sábado, 26 de setembro de 2020

.: "Uma Mulher Só" e a necessidade de falar sobre assuntos espinhosos


Por 
Helder Moraes Miranda, editor do Resenhando. Fotos: Ronaldo Gutierrez

O charme especial do espetáculo "Uma Mulher Só", texto denso de 1977 escrito pelo casal Dario Fo e Franca Rame, é a alegria esfuziante de Martha Meola. O espetáculo pode ser assistido até este domingo, dia 27, às 17h, na plataforma Sympla. É um respiro para o Brasil e o mundo, que sofrem com a pandemia. No espetáculo e na vida, o contexto é o isolamento social obrigatório. Para muitos, o lar é um refúgio, mas para parte de algumas mulheres, ficar em casa pode representar também dores físicas, morais e risco de morte. 

No monólogo "Uma Mulher Só", o lar de uma mulher isolada contra a vontade se torna palco para falar de um assunto tão contundente quanto a violência doméstica. A condição das mulheres, que parece não ter evoluído até hoje, também está em pauta. O que poderia ser um espetáculo extremamente pesado torna-se, inacreditavelmente, muito leve. A direção competente é de Marco Antônio Pâmio, que joga luz sobre um tema espinhoso e, aliado à graça de Martha Meola, trata tudo com certo otimismo. A protagonista está sem saída, mas leva o espectador a acreditar que, de uma hora para outra, tudo terminará bem, como uma metáfora para os que sobreviverem à pandemia. 

A atualidade do texto não se dá apenas pelos assuntos serem o machismo e violência doméstica, o que por si só tornaria o espetáculo relevante, mas porque em 2020 a sociedade parece retroceder e o teatro é uma das respostas que podem fazer a diferença e trazer acalanto para quem discorda dos absurdos do mundo contemporâneo. Tratar de temas pesados com otimismo em uma peça que remete justamente o contrário não é apenas questão de talento e energia. Uma personagem que encara os desafios com pragmatismo e, até certo ponto, com bom humor, é um dos desafios de agora. Martha Meola se apresenta durante quase uma hora e o público não vê o tempo passar. 

Na peça, a personagem está trancada em casa pelo próprio marido. Ela se alegra com a chegada de uma nova vizinha, de quem se torna amiga e confidente. Quer falar porque precisa de alguém que a ouça. Atarefada e relacionada à "Amélia", da música de Mário Lago que já simbolizou a mulher ideal na MPB, ela sente fome de viver. Esta personagem, com a necessidade urgente de falar, representa o que todos os que estão com o nó na garganta pensam. Pela plataforma Zoom (com acesso e ingressos à venda no Sympla), o espetáculo amplifica pensamentos e coisas que passariam despercebidos no dia a dia. Se pensarmos bem, ninguém está só. Basta um olhar atento e, se for preciso, gritar tão alto até que alguém ouça e estenda a mão.

Uma Mulher Só 40 minutos (+15 minutos de debate após o espetáculo) | Drama Apresentação em formato digital (como o som do espetáculo foi feito num esquema binaural, recomenda-se o uso de fones ao assistir para um melhor aproveitamento da experiência) | Até dia 27 | Domingo, às 17h | Sinopse: trancada em sua casa pelo marido, uma mulher se alegra com a chegada de uma nova vizinha, de quem se torna amiga e confidente | Texto: Dario Fo e Franca Rame| Elenco: Martha Meola | Direção: Marco Antônio Pâmio | Ingressos: de R﹩ 10 a R﹩ 250 (vendas pelo Sympla) | Classificação: 16 anos Vendas online no site: https://www.sympla.com.br/uma-mulher-so--comedia-de-dario-fo__970505.




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