segunda-feira, 1 de outubro de 2007

.: Resenha crítica de "Carrie", de Stephen King

Por: Mary Ellen Farias dos Santos

Em outubro de 2007


Uma garota atormentada por seus mistérios: Após tanta repressão de amigos, garota descobre ter uma natureza misteriosa. Conheça Carrie, de Stephen King!


Todos os fãs de Stephen King conhecem a personagem Carrie, uma adolescente problemática, que é humilhada pelos colegas e perseguida por professores. Ela, por azar do destino, tem uma mãe fanática religiosa que a impede de levar uma vida normal, como as garotas de sua idade. Vítima da neurose da mãe que pensa que todo sinal de vida é pecado, e de seus colegas de escola, que não suportam nenhuma pessoa que não compartilhe os hábitos e gostos de "grupo", Carrie vive numa sufocante e triste solidão.

É castigada pela mãe porque ao se tornar mulher, inicia-se no suplício das maldições que Stephen divide em "A Maldição do Sangue", "A Maldição da Concepção" e "A Maldição do Homicídio". Rejeitada pelos colegas porque não é bonita, não sabe nada sobre sexo e é "estranha" sofre intermináveis humilhações. "Carrie seguindo-as obtinadamente nos passeios de bicicleta, um ano conhecida como baleia, no outro como cara-de-bonde, sempre cheirando a suor, incapaz de acompanhar a turma, pegando urticária de urinar no mato e todo mundo descobrindo (ei! coça-bunda, seu traseiro está comichando?). [...] Os beliscões, as pernas esticadas pelos corredores da escola para lhes passar rasteiras, os livros varridos de sua carteira, os cartões obscenos que metiam em sua pasta!".

Após este esvaziamento final, ela rompe com tudo e passa a ter uma força que ninguém conseguiria advinhar, uma força secreta com a qual poderia punir os seus agressores: a feia tem poderes telecinéticos. Contudo, um dia Carrie resolve se vingar de tudo e todos após ser humilhada na frente de todos da escola durante o Baile da Primavera.

Esta história é muito conhecida, fato que pode ser comprovado por meio de traduções do livro para vários idiomas. Em contraponto, a escrita de Carrie é bastante rasa, não que a culpa seja da tradução de Erika R. Engert Rizzo, mas é um todo, inclusive, as seqüências de acontecimentos escatológicos são terríveis, além de em certos momentos Stephen enveredar pela literatura "estilo Nora Roberts". Um exemplo é o seguinte trecho, logo no início do livro.



"- Pelo amor de Deus, Carrie, sua regra chegou! - exclamou ela. - Limpa isso!

- Ahn?

Lançou um olhar bovino à sua volta. Seu cabelo grudava-lhe no rosto como se fosse um elmo curvo; no ombro um monte de acne. Aos dezesseis anos, já trazia claramente estampada nos olhos a marca enganadora da mágoa.

- Ela acha que serve para pintar os lábios! - gritou de repente Ruth Regan em secreto regozijo, para depois estourar em alta gargalhada. Mais tarde Sue se lembrou do comentário e o encaixou no quadro geral, mas agora era apenas outro som sem sentido em meio a toda a confusão. 
Dezesseis anos? Pensava ela. Ela deve saber o que está acontecendo, ela...

Mais pingos de sangue. Carrie continuava a piscar olhando em volta para as colegas em lento aturdimento.

- Você está sangrando! - berrou Sue de repente furiosa. Você está sangrando, sua gorda balofa, idiota!

[...]

Súbito um Modess lhe foi acertado no peito e caiu no chão - plop! Uma flor rubra mancha o algodão absorvente e se espalhou
".



Sem comentários! Outro fator que torna o livro "fraquinho" é o grande desejo de o autor dar credibilidade para a história que conta, por esse motivo, mostra as fontes de trechos de "livros" e "jornais" que aparecem na história.

Enfim, fama não é sinônimo de qualidade, porém a história que intitulada (no Brasil) como Carrie, a estranha, virou filme que teve adaptação de Brian de Palma em 1976. Até novelas brasileiras tiveram os seus momentos "Carrie". A protagonista de "A Rainha da Sucata" e a também protagonista de "Chocolate com Pimenta", Ana Francisca, foram presenteadas pelos amigos com um banho de "sujeira" e a humilhação somente serviu para alimentar a força interior destas personagens que conseguiram vencer todas as barreiras da vida.

Stephen King: Tornou-se mundialmente famoso e próspero. Uma de suas casas no Maine, Estados Unidos. Stephen Edwin King (nascido em Portland, Maine, 21 de Setembro de 1947) é um escritor americano, reconhecido como um dos mais notáveis escritores de contos de horror fantástico e ficção de sua geração. Seus livros foram publicados em mais de 40 países e muitas das suas obras foram adaptadas para o cinema.

Embora seu talento se destaque na literatura de terror/horror, escreveu algumas obras de qualidade reconhecida fora desse gênero e cuja popularidade aumentou ao serem levadas ao cinema, como nos filmes "Conta Comigo", "Um Sonho de Liberdade" (contos retirados do livro "As quatro estações"), "Lembranças de um Verão" e "À Espera de Um Milagre".

Biografia: Quando Stephen tinha apenas dois anos, seu pai, Donald Edwin King, desertou sua família. Sua mãe, Nellie Ruth Pillsbury, criou sozinha King e seu irmão mais velho adotivo David, muitas vezes passando por graves dificuldades financeiras. A família se mudou para a cidade natal de Ruth, Durham, Maine mas também passaram vários períodos em Fort Wayne, Indiana e Stratford, Connecticut.

Ainda criança, testemunhou um acidente horrível - um de seus amigos ficou preso em uma ferrovia e foi atropelado por um trem. Muitas pessoas falam que isso inspirou seu lado negro e suas criações perturbadoras, mas ele mesmo descarta essa idéia.

King era um leitor fanático dos quadrinhos EC's horror comics incluindo Tales from the Crypt, que estimulou seu amor pelo terror. Na escola, ele escrevia histórias baseadas nos filmes que assistia e as copiava com a ajuda de seu irmão David. King as vendia aos amigos, mas seus professores desaprovaram e o forçaram a parar.

De 1966 à 1971, Stephen estudou Inglês na Universidade do Maine em Orono, onde ele escrevia uma coluna entitulada "King's Garbage Truck" para o jornal estudantil, o Maine Campus. Ele conheceu Tabitha Spruce lá e se casaram em 1971. O período que passou no campus influênciou muito em suas histórias, e os trabalhos que ele aceitava para poder pagar pelos seus estudos insipiraram histórias como "The Mangler" e o romance "Roadwork" (como Richard Bachman).

King ensinou inglês na Academia Hampden em Hampden, Maine. Ele e sua família moravam em um trailer, e ele escreveu histórias curtas, a maioria para revistas masculinas. Como é relatado na introdução de Carrie, se um de seus filhos ficassem resfriados, Tabitha brincaria, "Qual é, Steve, pense nisso como um de seus monstros." Stephen também desenvolveu um problema com bebidas, que levou mais de uma década para ser resolvido.

Ficando famoso: Stephen logo começou vários romances. Uma de suas primeiras idéias era uma moça jovem com poderes psíquicos, mas ele descartou a idéia. Sua esposa resgatou os esboços do lixo e o encorajou a voltar a escrever sobre isso. Após terminar o romance, ele o intitulou "Carrie" e mandou para o Doubleday. Ele recebeu $2,500 dólares adiantados (não muito para um romance, mesmo naquela época) mas os direitos autorais fizeram com que ele recebesse $400,000 posteriormente. Pouco antes do livro ser publicado, sua mãe morreu de Câncer no Útero. Sua tia Emrine leu o romance para ela antes de sua morte.

King admitiu que nessa época ele estava constantemente bêbado e que foi alcoolotra por mais de uma década. Ele também constatou que baseou o personagem Jack, do livro O Iluminado, nele mesmo. Sua família e amigos interviram, jogando fora, na sua frente, todos os seus vícios. Stephen cortou o alcool e qualquer tipo de droga por volta de 1980 e se mantêm sóbrio desde então.


Obras
1963 "The Aftermath" (romance não publicado)
1970 "Sword in the Darkness" (romance não publicado)
1973 "Blaze" (romance não publicado)
1974 "Carrie" filme; "Carrie a estranha", 1976
1975 "Salem's Lot" - A Hora do Vampiro - filme; A Mansão Marsten
1977 "Rage" - Fúria (sob o pseudônimo Richard Bachman)
"The Shining" - O Iluminado
1978 "Night Shift" - "O Túnel do Horror" (conto do livro Sombras da Noite)
"The Stand" - "A Dança da Morte"
1979 "The Dead Zone" - "A Zona Morta", "A Hora da Zona Morta"
The Long Walk - A Longa Marcha (sob o pseudônimo de Richard Bachman)
1980 "Firestarter" - "A Incendiária" filme; "Vingança em Chamas"
1981 "Cujo" - "Cão Raivoso"
"Danse Macabre" - "Dança Macabra"
"Roadwork" - "A Auto-Estrada" (sob o pseudônimo de Richard Bachman)
1982 "Creepshow" - "Show de horrores" (banda desenhada, ilustrada por "Bernie Wrightson")
"The Dark Tower I: The Gunslinger" - "A Torre Negra Vol. I - O Pistoleiro" (originalmente publicado na revista The Magazine of Fantasy and Science Fiction, dividido em cinco partes: "The Gunslinger", "The Way Station", "The Oracle and the Mountains", "The Slow Mutants" e "The Gunslinger and the Dark Man")
"Different Seasons" - "As Quatro Estações" (contos que deram origem aos filmes; "Conta Comigo", "O Aprendiz", e "Um Sonho de Liberdade").
"The Running Man" - "O Sobrevivente" (sob o pseudônimo Richard Bachman)
1983 "Christine" - "Christine"; filme: "Christine, o Carro Assassino"
"Pet Sematary" - "O Cemitério"; filme: "Cemitério Maldito"
"Cycle of the Werewolf" - "A Hora do Lobisomem" (ilustrado por Bernie Wrightson), filme; "Bala de prata"
1984 "The Talisman" - "O Talismã" (escrito em parceria com Peter Straub)
"Thinner" - "Maldição do Cigano" (sob o pseudônimo de Richard Bachman), filme; "A Maldição do Cigano"
1985 "Skeleton Crew" - "Tripulação de esqueletos"
"The Bachman Books" - "Os Livros de Bachman" (livro que reune os contos: "A Longa Marcha", "Fúria", "A Auto-Estrada", "O Sobrevivente")
1986 "It" - "A Coisa"
1987 "The Eyes of the Dragon" - "Os Olhos do Dragão"
"Misery" - "Angústia", filme; "Louca Obsessão"
"The Dark Tower II: The Drawing of the Three" - "A Torre Negra Vol. II - A Escolha dos Três"
1988 "The Tommyknockers" - "Os Estranhos"
1989 "The Dark Half" - "A Metade Negra"
"Dolan's Cadillac" (edição limitada)
"My Pretty Pony" (edição limitada)
1990 "The Stand: The Complete & Uncut Edition"
"Four Past Midnight" - "Depois da Meia Noite"
1991 "Needful Things" - "Trocas Macabras"
"The Dark Tower III: The Waste Lands" - "A Torre Negra Vol. III - As Terras Devastadas"
1992 "Gerald's Game" - "Jogo Perigoso"
1992 "The Lawnmower Man" - "O Passageiro do Futuro"
1993 "Dolores Claiborne" - "Eclipse Total"
"Nightmares & Dreamscapes" - "Pesadelos e Paisagens Noturnas" (livro(s) de contos)
1994 "Insomnia" - "Insônia"
1995 "Rose Madder" - "Rose Madder"
"Umney's Last Case"
1996 "The Green Mile" - "À Espera de um Milagre (publicado originalmente numa série mensal, com o nome de "O Corredor da Morte", dividida em seis partes: "The Two Dead Girls", "The Mouse on the Mile", "Coffey's Hands", "The Bad Death of Eduard Delacroix", "Night Journey", e "Coffey on the Mile")
"Desperation" - "Desespero" filme: "Desespero"
"The Regulators" - "Os Justiceiros" (sob o pseudônimo de Richard Bachman)
1997 "Six Stories" (contos) (não publicado)
"The Dark Tower IV: Wizard and Glass" - "A Torre Negra Vol. IV - Mago e Vidro"
1998 "Bag of Bones" - "Saco de Ossos"
1999 "Storm of the Century" - "Tempestade do Século"
"The Girl Who Loved Tom Gordon"
"The New Lieutenant's Rap" (edição limitada)
"Hearts in Atlantis"
"Blood and Smoke" (audio-livro)
2000 "Riding the Bullet" - "Montado Na Bala" (lançado originalmente como e-book), conto do livro "Tudo é Eventual"
"The Plant" - "A Planta" (lançado como e-book)
"Secret Windows" - "A Janela Secreta"
"On Writing: A Memoir of the Craft" (autobiografia)
"Dreamcatcher" - "O Apanhador de Sonhos"
2001 "Black House" - "A Casa Negra" (seqüência de "O Talismã"; escrita em parceria com Peter Straub)
2002 "From a Buick 8" - "Buick 8"
"Everything's Eventual: 14 Dark Tales" - "Tudo é Eventual"
2003 "The Dark Tower I: The Gunslinger" - "A Torre Negra Vol. I - O Pistoleiro" (versão revista e expandida)
"The Dark Tower V: Wolves of the Calla" - "A Torre Negra Vol. V - Lobos de Calla"
2004 "The Dark Tower VI: Song of Susannah" - "A Torre Negra Vol. VI - Canção de Susannah"
"The Dark Tower VII: The Dark Tower" - "A Torre Negra Vol. VII - A Torre Negra"
"Faithful: Two Diehard Boston Red Sox Fans Chronicle the Historic 2004 Season"
2005 "The Colorado Kid"
2006 "Celular (Cell)"
"The Secretary of Dreams" (edição limitada em dois volumes)
"Lisey's Story"
2008 "Duma Key" (Previsto para Janeiro de 2008)

:: Fonte da biografia: Wikipedia


Livro: Carrie
Autor: Stephen King
344 páginas
Ano: 1985
Editora: Abril Cultural

.: Entrevista com Fábio Lamachia, escritor

Vida nova com o pé na estrada

Da Redação do Resenhando

Em outubro de 2007


Conheça Fábio Lamachia, um jovem insatisfeito com a agitação da cidade grande que aprendeu a viver e achou um sentido para a vida ao lado de um cão labrador.



Em setembro de 2003, Fábio Lamachia ainda não havia completado 29 anos quando, frustrado com uma desilusão amorosa e o sucesso relativo de seu primeiro livro, Sonho Verde – sobre a experiência de quatro meses em uma mina de esmeraldas – decidiu deixar um emprego promissor na área de marketing e cair na estrada sem rumo.

Fábio era um jovem escritor paulistano de um livro só, o coração dilacerado por um amor frustrado e inconformado com a rotina alucinante da cidade grande quando decidiu largar tudo – inclusive uma carreira promissora – para cair na estrada em busca de aventuras e de um sentido para a vida. Encontrou um cachorro labrador preto, um filhote amarelo sensato e calmo e uma sueca aventureira, que acabou dando a ele uma filha no meio de aventuras engraçadíssimas, enquanto cruzavam, de jipe, as mais improváveis e surpreendentes paisagens do território brasileiro, do litoral ao sertão.

É a história de como uma pessoa descobre o Brasil e a si mesmo, em um exemplo de superação. Meu Chapa (Geração Editorial-Ediouro, 224 págs., mais caderno fotográfico colorido, R$ 29,90) não é apenas outro livro sobre cachorros e como os seres humanos se relacionam com eles. Mais do que isso, é a história de como uma pessoa em conflito resolve seus dramas interiores e encontra a felicidade enquanto vive aventuras engraçadas e envolventes.

Fábio Lamachia, rejeitado pela ex-namorada, insatisfeito e inconformado com a vida, e no limiar dos 30 anos, resolve romper com tudo e começar de novo. De espírito aventureiro – já passara quatro meses trabalhando numa mina de esmeraldas, aventura que narrou em seu primeiro livro, Sonho Verde – ele pega a estrada outra vez, agora definitivamente. Quer ser um andarilho, nada mais, e dedicar-se a seu projeto de vida: escrever sobre o que viveu.

A solidão o leva a buscar uma companhia – um cão, que ele comprou com o dinheiro da venda de sua prancha de surfe. Um cão cheio de defeitos, que vai ensiná-lo a viver. É na companhia desse bicho desengonçado e trapalhão que Fábio começa sua aventura rumo à felicidade e ao autoconhecimento. Chapa é pouco disciplinado, rebelde, travesso, e sempre apronta confusões, mas é com esse cachorro travesso – e com o companheiro sereno que surge no meio da história, o labrador amarelo Farofa – que Fábio descobre o que significa dedicar-se a um ser vivo integralmente. O jovem insatisfeito que fugiu da cidade grande em busca de um caminho acaba encontrando vários.

É Chapa – o companheiro constante – que vai jogá-lo nos braços de Jenny, uma arquiteta sueca que também abandona tudo para seguir o namorado de quem está grávida. Ancorado atualmente em Trancoso, do lado de Porto Seguro, na Bahia, com seus cães já adultos, a mulher e a filha Lorena, Fábio explora o turismo e começa a dedicar-se a seu projeto de vida.


RESENHANDO - Tanto em Sonho Verde quanto em Meu Chapa, você busca realizações. No primeiro, a busca é debaixo da terra, no interior de uma mina de esmeraldas. No outro, ao ar livre, com seu cão, estrada afora. Quais as diferenças e semelhanças entre os dois livros? 
FL – Nas duas aventuras, saí em busca de algo diferente da rotina estressante de uma cidade grande como São Paulo. Quando fui para a Bahia garimpar esmeraldas, além de viver no alto de uma montanha maravilhosa, almejava ganhar dinheiro de um jeito mágico para poder começar uma vida investindo os rendimentos em uma pousada ou algo parecido, o que não ocorreu. Quando eu estava lá, descendo em cabos de aço num poço de 75 metros, convivendo com um povo ímpar, percebi que o que mais valia era a história que vivenciava, e comecei a relatá-la em um caderninho, dia a dia. No livro Meu Chapa parti também com destino à Bahia. Queria promover mais o meu livro Sonho Verde e tive a idéia e iniciativa de distribuí-lo nos pontos turísticos da Chapada Diamantina, local em que pretendia morar. Para tanto, ter uma companhia era a questão. Depois de pouco tempo que peguei o Chapa, ele já me deixava descabelado com suas estripulias. Aquele cão de temperamento bombástico me dava motivos para escrever algumas coisas todos os dias! 


RESENHANDO - O processo de criação e redação dos dois livros foi igual? 
FL – Sim, nos dois livros anotava palavras-chave depois do ocorrido e desenvolvia posteriormente os textos.


RESENHANDO - Você escrevia sempre logo depois dos fatos? Tudo neles aconteceu, ou há um pouco de ficção?
FL – Tudo ocorreu mesmo, apenas alterei a ordem cronológica em algumas passagens, isso nos dois livros. No livro sobre o garimpo, usei nomes fictícios para vários personagens, depois que muitos garimpeiros me pediram anonimato. Já no Meu Chapa, os nomes das personagens permaneceram reais. 


RESENHANDO - Qual deles deu mais trabalho? E mais alegria? Por quê?
FL – Tive muito mais trabalho no primeiro livro. Escrevi totalmente solitário e demorei muito mais tempo. Tive de ler, reler e reescrever milhões de vezes. No Meu Chapa, meu terceiro livro, a escrita já corria mais solta e Jenny me ajudou muito ao opinar sobre o que pôr ou não no texto. Tive muito mais alegria em fazer o Meu Chapa com a Jenny grávida ao meu lado, e posteriormente com a Lorena, me olhando docemente da cadeirinha. Cada parágrafo foi feito com muito carinho.


RESENHANDO - Em Meu Chapa, a busca do sonho e do autoconhecimento se realizou plenamente. Além do Chapa, você encontrou Jenny, com quem se casou e tem uma filha, Lorena, que ganhou o capítulo mais bonito do livro, sobre o amor e a paternidade. Agora, feliz, você tem planos de viajar com a família em busca de novas aventuras para escrever outros livros? 
FL – Esse é mais um projeto, lógico, incluindo a Lorena e os cães. Queremos agora desbravar toda a América de carro, e começaremos pelo extremo sul. A vida é uma só, temos que andar por aí, para conhecermos o mundo em que vivemos!


RESENHANDO - Como é o seu dia-a-dia na tranqüila Trancoso? 
FL - Trancoso é um pequeno paraíso, me proporciona enormes alegrias, como acordar ainda no escuro e rumar para a praia com os cachorros. Surfo, corro, e volto para casa de cabeça aberta para escrever e brincar com a minha filha. 


RESENHANDO - Quer viver aí para sempre? São Paulo nunca mais? 
FL – Gosto muito daqui, mas como sempre na minha vida de andarilho, não considero o lugar definitivo. 


RESENHANDO - O que você está escrevendo atualmente? 
FL – Estou sempre botando idéias no papel, agora se elas virarão outros livros isso ainda nem eu sei. Ao mesmo tempo, incentivo a Jenny a finalizar seu primeiro livro. Ela tem, assim como eu, idéias muito inovadoras a respeito de criar filhos sem frescuras, soltos em meio à natureza e aos animais.


RESENHANDO - Com apenas dois livros publicados (além de Sonho Verde, tem o Pedras Preciosas do Brasil, edição bilíngue), você já vivia de direitos autorais, algo raro no Brasil. Agora a situação deve melhorar mais ainda com a publicação de Meu Chapa. Como conseguiu isso?
FL – Por se tratar de livros de aventura e pedras preciosas, imaginei que o interesse pelos livros seria maior em locais relacionados diretamente com os assuntos. Distribuí então os exemplares em pontos que não são livrarias, normalmente locais de espera "forçada" em atrações turísticas pelo Brasil. Por incrível que pareça o local que mais vende Sonho Verde é no simplório boteco do Seu Gilmário, no Poço Encantado, atração imperdível da Chapada Diamantina. Os livros também têm razoável saída nas lojas especializadas em pedras preciosas em diversos estados brasileiros, principalmente em São Paulo e no Rio de Janeiro. Mas é muito difícil hoje em dia viver apenas de livros, por isso faço passeios turísticos de jipe pelas belas paisagens do sul da Bahia, e quando surge o interesse vendo algumas esmeraldas remanescentes da minha época de garimpo. Daí vem um extra. 


RESENHANDO - Em algumas passagens do Meu Chapa, vocês adotaram cachorros de rua. Isso continua? 
FL – Claro que sim. Esse "instinto" de protetor dos animais, que aprendi com a Jenny e sua família, hoje se enraizou em mim. Normalmente os cães que recolhemos das ruas vão para o sítio Vagalume, descrito no capítulo 26 do livro. Porém pegamos há alguns meses em Trancoso o Zé, um pointer que estava abandonado e doente em frente a uma padaria. Tratamos dele com tanto carinho, e ele nos cativou de tal forma com seu jeitão desengonçado, que hoje o Zé tem o seu cantinho na nossa casa e também um assento no jipe, virou mais um integrante da família.

domingo, 30 de setembro de 2007

.: Resenha de "O Dia do Curinga", de Jostein Gaarder

Por: Mary Ellen Farias dos Santos

Em setembro de 2007


Viagem no tempo revela um universo maravilhoso. Viagens ao passado e personagens conhecidas dão agilidade ao texto de "O Dia do Curinga", deixando toda a história de Jostein Gaarder ainda mais intrigante e irresistível.


Um livro com capítulos nomeados de Espadas, Paus, Curinga, Ouros e Copas, sendo que cada um dos citados contém subcapítulos de títulos bastante curiosos como por exemplo o primeiro e o último: "Ás de espadas ... um soldado alemão passou pedalando pela estrada..." e "Rei de copas ...as lembranças se afastando mais e mais daquilo que um dia as criou...". É desta forma que o leitor irá perceber em suas mãos o livro "O Dia do Curinga", de Jostein Gaarder.

É certo que aqueles que já leram algo de Jostein Gaarder não terão algum estranhamento quanto a esta forma criativa do autor de "anunciar" o que há melhor nos próprios livros. Já em O Mundo de Sofia, também publicado pela Companhia das Letras, o autor mostra este seu dom ao trazer para o público uma garota às vésperas de seu aniversário de quinze anos. Sofia Amundsen começa a receber bilhetes e cartões postais bastante estranhos. Os bilhetes são anônimos e perguntam a Sofia quem é ela e de onde vem o mundo em que vivemos. Os postais foram mandados do Líbano, por um major desconhecido, para uma tal de Hilde Knag, jovem que Sofia igualmente desconhecia. Em meio a tanto mistério e "lições" o leitor trilha a história da filosofia ocidental.

Ok. O livro em questão é "O Dia do Curinga" que tem como protagonista o jovem Hans-Thomas. Entretanto, nesta história, ele também mergulha no túnel do tempo e viaja no passado e não deixa sua vida naufragar. Tudo começa quando o garoto e seu pai, seguem à procura da mulher que os deixou oito anos antes, e assim, cruzam a Europa, da Noruega à Grécia.


"Há seis anos, em frente às ruínas do antigo temo de Posêidon, no cabo Súnio, eu olhava para o mar Egeu. Há cento e cinqüenta anos o padeiro Hans chegava á misteriosa ilha no Atlântico. E há duzentos anos o navio da Frode naufragava na viagem entre o México e a Espanha.

Tenho de voltar tantos anos no tempo para entender por que mamãe nos deixou e fugiu para Atenas...

Gostaria muito de pensar em outra coisa. Mas sei que preciso tentar escrever tudo enquanto restar em mim um pouco da criança que fui.

Sentado à janela da sala de Hisoy, observo as folhas caindo das árvores. Elas planam no ar e pousam na rua formando um acolchoado macio. Uma garotinha brinca lá fora, amassando com os pés as folhas e as castanhas que caem das árvoes por entre as cercas dos jardins.

Nada parece ter sentido.

Quando penso nas cartas da paciência de Frode, tenho a impressão de que o equilíbrio da natureza desapareceu por completo".


Reflexões sobre a própria história, como por exemplo, ao analisar a história de vida dos avós de Hans-Thomas que seu pai contava quando pararam em um posto de estrada, perto de Hamburgo. Chegar a entender quem ele é, passa a ser interessante, pois caso seus avós não tivessem encontrado-se por causa de um pneu furado e anos depois, seus pais não tivessem permitido que Hans-Thomas nascesse ele não seria ele, e sim, uma outra pessoa.

É no meio desta viagem em família (e na história desta família), que surge um livro misterioso que desencadeia uma narrativa paralela, em que mitos gregos, maldições de família, náufragos e cartas de baralho que ganham vida transformam a viagem de Hans-Thomas numa autêntica iniciação à busca do conhecimento - ou à filosofia. Também pudera o pai do garoto adorava filosofar e se interessava por robôs, pois para ele um dia a ciência conseguiria produzir seres artificiais e pensantes.


"Achei um tanto estranho que a padaria estivesse aberta à tarde. Antes de tomar qualquer decisão, olhei para a estalagem Zum Schönem Waldemar, só para ver se por acaso meu já não tinha saído, satisfeito com a degustação da aguardentes dos Alpes. Como não o vi, abri a porta da padaria e entrei. [...]

O velho padeiro entrou num outro cômodo que havia nos fundos da padaria. Pouco depois, voltou com quatro pãezinhos, que colocou num saco de papel. Entregou-me o embrulho e disse, num tom sério e solene:

- Você precisa prometer uma coisa. Uma coisa muito importante, meu filho. Prometa-se que deixar o pãozinho maior por último e que só vai comê-lo quando estiver sozinho. E não conte nada a ninguém, entendeu?".


O que dizer desta passagem do livro? Pura magia literária. Já no primeiro subcapítulo quando pai e filho estão em Legoland, local em que há enormes bonecos feitos de peças de Lego o pai comenta: "- Imagine se de repente tudo isso ganhasse vida, Hans-thomas - disse ele. - Imagine se, de uma hora para outra, todos esses bonecos saíssem andando no meio dessas casinhas de plástico. O que nós faríamos?", e ainda conclui seu pensamento dizendo: "No fundo somos todos figuras de Lego, só que vivas".

"O Dia do Curinga" é a história de muitas viagens fantásticas que se entrelaçam numa viagem única e ainda mais fantástica - e que só pode ser feita por um grande aventureiro: o leitor. Seja um curinga, diferente, "pois ele veio ao mundo com defeito de ver coisas demais e de ver todas elas em profundidade".

Agora não lhe restam dúvidas se deve ou não ler O Dia do Curinga, não é? Espero que não, pois este é um dos pouquíssimos livros que garantem com tranqüilidade 100% no quesito qualidade de texto aliada à uma excelente criatividade. Faça como Hans-Thomas, entre na sua casa, pegue o seu volume e comece a ler, pois é certa a "sensação de estar entrando num outro mundo". Alguma dúvida? A única que ainda resta é em saber porque nenhum dos fantásticos livros de Jostein Gaarder foram transpostos para a telona, nem mesmo O Mundo de Sofia!

O Autor: Jostein Gaarder nasceu em 1952, na Noruega. Estudou filosofia, teologia e literatura, e foi professor no ensino médio durante dez anos. Estreou como escritor em 1986, tornando-se logo um dos autores de maior destaque em seu país, e a partir de 1991 ganhou projeção internacional com O Mundo de Sofia, já traduzido para 42 línguas. Pela Companhia das Letras publicou ainda Através do Espelho, A Biblioteca Mágica de Bibbi Bokken, O Castelo do Príncipe Sapo, Ei! Tem Alguém aí?, A Garota das Laranjas, Maya, Mistério de Natal, O Pássaro Raro, O Vendedor de Histórias e Vita Brevis. Mora em Oslo, com a mulher e dois filhos.


Livro: O Dia do Curinga

Autor: Jostein Gaarder

140 páginas

Ano: 2007

Editora: Companhia das Letras 

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

.: Resenha de "O Grande Líder", de Fernando Jorge

Por: Mary Ellen Farias dos Santos

Em setembro de 2007


O retorno do cenário surreal da política brasileira: A corrupção política brasileira de 1910 a 1964 envolta de uma sátira mordaz


Ao ter em mãos o livro relançado que ficou marcado como a sátira da corrupção brasileira que causou barulho nos anos 1970, isto é, "O Grande Líder - Romance satírico, bárbaro, picaresco, baseado em fatos reais, nas cenas surrealistas da vida social, cultural e política de um país latino-americano chamado Brasil", de Fernando Jorge, tem-se a sensação de emprenhar-se em um caminho polêmico, porém muito curioso e interessante, seja para alguns relembrarem ou para outros conhecerem a história nua e crua do Brasil desta época, que sempre está em seu percurso repetitivo.

O livro traz uma sátira mordaz da história política brasileira de 1910 até o golpe de 1964. Na época do seu lançamento, 1970, o biógrafo Fernando Jorge espantou a muitos. Como o fez? Simples. Trouxe para o universo de todos a história de um certo Piranha Albuquerque, político corrupto e safado, porém muito amado pelo povo. Entretanto, tal livro ainda causa furor, pois apesar de ter passado tantos anos os políticos continuam com o mesmo comportamento.

Nesta obra o autor mostra a saga de Piranha da Fonseca Albuquerque, grande nome da corrupção imperante no Brasil de 1910 até o golpe de 64. Para dar veracidade Fernando Jorge baseou-se em fatos reais – e em pessoas reais, dispensando pseudônimos, uma ousadia que gerou alguns processos. O Grande Líder é tão impecável que não deixa ninguém de fora, até mesmo nomes intocáveis da literatura brasileira, como Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto e Guimarães Rosa.

Em entrevista publicada no site da Editora Geração Editorial (geracaobooks.locaweb.com.br/releases/?entrevista=123), o autor diz:


Geração Editorial - Como surgiu "O Grande Líder"?

Fernando Jorge: A idéia para o livro surgiu quando eu estava trabalhando como chefe da divisão técnica da biblioteca da Assembléia Legislativa de São Paulo (minha formação é em Biblioteconomia).

Ficava chocado ao ver as safadezas do Legislativo e resolvi escrever um romance satírico para mostrar minha revolta contra os políticos corruptos. A figura do Piranha da Fonseca Albuquerque foi inspirada em diversos políticos da época e em suas safadezas — políticos como Moisés Lupion, então governador do Paraná e o político corrupto mais famoso; Ademar de Barros, popularmente conhecido como “Ademar de Barros, de Berros e de Burros”, que foi o primeiro a receber o epíteto de “o que rouba, mas faz” e que foi minha maior fonte de inspiração; Jânio Quadros — de quem peguei o histrionismo (e ele nunca percebeu, tanto que chegou a me pedir que eu fosse seu biógrafo, dizendo “Fernando Jorge, se for o meu biógrafo, meus ossos descansarão em paz”); e em muitos outros protagonistas de patifarias. Além do que eu via no meu dia-a-dia na assembléia, colhi histórias de pilantragens observadas por amigos jornalistas meus. Muitos dos episódios narrados no livro, que podem parecer anedotários, são verdadeiros.


GE - Piranha Albuquerque da Fonseca ainda tem voz e vez hoje?

FJ: Meu livro permanece atualíssimo. Cheguei a essa conclusão por causa de todos os escândalos envolvendo políticos corruptos que estão aparecendo por aí. Basta citar o exemplo do governador de Roraima, preso recentemente. É a mesma coisa, ele e Piranha. O outro nome do Brasil foi e continua sendo Corruptolândia. É o que o Jânio Quadros observou sobre meu livro — que, apesar de ser satírico, ele merece reflexão por ser um grito de revolta contra a desonestidade.

Seu livro teve um sucesso estrondoso quando foi lançado, superando Jorge Amado e Lygia Fagundes Telles nas listas de mais vendidos. Por que não escreveu mais nenhum romance?

Porque me dediquei mais às biografias. Tenho paixão por elas. A de Getúlio Vargas, a de Aleijadinho, a de Santos Dumont, todas me exigiram muitos anos de pesquisa. Mas gostaria de escrever outro romance sim, ele se chamaria “O País dos Generais Linha Dura” e seria sobre a corrupção no Brasil durante a ditadura. Mas, enfim, já sou um pré-cadáver (risos).


GE - Por que Paulo Setúbal?

FJ: A vida dele é muito interessante — viveu pouco, 44 anos. Foi uma figura pitoresca, extraordinária, e vindo de uma família pobre, tornou-se o autor mais popular de seu tempo, ao lado de Monteiro Lobato. Foi um dos principais participantes da Revolução de 32, apesar de já estar tuberculoso na época. Era um grande orador, e foi deputado por dois anos. Era muito lido, muito popular, muito excêntrico. Era excelente escritor, conhecia muito a língua portuguesa, ao contrário de nosso mais popular Paulo atualmente, o Paulo Coelho. Há um grande contraste entre Paulo Setúbal e Paulo Coelho (risos). Paulo Coelho é um literaticida, um assassino da língua portuguesa. E um plagiário, reescreve lendas orientais e as publica como se fossem criações dele.


GE - Por que o sucesso dele, a seu ver?

FJ: A literatura de Paulo Coelho tem comunicação imediata com o leitor primário, desprovido de muita cultura literária, e que constitui a maioria de leitores do mundo todo. Ele tem sorte, no entanto, de os tradutores consertarem muito do estilo claudicante e dos erros gramaticais gravíssimos que ele comete, o que explica em parte por que a crítica internacional gosta tanto dele. Já publiquei um livro explicando por que Paulo Francis era um farsante; pois bem, estou com essa vontade de escrever sobre Paulo Coelho, que além de farsante é vigarista, porque se proclama capaz de fazer chover e ventar (o governo deveria contratá-lo para tentar minimizar o problema de nossas represas, não?). Parafraseando Lênin, para mim Paulo Coelho vai acabar na lata de lixo da literatura.


Fernando Jorge: escritor e jornalista. Entre suas obras de não-ficção mais conhecidas estão “Cale a Boca, Jornalista”, “Getúlio Vargas e o seu Tempo”, “Vida e Poesia de Olavo Bilac”, “As Lutas, a Glória e o Martírio de Santos-Dumont”. Dele, a Geração Editorial também publicou “Vida e Obra do Plagiário Paulo Francis” – “O Mergulho da Ignorância no Poço da Estupidez” (1996) e “A Academia do Fardão e da Confusão” (1999). “O Grande Líder” é seu primeiro e até então único romance.


Livro: O Grande Líder - Romance satírico, bárbaro, picaresco, baseado em fatos reais, nas cenas surrealistas da vida social, cultural e política de um país latino-americano chamado Brasil

Autor: Fernando Jorge

336 páginas

Ano: 2003

Editora: Geração Editorial


segunda-feira, 17 de setembro de 2007

.: Resenha de "Mumu, a Vaquinha Jururu", de Jeanne Willis e Tony Ross

Por: Mary Ellen Farias dos Santos

Em setembro de 2007


A verdadeira amizade vale mais do que um caro presente: Sabia que viver jururu pode ser contagiante para seus amiguinhos? Descubra em Mumu, a Vaquinha Jururu, de Jeanne Willis e Tony Ross.


Mumu é uma vaquinha bem velha que vivia jururu, apesar de ter como amigo, Bé, um carneirinho que consegue ver a beleza em tudo na vida. A protagonista de Mumu, a Vaquinha Jururu, de Jeanne Willis e Tony Ross, publicado pela Companhia das Letrinhas, é tão descontente que nem mesmo uma boa conversa era capaz de dar um pingo de felicidade na vida dela.

Os dias pareciam sempre belos somente para os outros, nunca para a vaquinha jururu. Nem mesmo em seu aniversário a situação mudou. "Por que está com esta cara, Mumu?, perguntou Bé. / É que é meu aniversário. Fiquei um ano mais velha, mugiu Mumu. / É daí? Aniversário é para festejar! Dê uma festa, você via ficar feliz!". A festa? Foi ótima, mas ainda sim, noutro dia, Mumu já estava jururu novamente.

Resultado: Ficar jururu é algo contagiante. De tanto conviver com Mumu, Bé vai para casa em prantos, pois nada que fazia alegrava a amiga. "Foi só depois de conhecer Mumu que ele percebeu como o mundo era horroroso, malfeito, desagradável. Não era à toa que Mumu vivia jururu".

O que fazer quando Bé e Mumu estão completamente jururu? Os autores de Mumu, a Vaquinha Jururu tem a solução para este "super problema" quando Bé diz: "Não posso me sentir feliz vendo você infeliz". Afinal de contas Bé sempre fazia de tudo para animar Mumu, embora esta vaquinha nunca tenha dado valor a estas tentativas, nem mesmo um sorriso. É neste momento que Mumu entra em ação e resolve tudo, para a alegria e continuidade desta amizade.

Sobre os autores: Jeanne Willis escreveu seu primeiro livro aos cinco anos, e não parou mais. Hoje escreve histórias para crianças e também para leitores mais velhos. Além disso, escreve roteiros para televisão e produtoras de vídeo. Foi finalista do Whitbread Awart em 2004. Tony Ross nasceu em Londres no ano de 1938. Estudou na Liverpool School of Art. Já foi cartunista, designer gráfico e diretor de arte de uma agência de publicade. Considerado um dos melhores ilustradores de livros infantis da Inglaterra, suas obras ganharam vários prêmios e foram publicadas em inúmeros países.


Livro: Mumu, a Vaquinha Jururu

Autores: Jeanne Willis e Tony Ross

32 páginas

Ano: 2007

Tradução: Eduardo Brandão

Editora: Companhia das Letrinhas

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

.: Resenha de "Os Treze Problemas", de Agatha Christie

Por: Mary Ellen Farias dos Santos

Em setembro de 2007


Contos bem amarrados e surpreendentes. Mistérios que parecem impossíveis de solucionar. Não tema! Agatha Christie é chave mestra para resolver todos os treze problemas.


Sabe quando você está com uma grande vontade de ler um super livro, mas pretende ficar entre os livros que tem em casa? Eu estava deste jeito quando decidi mexer nas minhas pilhas e pilhas de livros e encontrei um volume bem velhinho, praticamente aos pedaços (ainda bem que existe cola e durex) que fora comprado em um sebo da cidade há quatro anos pelo menos. Qual livro era este? Por sorte "Os Treze Problemas", de Agatha Christie.

Nossa como o tempo passa, não é mesmo?!?! Ele ficou esse tempo de um lado para outro. Sempre queria lê-lo, mas nunca conseguia chegar até ele, sempre tinha que estudar, fazer trabalhos, ler livros indicados e escrever para o Resenhando críticas de outros livros.

Eis que o momento aguardado chegou e claro a memória fez seu papel em destacar este livro. Tenho guardados outros livros de Agatha que comprei em sebos, troquei em bibliotecas ou ganhei de várias pessoas que sabem da minha paixão pela leitura. Fico com eles não sei se por pena de seu estado ou temendo o pior como seu destino. "Estes livros vão para a reciclagem/lixo limpo. Quer algum deles?". Quantas vezes escutei isso, óbvio, levava todos para casa, muitos consegui dar um jeito e rejuvenesceram.

Hoje tenho alguns destes livros velhinhos, alguns em casa e outros na minha avó que ficam bem guardadinhos no grande baú de meus bisavós, que veio diretamente de Arouca, Portugal. Ah, se este baú falasse (e lesse) teria muita história para contar!

Bom, vamos encarar de frente Os Treze Problemas que a melhor escritora policial nos entrega de bandeja: O Clube das Terças-Feiras, A Casa do Ídolo de Astartéia, As Barras de Ouro, A Calçada Tinta de Sangue, O Móvel do Crime, A Marca do Polegar de São Pedro, O Gerênio Azul, A Dama de Companhia, Os Quatro Suspeitos, Tragédia de Natal, A Erva da Morte, O Caso do Bangalô e Morte por Afogamento.

Neste volume, personagens distintas, mostram a sua forma de ver, viver a vida e seus acontecimentos. Entre estes há Miss Marple, mulher de idade madura que conhecer um pouco de tudo. Ela que junto aos seus amigos faz parte do Clube das Terças-Feiras. "Nós no reuniremos uma vez por semana, e cada sócio do clube terá de propor um problema. Algum mistério que conheça por experiência própria e do qual, naturalmente, saiba a solução".

O bom deste livro é a variedade de casos analisados e resolvidos, desde brigas por herança, casais que agem juntos para roubar, esposas envenenadas, empregados que não merecem a devida confiança, entre outros problemas apresentados. Será que Miss Marple irá acompanhar o pensamento e não perderá a meada das histórias contadas pelos integrantes do grupo que conta mistérios? Até porque ela não larga o seu tricô.

 

"Pairava no ar algo que só consigo descrever

como uma sensação sobrenatural.

Parecia que alguma coisa nos oprimia.

Uma sensação de desgraça iminente".


Agatha Christie: Escritora inglesa (1891-1976) de populares novelas e peças de teatro do gênero policial. Têm como personagens mais célebres o detetive belga Hercule Poirot e a senhora Jane Marple, provinciana de idade madura. Sua peça A Ratoeira, lançada em Londres em 1952, ainda estava sendo representada em 1976, o que constitui a maior exibição teatral contínua do mundo. Seus romances policiais põem em ação detetives antiquados e saborosos, assim como a sociedade na qual se envolvem. Em sua obra muito extensa, destacam-se: O Assassinato de Roger Ackroyd (1928), O Caso dos Dez Negrinhos (1943), A Morte no Espelho (1952) e Testemunha de Acusação (1958).


Livro: Tudo Que Você Não Soube

Autora: Fernanda Young

134 páginas

Ano: 2007

Editora: Ediouro

sábado, 1 de setembro de 2007

.: Resenha de "Quando Termina é Porque Acabou", de Greg Behrendt e Amiira Ruotola-Behrendt

Por: Helder Moraes Miranda

Em setembro de 2007


Quando termina é porque... começou!: Milk Shake ao invés de bebidas e cigarros. Colaborador de Sex And The City divulga os sete mandamentos para não perder a dignidade no término de um relacionamento em livro lançado pela Rocco


Acabou de levar um fora ou não consegue esquecer aquele cara que há tempos saiu de uma relação... Com você? Agora, pesquisa na Internet soluções para os seus problemas, mas sabe que o próximo passo é dar um telefonema, e se humilhar novamente? Calma, há uma luz no fim do túnel antes que você faça qualquer bobagem e coloque a perder tudo o que resta de sua dignidade: corra para a livraria mais próxima.

Tudo porque a editora Rocco lançou, recentemente, o livro "Quando Termina é Porque Acabou – Juntando os Caquinhos e Dando a Volta por Cima", de Greg Behrendt e Amiira Ruotola-Behrendt. Behrendt, um dos colaboradores de Sex And The City – que também lançou pela Rocco o bem-sucedido Ele Simplesmente Não Está a Fim de Você, em que divide a autoria com Liz Tuccillo.

Nesse livro, o autor volta falar de finais de relacionamentos e amores não-correspondidos de forma bem-humorada. Na prática, por meio de discas práticas e descoladas e exemplos reais, a publicação irá encorajar você a expulsar o ex de sua cabeça e memória e redescobrir a pessoa incrível que você sempre foi, mas esqueceu. Com um projeto gráfico de qualidade e belas ilustrações, que seguem a linha bem-humorada do livro, há diversas perguntas formuladas por mulheres (ou personagens femininos) que passam pela mesma situação – isto é, você não é a única – há ainda um caderno de exercícios e de coisas que você deve fazer antes de procurá-lo.

Na primeira parte, "Quando termina é Porque Acabou" gira em torno do fim da relação. Quando não existem novas mensagens e você se torna inconveniente com seus amigos a ponto de falar apenas sobre ele e relembrar momentos que, se fossem tão bons, o relacionamento não teria acabado. A segunda parte trata da superação em grande estilo, com os sete mandamentos para passar essa fase chata sem abalar (um pouco mais) sua auto-estima e um capítulo extra. No fim, você vai descobrir que, realmente, quando termina é porque acabou mas, a vida continua com muitas possibilidades de você ser feliz.


Livro: Quando Termina é Porque Acabou – Juntando os Caquinhos e Dando a Volta por Cima

Título Original: It`s Called a Breakup Because it`s Broken

Autores: Greg Behrendt e Amiira Ruotola-Behrendt

253 páginas

Ano: 2007

Tradução: Alyda Christina Sauer

Editora: Rocco

.: Entrevista com Falcão, cantor e humorista

"Quem acha que a família é algo morto e sem função é porque não teve família." - Falcão

Por: Mary Ellen Farias dos Santos
Em setembro de 2007




Ele foge dos padrões impostos pela mídia e diz que ser diferente é o segredo da longevidade de sua carreira. Descubra o outro lado de Falcão: humor e autenticidade na hora de uma boa conversa. Confira!



Ele foge dos padrões impostos pela mídia e contraria tudo o que há no mercado fonográfico da atualidade. Qual o segredo para permanecer neste cenário tão disputado? Este é exatamente o "x" da questão: ser diferente. Afinal, qual cantor com uma longa carreira teria coragem de lançar um CD chamado "What Porra Is This?"? Somente Falcão.

O oitavo CD de Falcão, lançado em 2005, traz um misto de indignação com certos acontecimentos da vida e bom humor exacerbado. Algumas da músicas têm nomes curiosos e chamativos, como por exemplo, Pato Donald no Tucupi, Amanhã Será Tomorrow, Fome Zero-A-Zero, Quem não tem Cão não Caça, Alguma Coisa acontece no meu Bucho, A Sociedade não Pode Viver sem as Pessoas,  Ordem e Progresso, entre outras. No site MUBI -Música Brasileira Independente- (mubi.com.br), este CD está descrito da seguinte maneira: "Se um dia existiu Mamonas e Raimundos, é graças a cara de pau do gigante Falcão. What Porra Is This apresenta todas as marcas registradas de Falcão. Filosofia para as massas, esculhambação da "inteligência nacional" e bom humor. São 11 composições próprias e uma regravação da espetacular It's Not Mole Não, Severina Cooper de Acioly Neto. Para ouvir de cabo a rabo".

Com seu estilo popular, muita naturalidade e humor canta tudo o que muitos brasileiros pensam, mas falam somente para poucos. Confira a entrevista do cantor Falcão!



RESENHANDO - Falcão não é somente um artista cômico. Por esse motivo, nós da equipe Resenhando.com e seus internautas gostaríamos de conhecê-lo um pouco mais, mesmo porque sua versatilidade envolve até formação acadêmica. Como e quando foi despertado o seu lado humorístico?
FALCÃO - Na verdade, eu nunca pretendi ser um artista cômico (E acho que não sou). O caso é que eu sou cearense, e no Ceará quase todo mundo é engraçado por natureza; na minha família, por exemplo, tem material humano para produzir umas duas "Escolinha do professor Raimundo" ou umas três "Zorra total". Por isso, talvez eu tenha enveredado pelo caminho do brega mais irreverente, embora esse gênero musical tenha sempre sido usado como trilha da dor de cotovelo e da cornagem. 



RESENHANDO - O que prefere: brincar com o que acontece no cotidiano ou encarar tudo em seu modo verdadeiro? Quais tipos de assuntos gosta mais de satirizar? Por que? 
FALCÃO - Brincar e satirizar o cotidiano da seriedade, para mim é a forma mais certeira de levar assuntos "difíceis" à reflexão do povo. Desse jeito, quando eu falo de chifre, de viadagem, dos problemas das minorias ou de temas políticos e sociais, as pessoas, que num primeiro instante sentiram-se atraídas pelo humor ou pela melodia simples, acabam captando melhor a mensagem ou a crítica.


RESENHANDO - Pode falar sobre sua infância? O que mais gostava de ler e escutar? 
FALCÃO - Sempre, desde a mais tenra (gostaram do "tenra"?) idade li e escutei tudo que caiu na minha mão, sem distinção do que fosse, lia dos clássicos da literatura às bulas dos remédios da farmácia do meu pai, lá em Pereiro - CE. Aliás, a primeira imagem, que eu me lembro, do meu pai foi ele lendo um livro... Além disso ele era grande amante 
da música em geral e, por tabela, eu acabei ouvindo toda a sua discoteca que ia da ópera ao brega de Waldick Soriano. 


RESENHANDO - Atualmente, com a modernidade a família está perdendo o seu verdadeiro valor, chegando a ser vista por muitos como algo indiferente e sem função. Para você, qual a importância da família nos dias de hoje? 
FALCÃO - Quem acha que a família é algo morto e sem função é porque não teve família... A família é tão importante em todos os tempos que (digo mesmo sem ver nenhuma pesquisa), nas áreas onde não há formação familiar (principalmente nas 
nossas grandes cidades), é onde a sociedade está mais degenerada.


RESENHANDO - O que diferencia o artista Falcão dos outros? 
FALCÃO - Cada artista é um mundo à parte. Claro que há artistas que são, digamos, mais previsíveis. Eu acho que a minha diferenciação dá-se pela autenticidade, pela 
naturalidade e pela sinceridade com que eu chego até meu público.


RESENHANDO - Conhecendo os bastidores, o que pensa atualmente sobre fazer parte do meio artístico? Existe rivalidade? 
FALCÃO - Trabalhar no meio artístico é como trabalhar em qualquer outra área. É claro que como nesse meio as coisas são muito mais públicas e mais glamurosas, as vaidades, as intrigas e as invejas sejam muito mais exacerbadas. No entanto, há uma vantagem: é pouco o contato que se tem uns com os outros, o que não deixa de também ser ruim pois isso nos priva da convivência com aqueles colegas mais chegados.


RESENHANDO - Entre os seus sucessos que vivem na boca do povo, há preferência por alguma música? Qual? Por que? 
FALCÃO - É claro que dentre as minhas músicas há aquelas das quais eu sou mais admirador, algumas nem são grandes sucessos de público. Mas, as que o público mais gosta me dão grande alegria de ouvi-las ou de cantá-las justamente pela energia que o povo nos manda a cada execução. Entre elas a que eu gosto mais é "Holiday foi muito", por que homem é homem, menino é menino, macaco é macaco é macaco e 
viado é viado... 


RESENHANDO - Como você analisa o cenário da música brasileira dos últimos anos? 
FALCÃO - A música brasileira, dita MPB, é de uma grande diversidade e riqueza melódica, literária, etc... e não deve ser confundida com a música que a mídia toca. Essa música que está no rádio e na TV é, digamos assim, a parte descartável da verdadeira MPB.


RESENHANDO - Ao navergarmos em seu site, o www.sitedofalcao.com.br, encontramos coisas interessantes, como por exemplo, o horóscopo que serve para todos os dias e o teste de corno. Qual a finalidade do site, além da divulgação de seu trabalho? Quem idealizou este espaço virtual? 
FALCÃO - O nosso "saite" foi idealizado por mim e minha equipe e tem como principal finalidade levar os conhecimentos bregorianos e a filosofia "falconética" a todos os fãs e interessados. Quando eu falo em filosofia, alguém pode até achar que seja brincadeira mas, das coisas mais bestas veio todo o pensamento ocidental e oriental, afinal a besteira é a base da sabedoria. Em tempo: eu fui o segundo cantor brasileiro a ter um espaço na internet, depois do ministro Gilberto Gil.


RESENHANDO - Disponibilizar uma música para download no "Bolachografia" é uma estratégia de marketing ou apenas uma forma de divulgação de seu trabalho, forma muito utilizada pelos artistas da atualidade? 
FALCÃO - As duas coisas, mas muito mais o desejo de que o fã que não conseguiu no disco possa ter alguma coisa para se deleitar, já que a minha discografia, por motivos operacionais das gravadoras, é muito difícil de ser encontrada em lojas do ramo.


RESENHANDO - Qual o segredo para manter-se na mídia, após tantos anos de estrada, sempre apostando num formato que não é muito bem aceito pelo público? 
FALCÃO - O segredo é exatamente o formato: Como é uma coisa que não é tão comum nem tão descartável, tem um público fiel que espera cada lançamento na certeza que pode ter um produto fora do padrão da mesmice reinante no mercado. 


RESENHANDO - Quais seus planos para a carreira artística? 
FALCÃO - Continuar como um cantor diferenciado na medida que o talento e a inspiração me coadjuvarem e, num futuro bem próximo, voltar a TV com um trabalho também "catilogênico". 


RESENHANDO - Deixe uma mensagem para os internautas do Resenhando.com 
FALCÃO - A mensagem, que nunca é demais, é de que cultivemos a cultura da paz com catilogência que é a soma da "catigoria" com a loucura e a inteligência. Sem esquecer que "gentileza gera gentileza".



PING-PONG: 
Gosto de: Ver TV e ficar sem fazer nada. 
Não gosto de: Chocolate 
Meus cantores favoritos são: Zé Ramalho, Fagner, Bob Dylan, Waldick Soriano, Raimundo Soldado.
Meus escritores favoritos são: Machado de Assis, Rubens Fonseca, Audifax Rios, Edgar Alan Poe.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

.: Resenha de "O Cerne da Questão", de Graham Greene

Por: Cadorno Teles

Em agosto de 2007


A morte em suas várias formas: Obra séria e bem amarrada ao estilo Greene.


Considerado um "romancista católico" pela crítica, uma alcunha que não gostava, preferia se chamado de escritor que tem como religião o catolicismo, o escritor inglês Henry Graham Greene (1904-1991) deixou diversos livros de ficção que marcaram a literatura mundial. Greene agrupava sua obra em duas categorias: romances e entretenimentos. Sua marca pessoal era tratar de questões morais e políticas do seu tempo por meio de histórias de suspense, mistério e drama, desenvolvidas em cima de uma meditação subliminar sobre os pecados. Bem que mereceu o Nobel de Literatura, premiação a qual foi indicado algumas vezes, mas que nunca levou.

Um autor que caprichou na ação e enveredou em conjunto as angústias do ser humano. Escritor tão popular, que era difícil de imaginar que há algum tempo não se via obras suas nas prateleiras dos lançamentos. Contudo, após o sucesso da adaptação para o cinema Fim de Caso, com Julianne Moore e Ralph Fiennes, seus títulos ganharam reedições.

Entre os quais, o livro "O Cerne da Questão" (The heart of the matter, tradução de Otacílio Nunes, 400 páginas, R$ 34,00) que a editora Globo publicou recentemente. Uma de suas obras mais marcantes, por mostrar os conflitos humanos em seus personagens – outro aspecto de sua obra – e que travam uma guerra impessoal em torno de questões como o livre arbítrio ou a graça. Algo que remete ao catolicismo, religião que Greene abraçou em 1926. Sentidos ocultos em lugares distantes seria uma crítica resumida de suas características narrativas.

Com o brilhante prefácio do critico e professor Carlos Vogt, O Cerne da Questão é uma obra séria, bem amarrada ao estilo claro que Greene construiu. Publicado originalmente em 1948, ganha agora uma nova tradução, bem reformulada deste o seu título, anteriormente O Coração da Matéria ao final da narrativa.

Ambientada num país africano da África Ocidental, que sabemos ser Serra Leoa, por meio das memórias escritas pelo autor, O Cerne da Questão, narra os problemas enfrentados por Henry Scobie, major da policia colonial inglesa, durante o período da II Guerra Mundial.

 Vivendo naquele local com sua esposa, Louise, uma mulher solitária que adora poesia, que se sente estranha e isolada naquela sociedade. O major inglês sente-se responsável por sua felicidade, e tenta ajudá-la, mas traumatizado com a morte da filha em um naufrágio e descontente com tudo ao seu redor, sente-se incapaz de amar alguém, somente a Deus.

 Católico, Scobie prefere enviar sua esposa para a África do Sul, para não a ver sofrer. Principalmente após perder a chance de ser nomeado Comissário, afligindo mais ainda Louise, por suas esperanças pessoais. Nesse ínterim, um novo naufrágio faz reaparecer a dor da perda em Scobie ao testemunhar a morte de uma menina, entre os sobreviventes estão um garoto para quem lê histórias no hospital e Helen Rolt, que fica viúva no acidente e se torna amante do major.

A chegada do novo inspetor, Wilson, que se apaixona por Louise e a chantagem de Yusef, contrabandista sério que descobre o seu adultério são elementos perturbadores do enredo deste romance. Scobie se encerra em seu desejo de perfeição à sua esposa, a sua amante, ao mundo, e nesse anseio em ser virtuoso a todo custo se rivaliza com Deus, em seu interior e a punição são a culpa e o castigo.

Um romance realista e na carreira de Greene, o romance é um livro capital. A temática do suicídio no final, colocado em dúvida aos personagens, e que para o leitor seja uma asserção de que o suicídio do protagonista é uma confissão do fracasso diante dos desígnios divinos ou um derradeiro ato de soberba de quem quer governar a própria morte.

Scobie é um personagem que lembra outras figuras que Greene construiu, como o jovem delator de contrabandistas em O Outro Eu (The man within, 1929), ou o desesperado Pinkie de O Condenado (Brighton Rock, ) ou ainda o sacerdote indigno de O Poder e a Glória (The Power and the Glory). Todas perseguidas por seus infortúnios, com a diferença que o perseguidor e a vítima são uma só pessoa; a caça aqui é simbَólica, ou serve, como uma intriga opaca que Greene desenvolve em seu convencionalismo. Um livro que culpa e expiação são os fios condutores de suas personagens. Vale a pena ler.

Graham Greene: foi um escritor inglês, com uma obra composta de novelas, contos, peças teatrais e críticas literárias e de cinema. Formou-se na Oxford University e começou sua carreira como jornalista, trabalhando como repórter e subeditor do Times. Publicou cerca de 60 romances. E fluiu com eles, com belas descrições visuais para as telas rapidamente, e muitas de suas obras marcaram a história do cinema, O Terceiro Homem, O Americano Tranqüilo, O expresso do Oriente , tornando um dos autores mais adaptados de todos os tempos.


Livro: O cerne da questão

Título Original: The heart of the matter

Autor: Graham Greene

400 páginas

Ano: 2007

Tradução: Otacílio Nunes

Editora: Globo

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

.: Resenha de "A Libélula no Âmbar", de Diana Gabaldon

Por: Mary Ellen Farias dos Santos

Em agosto de 2007


Romance continua em algum lugar do passado. Em "A Libélula no Âmbar", Diana Gabaldon, embarca na história e usa muita criatividade para cruzar a imaginação com a realidade do século XVIII.


Em um ambiente mágico e surpreendente por si só, o romance A Libélula no Âmbar, de Diana Gabaldon, acontece na Paris do século XVIII. Neste volume que dá sequência ao livro A viajante do tempo, que apresentou a protagonista inesquecível, Claire, uma mulher de personalidade forte, que busca o amor verdadeiro em meio a importantes acontecimentos históricos. Separada do marido poucos depois da lua-de-mel, quando ele foi convocado para lutar na Segunda Guerra Mundial, alistou-se como enfermeira na Cruz Vermelha, o que mudou sua visão de mundo. Ao "viajar" no tempo chega em 1793 e conhece o jovem guerreiro escocês Jamie Fraser, com quem vive uma inesperada e intensa paixão.

Ufa! Porque contei toda essa história do primeiro volume da série Outlander? Simples. Em A Libélula no Âmbar temos novamente o par Claire e Jamie. Contudo, nem sempre é possível viver de amor e alegria. Desta vez o escocês de Claire está em "ação" e precisa ajudar o príncipe Carlos Stuart a formar alianças que o apoiassem na retomada do trono da Inglaterra, que se encontrava nas mãos dos protestantes.

Contudo, Claire sabia que a rebelião estava fadada ao fracasso. A tentativa de devolver o Reino aos católicos resultaria num banho de sangue que ficaria conhecido como a Batalha de Culloden, e deixaria os clãs escoceses em ruínas. Em meio a intrigas da corte parisiense, enfrentando novamente um velho rival, ela tenta impedir o morticínio cruel e salvar a vida do homem que ama.

Para escrever A Libélula no Âmbar a autora embasou-se em uma extensa pesquisa histórica e em sua poderosa imaginação. Neste volume, Gabaldon reitera as razões de seu sucesso internacional. Para aqueles que amam ler a realidade e a imaginação lado a lado e interferindo entre si, este romance é uma perfeita viagem.


Confira o prólogo de A Libélula no Âmbar

"Acordei três vezes de madrugada. Na primeira, de tristeza, depois de alegria e, finalmente, de solidão. As lágrimas de uma profunda perda acordaram-me devagar, banhando meu rosto como o toque reconfortante de um pano úmido em mãos tranquilizadoras. Virei o rosto no travesseiro molhado e naveguei por um rio salgado, para dentro das cavernas da dor relembrada, para as profundezas subterrâneas do sono.

Despertei, então, de pura alegria, o corpo arqueado nos espasmos da união física, sentindo o toque de seu corpo ainda na minha pele, morrendo ao longo doscaminhos do meu ser. Repeli a consciência, virando-me outra vez, buscando o cheiro pungente e penetrante de desejo satisfeito de um homem e, nos braços reconfortantes do meu amado, dormi.

Na terceira vez, acordei sozinha, além do alcance do amor ou do sofrimento. A visão das rochas estava nítida em minha mente. Um pequeno círculo, pedras em pé no topo de uma colina verde e íngreme. O nome da colina é Craigh na Dun; a colina das fadas. Alguns dizem que a colina é encantada, outros que é amaldiçoada. Todos têm razão. Mas ninguém sabe a função ou o propósito das pedras.

Exceto eu.".


Diana Gabaldon: A escritora americana formou-se em zoologia, tem mestrado em biologia marinha e é Ph.D em ecologia. Trabalhou como resenhista em revistas de informática e começou a escrever por acaso, quando, para um de seus artigos, precisou analisar um site na Internet dedicado á troca de idéias entre escritores. Diana se apaixonou pela literatura e tornou-se escritora em tempo integral. Diana vive em Scottsdale, no Arizona. Ela é casada e tem três filhos.


Livro: A Libélula no Âmbar

Título Original: Dragonfly in Amber

Autora: Diana Gabaldon

890 páginas

Ano: 2006

Tradução: Geni Hirata

Editora: Rocco

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

.: Resenha de "Maligna – Para os que Amam ou Odeiam o Mágico de Oz"

Por: Helder Moraes Miranda

Em agosto de 2007


O Mágico de Oz para adultos. Livro traz universo de "O Mágico de Oz" de uma maneira como você nunca leu


Uma ativista pela igualdade social, assim é retratada a principal rival da doce e ingênua Dorothy, Ephalba, mais conhecida como Bruxa do Oeste, no livro "Maligna – Para os que Amam ou Odeiam o Mágico de Oz", de Gregory Maguire, publicado no Brasil pela Ediouro. Com mais de dois milhões de exemplares vendidos, o best seller chega ao país prometendo barulho e muita polêmica: traz a versão de uma mulher injustiçada pela vida e, por que não, pela versão do clássico infantil. Afinal, quem é Ephalba?

Ao relatar as circunstâncias da personagem que ficou conhecida como Bruxa do Oeste, Maguire traz uma narrativa envolvente e rica em descrições de qualidade, comuns apenas para um grupo seleto de escritores que produzem, hoje, boa literatura. Cheio de intrigas, reviravoltas, grandes paixões e adultérios, o romance é um folhetim temperado com temas incapazes de serem imaginados em um universo voltado para crianças, como poligamia, preconceitos e disputa por terras.

Filha de um pastor de vida simples que defende valores além das aparências e de uma mulher de moral duvidosa que se casa porque o homem é bom de cama, Ephalba nasce verde, talvez como castigo pela infidelidade de sua mãe. Por ser da tonalidade verde e ter dentes vorazes, é rejeitada pelos pais e, mais tarde, pelos colegas de universidade. Incompreendida, conquista amigos, apesar da repulsa e do pavor que causa, sem abrir mão de suas observações irônicas a respeito da vida. Com o tempo, torna-se cada vez mais importante por diversos fatores da história local.

Com belas ilustrações e um mapa para situar o leitor, cada capítulo do livro gira em torno de uma fase da vida da Bruxa do Oeste. Apenas no último capítulo, a menina Dorothy é trazida pelos ventos de um tornado ao mundo de Oz. Quando começa a perseguição de Ephalba à meiga garotinha da história infantil, o leitor terá bases concretas para avaliar se a mulher, estigmatizada como bruxa, é culpada ou inocente, maligna ou benigna.

Gregory Maguire: Doutor em literatura inglesa e americana, o escritor tem mais de 20 livros infantis publicados. Maligna – que virou musical da Broadway e rendeu a ele um Tony Awards em 2004 – é seu primeiro livro para adultos. Com o sucesso (de vendas e de crítica) de sua primeira obra adulta, publicou mais quatro ficções para esse público. O próximo livro a ser lançado pela Ediouro é Filho da Bruxa, continuação de Maligna.


Livro: Maligna – Para os que Amam ou Odeiam o Mágico de Oz (Wicked)

Autor: Gregory Maguire

416 páginas

Ano: 2007

Tradução: Chico Lopes

Editora: Ediouro

.: Dossiê Autran Dourado, escritor

"A única maneira de saber se você tem talento é escrevendo." - Autran Dourado

Por: Mary Ellen Farias dos Santos

Em agosto de 2007


Um escritor e novelista que mostra a verdade sobre a vida e ressalta que neste mundo nada é definitivo.


As produções de um excelente escritor não são encontradas nas "páginas amarelas". Talvez por meio da indicação de um bom amigo ou pelo próprio impulso de conhecer o novo. Eu, infelizmente, conheci Autran Dourado somente na Pós-Graduação em Literatura. O fascínio pelo autor não foi algo imediato, mas ao ler cada palavra "dourada" pude perceber a importância deste autor brasileiro e o quanto havia perdido, antes de conhecê-lo melhor.

Autran Dourado, isto é, Waldomiro Autran Dourado nasceu em Patos de Minas, Minas Gerais, no ano de 1926. Estudante de Direito em Belo Horizonte, publicava contos e artigos em jornais de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. Integrou o grupo de jovens mineiros que criaram a revista Edifício em 1945.

Formou-se em Direito, em 1954, quando se mudou para o Rio de Janeiro, onde mora há mais de 40 anos. Foi secretário de Imprensa do Presidente Kubitschek de 1955 a 1960. Este grande ficcionista dos anos de 1960 e 70 possui mais prêmios e honrarias do que qualquer outro escritor brasileiro. 

Atualmente, conta com vários livros traduzidos e trinta teses de mestrado e doutorado sobre sua obra, no Brasil e no exterior. Entre suas grandes obras está o livro de contos, Solidão, solitude (1972), além dos romances importantes como Uma vida em segredo (1964), filmado pela cineasta Suzana Amaral, A barca dos homens (1961), Ópera dos mortos (1967), O risco do bordado (1970) e Os sinos da agonia (1974).

O romance Ópera dos mortos foi escolhido pela Unesco para integrar a Coleção de Obras Representativas da Literatura Universal e Os sinos da agonia, adotado para os exames de Agregação das Universidades Francesas. Estas obras envolvem uma linguagem obsessivamente trabalhada, principalmente pelo fato da revelação de mundos espectrais e doentios em que os indivíduos são arrastados pela forças dos instintos rumo à destruição.

Ópera dos mortos: Neste romance há um sobrado decadente da família Honório Cota. Nele, vive Rosalina, a última remanescente de uma estirpe em extinção, acompanhada apenas de uma empregada muda, Quiquina, e de um agregado, Juca Passarinho. A paixão erótica que a patroa nutre por Juca Passarinho é proporcional ao desprezo que ela vota a esse subalterno social. Todavia a gravidez da orgulhosa Rosalina surge como um golpe terrível na vida dos três, desencadeando o crime e a loucura.

Os sinos da agonia: De acordo com o crítico Flávio L. Chaves, em Os sinos da agonia “a vida das criaturas está cifrada numa sucessão labiríntica que vai do adultério ao assassinato, da ambição dissimulada à loucura e ao suicídio, das secretas intrigas familiares à delação pública. Autran Dourado escreveu o romance da traição”. Contudo, a ação transcorre na Vila Rica do século XVIII, mas a circunstância histórica (a decadência da sociedade aurífera) é meramente circunstancial. Este não é apenas um romance histórico e sim de uma narrativa voltada para a análise e o contraste dos caracteres individuais, especialmente os de Malvina e os de Gaspar. 

Prêmios: Autran Dourado já recebeu vários prêmios no Brasil, inclusive um na Alemanha, o Prêmio Goethe de Literatura. Em agosto de 2000, recebeu o Prêmio Camões pelo conjunto de sua obra, prêmio atribuído anualmente ao melhor autor de língua portuguesa. A Rocco está reeditando as obras selecionadas e revistas pelo autor, entre romances, contos e ensaios. As capas das reedições são feitas especialmente pelo gravurista Ciro Fernandes.

Para Autran Dourado "tudo é literatura, mesmo a filosofia, pois nenhum de seus problemas foi até hoje resolvido". Em entrevista ao site Guia do Livro, o escritor disse que "a única maneira de saber se você tem talento é escrevendo" .


 Novo livro: O Senhor das Horas é composto por duas novelas e quatro contos inéditos, protagonizados por personagens que vêem suas vidas em retrospecto, isto é, uma sucessão de perdas - da infãncia, da inocência, da virgindade, da juventude, da mulher amada, das tradições. Todos fazem parte de um passado distante. Autran Dourado pega o leitor pela mão e o faz acompanhar vidas movimentadas e sonolentas, algumas bem-vividas outras desperdiçadas, longas e breves. Embora O Senhor das Horas nada tenha de erótico, o sexo é tema constante nas páginas da obra, como por exemplo, há um coronel que prefere seduzir suas serviçais a satisfazer a libido de sua belíssima esposa.



Obras publicadas
A barca dos homens, romance
Ópera dos mortos, romance
O risco do bordado, romance
Os sinos da agonia, romance
A serviço del-rei, romance
Tempo de amar, romance
Uma vida em segredo, romance
Novelário de Donga Novais, romance
Lucas Procópio, romance
Um artista aprendiz, romance
Monte da alegria, romance
Um cavalheiro de antigamente, romance
Ópera dos fantoches, romance
Confissões de Narciso, romance
Novelas de aprendizado, romance
Gaiola aberta, memorial
Solidão solitude, contos
Armas e corações, contos
As imaginações pecaminosas, contos
Violetas e caracóis, contos
Uma poética de romance: matéria de carpintaria, ensaio
Meu mestre imaginário, ensaio



Obras reeditadas pela Rocco
Ópera dos mortos, romance
Os sinos da agonia, romance
A barca dos homens, romance
O risco do bordado, romance
Um artista aprendiz, romance
Uma poética de romance: matéria de carpintaria, ensaio
Novelário de Donga Novais, romance
A serviço del-Rei, romance
As imaginações pecaminosas, contos



Obras editadas pela Rocco
Gaiola aberta, memórias 
O Senhor das Horas, novelas e contos
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