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domingo, 21 de junho de 2026

.: "Mother’s Baby” questiona instinto materno e desmonta idealizações


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

“Mother’s Baby” estreia na plataforma de streaming Reserva Imovision apostando em um desconforto que não se dissipa quando o filme termina. Dirigido e coescrito pela austríaca Johanna Moder, o longa-metragem parte de um terreno conhecido - o desejo pela maternidade - para deslocá-lo a um território inquietante, em que o afeto e o estranhamento convivem sem qualquer garantia de reconciliação. Na trama, Julia (Marie Leuenberger), uma maestrina de 40 anos no auge da carreira, decide interromper a rotina profissional ao lado do parceiro Georg (Hans Löw) para realizar o sonho de ter um filho. 

A gravidez vem após um procedimento conduzido pelo enigmático Dr. Vilfort (Claes Bang), especialista em fertilidade que promete resultados com uma segurança quase clínica demais para ser confortável. O parto, porém, rompe qualquer expectativa de controle: o bebê é retirado às pressas, sem explicações claras, e devolvido à mãe já sob o peso de uma dúvida corrosiva.

Moder conduz o espectador por uma narrativa que se alimenta da instabilidade emocional da protagonista. Julia não reconhece o filho, mas não há histeria, nem gestos grandiosos. O que se instala é um distanciamento seco, persistente, que contamina o ambiente doméstico e fragiliza o casamento. A partir daí, o filme tensiona a percepção da realidade: há um erro concreto ou tudo se organiza dentro de uma experiência psíquica em colapso?

Exibido na competição oficial do Festival de Berlim, onde disputou o Urso de Ouro, o longa-metragem se insere em uma linhagem recente de filmes dirigidos por mulheres que encaram a maternidade sem idealizações. A própria Moder descreveu o projeto como um acerto de contas pessoal, interessado em desmontar a promessa de plenitude associada ao nascimento de um filho. Em entrevistas à imprensa europeia, a diretora afirmou que buscou deliberadamente o suspense como forma de traduzir a insegurança e o deslocamento vividos por muitas mulheres nesse período.

Marie Leuenberger segura o filme com uma atuação que aposta no mínimo. A personagem dela fala pouco, mas o incômodo aparece no jeito de olhar, no corpo que parece sempre um passo atrás, como se ela estivesse tentando ocupar um lugar que já não reconhece como seu. Claes Bang faz do médico uma presença que impõe respeito e estranha ao mesmo tempo, daqueles que parecem saber demais e explicar de menos. Já Hans Löw constrói um marido dividido: tenta estar por perto, mas nunca alcança de fato o que se passa com a mulher ao lado.

Filmado em Viena, Zurique e Hamburgo, com fotografia de Robert Oberrainer, o longa-metragem também chama atenção pela atmosfera controlada que contrasta com a crescente desordem interna da protagonista. A trilha de Diego Ramos Rodríguez acompanha esse deslocamento sem recorrer a excessos, reforçando a sensação de que algo está fora do lugar, ainda que ninguém consiga apontar exatamente o quê. O filme prefere deixar o espectador diante de um impasse que ecoa para além da tela: até que ponto a maternidade é instinto, construção ou imposição? E o que acontece quando esse vínculo não se estabelece como esperado? 


Ficha técnica
“Mother’s Baby” | "Bebê da Mamãe" (título em Portugal)
Gênero: drama, suspense. Duração: 99 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2025. Idioma: alemão. Direção: Johanna Moder. Roteiro: Johanna Moder, Arne Kohlweyer. Elenco: Marie Leuenberger, Hans Löw, Claes Bang, Julia Franz Richter. Distribuição no Brasil: Autoral Filmes. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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sábado, 20 de junho de 2026

.: Filme “Caso 137” revisita protestos e questiona o papel da polícia


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

O drama “Caso 137” estreia na plataforma de streaming Reserva Imovision com a assinatura firme do diretor alemão radicado na França Dominik Moll, que volta ao território policial depois do premiado "A Noite do Dia 12". Nesse novo longa-metragem, ele afina ainda mais o olhar para os mecanismos internos da polícia francesa ao acompanhar uma investigação conduzida por quem deveria vigiar a própria instituição: a IGPN, conhecida como “a polícia da polícia”.

A trama segue Stéphanie Bertrand (Léa Drucker), encarregada de apurar o caso de um jovem gravemente ferido durante um protesto em Paris. O episódio remete diretamente às manifestações dos coletes amarelos, entre 2018 e 2020, quando denúncias de uso excessivo da força ganharam repercussão internacional. O roteiro, assinado por Moll em parceria com Gilles Marchand, parte de um evento fictício, mas reproduz situações reais amplamente documentadas pela imprensa europeia, incluindo casos de manifestantes atingidos por balas de borracha, prática questionada por organismos de direitos humanos.

O filme teve estreia mundial no Festival de Cannes de 2025, onde disputou a Palma de Ouro e arrancou aplausos prolongados na sessão oficial. Depois, seguiu um percurso consistente em festivais e premiações, acumulando indicações importantes e consolidando o nome de Léa Drucker como peça central do projeto. A atriz foi reconhecida com o César de Melhor Atriz, reforçando o consenso crítico em torno da interpretação contida e precisa que ela entrega nesse filme.

Moll conduz a narrativa com rigor que lembra o documental. A câmera observa mais do que intervém, insistindo em salas de interrogatório, relatórios burocráticos e depoimentos que raramente se encaixam. Há um interesse claro em expor o funcionamento do sistema por dentro, sem atalhos dramáticos. O que se vê é um acúmulo de versões, tensões institucionais e pequenas fissuras que revelam o desgaste de uma estrutura que deveria garantir justiça, mas frequentemente se protege.

A investigação ganha densidade quando o caso deixa de ser apenas um número. A ligação pessoal da protagonista com a origem da vítima desloca o eixo do filme e coloca em jogo dilemas que não cabem em protocolos. Stéphanie não se transforma em heroína clássica; segue trabalhando, lidando com a rotina e negociando limites. Esse desenho evita idealizações fáceis e sustenta um retrato mais próximo da experiência concreta de quem opera dentro da máquina pública.

Outro ponto que chama atenção é a recusa em simplificar o conflito. O roteiro distribui responsabilidades e tensões entre diferentes lados: policiais pressionados, testemunhas desconfiadas, famílias feridas e um aparato jurídico que se move com lentidão Nos bastidores, em Cannes, o ator Théo Navarro-Mussy foi impedido de participar do tapete vermelho após acusações de violência sexual - decisão apoiada pela organização do festival e compreendida publicamente por Moll. O episódio acabou desviando parte da atenção midiática, ainda que não tenha afetado a recepção crítica do longa.

“Caso 137” trabalha com a frustração de processos que avançam sem necessariamente produzir respostas satisfatórias. A trilha discreta de Olivier Marguerit acompanha esse tom, quase imperceptível, deixando que o peso recaia sobre os diálogos e as lacunas institucionais, aquelas que se impõem pela impossibilidade de conclusão. O filme é um retrato incômodo de um sistema que investiga a si mesmo, encontra limites para agir e, ainda assim, falha.


Ficha técnica
“Caso 137” | “Dossier 137” (título original) | “Dossiê 137” (título em Portugal)
Gênero: policial, drama. Duração: 1h56min. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2025. Idioma: francês. Direção: Dominik Moll. Roteiro: Dominik Moll e Gilles Marchand. Elenco: Léa Drucker, Jonathan Turnbull, Mathilde Roehrich, Guslagie Malanda, Stanislas Merhar. Distribuição no Brasil: Autoral Filmes. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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sexta-feira, 19 de junho de 2026

.: Longa francês, “E Seus Filhos Depois Deles” expõe juventude à deriva


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

“E Seus Filhos Depois Deles” chega na plataforma de streaming Reserva Imovision carregando o peso de uma origem literária premiada e o fôlego de uma adaptação ambiciosa. Dirigido pelos irmãos Ludovic e Zoran Boukherma, o longa francês transforma o romance homônimo de Nicolas Mathieu - vencedor do Prix Goncourt - em uma narrativa de formação.

Ambientado no leste da França, entre 1992 e o fim da década, o filme acompanha Anthony (Paul Kircher) e seus arredores ao longo de quatro verões que moldam sua passagem da adolescência à vida adulta. O ponto de partida é simples: tédio, um lago, uma garota. O que se segue, porém, é um encadeamento de escolhas impulsivas que escancaram tensões familiares, disputas de território e um sentimento difuso de estagnação social. 

Os Boukherma filmam esse universo com olhar atento ao detalhe cotidiano. A fotografia de Augustin Barbaroux encontra beleza nas ruínas industriais e na pele suada dos personagens, enquanto a trilha sonora mergulha nos anos 1990 com precisão afetiva, costurando referências que vão do pop ao rock da época. Com financiamento robusto, incluindo parcerias com grandes players europeus, o filme percorre diferentes locações e períodos, mantendo uma coerência estética que dialoga com o realismo do livro.

Exibido na competição do Festival de Veneza, “E Seus Filhos Depois Deles” rendeu a Paul Kircher o Prêmio Marcello Mastroianni, dedicado a jovens atores promissores. O reconhecimento reforça a aposta do filme em um elenco que equilibra nomes experientes, como Gilles Lellouche e Ludivine Sagnier, com rostos em ascensão. Há ainda participações que ampliam o interesse do público atento ao cinema francês contemporâneo, como Raphaël Quenard.

Ao adaptar um romance marcado por sua densidade social, os Boukherma optam por uma narrativa que privilegia a memória sensorial da juventude: o calor, o desejo, a frustração. Nem sempre o resultado alcança a complexidade do texto original, mas há consistência na maneira como o filme constrói seu retrato de uma geração que cresce entre promessas quebradas e horizontes estreitos.

Ficha técnica
“E Seus Filhos Depois Deles” | “Leurs Enfants Après Eux” (título original) | “Os Seus Filhos Depois Deles” (título em Portugal)
Gênero: drama. Duração: 2h21min. Classificação indicativa: 18 anos. Ano de produção: 2024. Idioma: francês. Direção: Ludovic Boukherma e Zoran Boukherma. Roteiro: Ludovic Boukherma, Zoran Boukherma, Nicolas Mathieu. Elenco: Paul Kircher, Angelina Woreth, Sayyid El Alami, Gilles Lellouche, Ludivine Sagnier. Distribuição no Brasil: Imovision. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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domingo, 14 de junho de 2026

.: Filme “As Pessoas ao Lado” observa a política pela fresta do cotidiano


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

A estreia de “As Pessoas ao Lado” na plataforma de streaming Reserva Imovision recoloca em circulação um diretor que conhece como poucos as zonas de fricção entre o íntimo e o político. Assinado por André Téchiné, veterano do cinema francês, o longa adapta tensões contemporâneas para um espaço reduzido: o convívio entre vizinhos. Lucie (Isabelle Huppert) trabalha na polícia científica e leva uma vida contida A rotina se altera com a chegada de um casal jovem e de sua filha ao condomínio. A aproximação com Julia (Hafsia Herzi) nasce sem esforço, mas logo esbarra na figura de Yann (Nahuel Pérez Biscayart), artista e ativista com antecedentes criminais e histórico de enfrentamento à polícia. A partir desse dado, o filme constrói um impasse que não se resolve com facilidade: como sustentar vínculos afetivos quando a biografia do outro confronta aquilo que você representa?

Téchiné, que já havia explorado relações atravessadas por dilemas sociais em títulos como “Quando os Homens Caem” e “Os Juncos Selvagens”, aposta aqui em uma narrativa de baixa voltagem externa e alta combustão interna. Não há espetáculo, nem concessão a soluções fáceis. O conflito se infiltra em gestos cotidianos, em silêncios carregados e em escolhas que parecem pequenas, mas reorganizam tudo ao redor.

Selecionado para a Mostra Panorama do Festival de Berlim 2024, o longa chamou atenção da crítica internacional justamente por recusar o caminho mais óbvio. O The Hollywood Reporter destacou o embate entre compromissos profissionais e afetivos como eixo central, enquanto o Screen Daily apontou a ausência de pirotecnia como uma escolha consciente: trata-se de um filme policial sem tiros, interessado menos no crime do que nas pessoas que orbitam suas consequências.

Isabelle Huppert, presença constante no cinema de autor europeu, sustenta o filme com uma composição econômica, quase rígida, que vai cedendo aos poucos. Hafsia Herzi imprime a Julia uma mistura de exaustão e desejo de pertencimento que poderia render ainda mais se o roteiro avançasse com maior contundência. Já Nahuel Pérez Biscayart constrói um Yann ambíguo, distante de caricaturas.

Se há um ponto de atrito, ele surge na montagem. A progressão dramática carece de maior densidade entre as cenas. Os acontecimentos se sucedem sem que o impacto reverbere com a força necessária, o que dilui parte do potencial do conflito. Ainda assim, o filme encontra força na recusa de simplificar personagens em rótulos previsíveis. “Les gens d’à côté”, no título original, aponta para aquilo que está ao alcance do olhar, mas nem sempre é compreendido. Téchiné filma uma França tensionada sem recorrer ao discurso inflamado. Prefere observar. E, nesse gesto, encontra um cinema que provoca mais pelo desconforto do que pela afirmação.


Ficha técnica
“As Pessoas ao Lado” | “Les Gens D’À Côté” (título original)
Gênero: drama. Duração: 85 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2024. Idioma: francês. Direção: André Téchiné. Roteiro: André Téchiné, Régis de Martrin-Donos. Elenco: Isabelle Huppert, Hafsia Herzi, Nahuel Pérez Biscayart, Romane Meunier. Distribuição no Brasil: Imovision (Reserva Imovision). Cenas pós-créditos: não Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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domingo, 7 de junho de 2026

.: "Contos Imorais" desafia o pudor e expõe as rachaduras da moral ocidental


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Lançado em meio às transformações culturais que marcaram a década de 1970, o filme "Contos Imorais" está em cartaz na plataforma de streaming Reserva Imovision como uma obra capaz de provocar discussões que permanecem surpreendentemente atuais. Dirigido pelo cineasta polonês radicado na França Walerian Borowczyk, o longa-metragem antológico reúne quatro histórias ambientadas em épocas distintas para investigar os limites entre desejo, religião, poder e convenções sociais.

Conhecido pela trajetória no cinema experimental e na animação, Borowczyk encontrou em "Contos Imorais" um ponto de inflexão na carreira. O filme ampliou a notoriedade internacional dele ao combinar apuro visual, referências literárias e um erotismo frontal que causou escândalo em diversos países. A produção integrou a Seleção Oficial do Festival Internacional de Cinema de Locarno e conquistou, posteriormente, o Prix de l'Âge d'Or, premiação ligada ao legado surrealista europeu.

A estrutura do filme percorre séculos distintos. Na primeira história, um jovem e sua prima experimentam a descoberta sexual em uma praia isolada. Em seguida, uma adolescente francesa mistura fervor religioso e fantasias íntimas enquanto cumpre um castigo. O terceiro segmento revisita a figura lendária da condessa húngara Erzsébet Báthory, associada a histórias de crueldade e obsessão pela juventude. O encerramento leva o espectador à Itália renascentista para acompanhar uma versão particularmente transgressora da família Bórgia, liderada por Lucrécia, seu irmão Cesare e o papa Alexandre VI.

O roteiro é assinado por Walerian Borowczyk com contribuições inspiradas na obra do escritor surrealista André Pieyre de Mandiargues. A narrativa dialoga com fontes literárias, lendas históricas e relatos que desafiam os limites entre realidade e imaginação. Essa combinação ajuda a explicar por que o filme continua sendo objeto de estudo tanto por pesquisadores do cinema quanto por especialistas em surrealismo e representação da sexualidade.

No elenco, destacam-se Lise Danvers, Fabrice Luchini - que anos depois se tornaria um dos grandes nomes do cinema francês -, Charlotte Alexandra, Paloma Picasso, filha do pintor Pablo Picasso, e Florence Bellamy. Cada segmento possui identidade própria, mas todos compartilham a mesma intenção de questionar os códigos morais que, ao longo da história, tentaram regular os corpos e os desejos.

Uma das curiosidades mais conhecidas envolve o episódio de Erzsébet Báthory. Para criar o célebre banho de sangue da condessa, a produção utilizou cerca de 30 galões de sangue suíno verdadeiro, uma decisão que contribuiu para a reputação extrema da obra. Outra particularidade é que o projeto originalmente possuía um quinto segmento, "La Bête". O episódio acabou removido da montagem principal e posteriormente expandido para se tornar o cultuado longa "A Besta" (1975), outro título fundamental da filmografia de Borowczyk.

O impacto de "Contos Imorais" jamais se limitou às cenas de nudez que escandalizaram plateias nos anos 1970. O filme permanece relevante porque encara a moralidade como construção histórica, variável e frequentemente contraditória. Entre o refinamento plástico e a provocação deliberada, Borowczyk desafia o espectador a observar como diferentes sociedades condenaram desejos que, muitas vezes, coexistiam discretamente nos bastidores do poder, da religião e da aristocracia.

Décadas após sua estreia, "Contos Imorais" continua dividindo opiniões. Alguns enxergam uma obra de arte ousada; outros, um exercício de provocação levado ao limite. O fato é que poucos filmes do período conseguiram preservar tamanho poder de inquietação. Essa capacidade de desconfortar explica a permanência do filme no imaginário do cinema europeu.

Ficha técnica
"Contos Imorais" | "Contes Immoraux" (título original)
Gênero: drama, erótico, antologia, romance. Duração: 125 minutos (2h05). Classificação indicativa: 18 anos. Ano de produção: 1973. Idioma: francês, com trechos em italiano e húngaro. Direção: Walerian Borowczyk. Roteiro: Walerian Borowczyk, baseado em histórias de André Pieyre de Mandiargues. Elenco: Lise Danvers, Fabrice Luchini, Charlotte Alexandra, Paloma Picasso, Florence Bellamy, Pascale Christophe, Marie Forså. Distribuição no Brasil: sem distribuidora nacional registrada atualmente; lançado nos cinemas brasileiros em 20 de setembro de 1982. Cenas pós-créditos: não.

sábado, 6 de junho de 2026

.: "Incêndios" mergulha na guerra e em um dos maiores segredos do cinema


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Poucos filmes conseguem provocar tamanho impacto emocional quanto "Incêndios", filme em cartaz na plataforma de streaming Reserva Imovision. Lançado em 2010 e dirigido por Denis Villeneuve, o drama canadense chegou aos cinemas brasileiros em fevereiro de 2011 e rapidamente conquistou espaço entre as produções mais admiradas do século. Antes de se tornar um dos cineastas mais celebrados de Hollywood com obras como "A Chegada", "Blade Runner 2049" e os dois capítulos de "Duna", Villeneuve entregou uma narrativa poderosa, construída sobre perdas, memória, violência e heranças que atravessam gerações.

Baseado na peça homônima do escritor e dramaturgo Wajdi Mouawad, o longa acompanha os irmãos gêmeos Jeanne e Simon Marwan, interpretados por Mélissa Désormeaux-Poulin e Maxim Gaudette. Após a morte da mãe, Nawal Marwan, vivida de forma impressionante por Lubna Azabal, os dois recebem uma missão inesperada: localizar um pai que acreditavam estar morto e um irmão cuja existência desconheciam. A investigação conduz os personagens ao Oriente Médio e, pouco a pouco, revela um passado marcado pela guerra e por acontecimentos capazes de redefinir tudo o que julgavam saber sobre a própria família.

O roteiro, assinado por Denis Villeneuve e Valérie Beaugrand-Champagne, organiza a narrativa em diferentes tempos históricos sem perder a clareza dramática. Cada descoberta amplia a dimensão da tragédia e transforma a busca dos irmãos em uma reflexão profunda sobre identidade, culpa, perdão e sobrevivência. A força do texto encontra apoio em uma direção segura, que sabe dosar tensão e emoção sem recorrer a atalhos fáceis.

Uma das curiosidades mais comentadas sobre a produção está na inspiração indireta em acontecimentos ligados à Guerra Civil Libanesa. Embora a história não adapte fatos reais específicos, estudiosos e críticos apontam semelhanças com a trajetória da ativista libanesa Souha Bechara, presa e torturada durante anos em uma penitenciária do sul do Líbano. Essa aproximação ajuda a compreender a intensidade política e humana presente no filme.

A excelência técnica também contribui para o prestígio duradouro da obra. A fotografia de André Turpin alterna paisagens frias e tons áridos para reforçar os contrastes geográficos e emocionais da trama. Já a trilha sonora de Grégoire Hetzel acompanha a jornada sem excessos, permitindo que o peso dos acontecimentos encontre espaço para ressoar por conta própria.

O reconhecimento internacional veio rapidamente. "Incêndios" recebeu indicação ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira e consolidou Denis Villeneuve como um dos realizadores mais talentosos de sua geração. Mais de uma década depois, continua sendo apontado por parte da crítica e do público como o trabalho mais contundente de sua carreira. Em tempos de narrativas descartáveis e consumo acelerado, "Incêndios" permanece intacto, preservando a capacidade de surpreender, inquietar e emocionar com a mesma intensidade de sua estreia.


Ficha técnica
"Incêndios" | "Incendies" (título original) | "Incendies - A Mulher Que Canta" (título em Portugal)
Gênero: drama. Duração: 2h10m. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 2010. Idioma: francês e árabe. Direção: Denis Villeneuve. Roteiro: Denis Villeneuve e Valérie Beaugrand-Champagne, baseado na peça de Wajdi Mouawad. Elenco: Lubna Azabal, Mélissa Désormeaux-Poulin, Maxim Gaudette e Rémy Girard. Distribuição no Brasil: Imovision. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.

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quinta-feira, 4 de junho de 2026

.: "Rebelião Silenciosa" fala sobre o peso do silêncio e a força da emancipação


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

A aparente calmaria das paisagens bucólicas da Suíça historicamente serviu como uma espécie de biombo para esconder tensões morais e contradições profundas. É justamente nesse cenário de isolamento e aparente virtude que se constrói a narrativa de "Rebelião Silenciosa", o contundente longa-metragem de estreia da diretora Marie-Elsa Sgualdo, que estreia na plataforma de streaming Reserva Imovision. Ambientado no ano de 1943, em meio ao turbilhão da Segunda Guerra Mundial, o drama evita as frentes de batalha tradicionais para focar em um front íntimo, doloroso e profundamente político: o corpo e a autonomia de uma jovem de 15 anos.

A trama acompanha Emma, interpretada com uma vivacidade impressionante por Lila Gueneau, cuja atuação contida e emocionalmente inteligente rendeu elogios da imprensa internacional e o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cinema de Fargo. Emma é inicialmente descrita como uma adolescente exemplar na pequena comunidade rural protestante onde vive. No entanto, sua visão de mundo começa a ruir quando ela testemunha a vila recusar abrigo a refugiados franceses que fogem do conflito. O senso de justiça da jovem é testado ao limite quando ela mesma se torna vítima de uma violência sexual brutal. Grávida após o estupro, Emma se recusa a aceitar o papel de mártir ou de vergonha comunitária que a hipocrisia moral local tenta lhe impor.

O roteiro, assinado por Nadine Lamari, Pauline Ouvrard e pela própria diretora, evita o melodrama. A narrativa prefere acompanhar o processo de reconstrução dessa jovem, transformando um trauma devastador no elemento catalisador de sua emancipação e autodeterminação. Enquanto o vilarejo se fecha em dogmas e preconceitos, Emma busca forças para trilhar o próprio caminho e enfrentar as expectativas sufocantes daquela sociedade patriarcal.

A produção é da Suíça, Bélgica e França, com locações que exploram as paisagens do cantão de Vaud, incluindo a histórica comuna de Romainmôtier, além de Goumoëns e Colombier. A escolha desses cenários rurais funciona como um contraponto visual perfeito para o sufocamento psicológico vivido pela protagonista. A primorosa direção de fotografia de Benoît Dervaux e a montagem precisa de Karine Sudan conferem ao filme uma sofisticação estética que não passou despercebida pela crítica especializada, garantindo ao longa os prêmios de Melhor Fotografia e Melhor Montagem no prestigiado Swiss Film Awards de 2026, premiação na qual a obra figurou como uma das grandes líderes com sete indicações, incluindo Melhor Filme e Melhor Roteiro.

Após uma elogiada estreia mundial na mostra Venice Spotlight do 82º Festival Internacional de Cinema de Veneza em setembro de 2025, o filme percorreu um circuito internacional robusto, passando por festivais em Sevilha, Palm Springs, Cairo e Estocolmo. A recepção crítica destacou a sutileza com que Marie-Elsa Sgualdo aborda os direitos das mulheres na década de 1940, construindo um retrato de época que conversa diretamente com as discussões contemporâneas sobre feminismo, corpo e consentimento.

Ficha técnica
"Rebelião Silenciosa" | "À bras-le-corps" (título original)

Gênero: Drama / História. Duração: 96 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2025. Idioma: francês / alemão. Direção: Marie-Elsa Sgualdo. Roteiro: Nadine Lamari, Pauline Ouvrard e Marie-Elsa Sgualdo. Elenco: Lila Gueneau, Grégoire Colin, Thomas Doret, Aurélia Petit, Sandrine Blancke, Sasha Gravat Harsch, Cyril Metzger. Distribuição no Brasil: Imovision. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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quarta-feira, 3 de junho de 2026

.: O fantasma da autocrítica ganha voz e traço em "Todo Mundo Ama Jeanne"


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

O cinema francês sempre teve uma aptidão singular para extrair graça do desespero, e a diretora Céline Devaux abraça essa tradição com uma ousadia visual refrescante. Em cartaz estreia na plataforma de streaming Reserva Imovision, a comédia "Todo Mundo Ama Jeanne" equilibra as dores do luto e do fracasso financeiro sob uma ótica inesperadamente leve. O longa-metragem acompanha Jeanne, interpretada por Blanche Gardin, uma empresária do ramo ecológico que vê seu projeto revolucionário de despoluição marinha afundar sob os olhares do público. Falida, cheia de dívidas e assombrada pelo recente suicídio da mãe, ela se vê obrigada a viajar para Lisboa com o objetivo de vender o apartamento da família.

A viagem ganha contornos de humor absurdo logo no aeroporto, quando Jeanne é abordada por Jean, papel de Laurent Lafitte. O sujeito é um antigo colega de escola de quem ela não guarda a menor lembrança, mas que se revela uma figura inconveniente, invasiva e dotada de uma excentricidade irresistível. Em solo português, a protagonista ainda precisa lidar com a reaparição de um antigo namorado, vivido por Nuno Lopes, enquanto tenta encontrar forças para arrumar o imóvel repleto de memórias dolorosas. A grande sacada da diretora, que estreia longas-metragens com esse filme, é dar vida aos pensamentos intrusivos de Jeanne por meio de pequenas inserções em animação. Um fantasminha cabeludo, desenhado e dublado pela própria cineasta, surge na tela para verbalizar as inseguranças e as autocríticas mais cruéis da personagem.

A inspiração para o roteiro nasceu de observações reais de Céline Devaux durante suas viagens a Portugal em meados de 2010, no auge da crise econômica europeia, quando viu amigos se desfazendo de patrimônios devido à inflação sufocante. A diretora revelou à imprensa que decidiu colocar na tela os seus maiores temores em relação ao futuro do planeta e ao luto, transformando temas densos em algo deliberadamente estranho e divertido. Outro ponto que chama a atenção na estrutura narrativa é a inversão do clássico arquétipo cinematográfico conhecido como Manic Pixie Dream Girl - aquela personagem feminina excêntrica que surge apenas para salvar o protagonista masculino de sua apatia. Laurent Lafitte assume esse papel de agente do caos terapêutico, usando a falta de noção para empurrar Jeanne de volta à vida.

Exibido originalmente na prestigiada Semana da Crítica do Festival de Cannes, o filme chama a atenção pela inventividade, embora divida opiniões quanto ao ritmo. Para parte da crítica especializada, o contraste entre o marasmo apático da atuação de Blanche Gardin e a vivacidade das animações cria um desequilíbrio na tela, fazendo com que o longa por vezes flerte com a superfície dos problemas que propõe debater. Ainda assim, a produção se destaca como um exercício criativo de empatia, no qual os coadjuvantes de peso, como a veterana atriz suíça Marthe Keller no papel da mãe falecida, garantem sustentação a uma comédia dramática que passa longe de ser convencional.


Ficha Técnica
“Todo Mundo Ama Jeanne” | "Tout le Monde Aime Jeanne" (título original) | "Toda a gente gosta de Jeanne" (em Portugal)
Gênero: comédia, drama, romance. Duração: 95 minutos.Classificação indicativa: Não recomendado para menores de 14 anos Ano de produção: 2022 (lançamento no Brasil em 2024). Idioma: francês (com trechos em português). Direção e roteiro: Céline Devaux. Elenco: Blanche Gardin, Laurent Lafitte, Nuno Lopes, Marthe Keller, Maxence Tual. Distribuição no Brasil: Imovision. Cenas pós-créditos: não.

 nesta quinta-feira, dia 21 de maio, como uma obra rara que ultrapassa o objeto imediato - a gastronomia - para tocar em algo mais profundo: a ética do trabalho, a obsessão pela excelência e o peso silencioso da herança. Dirigido e roteirizado por David Gelb, o filme acompanha o cotidiano de Jiro Ono, mestre octogenário que transformou um balcão de dez lugares escondido em uma estação de metrô de Tóquio em um dos restaurantes mais reverenciados do mundo, agraciado com três estrelas do guia Michelin.


Gelb inicialmente concebeu o projeto como um panorama mais amplo sobre diferentes sushimen, algo que ele próprio definiu como um “Planeta Sushi”, em referência à estética grandiosa das produções da BBC. O encontro com Jiro, no entanto, deslocou o eixo do filme: não havia mais interesse em diversidade de estilos, mas na singularidade de um homem que, aos 85 anos, ainda repetia os mesmos gestos com a precisão de quem persegue um ideal inalcançável. 

A decisão deu ao documentário uma espinha narrativa mais íntima, centrada também na relação com o filho mais velho, Yoshikazu, destinado a herdar não apenas o restaurante Sukiyabashi Jiro, mas o fardo de corresponder a um padrão quase inatingível. O filme constrói sua força na repetição - tanto temática quanto estética. A trilha sonora, que inclui composições de Philip Glass, Tchaikovsky e Max Richter, ecoa a rotina do protagonista: ciclos que se reiteram, mas nunca são idênticos. Há, nisso, uma espécie de metáfora sonora para o próprio conceito de aperfeiçoamento contínuo que orienta Jiro. 

A câmera de Gelb, por sua vez, privilegia closes e movimentos lentos, quase reverenciais, que transformam o preparo do sushi em um ritual de minúcias. Não se trata apenas de comida, mas de um processo que começa na escolha rigorosa dos fornecedores - muitos dos quais se orgulham de servir exclusivamente ao restaurante - e culmina em um gesto aparentemente simples: servir.

Entre as curiosidades reveladas, uma chama atenção pela precisão quase científica do método: o sushi ideal deve equilibrar temperaturas distintas - o arroz ligeiramente aquecido à temperatura corporal e o peixe em temperatura ambiente. Pequenos detalhes como esse ajudam a compreender por que a excelência, aqui, não é um discurso, mas uma prática obsessiva. O próprio Jiro sintetiza essa filosofia em uma frase que atravessa o filme: “Eu faço a mesma coisa repetidamente, melhorando pouco a pouco”

A recepção crítica internacional confirma o impacto da obra. Com 99% de aprovação no Rotten Tomatoes e avaliações majoritariamente favoráveis no Metacritic, o documentário foi celebrado não apenas como um retrato gastronômico, mas como uma reflexão sobre disciplina e propósito. O crítico Roger Ebert, em uma de suas últimas análises marcantes, descreveu o filme como um estudo quase enigmático de um homem cuja vida parece inteiramente consumida por sua arte - uma devoção que levanta questões incômodas sobre sacrifício, realização e limites pessoais.

Exibido inicialmente no Festival de Tribeca em 2011, “Jiro Sonha com Sushi” também encontrou um público mais amplo ao ser disponibilizado em plataformas de streaming, consolidando-se como um dos documentários gastronômicos mais influentes da última década. Ainda que se passe em um espaço minúsculo - um restaurante sem luxo aparente e com poucos assentos --, o filme expande as fronteiras para discutir algo universal: o que significa dedicar uma vida inteira a fazer uma única coisa, e fazê-la melhor do que qualquer outro.


Ficha técnica
“O Sushi dos Sonhos de Jiro” | “Jiro Dreams of Sushi” (título original)
Gênero: Documentário. Duração: 82 min. Classificação indicativa: Livre. Ano de produção: 2011. Idioma: Japonês. Direção: David Gelb. Roteiro: David Gelb. Elenco: Jiro Ono, Yoshikazu Ono, Masuhiro Yamamoto. Distribuição no Brasil: (varia por relançamento/exibição). Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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A equipe do Resenhando.com acompanha os filmes por meio da plataforma de streaming Reserva Imovision, dedicada ao cinema independente e autoral. Para acessar o catálogo completo, conferir novidades e realizar sua assinatura, o aplicativo da plataforma ou o visite o site oficial neste link. A Reserva Imovision reúne filmes e séries cuidadosamente selecionados, ampliando o acesso a obras que valorizam a diversidade cultural, a reflexão e experiências cinematográficas diferenciadas. 
Você pode assinar a plataforma de streaming Reserva Imovision neste link.


segunda-feira, 1 de junho de 2026

.: “O Fantasma do Futuro”, a animação que redefiniu o preço da evolução


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Há obras que parecem esculpir os contornos do que se passa a entender como realidade. Quando a animação japonesa "O Fantasma do Futuro" estreou nos cinemas em novembro de 1995, o diretor Mamoru Oshii não estava apenas entregando mais um produto de entretenimento para as massas ávidas por tecnologia. Ele estava injetando um ensaio existencialista profundo na espinha dorsal da cultura pop global. Agora em cartaz na plataforma de streaming Reserva Imovision, o longa-metragem fincou os pés no topo do panteão cyberpunk, ao lado de gigantes como "Akira" e "Blade Runner", tornando-se a fundação estética e conceitual que os irmãos Wachowski abertamente clonaram para dar vida à trilogia "Matrix".

A trama, ambientada em 2029, acompanha a Major Motoko Kusanagi, uma agente cibernética líder da unidade de serviço secreto Esquadrão Shell (a Seção 9). Em um Japão hiperinformatizado, onde ciber-cérebros se conectam diretamente a redes globais, a linha entre a biologia e o silício foi praticamente extinta. Motoko é o ápice dessa transição: uma casca inteiramente artificial que abriga uma semente de consciência. A caçada ao Mestre das Marionetes, um hacker misterioso capaz de invadir mentes alheias e reescrever memórias, transforma-se rapidamente em um espelho incômodo para as próprias angústias da protagonista. O roteiro, estruturado por Kazunori Itô a partir do mangá original de Masamune Shirow, mergulha em diálogos contemplativos e pausas silenciosas que evocam a psicologia analítica de Carl Jung e os limites da individualidade.

O grande triunfo que a crítica especializada e os registros históricos da grande imprensa sempre destacam reside no pioneirismo técnico e sensorial da produção. Foi ali que a animação tradicional em celuloide encontrou a computação gráfica nascente de forma orgânica, gerando o famoso efeito de camuflagem termo-óptica que fascinou plateias pelo mundo. 

Somando-se a isso, a trilha sonora de Kenji Kawai - que funde coros folclóricos búlgaros a percussões tradicionais japonesas e sintetizadores - confere ao filme uma atmosfera de ritual religioso e melancólico. O elenco de dublagem original, encabeçado pelas vozes marcantes de Atsuko Tanaka, Akio Ôtsuka e Kôichi Yamadera, dá peso e frieza cirúrgica a esses personagens que vagam por uma floresta de concreto chuvosa e decadente. Três décadas depois, a obra de Oshii permanece dolorosamente atual, lembrando-nos de que a busca pela alma humana continua sendo a nossa tecnologia mais complexa.


Ficha técnica
“O Fantasma do Futuro” | "Kôkaku Kidôtai" (título original)

Gênero: ficção científica, animação, ação. Duração: 83 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1995. Idioma: japonês, inglês, espanhol. Direção: Mamoru Oshii. Roteiro: Kazunori Itô e Masamune Shirow. Elenco: Atsuko Tanaka, Akio Ôtsuka, Kôichi Yamadera, Tamio Ôki, Iemasa Kayumi, Tesshô Genda, Mitsuru Miyamoto, Shinji Ogawa. Distribuição no Brasil: Flashstar Home Vídeo. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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quinta-feira, 21 de maio de 2026

.: Vencedor em Berlim, drama revela como progresso redesenha as relações


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Vencedor do Urso de Prata de Melhor Direção no Festival de Berlim, o filme “Living the Land” chega ao Brasil em estreia exclusiva na plataforma de streaming Reserva Imovision, nesta sexta-feira, dia 22 de maio, interessado em preservar gestos e modos de vida prestes a desaparecer. Dirigido e roteirizado pelo chinês Huo Meng, o longa-metragem mergulha na China rural de 1991 para observar, com rigor quase etnográfico, o impacto das transformações socioeconômicas sobre uma comunidade agrícola.

A trama acompanha Chuang (interpretado por Shang Wang), um menino de dez anos que permanece na aldeia enquanto parte da família migra para os centros urbanos. Ao redor dele, o vilarejo de Bawangtai se reorganiza diante da modernização que chega em ondas: tecnologia, industrialização e novas formas de trabalho começam a redesenhar a paisagem humana e simbólica. No elenco, destacam-se ainda Chuwen Zhang e Zhang Yanrong, que ajudam a compor um mosaico geracional em que tradição e ruptura coexistem em tensão permanente.

Huo Meng, que já havia chamado atenção com seu longa de estreia “Crossing the Border - Zhaoguan”, aprofunda aqui um cinema de observação, marcado pelo uso de não-atores e por uma encenação que dilui as fronteiras entre ficção e documentário. A câmera de Guo Daming percorre os espaços com discrição e horizontalidade, como se recusasse qualquer hierarquia dramática: tudo importa, o plantio, o luto, o casamento, o trabalho coletivo. 

A produção teve estreia mundial na competição oficial do Festival Internacional de Cinema de Berlim de 2025, onde rendeu a Huo Meng o Urso de Prata de Melhor Direção, reconhecimento que consolidou o filme no circuito internacional. Desde então, “Living the Land” vem acumulando recepção crítica amplamente positiva, com 100% de aprovação no Rotten Tomatoes e elogios de veículos como The Hollywood Reporter, que destacou a precisão visual da obra, e Screen Daily, que a classificou como “imersiva e ambiciosa”.

Há também um componente autobiográfico que fica evidente o projeto. O diretor afirmou que buscava retratar o choque entre políticas coletivistas e tradições milenares, além de evidenciar as pressões - sobretudo em relação às mulheres - em um contexto de transição abrupta. Esse olhar se materializa em personagens como Xiuying, cuja trajetória evidencia o peso das estruturas familiares e sociais. Sem concessões ao ritmo acelerado do cinema comercial, “Living the Land” aposta na duração - são mais de duas horas - como estratégia de imersão. 


Ficha técnica
“Living the Land” | “Sheng Xi Zhi Di” (título original) | “Vivendo a Terra” (título em Portugal)
Gênero: Drama. Duração: 2h15. Classificação indicativa: 12 anos. Ano de produção: 2025. Idioma: mandarim. Direção: Huo Meng. Roteiro: Huo Meng. Elenco: Shang Wang, Chuwen Zhang, Zhang Yanrong. Distribuição no Brasil: Autoral Filmes. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.

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quarta-feira, 20 de maio de 2026

.: Crítica: "Omen" é história de choque cultural em busca por pertencimento


"Omen" pode ser assistido no site e aplicativo Reserva IMOVISION

Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em maio de 2026


O primeiro longa congolês a estrear em uma mostra competitiva do Festival de Cannes, vencedor do prêmio Nova Voz, o drama fantástico "Omen" (Augure), é um mergulho em histórias distintas que se assemelham quando apresentadas em quatro capítulos que permeiam crenças que fortalecem feridas coloniais. De estética exuberante, repleta de simbolismos e sequências fascinantes, o filme que soma 1 hora e 30 minutos é uma crítica social onírica, que transita em contos de fadas, imprimindo a dinâmica do exílio, luto e desconexão com o próprio povo.

A narrativa de choque cultural pautada nas vidas de cultura africana, escrita e dirigida pelo artista belga-congolês Baloji apresenta histórias paralelas que se conectam por meio dos personagens Koffi (Marc Zinga), o rejeitado pela mãe na juventude por nascer com uma grande marca de nascença, Paco (Marcel Otete Kabeya), o menino de rua que lidera uma gangue que veste em roupas rosa e está em luto pela morte da irmã, Tshala (Eliane Umuhire), a irmã de Koffi, adepta do poliamor que se prepara para imigrar para a África do Sul e Mujila (Yves-Marina Gnahoua), mãe de Koffi, uma figura forte e controversa.

Ainda que Koffi seja introduzido primeiro na trama, a força da matriarca da família, Mama Mujila, o pilar da família, desenha o rumo do filho, Koffi que volta da Bélgica para a República Democrática do Congo acompanhado de sua noiva grávida. Sem conhecer a própria cultura devido a seu banimento, a relação conturbada com a mãe que o mandou para viver longe por considerá-lo feiticeiro. No entanto, é o desconhecido que conecta mãe, filho, filha (Tshala) e um garoto de rua. Todos marcados como um zabolo (feiticeiro maligno na língua suaíli).

Aliás, o ponto central de "Omen" (Augure) está no estigma de cada personagem ser rotulado pela sociedade local tradicional como "diabo" ou portador do "sinal do diabo". De um ritual para o descrédito instantâneo no outro seguindo uma crença para a anulação de cada indivíduo, a marcante colisão entre antigas crenças tribais, misticismo e as expectativas do mundo moderno, fazem com que a produção afrofuturista entregue um choque cultural brutal em meio a tentativas de pertencimento. Imperdível!

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"Omen" (Augure). Gênero: Drama, fantasia, thriller. Direção: Baloji. Roteiro: Baloji e Thomas van Zuylen. Duração: 1h 30 minutos. Classificação Indicativa: 14 anos. Distribuição: MUBI. Elenco: Marc Zinga (Koffi), Lucie Debay (Alice), Eliane Umuhire (Tshala), Yves-Marina Gnahoua (Mama Mujila) . Sinopse: A trama segue quatro personagens estigmatizados e acusados de serem "bruxos" ou "feiticeiros", que encontram uma maneira de se ajudar mutuamente para escapar de seus destinos socialmente impostos.

Trailer de "Omen"



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"Um Gato Em Paris" pode ser assistido no site e aplicativo Reserva IMOVISION

Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em maio de 2026


A animação francesa "Um Gato Em Paris" (Une vie de chat) é uma perfeita história de gato e rato, cabendo ao felino em questão o trabalho de costurar toda a trama. De estética artesanal feita à mão, numa atmosfera inspirada no Cinema Noir (estilo cinematográfico, fortemente associado a suspenses e dramas criminais de Hollywood), a produção dirigida por Jean-Loup Felicioli e Alain Gagnol, apresenta a história da garotinha Zoé que perdeu o pai nas mãos de um mafioso e tem uma mãe policial muito atarefada.

A menina muda cuida de seu animal de estimação, o gato Dino, sem imaginar que seu bichinho é um autêntico representante da vida boêmia a ponto de levar uma vida dupla, uma vez que no cair da noite ele é parceiro de um gatuno, o ladrão de bom coração, Nico. Contudo, o crime volta a bater de frente com a pequena Zoé que ao ser raptada, acaba sendo a chave para a solução de uma rede de criminalidade e ajuda a mãe a chegar em quem tanto deseja.

O longa de 1 hora e 10 minutos de duração, tem traços à mão em visual vibrante e cores quentes que remetem a pinturas em movimento que contribuem para a criação da atmosfera perfeita de suspense. Logo, o enredo policial, em cenários de linhas tortas e distorcidas, prende a atenção, gerando curiosidade em torno das reviravoltas e do desfecho. 

De enorme prestígio internacional e indicado ao Oscar de Melhor Filme de Animação, "Um Gato Em Paris" é voltado para todas as idades por transitar com maestria por temas diversos como luto, traumas, vingança e corrupção com maturidade e sobriedade. Vale a pena conferir na Reserva IMOVISION!

PRÊMIOS: A produção de trajetória celebrada em eventos do cinema mundial acumulou indicações a prêmios, além do Oscar (2012), na categoria de Melhor Filme de Animação, também esteve entre os favoritos do Prêmio César (2011), na categoria Melhor Filme de Animação (a principal premiação do cinema francês), no European Film Awards (2011) na categoria Melhor Filme de Animação Europeu e no Annie Awards (2012) esteve na categoria de Melhor Direção em uma Produção de Longa-Metragem.

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"Um Gato Em Paris" (Une vie de chat). Gênero: Animação, aventura, policial, infantil. Direção: Alain Gagnol e Jean-Loup Felicioli. Roteiro: Alain Gagnol e Jacques-Rémy Girerd. Duração: 1h 10 minutos. Classificação Indicativa: livres. Distribuição: Bonfilm. Vozes originais: Dominique Blanc (Jeanne, a comissária de polícia), Bruno Salomone (Nico, o ladrão), Jean Benguigui (Victor Costa, o principal gângster/vilão), Bernadette Lafont ( Claudine), Oriane Zani (Zoé, a garotinha), Patrick Descamps (Lucas), Patrick Ridremont (Sr. Sapo). Sinopse: Dino, um gato que vive uma vida dupla: de dia mora com uma garotinha muda, e à noite ajuda um simpático ladrão a escalar os telhados da cidade.

Trailer de "Um Gato Em Paris"



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terça-feira, 19 de maio de 2026

.: “O Sushi dos Sonhos de Jiro” revela como obsessão constrói um mestre


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

O documentário “O Sushi dos Sonhos de Jiro” estreia na plataforma de streaming Reserva Imovision, nesta quinta-feira, dia 21 de maio, como uma obra rara que ultrapassa o objeto imediato - a gastronomia - para tocar em algo mais profundo: a ética do trabalho, a obsessão pela excelência e o peso silencioso da herança. Dirigido e roteirizado por David Gelb, o filme acompanha o cotidiano de Jiro Ono, mestre octogenário que transformou um balcão de dez lugares escondido em uma estação de metrô de Tóquio em um dos restaurantes mais reverenciados do mundo, agraciado com três estrelas do guia Michelin.

Gelb inicialmente concebeu o projeto como um panorama mais amplo sobre diferentes sushimen, algo que ele próprio definiu como um “Planeta Sushi”, em referência à estética grandiosa das produções da BBC. O encontro com Jiro, no entanto, deslocou o eixo do filme: não havia mais interesse em diversidade de estilos, mas na singularidade de um homem que, aos 85 anos, ainda repetia os mesmos gestos com a precisão de quem persegue um ideal inalcançável. 

A decisão deu ao documentário uma espinha narrativa mais íntima, centrada também na relação com o filho mais velho, Yoshikazu, destinado a herdar não apenas o restaurante Sukiyabashi Jiro, mas o fardo de corresponder a um padrão quase inatingível. O filme constrói sua força na repetição - tanto temática quanto estética. A trilha sonora, que inclui composições de Philip Glass, Tchaikovsky e Max Richter, ecoa a rotina do protagonista: ciclos que se reiteram, mas nunca são idênticos. Há, nisso, uma espécie de metáfora sonora para o próprio conceito de aperfeiçoamento contínuo que orienta Jiro. 

A câmera de Gelb, por sua vez, privilegia closes e movimentos lentos, quase reverenciais, que transformam o preparo do sushi em um ritual de minúcias. Não se trata apenas de comida, mas de um processo que começa na escolha rigorosa dos fornecedores - muitos dos quais se orgulham de servir exclusivamente ao restaurante - e culmina em um gesto aparentemente simples: servir.

Entre as curiosidades reveladas, uma chama atenção pela precisão quase científica do método: o sushi ideal deve equilibrar temperaturas distintas - o arroz ligeiramente aquecido à temperatura corporal e o peixe em temperatura ambiente. Pequenos detalhes como esse ajudam a compreender por que a excelência, aqui, não é um discurso, mas uma prática obsessiva. O próprio Jiro sintetiza essa filosofia em uma frase que atravessa o filme: “Eu faço a mesma coisa repetidamente, melhorando pouco a pouco”

A recepção crítica internacional confirma o impacto da obra. Com 99% de aprovação no Rotten Tomatoes e avaliações majoritariamente favoráveis no Metacritic, o documentário foi celebrado não apenas como um retrato gastronômico, mas como uma reflexão sobre disciplina e propósito. O crítico Roger Ebert, em uma de suas últimas análises marcantes, descreveu o filme como um estudo quase enigmático de um homem cuja vida parece inteiramente consumida por sua arte - uma devoção que levanta questões incômodas sobre sacrifício, realização e limites pessoais.

Exibido inicialmente no Festival de Tribeca em 2011, “Jiro Sonha com Sushi” também encontrou um público mais amplo ao ser disponibilizado em plataformas de streaming, consolidando-se como um dos documentários gastronômicos mais influentes da última década. Ainda que se passe em um espaço minúsculo - um restaurante sem luxo aparente e com poucos assentos --, o filme expande as fronteiras para discutir algo universal: o que significa dedicar uma vida inteira a fazer uma única coisa, e fazê-la melhor do que qualquer outro.


Ficha técnica
“O Sushi dos Sonhos de Jiro” | “Jiro Dreams of Sushi” (título original)
Gênero: Documentário. Duração: 82 min. Classificação indicativa: Livre. Ano de produção: 2011. Idioma: Japonês. Direção: David Gelb. Roteiro: David Gelb. Elenco: Jiro Ono, Yoshikazu Ono, Masuhiro Yamamoto. Distribuição no Brasil: (varia por relançamento/exibição). Cenas pós-créditos: não.


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