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domingo, 7 de junho de 2026

.: André Téchiné mergulha na Paris que engole sonhos em "Não Dou Beijos"


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Lançado em 1991 e agora em cartaz na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, "Não Dou Beijos" é uma das obras mais contundentes da filmografia de André Téchiné. O cineasta francês abandona qualquer idealização da capital francesa para acompanhar a trajetória de Pierre, interpretado por Manuel Blanc, um jovem do interior dos Pireneus que desembarca em Paris carregando o sonho de se tornar ator. O que encontra, porém, está longe das promessas de ascensão social frequentemente associadas à cidade. Sem conseguir se firmar profissionalmente, Pierre atravessa uma sucessão de fracassos que o empurram para a marginalidade. Aos poucos, a sobrevivência fala mais alto do que as ambições artísticas, levando-o à prostituição masculina. O percurso do personagem é marcado por encontros, perdas e humilhações que moldam uma dolorosa passagem para a vida adulta.

Escrito por Jacques Nolot em parceria com André Téchiné, o roteiro nasceu de experiências pessoais do próprio Nolot, que chegou a transformar suas vivências em um romance inédito antes da adaptação para o cinema. A colaboração resulta em uma narrativa de forte autenticidade emocional, interessada na observação de um indivíduo tentando encontrar algum lugar no mundo. O título "Não Dou Beijos" sintetiza a postura do protagonista diante de um universo em que quase tudo pode ser negociado. A frase funciona como uma espécie de código íntimo, um limite que Pierre tenta preservar quando sua vida passa a ser determinada por circunstâncias cada vez mais adversas.

Manuel Blanc entrega uma atuação de enorme intensidade, responsável por projetar seu nome internacionalmente e render-lhe o César de Ator Revelação. Ao seu redor, Philippe Noiret constrói um personagem complexo e melancólico, enquanto Emmanuelle Béart adiciona magnetismo e vulnerabilidade à figura de Ingrid. Hélène Vincent completa o núcleo central com uma interpretação marcada por delicadeza e frustração. Téchiné conduz a narrativa sem concessões. 

A Paris dele não possui cartões-postais nem encantamento turístico. As ruas, os apartamentos modestos e os espaços de encontro noturno compõem um cenário hostil, em que o desejo de pertencimento esbarra constantemente na indiferença coletiva. Essa visão desencantada da metrópole antecipa temas que o diretor voltaria a explorar em obras posteriores, entre elas "Rosas Selvagens", consolidando seu interesse por personagens jovens deslocados social e emocionalmente.

Outra curiosidade relevante envolve o personagem Romain, interpretado por Philippe Noiret. Segundo registros sobre a produção, a figura foi inspirada no filósofo Roland Barthes, amigo tanto de Téchiné quanto de Jacques Nolot. A referência acrescenta uma camada intelectual discreta a um filme que, embora profundamente humano, jamais abandona a reflexão sobre poder, afeto e vulnerabilidade. 

Recebido com respeito pela crítica internacional, "Não Dou Beijos" também chamou atenção pela forma direta com que abordou a prostituição masculina, tema raramente tratado com tanta frontalidade no início da década de 1990. O diretor rejeita glamourizações e oferece um retrato duro de quem tenta preservar a própria identidade enquanto tudo ao redor parece exigir algum tipo de renúncia. Mais de três décadas após a estreia, "Não Dou Beijos" continua impressionando pela honestidade de seu olhar. É um drama sobre juventude, desilusão e sobrevivência que permanece atual justamente porque compreende algo fundamental: crescer nem sempre significa realizar sonhos; às vezes significa aprender o que sobra deles.


Ficha técnica
"Não Dou Beijos" | "J'embrasse Pas" (título original) | "Je N'Embrasse Pas" (título em Portugal)
Gênero: drama. Duração: 115 minutos. Classificação indicativa: 18 anos. Ano de produção: 1991. Idioma: francês. Direção: André Téchiné. Roteiro: Jacques Nolot e André Téchiné (com colaboração de Michel Grisolia). Elenco: Manuel Blanc, Philippe Noiret, Emmanuelle Béart, Hélène Vincent, Roschdy Zem, Ivan Desny, Christophe Bernard e Michèle Moretti. Data de lançamento nos cinemas: 20 de novembro de 1991 (França). Distribuição no Brasil: sem distribuição comercial ampla registrada nos cinemas brasileiros; circulou em mostras e circuitos especializados. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.

sábado, 6 de junho de 2026

.: "Dominados pelo Desejo" resgata alma do noir e afunda personagens no medo


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Lançado em 1990, "Dominados pelo Desejo", que estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte,  foi transformado em objeto de culto do cinema norte-americano. Dirigido por James Foley, cineasta que transitou entre o suspense, o drama e produções de grande apelo comercial, o longa-metragem adapta o romance "After Dark, My Sweet", de Jim Thompson, um dos escritores mais influentes da literatura policial americana.

A trama acompanha Kevin "Kid" Collins, interpretado por Jason Patric, um ex-boxeador atormentado que foge de uma instituição psiquiátrica e passa a vagar pelo deserto californiano. Durante a fuga, ele cruza o caminho de Fay Anderson, personagem de Rachel Ward, uma mulher fragilizada por perdas e vícios, que vive sob a influência de Garrett "Tio Bud" Stoker, papel de Bruce Dern. O encontro entre os três dá origem a um plano de sequestro que parece simples apenas na superfície. Conforme a situação se deteriora, a desconfiança, a manipulação e os impulsos autodestrutivos assumem o controle da narrativa.

James Foley, que anos antes dirigira "Quem é Essa Garota?" e posteriormente assinaria títulos como "O Sucesso a Qualquer Preço" e capítulos da franquia "Cinquenta Tons de Cinza", encontra neste filme uma de suas obras mais elogiadas pela crítica especializada. A direção aposta na construção psicológica dos personagens, mantendo o espectador preso à instabilidade emocional do protagonista.

Grande parte da força do filme reside na fidelidade ao universo criado por Jim Thompson. Conhecido por romances como "The Killer Inside Me" e "Pop. 1280", o escritor construiu uma carreira retratando criminosos fracassados, pessoas à deriva e indivíduos incapazes de escapar das próprias limitações. "Dominados pelo Desejo" preserva esse espírito sem recorrer a glamourizações, oferecendo um retrato áspero de personagens que avançam rumo ao desastre quase por inércia.

A atuação de Jason Patric costuma ser apontada como um dos pontos mais marcantes de sua trajetória. O ator confere humanidade e vulnerabilidade a um homem constantemente dividido entre a lucidez e a confusão mental. Rachel Ward evita qualquer romantização da figura da femme fatale clássica, compondo uma mulher emocionalmente ferida, imprevisível e contraditória. Já Bruce Dern entrega um personagem oportunista e desprezível na medida certa, reforçando o clima de tensão permanente.

Visualmente, o longa também chama atenção. A fotografia de Mark Plummer utiliza paisagens áridas e ensolaradas para construir uma atmosfera opressiva. O resultado aproxima o filme do chamado "neo-noir solar", vertente que substitui becos escuros e ruas molhadas pela sensação de isolamento provocada pelo calor e pelos espaços abertos. O fatalismo característico do noir clássico permanece intacto, apenas muda de cenário.

Embora não tenha obtido sucesso expressivo nas bilheterias durante o lançamento, "Dominados pelo Desejo" conquistou admiradores ao longo das décadas. Muitos críticos o consideram uma das adaptações mais consistentes da obra de Jim Thompson para o cinema, justamente por compreender que seus personagens não são gênios do crime, mas seres humanos frágeis, guiados por impulsos, ilusões e decisões equivocadas. Um suspense psicológico que prefere explorar a deterioração moral e emocional de seus protagonistas a oferecer respostas fáceis. Uma experiência marcada pela inquietação, pela melancolia e pela certeza de que, naquele universo, cada escolha carrega consequências difíceis de evitar.


Ficha técnica
"Dominados pelo Desejo" | "After Dark, My Sweet" (título original)
Gênero: romance, suspense, drama, policial, mistério (neo-noir). Duração: 114 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 1990. Idioma: inglês. Direção: James Foley. Roteiro: James Foley e Robert Redlin, baseado no romance de Jim Thompson. Elenco: Jason Patric, Rachel Ward, Bruce Dern, George Dickerson, Ira Wheeler e Rockne Tarkington. Distribuição no Brasil: disponibilidade em plataformas e distribuidoras varia conforme o período de exibição. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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sexta-feira, 5 de junho de 2026

.: Crítica: "Mestres do Universo" tem a força para manter a essência e inovar


Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em junho de 2026


A essência da animação de sucesso dos anos 80, chega aos cinemas em 2026 mesclada a uma releitura cinematográfica humanizada para os tempos de hoje. Eis "Mestres do Universo" a aguardada produção do herói fortão de tanguinha e botas que, diante do perigo, para salvar seu povo, ergue a espada do poder a um sonoro: "pelos poderes de Grayskull... eu tenho a força!". Vale destacar aos saudosistas que é uma boa priorizar a versão dublada do longa, uma vez que Garcia Júnior reinterpreta o príncipe Adam (Nicholas Galitzine, de "Continência ao Amor"), com bônus de ter a voz da dubladora Marisa Leal (Ariel na animação Disney, Baby em "Família Dinossauro") como Roboto.

Com direção de Travis Knight ("Bumblebee"), o filme de 2026 é um resgate de nova roupagem que absorve um pouco da história de "Superman". Quando criança, o pequeno príncipe Adam sobrevive a um ataque tenebroso de Esqueleto (voz de Luiz Carlos Persy como Esqueleto, Jared Leto, de "Esquadrão Suicida", "Morbius" e "Tron-Ares") a Eternos. Enviado para a Terra junto de sua espada os dois se desencontram. 

A produção não retrata como Adam se formou, se foi adotado ou cresceu num orfanato. Agora, um homem que ainda tenta encontrar a espada perdida e também sua cara-metade, tenta sobreviver no maçante trabalho para se manter vivo. Outra falha do longa, no caso visual, está no primeiro embate do herói em Etérnia com um vilão, numa ponte estreita em que com um gancho, o rival marca o chão. Contudo, em todo o confronto, tal feito simplesmente some da tela, deixando a ponte em perfeitas condições.

Perdido na Terra, vivendo como um reles mortal com lembranças curiosas da infância, após 10 anos, ele é reencontrado por Teela numa situação de puro enfrentamento. Toda a pancadaria remete muito a sequência de "Homem-Aranha De Volta para Casa" (2021) quando doutor Octopus encontra o cabeça de teia na ponte ou ainda o mais antigo "Deadpool" (2016) no confronto que acontece durante os créditos iniciais do filme. Em tempo, Adam tem Hussein (Christian Vunipola) como amigo na Terra, o que também remete a nova franquia de "Homem-Aranha" com Ned Leeds (Jacob Batalo).

Bebendo da fonte de "Superman""Mestres do Universo" faz lembrar da cena das cartas na saga "Harry Potter", sendo que aqui o que voa pelo ambiente são os desenhos do menino que retratam lembranças de sua infância. Há também um pouco de "O Senhor dos Anéis" na Montanha da Perdição quando Adam joga um rival direto no fogo ardente.

Assim, Adam volta para Etérnia que está destruída tendo o Esqueleto no comando, estando sedento pelo poder absoluto, almejando ter em mãos a espada do poder. Sem ter conhecimento da força descomunal que tem, por carregar o descrédito do pai, o jovem Adam tenta se enturmar com as figuras que conheceu na infância e pareciam sem sentido para os humanos. Afinal, Adam prioriza a conversa antes de partir para o braço o que só alimenta a desconfiança dos outros.

Ao ser enjaulado com Teela, Adam reencontra Mentor, que acaba sendo a representação viva do que Esqueleto fez com Etérnia. Destruído, o pai de Teela encontra a força que precisava no regresso do herói, voltando a seus tempos áureos de auxiliar a família do rei de Etérnia. Em meios a diversos embates, Adam se redescobre e a magia do herói da música brasileira do "Trem da Alegria", acontece na telona de cinema. Sim! "Mestres do Universo" é o tipo de produção para se assistir na telona de cinema com estilo.

Para alguns que imaginavam ver nos cinemas a reprodução das animações dos anos 80, "Mestres do Universo" pode ser frustrante. Contudo, para amarrar todo o histórico do príncipe Adam, certas mudanças são aceitáveis. Vale lembrar que o herói dos músculos de aço já ganhou um longa-metragem em 1987 que fracassou, mesmo tendo Dolph Lundgren como protagonista. E ele marca presença na nova produção em um encontro do tipo o antigo e o atual Adam, numa academia quando o jovem pede um conselho de iniciante. 

Com três cenas pós-créditos, "Mestres do Universo" pode não ser um filmaço que preencha os requisitos de fãs de produções da Marvel, mas consegue ser um super filme de resgate saudosista com potencial para sequências de qualidade. Imperdível!


"Mestres do Universo" ("Masters Of The Universe"). Gênero: Ação, Aventura e Fantasia. DireçãoTravis Knight. Roteiro: Chris Butler, Aaron Nee e Adam Nee. Duração: 2h 13 minutos. Classificação Indicativa: 14 anos. Distribuição: Sony Pictures. Elenco: Nicholas Galitzine como Príncipe Adam / He-Man, Camila Mendes como Teela, Idris Elba como Duncan / Man-At-Arms, Jared Leto como Esqueleto, Alison Brie como Maligna. Sinopse: O filme acompanha a jornada do Príncipe Adam para salvar Eternia e aceitar seu destino como He-Man

Trailer de "Mestres do Universo"



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.: A carne, o mar e a ruptura: a juventude desenfreada de "Paixão Juvenil"


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Lançado em 1956 e dirigido com maestria por Kô Nakahira, "Paixão Juvenil", que estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, hoje é reverenciado como clássico, mas já representou uma transgressão perigosa quando foi lançado. É nesse terreno de provocação que se posiciona o cinema japonês daquele período, batizado de Nuberu Bagu (a "Nouvelle Vague" japonesa). O movimento focava em pequenas crises cotidianas e no registro da intensidade de uma geração que buscava escapar do autoritarismo e da mesmice, sem a preocupação de entregar respostas fáceis ao público. 

As grandes transformações políticas e os traumas das guerras historicamente deixam marcas profundas na produção artística, gerando movimentos que ecoam diretamente no comportamento das novas gerações. Nos anos 1950 e 1960, a efervescência cultural moldou um estilo de vida rebelde, cuja atitude muitas vezes foi confundida com mera imaturidade ou contestação vazia. No cinema, essa necessidade de crueza e urgência encontrou paralelo perfeito com a entrega dos jovens daquela época, uma mistura explosiva de audácia e coragem para desafiar sistemas corrompidos. 

O filme acompanha a trajetória de dois irmãos de classe média alta que aproveitam o verão em uma estância balnear. Natsuhisa, o mais velho, esbanja autoconfiança e experiência com as mulheres; já Haruji, o caçula, carrega uma timidez crônica diante do sexo oposto. A dinâmica pacata e tediosa desse grupo de jovens ricos sofre uma ruptura quando ambos se apaixonam pela mesma mulher, Eri, uma figura misteriosa que o irmão mais novo conhece ao desembarcar na estação de trem. À medida que o enredo avança, descobre-se que a jovem esconde segredos densos, incluindo um casamento com um estrangeiro mais velho, transformando o conflito fraterno em um triângulo amoroso obsessivo e destrutivo.

A construção da personagem feminina representa uma verdadeira revolução para os padrões da cinematografia japonesa da época, historicamente pautada por figuras femininas frágeis e submissas. Eri surge como uma femme fatale de filme noir, uma mulher dotada de uma liberdade incomum que usa a beleza e a aparente fragilidade como isca para manipular e devorar os homens ao seu redor. Nakahira explora o erotismo e o toque corporal com uma audácia impressionante para o ano de 1956, inundando a tela com uma efervescência juvenil focada na busca incessante pelo prazer individual, onde o sentimento amoroso é relegado a um plano secundário.

O longa-metragem escancara a massiva influência dos Estados Unidos no Japão pós-guerra, visível tanto nos figurinos inspirados na moda norte-americana quanto na trilha sonora dominada pelo ritmo das big bands ocidentais. Contudo, essa dominação cultural é ironizada pelo diretor em momentos cirúrgicos, como nas piadas direcionadas ao rapaz que passou uma temporada em solo americano ou na própria escolha de colocar um estrangeiro no papel de marido traído. Em termos técnicos, a produção abraça a cartilha de Hollywood com maestria: a narrativa possui um ritmo frenético, construída com cortes rápidos, planos curtos, variações constantes de tomada e um desenho de som ativo que impede qualquer ameaça de monotonia.

A relevância estética de "Paixão Juvenil" é tamanha que a produção serviu de inspiração direta para os realizadores da Nouvelle Vague francesa, como François Truffaut. O enredo, que remete aos conflitos passionais de "Jules e Jim", caminha para um desfecho violento e febril, comparável ao terceiro ato das tragédias de Tennessee Williams, em que as emoções reprimidas transbordam e provocam a ruína completa dos personagens. Trata-se de um registro temporal audacioso e atemporal, cuja contextualização histórica apenas amplia o prazer de testemunhar o nascimento de uma nova linguagem cinematográfica.


Ficha técnica
“Paixão Juvenil” | "Kurutta kajitsu" (título original) | "Fruto de Paixão" (título em Portugal)
Gênero: drama, cult. Duração: 1h 26min (86 minutos). Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 1956. Idioma: japonês e inglês. Direção: Kô Nakahira. Roteiro: Shintaro Ishihara. Elenco: Yûjirô Ishihara (Takishima Natsuhisa), Masahiko Tsugawa (Takishima Haruji), Mie Kitahara (Eri), Harold Conway (Marido de Eri), Taizô Fukami (Pai), Masumi Okada, Eiko Higashiya, Atsuko Akashi, Yoko Benisawa, Ayuko Fujishiro, Keiko Hara, Shigeo Hayashi, Eiko Higashitani, Hiroshi Kondo. Distribuição no Brasil: sem distribuidor oficial nos cinemas (lançado diretamente em festivais e mídia física de colecionador). Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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.: "Kokuho" desafia o cinema ao tentar filmar a alma do kabuki


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

O cinema contemporâneo raramente se atreve a flertar com a grandiosidade dos épicos que exigem tempo, fôlego e entrega absoluta. Sob a assinatura do cineasta Lee Sang-il, "Kokuho - O Preço da Perfeição", que estreia na plataforma de streaming Reserva Imovision, é uma dessas raras e monumentais exceções. O longa-metragem consegue a proeza de transportar o espectador para o coração pulsante do teatro kabuki, mapeando cinquenta anos de história com uma força dramática que evoca os grandes clássicos do cinema asiático. 

A produção desembarcou nas telas brasileiras precedida por uma trajetória robusta no circuito internacional, que incluiu uma première mundial na prestigiosa Quinzena dos Cineastas do Festival de Cannes, além de passagens celebradas pelos festivais de Toronto e Busan. Fenômeno comercial histórico em seu país de origem, a obra arrastou mais de 12 milhões de espectadores aos cinemas, tornando-se o live-action de maior bilheteria da história do Japão.

A narrativa, estruturada a partir do roteiro preciso de Satoko Okudera, adapta o celebrado romance em dois volumes de Shûichi Yoshida, lançado em 2018. A trama acompanha a saga de Kikuo Tachibana, jovem que carrega o estigma de ter nascido em uma família ligada à yakuza. Após o brutal assassinato de seu pai, o destino do garoto de 14 anos sofre uma guinada radical quando ele acaba acolhido pelo lendário mestre do kabuki, Hanai Hanjiro II, papel defendido com a habitual crueza e generosidade paternal de Ken Watanabe. Nos bastidores da tradicional dinastia artística de Kamigata, Kikuo passa a dividir os dias com Shunsuke Ogaki, o herdeiro legítimo do clã. Juntos, os dois garotos mergulham em um universo onde a busca pela excelência artística exige a renúncia de qualquer vestígio de normalidade cotidiana, iniciando uma jornada que flutua constantemente entre a irmandade mútua e uma rivalidade silenciosa e devastadora.

O núcleo dramático gira em torno da obsessão dos protagonistas em alcançar o título de Kokuho - a honraria máxima de "Tesouro Nacional Vivo", concedida pelo governo japonês aos grandes mestres da arte tradicional. Ambos dedicam-se à complexa especialidade do onnagata, os atores que assumiram os papéis femininos na cena teatral desde que o xogunato baniu as mulheres dos palcos no Período Edo por questões morais. A dinâmica entre os dois adultos, interpretados com assombrosa entrega por Ryo Yoshizawa e Ryusei Yokohama, expõe um embate clássico: de um lado, o talento bruto e instintivo de um órfão marginalizado; de outro, o peso esmagador da hereditariedade e a cobrança pelo sangue azul de uma linhagem artística. O diretor conduz esse emaranhado de orgulho e dor sem pressa, permitindo que o tempo dilate o sacrifício físico e emocional dos personagens.

A obsessão do filme pela autenticidade transborda em cada plano trabalhado pelo diretor de fotografia Sofian El Fani. Para conferir o realismo necessário aos bastidores e camarins, o autor do livro original, Shuichi Yoshida, passou três anos infiltrado como um Kurogo - o assistente de palco que se veste inteiramente de preto para se tornar "invisível" aos olhos do público. Essa vivência íntima reverbera na tela na meticulosa preparação dos atores. 

O protagonista Ryo Yoshizawa submeteu-se a um intenso e rigoroso treinamento de 18 meses com profissionais do kabuki para dominar a precisão cirúrgica de cada gesto, postura e olhar. Não por acaso, a produção garantiu uma indicação ao Oscar na categoria de Melhor Maquiagem e Cabelo, honrando a deslumbrante transformação dos intérpretes na alvura impecável das maquiagens tradicionais, contrapondo-se ao universo rústico e melancólico da masculinidade tóxica que rege a vida fora dos palcos.

A trilha sonora sublime de Marihiko Hara, pontuada por canções interpretadas por Miu Sakamoto e Iguchi Osamu, eleva a voltagem dramática da produção, especialmente nas sequências em que a câmera rompe a barreira do "teatro filmado" para rodopiar de forma imersiva ao redor dos corpos em cena. Embora a montagem execute saltos temporais bruscos que por vezes sacrificam o desenvolvimento das personagens femininas - como a matriarca interpretada por Shinobu Terajima -, a obra compensa as arestas com uma força visual avassaladora. "Kokuho – O Preço da Perfeição" se consolida como um registro sofisticado sobre uma manifestação cultural tricentenária que tenta sobreviver ao avanço da modernidade no Japão pós-guerra, expondo sem filtros as cicatrizes incuráveis de quem decide vender a própria alma em troca do vislumbre eterno da divindade artística.


Ficha técnica
“Kokuho  O Preço da Perfeição” | “Kokuhō” (título original)
Gênero: drama. Duração: 175 minutos (2h55m). Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2025. Idioma: japonês. Direção: Lee Sang-il. Roteiro: Satoko Okudera (baseado no romance de Shûichi Yoshida). Elenco: Ryo Yoshizawa, Ryusei Yokohama, Sōya Kurokawa, Keitatsu Koshiyama, Ken Watanabe, Mitsuki Takahata, Shinobu Terajima, Nana Mori, Ai Mikami, Kumi Takiuchi, Masatoshi Nagase, Emma Miyazawa, Takahiro Miura, Kyusaku Shimada, Tateto Serizawa, Nakamura Ganjirō IV, Min Tanaka. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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quinta-feira, 4 de junho de 2026

.: "Rebelião Silenciosa" fala sobre o peso do silêncio e a força da emancipação


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

A aparente calmaria das paisagens bucólicas da Suíça historicamente serviu como uma espécie de biombo para esconder tensões morais e contradições profundas. É justamente nesse cenário de isolamento e aparente virtude que se constrói a narrativa de "Rebelião Silenciosa", o contundente longa-metragem de estreia da diretora Marie-Elsa Sgualdo, que estreia na plataforma de streaming Reserva Imovision. Ambientado no ano de 1943, em meio ao turbilhão da Segunda Guerra Mundial, o drama evita as frentes de batalha tradicionais para focar em um front íntimo, doloroso e profundamente político: o corpo e a autonomia de uma jovem de 15 anos.

A trama acompanha Emma, interpretada com uma vivacidade impressionante por Lila Gueneau, cuja atuação contida e emocionalmente inteligente rendeu elogios da imprensa internacional e o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cinema de Fargo. Emma é inicialmente descrita como uma adolescente exemplar na pequena comunidade rural protestante onde vive. No entanto, sua visão de mundo começa a ruir quando ela testemunha a vila recusar abrigo a refugiados franceses que fogem do conflito. O senso de justiça da jovem é testado ao limite quando ela mesma se torna vítima de uma violência sexual brutal. Grávida após o estupro, Emma se recusa a aceitar o papel de mártir ou de vergonha comunitária que a hipocrisia moral local tenta lhe impor.

O roteiro, assinado por Nadine Lamari, Pauline Ouvrard e pela própria diretora, evita o melodrama. A narrativa prefere acompanhar o processo de reconstrução dessa jovem, transformando um trauma devastador no elemento catalisador de sua emancipação e autodeterminação. Enquanto o vilarejo se fecha em dogmas e preconceitos, Emma busca forças para trilhar o próprio caminho e enfrentar as expectativas sufocantes daquela sociedade patriarcal.

A produção é da Suíça, Bélgica e França, com locações que exploram as paisagens do cantão de Vaud, incluindo a histórica comuna de Romainmôtier, além de Goumoëns e Colombier. A escolha desses cenários rurais funciona como um contraponto visual perfeito para o sufocamento psicológico vivido pela protagonista. A primorosa direção de fotografia de Benoît Dervaux e a montagem precisa de Karine Sudan conferem ao filme uma sofisticação estética que não passou despercebida pela crítica especializada, garantindo ao longa os prêmios de Melhor Fotografia e Melhor Montagem no prestigiado Swiss Film Awards de 2026, premiação na qual a obra figurou como uma das grandes líderes com sete indicações, incluindo Melhor Filme e Melhor Roteiro.

Após uma elogiada estreia mundial na mostra Venice Spotlight do 82º Festival Internacional de Cinema de Veneza em setembro de 2025, o filme percorreu um circuito internacional robusto, passando por festivais em Sevilha, Palm Springs, Cairo e Estocolmo. A recepção crítica destacou a sutileza com que Marie-Elsa Sgualdo aborda os direitos das mulheres na década de 1940, construindo um retrato de época que conversa diretamente com as discussões contemporâneas sobre feminismo, corpo e consentimento.

Ficha técnica
"Rebelião Silenciosa" | "À bras-le-corps" (título original)

Gênero: Drama / História. Duração: 96 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2025. Idioma: francês / alemão. Direção: Marie-Elsa Sgualdo. Roteiro: Nadine Lamari, Pauline Ouvrard e Marie-Elsa Sgualdo. Elenco: Lila Gueneau, Grégoire Colin, Thomas Doret, Aurélia Petit, Sandrine Blancke, Sasha Gravat Harsch, Cyril Metzger. Distribuição no Brasil: Imovision. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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.: "A Cronologia da Água" mergulha na dor e na redenção de Lidia Yuknavitch


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Em sua aguardada estreia na direção de longas-metragens, Kristen Stewart escolheu o caminho mais íngreme e corajoso ao adaptar a autobiografia de Lidia Yuknavitch em "A Cronologia da Água", que estreia no Cine Arte Posto 4, o cinema da orla de Santos, no litoral de São Paulo. Longe da maquiagem que costuma pasteurizar as cinebiografias de Hollywood, o espectador é arremessado em uma narrativa fragmentada, incômoda e esteticamente provocativa. 

Exibido na prestigiada seção Un Certain Regard do Festival de Cannes, o longa-metragem impactou a Riviera Francesa, de onde saiu consagrado por uma arrebatadora ovação de pé com mais de seis minutos de aplausos contínuos. É um cartão de visitas cinematográfico que posiciona Stewart não mais como a estrela infantojuvenil da saga "Crepúsculo" ou a atriz cultuada da atualidade, mas como uma realizadora destemida.

A trama esmiúça a trajetória sinuosa de Lidia, interpretada com uma entrega física e psicológica devastadora por Imogen Poots. Desde a juventude, a protagonista busca na natação e na literatura os únicos refúgios possíveis contra um ambiente doméstico asfixiante, dominado pelos abusos físicos e sexuais sistemáticos perpetrados pelo próprio pai, Mike, papel defendido pelo ator Michael Epp, sob o olhar tragicamente omisso de uma mãe alcoólatra. 

Quando a piscina deixa de ser um santuário e as aspirações olímpicas desmoronam, Lidia mergulha em uma espiral destrutiva de excessos, drogas, relacionamentos voláteis e perdas irreparáveis, incluindo o trauma de um parto natimorto. A redenção não surge por meio de milagres sentimentais, mas pela fricção com a arte, impulsionada pelo convívio acadêmico com o escritor Ken Kesey, interpretado pelo veterano Jim Belushi, e por experiências terapêuticas heterodoxas ligadas ao universo do BDSM.

A imprensa internacional especializada rapidamente rotulou a produção como um dos grandes acontecimentos cinematográficos recentes. Críticos da revista Variety elogiaram a paixão poética com que a jornada de abuso e redenção é conduzida, enquanto periódicos independentes destacaram a recusa deliberada do roteiro em enquadrar a protagonista no estereótipo limitante da vítima idealizada. 

Para alcançar essa atmosfera de intimidade documental, Stewart e o diretor de fotografia Corey C. Waters tomaram a decisão artística de rodar o filme inteiramente em película de 16mm, utilizando a proporção de tela 1,66:1. Essa escolha técnica confere às imagens uma textura granulada, orgânica e nostálgica, perfeitamente alinhada à névoa das memórias fragmentadas da escritora. O longa arrebatou prêmios importantes nos festivais de Deauville e Savannah, além de render a Kristen Stewart o Prêmio Maverick no IndieWire Honors, consolidando sua transição triunfal para os bastidores da sétima arte.


Ficha técnica
“A Cronologia da Água” | “The Chronology of Water” (título original)
Gênero: drama psicológico, biográfico. Duração: 128 minutos. Classificação indicativa: não recomendado para menores de 18 anos. Ano de produção: 2025. Idioma: inglês. Direção: Kristen Stewart. Roteiro: Kristen Stewart e Andy Mingo (baseado no livro de memórias de Lidia Yuknavitch). Elenco: Imogen Poots, Thora Birch, Susannah Flood, Tom Sturridge, Kim Gordon, Michael Epp, Earl Cave, Esmé Creed-Miles, Jim Belushi, Charlie Carrick. Cenas pós-créditos: não.


Cine Arte Posto 4
Av. Vicente de Carvalho, sem número - Gonzaga - Santos/SP (Posto 4, ao lado do Canal 3)
Em cartaz até dia 10 de junho
Sessões (horário especial): 15h00, 17h30 e 20h00
Funcionamento: terça a domingo (fechado às segundas-feiras)
Ingressos a R$ 3,00 (inteira) e R$ 1,50 (meia-entrada). Pagamento somente em dinheiro, temporariamente.
Telefone: (13) 3286-0297 

terça-feira, 26 de maio de 2026

.: Crítica: "Hokum: O Pesadelo da Bruxa" é terror com mocinho desagradável



Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em maio de 2026


O terror psicológico "Hokum: O Pesadelo da Bruxa", dirigido e roteirizado por Damian McCarthy ("Oddity - Objetos Obscuros", "Madame Teia"), mergulha no folclore irlandês para entregar uma história de perdão entre mãe e filho. Contudo, um alerta precisa ser dado logo a princípio, uma vez que o protagonista, o romancista Ohm Bauman (Adam Scott, "Big Little Lies") de postura constantemente grosseira, age sempre de modo desagradável. Ainda que esteja sozinho e em outro país para espalhar as cinzas de seus pais, impede o público de torcer por sua sobrevivência numa pousada mal-assombrada por uma bruxa que arrasta correntes.

A qualidade da trama e a montagem repleta de sequências de pura tensão tornam a produção perfeita para os fãs do gênero. Muito por priorizar o desconforto psicológico por meio de silêncios e a desconstrução da realidade do protagonista em detrimento de soluções narrativas fáceis. No entanto, "Hokum: O Pesadelo da Bruxa" segue uma fórmula para assustar o público, o que vira alerta a ponto de permitir que alguns sustos sejam evitados.

Em certos pontos o longa se conecta com outros. Remete ao clássico "O Chamado" pelas figuras usadas, como por exemplo, o círculo nos primeiros minutos da história paralela do longa, embora estabeleça uma maior conexão com o clássico de terror psicológico "O Iluminado", uma vez que o protagonista está isolado e confuso em um hotel assombrado. "Hokum: O Pesadelo da Bruxa" consegue usar elementos do terror (já conhecidos) a favor. Por fim, consegue ser único.

É inegável que o terror atmosférico de "Hokum: O Pesadelo da Bruxa" fisga a atenção do público ao colocá-lo para embarcar na desordem mental de Ohm e a dificuldade de lidar com um trauma de infância. Vale muito a pena assistir na telona de cinema e garantir uns bons sustos!


"Hokum: O Pesadelo da Bruxa" ("Hokum"). Gênero: Terror. Direção: Damian McCarthy. Roteiro: Damian McCarthy. Duração: 1h 47 minutos. Classificação Indicativa: 16 anos. Distribuição: Diamond Films. Elenco: Adam Scott, David Wilmot e Florence Ordesh. Sinopse: O terror psicológico e folclore acompanha um romancista de terror que visita uma pousada na Irlanda para espalhar as cinzas de seus pais, sem saber que o lugar tem fama de ser assombrado.

Trailer de "Hokum: O Pesadelo da Bruxa"

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quinta-feira, 21 de maio de 2026

.: Vencedor em Berlim, drama revela como progresso redesenha as relações


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Vencedor do Urso de Prata de Melhor Direção no Festival de Berlim, o filme “Living the Land” chega ao Brasil em estreia exclusiva na plataforma de streaming Reserva Imovision, nesta sexta-feira, dia 22 de maio, interessado em preservar gestos e modos de vida prestes a desaparecer. Dirigido e roteirizado pelo chinês Huo Meng, o longa-metragem mergulha na China rural de 1991 para observar, com rigor quase etnográfico, o impacto das transformações socioeconômicas sobre uma comunidade agrícola.

A trama acompanha Chuang (interpretado por Shang Wang), um menino de dez anos que permanece na aldeia enquanto parte da família migra para os centros urbanos. Ao redor dele, o vilarejo de Bawangtai se reorganiza diante da modernização que chega em ondas: tecnologia, industrialização e novas formas de trabalho começam a redesenhar a paisagem humana e simbólica. No elenco, destacam-se ainda Chuwen Zhang e Zhang Yanrong, que ajudam a compor um mosaico geracional em que tradição e ruptura coexistem em tensão permanente.

Huo Meng, que já havia chamado atenção com seu longa de estreia “Crossing the Border - Zhaoguan”, aprofunda aqui um cinema de observação, marcado pelo uso de não-atores e por uma encenação que dilui as fronteiras entre ficção e documentário. A câmera de Guo Daming percorre os espaços com discrição e horizontalidade, como se recusasse qualquer hierarquia dramática: tudo importa, o plantio, o luto, o casamento, o trabalho coletivo. 

A produção teve estreia mundial na competição oficial do Festival Internacional de Cinema de Berlim de 2025, onde rendeu a Huo Meng o Urso de Prata de Melhor Direção, reconhecimento que consolidou o filme no circuito internacional. Desde então, “Living the Land” vem acumulando recepção crítica amplamente positiva, com 100% de aprovação no Rotten Tomatoes e elogios de veículos como The Hollywood Reporter, que destacou a precisão visual da obra, e Screen Daily, que a classificou como “imersiva e ambiciosa”.

Há também um componente autobiográfico que fica evidente o projeto. O diretor afirmou que buscava retratar o choque entre políticas coletivistas e tradições milenares, além de evidenciar as pressões - sobretudo em relação às mulheres - em um contexto de transição abrupta. Esse olhar se materializa em personagens como Xiuying, cuja trajetória evidencia o peso das estruturas familiares e sociais. Sem concessões ao ritmo acelerado do cinema comercial, “Living the Land” aposta na duração - são mais de duas horas - como estratégia de imersão. 


Ficha técnica
“Living the Land” | “Sheng Xi Zhi Di” (título original) | “Vivendo a Terra” (título em Portugal)
Gênero: Drama. Duração: 2h15. Classificação indicativa: 12 anos. Ano de produção: 2025. Idioma: mandarim. Direção: Huo Meng. Roteiro: Huo Meng. Elenco: Shang Wang, Chuwen Zhang, Zhang Yanrong. Distribuição no Brasil: Autoral Filmes. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.

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quarta-feira, 20 de maio de 2026

.: Crítica: "Mortal Kombat II" é puro entretenimento gamer com cultura pop


Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em maio de 2026


O longa "Mortal Kombat II", dirigido por Simon McQuoid ("Mortal Kombat I"), é entretenimento gamer nostálgico estampado na telona de cinema em sua forma pura. A nítida evolução em relação ao filme de 2021, capaz de corrigir falhas do antecessor, ao focar diretamente no torneio e nas sequências de cenas de ação. Em 1 hora e 56 minutos, a produção entrega lutas coreografadas com excelência na atmosfera contagiante e facilitadora de estabelecer toda conexão com o clássico jogo.

Com muita pancadaria, sangue jorrando e momentos épicos em cenários que mudam constantemente, a produção automaticamente alimenta no público a sensação de estar assistindo a um modo história dos videogames. De fato, a ambientação com boa qualidade de computação gráfica, assim como cenários icônicos bem elaborados e as luta em meio a luz do dia ou antes do cair da noite, fugindo da constante escuridão para esconder falhas técnicas digitais, fazem o longa fluir a ponto de ser palatável, inclusive para quem não assistiu ao primeiro filme e/ou nunca jogou Mortal Kombat.

Sem tramas confusas, o longa de 2026 entrega a essência caótica e divertida da franquia clássica de lutas mortais por meio de personagens mais do que conhecidos. Assim, Johnny Cage (Karl Urban, saga "O Senhor dos Aneis", "The Boys"), personagem da série de jogos eletrônicos inspirado em Jean-Claude Van Damme, entra na história como todo o peso de ser um ator narcisista famoso por filmes de artes marciais, mas que está ultrapassado e até esquecido pelo público. No entanto, para lutar ele é necessário. Logo, o confuso Cage traz muito alívio cômico para a trama.

Contudo, cabe também a Josh Lawson ("O Fantástico Mundo de Blaze") interpretando Kano entregar muito bom humor com sacadas rápidas e divertidas, equilibrando a tensão e a violência garantindo boas risadas para o público. Destaque também para as cenas de protagonismo de Hanzo Hasashi, o Scorpion, na pele de Hanzo ("Trem Bala", "John Wick 4: Baba Yaga"), assim como a Kitana de Adeline Rudolph ("Hellboy e o Homem Torto"). 

"Mortal Kombat II" pode não ser o melhor filme de todos os tempos por ainda esbarrar em falhas pontuais, como certas representações de poderes, mas garante o seu lugar entre as melhores adaptações de videogames para o cinema. O resultado é um filme de puro entretenimento gamer regado de cultura pop que garante muita diversão. Vale a pena conferir na telona de cinema!

"Mortal Kombat II" ("Mortal Kombat II"). Gênero: Ação, artes marciais. Direção: Simon McQuoid. Roteiro: Jeremy Slater. Duração: 1h 56 minutos. Classificação Indicativa: 18 anos. Distribuição: Warner Bros. Elenco: Carl Urban (Johnny Cage), Adeline Rudolph (Kitana), Lewis Tan (Cole Young), Tadanobu Asano (Raiden), Martyn Ford (Shao Kahn), Hiroyuki Sanada (Scorpion). Sinopse: A sequência do longa de 2021 traz o aguardado torneio entre a Terra e a Exoterra.

Trailer de "Mortal Kombat II"




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