sexta-feira, 26 de outubro de 2018

.: Crítica: "Annie - O Musical" é ato de resistência para tempos sombrios


Por Helder Moraes Miranda, em outubro de 2018.


Antes de qualquer coisa, "Annie - O Musical", em cartaz no Teatro Santander, em São Paulo, é uma experiência para os olhos. A grandiosidade do espetáculo só se compara ao arrasa-quarteirão "Peter Pan", exibido no primeiro semestre do ano, com muito sucesso. Baseado na história em quadrinhos " Annie, a Pequena Órfã ", de Harold Gray, a personagem título é uma espécie de Oliver Twist de saias.


Em comum com o personagem de Charles Dickens, primeiro romance inglês protagonizado por uma criança e considerado uma obra prima da literatura inglesa, está a vontade de aproveitar as oportunidades da vida com unhas e dentes. Acrescente um pouco mais de doçura à obra e estamos diante de "Annie". 


Tudo nessa história inspira. A começar pela protagonista, interpretada por três garotas nas diferentes apresentações brasileiras. Na apresentação em que assistimos, estava Maria Clara Rosis, que transpira carisma e talento. Independentemente da intérprete que defende Annie nas apresentações, o público percebe que está diante de novos talentos. Maria Clara Rosis, no entanto, é uma nova Shirley Temple, com uma pitada de modernidade típica dos jovens de hoje. 


Além de cantar muito bem, a intérprete da personagem emblemática do musical da Broadway e até de um filme clássico muito exibido nos anos 80 e 90 na "Sessão da Tarde" também confere à personagem a força que ela deve ter. Porque Annie é uma menina travessa e geniosa, mas também de bom coração e, recém-saída do musical "Peter Pan", de Billy Bond, como a personagem Sininho, ela consegue cativar.


Até porque para que a personagem - e o espetáculo - dêem certo, precisam da torcida do público. Desde o início, Maria Clara Rosis, liderando o elenco infantil, cativa ao retratar a situação de um orfanato sucateado, em que as órfãs, apenas meninas, sofrem nas mãos da vilã Sra. Hannigan, um papel feito sob medida para a talentosíssima Ingrid Guimarães. "Vida Dura Irmão", seguramente, um dos números mais lindos dos musicais que já foram encenados no teatro brasileiro, contextualiza a história de crianças jogadas ao abandono e a falta de amor.


No meio termo entre a comédia e a vilania, Ingrid se destaca em todas as cenas. É engraçada, canta bem e (no musical) é muito má - uma receita e tanto para musicais e, sobretudo, para que uma atriz do porte de Ingrid se esbalde em várias nuances, já que o espectador consegue sentir tudo por ela durante o espetáculo, até, pasmem, compaixão - tudo pelas cores que a atriz consegue pintar na personagem. E como ela é (ainda mais) bonita, e alta, pessoalmente!


Propositalmente, ou não, a personagem dela mistura "A Mulher de 30 Anos", de Honoré de Balzac, com toda a sensualidade amadurecida e a força do sexo feminino, com algo over, grandiloquente e mágico, próprios da construção que ela traçou. Ingrid Guimarães é hipérbole pura em "Annie", mas ao mesmo tempo representa a celebração de um grande talento em uma personagem que celebra toda a trajetória de alguém que se sai tão bem em tudo o que se propõe a fazer seja no cinema, teatro ou televisão.

Em "Annie" sobressaem-se as cores azul e vermelho, que são quase personagens. Desde o ruivo dos cabelos da menina protagonista, à escada com o W que remetem à inicial do senhor Oliver Warbucks até as cores frias de inverno. Cores primárias como o verde, em várias tonalidades, que ajudam a envolver e encantar. Afinal, é Natal no espetáculo e nas cores que gritam aos olhos do público, em uma paleta meticulosamente pensada para conduzir ao espectador a essa história tão emocional que é impossível não sair comovido e mais empático do que quando entrou.


Cleto Baccic, cover de Miguel Falabella, é uma surpresa agradável e um grande trunfo desse lindo espetáculo. Ele não deixa nada a dever ao querido protagonista dos musicais "Os Produtores" e "O Beijo da Mulher-Aranha" e, apesar de lembrar Falabella pelo timbre da voz, impõe o seu próprio estilo em uma atuação em que a tônica é a ternura. Outra que se destaca é a governanta Grace, Sara Sarres, em uma atuação suave e marcante. 


Marcel Octavio (cover de Rooster, papel de Cleto Baccic que, na apresentação que o Resenhando assistiu, interpretou o sr. Warbucks) e Carol Costa (Lilly), que completam o time dos vilões, ajudam a mover a história e emprestam seus talentos às motivações duvidosas dos personagens. Os cãezinhos que se revezam em cena são a "cereja do bolo" na "fofurice" toda. 


Não é possível deixar de comentar o desempenho de Ludmillah Anjos, finalista do programa "The Voice" que, com seu carisma, vem desempenhando papéis memoráveis em musicais como a Oda Mae em "Ghost - O Musical" (crítica neste link) e, desta vez, demonstra toda a sua versatilidade com personagens que exigem dramaticidade, comicidade e puro gogó (coisa que ela tem de sobra).


"Annie - O Musical" é quase um neon de tão luminoso e deveria voltar todos os finais de ano para fazer lembrar que a vida pode e deve ser mais musical e colorida, mesmo quando a país precede tempos sombrios que parecem se aproximar. "Annie" é sobre tudo isso e mais.


"Annie, O Musical" - 'Vida Dura Irmão' ("It's The Hard Knock Life")


"Annie, O Musical" - "Amanhã" ("Tomorrow")

"Annie, O Musical" - "Eu Só Preciso de Você"

Serviço:
Local: Teatro Santander (Avenida Presidente Juscelino Kubitschek, 2041 – Itaim Bibi – São Paulo – dentro do Shopping J.K Iguatemi)
Horários: Quintas e Sextas às 21h – Sábados às 16:30h e às 21h – Domingos às 15:30h e às 20h
Ingressos: De R$ 75,00 a R$ 310,00
Duração: 2 horas e 40 minutos (com 15 minutos de intervalo)
Capacidade: 1.100 lugares
Classificação: Livre

Estacionamento terceirizado com manobrista 
Vendas em: 
www.ingressorapido.com.br (sujeito a taxa de conveniência), ou diretamente na bilheteria do Teatro Santander (horário de funcionamento: Domingo a quinta-feira: 12h às 20h ou até início do espetáculo. Sexta e sábado: 12h às 22h)


*Helder Moraes Miranda escreve desde os seis anos e publicou um livro de poemas, "Fuga", aos 17. É bacharel em jornalismo e licenciado em Letras pela UniSantos - Universidade Católica de Santos, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura, pela USP - Universidade de São Paulo, e graduando em Pedagogia, pela Univesp - Universidade Virtual do Estado de São Paulo. Participou de várias antologias nacionais e internacionais, escreve contos, poemas e romances ainda não publicados. É editor do portal de cultura e entretenimento Resenhando.


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Um comentário:

  1. Espetáculo belíssimo, voltado ao público infantil, mas agrada muito o adulto, pois apresenta uma trama bastante tocante. Sem contar que a atuação do elenco é impecável. Altamente recomendável!! Aliás... é imperdível!!

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