quinta-feira, 4 de junho de 2026

.: A poética do asfalto de Steve Martin ganha as telas em "L.A. Story"


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Há cidades que não passam de cenários, mas Los Angeles, no olhar afiado de Steve Martin, é uma piada pronta que insiste em se levar a sério. Sob a direção do britânico Mick Jackson, o comediante de cabelos brancos concebeu uma crônica ácida, porém estranhamente terna, sobre a capital mundial das aparências. Longe de ser apenas mais uma comédia romântica desmiolada para preencher as tardes de domingo, o longa-metragem "L.A. Story", que estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, é uma sátira sofisticada que bebe diretamente na fonte do neorrealismo italiano e no teatro clássico inglês, oferecendo um espelho deformado e cirúrgico do modo de vida californiano. A poética do asfalto, que afirma que "o sol brilha para todos", é destrinchada neste filme.

A trama acompanha as desventuras de Harris K. Telemacher, um homem que carrega o fardo de um doutorado em artes e humanidades, mas ganha a vida como o "meteorologista maluco" de um telejornal local. Em uma cidade onde o clima se resume a um eterno e imutável ensolarado, a função de Harris é a própria definição da inutilidade elegante. Ele patina por galerias de arte destilando resenhas excêntricas e recita Shakespeare em esquinas movimentadas, tateando qualquer resquício de significado em meio a um oceano de futilidades. A vida do protagonista entra em parafuso quando ele descobre que sua namorada ambiciosa o trai há três anos com seu próprio agente, e que uma previsão errada de temporal acabou por afundar o iate de seu chefe, custando-lhe o emprego.

O ponto de virada surge na solidão da rodovia, quando o carro de Harris quebra e um painel eletrônico de sinalização de trânsito começa a piscar mensagens enigmáticas, direcionadas exclusivamente a ele. Essa entidade mecânica e conselheira passa a guiar seus passos românticos em direção a Sara, uma jornalista londrina que desconfia do estilo de vida local, mas que se vê presa ao desejo de reconciliação de seu ex-marido. Para complicar o quadrante amoroso, Harris se envolve com SanDeE*, uma jovem e desinibida aspirante a modelo cuja maior profundidade intelectual reside na grafia peculiar de seu próprio nome.

A genialidade do roteiro de Steve Martin está na capacidade de extrair humor da neurose urbana sem descambar para a grosseria. A antológica cena do restaurante "California Cuisine", onde os frequentadores pedem variações milimetricamente pretensiosas de café descafeinado com toques de limão e reagem a um terremoto com a naturalidade de quem espanta uma mosca, resume o espírito da obra. Martin escreveu o texto como uma resposta da Costa Oeste ao clássico "Contos de Nova York", provando que a futilidade de Los Angeles também merecia sua própria poesia. A própria abertura do filme, inclusive, faz uma reverência direta e refinada a "A Doce Vida", clássico de Federico Fellini.

O longa também carrega marcas de bastidores. Martin dividiu o protagonismo com Victoria Tennant, com quem era casado na vida real durante a produção. O elenco de apoio brilha com Sarah Jessica Parker entregando uma atuação inspirada como a bimbette californiana e Patrick Stewart roubando a cena como o maître do pomposo restaurante L'Idiot. Curiosamente, grandes nomes como John Lithgow e Scott Bakula chegaram a rodar participações importantes como um agente de cinema e um vizinho, respectivamente, mas tiveram suas cenas completamente limadas na sala de edição para garantir o ritmo da narrativa - embora referências aos diálogos de Lithgow ainda ecoem na versão final. Outros astros, como Chevy Chase, Woody Harrelson e Rick Moranis, dão as caras em aparições rápidas e não creditadas que divertem o espectador atento.

A embalagem sonora do filme ganha um tom místico com a presença da música de Enya, criando o contraponto perfeito para as bizarrices visuais e as perseguições nas autoestradas. Para os cinéfilos detalhistas, uma curiosidade de bastidor une esta produção a clássicos posteriores: a placa de carro "2GAT123", utilizada no veículo de Harris, tornou-se um dos maiores easter eggs de Hollywood, reaparecendo anos depois em produções de peso como "Traffic", "Cidade dos Sonhos" e "A Corrente do Bem". Entre o deboche e o lirismo, o filme sobrevive ao tempo como um registro afetuoso de uma cidade que insiste em inventar sua própria realidade.


Ficha técnica
"Loucuras em Los Angeles" | "L.A. Story" (título original) | "Viver e Amar em Los Angeles" (título em Portugal)
Gênero: comédia, romance, fantasia. Duração: 98 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. Ano de produção: 1991. Idioma: inglês. Direção: Mick Jackson. Roteiro: Steve Martin. Elenco: Steve Martin, Victoria Tennant, Richard E. Grant, Marilu Henner, Sarah Jessica Parker, Susan Forristal, Kevin Pollak, Patrick Stewart. Distribuição no Brasil: Tri-Star Pictures / Columbia TriStar Home Video. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte


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