domingo, 7 de junho de 2026

.: André Téchiné mergulha na Paris que engole sonhos em "Não Dou Beijos"


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Lançado em 1991 e agora em cartaz na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, "Não Dou Beijos" é uma das obras mais contundentes da filmografia de André Téchiné. O cineasta francês abandona qualquer idealização da capital francesa para acompanhar a trajetória de Pierre, interpretado por Manuel Blanc, um jovem do interior dos Pireneus que desembarca em Paris carregando o sonho de se tornar ator. O que encontra, porém, está longe das promessas de ascensão social frequentemente associadas à cidade. Sem conseguir se firmar profissionalmente, Pierre atravessa uma sucessão de fracassos que o empurram para a marginalidade. Aos poucos, a sobrevivência fala mais alto do que as ambições artísticas, levando-o à prostituição masculina. O percurso do personagem é marcado por encontros, perdas e humilhações que moldam uma dolorosa passagem para a vida adulta.

Escrito por Jacques Nolot em parceria com André Téchiné, o roteiro nasceu de experiências pessoais do próprio Nolot, que chegou a transformar suas vivências em um romance inédito antes da adaptação para o cinema. A colaboração resulta em uma narrativa de forte autenticidade emocional, interessada na observação de um indivíduo tentando encontrar algum lugar no mundo. O título "Não Dou Beijos" sintetiza a postura do protagonista diante de um universo em que quase tudo pode ser negociado. A frase funciona como uma espécie de código íntimo, um limite que Pierre tenta preservar quando sua vida passa a ser determinada por circunstâncias cada vez mais adversas.

Manuel Blanc entrega uma atuação de enorme intensidade, responsável por projetar seu nome internacionalmente e render-lhe o César de Ator Revelação. Ao seu redor, Philippe Noiret constrói um personagem complexo e melancólico, enquanto Emmanuelle Béart adiciona magnetismo e vulnerabilidade à figura de Ingrid. Hélène Vincent completa o núcleo central com uma interpretação marcada por delicadeza e frustração. Téchiné conduz a narrativa sem concessões. 

A Paris dele não possui cartões-postais nem encantamento turístico. As ruas, os apartamentos modestos e os espaços de encontro noturno compõem um cenário hostil, em que o desejo de pertencimento esbarra constantemente na indiferença coletiva. Essa visão desencantada da metrópole antecipa temas que o diretor voltaria a explorar em obras posteriores, entre elas "Rosas Selvagens", consolidando seu interesse por personagens jovens deslocados social e emocionalmente.

Outra curiosidade relevante envolve o personagem Romain, interpretado por Philippe Noiret. Segundo registros sobre a produção, a figura foi inspirada no filósofo Roland Barthes, amigo tanto de Téchiné quanto de Jacques Nolot. A referência acrescenta uma camada intelectual discreta a um filme que, embora profundamente humano, jamais abandona a reflexão sobre poder, afeto e vulnerabilidade. 

Recebido com respeito pela crítica internacional, "Não Dou Beijos" também chamou atenção pela forma direta com que abordou a prostituição masculina, tema raramente tratado com tanta frontalidade no início da década de 1990. O diretor rejeita glamourizações e oferece um retrato duro de quem tenta preservar a própria identidade enquanto tudo ao redor parece exigir algum tipo de renúncia. Mais de três décadas após a estreia, "Não Dou Beijos" continua impressionando pela honestidade de seu olhar. É um drama sobre juventude, desilusão e sobrevivência que permanece atual justamente porque compreende algo fundamental: crescer nem sempre significa realizar sonhos; às vezes significa aprender o que sobra deles.


Ficha técnica
"Não Dou Beijos" | "J'embrasse Pas" (título original) | "Je N'Embrasse Pas" (título em Portugal)
Gênero: drama. Duração: 115 minutos. Classificação indicativa: 18 anos. Ano de produção: 1991. Idioma: francês. Direção: André Téchiné. Roteiro: Jacques Nolot e André Téchiné (com colaboração de Michel Grisolia). Elenco: Manuel Blanc, Philippe Noiret, Emmanuelle Béart, Hélène Vincent, Roschdy Zem, Ivan Desny, Christophe Bernard e Michèle Moretti. Data de lançamento nos cinemas: 20 de novembro de 1991 (França). Distribuição no Brasil: sem distribuição comercial ampla registrada nos cinemas brasileiros; circulou em mostras e circuitos especializados. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.

.: Revista ZUM #30 homenageia Jaider Esbell e revela inéditos de Karim Aïnouz


A 30ª edição da ZUM
, revista de fotografia do Instituto Moreira Salles, chega às livrarias e à loja online do IMS com destaque para o arquivo de fotografias inéditas do cineasta Karim Aïnouz, dois ensaios que enfatizam a relação da fotografia com a mineração e homenagens póstumas aos artistas Jaider Esbell (1979-2021), cuja obra ilustra a capa da edição, e Rochelle Costi (1961-2022). Também homenageado na ZUM #30, o artista e escritor Jaider Esbell, do povo Macuxi, estampa a capa, a quarta capa e as páginas da edição com Carta ao Velho Mundo (2018-19), em que intervém com desenhos e textos sobre reproduções fotográficas de uma famosa enciclopédia de história da arte, confrontando o cânone europeu com o pensamento indígena. 

O entrevistado da edição é o cineasta cearense Karim Aïnouz. Em conversa com o diretor e produtor alemão Felix von Boehm, o diretor de filmes como Madame Satã (2002), A vida invisível (2019) e Motel Destino (2024), que acaba de lançar na Europa Rosebush Pruning (2026), reflete sobre a ideia de lar, pertencimento e a capacidade da fotografia de capturar a “alma do real”: “Acho que há algo na realidade que é muito poético e muito palpável. É isso que me interessa", diz ele a von Boehm. A revista publica fotografias inéditas de Aïnouz, produzidas ao longo de uma vida e carreira na estrada.

Lisette Lagnado assina o ensaio que acompanha a série Quartos, com fotos de Rochelle Costi que combinam o interesse pela vida privada com uma crítica à crise da moradia em São Paulo. A curadora destaca a capacidade da artista gaúcha de capturar a memória afetiva dos espaços. A obra de Costi também está presente na abertura da revista, na série "50 Horas - Autorretrato Roubado", em que investiga o próprio corpo no ato de ser olhado por outros. Também é dela o pôster da edição, distribuído exclusivamente aos assinantes.

Duas matérias neste número tratam da relação da fotografia com a mineração. A fotógrafa e arquiteta Valentina Tong percorreu a serra capixaba para documentar a maior indústria de rochas ornamentais do país, destacando a relação entre a arquitetura e o extrativismo mineral. As fotos de Pedras marcadas são acompanhadas de um texto da arquiteta Gabriela Leandro Pereira, que analisa essa relação conflituosa e compara as paisagens registradas por Tong às fotos de família de seu avô marmoreiro na mesma região.

Já a pesquisadora canadense Siobhan Angus revela a cadeia de exploração de trabalho e de recursos naturais por trás do discurso de imaterialidade e de praticidade associado à fotografia ao longo de sua história. No ensaio Mineirando a história da fotografia, Angus destrincha essa relação oculta a partir da análise do cartão-postal de uma greve de mineiros em Cobalt, no Canadá, no início do século 20.

A revista ressalta um assunto que teima em estar em evidência ainda no século 21: o do controle dos corpos das mulheres pelo Estado patriarcal. Em Você não morre, a editora francesa Marie Sumalla e a jornalista iraniana Ghazal Golshiri lembram a morte da jovem curda Mahsa Amini pela polícia moral da República Islâmica do Irã, em 2022, episódio que desencadeou uma onda de protestos no país. Em imagens e textos que combinam histórias pessoais e anônimas, elas fazem a cronologia dessa luta pelos direitos das mulheres.

Ainda nesta edição, um ensaio visual da artista argentina Liliana Porter. que mescla fotografia, pintura, desenho e instalação em obras híbridas, que jogam com os limites entre o mundo e sua representação. A professora Adriana Amante ressalta a intertextualidade no gesto de Porter, comparando a artista ao escritor Jorge Luis Borges.

A convite da ZUM, o fotógrafo Renan Teles, do coletivo Vilanismo, produziu imagens inéditas para a série Esmeraldas não é Cohab porque tem elevador (2017-26), em que retrata amigos e parentes no conjunto habitacional onde cresceu, em Itaquera, Zona Leste de São Paulo. A partir das fotografias, a escritora Lilia Guerra relembra a infância vivida “nos predinhos” na mesma região.

A ZUM #30 apresenta também o novo trabalho do fotógrafo estadunidense Tyler Mitchell. No livro Wish this was real (Aperture, 2025), Mitchell celebra a vida negra no passado e no presente dos Estados Unidos combinando memórias pessoais, moda e performance. Para a pesquisadora Sarah Lewis, Mitchell cria um idioma visual para questionar como é possível criar um terreno estável em meio à precariedade.


Tel.: 11 2842-9120

.: "Contos Imorais" desafia o pudor e expõe as rachaduras da moral ocidental


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Lançado em meio às transformações culturais que marcaram a década de 1970, o filme "Contos Imorais" está em cartaz na plataforma de streaming Reserva Imovision como uma obra capaz de provocar discussões que permanecem surpreendentemente atuais. Dirigido pelo cineasta polonês radicado na França Walerian Borowczyk, o longa-metragem antológico reúne quatro histórias ambientadas em épocas distintas para investigar os limites entre desejo, religião, poder e convenções sociais.

Conhecido pela trajetória no cinema experimental e na animação, Borowczyk encontrou em "Contos Imorais" um ponto de inflexão na carreira. O filme ampliou a notoriedade internacional dele ao combinar apuro visual, referências literárias e um erotismo frontal que causou escândalo em diversos países. A produção integrou a Seleção Oficial do Festival Internacional de Cinema de Locarno e conquistou, posteriormente, o Prix de l'Âge d'Or, premiação ligada ao legado surrealista europeu.

A estrutura do filme percorre séculos distintos. Na primeira história, um jovem e sua prima experimentam a descoberta sexual em uma praia isolada. Em seguida, uma adolescente francesa mistura fervor religioso e fantasias íntimas enquanto cumpre um castigo. O terceiro segmento revisita a figura lendária da condessa húngara Erzsébet Báthory, associada a histórias de crueldade e obsessão pela juventude. O encerramento leva o espectador à Itália renascentista para acompanhar uma versão particularmente transgressora da família Bórgia, liderada por Lucrécia, seu irmão Cesare e o papa Alexandre VI.

O roteiro é assinado por Walerian Borowczyk com contribuições inspiradas na obra do escritor surrealista André Pieyre de Mandiargues. A narrativa dialoga com fontes literárias, lendas históricas e relatos que desafiam os limites entre realidade e imaginação. Essa combinação ajuda a explicar por que o filme continua sendo objeto de estudo tanto por pesquisadores do cinema quanto por especialistas em surrealismo e representação da sexualidade.

No elenco, destacam-se Lise Danvers, Fabrice Luchini - que anos depois se tornaria um dos grandes nomes do cinema francês -, Charlotte Alexandra, Paloma Picasso, filha do pintor Pablo Picasso, e Florence Bellamy. Cada segmento possui identidade própria, mas todos compartilham a mesma intenção de questionar os códigos morais que, ao longo da história, tentaram regular os corpos e os desejos.

Uma das curiosidades mais conhecidas envolve o episódio de Erzsébet Báthory. Para criar o célebre banho de sangue da condessa, a produção utilizou cerca de 30 galões de sangue suíno verdadeiro, uma decisão que contribuiu para a reputação extrema da obra. Outra particularidade é que o projeto originalmente possuía um quinto segmento, "La Bête". O episódio acabou removido da montagem principal e posteriormente expandido para se tornar o cultuado longa "A Besta" (1975), outro título fundamental da filmografia de Borowczyk.

O impacto de "Contos Imorais" jamais se limitou às cenas de nudez que escandalizaram plateias nos anos 1970. O filme permanece relevante porque encara a moralidade como construção histórica, variável e frequentemente contraditória. Entre o refinamento plástico e a provocação deliberada, Borowczyk desafia o espectador a observar como diferentes sociedades condenaram desejos que, muitas vezes, coexistiam discretamente nos bastidores do poder, da religião e da aristocracia.

Décadas após sua estreia, "Contos Imorais" continua dividindo opiniões. Alguns enxergam uma obra de arte ousada; outros, um exercício de provocação levado ao limite. O fato é que poucos filmes do período conseguiram preservar tamanho poder de inquietação. Essa capacidade de desconfortar explica a permanência do filme no imaginário do cinema europeu.

Ficha técnica
"Contos Imorais" | "Contes Immoraux" (título original)
Gênero: drama, erótico, antologia, romance. Duração: 125 minutos (2h05). Classificação indicativa: 18 anos. Ano de produção: 1973. Idioma: francês, com trechos em italiano e húngaro. Direção: Walerian Borowczyk. Roteiro: Walerian Borowczyk, baseado em histórias de André Pieyre de Mandiargues. Elenco: Lise Danvers, Fabrice Luchini, Charlotte Alexandra, Paloma Picasso, Florence Bellamy, Pascale Christophe, Marie Forså. Distribuição no Brasil: sem distribuidora nacional registrada atualmente; lançado nos cinemas brasileiros em 20 de setembro de 1982. Cenas pós-créditos: não.

.: Edney Silvestre é o próximo convidado do "Encontro com os Escritores"


No dia 23 de junho, terça-feira, às 19h00, a Universidade do Livro, braço educacional da Fundação Editora da Unesp, em parceria com a Assessoria de Comunicação e Imprensa da Reitoria da Unesp e a Biblioteca Mário de Andrade, promove mais uma edição do programa "Encontro com os Escritores". O convidado do mês é o jornalista e romancista Edney Silvestre, que participa de um debate aberto sobre seu novo livro, "O Último Van Gogh", com mediação do jornalista e crítico Manuel da Costa Pinto.

Publicado pela Globo Livros, o romance de 368 páginas tensiona a história da arte e a desigualdade urbana ao colocar em paralelo o sofrimento final de Vincent van Gogh em Auvers-sur-Oise e a deriva de Igor Brown, jovem que se vê envolvido no roubo de uma pintura do mestre holandês guardada clandestinamente no Rio de Janeiro de 2024. A obra expõe as entranhas do mercado de arte de alto padrão, a invisibilidade social e o crime de colarinho branco sob a atmosfera ágil de um thriller policial.

O bate-papo abordará a arquitetura literária desenvolvida por Silvestre para costurar as duas épocas, as exigências de pesquisa histórica do romance e o papel das artes visuais como motor de suspense na literatura de ficção. Para os profissionais do setor editorial, o encontro traz à tona discussões sobre construção de personagens complexos, ritmo narrativo e a preparação de textos que equilibram rigor factual e apelo comercial. Para participar, basta se inscrever neste link.


Sobre o escritor
Autor do recente romance "O Último Van Gogh", publicado pela Globo Livros, Edney Silvestre é vencedor dos prêmios São Paulo de Literatura e Jabuti de Melhor Romance por "Se Eu Fechar os Olhos Agora", adaptado para minissérie pela Globoplay. O romance "A Felicidade É Fácil" está sendo adaptado para um longa-metragem a ser rodado em São Paulo pela produtora Mixer Filmes. Obras dele foram publicadas na Inglaterra, França, Estados Unidos, Sérvia, Holanda, Itália, Alemanha e Portugal.

Natural de Valença, no estado do Rio de Janeiro, filho de uma operária de fábrica e um dono de armazém, foi correspondente internacional da Rede Globo e do jornal O Globo, de 1992 a 2002. Cobriu os atentados ao World Trade Center, a devastação do Iraque após duas guerras, a visita do Papa a Cuba, voou dentro do furacão Floyd com os Hurricane Chasers, reportou direto do tapete vermelho do Oscar em Hollywood.

Ainda nos Estados Unidos, criou o primeiro programa internacional de entrevistas da GloboNews, o "Milênio", onde apresentou pensadores como Noam Chomsky, Gloria Steinem e Edward Said, autores como Alice Walker, Edward Albee e Salman Rushdie, artistas como Juliette Binoche e Barbra Streisand.

De volta ao Brasil, foi repórter especial do Jornal Nacional e do Globo Repórter. Por 15 anos apresentou o GloboNews Literatura, onde entrevistou o italiano Umberto Eco, o português José Saramago, a sul-africana Nadine Gordimer, o turco Orhan Pamuk, o peruano Mario Vargas Llosa, o nigeriano Wole Soyinka, além de autores brasileiros estreantes e consagrados – Milton Hatoum, Adélia Prado, Ariano Suassuna, Elvira Vigna, Victor Heringer, Ana Maria Gonçalves, Marcelo Moutinho, Lygia Fagundes Telles. Silvestre é autor de quatro livros de jornalismo, inclusive a biografia profissional "Segredos de Um Repórter", e oito de ficção. Compre os livros de Edney Silvestre neste link.


Sobre o mediador
Manuel da Costa Pinto.é jornalista, crítico literário e mestre em teoria literária e literatura comparada pela USP. É autor dos livros "Albert Camus: Um Elogio do Ensaio" (1998), "Literatura Brasileira Hoje" (2004), "Antologia Comentada da Poesia Brasileira do Século 21" (2010) e "Paisagens Interiores e Outros Ensaios" (2012); organizador e tradutor de "A Inteligência e o Cadafalso e Outros Ensaios", de Albert Camus (1998), organizador de "Camus, o Viajante" (2019), com textos sobre o Brasil do escritor francês, e do "Diário Confessional de Oswald de Andrade" (2022). Criador da revista Cult, foi colunista do jornal Folha de S.Paulo (2003-2016) e coordenador editorial do Instituto Moreira Salles. Atuou como curador da FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty) de 2011 e curador da programação literária da Feira do Livro de Frankfurt de 2013, que teve o Brasil como país homenageado. Atualmente, é editor-chefe e apresentador do “Entrelinhas”, programa semanal sobre literatura da TV Cultura, e curador, pelo Brasil, do Oceanos – Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa. Compre os livros de Manuel da Costa Pinto neste link.

sábado, 6 de junho de 2026

.: Crítica: "Diana - A Princesa do Povo" devolve humanidade ao mito


Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com. Foto: Carlos Costa

A história de Diana Spencer já foi contada à exaustão pela imprensa, pelo cinema, pela televisão e pelos documentários. Ainda assim, "Diana - A Princesa do Povo", em cartaz no Teatro Liberdade até dia 5 de julho, encontra uma brecha rara: abandonar o fascínio pela figura mítica para observar a mulher que existia por trás das manchetes. O "comeback" de Sara Sarres não poderia ser me melhor. Ela retorna aos palcos em estado de graça. O reencontro dela com o teatro musical não poderia ter encontrado personagem mais poderosa. 

Diana oferece a Sara Sarres todas as possibilidades dramáticas imagináveis, e a atriz aproveita cada uma delas. Vulnerável, divertida, apaixonada, indignada e determinada, a interpretação dela evita o retrato santificado que tantas vezes acompanha a princesa. Sara constrói uma mulher real, capaz de despertar empatia sem pedir complacência. Ao lado dela, Claudio Lins entrega um Charles distante da caricatura. A voz cristalina do ator encontra espaço para brilhar em números musicais que ampliam os conflitos internos do personagem. O espetáculo compreende algo que muitas produções ignoram: para que Diana funcione dramaticamente, Charles precisa existir como figura complexa. E Lins alcança esse equilíbrio com precisão.

Uma das decisões mais inteligentes da montagem está na construção de Camilla Parker Bowles. Giselle de Prattes afasta qualquer leitura simplista da personagem e oferece uma interpretação marcada pela humanidade. A Camilla defendida por ela não surge como antagonista de novela, mas como alguém que também espera, sofre e ocupa um lugar desconfortável dentro daquele tabuleiro afetivo. Curiosamente, a figura mais rígida e implacável da narrativa acaba sendo a Rainha Elizabeth II, defendida com firmeza por Simone Centurione. A presença dela no espetáculo ajuda a compreender que o verdadeiro embate nunca foi apenas amoroso, era institucional.

Dino Fernandes também deixa sua marca como James Hewitt. A participação dele ganha destaque em uma das cenas visualmente mais impactantes da montagem, envolvendo o célebre passeio a cavalo. É um momento que sintetiza liberdade, desejo e fuga em meio ao sufocamento imposto pela vida pública.

Marianna Alexandre confirma aquilo que o público habituado ao teatro musical brasileiro já conhece: a presença dela em cena funciona como um selo de qualidade. Nas sequências compartilhadas com Diana, interpretando Sarah Spencer, a atriz introduz afeto, cumplicidade e leveza sem desviar a atenção dos conflitos centrais. São passagens que lembram algo frequentemente esquecido quando se fala da princesa: antes de se tornar um fenômeno mundial, ela era uma mulher que acreditou sinceramente em uma história de amor. Tudo o que veio depois parece surgir como reação ao colapso dessa promessa.

O grande mérito de Tadeu Aguiar está em compreender essas nuances. A direção precisa dele evita julgamentos simplistas e conduz o espectador por zonas moralmente mais interessantes. Não há heróis absolutos e muito menos monstros definitivos em "Diana - A Princesa do Povo". Todos no espetáculo são pessoas presas a protocolos, interesses, expectativas e convenções que acabam esmagando qualquer possibilidade de felicidade genuína.

Com direção musical de Thalyson Rodrigues, cenografia de Natália Lana, figurinos de Ney Madeira e Dani Vidal e coreografias de Sueli Guerra, a superprodução da Estamos Aqui Produções transforma um episódio amplamente conhecido da cultura pop em uma experiência emocionalmente envolvente. O espetáculo revisita a trajetória da princesa Diana sem recorrer à reverência automática que costuma cercar a memória dela. O resultado é um musical que faz uma pergunta desconfortável e atual: o que acontece quando uma instituição milenar exige obediência de alguém que deseja apenas ser amada? A resposta, o mundo inteiro já conhece. O mérito desta montagem está em fazer o público voltar a senti-la.

Serviço
Espetáculo "Diana - A Princesa do Povo"
Local: Teatro Liberdade
Rua São Joaquim, 129 - Liberdade | São Paulo
Temporada até dia 5 de julho de 2026
Sessões: Sextas às 20h00, Sábado às 16h00 e 20h30. Domingos às 15h00 e às 19h30

Ingressos
Plateia Premium 
Sexta-feira, sábado e 1ª sessão de domingo - R$340,00 (Inteira) | R$170,00 (Meia)
Quinta-feira e 2ª sessão de domingo - R$ 280,00 | R$140,00 (Meia)

Plateia 
Sexta-feira, sábado e primeira sessão de domingo - R$250,00 (Inteira) | R$125,00 (Meia)
Quinta-feira e segunda sessão de domingo - R$ 190,00 | R$85,00 (Meia)
Balcão Visão Parcial - R$120,00 (Inteira) | R$60,00 (Meia)
Balcão A - R$170,00 (Inteira) | R$85,00 (Meia)
Balcão B: R$50,00 (Inteira) | R$25,00 (Meia)
Vendas: Site Sympla (https://bileto.sympla.com.br/event/114505) ou Bilheteria local
Gênero: musical
Duração: 150 minutos (com intervalo)
Classificação: 12 anos

Descontos
*Desconto 35%: Obtenha 35% de desconto no ingresso inteiro ao preencher o formulário durante o processo de compra.
Para comprar mais de um ingresso nessa modalidade, basta preencher um formulário por ingresso conforme será solicitado. Desconto disponível para todos os públicos.
*Clientes Glesp: têm 25% de desconto nos ingressos inteiros mediante a aplicação do cupom, limitado a 4 ingressos por cupom. Válido para todos os setores.
*Crianças até 24 meses não pagam entrada e ficam no colo dos responsáveis durante a apresentação. A partir de 02 anos e 1 dia, a criança paga meia-entrada mediante apresentação da carteira de identidade ou certidão de nascimento.

Ingressos
Internet (com taxa de conveniência):
Bilheteria física (sem taxa de conveniência):
Horário de funcionamento de bilheteria:
Atendimento presencial: de terça à sábado das 13h00 às 19h00. Domingos e feriados apenas em dias de espetáculos até o início da apresentação.

Acessibilidade
Deficientes físicos: teatros adequados às normas de acessibilidade, contendo elevador, corrimão, espaço para cadeirantes e acompanhantes, banheiros adaptados.
Deficientes auditivos – Agenda de apresentações com tradução em libras (em construção)
Deficientes visuais - Previsão de que, quando solicitada, a produção disponibilize texto da peça em Braile e resumo descritivo do espetáculo em Braille e em áudio (para cidadãos devidamente identificados)
Deficientes intelectuais – Quatro (quatro) assentos posicionados em local de fácil mobilidade para este público, proporcionando conforto caso haja necessidade de se retirar durante a sessão e, ainda, previsão de que, quando solicitada, a produção disponibilize abafadores de ruído (para cidadãos devidamente identificados)
Este espetáculo contém Luz Estroboscópica (flashes de luz intensa). Este efeito visual é contraindicado para pessoas com epilepsia, sensibilidade à luz ou autismo. Aconselhamos cautela.


.: "Lugar de Fala", de Djamila Ribeiro, ganha nova edição revista e ampliada


"Lugar de Fala", best-seller de Djamila Ribeiro que deu início à Coleção Feminismos Plurais ganha edição revista e atualizada pela Rosa dos Tempos, editora do Grupo Editorial Record que é referência na publicação de obras feministas no Brasil. O livro abriu caminho para debates fundamentais e importantes conquistas no movimento negro, além de ampliar, no país, as discussões sobre raça, gênero e classe. O livro será lançado em São Paulo no dia 9 de junho, a partir das 18h00, no Espaço Feminismos Plurais, em Moema, com bate-papo e sessão de autógrafos.

Uma das vozes mais influentes na discussão sobre racismo estrutural, feminismo negro e desigualdade no Brasil, Djamila Ribeiro adicionou novos capítulos à obra, que já foi traduzida para vários países, ampliando o alcance do conceito de lugar de fala e demonstrando o reconhecimento da obra e da autora globalmente. A publicação traz ainda prefácio de Chimamanda Ngozi Adichie e apresentação de Grada Kilomba.

"Lugar de Fala" foi eleito um dos melhores livros brasileiros de não ficção do século 21. A lista elaborada com base em votação de cem escritores e críticos literários foi publicada pela Folha de S.Paulo. A antropóloga Débora Diniz, que votou no livro, disse que ele “é uma intervenção original na forma de pensar o poder, as relações raciais e o letramento antirracista, ao articular testemunho, produção de conhecimento e legitimidade discursiva”. Com o lançamento de "Lugar de Fala", a Rosa dos Tempos passa também a editar toda a Coleção Feminismos Plurais.

Em "Lugar de Fala", Djamila Ribeiro discute e desmistifica um conceito que ganhou projeção no debate público desde a década de 2010, segundo o qual todas as pessoas ocupam posições sociais que influenciam o que dizem e como suas palavras são recebidas, legitimando ou deslegitimando vozes. A autora demonstra que é essencial compreender essas diferentes posições e o devido lugar de fala de cada indivíduo, não para censurar ou podar o debate, mas para enriquecê-lo.

Originalmente lançado em 2017, este foi o primeiro título da Coleção Feminismos Plurais, que quebrou paradigmas no meio acadêmico brasileiro ao alavancar a carreira de um grande número de pensadoras e pensadores negros de nosso país, abrindo caminhos para uma revolução no enfrentamento à narrativa hegemônica.

Passada quase uma década da primeira edição de "Lugar de Fala", a autora sentiu que era o momento de avaliar o alcance da obra e da Coleção Feminismos Plurais, revisitando e atualizando seu texto. Agora, a Rosa dos Tempos se orgulha em editar uma das vozes mais influentes na discussão sobre racismo estrutural, feminismo negro e desigualdade no Brasil. Dialogando com outras pensadoras feministas de fôlego, Djamila Ribeiro convida as leitoras e os leitores desta obra a reconhecer seu lugar no mundo, imaginar novas possibilidades de existência e contribuir para uma sociedade mais justa. Compre o livro "Lugar de Fala", de Djamila Ribeiro, neste link.


Sobre a autora
Djamila Ribeiro é ativista, escritora e coordena a iniciativa Feminismos Plurais. É autora de "Quem Tem Medo do Feminismo Negro?", "Pequeno Manual Antirracista" e "Cartas para Minha Avó", que já venderam mais de um milhão de exemplares. É professora universitária com passagens por diversas instituições, como a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), a New York University e, em 2025, segue como primeira brasileira a lecionar no Martin Luther King Program, no Massachusetts Institute of Technology (MIT). Compre os livros de Djamila Ribeiro neste link.


Serviço
Lançamento do livro

Dia 9 de junho, a partir das 18h00, no Espaço Feminismos Plurais - Avenida Chibarás, 666 - Moema, em São Paulo. Haverá bate-papo e sessão de autógrafos.

.: Espetáculo "O Mercador de Veneza", com Dan Stulbach, reestreia no Tuca


Com Dan Stulbach à frente do elenco, a peça vem realizando um feito: até agora não houve nenhuma sessão em que não tivessem sido vendidos todos os assentos. Foto: Ronaldo Gutierrez

Com ingressos esgotados no Tucarena até maio, o espetáculo “O Mercador de Veneza” migra para um teatro maior e abre novas sessões aos sábados e domingos de junho e julho, agora no Tuca, em São Paulo. A peça vem realizando um feito: até agora não houve nenhuma sessão em que não tivessem sido vendidos todos os assentos. O projeto é uma coprodução da Kavaná Produções e Baccan Produções. À frente do elenco, Dan Stulbach dá vida ao icônico agiota Shylock, já interpretado por nomes como Al Pacino, Laurence Olivier e Pedro Paulo Rangel. A direção é de Daniela Stirbulov. Mergulhando em temas como preconceito e intolerância a todos aqueles que são estrangeiros, a montagem é uma reflexão acerca das transformações nas relações humanas e tensões sociais que transcendem séculos.

“Lidar com os desafios shakesperianos é abrir espaço para o risco, para o confronto com o que somos — e com o que podemos ser. E expandir o entendimento sobre a vida: as relações humanas em sua complexidade e contradições. Tudo está ali. Vilões e heróis se confundem nas máscaras sociais. A obra, atravessada por tensões religiosas e preconceitos, nos confronta com questões sobre intolerância, identidade e justiça - tão atuais quanto no tempo em que foi escrita”, reflete a diretora, Daniela Stirbulov.

A trama acompanha Antônio, um mercador que contrai uma dívida com o agiota judeu Shylock para ajudar seu amigo Bassânio. Como garantia, estipula-se a retirada de uma libra da carne de Antônio. Com o não pagamento da dívida, o contrato desencadeia um julgamento dramático, colocando em pauta temas como justiça e preconceito. Sob a direção de Daniela Stirbulov, “O Mercador de Veneza” se desloca da Itália do século 16 para um cenário contemporâneo, em que questões como o antissemitismo, o preconceito racial, e as guerras motivadas pelo lucro e pelo capital ganham mais potência frente à narrativa. O agiota Shylock é alçado a protagonista nesta montagem, que busca narrar a história a partir de seu ponto de vista.

“Estar à frente da direção me possibilitou criar um universo contemporâneo. A história, escrita no contexto do capitalismo emergente do século XVI, foi transportada para os anos 1990 - década marcada pela aceleração da globalização e pelo surgimento de uma nova ordem mundial. Estabelecemos a Bolsa de Valores como espaço central, implantando a atmosfera das negociações financeiras do tempo presente e o dinheiro como motor principal das relações”, conta a diretora.

No centro do palco, uma estrutura acrílica transparente elevada cria um tablado para os atores. No alto, um painel circular de led desenha palavras e frases ligadas à ação. Há um operador de câmera captando imagens em tempo real, também projetadas no painel. A música é executada ao vivo por uma baterista no palco.

A produção do espetáculo é assinada pela Kavaná e pela Baccan Produções, sob a liderança de Cesar Baccan e Marcelo Ullmann, que também integram o elenco. Com atuação destacada pela qualidade, os produtores vêm consolidando uma trajetória marcada por obras de relevância artística e apelo de público, como “O Nome do Bebê”, com Bianca Bin, “A Pane”, com Antônio Petrin, e “Um Inimigo do Povo”, de Henrik Ibsen. Mais do que viabilizar montagens, Baccan e Ullmann desenvolvem projetos que transitam entre o clássico e o contemporâneo, equilibrando rigor estético, comunicação com o público e consistência de produção, enquanto avançam com novos projetos em desenvolvimento.


Ficha técnica
Espetáculo "O Mercador de Veneza"

Texto: William Shakespeare. Direção: Daniela Stirbulov. Tradução, Adaptação e Assistência de Direção: Bruno Cavalcanti. Elenco / Personagem: Dan Stulbach / Shylock; Augusto Pompeo / Duque; Amaurih Oliveira / Lorenzo e Príncipe de Marrocos; Cesar Baccan / Antônio; Gabriela Westphal / Pórcia; Júnior Cabral / Graciano; Marcelo Diaz / Lancelotte Gobbo; Marcelo Ullmann / Bassânio; Maria Clara Strambi / Jéssica; Rebeca Oliveira / Nerissa; Renato Caldas / Solânio e Tubal; Thiago Sak / Salarino e Príncipe de Aragão. Baterista em cena: Caroline Calê. Cenografia: Carmem Guerra. Cenotécnico: Douglas Caldas. Desenho de luz: Wagner Pinto e Gabriel Greghi. Figurino e visagismo: Allan Ferc. Assistente de figurino: Denise Evangelista. Peruqueiros: Dhiego Durso e Raquel Reis. Direção de movimento: Marisol Marcondes. Aderecista: Rebeca Oliveira. Consultoria sobre Shakespeare: Ricardo Cardoso. Vídeo e imagem: André Voulgaris. Fotos: Ronaldo Gutierrez. Design gráfico: Rafael Oliveira Branco. Operação de luz: Jorge Leal. Operação de som: Eder Sousa. Motorista: Cosme Araujo. Assistente de produção: Amanda Nolleto. Produção executiva: Raquel Murano. Direção de produção: Cesar Baccan e Marcelo Ullmann. Produção: Kavaná Produções e Baccan Produções. Assessoria de imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Sephany.

Serviço
Espetáculo “O Mercador de Veneza”

Reestreia sábado, dia 6 de junho, às 20h00
Teatro Tuca – Rua Monte Alegre, 1024 – Perdizes / São Paulo. Telefone: (11) 3670-8455.
Sábados, às 20h00, e domingos, às 17h00 (as sessões dos dias 13 de junho, 4, 5, 11 e 19 de julho dependem dos jogos do Brasil na Copa do Mundo).
Ingressos: R$ 200,00 e R$ 100,00 (meia-entrada) na bilheteria terça-feira a sábadp, das 14h00 às 20h00, e domingo, das 14h00 às 18h00, ou em https://bileto.sympla.com.br/event/118833?share_id=1-copiarlink
Capacidade: 672 espectadores
Duração: 1h50
Gênero: comédia dramática
Classificação indicativa: 12 anos
Acessibilidade: sim
Temporada: até 26 de julho


.: "Incêndios" mergulha na guerra e em um dos maiores segredos do cinema


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Poucos filmes conseguem provocar tamanho impacto emocional quanto "Incêndios", filme em cartaz na plataforma de streaming Reserva Imovision. Lançado em 2010 e dirigido por Denis Villeneuve, o drama canadense chegou aos cinemas brasileiros em fevereiro de 2011 e rapidamente conquistou espaço entre as produções mais admiradas do século. Antes de se tornar um dos cineastas mais celebrados de Hollywood com obras como "A Chegada", "Blade Runner 2049" e os dois capítulos de "Duna", Villeneuve entregou uma narrativa poderosa, construída sobre perdas, memória, violência e heranças que atravessam gerações.

Baseado na peça homônima do escritor e dramaturgo Wajdi Mouawad, o longa acompanha os irmãos gêmeos Jeanne e Simon Marwan, interpretados por Mélissa Désormeaux-Poulin e Maxim Gaudette. Após a morte da mãe, Nawal Marwan, vivida de forma impressionante por Lubna Azabal, os dois recebem uma missão inesperada: localizar um pai que acreditavam estar morto e um irmão cuja existência desconheciam. A investigação conduz os personagens ao Oriente Médio e, pouco a pouco, revela um passado marcado pela guerra e por acontecimentos capazes de redefinir tudo o que julgavam saber sobre a própria família.

O roteiro, assinado por Denis Villeneuve e Valérie Beaugrand-Champagne, organiza a narrativa em diferentes tempos históricos sem perder a clareza dramática. Cada descoberta amplia a dimensão da tragédia e transforma a busca dos irmãos em uma reflexão profunda sobre identidade, culpa, perdão e sobrevivência. A força do texto encontra apoio em uma direção segura, que sabe dosar tensão e emoção sem recorrer a atalhos fáceis.

Uma das curiosidades mais comentadas sobre a produção está na inspiração indireta em acontecimentos ligados à Guerra Civil Libanesa. Embora a história não adapte fatos reais específicos, estudiosos e críticos apontam semelhanças com a trajetória da ativista libanesa Souha Bechara, presa e torturada durante anos em uma penitenciária do sul do Líbano. Essa aproximação ajuda a compreender a intensidade política e humana presente no filme.

A excelência técnica também contribui para o prestígio duradouro da obra. A fotografia de André Turpin alterna paisagens frias e tons áridos para reforçar os contrastes geográficos e emocionais da trama. Já a trilha sonora de Grégoire Hetzel acompanha a jornada sem excessos, permitindo que o peso dos acontecimentos encontre espaço para ressoar por conta própria.

O reconhecimento internacional veio rapidamente. "Incêndios" recebeu indicação ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira e consolidou Denis Villeneuve como um dos realizadores mais talentosos de sua geração. Mais de uma década depois, continua sendo apontado por parte da crítica e do público como o trabalho mais contundente de sua carreira. Em tempos de narrativas descartáveis e consumo acelerado, "Incêndios" permanece intacto, preservando a capacidade de surpreender, inquietar e emocionar com a mesma intensidade de sua estreia.


Ficha técnica
"Incêndios" | "Incendies" (título original) | "Incendies - A Mulher Que Canta" (título em Portugal)
Gênero: drama. Duração: 2h10m. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 2010. Idioma: francês e árabe. Direção: Denis Villeneuve. Roteiro: Denis Villeneuve e Valérie Beaugrand-Champagne, baseado na peça de Wajdi Mouawad. Elenco: Lubna Azabal, Mélissa Désormeaux-Poulin, Maxim Gaudette e Rémy Girard. Distribuição no Brasil: Imovision. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.

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A equipe do Resenhando.com acompanha os filmes por meio da plataforma de streaming Reserva Imovision, dedicada ao cinema independente e autoral. Para acessar o catálogo completo, conferir novidades e realizar sua assinatura, o aplicativo da plataforma ou o visite o site oficial neste link. A Reserva Imovision reúne filmes e séries cuidadosamente selecionados, ampliando o acesso a obras que valorizam a diversidade cultural, a reflexão e experiências cinematográficas diferenciadas. 
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.: "Dominados pelo Desejo" resgata alma do noir e afunda personagens no medo


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Lançado em 1990, "Dominados pelo Desejo", que estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte,  foi transformado em objeto de culto do cinema norte-americano. Dirigido por James Foley, cineasta que transitou entre o suspense, o drama e produções de grande apelo comercial, o longa-metragem adapta o romance "After Dark, My Sweet", de Jim Thompson, um dos escritores mais influentes da literatura policial americana.

A trama acompanha Kevin "Kid" Collins, interpretado por Jason Patric, um ex-boxeador atormentado que foge de uma instituição psiquiátrica e passa a vagar pelo deserto californiano. Durante a fuga, ele cruza o caminho de Fay Anderson, personagem de Rachel Ward, uma mulher fragilizada por perdas e vícios, que vive sob a influência de Garrett "Tio Bud" Stoker, papel de Bruce Dern. O encontro entre os três dá origem a um plano de sequestro que parece simples apenas na superfície. Conforme a situação se deteriora, a desconfiança, a manipulação e os impulsos autodestrutivos assumem o controle da narrativa.

James Foley, que anos antes dirigira "Quem é Essa Garota?" e posteriormente assinaria títulos como "O Sucesso a Qualquer Preço" e capítulos da franquia "Cinquenta Tons de Cinza", encontra neste filme uma de suas obras mais elogiadas pela crítica especializada. A direção aposta na construção psicológica dos personagens, mantendo o espectador preso à instabilidade emocional do protagonista.

Grande parte da força do filme reside na fidelidade ao universo criado por Jim Thompson. Conhecido por romances como "The Killer Inside Me" e "Pop. 1280", o escritor construiu uma carreira retratando criminosos fracassados, pessoas à deriva e indivíduos incapazes de escapar das próprias limitações. "Dominados pelo Desejo" preserva esse espírito sem recorrer a glamourizações, oferecendo um retrato áspero de personagens que avançam rumo ao desastre quase por inércia.

A atuação de Jason Patric costuma ser apontada como um dos pontos mais marcantes de sua trajetória. O ator confere humanidade e vulnerabilidade a um homem constantemente dividido entre a lucidez e a confusão mental. Rachel Ward evita qualquer romantização da figura da femme fatale clássica, compondo uma mulher emocionalmente ferida, imprevisível e contraditória. Já Bruce Dern entrega um personagem oportunista e desprezível na medida certa, reforçando o clima de tensão permanente.

Visualmente, o longa também chama atenção. A fotografia de Mark Plummer utiliza paisagens áridas e ensolaradas para construir uma atmosfera opressiva. O resultado aproxima o filme do chamado "neo-noir solar", vertente que substitui becos escuros e ruas molhadas pela sensação de isolamento provocada pelo calor e pelos espaços abertos. O fatalismo característico do noir clássico permanece intacto, apenas muda de cenário.

Embora não tenha obtido sucesso expressivo nas bilheterias durante o lançamento, "Dominados pelo Desejo" conquistou admiradores ao longo das décadas. Muitos críticos o consideram uma das adaptações mais consistentes da obra de Jim Thompson para o cinema, justamente por compreender que seus personagens não são gênios do crime, mas seres humanos frágeis, guiados por impulsos, ilusões e decisões equivocadas. Um suspense psicológico que prefere explorar a deterioração moral e emocional de seus protagonistas a oferecer respostas fáceis. Uma experiência marcada pela inquietação, pela melancolia e pela certeza de que, naquele universo, cada escolha carrega consequências difíceis de evitar.


Ficha técnica
"Dominados pelo Desejo" | "After Dark, My Sweet" (título original)
Gênero: romance, suspense, drama, policial, mistério (neo-noir). Duração: 114 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 1990. Idioma: inglês. Direção: James Foley. Roteiro: James Foley e Robert Redlin, baseado no romance de Jim Thompson. Elenco: Jason Patric, Rachel Ward, Bruce Dern, George Dickerson, Ira Wheeler e Rockne Tarkington. Distribuição no Brasil: disponibilidade em plataformas e distribuidoras varia conforme o período de exibição. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


Assine o Belas Artes À La Carte, o streaming de quem leva cinema a sério
A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.

.: "Bem Brasil" de volta à TV Cultura com show ao vivo de Carlinhos Brown


Carlinhos Brown abre a nova fase do clássico programa de música brasileira neste domingo, dia 7 de junho. Na foto, Roberta Martinelli e Wandi Doratiotto. Foto: Henrique Bacana/Acervo TV Cultura

Neste domingo, dia 7 de junho, um dos mais importantes programas musicais da televisão brasileira volta à grade da TV Cultura: o "Bem Brasil". Com exibição ao vivo aos domingos, ao meio-dia, diretamente do Sesc Itaquera, em São Paulo, a atração será transmitida na TV Cultura e no YouTube da emissora, e terá apresentação de Wandi Doratiotto, nome histórico do programa e já conhecido do público que acompanhou fases anteriores da produção. A nova etapa também contará com a participação da jornalista Roberta Martinelli, que irá interagir com o apresentador e o público em um clima descontraído.
 
O artista convidado para a primeira apresentação será o cantor, compositor e percussionista baiano Carlinhos Brown, que apresenta o show “Começos de Um Encontro”. O espetáculo propõe uma experiência musical vibrante e afetiva ao revisitar diferentes momentos da trajetória do artista em arranjos intimistas que unem ijexá, pop e referências da música brasileira. No repertório, sucessos como “Vilarejo”, “Amor I Love You” e “Meia Lua Inteira” se misturam a clássicos ligados ao universo dos Tribalistas e ao carnaval baiano. 

Com formação enxuta de percussão, voz, teclado e guitarra, a apresentação ganha ainda mais emoção com a participação especial das cantoras Clara e Ceci Buarque, filhas de Brown, ampliando o caráter sensível e celebrativo do show. Reconhecido como um dos mais importantes programas musicais da TV pública brasileira, o Bem Brasil se consolidou como um registro vivo da diversidade e da riqueza da música do país, contribuindo para a democratização do acesso à cultura.




sexta-feira, 5 de junho de 2026

.: Crítica: "Mestres do Universo" tem a força para manter a essência e inovar


Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em junho de 2026


A essência da animação de sucesso dos anos 80, chega aos cinemas em 2026 mesclada a uma releitura cinematográfica humanizada para os tempos de hoje. Eis "Mestres do Universo" a aguardada produção do herói fortão de tanguinha e botas que, diante do perigo, para salvar seu povo, ergue a espada do poder a um sonoro: "pelos poderes de Grayskull... eu tenho a força!". Vale destacar aos saudosistas que é uma boa priorizar a versão dublada do longa, uma vez que Garcia Júnior reinterpreta o príncipe Adam (Nicholas Galitzine, de "Continência ao Amor"), com bônus de ter a voz da dubladora Marisa Leal (Ariel na animação Disney, Baby em "Família Dinossauro") como Roboto.

Com direção de Travis Knight ("Bumblebee"), o filme de 2026 é um resgate de nova roupagem que absorve um pouco da história de "Superman". Quando criança, o pequeno príncipe Adam sobrevive a um ataque tenebroso de Esqueleto (voz de Luiz Carlos Persy como Esqueleto, Jared Leto, de "Esquadrão Suicida", "Morbius" e "Tron-Ares") a Eternos. Enviado para a Terra junto de sua espada os dois se desencontram. 

A produção não retrata como Adam se formou, se foi adotado ou cresceu num orfanato. Agora, um homem que ainda tenta encontrar a espada perdida e também sua cara-metade, tenta sobreviver no maçante trabalho para se manter vivo. Outra falha do longa, no caso visual, está no primeiro embate do herói em Etérnia com um vilão, numa ponte estreita em que com um gancho, o rival marca o chão. Contudo, em todo o confronto, tal feito simplesmente some da tela, deixando a ponte em perfeitas condições.

Perdido na Terra, vivendo como um reles mortal com lembranças curiosas da infância, após 10 anos, ele é reencontrado por Teela numa situação de puro enfrentamento. Toda a pancadaria remete muito a sequência de "Homem-Aranha De Volta para Casa" (2021) quando doutor Octopus encontra o cabeça de teia na ponte ou ainda o mais antigo "Deadpool" (2016) no confronto que acontece durante os créditos iniciais do filme. Em tempo, Adam tem Hussein (Christian Vunipola) como amigo na Terra, o que também remete a nova franquia de "Homem-Aranha" com Ned Leeds (Jacob Batalo).

Bebendo da fonte de "Superman""Mestres do Universo" faz lembrar da cena das cartas na saga "Harry Potter", sendo que aqui o que voa pelo ambiente são os desenhos do menino que retratam lembranças de sua infância. Há também um pouco de "O Senhor dos Anéis" na Montanha da Perdição quando Adam joga um rival direto no fogo ardente.

Assim, Adam volta para Etérnia que está destruída tendo o Esqueleto no comando, estando sedento pelo poder absoluto, almejando ter em mãos a espada do poder. Sem ter conhecimento da força descomunal que tem, por carregar o descrédito do pai, o jovem Adam tenta se enturmar com as figuras que conheceu na infância e pareciam sem sentido para os humanos. Afinal, Adam prioriza a conversa antes de partir para o braço o que só alimenta a desconfiança dos outros.

Ao ser enjaulado com Teela, Adam reencontra Mentor, que acaba sendo a representação viva do que Esqueleto fez com Etérnia. Destruído, o pai de Teela encontra a força que precisava no regresso do herói, voltando a seus tempos áureos de auxiliar a família do rei de Etérnia. Em meios a diversos embates, Adam se redescobre e a magia do herói da música brasileira do "Trem da Alegria", acontece na telona de cinema. Sim! "Mestres do Universo" é o tipo de produção para se assistir na telona de cinema com estilo.

Para alguns que imaginavam ver nos cinemas a reprodução das animações dos anos 80, "Mestres do Universo" pode ser frustrante. Contudo, para amarrar todo o histórico do príncipe Adam, certas mudanças são aceitáveis. Vale lembrar que o herói dos músculos de aço já ganhou um longa-metragem em 1987 que fracassou, mesmo tendo Dolph Lundgren como protagonista. E ele marca presença na nova produção em um encontro do tipo o antigo e o atual Adam, numa academia quando o jovem pede um conselho de iniciante. 

Com três cenas pós-créditos, "Mestres do Universo" pode não ser um filmaço que preencha os requisitos de fãs de produções da Marvel, mas consegue ser um super filme de resgate saudosista com potencial para sequências de qualidade. Imperdível!


"Mestres do Universo" ("Masters Of The Universe"). Gênero: Ação, Aventura e Fantasia. DireçãoTravis Knight. Roteiro: Chris Butler, Aaron Nee e Adam Nee. Duração: 2h 13 minutos. Classificação Indicativa: 14 anos. Distribuição: Sony Pictures. Elenco: Nicholas Galitzine como Príncipe Adam / He-Man, Camila Mendes como Teela, Idris Elba como Duncan / Man-At-Arms, Jared Leto como Esqueleto, Alison Brie como Maligna. Sinopse: O filme acompanha a jornada do Príncipe Adam para salvar Eternia e aceitar seu destino como He-Man

Trailer de "Mestres do Universo"



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.: Crítica musical: os 60 anos dos Afro-Sambas


Por Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural. Foto: Guilherme Ligiero

A gravadora Biscoito Fino lançou “Afro-Sambas 60 Anos”, novo álbum de Marcos Sacramento e Zé Paulo Becker, dedicado à celebração das seis décadas de "Os Afro-Sambas", obra seminal de Baden Powell e Vinicius de Moraes, lançada em 1966. Mais do que uma homenagem, o disco propõe uma leitura contemporânea de um dos capítulos mais importantes da música brasileira. A partir do encontro essencial entre voz e violão - eixo que também estrutura o álbum original - Sacramento e Becker revisitam as oito canções de "Os Afro-Sambas" e incorporam outras quatro composições que orbitam esse mesmo universo poético, rítmico e espiritual: “Berimbau”, “Consolação”, “Tempo de Amor” e “Labareda”.

O ponto de partida do álbum é a formação íntima e potente construída pela voz de Marcos Sacramento, um dos grandes intérpretes da música brasileira, e pelo violão de Zé Paulo Becker, responsável também pela direção musical e pelos arranjos. A partir dessa base, o disco se expande, acolhendo participações especiais que ampliam as camadas sonoras, afetivas e simbólicas do projeto. Entre os encontros vocais, um dos momentos mais aguardados é a participação de Ney Matogrosso em “Canto de Ossanha”. O dueto com Marcos Sacramento reúne duas vozes de forte personalidade, presença cênica e enorme reconhecimento no campo da interpretação brasileira.

O álbum também recebe Roberta Sá em “Canto de Yemanjá” e Fabiana Cozza em “Tristeza e Solidão”, duas cantoras de trajetórias sólidas e profundamente ligadas à canção brasileira, ao samba e às matrizes afro-brasileiras. Suas participações reforçam a dimensão feminina, ritualística e emocional do repertório; A nova geração aparece representada por Juliane Gamboa, em “Bocochê”, e Ilessi, em “Canto de Xangô”, artistas que trazem frescor, intensidade e novas perspectivas para o universo dos afro-sambas.

O disco ganha densidade instrumental com presenças de grande destaque. Yamandu Costa participa de “Tempo de Amor”, ampliando o diálogo violonístico do álbum em um encontro com Zé Paulo Becker. O Trio Madeira Brasil participa de “Consolação”, reafirmando a relação de Becker com a música instrumental brasileira. Já Silvério Pontes se soma ao Samba do Sacramento em “Labareda”. Os percussionistas Netinho Albuquerque e Leonardo Dias também participam de algumas faixas ;.

Com direção musical e arranjos de Zé Paulo Becker, direção artística de Phil Baptiste e produção musical de Diego do Valle, “Afro-Sambas 60 anos” celebra a permanência e a atualidade de uma obra que, seis décadas depois, segue abrindo caminhos para a música brasileira.

"Tempo de Amor"

"Canto de Ossanha"

"Consolação"


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