Produção de Roger Vadim leva Jane Fonda ao espaço em uma aventura que mistura erotismo, humor, exagero e uma boa dose de maluquice
No ano 40.000, as guerras ficaram para trás e a humanidade vive em uma sociedade pacificada. O problema é que alguém resolveu mexer nessa tranquilidade. Quando o cientista Durand Durand desenvolve uma arma capaz de provocar uma destruição em escala interplanetária, Barbarella (Jane Fonda) recebe do Presidente da Terra (Claude Dauphin) a missão de encontrá-lo e impedir que o invento caia nas mãos erradas. Dirigido por Roger Vadim e lançado em 1968, "Barbarella" , que estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, parece ter sido concebido depois de uma reunião em que alguém sugeriu colocar ficção científica, quadrinhos, erotismo, humor camp - aquele que celebra o exagero, a teatralidade e a artificialidade de forma irônica e consciente -, cenários psicodélicos e Jane Fonda dentro de um mesmo foguete. O resultado é tão peculiar que tentar enquadrá-lo nos padrões tradicionais do gênero pode ser uma atividade perigosa.
Quase seis décadas depois, o filme continua sendo uma cápsula espacial dos anos 1960: leva para o futuro as fantasias, os exageros e as contradições de seu próprio tempo. E Jane Fonda, no centro de tudo, permanece como a comandante perfeita para essa viagem tão extravagante quanto impossível de levar completamente a sério. Baseado na personagem criada pelo francês Jean-Claude Forest, o filme acompanha uma heroína espacial de aparência exuberante e comportamento quase ingênuo.
Barbarella percorre planetas, enfrenta vilões, encontra criaturas estranhas e passa por situações que transformam o erotismo em uma espécie de linguagem oficial daquele futuro. A sexualidade está espalhada por praticamente todos os cantos da produção. A famosa abertura, com Jane Fonda despindo-se enquanto os créditos aparecem, ajudou a transformar a atriz em símbolo sexual e continua sendo uma das imagens mais lembradas do filme. A personagem, contudo, também apresenta uma curiosa combinação de sensualidade e inocência: para Barbarella, o prazer não carrega o peso moral que costuma acompanhar personagens femininas em aventuras desse tipo.
Barbarella percorre planetas, enfrenta vilões, encontra criaturas estranhas e passa por situações que transformam o erotismo em uma espécie de linguagem oficial daquele futuro. A sexualidade está espalhada por praticamente todos os cantos da produção. A famosa abertura, com Jane Fonda despindo-se enquanto os créditos aparecem, ajudou a transformar a atriz em símbolo sexual e continua sendo uma das imagens mais lembradas do filme. A personagem, contudo, também apresenta uma curiosa combinação de sensualidade e inocência: para Barbarella, o prazer não carrega o peso moral que costuma acompanhar personagens femininas em aventuras desse tipo.
Essa liberdade sexual, vista hoje, permite uma leitura dupla. De um lado, existe uma personagem feminina que circula por um universo no qual o desejo não precisa ser tratado como pecado. De outro, a câmera masculina de Vadim encontra inúmeras oportunidades para explorar o corpo de Fonda. A fantasia futurista pode ser libertária, mas também revela bastante sobre os desejos de quem estava atrás das câmeras. E o filme não economiza na imaginação visual. Cenários coloridos, figurinos extravagantes, objetos futuristas e criaturas que parecem ter escapado de uma história em quadrinhos compõem um universo deliberadamente artificial. A direção de arte e a fotografia de Claude Renoir ajudam a sustentar essa estética, que prefere o desenho, a textura e o exagero aos efeitos especiais sofisticados.
A produção foi realizada em uma época em que "2001: Uma Odisseia no Espaço" também chegava aos cinemas, o que torna inevitável a comparação. Só que as ambições são bem diferentes. "Barbarella" não pretende construir uma experiência científica ou filosófica. Roger Vadim abraça o absurdo e trata a ficção científica como uma extensão dos quadrinhos, com humor, erotismo e uma estética deliberadamente exagerada. Essa escolha explica parte da permanência do filme. "Barbarella" envelheceu mal em alguns aspectos técnicos e narrativos, mas sobreviveu de maneira curiosamente interessante em outros. A precariedade de determinados efeitos, que pode provocar risadas involuntárias, também contribui para o charme de uma produção que nunca parece interessada em ser discreta.
A quantidade de roteiristas ajuda a explicar a sensação de irregularidade. Terry Southern escreveu uma primeira versão, enquanto Roger Vadim, Jean-Claude Forest e outros nomes aparecem nos créditos finais. A história passou por sucessivas intervenções durante a produção. Jane Fonda, por sua vez, encontrou em Barbarella uma personagem que se tornaria inseparável de sua imagem naquele período. Antes dela, outras atrizes foram consideradas para o papel, entre elas Brigitte Bardot, Virna Lisi e Sophia Loren. Fonda inicialmente demonstrou dúvidas, mas acabou convencida por Vadim, então seu marido.
O curioso é que a atriz não fica reduzida à função de enfeite espacial. A Barbarella dela possui uma ingenuidade quase infantil diante das situações que encontra, enquanto o mundo ao redor parece empenhado em sexualizar tudo o que se move. Esse contraste ajuda a sustentar o humor da produção e impede que a personagem seja apenas uma sucessão de poses sensuais. Também existe uma boa coleção de bizarrices no caminho: o anjo cego Pygar (John Phillip Law), a Rainha Negra (Anita Pallenberg), o Professor Ping (Marcel Marceau), o revolucionário Dildano (David Hemmings) e o cientista Durand Durand (Milo O'Shea) formam uma galeria de figuras tão excêntricas quanto os cenários que habitam. A cidade de Sogo, inclusive, brinca com a referência bíblica a Sodoma e Gomorra.
A recepção crítica sempre oscilou entre o encanto e a irritação. Algumas avaliações enxergam em "Barbarella" uma fantasia adulta refrescante, visualmente inventiva e assumidamente camp. Outras encontram uma narrativa frouxa, humor irregular e uma exploração excessiva da sensualidade de Fonda. Essa combinação explosiva transformou o filme em objeto de culto. "Barbarella" pode ser lento, exagerado, sexualmente datado e narrativamente irregular. Também pode ser colorido, inventivo, divertido e estranhamente fascinante. Depende bastante do quanto o espectador aceita entrar na brincadeira.
Ficha técnica
"Barbarella" (título original)
Ficha técnica
"Barbarella" (título original)
Gênero: Ficção científica, aventura, comédia e fantasia. Duração: 98 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1968. Data de lançamento: 25 de dezembro de 1968, no Brasil. Idioma: nglês.
Direção: Roger Vadim. Roteiro: Terry Southern, Roger Vadim, Claude Brulé, Vittorio Bonicelli, Clement Biddle Wood, Brian Degas, Tudor Gates e Jean-Claude Forest. Elenco: Jane Fonda, John Phillip Law, Anita Pallenberg, Milo O'Shea, Marcel Marceau, David Hemmings, Ugo Tognazzi e Claude Dauphin.
Distribuição no Brasil: Paramount Pictures. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.
Assine o Belas Artes À La Carte, o streaming para quem ama cinema de verdade
A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.













0 comments:
Postar um comentário
Deixe-nos uma mensagem.