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quinta-feira, 22 de outubro de 2026

.: Crítica: "Digger" vai além da figura endinheirada para chegar ao teatro

Cartaz de "Digger"

Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em outubro de 2026


O homem mais poderoso do mundo provoca um desastre ambiental de proporções globais, ingressa numa missão intensa para reparar os danos causados e provar que é o salvador da humanidade. Eis "Digger", o longa do diretor vencedor do Oscar Alejandro G. Iñárritu ("O Regresso") em uma inédita parceria com Tom Cruise ("Top Gun: Maverick", "Missão Impossível 7").

A empreitada da dupla embora pareça trabalhar uma trama surreal, na verdade, flerta fortemente com a atualidade ao refletir sobre responsabilidade e impactos da ambição desenfreada, colocando em pauta crise climática, negacionismo e manipulação de informação. De fato, a vida no planeta Terra corre risco estando nas mãos dos mais poderosos fazendo o que bem entendem e desejam.

Contudo, a história de um reizinho bilionário, Digger Rockwell, que cruza com figuras influentes, como por exemplo, o presidente dos Estados Unidos, na tentativa de recuperar credibilidade, vai além. Logo, no drama épico da sátira política e climática sobre um magnata do petróleo que causa um desastre apocalíptico, surge uma trama paralela que enaltece o teatro. 

Desprendido de sua beleza, Tom Cruise foge de seus papéis de sucesso para viver Digger Rockwell e dá um show de atuação com próteses e uma caracterização pesada, enquanto que a fotografia de Emmanuel Lubezki complementa com precisão tudo que se vê em cada enquadramento impressionante, assim como a estética monumental e sombria que reflete a decadência do poder. Como não perceber os fundos estampados nos cenários e, ao retratar a degradação, com infiltrações e baldes na tentativa de melhorar o ambiente?

No elenco da produção ousada que se sustenta da atuação impecável de Tom Cruise ainda estão Sandra Hüller ("Anatomia de Uma Queda" e "Zona de Interesse"), Riz Ahmed ("Venom"), Sophie Wilde ("Fale Comigo", "O Portal Secreto"), Jesse Plemons ("Guerra Civil", "Bugonia"), Emma D'Arcy ("A Casa do Dragão") e John Goodman ("Os Flintstones: O Filme"). Vale a pena conferir!


"Digger" (Digger). Duração: 2h 09min. Gênero: ação, comédia. Direção: Alejandro González Iñárritu. Roteiro: Alejandro González Iñárritu, Sabina Berman. Elenco: Tom Cruise, Sandra Hüller, Riz Ahmed, John Goodman. Sinopse: Em uma corrida contra o tempo, ele precisa enfrentar as consequências de suas decisões antes que a crise saia completamente do controle e ameace o futuro do planeta. Nessa trajetória, o bilionário cruza o caminho de algumas das figuras mais influentes do mundo, incluindo o presidente dos Estados Unidos, enquanto tenta recuperar sua credibilidade. O filme mistura drama épico e reflete sobre responsabilidade e os impactos da ambição desenfreada em uma narrativa repleta de tensão.

Trailer de "Digger"


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quarta-feira, 21 de outubro de 2026

.: Resenha: "Cara-de-Barro" é excelente tormenta psicológica da nova fase DCU


Cartaz de "Cara-de-Barro"

Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em outubro de 2026


Um ator de Hollywood no ápice do sucesso, com indicação ao Oscar, no auge do egocentrismo, corresponde às investidas de Mia Torrez (Joana Ribeiro), namorada de um poderoso chefão do crime de Gotham City, Markos Szabo (David Dencik, "O Homem das Castanhas"), e tem como resultado, após uma noite de amor, um ataque sanguinolento que lhe dá um rosto talhado. Assim, Matt Hagen (Tom Rhys Harries, de "O Retorno") sai do homem comum, passa pelo anti-herói, vingando-se daqueles que lhe fizeram mal, até se tornar, de fato, o vilão “Cara-de-Barro” (Clayface), que dá nome ao longa de terror da DC, antagonista de Batman (promessa de confronto num filme futuro). 

Assim que o ator de Hollywood perde sua identidade, sem se reconhecer no espelho ou por aqueles que o cercam, Matt busca um tratamento experimental, esbarrando na Doutora Caitlyn Bates (Naomi Ackie, "I Wanna Dance With Somebody: A História de Whitney Houston" e "Mickey 17") que consegue reverter o aspecto monstruoso, porém nele também passa a habitar uma criatura de barro. Desta forma, acaba sendo estabelecida uma relação criador e criatura que costura uma história assustadora com bons sustos para o público.

A adaptação do ser desfigurado a mando do gângster local, surgiu originalmente nos quadrinhos em 1940, sendo historicamente um dos vilões mais clássicos e perigosos do Cavaleiro das Trevas, com direção de James Watkins ("Não Fale o Mal" e "A Mulher de Preto") e roteirizado por Mike Flanagan ("A Maldição da Mansão Bly" e "A Maldição da Residência Hill"), entrega terror, no estilo gore que consegue flertar, em partes, com o estilo de Sam Raimi ("Uma Noite Alucinante - A Morte do Demônio" e "Homem-Aranha"), porém mesmo expondo detalhes incômodos, acaba sendo um pouco mais recatado. Tal qual o próprio Raimi fez em "Doutor Estranho no Multiverso da Loucura", por exemplo.

Tendo uma excelente trilha sonora, incluindo a clássica "If You Leave Me Now", da banda Chicago, na voz de Jasmine Jethwa, uma nova e mais sombria Gotham City é desenhada, seguindo o oposto das já vistas nas tramas do herói Batman (ou Bruce Wayne) quem nem mesmo se faz presente. Paralelamente, a ausência de luz e o peso dramático na vida de Matt transmitem a tormenta psicológica, dividindo a agonia com quem assiste a tudo. Vale destacar a atuação marcante do ator galês Tom Rhys Harries.

O longa que integra o novo DC Studios (DCU) soma 1 hora e 48 minutos de duração de horror visceral, sem cenas pós-créditos. Com elementos de terror corporal tal qual o grande sucesso recente de cinema "A Substância", a produção exibe a transformação de Matt diante dos olhos do público, regada no terror sanguinolento capaz de incomodar quem está diante de tais sequências. Contudo, é numa grande festa que a grande sacada do poder de Cara-de-Barro se faz gerando grande envolvimento, além de surpreender por vezes. Vale muito a ida ao cinema!

Cara-de-Barro (Clayface, 2026). Gênero: Terror corporal, suspense. Direção: James Watkins. Roteiro: Mike Flanagan e Hossein Amini. Elenco principal: Tom Rhys Harries, Naomi Ackie e Max Minghella. Sinopse: acompanha Matt Hagen (Tom Rhys Harries), um ator em ascensão que tem o rosto desfigurado por um chefe do crime de Gotham. Desesperado, ele usa um tratamento experimental clandestino que restaura sua aparência, mas o transforma em um monstro de argila e corrói sua sanidade. Estreia no Brasil: 22 de outubro de 2026 

Trailer de "Cara-de-Barro"


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sexta-feira, 2 de outubro de 2026

.: Crítica: "Verity" fisga pelo talento do elenco, mas se perde na pegada erótica

Imagem de  "Verity"


Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em outubro de 2026


Uma escritora desconhecida do grande público consegue a chance na carreira literária, mas como ghost writer (escritor-fantasma) de um nome de sucesso estrondoso. No suspense psicológico "Verity" com Anne Hattaway, Josh Harnett e Dakota Johnson, adaptado do livro de mesmo nome da escritora norte-americana Colleen Hoover ("É Assim Que Acaba"),um a profissional da escrita é contratada para seguir na produção de novos livros da queridinha Verity (Anne Hattaway, "Instinto Materno"). Assim, Lowen (Dakota Johnson, de "Madame Teia") ingressa mna trama ao aceitar organizar anotações da grande escritora, sem receber crédito público ou assinatura pela autoria da obra, mas embolsando uma grande bolada.

O longa começa de modo forte e num encontro ao acaso, porém tremendamente medonho entre Jeremy (Josh Harnett, de "Oppenheimer" e "Armadilha") e Lowen. O resultado é uma forte tensão entre os dois quando o destino consegue uni-los novamente, mas tendo como desculpa uma excelente oportunidade de trabalho. Embora considere por minutos recusar, Lowen aceita a proposta ao assinar um contrato de confidencialidade. Assim, vai passar alguns dias na casa da família Crawford.

Neste jogo de contar e recontar histórias, "Verity" garante bons sustos, mas põe a perder o bom do suspense em nome de pesar a mão em sequências de pegadas eróticas, o que acaba ligando a atriz Dakota Johnson novamente ao sexy "50 tons de cinza", longa que catapultou a filha de Melanie Griffith em Hollywood. Aos fãs de Josh Hartnett também cabe a leve desconfiança em torno das revelações de seu personagem -e parte dela pode ser confirmada.

Embora "Verity" traga a talentosa Hattaway na pele de um personagem inconstante, não espere algo estilo o excelente longa "Instinto Materno". Inicialmente, até se aproxima e faz lembrar, mas conforme a trama se desenrola, acaba parecendo uma releitura de "A Empregada", sem o desfecho desejado e plausível. Uma vez que Lowen mergulha de cabeça nas tragédias da família que vive na casa afastada com um lago adiante -cenário de uma morte dolorosa. 

A brincadeira com os nomes das personagens femininas, a dona da verdade (Verity) que tem em seu caminho alguém mais baixo, considerando as três primeiras letras do nome de Lowen, é uma riqueza que mais impacta na escrita. Assim, ordenando apontamentos de Verity, uma mulher acamada, Lowen passa a desejar ser a outra e suas confusões a levam a um final duvidoso. Infelizmente, a adaptação dirigida por Michael Showalter consegue ser bastante previsível.


Trailer de "Verity"

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quarta-feira, 30 de setembro de 2026

.: Crítica: "A Ilha Esquecida" até lembra "Red", mas foca na amizade e encanta

Imagem de  "A Ilha Esquecida"

Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em setembro de 2026


A animação que mescla aventura e comédia, "A Ilha Esquecida", entrega colorido de dar inveja nas novas criações Disney, além de estampar os traços artísticos sempre presentes nas produções do mesmo gênero de "Homem-Aranha no Aranhaverso". Da DreamWorks Animation, "A Ilha Esquecida" chega a remeter o também excelente "Red: Crescer é Uma Fera", mas vai além fugindo do realismo, com traços 2D expressivos, dinâmicos e exagerados, inspirados em animes japoneses, o que faz lembrar o sucesso "As Guerreiras do K-Pop", da Netflix.

"A Ilha Esquecida" traz um peso emocional de uma das protagonistas com a avó, como também acontece em "Cara de Um, Focinho de Outro", mas é muito ágil na trama garantino várias reviravoltas. A diferença está no fato de a produção ser focada na amizade e o acerto é em sequência, muito por trazer uma trilha sonora sem defeitos, incluindo "Don't Stop Believin'", "Never Tear Us Apart" e "Nothing's Gonna Stop Us Now", por exemplo. Tanto é que os créditos finais celebra a amizade exibindo fotos reais de amigos e familiares da equipe de produção, em uma homenagem aos temas de memória e amizade do filme.

Sem muita pretensão, a produção de divulgação encabulada, é puro deleite visual e narrativo. Na animação que soma 1 hora e 40 minutos de duração, as melhores amigas Jo e Raissa criam um forte elo desde a primeira topada enquanto aguardavam atendimento da diretora após agirem de modo equivocado em aula. Elas viram adolescentes e quando tudo parecia normal, planos mudam. 

No entanto, as duas se deparam com um portal misterioso que as transporta para a ilha fantástica chamada Nakali. Enquanto vivenciam o que juravam não existir, como por exemplo, criaturas mágicas, Jo e Raissa descobrem a importância da amizade verdadeira de longos anos, uma vez que o preço para voltar para casa são as memórias da relação construída por elas. Por outro lado, juntas elas buscam uma forma de sair do lugar dos sonhos sem que uma esqueça da outra para sempre. Imperdível!


Trailer de "A Ilha Esquecida"




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terça-feira, 8 de setembro de 2026

.: “Loucos por Cinema!”: a cinefilia como matéria-prima de viagem pela memória


Arnaud Desplechin mistura ficção, documentário e ensaio para revisitar a formação de Paul Dédalus e investigar por que o cinema continua ocupando um lugar tão particular na vida de quem assiste

Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Ir ao cinema pode ser uma experiência tão íntima que, em determinados momentos, um filme parece saber alguma coisa sobre quem está sentado diante da tela. É nesse território de lembranças, descobertas e obsessões que Arnaud Desplechin coloca “Loucos por Cinema!”, produção francesa que chega à plataforma de streaming da Reserva Imovision depois de passar por festivais como Cannes e Festival do Rio.

O cineasta retoma Paul Dédalus, personagem que funciona como seu alter ego, para reconstruir a formação de um espectador apaixonado por filmes. A trajetória começa na infância, quando o garoto descobre o cinema levado pela avó para assistir a “Fantômas”, e acompanha diferentes fases de sua vida até o momento em que a cinefilia deixa de ser apenas uma paixão e passa a interferir na maneira como ele compreende o mundo.

Paul é interpretado em diferentes idades por Louis Birman, Milo Machado-Graner, Sam Chemoul e Salif Cissé. Mathieu Amalric, presença recorrente na filmografia de Desplechin e intérprete de Paul Dédalus em “Como Eu Briguei (Por Minha Vida Sexual)”, aparece como o cineasta. A escolha reforça uma espécie de jogo de espelhos que acompanha o diretor há décadas.

A graça está justamente nessa mistura. “Loucos por Cinema!” se move entre a memória pessoal, a encenação ficcional, entrevistas, reflexão sobre a experiência de assistir a um filme e uma quantidade generosa de referências cinematográficas. Desplechin olha para a própria formação como cinéfilo e, ao fazer isso, acaba convidando o público a recuperar suas próprias primeiras sessões, os filmes descobertos por acaso, os personagens que permaneceram na lembrança e até aquelas obras que modificaram alguma coisa sem que fosse possível perceber imediatamente.

O diretor passeia por nomes e títulos fundamentais para a formação de seu olhar. “Os Incompreendidos”, de François Truffaut, “Gritos e Sussurros”, de Ingmar Bergman, “As Pequenas Margaridas”, de Věra Chytilová, e “Shoah”, de Claude Lanzmann, aparecem em uma coleção de referências que ajuda a desenhar a educação sentimental de Paul. A própria escolha de “Fantômas” como ponto de partida remete a uma lembrança de infância do cineasta. Desplechin quer entender por que as pessoas continuam indo ao cinema depois de mais de um século de imagens projetadas. Cannes definiu a produção como uma homenagem às salas de cinema, enquanto o próprio diretor explicou que reuniu memórias, ficção e investigação para criar uma espécie de percurso de formação de um espectador.

O problema aparece quando a paixão do diretor começa a pesar sobre a narrativa. As referências são tantas, e a vontade de discutir cinema é tão evidente, que determinadas passagens parecem destinadas principalmente a quem já domina o repertório apresentado. O filme ganha força quando transforma a cinefilia em memória compartilhada; perde um pouco dela quando se fecha em conversas e associações que exigem do público uma intimidade semelhante com a história do cinema.

Ainda assim, existe algo bastante simpático nessa imperfeição. Desplechin não tenta organizar sua paixão de maneira didática. Ele deixa que lembranças, cenas, ideias e personagens se encontrem, como acontece na própria memória de quem passa anos assistindo a filmes. Uma lembrança de Bergman pode levar a uma discussão filosófica; um cineclube escolar pode despertar uma paixão; uma sessão pode se transformar em acontecimento amoroso; um personagem de ficção pode carregar traços de quem o criou.

Com 88 minutos, “Loucos por Cinema!” tem o tamanho de uma lembrança que se recusa a terminar. A produção francesa foi apresentada na Sessão Especial de Cannes em 2024 e chegou aos cinemas brasileiros em março de 2025. O resultado é irregular, mas coerente com o próprio objeto. Afinal, a cinefilia também tem seus excessos. Há quem assista a um filme e siga para casa. Há quem passe dias pensando nele, procure entrevistas, leia sobre o diretor, descubra outro título, monte uma lista e volte à sala de cinema para rever aquilo que acabou de descobrir. Desplechin claramente pertence ao segundo grupo.


Ficha técnica
“Loucos por Cinema!” | “Spectateurs!” (título original) | “Espectadores!” (título em Portugal)
Gênero: drama, comédia e ficção documental. Duração: 88 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. Ano de produção: 2024. Data de lançamento: 15 de janeiro de 2025, na França. Idioma: francês. Direção e roteiro: Arnaud Desplechin. Elenco: Louis Birman, Dominique Païni, Clément Hervieu-Léger, Françoise Lebrun, Sandra Laugier, Olga Milshtein, Milo Machado-Graner, Margaux Mussano, Sam Chemoul, Marilou Poujardieu, Salomé Rose Stein, Micha Lescot, Shoshana Felman, Kent Jones, Salif Cissé e Mathieu Amalric. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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