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segunda-feira, 21 de setembro de 2026

.: "As Cores do Tempo" costura passado e presente com arte, família e memória


Filme de Cédric Klapisch acompanha quatro primos que investigam a história de uma ancestral na Paris de 1895 e estreia no streaming Belas Artes À La Carte

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Uma casa abandonada na Normandia, fotografias antigas, pinturas, cartas e uma família numerosa que mal se conhece. É desse conjunto de pistas que Cédric Klapisch parte em "As Cores do Tempo", comédia dramática francesa e belga que coloca quatro primos diante de uma história familiar que começa muito antes de eles nascerem. Depois da passagem pelos cinemas brasileiros e da exibição no 2º Festival de Cinema Europeu Imovision, o filme chega ao streaming Reserva Imovision. O longa-metragem teve sua estreia mundial fora de competição no Festival de Cannes de 2025.

A trama acompanha Seb, Guy, Céline e Abdel, quatro parentes entre mais de trinta herdeiros ligados à mesma família. Eles recebem a tarefa de investigar uma antiga propriedade na Normandia, praticamente intocada desde a década de 1940. No interior da casa aparecem vestígios da vida de Adèle Vermillard, jovem que deixou a região em 1895, aos 20 anos, rumo a Paris, onde pretendia encontrar a mãe.

A investigação contemporânea abre espaço para a segunda linha narrativa do filme. Klapisch leva o público à Paris do final do século XIX, período de grandes mudanças tecnológicas e artísticas, quando a fotografia ganhava força e o Impressionismo modificava a relação entre pintura e realidade. O cineasta contou ao Festival de Cannes que escolheu colocar 1895 e o presente em diálogo justamente por reconhecer semelhanças entre dois momentos de forte transformação tecnológica e cultural.

Suzanne Lindon interpreta Adèle e ocupa uma posição central nessa viagem temporal. A atriz, filha de Vincent Lindon e Sandrine Kiberlain, ganhou projeção com "Jovens Amantes" e aparece cercada por nomes como Abraham Wapler, Vincent Macaigne, Julia Piaton, Zinedine Soualem, Paul Kircher, Vassili Schneider, Sara Giraudeau e Cécile de France. O elenco ainda reserva participações de figuras históricas ligadas à vida cultural francesa, entre elas Claude Monet, Victor Hugo, Sarah Bernhardt e Félix Nadar.

O roteiro é assinado por Klapisch em parceria com Santiago Amigorena, colaborador de longa data do diretor. A fotografia de Alexis Kavyrchine e a direção de arte de Marie Cheminal têm papel particularmente importante na construção das duas épocas. O filme foi rodado em diferentes localidades da Normandia e da região de Île-de-France, além dos jardins e da casa de Claude Monet em Giverny, cenário que combina naturalmente com a aproximação do filme ao universo impressionista.

A produção também utilizou um trem Nomad durante uma viagem entre Paris e Le Havre para algumas cenas. A escolha das locações ajuda a construir uma França de fim de século que ainda preservava áreas rurais próximas à capital, ao mesmo tempo em que experimentava eletricidade, fotografia, novas formas de transporte e outras novidades que alteravam a vida cotidiana.

A presença de Monet não fica restrita à decoração de época. O pintor aparece em momentos diferentes da narrativa, numa brincadeira com o próprio tempo e com a maneira como os personagens contemporâneos passam a enxergar o passado. A relação com a arte, portanto, não serve somente para deixar a produção mais bonita: fotografias, pinturas e objetos antigos funcionam como peças de investigação para os descendentes de Adèle.

A imprensa francesa percebeu essa combinação de leveza, fantasia e reconstrução histórica. Le Monde destacou a maneira como Klapisch articula as duas épocas sem recorrer ao tradicional recurso dos flashbacks, enquanto a TF1 classificou o filme como uma comédia moderna construída a partir dos encontros entre passado e presente.

O resultado tem o conhecido interesse de Klapisch pelas relações humanas, mas aqui a família ganha uma dimensão particular: os personagens precisam conhecer uma mulher que morreu muito antes de eles nascerem para compreender melhor a própria origem. E, como costuma acontecer quando alguém resolve mexer em caixas antigas, uma fotografia nunca é apenas uma fotografia quando existe uma história escondida atrás dela.

A crítica de Mary Ellen Farias dos Santos, editora e criadora do Resenhando.com, também chamou atenção para a força visual da produção. Em sua análise, ela descreveu "As Cores do Tempo" como um filme de fotografia contemplativa, marcado pela relação entre arte, memória e passagem do tempo, e destacou a construção em duas linhas temporais, entre 1895 e 2024/2025. Leia a crítica completa neste link.

O filme teve boa recepção popular na França, onde alcançou quase 1 milhão de espectadores, segundo dados divulgados pela Imovision e repercutidos pelo Resenhando.com. No Brasil, chegou aos cinemas em 30 de julho de 2026, depois da passagem pelo Festival de Cinema Europeu Imovision. Agora, com a chegada ao streaming, "As Cores do Tempo" oferece uma viagem cinematográfica em que uma casa velha guarda fotografias, pinturas e cartas capazes de aproximar uma família contemporânea de uma jovem que, em 1895, decidiu descobrir de onde vinha. No caminho, aparecem Paris, Monet, fotografia, Impressionismo, amores, escolhas e uma boa dose da delicadeza que costuma acompanhar os filmes de Klapisch.


Ficha técnica
"As Cores do Tempo" | "La Venue de l'avenir" (título original) | "Colours of Time" (título internacional)
Gênero: comédia dramática. Duração: 126 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2025. Data de lançamento: 22 de maio de 2025, na França; 15 de janeiro de 2026, em Portugal; 30 de julho de 2026, nos cinemas brasileiros. Idioma: francês. Direção: Cédric Klapisch. Roteiro: Cédric Klapisch e Santiago Amigorena. Elenco: Suzanne Lindon, Abraham Wapler, Vincent Macaigne, Julia Piaton, Zinedine Soualem, Paul Kircher, Vassili Schneider, Sara Giraudeau, Cécile de France, Olivier Gourmet, Claire Pommet, Fred Testot, François Berléand, Philippine Leroy-Beaulieu e Vincent Pérez. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.

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domingo, 20 de setembro de 2026

.: Filme "O Império do Desejo" escancara a alma libertária de Carlos Reichenbach


Filme de Carlos Reichenbach chega à Reserva Imovision com mistura de erotismo, humor, política e espírito anárquico, além de uma história marcada pelo confronto com a censura durante a ditadura militar

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Carlos Reichenbach gostava de misturar coisas que, em mãos menos inquietas, não cabiam no mesmo filme. Em "O Império do Desejo", que chega à plataforma de streaming Reserva Imovision em um momento de redescoberta da obra do diretor, cineasta que se tornou um dos nomes mais particulares da chamada Boca do Lixo paulistana. Ele junta erotismo, chanchada, política, humor, aventura, música e uma galeria de personagens excêntricos para acompanhar Sandra (Meiry Vieira), uma viúva que vai ao litoral recuperar a casa de praia deixada pelo marido, ocupada por grileiros. 

No caminho, ela dá carona a um casal de hippies e, depois de retomar a propriedade com a ajuda do advogado Dr. Carvalho (Benjamin Cattan), convida os dois para cuidar do imóvel. A partir desse encontro, a casa vira ponto de encontro para personagens que se envolvem física e emocionalmente em uma trama que passa pelo desejo, pela liberdade e pela provocação política. Roberto Miranda interpreta Nicolau em um elenco que reúne Márcia Fraga, Orlando Parolini, Aldine Müller, Nádia Destro, Marta Anderson, José Luiz França e outros nomes ligados ao cinema brasileiro daquele período. 

Nascido em Porto Alegre e criado em São Paulo, Carlos Reichenbach estudou na Escola Superior de Cinema São Luiz, onde integrou a segunda turma da instituição e teve entre seus mestres nomes como Roberto Santos, Anatol Rosenfeld, Paulo Emílio Salles Gomes, Mário Chamie, Décio Pignatari e Luiz Sérgio Person. A carreira começou ainda no ambiente da Boca do Lixo, com trabalhos como "As Libertinas" e "Audácia! - A Fúria dos Desejos". 

Depois, Reichenbach construiu uma filmografia que transitou por diferentes gêneros e combinou referências populares e eruditas. "A Ilha dos Prazeres Proibidos", lançado em 1978, já apresentava características que se tornariam recorrentes em seu cinema: alegorias políticas, personagens intelectuais e militantes, ironia, erotismo e uma aproximação entre elementos da cultura popular e referências eruditas. "O Império do Desejo" pertence a essa mesma fase de experimentação.

A estrutura do filme ajuda a entender o método de Reichenbach. A premissa aparentemente simples da viúva que deseja recuperar uma casa de praia abre espaço para uma sucessão de encontros, desejos, conflitos e situações absurdas. A casa deixa de ser apenas cenário e passa a concentrar uma espécie de microcosmo em que diferentes personagens e ideias convivem, enquanto o diretor brinca com convenções do cinema erótico e da comédia popular.

A mistura de gêneros não acontece por acaso. Reichenbach buscava em "O Império do Desejo", que foi realizado na esteira do sucesso comercial de "A Ilha dos Prazeres Proibidos", manipular clichês narrativos, subverter o repertório do cinema erótico e comercial, misturar gêneros e utilizar a música como elemento narrativo. O histórico com a censura acrescenta outra camada à trajetória da produção. A Cinemateca Brasileira registra certificados de censura emitidos em 1980 e 1981, incluindo um certificado do Conselho Superior de Censura. O filme chegou a ser interditado em todo o território nacional sob a acusação de ser subversivo e atentatório à moral e aos bons costumes, antes de ser liberado integralmente pelo recém-criado Conselho Superior de Censura com a classificação de "espetáculo pornográfico".

O próprio Reichenbach explicou, anos depois, a ligação que enxergava entre desejo e política. Em entrevista à Abraccine, o cineasta afirmou que não conseguia separar essas duas dimensões e definiu "O Império do Desejo" como um filme em que a questão do desejo era eminentemente política. Também contou que a produção foi convidada para festivais de cinema anarquista em Melbourne e Lyon.

Essa trajetória internacional não ficou restrita a esses eventos. O International Film Festival Rotterdam apresentou o longa-metragem em 2012, em uma nova cópia em 35 mm, depois de um período em que a obra permaneceu praticamente inacessível e pouco lembrada. O festival também registra a participação de Roberto Miranda, Benjamin Cattan, Márcia Fraga, Meiry Vieira, Orlando Parolini, José Luiz França e Nádia Destro no elenco principal.

"O Império do Desejo" permanece como uma peça curiosa da filmografia de Reichenbach por concentrar características que acompanham seu cinema: personagens marginais, provocação política, erotismo, humor, referências culturais diversas e uma vontade permanente de escapar das fórmulas convencionais. O filme pertence a um período específico do cinema brasileiro, mas conserva uma energia própria, especialmente pela maneira como Carlos Reichenbach transforma as limitações de produção em matéria para a invenção.

O diretor morreu em 2012, aos 67 anos. Ao longo da carreira, escreveu e dirigiu mais de 20 filmes, entre longas-metragens, curtas e episódios de antologias, além de trabalhar como diretor de fotografia, professor, músico, fotógrafo, crítico, ator e ensaísta. A partir de filmes como "Alma Corsária", "Filme Demência", "Garotas do ABC" e "Falsa Loura", sua obra ganhou novas leituras e voltou a despertar interesse entre espectadores e pesquisadores do cinema brasileiro. É cinema de uma época, com as marcas do tempo, mas também um retrato bastante claro da liberdade criativa que Reichenbach perseguia.


Ficha técnica
"O Império do Desejo" (título original)
Gênero: comédia dramática, erótico. Duração: 110 minutos. Classificação indicativa: 18 anos. Ano de produção: 1980. Data de lançamento: 30 de março de 1981, em São Paulo. Idioma: português. Direção: Carlos Reichenbach. Roteiro: Carlos Reichenbach. Elenco: Meiry Vieira, Roberto Miranda, Benjamin Cattan, Márcia Fraga, Orlando Parolini, Aldine Müller, Nádia Destro, Marta Anderson, José Luiz França, Mii Saki, Dino Arino, Genésio de Carvalho, Felipe Donovan, Maristela Moreno e Cavagnole Neto. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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domingo, 13 de setembro de 2026

.: “Ópera! - Canção para Um Eclipse” leva Orfeu em delírio de música e fantasia


Produção dirigida por Paolo Gep Cucco e Davide Livermore reinventa o mito de Orfeu e Eurídice com Vincent Cassel, Fanny Ardant e Rossy de Palma, misturando grandes árias, música pop, moda e efeitos digitais. Fotos: divulgação

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Um casamento termina em tragédia quando Eurídice é atingida por um tiro e sua alma é levada para o reino dos mortos. Orfeu, devastado pela perda, parte em busca da mulher que ama e encontra no caminho uma versão bastante particular do inferno: o Grand Hades Hotel, conduzido por um Caronte que, em vez de barqueiro, aparece como um taxista interpretado por Vincent Cassel. Essa é a premissa de “Ópera! - Canção para Um Eclipse”, produção de 2024 dirigida por Paolo Gep Cucco e Davide Livermore, que estreia na plataforma de streaming Reserva Imovision.

A dupla parte de uma das histórias de amor mais conhecidas da mitologia grega para criar um musical cinematográfico de vocação grandiosa, recheado de fantasia, referências artísticas e uma coleção de canções que passeia pela tradição da ópera e pela música popular. O resultado reúne no mesmo universo Puccini, Händel, Verdi, Gluck e Vivaldi ao lado de “The Power of Love”, do Frankie Goes to Hollywood.

A proposta chamou atenção desde a passagem pelo Festival de Cinema de Roma, onde “The Opera! - Arie per un’eclissi” foi exibido em sessão especial em 2024. A organização do festival descreveu o filme como uma ópera-musical de linguagem imersiva e transmídia, ambientada entre uma Paris parcialmente submersa e o palco do Teatro Regio de Turim. No filme, Valentino Buzza interpreta Orfeu e Mariam Battistelli vive Eurídice. Vincent Cassel assume Caronte, enquanto Fanny Ardant aparece como Proserpina, Rossy de Palma interpreta Atropos, Caterina Murino vive a concierge do hotel e Erwin Schrott encarna Plutão. Angela Finocchiaro completa o elenco como Calíope, mãe de Orfeu.

Davide Livermore traz para o cinema uma experiência acumulada em mais de duas décadas de trabalho com grandes casas de ópera. Paolo Gep Cucco, por sua vez, tem trajetória ligada ao video design para espetáculos líricos. A parceria, construída nos palcos, migra para o cinema com uma proposta que trata cada ambiente como uma espécie de palco gigantesco.

A fotografia de Gareth Munden e a direção de arte apostam em cenários digitais para construir o universo de Hades. Boa parte da produção foi realizada em ambientes virtuais, recurso que permite colocar os personagens em espaços impossíveis, com água, arquitetura monumental e paisagens que parecem saídas de um sonho febril. A estética ainda dialoga com referências do cinema, da pintura e das artes visuais. Uma das mais evidentes aparece na partida de xadrez entre Orfeu e Mephistopheles, evocando “O Sétimo Selo”, de Ingmar Bergman.

A moda também entra em cena. A Dolce & Gabbana participou da produção e assinou os figurinos, ajudando a estabelecer uma identidade visual luxuosa, teatral e deliberadamente extravagante. O filme cruza ópera, cinema, moda e artes visuais com a intenção de atualizar uma história conhecida há séculos. A música ocupa um espaço central nessa aventura. As árias clássicas ganham arranjos contemporâneos e convivem com referências da música pop, criando uma trilha que pode surpreender tanto quem chega ao filme pela ópera quanto quem não costuma frequentar esse universo. “Nessun Dorma”, uma das peças mais reconhecíveis do repertório lírico, tem papel decisivo na narrativa: na versão dos diretores, Orfeu precisa cantá-la sem perder de vista a razão de estar cantando para conseguir salvar Eurídice.

A escolha estética explica boa parte da personalidade de “Ópera! - Canção para Um Eclipse”. O filme não economiza em cenários, figurinos, efeitos visuais e referências. O Grand Hades Hotel parece saído de uma fantasia de luxo decadente, enquanto a presença constante da água cria imagens de beleza e estranhamento. Em vez de esconder sua teatralidade, a produção a coloca no centro da experiência.

O mito de Orfeu e Eurídice ganha, assim, uma roupagem contemporânea sem abandonar sua estrutura essencial: um homem disposto a desafiar o reino dos mortos para recuperar a mulher amada. A diferença está no caminho. Em vez de uma descida convencional ao submundo, Orfeu atravessa um universo pop-operístico em que taxistas são guias do além, hotéis funcionam como passagem para os mortos e grandes clássicos da música lírica dividem espaço com canções populares. 

A produção também pode funcionar como uma porta de entrada para a ópera, já que transforma algumas de suas composições mais conhecidas em parte da aventura de Orfeu. No fundo dessa extravagância toda permanece uma história bastante antiga: um homem perde a pessoa que ama e decide enfrentar o impossível para trazê-la de volta. O resto fica por conta de Livermore, Cucco, Cassel, Buzza, Battistelli e companhia — e de uma quantidade generosa de ópera, fantasia, água, luxo, xadrez e delírio visual.

Ficha técnica
“Ópera! - Canção Para Um Eclipse” | “The Opera!” (título original)
Gênero: musical, drama, fantasia e romance. Duração: 106 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2024. Data de lançamento: 20 de janeiro de 2025 na Itália; estreia na Reserva Imovision em setembro de 2026. Idiomas: inglês, italiano e francês. Direção: Paolo Gep Cucco e Davide Livermore. Roteiro: Paolo Gep Cucco e Davide Livermore. Elenco: Valentino Buzza, Mariam Battistelli, Vincent Cassel, Fanny Ardant, Caterina Murino, Erwin Schrott, Rossy de Palma, Angela Finocchiaro, Charlotte Gentile, Linda Gennari, Sergio Bernal e outros. Distribuição no Brasil: Imovision. Cenas pós-créditos: não identificadas. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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sábado, 12 de setembro de 2026

.: “A Margem” chega ao streaming e reencontra um Brasil à beira do Tietê


Filme de Ozualdo Candeias transforma personagens esquecidos pela cidade em figuras de uma história áspera, poética e ainda desconcertante

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

O cinema brasileiro volta a olhar para as margens do rio Tietê com “A Margem”, primeiro longa-metragem de Ozualdo Ribeiro Candeias, que chega à plataforma de streaming Reserva Imovision. Lançado em 1967, o filme permanece como uma das obras fundamentais para compreender o cinema marginal paulista e uma São Paulo que crescia em ritmo acelerado enquanto empurrava para fora do enquadramento quem não combinava com a fotografia oficial da cidade.

Candeias acompanha quatro personagens que vivem às margens do rio e da própria sociedade: duas prostitutas, um homem com problemas mentais e um cafetão. Entre encontros, desencontros, afetos improváveis e destinos trágicos, o diretor constrói uma narrativa fragmentada, carregada de símbolos e pouco interessada em facilitar a vida de quem assiste.

O resultado tem uma beleza áspera. O Tietê aparece como cenário, mas também como presença constante, cercando personagens que parecem condenados a permanecer naquele pedaço esquecido da cidade. Uma mulher negra vestida de noiva dentro de uma igreja em ruínas, um homem à procura de uma rosa e uma pequena flor que circula entre os personagens estão entre as imagens que ajudam a transformar a precariedade em matéria poética.

A câmera de Candeias acompanha essas figuras com uma liberdade que ainda impressiona. O diretor também assume fotografia e montagem ao lado de Belarmindo Manccini e Máximo Barro, respectivamente, numa produção realizada com recursos escassos. O próprio histórico do filme registra essa economia como parte de sua força estética: Candeias fez de limitações práticas uma linguagem cinematográfica própria.

A estreia de “A Margem” aconteceu em São Paulo em novembro de 1967. No 3º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o filme recebeu menções honrosas para Valéria Vidal e para a música. Depois vieram outros reconhecimentos, incluindo os prêmios de melhor direção e melhor música do Instituto Nacional de Cinema e o prêmio de melhor diretor concedido pelo Governo do Estado de São Paulo.

O reconhecimento crítico, porém, não significou uma carreira comercial confortável. Pesquisa acadêmica da USP sobre a recepção do filme registra que “A Margem” chegou a ser exibido em cinemas de arte paulistanos, entre eles o Belas Artes, mas permaneceu pouco tempo em cartaz. Décadas depois, a importância histórica da produção ganhou uma espécie de carimbo da crítica brasileira. “A Margem” entrou na lista dos 100 melhores filmes brasileiros da Abraccine e aparece na 51ª posição na relação publicada pela associação.

Na crítica publicada pela Folha de S.Paulo por ocasião dos 50 anos do filme, Inácio Araujo chamou atenção para a maneira particular como Candeias se aproxima dos personagens pobres retratados na obra. Em vez de transformar aquelas pessoas em meros exemplos de uma tese social, o diretor as observa de perto, encontrando nelas uma poesia estranha, áspera e profundamente brasileira. O filme não precisa explicar seus personagens para fazê-los existir. Eles estão ali, entre o lixo, a água, a igreja deteriorada, os pequenos gestos de afeto e uma cidade que parece avançar sem levar todos consigo.

Também chama atenção o jogo entre o real e o simbólico. A barca que surge no começo e retorna no encerramento dá ao filme uma estrutura quase circular. A imagem remete a uma travessia de mortos, enquanto os personagens parecem permanecer presos entre uma vida que pouco oferece e um destino que nunca se esclarece completamente. 

O curioso é que, quase seis décadas depois, certas imagens perderam o caráter documental e ganharam outra camada. O Tietê de 1967 ainda permitia cenas que hoje parecem pertencer a outro planeta. O filme registra um rio que já carregava as marcas da degradação, mas que ainda fazia parte da paisagem cotidiana daquela população. A própria pesquisa sobre Candeias observa como o diretor confronta a pujança econômica paulista com aquilo que a cidade deixava nas bordas. É uma oportunidade de reencontro com um dos filmes brasileiros que ajudaram a deslocar o centro do cinema para lugares menos confortáveis. 


Ficha técnica
“A Margem” (título original) 
Gênero: drama, romance. Duração: 96 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. Ano de produção: 1967. Data de lançamento: 27 de novembro de 1967. Idioma: português. Direção e roteiro: Ozualdo Ribeiro Candeias. Elenco: Mário Benvenutti, Valéria Vidal, Bentinho e Lucy Rangel. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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quarta-feira, 9 de setembro de 2026

.: Nova versão de "Emmanuelle" revisita o erotismo dos anos 1970


"Emmanuelle" leva Noémie Merlant a Hong Kong em uma viagem de negócios marcada por desejo, poder e encontros misteriosos

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

O desejo ganhou endereço novo em "Emmanuelle", que estreia na plataforma de streaming Reserva Imovision. Dirigido por Audrey Diwan, o filme leva a personagem criada pela escritora Emmanuelle Arsan para Hong Kong e troca o imaginário tropical da produção de 1974 por hotéis de luxo, corredores sofisticados, quartos de alto padrão e uma protagonista profissionalmente segura, mas em busca de alguma coisa que parece ter ficado pelo caminho.

Na trama, Emmanuelle (Noémie Merlant) trabalha como responsável pela qualidade de uma rede hoteleira de luxo. Ela viaja sozinha para Hong Kong com a missão de avaliar o desempenho de um hotel administrado por Margot (Naomi Watts). O trabalho, porém, ganha contornos pessoais quando a protagonista passa a experimentar novas relações e conhece Kei (Will Sharpe), um homem enigmático que parece escapar de suas tentativas de aproximação. É uma busca por um prazer perdido em meio a encontros intensos e novas experiências.

A escolha de Audrey Diwan dá ao projeto uma curiosa camada de expectativa. A diretora venceu o Leão de Ouro no Festival de Veneza por "O Acontecimento", adaptação do livro de Annie Ernaux sobre uma jovem francesa que enfrenta uma gravidez indesejada nos anos 1960. Em "Emmanuelle", ela volta a colocar uma mulher e sua relação com o próprio corpo no centro da narrativa, desta vez a partir de um personagem que já chega ao cinema carregado por décadas de memória.

O filme é baseado no romance "Emmanuelle", publicado em 1967 por Emmanuelle Arsan, e funciona como uma nova versão cinematográfica da personagem que ficou mundialmente conhecida com o filme dirigido por Just Jaeckin em 1974, estrelado por Sylvia Kristel. A nova produção foi apresentada na abertura do Festival de San Sebastián, em setembro de 2024, antes de chegar aos cinemas franceses.

Uma das diferenças mais evidentes está no cenário. A história abandona Bangkok e se instala em Hong Kong, cidade que também participa ativamente da composição visual do filme. Parte das filmagens aconteceu na cidade, inclusive em Chungking Mansions, complexo que ficou conhecido entre cinéfilos por sua presença marcante em "Amores Expressos", de Wong Kar-wai. Audrey Diwan escolheu o local por sua admiração pelo filme de 1994.

Noémie Merlant assume uma personagem que se move entre reuniões, avaliações profissionais e experiências íntimas. A atriz, conhecida por "Retrato de uma Jovem em Chamas", divide o elenco com Naomi Watts, Will Sharpe, Jamie Campbell Bower, Chacha Huang e Anthony Wong. O roteiro é assinado por Audrey Diwan e Rebecca Zlotowski, a partir do romance de Arsan.

A produção também carrega uma curiosidade de bastidor. Léa Seydoux chegou a ser anunciada para interpretar Emmanuelle, mas deixou o projeto e foi substituída por Noémie Merlant em 2023. As filmagens começaram em Paris naquele ano e depois seguiram para Hong Kong.

A recepção crítica foi dividida, com avaliações que elogiaram a fotografia, a direção de arte e a tentativa de atualizar o material, enquanto outras apontaram problemas no roteiro e uma distância entre a proposta sensual e o resultado.  Audrey Diwan parece interessada em retirar a personagem do lugar de fantasia sexual que marcou sua história cinematográfica e colocá-la diante de uma pergunta menos confortável: o que resta do desejo quando uma mulher já conquistou independência, dinheiro, profissão e liberdade para escolher? A resposta pode dividir opiniões. 
Ficha técnica


Ficha técnica
"Emmanuelle" (título original)
Gênero: drama, romance, erótico. Duração: 105 minutos. Classificação indicativa: 18 anos. Ano de produção: 2024. Data de lançamento: 10 de julho de 2025 no Brasil. Idioma: inglês e francês. Direção: Audrey Diwan. Roteiro: Audrey Diwan e Rebecca Zlotowski. Elenco: Noémie Merlant, Naomi Watts, Will Sharpe, Jamie Campbell Bower, Chacha Huang, Anthony Wong, Carole Franck, Isabella Wei, Adam Pak e outros. Distribuição no Brasil: Imovision. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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terça-feira, 8 de setembro de 2026

.: “Loucos por Cinema!”: a cinefilia como matéria-prima de viagem pela memória


Arnaud Desplechin mistura ficção, documentário e ensaio para revisitar a formação de Paul Dédalus e investigar por que o cinema continua ocupando um lugar tão particular na vida de quem assiste

Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Ir ao cinema pode ser uma experiência tão íntima que, em determinados momentos, um filme parece saber alguma coisa sobre quem está sentado diante da tela. É nesse território de lembranças, descobertas e obsessões que Arnaud Desplechin coloca “Loucos por Cinema!”, produção francesa que chega à plataforma de streaming da Reserva Imovision depois de passar por festivais como Cannes e Festival do Rio.

O cineasta retoma Paul Dédalus, personagem que funciona como seu alter ego, para reconstruir a formação de um espectador apaixonado por filmes. A trajetória começa na infância, quando o garoto descobre o cinema levado pela avó para assistir a “Fantômas”, e acompanha diferentes fases de sua vida até o momento em que a cinefilia deixa de ser apenas uma paixão e passa a interferir na maneira como ele compreende o mundo.

Paul é interpretado em diferentes idades por Louis Birman, Milo Machado-Graner, Sam Chemoul e Salif Cissé. Mathieu Amalric, presença recorrente na filmografia de Desplechin e intérprete de Paul Dédalus em “Como Eu Briguei (Por Minha Vida Sexual)”, aparece como o cineasta. A escolha reforça uma espécie de jogo de espelhos que acompanha o diretor há décadas.

A graça está justamente nessa mistura. “Loucos por Cinema!” se move entre a memória pessoal, a encenação ficcional, entrevistas, reflexão sobre a experiência de assistir a um filme e uma quantidade generosa de referências cinematográficas. Desplechin olha para a própria formação como cinéfilo e, ao fazer isso, acaba convidando o público a recuperar suas próprias primeiras sessões, os filmes descobertos por acaso, os personagens que permaneceram na lembrança e até aquelas obras que modificaram alguma coisa sem que fosse possível perceber imediatamente.

O diretor passeia por nomes e títulos fundamentais para a formação de seu olhar. “Os Incompreendidos”, de François Truffaut, “Gritos e Sussurros”, de Ingmar Bergman, “As Pequenas Margaridas”, de Věra Chytilová, e “Shoah”, de Claude Lanzmann, aparecem em uma coleção de referências que ajuda a desenhar a educação sentimental de Paul. A própria escolha de “Fantômas” como ponto de partida remete a uma lembrança de infância do cineasta. Desplechin quer entender por que as pessoas continuam indo ao cinema depois de mais de um século de imagens projetadas. Cannes definiu a produção como uma homenagem às salas de cinema, enquanto o próprio diretor explicou que reuniu memórias, ficção e investigação para criar uma espécie de percurso de formação de um espectador.

O problema aparece quando a paixão do diretor começa a pesar sobre a narrativa. As referências são tantas, e a vontade de discutir cinema é tão evidente, que determinadas passagens parecem destinadas principalmente a quem já domina o repertório apresentado. O filme ganha força quando transforma a cinefilia em memória compartilhada; perde um pouco dela quando se fecha em conversas e associações que exigem do público uma intimidade semelhante com a história do cinema.

Ainda assim, existe algo bastante simpático nessa imperfeição. Desplechin não tenta organizar sua paixão de maneira didática. Ele deixa que lembranças, cenas, ideias e personagens se encontrem, como acontece na própria memória de quem passa anos assistindo a filmes. Uma lembrança de Bergman pode levar a uma discussão filosófica; um cineclube escolar pode despertar uma paixão; uma sessão pode se transformar em acontecimento amoroso; um personagem de ficção pode carregar traços de quem o criou.

Com 88 minutos, “Loucos por Cinema!” tem o tamanho de uma lembrança que se recusa a terminar. A produção francesa foi apresentada na Sessão Especial de Cannes em 2024 e chegou aos cinemas brasileiros em março de 2025. O resultado é irregular, mas coerente com o próprio objeto. Afinal, a cinefilia também tem seus excessos. Há quem assista a um filme e siga para casa. Há quem passe dias pensando nele, procure entrevistas, leia sobre o diretor, descubra outro título, monte uma lista e volte à sala de cinema para rever aquilo que acabou de descobrir. Desplechin claramente pertence ao segundo grupo.


Ficha técnica
“Loucos por Cinema!” | “Spectateurs!” (título original) | “Espectadores!” (título em Portugal)
Gênero: drama, comédia e ficção documental. Duração: 88 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. Ano de produção: 2024. Data de lançamento: 15 de janeiro de 2025, na França. Idioma: francês. Direção e roteiro: Arnaud Desplechin. Elenco: Louis Birman, Dominique Païni, Clément Hervieu-Léger, Françoise Lebrun, Sandra Laugier, Olga Milshtein, Milo Machado-Graner, Margaux Mussano, Sam Chemoul, Marilou Poujardieu, Salomé Rose Stein, Micha Lescot, Shoshana Felman, Kent Jones, Salif Cissé e Mathieu Amalric. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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sábado, 5 de setembro de 2026

.: "Nino" torna diagnóstico de câncer em jornada íntima pelas ruas de Paris


Drama de Pauline Loquès acompanha jovem que recebe uma notícia devastadora e ganha dois dias para reorganizar a própria vida antes de iniciar o tratamento

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Depois de chegar aos cinemas brasileiros, "Nino" encontra uma nova janela de exibição na plataforma de streaming da Reserva Imovision, onde apresenta ao público brasileiro o primeiro filme de ficção de Pauline Loquès. No centro da história está Nino, interpretado por Théodore Pellerin, um jovem parisiense que descobre ter câncer na garganta quando deveria estar preocupado com assuntos bem menos dramáticos.

A partir do diagnóstico, os médicos dão ao rapaz duas tarefas antes do início do tratamento. O que poderia parecer apenas uma contagem regressiva médica ganha contornos de uma jornada pessoal pelas ruas de Paris, enquanto Nino tenta entender o que fazer com a notícia, como contar para a mãe e os amigos e, principalmente, como continuar vivendo diante de uma realidade que mudou de repente. A própria apresentação oficial do filme resume essas missões como uma oportunidade para o personagem se reconectar com o mundo e consigo mesmo.

A estrutura concentra a narrativa em poucos dias e transforma a capital francesa em parte essencial da experiência de Nino. A cidade aparece como espaço de encontros, lembranças, afetos e pequenas decisões, enquanto o protagonista tenta administrar o medo, a confusão e as relações que havia deixado pelo caminho. A comparação com "Cléo das 5 às 7", clássico de Agnès Varda, surge naturalmente pela maneira como o filme acompanha uma personagem diante da perspectiva de uma doença e usa a cidade como extensão de sua inquietação. A própria recepção ao filme também destacou essa relação entre deslocamento urbano, espera e descoberta pessoal.

Estreante na direção de ficção, Loquès também assina o roteiro, com colaboração de Maud Ameline. Antes de "Nino", a cineasta havia dirigido o documentário "La Vie d'une Jeune Fille", de 2018. O filme nasceu de um processo de desenvolvimento iniciado em 2020 e foi rodado em Paris no segundo semestre de 2024. Théodore Pellerin é o grande trunfo do elenco. A interpretação como Nino rendeu ao ator o Prêmio Fundação Louis Roederer de Revelação na Semana da Crítica do Festival de Cannes de 2025. 

O reconhecimento não parou em Cannes. "Nino" venceu o César de Melhor Primeiro Filme e Pellerin levou o prêmio de Melhor Revelação Masculina na edição de 2026. A produção também passou pelo Festival Internacional de Toronto, na competição Platform, e acumulou prêmios em eventos como Deauville, Roma, Varsóvia e Namur. No elenco, Pellerin divide a cena com William Lebghil, Salomé Dewaels e Jeanne Balibar, além de participações de Camille Rutherford, Estelle Meyer, Victoire Du Bois e Mathieu Amalric.

A produção francesa chegou aos cinemas brasileiros em 7 de maio de 2026 e agora pode ser encontrada na Reserva Imovision. Com 96 minutos, o filme aposta na intimidade, no humor pontual e nos encontros fortuitos para construir uma história sobre juventude, amizade, família e a necessidade quase urgente de reaprender a olhar para a própria vida.


Ficha técnica
"Nino" (título original)
Gênero: drama. Duração: 96 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2025. Data de lançamento: 7 de maio de 2026 no Brasil; 9 de abril de 2026 em Portugal. Idioma: francês. Direção: Pauline Loquès. Roteiro: Pauline Loquès, com colaboração de Maud Ameline. Elenco: Théodore Pellerin, William Lebghil, Salomé Dewaels, Jeanne Balibar, Camille Rutherford, Estelle Meyer, Victoire Du Bois, Balthazar Billaud, Mathieu Amalric, Nahéma Ricci, Alexandre Desrousseaux e outros. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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segunda-feira, 31 de agosto de 2026

.: “Banquete Coutinho” devolve a palavra a Eduardo Coutinho e serve cinema puro


Documentário de Josafá Veloso parte de uma entrevista realizada em 2012 para revisitar a obra, as ideias e as inquietações de um dos maiores cineastas brasileiros

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Eduardo Coutinho tinha talento para conversar e uma alergia saudável à pose de gênio. Em determinado momento de “Banquete Coutinho”, resume a própria existência com a secura bem-humorada de quem dispensava monumentos: “Eu fumo e faço uns filmes”. A frase parece pequena diante de uma filmografia que modificou a maneira de registrar pessoas comuns no cinema brasileiro. Talvez seja esse o charme. Coutinho sabia que uma câmera, uma cadeira e alguém disposto a contar a própria história podiam produzir terremotos.

Dirigido e roteirizado por Josafá Veloso, “Banquete Coutinho” chega à plataforma de streaming da Reserva Imovision, depois de percorrer festivais brasileiros e internacionais. Realizado a partir de um encontro filmado com Coutinho em 2012, dois anos antes da morte do cineasta, o documentário usa aquela conversa como espinha dorsal para passear por sua obra e por algumas obsessões que o acompanharam durante décadas: vida, morte, trabalho, cinema, ética, religião, relações de poder e o curioso território criado entre quem pergunta e quem aceita ser filmado. 

A provocação que move Veloso é boa: teria Eduardo Coutinho passado a carreira inteira realizando, de algum modo, o mesmo filme? A pergunta conduz um percurso que alcança títulos fundamentais como “Cabra Marcado para Morrer”, “Santo Forte”, “Babilônia 2000”, “Edifício Master”, “O Fim e o Princípio” e “Jogo de Cena”. A montagem de Eugenio Puppo e Gustavo Vasconcelos aproxima trechos dessas obras da entrevista de 2012 e permite perceber uma espécie de parentesco entre personagens, métodos e preocupações espalhados pela filmografia. A fotografia do novo material é de Ticão Okada, enquanto Veloso assina também a música.

O próprio Coutinho ocupa o centro da cena, posição curiosa para alguém que construiu boa parte da carreira olhando para os outros. A inversão rende sabor ao filme. O homem que perguntava passa a responder, embora continue escapando das certezas, desconfiando das teorias muito arrumadinhas e tratando o cinema com aquela mistura peculiar de rigor, humor e desencanto. Pela tela passam suas ideias sobre o ofício e fragmentos de uma trajetória que começou longe da imagem consagrada do mestre documentarista.

Antes de “Cabra Marcado para Morrer” se tornar um marco, Coutinho experimentou a ficção, trabalhou como roteirista, integrou o “Globo Repórter” e passou anos construindo uma linguagem documental baseada no encontro, no conflito e na singularidade de cada pessoa diante da câmera. “Cabra Marcado para Morrer”, iniciado como ficção em 1964 e interrompido após o golpe militar, seria retomado anos depois sob outra forma, misturando o material antigo ao reencontro com seus participantes. Lançado em 1984, recebeu, entre outros prêmios, o Fipresci no Festival de Berlim e tornou-se peça central de sua carreira.

Veloso ainda recupera uma curiosidade quase arqueológica: “Le Téléphone”, curta de 1959 realizado por Coutinho durante seus estudos no Institut des Hautes Études Cinématographiques, o IDHEC, na França. Esse retorno às primeiras experiências ajuda a desmontar a impressão de que o cineasta nasceu pronto, barba branca, cigarro na mão e perguntas afiadas. Houve ficção, televisão, roteiros para outros diretores, tropeços, mudanças de rota e muito trabalho antes da fase que consolidaria títulos como “Santo Forte”, “Edifício Master” e “Jogo de Cena”.

“Banquete Coutinho” foi o primeiro filme dirigido por Josafá Veloso, historiador formado pela USP, mestre pela Universidade Federal Fluminense e com estudos de documentário na Escuela Internacional de Cine y Televisión de San Antonio de los Baños, em Cuba. A estreia ocorreu em 2019, na abertura da oitava edição do Olhar de Cinema - Festival Internacional de Curitiba. Depois, o documentário passou pela Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Festival do Rio, Doclisboa, Festival Internacional del Nuevo Cine Latinoamericano, CineOP, Cinecipó e forumdoc.bh, entre outros eventos.

A força da proposta aparece quando Coutinho simplesmente fala. A ironia seca, a inteligência quase impaciente e a capacidade de desmontar solenidades continuam vivas na gravação. Veloso dispõe esse material ao lado dos filmes e deixa que uma obra converse com outra. O resultado também sugere algo delicioso: talvez a pergunta sobre Coutinho ter realizado repetidamente “o mesmo filme” diga bastante sobre a coerência de um artista que passou décadas interessado no ser humano quando ele deixa de caber no estereótipo. O título “Banquete Coutinho” cai bem. Há muita coisa na mesa: memória, política, ética, religião, fracasso, vaidade, morte, trabalho e cinema. No centro dela está um sujeito que preferia conversar com gente a fabricar estátuas de si próprio. Para alguém que dizia fumar e fazer uns filmes, Eduardo Coutinho deixou uma tremenda quantidade de assunto.


Ficha técnica
“Banquete Coutinho” (título original) | “A Treat of Coutinho” (título internacional)
Gênero: documentário. Duração: 74 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. Ano de produção: 2019. Data de lançamento: 5 de junho de 2019, no Brasil. Idioma: português. Direção e roteiro: Josafá Veloso. Elenco: Eduardo Coutinho. Produção: Eugenio Puppo. Direção de fotografia: Ticão Okada. Montagem: Eugenio Puppo e Gustavo Vasconcelos. Música: Josafá Veloso. Produção: Heco Produções. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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domingo, 30 de agosto de 2026

.: Crítica: "As Cores do Tempo" é espiral constante de vivências geracionais


Por 
Mary Ellen Farias dos Santos, editora e criadora do Resenhando.com

Heranças sempre trazem labirintos a serem decifrados. Na produção francesa e belga "As Cores do Tempo" ("La Venue de L'avenir"), há complicações maravilhosas que, ao longo de 2 horas e 4 minutos, entrega poesia visual de perfeita contemplação. Exibido no 2º Festival de Cinema Europeu Imovision, o longa-metragem dirigido por Cédric Klapisch ("O Próximo Passo") entrega drama, enquanto transita pela comédia. O filme chega ao catálogo de streaming da Reserva Imovision, a maior plataforma de filmes independentes da América Latina.

Em "As Cores do Tempo" um grupo de mais de trinta herdeiros, no tempo presente, descobre estar conectado por laços familiares, uma vez que cada um é descendente de Adèle Meunier (Suzanne Lindon, de "Jovens Amantes"), mulher que deixou uma casa de família na Normandia, fechada desde 1944. Reunidos pelo interessado na compra do terreno com a antiga casa com previsão para ser estacionamento de um grande shopping, alguns herdeiros acabam se aproximando por conta de uma pintura que chama a atenção do professor Abdelkrim (Zinedine Soualem, de "Bonecas Russas").

No filme de fotografia belíssima e contemplativa, é um retrato impressionista que desenha a trama que envolve do início ao fim, incluindo o pintor Claude Monet e a prostituta Odette (Sara Giraudeau, de "O Destino de Haffmann") para formar a narrativa de Adèle Meunier. Ora saindo do presente para o passado, entrelaça duas linhas temporais (1895 e 2024/2025). 

Enquanto num tempo distante, uma jovem sai de um vilarejo, após a morte da avó, em busca da mãe na grande Paris, em tempos mais modernos, seus descendentes decidem o que será feito de seu imóvel fechado desde os anos 40. Com delicadeza, "As Cores do Tempo" constrói constantemente um espiral em que as vivências de gerações distintas se sobrepõem, relacionando a arte, a memória e a passagem do tempo. Imperdível!

Ficha técnica
"As Cores do Tempo" | La Venue de L'avenir (título original).
Gênero: Drama, Comédia.
Direção: Cédric Klapisch. Roteiro: Cédric Klapisch. Duração: 2h 06min. Distribuição: Imovision. Elenco: Suzanne Lindon: Adèle Meunier (1895), Paul Kircher: Anatole (2025), Vassili Schneider: Lucien, Abraham Wapler: Seb / Claude Monet (1874), Olivier Gourmet: Claude Monet (1895), Philippine Leroy-Beaulieu: Sarah Bernhardt, Vincent Pérez: Tio Théophraste, Cécile De France: Calixte de La Ferrière, Vincent Macaigne: Guy, Julia Piaton: Céline. Sinopse: O filme destaca a transição da ancestral Adèle, de 20 anos, que sai da Normandia para Paris no final do século XIX, conectando sua história com a de seus descendentes. A trama é descrita como um épico familiar com o estilo humanista do diretor. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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quinta-feira, 27 de agosto de 2026

.: "A Praga" estreia na Reserva Imovision como último horror inédito de Mojica

Considerado perdido por décadas e restaurado a partir de negativos encontrados no antigo escritório do cineasta, recupera um dos projetos mais singulares de José Mojica Marins

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Em maio de 2012, José Mojica Marins esteve em Curitiba para a estreia de um espetáculo inspirado na própria trajetória. Ao terminar a apresentação, diante da plateia, anunciou em alto e bom som: “'A Praga' vem aí!”. A promessa levaria mais de uma década para se concretizar. Mojica morreu em fevereiro de 2020, sem ver concluído o projeto que acompanhou durante tantos anos. Agora, "A Praga", último filme inédito dele como diretor, chega ao catálogo da Reserva Imovisiona maior plataforma de filmes independentes da América Latina, mais de quatro décadas depois das primeiras filmagens.

Na trama, Marina (Sílvia Gless) e Juvenal (Felipe Von Rhein) passeiam pelo campo e param diante da casa de uma senhora idosa para tirar fotografias. A brincadeira não termina bem. A mulher, interpretada por Wanda Kosmo, revela sua verdadeira identidade: é uma bruxa. Ao ser provocada, ela lança uma maldição sobre Juvenal. A transformação começa de maneira quase silenciosa, com pesadelos e mudanças de comportamento, mas rapidamente assume contornos cada vez mais perturbadores.

Uma ferida surge no corpo dele e passa a exigir carne crua para ser alimentada. O horror começa na deterioração física e psicológica do personagem. Juvenal perde gradualmente o domínio sobre o próprio corpo e tenta entender a origem daquela fome monstruosa. A punição sobrenatural transforma uma atitude aparentemente banal em um pesadelo que cresce até se tornar uma ameaça.



Uma praga que atravessou décadas, mudou de formato e quase desapareceu para sempre
A história por trás da produção poderia facilmente pertencer a um dos pesadelos criados pelo próprio Zé do Caixão. A ideia surgiu ainda nos anos 1960, quando "A Praga" foi concebido como um episódio de "Além, Muito Além do Além", programa de histórias macabras exibido pela TV Bandeirantes entre 1967 e 1968. O roteiro foi escrito por Rubens Francisco Lucchetti, um dos principais parceiros de Mojica na construção de seu universo fantástico. As gravações do programa, porém, desapareceram. O material da emissora foi perdido, mas a história ganhou uma nova vida em 1969, quando foi adaptada para os quadrinhos na revista "O Estranho Mundo de Zé do Caixão".

Mais de uma década depois, Mojica decidiu retomar a ideia. Em 1980, começou a filmar "A Praga" em Super-8. O dinheiro terminou antes que o projeto pudesse ser concluído e os negativos ficaram esquecidos durante anos. O material só seria reencontrado em 2007, quando o produtor Eugenio Puppo pesquisava o acervo de Mojica para uma retrospectiva. Os rolos estavam guardados no antigo escritório do cineasta, em São Paulo - dentro de um saco de lixo.

O reencontro com os negativos, no entanto, estava longe de significar o fim da jornada. As imagens não possuíam o registro sonoro necessário para recuperar os diálogos originais. A solução foi recorrer à leitura labial, realizada por Lakshmi Lobato, para reconstruir as falas e viabilizar uma nova dublagem. Débora Muniz assumiu a voz de Sílvia Gless, Eucir de Souza dublou Felipe Von Rhein e Luah Guimarãez emprestou a voz a Wanda Kosmo. O processo de restauração incluiu ainda correção de cores, tratamento de imagem, remasterização sonora, trilha musical e efeitos especiais.

Depois de anos de trabalho, a versão definitiva foi apresentada pela primeira vez no Festival de Cinema de Sitges, na Espanha, em outubro de 2021. A restauração preservou as características visuais do material encontrado, incluindo grãos, desgastes e outras marcas deixadas pelo tempo. A intenção foi recuperar o filme sem apagar a aparência de uma produção realizada em 1980.

Wanda Kosmo é uma das presenças mais marcantes da produção. Como a bruxa, a atriz e diretora concentra boa parte da atmosfera inquietante do filme. Felipe Von Rhein acompanha a degradação de Juvenal, enquanto Sílvia Gless interpreta Marina, testemunha próxima da transformação do companheiro. José Mojica Marins também aparece diante da câmera, mas não como protagonista. Zé do Caixão surge como anfitrião e narrador, conduzindo o espectador pela história. A escolha recupera uma característica de "O Estranho Mundo de Zé do Caixão", de 1968, também realizado em parceria com Lucchetti.


O filme que sobreviveu ao próprio criador e ganhou uma última chance de chegar ao público
O curta-metragem documental "A Última Praga de Mojica", de 17 minutos, acompanha o filme e ajuda a reconstituir essa trajetória improvável. Dirigido por Cédric Fanti, Eugenio Puppo, Matheus Sundfeld e Pedro Junqueira, reúne imagens de bastidores, depoimentos, registros das filmagens originais e reproduções da história em quadrinhos que esteve na origem do projeto. Depois da estreia em Sitges, a produção passou por eventos como Fantasporto e Festival do Rio, entre outros festivais dedicados ao cinema de gênero. 

O percurso de "A Praga" é tão extraordinário quanto o próprio filme. Nasceu para a televisão, ganhou os quadrinhos, foi retomado por Mojica em Super-8, ficou inacabado, desapareceu durante décadas e acabou reencontrado entre materiais guardados em um saco de lixo. Sobreviveu ao abandono e chegou ao público quando seu próprio criador já não estava mais aqui para vê-lo.

Mojica não chegou a assistir à chegada de "A Praga" ao público. O filme, porém, preserva elementos que atravessaram sua carreira: o sobrenatural, o grotesco, a provocação e uma certa disposição para transformar o cotidiano em pesadelo. Agora, disponível na Reserva Imovision, "A Praga" finalmente cumpre a promessa feita por Mojica em Curitiba. Mais de quatro décadas depois das primeiras filmagens, a praga saiu das sombras.

Ficha técnica
"A Praga" (Título original) | "A Peste" (Título em Portugal) | "The Plague" (Título no exterior)
Gênero: terror. Duração: aproximadamente 51 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 2021, a partir do material filmado originalmente em 1980. Data de lançamento: 2021, com estreia da versão definitiva no Festival de Cinema de Sitges; lançamento comercial brasileiro em 2023. Idioma: português. Direção: José Mojica Marins. Roteiro: Rubens F. Lucchetti. Elenco: Felipe Von Rhein, Sílvia Gless, Wanda Kosmo e José Mojica Marins. Distribuição no Brasil: Elo Studios. Streaming: Reserva Imovision. Cenas pós-créditos: não.Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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quarta-feira, 26 de agosto de 2026

.: Crítica: "Uma Infância Alemã" é história de amadurecimento e devoção


"Uma Infância Alemã"" pode ser assistido no site e aplicativo Reserva IMOVISION

Por Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.comEm maio de 2026

Em busca de realizar o desejo da mãe, garotinho Nanning (Jasper Billerbeck) descobre que além do rio há uma realidade ainda mais cruel e capaz de fazê-lo romper a inocência diante do recesso de itens comuns como a farinha de trigo. Ambientado na primavera de 1945, "Uma Infância Alemã" (Amrum), em cartaz na plataforma de streaming Reserva Imovision, apresenta uma aventura épica na ilha isolada de Amrum, no Mar do Norte.

O drama que acontece ainda nas semanas finais da Segunda Guerra Mundial, leva o menino de 12 anos que aguarda o retorno do pai do front, a protagonizar uma verdadeira jornada do herói com uma trajetória emocionante, que o faz caçar focas, pescar à noite, trabalhar no campo para sustentar a mãe grávida e até o faz cair no erro de cometer alguns delitos. 

O longa exibido no Festival de Cinema Europeu Imovision 2026, baseado em memórias reais que pincelam o fim da guerra e segredos familiares profundos, entrega uma perspectiva emocional e psicológica sobre a Segunda Guerra Mundial. Logo, "Uma Infância Alemã" é um retrato delicado sobre o amadurecimento diante da realidade, assim como o impacto do fascismo e do trauma por meio dos olhos de uma criança criada dentro da ideologia nazista.

"Uma Infância Alemã" (Amrum). Gênero: Drama. Direção: Fatih Akin. Roteiro: Fatih Akin e Hark Bohm. Duração: 1h 33 minutos. Classificação Indicativa: 14 anos. Distribuição: Imovision. Elenco: Laura Tonke, Jasper Billerbeck e Diane Kruger. Sinopse: drama histórico que acompanha a perda da inocência de um garoto durante o colapso do Terceiro Reich. 

Ficha técnica
"Uma Infância Alemã" | "Amrum" (título original)
Gênero: Drama. Direção: Fatih Akin. Roteiro: Fatih Akin e Hark Bohm. Duração: 1h 33 minutos. Classificação Indicativa: 14 anos. Distribuição: Imovision. Elenco: Laura Tonke, Jasper Billerbeck e Diane Kruger. Sinopse: drama histórico que acompanha a perda da inocência de um garoto durante o colapso do Terceiro Reich. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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Trailer de "Uma Infância Alemã"



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