segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

.: Entrevista com Fabiana Tolentino, atriz e cantora: "Fazer teatro é maluquice"


"...fazer teatro em qualquer lugar do mundo é uma maluquice, você tem que ter um certo prazer masoquista em instabilidade"
Fabiana Tolentino, atriz e cantora

Por Helder Moraes Miranda, em novembro de 2018.

Atriz, cantora, diretora, professora de interpretação e terapeuta holística. Fabiana Tolentino é uma força da natureza. Nos palcos, seja interpretando a Helena de "2 Filhos de Francisco", com toda a carga dramática que a personagem exigiu, seja na divertida felina de "Natasha, Pierre e o Grande Cometa de 1812", ela consegue imprimir a sua marca. 

Ela também dirige o espetáculo "Lugar de Escuta", em cartaz no Teatro do Núcleo Experimental, na Barra Funda, em São Paulo. Produção do Coletivo M.O.T.I.M (Mulheres Organizadas por um Teatro em Infinito Movimento) e da Arina Entretenimento, o musical tem em seu elenco somente mulheres, no total de oito atrizes, dirigidas por Fabiana Tolentino.


Tanto talento faz dela uma mulher apaixonada pela arte e pronta para lidar com tudo o que é derivado dela, como a chegada dos fãs. Desde que a vimos em cena pela primeira vez, nós, do Resenhando.com percebemos que estávamos diante de uma potência, uma estrela em ascensão. Não demorou muito e lá estávamos nós, novamente, apaixonados ao vê-la em cena diante de um desafio completamente diferente. 




Nesse dia, após vê-la, comentamos em uma fotografia de seu Instagram. Para nossa surpresa, ela saiu da peça direto para o espaço em que estava o público. Tomamos coragem e interrompemos uma conversa, para sermos recebidos por um sorriso contagiante e o carinho mais acolhedor que uma artista pode conceder aos seus fãs. Saímos de lá mais apaixonados do que antes. Fabi brilha em qualquer esfera, nos palcos ou fora deles. 

Licenciada em teatro (UNIRIO) e pós-graduada em direção teatral (Instituto CAL), em sua formação como atriz-pesquisadora, participou de processos com a Velha Companhia, com Jorgen Tjon-a-Fon (diretor da companhia de Teatro Documentário Urban Myth - Amsterdam), mais de dez anos de aulas com Daniel Herz e os Atores de Laura, oficinas com a Barca dos Corações Partidos e Eduardo Landim, entre outros processos. 

Dirigiu os infantis "Frida, Frida, Frida" e "Os Saltimbancos" no Rio de Janeiro. Também co-dirigiu o musical autoral brasileiro "Só Por Hoje", junto a Reiner Tenente. Trabalhou como assistente de direção e diretora residente nos espetáculos "Os Saltimbancos Trapalhões" (Möeller & Botelho) e "Be Careful It’s My Heart". Seus principais trabalhos como atriz em teatro musical: "Natasha, Pierre e o Grande Cometa de 1812" (Núcleo Experimental), "Bibi - Uma Vida em Musical", "2 Filhos de Francisco - O Musical" (T4F), "Elis - A Musical" e "Chacrinha - O Musical" (Aventura Entretenimento, ambos nas turnês pelo Brasil). É, sem dúvida, uma mulher inspiradora que está escrevendo uma linda trajetória. 


RESENHANDO - Quando as artes de interpretar e cantar entraram na sua vida?
FABIANA TOLENTINO - Comecei no teatro da escola aos dez anos. Aos 13, comecei a fazer aula com os Atores de Laura. Sempre senti que levava jeito e sempre tive bons feedbacks dos professores. Sempre gostei de cantar, lembro dos meus pais ouvindo música. Eu tinha um vídeo cantando "Oceano" do Djavan com quatro anos, acho... uma gracinha!


RESENHANDO - Nos seus stories do Instagram, você demonstra aos seus seguidores o seu respeito à música. Você é uma atriz que também canta. Desde quando você se dedica ao canto? 
F.T. - Aulas de canto mesmo comecei a fazer já com 16 anos, na época de "O Despertar da Primavera". Fiz por uns seis anos direto. Depois fui pipocando de professor, dependendo do que estava precisando na época. Tenho um apreço muito grande por boas melodias, arranjos... Cresci ouvindo música brasileira, samba, samba canção, MPB... Sou movida à música em casa. Coloco música pra tudo.


RESENHANDO - Atriz, cantora, diretora, professora de interpretação e terapeuta holística.  De que maneira essas profissões se complementam e tornam você o que é?
F.T. - Tudo que estudo é uma forma de me aprimorar como ser humano e, como consequência, como artista. Acredito que artistas precisam estudar muito mais do que artes dramáticas, há uma dimensão de humanidade, de maturidade, que só esse "estofo" da transversalidade de conhecimento pode trazer. Hoje em dia estudo fotografia e a influência das cores no nosso dia a dia.



RESENHANDO - O que poucos conhecem da Fabiana Tolentino fora dos palcos?
F.T. - Como dizem meus amigos mais próximos, existem duas Fabis bem distintas. A "Fabi do Trabalho" (que pode ser bem difícil de lidar às vezes porque é um pouco obcecada com limpeza e competência, que precisa aprender a ter paciência com os tempos alheios, que ainda tem muito o que aprender) e a "Fabi do Rolê", que é completamente maluca e sem amarras.


RESENHANDO - Quais os maiores desafios para quem se aventura a fazer teatro em São Paulo?

F.T. - Acho que São Paulo traz mais benesses que desafios, pois nessa cidade mora um "fazer acontecer" que é um tesão pra quem tá afim de criar. De qualquer forma, se aventurar a fazer teatro em qualquer lugar do mundo é uma maluquice, você tem que ter um certo prazer masoquista em instabilidade, em falta de rotina. Tem que ter uma organização financeira exemplar. Tem que ter um senso de autoconhecimento ímpar pra que sua arte não se limite ao que os outros querem que você faça.


RESENHANDO - O que você aconselharia para quem quer trabalhar com teatro em São Paulo?
F.T. - Se produza. Se estude. Se conheça de verdade, reconheça o que gosta nos outros, mas principalmente reconheça o que você sabe que faz bem.



RESENHANDO - Você teve mais de dez anos de aulas com Daniel Herz. De que maneira isso colaborou na sua formação como artista e como ser humano?
F.T. - O Daniel me fez uma artista criadora. Me ensinou o que é trabalhar em equipe através da sua cia. de teatro, me incentivou a olhar pra todas as áreas de fazer teatro. Me ensinou a entender um pouco sobre cada função. Me ensinou a criticar e não aceitar qualquer coisa, inclusive vindo dele mesmo. E ele é o melhor professor de teatro que eu conheço. Minha rapidez de raciocínio veio dos treinos com ele e com a Vanessa Dantas, que também já foi da companhia.


RESENHANDO - Como diretora dos espetáculos "Frida, Frida, Frida" e "Os Saltimbancos", considera que a próxima geração está sendo incentivada adequadamente a prestigir o teatro? 
F.T. - Sim! Temos uma grande quantidade de produções de qualidade para crianças, cada vez mais: Vanessa Dantas, Karen Accioly, Duda Maia, as coisas do Oi Futuro, do CCBB... Coisas de qualidade têm, acredito que agora precisamos incentivar os pais a não ir na escolha fácil das princesas. O mundo empurra as princesas pras crianças já, é nosso trabalho mostrar outras coisas.


RESENHANDO - Como foi a experiência de apresentar Frida Khalo e "Os Saltimbancos" para crianças? 
F.T. - Foi maravilhoso, falando do Saltimbancos especificamente, em que nos apresentamos gratuitamente na favela da Maré, em colégios do subúrbio do Rio e num colégio inclusivo da Gávea, zona sul, pudemos perceber que o que falta é acesso. Interesse tem. O que falta é acesso. 


RESENHANDO - Em que a arte do passado pode contribuir para a formação das novas gerações?
F.T. - A arte do passado pode ser mais popular, mas não chega pra todos. Facilitar o acesso pode ser um dos caminhos. Não precisa do led, precisa de atores comunicando.




RESENHANDO - Você co-dirigiu o musical autoral brasileiro "Só por hoje" junto a Reiner Tenente. Quais os desafios de realizar um musical autoral no Brasil?
F.T. - Todos. Entendemos pouco do formato, temos referenciais que nos servem pouco, pois somos um povo diferente com outro acesso de formação teatral. Mas estamos num processo de, aos poucos encontrarmos a nossa cara, nosso jeito. Vejo a Barca dos Corações Partidos... tem um caminho ali muito novo e nosso de fazer. Precisamos estar mais atentos aos nossos.


RESENHANDO - Como foi trabalhar com a dupla Moeller & Botelho em "Os Salttimbancos Trapalhões" e "Be Careful It’s My Heart"?
F.T. - Foi incrível, no "Trapalhões" eu aprendi DEMAIS com estrutura que eles têm. A Tina Salles, coordenadora artística deles, me ensinou tudo que sei sobre produção artística. Calcular os erros, os tempos dos outros, ela se planeja pra tudo, é impressionante. E com uma doçura e competência, tem muito cuidado e amor ali. É lindo mesmo. Já no "Be Careful", era uma produção do Darwin Del Fabro, que dirigia e atuava também, ele sentiu a necessidade de ter alguém de fora e me chamou. Foi ótimo, lá eu aprendi a entender os meandros de uma produção pequena. Aprendi um pouco a cada trabalho. Seja nos bastidores ou em cena.


RESENHANDO - Ultimamente, você vem se destacado no cenário dos musicais. Quais trabalhos você destacaria e por quê?
F.T. - Sempre falo do "2 Filhos de Francisco" porque substituir a Laila Garin (minha atriz favorita disparado) foi tipo... surreal. O que ela deixou pra eu poder brincar já era um material inacreditável, e a equipe criativa ainda teve a generosidade de me deixar propor e criar coisas. Nunca tinha feito (profissionalmente) um papel com tantas nuances e camadas. Fazer "Chacrinha - O Musical" também foi (É? Até porque sempre volta) uma das melhores experiências que tive como atriz, eu era tudo lá, Chacrete, Clara Nunes, Wanderléa.... e feliz. Muito feliz com aquela equipe. E agora.... o "Cometa". Que é do campo do inexplicável de completude que sinto com essas pessoas, elenco, produção e equipe criativa. Isso é raro. Sou muito abençoada, tive excelentes oportunidades.




RESENHANDO - Ao dirigir e criar o espetáculo "Lugar de Fala", você manifestou sua insatisfação com o mercado de musicais.  Por que, nos tempos de hoje, essa coragem é necessária?
F.T. - Eu não estou negando o que faço quando falo da insatisfação, minha insatisfação é com o mundo que reitera papéis. Que não modifica estruturas. Eu acho muito louca a estrutura de audições, você tem alguns minutos pra dizer quem você é... é difícil demais, até pra quem faz sempre. E como não sou do time que só reclama e não faz nada pra trazer novidades, tô aqui com meu coletivo, afim de mostrar a potência de oito mulheres. Potência essa que difícilmente elas conseguem mostrar em alguns poucos minutos de audição.


RESENHANDO - Você afirma que o mercado dos musicais reforça a cultura dos perfis e estereótipos, das caixas. Por quê?

F.T. - Porque princesas e sereias são brancas, príncipes e mocinhos sarados, mulheres negras de potencial são delegadas a ficar no coro enchendo-o, e não na linha de frente, etc, etc... isso está se modificando. Coisas novas estão surgindo, é preciso equidade, é preciso criar oportunidades só pra negros sim, só pra orientais, baixos, gordinhos, trans... Já que boa parte das produções (TV, cinema, etc) entopem seus elencos com atores "no padrão",  sejamos resistência e coloquemos gente de verdade em cena.


RESENHANDO - De que maneira o feminismo e as mulheres no teatro, em seu lugar de fala, podem contribuir para um mundo melhor?

F.T. - Todos têm suas dores, mulheres, homens, pessoas... Falar sobre suas feridas abre a possibilidade da luz. "É pela ferida que a luz entra", já dizia Rumi. Pessoas de verdade falando suas verdades... não é inovador, é só um caminho.


RESENHANDO - Quais são os seus próximos projetos?

F.T. - Tenho ideias pra mais três peças com o coletivo, fora a vontade de participar de projetos lindos e construtivos como atriz. Com gente amada e criativa. Aprender com o mestre que há em todos ao meu redor. Só peço isso, sabedoria para a cada oportunidade poder olhar pro lado e aprender mais.



.: Leia também: Musical "Lugar de Escuta" debate feminismo e dor e delícia de ser mulher .:

*Helder Moraes Miranda escreve desde os seis anos e publicou um livro de poemas, "Fuga", aos 17. É bacharel em jornalismo e licenciado em Letras pela UniSantos - Universidade Católica de Santos, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura, pela USP - Universidade de São Paulo, e graduando em Pedagogia, pela Univesp - Universidade Virtual do Estado de São Paulo. Participou de várias antologias nacionais e internacionais, escreve contos, poemas e romances ainda não publicados. É editor do portal de cultura e entretenimento Resenhando.

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