o convite para atuar, Omika inicialmente ficou surpreso.

Outro detalhe pouco convencional está no figurino. Omika usou as próprias roupas durante as filmagens. Hamaguchi também explicou que imaginou Takumi com uma personalidade mais próxima de personagens interpretados por Clint Eastwood ou Charles Bronson, mas percebeu que a suavidade do ator acrescentava outra camada ao protagonista. A produção foi construída a partir de uma pesquisa do diretor por diferentes vilas japonesas. Mizubiki é uma localidade fictícia, composta por características de vários lugares visitados por Hamaguchi durante o desenvolvimento do roteiro. A equipe também filmou em áreas próximas às fronteiras das províncias de Yamanashi e Nagano.

A ameaça representada pelo empreendimento não está limitada à chegada de turistas. O projeto evidencia uma maneira de enxergar a natureza como produto, algo que pode ser organizado, vendido e consumido. A comunidade, por sua vez, conhece o território de outra maneira: a água, a floresta e os animais fazem parte da própria sobrevivência dos moradores.

É  nessa diferença de percepção que Hamaguchi encontra o conflito central. A empresa quer acelerar o projeto para aproveitar subsídios ligados ao período da pandemia, enquanto os moradores observam consequências que não cabem em uma planilha financeira. A situação aproxima o filme de questões contemporâneas sobre desenvolvimento, turismo e exploração ambiental, sem abandonar o interesse do diretor pelo comportamento humano.

A narrativa reserva uma mudança radical para os minutos finais. Depois de acompanhar durante boa parte da projeção a rotina de Takumi, os moradores e o conflito provocado pelo empreendimento, o filme encaminha a história para uma situação de violência e ambiguidade. A conclusão pode causar estranhamento porque Hamaguchi não fecha todas as possibilidades de interpretação. A floresta, a presença de um cervo ferido, o desaparecimento de Hana e a reação de Takumi colocam em primeiro plano uma relação entre instinto, proteção e violência. O que parecia ser uma discussão sobre um empreendimento turístico ganha uma dimensão muito mais sombria.


Ficha técnica
“O Mal Não Existe” | “Aku wa sonzai shinai” (título original) | “O Mal Não Está Aqui” (título em Portugal)

Gênero: drama. Duração: 106 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2023. Data de lançamento no Brasil: 1º de outubro de 2026, na Reserva Imovision. Idioma: japonês. Direção: Ryûsuke Hamaguchi. Roteiro: Ryûsuke Hamaguchi e Eiko Ishibashi. Elenco: Hitoshi Omika, Ryo Nishikawa, Ryûji Kosaka, Ayaka Shibutani, Hazuki Kikuchi e Hiroyuki Miura. Distribuição no Brasil: Imovision. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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segunda-feira, 21 de setembro de 2026

.: "As Cores do Tempo" costura passado e presente com arte, família e memória


Filme de Cédric Klapisch acompanha quatro primos que investigam a história de uma ancestral na Paris de 1895 e estreia no streaming Belas Artes À La Carte

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Uma casa abandonada na Normandia, fotografias antigas, pinturas, cartas e uma família numerosa que mal se conhece. É desse conjunto de pistas que Cédric Klapisch parte em "As Cores do Tempo", comédia dramática francesa e belga que coloca quatro primos diante de uma história familiar que começa muito antes de eles nascerem. Depois da passagem pelos cinemas brasileiros e da exibição no 2º Festival de Cinema Europeu Imovision, o filme chega ao streaming Reserva Imovision. O longa-metragem teve sua estreia mundial fora de competição no Festival de Cannes de 2025.

A trama acompanha Seb, Guy, Céline e Abdel, quatro parentes entre mais de trinta herdeiros ligados à mesma família. Eles recebem a tarefa de investigar uma antiga propriedade na Normandia, praticamente intocada desde a década de 1940. No interior da casa aparecem vestígios da vida de Adèle Vermillard, jovem que deixou a região em 1895, aos 20 anos, rumo a Paris, onde pretendia encontrar a mãe.

A investigação contemporânea abre espaço para a segunda linha narrativa do filme. Klapisch leva o público à Paris do final do século XIX, período de grandes mudanças tecnológicas e artísticas, quando a fotografia ganhava força e o Impressionismo modificava a relação entre pintura e realidade. O cineasta contou ao Festival de Cannes que escolheu colocar 1895 e o presente em diálogo justamente por reconhecer semelhanças entre dois momentos de forte transformação tecnológica e cultural.

Suzanne Lindon interpreta Adèle e ocupa uma posição central nessa viagem temporal. A atriz, filha de Vincent Lindon e Sandrine Kiberlain, ganhou projeção com "Jovens Amantes" e aparece cercada por nomes como Abraham Wapler, Vincent Macaigne, Julia Piaton, Zinedine Soualem, Paul Kircher, Vassili Schneider, Sara Giraudeau e Cécile de France. O elenco ainda reserva participações de figuras históricas ligadas à vida cultural francesa, entre elas Claude Monet, Victor Hugo, Sarah Bernhardt e Félix Nadar.

O roteiro é assinado por Klapisch em parceria com Santiago Amigorena, colaborador de longa data do diretor. A fotografia de Alexis Kavyrchine e a direção de arte de Marie Cheminal têm papel particularmente importante na construção das duas épocas. O filme foi rodado em diferentes localidades da Normandia e da região de Île-de-France, além dos jardins e da casa de Claude Monet em Giverny, cenário que combina naturalmente com a aproximação do filme ao universo impressionista.

A produção também utilizou um trem Nomad durante uma viagem entre Paris e Le Havre para algumas cenas. A escolha das locações ajuda a construir uma França de fim de século que ainda preservava áreas rurais próximas à capital, ao mesmo tempo em que experimentava eletricidade, fotografia, novas formas de transporte e outras novidades que alteravam a vida cotidiana.

A presença de Monet não fica restrita à decoração de época. O pintor aparece em momentos diferentes da narrativa, numa brincadeira com o próprio tempo e com a maneira como os personagens contemporâneos passam a enxergar o passado. A relação com a arte, portanto, não serve somente para deixar a produção mais bonita: fotografias, pinturas e objetos antigos funcionam como peças de investigação para os descendentes de Adèle.

A imprensa francesa percebeu essa combinação de leveza, fantasia e reconstrução histórica. Le Monde destacou a maneira como Klapisch articula as duas épocas sem recorrer ao tradicional recurso dos flashbacks, enquanto a TF1 classificou o filme como uma comédia moderna construída a partir dos encontros entre passado e presente.

O resultado tem o conhecido interesse de Klapisch pelas relações humanas, mas aqui a família ganha uma dimensão particular: os personagens precisam conhecer uma mulher que morreu muito antes de eles nascerem para compreender melhor a própria origem. E, como costuma acontecer quando alguém resolve mexer em caixas antigas, uma fotografia nunca é apenas uma fotografia quando existe uma história escondida atrás dela.

A crítica de Mary Ellen Farias dos Santos, editora e criadora do Resenhando.com, também chamou atenção para a força visual da produção. Em sua análise, ela descreveu "As Cores do Tempo" como um filme de fotografia contemplativa, marcado pela relação entre arte, memória e passagem do tempo, e destacou a construção em duas linhas temporais, entre 1895 e 2024/2025. Leia a crítica completa neste link.

O filme teve boa recepção popular na França, onde alcançou quase 1 milhão de espectadores, segundo dados divulgados pela Imovision e repercutidos pelo Resenhando.com. No Brasil, chegou aos cinemas em 30 de julho de 2026, depois da passagem pelo Festival de Cinema Europeu Imovision. Agora, com a chegada ao streaming, "As Cores do Tempo" oferece uma viagem cinematográfica em que uma casa velha guarda fotografias, pinturas e cartas capazes de aproximar uma família contemporânea de uma jovem que, em 1895, decidiu descobrir de onde vinha. No caminho, aparecem Paris, Monet, fotografia, Impressionismo, amores, escolhas e uma boa dose da delicadeza que costuma acompanhar os filmes de Klapisch.


Ficha técnica
"As Cores do Tempo" | "La Venue de l'avenir" (título original) | "Colours of Time" (título internacional)
Gênero: comédia dramática. Duração: 126 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2025. Data de lançamento: 22 de maio de 2025, na França; 15 de janeiro de 2026, em Portugal; 30 de julho de 2026, nos cinemas brasileiros. Idioma: francês. Direção: Cédric Klapisch. Roteiro: Cédric Klapisch e Santiago Amigorena. Elenco: Suzanne Lindon, Abraham Wapler, Vincent Macaigne, Julia Piaton, Zinedine Soualem, Paul Kircher, Vassili Schneider, Sara Giraudeau, Cécile de France, Olivier Gourmet, Claire Pommet, Fred Testot, François Berléand, Philippine Leroy-Beaulieu e Vincent Pérez. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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domingo, 20 de setembro de 2026

.: Filme "O Império do Desejo" escancara a alma libertária de Carlos Reichenbach


Filme de Carlos Reichenbach chega à Reserva Imovision com mistura de erotismo, humor, política e espírito anárquico, além de uma história marcada pelo confronto com a censura durante a ditadura militar

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Carlos Reichenbach gostava de misturar coisas que, em mãos menos inquietas, não cabiam no mesmo filme. Em "O Império do Desejo", que chega à plataforma de streaming Reserva Imovision em um momento de redescoberta da obra do diretor, cineasta que se tornou um dos nomes mais particulares da chamada Boca do Lixo paulistana. Ele junta erotismo, chanchada, política, humor, aventura, música e uma galeria de personagens excêntricos para acompanhar Sandra (Meiry Vieira), uma viúva que vai ao litoral recuperar a casa de praia deixada pelo marido, ocupada por grileiros. 

No caminho, ela dá carona a um casal de hippies e, depois de retomar a propriedade com a ajuda do advogado Dr. Carvalho (Benjamin Cattan), convida os dois para cuidar do imóvel. A partir desse encontro, a casa vira ponto de encontro para personagens que se envolvem física e emocionalmente em uma trama que passa pelo desejo, pela liberdade e pela provocação política. Roberto Miranda interpreta Nicolau em um elenco que reúne Márcia Fraga, Orlando Parolini, Aldine Müller, Nádia Destro, Marta Anderson, José Luiz França e outros nomes ligados ao cinema brasileiro daquele período. 

Nascido em Porto Alegre e criado em São Paulo, Carlos Reichenbach estudou na Escola Superior de Cinema São Luiz, onde integrou a segunda turma da instituição e teve entre seus mestres nomes como Roberto Santos, Anatol Rosenfeld, Paulo Emílio Salles Gomes, Mário Chamie, Décio Pignatari e Luiz Sérgio Person. A carreira começou ainda no ambiente da Boca do Lixo, com trabalhos como "As Libertinas" e "Audácia! - A Fúria dos Desejos". 

Depois, Reichenbach construiu uma filmografia que transitou por diferentes gêneros e combinou referências populares e eruditas. "A Ilha dos Prazeres Proibidos", lançado em 1978, já apresentava características que se tornariam recorrentes em seu cinema: alegorias políticas, personagens intelectuais e militantes, ironia, erotismo e uma aproximação entre elementos da cultura popular e referências eruditas. "O Império do Desejo" pertence a essa mesma fase de experimentação.

A estrutura do filme ajuda a entender o método de Reichenbach. A premissa aparentemente simples da viúva que deseja recuperar uma casa de praia abre espaço para uma sucessão de encontros, desejos, conflitos e situações absurdas. A casa deixa de ser apenas cenário e passa a concentrar uma espécie de microcosmo em que diferentes personagens e ideias convivem, enquanto o diretor brinca com convenções do cinema erótico e da comédia popular.

A mistura de gêneros não acontece por acaso. Reichenbach buscava em "O Império do Desejo", que foi realizado na esteira do sucesso comercial de "A Ilha dos Prazeres Proibidos", manipular clichês narrativos, subverter o repertório do cinema erótico e comercial, misturar gêneros e utilizar a música como elemento narrativo. O histórico com a censura acrescenta outra camada à trajetória da produção. A Cinemateca Brasileira registra certificados de censura emitidos em 1980 e 1981, incluindo um certificado do Conselho Superior de Censura. O filme chegou a ser interditado em todo o território nacional sob a acusação de ser subversivo e atentatório à moral e aos bons costumes, antes de ser liberado integralmente pelo recém-criado Conselho Superior de Censura com a classificação de "espetáculo pornográfico".

O próprio Reichenbach explicou, anos depois, a ligação que enxergava entre desejo e política. Em entrevista à Abraccine, o cineasta afirmou que não conseguia separar essas duas dimensões e definiu "O Império do Desejo" como um filme em que a questão do desejo era eminentemente política. Também contou que a produção foi convidada para festivais de cinema anarquista em Melbourne e Lyon.

Essa trajetória internacional não ficou restrita a esses eventos. O International Film Festival Rotterdam apresentou o longa-metragem em 2012, em uma nova cópia em 35 mm, depois de um período em que a obra permaneceu praticamente inacessível e pouco lembrada. O festival também registra a participação de Roberto Miranda, Benjamin Cattan, Márcia Fraga, Meiry Vieira, Orlando Parolini, José Luiz França e Nádia Destro no elenco principal.

"O Império do Desejo" permanece como uma peça curiosa da filmografia de Reichenbach por concentrar características que acompanham seu cinema: personagens marginais, provocação política, erotismo, humor, referências culturais diversas e uma vontade permanente de escapar das fórmulas convencionais. O filme pertence a um período específico do cinema brasileiro, mas conserva uma energia própria, especialmente pela maneira como Carlos Reichenbach transforma as limitações de produção em matéria para a invenção.

O diretor morreu em 2012, aos 67 anos. Ao longo da carreira, escreveu e dirigiu mais de 20 filmes, entre longas-metragens, curtas e episódios de antologias, além de trabalhar como diretor de fotografia, professor, músico, fotógrafo, crítico, ator e ensaísta. A partir de filmes como "Alma Corsária", "Filme Demência", "Garotas do ABC" e "Falsa Loura", sua obra ganhou novas leituras e voltou a despertar interesse entre espectadores e pesquisadores do cinema brasileiro. É cinema de uma época, com as marcas do tempo, mas também um retrato bastante claro da liberdade criativa que Reichenbach perseguia.


Ficha técnica
"O Império do Desejo" (título original)
Gênero: comédia dramática, erótico. Duração: 110 minutos. Classificação indicativa: 18 anos. Ano de produção: 1980. Data de lançamento: 30 de março de 1981, em São Paulo. Idioma: português. Direção: Carlos Reichenbach. Roteiro: Carlos Reichenbach. Elenco: Meiry Vieira, Roberto Miranda, Benjamin Cattan, Márcia Fraga, Orlando Parolini, Aldine Müller, Nádia Destro, Marta Anderson, José Luiz França, Mii Saki, Dino Arino, Genésio de Carvalho, Felipe Donovan, Maristela Moreno e Cavagnole Neto. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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domingo, 13 de setembro de 2026

.: “Ópera! - Canção para Um Eclipse” leva Orfeu em delírio de música e fantasia


Produção dirigida por Paolo Gep Cucco e Davide Livermore reinventa o mito de Orfeu e Eurídice com Vincent Cassel, Fanny Ardant e Rossy de Palma, misturando grandes árias, música pop, moda e efeitos digitais. Fotos: divulgação

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Um casamento termina em tragédia quando Eurídice é atingida por um tiro e sua alma é levada para o reino dos mortos. Orfeu, devastado pela perda, parte em busca da mulher que ama e encontra no caminho uma versão bastante particular do inferno: o Grand Hades Hotel, conduzido por um Caronte que, em vez de barqueiro, aparece como um taxista interpretado por Vincent Cassel. Essa é a premissa de “Ópera! - Canção para Um Eclipse”, produção de 2024 dirigida por Paolo Gep Cucco e Davide Livermore, que estreia na plataforma de streaming Reserva Imovision.

A dupla parte de uma das histórias de amor mais conhecidas da mitologia grega para criar um musical cinematográfico de vocação grandiosa, recheado de fantasia, referências artísticas e uma coleção de canções que passeia pela tradição da ópera e pela música popular. O resultado reúne no mesmo universo Puccini, Händel, Verdi, Gluck e Vivaldi ao lado de “The Power of Love”, do Frankie Goes to Hollywood.

A proposta chamou atenção desde a passagem pelo Festival de Cinema de Roma, onde “The Opera! - Arie per un’eclissi” foi exibido em sessão especial em 2024. A organização do festival descreveu o filme como uma ópera-musical de linguagem imersiva e transmídia, ambientada entre uma Paris parcialmente submersa e o palco do Teatro Regio de Turim. No filme, Valentino Buzza interpreta Orfeu e Mariam Battistelli vive Eurídice. Vincent Cassel assume Caronte, enquanto Fanny Ardant aparece como Proserpina, Rossy de Palma interpreta Atropos, Caterina Murino vive a concierge do hotel e Erwin Schrott encarna Plutão. Angela Finocchiaro completa o elenco como Calíope, mãe de Orfeu.

Davide Livermore traz para o cinema uma experiência acumulada em mais de duas décadas de trabalho com grandes casas de ópera. Paolo Gep Cucco, por sua vez, tem trajetória ligada ao video design para espetáculos líricos. A parceria, construída nos palcos, migra para o cinema com uma proposta que trata cada ambiente como uma espécie de palco gigantesco.

A fotografia de Gareth Munden e a direção de arte apostam em cenários digitais para construir o universo de Hades. Boa parte da produção foi realizada em ambientes virtuais, recurso que permite colocar os personagens em espaços impossíveis, com água, arquitetura monumental e paisagens que parecem saídas de um sonho febril. A estética ainda dialoga com referências do cinema, da pintura e das artes visuais. Uma das mais evidentes aparece na partida de xadrez entre Orfeu e Mephistopheles, evocando “O Sétimo Selo”, de Ingmar Bergman.

A moda também entra em cena. A Dolce & Gabbana participou da produção e assinou os figurinos, ajudando a estabelecer uma identidade visual luxuosa, teatral e deliberadamente extravagante. O filme cruza ópera, cinema, moda e artes visuais com a intenção de atualizar uma história conhecida há séculos. A música ocupa um espaço central nessa aventura. As árias clássicas ganham arranjos contemporâneos e convivem com referências da música pop, criando uma trilha que pode surpreender tanto quem chega ao filme pela ópera quanto quem não costuma frequentar esse universo. “Nessun Dorma”, uma das peças mais reconhecíveis do repertório lírico, tem papel decisivo na narrativa: na versão dos diretores, Orfeu precisa cantá-la sem perder de vista a razão de estar cantando para conseguir salvar Eurídice.

A escolha estética explica boa parte da personalidade de “Ópera! - Canção para Um Eclipse”. O filme não economiza em cenários, figurinos, efeitos visuais e referências. O Grand Hades Hotel parece saído de uma fantasia de luxo decadente, enquanto a presença constante da água cria imagens de beleza e estranhamento. Em vez de esconder sua teatralidade, a produção a coloca no centro da experiência.

O mito de Orfeu e Eurídice ganha, assim, uma roupagem contemporânea sem abandonar sua estrutura essencial: um homem disposto a desafiar o reino dos mortos para recuperar a mulher amada. A diferença está no caminho. Em vez de uma descida convencional ao submundo, Orfeu atravessa um universo pop-operístico em que taxistas são guias do além, hotéis funcionam como passagem para os mortos e grandes clássicos da música lírica dividem espaço com canções populares. 

A produção também pode funcionar como uma porta de entrada para a ópera, já que transforma algumas de suas composições mais conhecidas em parte da aventura de Orfeu. No fundo dessa extravagância toda permanece uma história bastante antiga: um homem perde a pessoa que ama e decide enfrentar o impossível para trazê-la de volta. O resto fica por conta de Livermore, Cucco, Cassel, Buzza, Battistelli e companhia — e de uma quantidade generosa de ópera, fantasia, água, luxo, xadrez e delírio visual.

Ficha técnica
“Ópera! - Canção Para Um Eclipse” | “The Opera!” (título original)
Gênero: musical, drama, fantasia e romance. Duração: 106 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2024. Data de lançamento: 20 de janeiro de 2025 na Itália; estreia na Reserva Imovision em setembro de 2026. Idiomas: inglês, italiano e francês. Direção: Paolo Gep Cucco e Davide Livermore. Roteiro: Paolo Gep Cucco e Davide Livermore. Elenco: Valentino Buzza, Mariam Battistelli, Vincent Cassel, Fanny Ardant, Caterina Murino, Erwin Schrott, Rossy de Palma, Angela Finocchiaro, Charlotte Gentile, Linda Gennari, Sergio Bernal e outros. Distribuição no Brasil: Imovision. Cenas pós-créditos: não identificadas. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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sábado, 12 de setembro de 2026

.: “A Margem” chega ao streaming e reencontra um Brasil à beira do Tietê


Filme de Ozualdo Candeias transforma personagens esquecidos pela cidade em figuras de uma história áspera, poética e ainda desconcertante

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

O cinema brasileiro volta a olhar para as margens do rio Tietê com “A Margem”, primeiro longa-metragem de Ozualdo Ribeiro Candeias, que chega à plataforma de streaming Reserva Imovision. Lançado em 1967, o filme permanece como uma das obras fundamentais para compreender o cinema marginal paulista e uma São Paulo que crescia em ritmo acelerado enquanto empurrava para fora do enquadramento quem não combinava com a fotografia oficial da cidade.

Candeias acompanha quatro personagens que vivem às margens do rio e da própria sociedade: duas prostitutas, um homem com problemas mentais e um cafetão. Entre encontros, desencontros, afetos improváveis e destinos trágicos, o diretor constrói uma narrativa fragmentada, carregada de símbolos e pouco interessada em facilitar a vida de quem assiste.

O resultado tem uma beleza áspera. O Tietê aparece como cenário, mas também como presença constante, cercando personagens que parecem condenados a permanecer naquele pedaço esquecido da cidade. Uma mulher negra vestida de noiva dentro de uma igreja em ruínas, um homem à procura de uma rosa e uma pequena flor que circula entre os personagens estão entre as imagens que ajudam a transformar a precariedade em matéria poética.

A câmera de Candeias acompanha essas figuras com uma liberdade que ainda impressiona. O diretor também assume fotografia e montagem ao lado de Belarmindo Manccini e Máximo Barro, respectivamente, numa produção realizada com recursos escassos. O próprio histórico do filme registra essa economia como parte de sua força estética: Candeias fez de limitações práticas uma linguagem cinematográfica própria.

A estreia de “A Margem” aconteceu em São Paulo em novembro de 1967. No 3º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o filme recebeu menções honrosas para Valéria Vidal e para a música. Depois vieram outros reconhecimentos, incluindo os prêmios de melhor direção e melhor música do Instituto Nacional de Cinema e o prêmio de melhor diretor concedido pelo Governo do Estado de São Paulo.

O reconhecimento crítico, porém, não significou uma carreira comercial confortável. Pesquisa acadêmica da USP sobre a recepção do filme registra que “A Margem” chegou a ser exibido em cinemas de arte paulistanos, entre eles o Belas Artes, mas permaneceu pouco tempo em cartaz. Décadas depois, a importância histórica da produção ganhou uma espécie de carimbo da crítica brasileira. “A Margem” entrou na lista dos 100 melhores filmes brasileiros da Abraccine e aparece na 51ª posição na relação publicada pela associação.

Na crítica publicada pela Folha de S.Paulo por ocasião dos 50 anos do filme, Inácio Araujo chamou atenção para a maneira particular como Candeias se aproxima dos personagens pobres retratados na obra. Em vez de transformar aquelas pessoas em meros exemplos de uma tese social, o diretor as observa de perto, encontrando nelas uma poesia estranha, áspera e profundamente brasileira. O filme não precisa explicar seus personagens para fazê-los existir. Eles estão ali, entre o lixo, a água, a igreja deteriorada, os pequenos gestos de afeto e uma cidade que parece avançar sem levar todos consigo.

Também chama atenção o jogo entre o real e o simbólico. A barca que surge no começo e retorna no encerramento dá ao filme uma estrutura quase circular. A imagem remete a uma travessia de mortos, enquanto os personagens parecem permanecer presos entre uma vida que pouco oferece e um destino que nunca se esclarece completamente. 

O curioso é que, quase seis décadas depois, certas imagens perderam o caráter documental e ganharam outra camada. O Tietê de 1967 ainda permitia cenas que hoje parecem pertencer a outro planeta. O filme registra um rio que já carregava as marcas da degradação, mas que ainda fazia parte da paisagem cotidiana daquela população. A própria pesquisa sobre Candeias observa como o diretor confronta a pujança econômica paulista com aquilo que a cidade deixava nas bordas. É uma oportunidade de reencontro com um dos filmes brasileiros que ajudaram a deslocar o centro do cinema para lugares menos confortáveis. 


Ficha técnica
“A Margem” (título original) 
Gênero: drama, romance. Duração: 96 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. Ano de produção: 1967. Data de lançamento: 27 de novembro de 1967. Idioma: português. Direção e roteiro: Ozualdo Ribeiro Candeias. Elenco: Mário Benvenutti, Valéria Vidal, Bentinho e Lucy Rangel. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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